A Batalha de Maldon e O Regresso de Beorhtnoth

J. R. R. Tolkien · Capítulo 14 de 17

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A Batalha de Maldon e O Regresso de Beorhtnoth

III. Aliteração em “G” em A Batalha de Maldon

III

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[Em “A Tradição da Versi cação”, Tolkien observa que “a questão da aliteração em g na poesia em inglês antigo […] não recebeu a atenção que merece”. O ensaio do qual foi retirado o seguinte excerto mostra Tolkien investigando essa questão com vigor. Quatro versões deste trabalho, provavelmente datando do início dos anos 30, encontram-se no MS. Tolkien A 30/2. O excerto incluído aqui (cuja versão começa no f. 155 do manuscrito), mais uma vez demonstra sua estima pelo poeta anônimo de Maldon.]

Verso 192: Sievers (Altgerm. Metrik, p. 41) trata o verso Godwine and Godwig guþe ne gymdon como se tivesse quatro aliterações e como um exemplo de “mangelhaft technik” [técnica defeituosa]. Na verdade, não é nada do tipo, e sim um testemunho interessante de que, quando o poema foi escrito, o g anterior e o posterior tinham divergido tanto que o ouvido se recusava a reconhecê-los como consoantes aliterantes. A poesia era escrita de ouvido, e não pela letra; mas, enquanto a ortogra a — cujos principais contornos são um produto da erudição dos séculos sétimo e oitavo — permaneceu conservadora, os sons reais da língua haviam se alterado muitíssimo.

No verso citado, os três gs iniciais, que recebem a aliteração, são gs posteriores. Um arranjo similar aparece também no verso 32: þæt ge þisne garræs mid gafole forgyldon . Este poema fragmentário contém 325 versos, e somente nesses dois casos há uma (aparente) infração da regra fundamental da poesia em inglês antigo: a de que o segundo hemistíquio deve conter apenas um fonema aliterante. Isso por si só basta para sugerir que, nesses dois versos, a regra não foi quebrada para o ouvido. Nesse período, o g anterior provavelmente deixou de ser fricativo, e já era uma semivogal, como em yet; ao passo que o g posterior certamente se tornara uma oclusiva, como em good (assim como certamente ainda não havia se tornado no período arcaico). Essa sugestão se torna certeza se examinarmos o restante dos versos. Há 23 versos no total que aliteram em g. Em todos os casos, a aliteração se dá entre 2 (ou 3) gs posteriores, ou entre 2 (ou 3) gs anteriores; em nenhum caso a aliteração é relegada apenas à mera correspondência entre letras, isto é, entre 2 gs escritos que representam sons diferentes. Só há um caso duvidoso: 100 þær ongean gramum gearowe stodon […] Mas o autor provavelmente, ou melhor, certamente, considerava nesse verso a aliteração ongean / gearowe, sem que gramum estivesse participando — a gra a com uma letra similar é acidental […].

A única e aparente exceção, assim, desaparece; e então, no único poema de um homem que dominava o metro e sua técnica a sobreviver de uma época tardia do inglês antigo, temos evidência clara da distinção cuidadosa na poesia entre os dois gs. Assim, podemos deduzir que, seja lá por quais processos as regras e a prática da aliteração foram transmitidas, isso se deu pelo ouvido, e não pelo livro […].

A técnica de poesia em inglês antigo, da forma que a conhecemos, apesar de trabalhar com metro, modo e vocabulário herdados, é uma técnica inglesa, e não germânica primitiva. É o produto dos séculos sétimo e oitavo e deve ter sido extraordinariamente el à língua do período, observando com exatidão a maioria dos departamentos da estrutura fonética consonantal e vocálica, acento e tom. Os ingleses tinham ouvidos bons e, ainda que seu verso seja a evidência mais interessante e notável disso, sua ortogra a — uma façanha, a julgar pelo período — não deve ser esquecida. Ambos são produto da mesma era de ouro. Mas é da natureza da ortogra a fossilizar-se, e do metro, alterar-se, para o bem ou para o mal, de modo que já vemos os dois em desacordo antes do nal do período anglo-saxônico, antes de o metro afundar-se em balbucios e a boa ortogra a ser subvertida por francês de má qualidade, para sua eterna confusão.

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