A Batalha de Maldon e O Regresso de Beorhtnoth
Apêndices
A
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I
“ ”
[Em “A Tradição da Versi cação em Inglês Antigo”, Tolkien faz menção à crença de que, “para os antigos poetas, o metro era uma receita independente do pudim”. O excerto abaixo, retirado de “Prosódia do Inglês Antigo” (MS. Tolkien A 30/2, ff. 6–20), expande essa metáfora culinária, fornecendo uma “receita” para a prática do verso aliterante, receita que, sem dúvida, serviu para que Tolkien compusesse novos trabalhos como O Regresso. O texto está numerado de 1 a 29, e data do início dos anos 30; a primeira de uma série de palestras sobre a Prosódia do Inglês Antigo foi ministrada nas Examination Schools em Oxford em 13 de outubro de 1932.]
A intenção desta análise é ser primariamente prática. As querelas dos metricistas, mais notórias que as dos teólogos, devem-se em grande medida à incapacidade de distinguir claramente uma teoria elaborada de ritmos de uma análise do conteúdo dos versos — dois versos no mesmo metro nunca são, é claro, exatamente idênticos desse ponto de vista — e nem, por outro lado, distingui-la de uma receita, um padrão ou esquema à disposição dos poetas, um molde no qual poderiam despejar, conforme a habilidade e o gosto, a matéria in nitamente variada de palavras.
É a receita que nós queremos, especialmente em inglês antigo, para o qual ela é uma ferramenta crítica essencial e muitíssimo valiosa. É a receita que deve existir, explícita ou inconsciente, tanto na mente do poeta quanto do público (ou do estudante) para que a habilidade ou a performance métrica seja apreciada de modo mais racional do que, digamos, o vago prazer que sentem, ao ouvir música, aqueles que ignoram a técnica musical. É a receita que deve existir para que um poeta de fato escreva versos passíveis de qualquer análise esquemática. O fato de que se pode facilmente submeter a poesia em inglês antigo a tal análise basta para provar — mesmo se as tradições nórdicas não existissem para nos apoiar — que uma receita assim existiu certa vez, mais ou menos explícita e ensinável, ainda que toda a tradição e a instrução quanto a esses assuntos (que muito provavelmente jamais foi escrita) tenha perecido sem deixar rastros na Inglaterra.
Não se prova o pudim apenas ao comê-lo, mas também ao fazê-lo ou, de toda forma, ao reproduzi-lo. Somente uma receita correta — ainda que expressa em palavras ou maneiras bem diferentes daquelas do cozinheiro original, e talvez até mesmo ininteligíveis para ele — produzirá o mesmo pudim de novo. Somente usando uma receita baseada na análise de Sievers — talvez com algumas modi cações, mas sem alterações fundamentais — é que a poesia em inglês antigo pode ser escrita: quero dizer com isso que qualquer pessoa que domine o idioma da poesia em inglês antigo pode escrever coisas novas que não sejam uma sucessão de meios-versos já disponíveis nos nossos registros (isso poderia ser feito sem qualquer conhecimento ou teoria métrica!), e que não apenas contenham alguns versos em um padrão atestado, mas também que não contenham nenhum verso em um padrão que não é atestado.
É o bastante para mostrar que, seja lá como era expressa ou inculcada, a receita dos poetas no período clássico (digamos o século oitavo) era a mesma que expressamos na nossa análise, do nosso próprio modo canhestro.
Portanto, tentaremos a nossa receita. Não vamos nos aborrecer quando gritarem que isso é “arti cial”. É claro que é! A poesia é. A língua é enormemente complexa e variada. É impossível encontrar dois grupos de palavras que sejam exatamente iguais de todos os pontos de vista que venham a ter importância métrica (todos pontos de vista fonéticos, pois a “métrica” pode levar em conta todos os aspectos da análise fonética — duração, acento, entonação, estruturas vocálica e consonantal e suas sequências etc. — ou se contentar em selecionar alguns e deixar o restante a gosto). Mas a “prosódia” — o planejamento poético — não consiste em analisar as complexidades da língua, mas em criar um padrão agradável (mais ou menos ajustado às tendências da língua, sem dúvida) e ajustar as palavras a ele. É essa interação entre a uidez e a variabilidade da língua, e a relativa rigidez do padrão, consciente e controlado, que constitui a um só tempo o talento e o prazer de se escrever e de se ouvir poesia.
Algumas receitas são extremamente simples. Isso não quer dizer que a poesia escrita com elas seja necessariamente simples ou monótona. Signi ca que, dentre as complexidades da estrutura fonética do veículo, o padrão consciente e deliberado escolheu dar atenção para apenas algumas características, ou até mesmo a um único fato saliente. Nesses casos, a prática de um poeta di cilmente pode ser depreendida por completo da simples receita. Diferentes pudins podem ser feitos a partir de ovos, farinha, manteiga e açúcar, seguindo-se diferentes receitas (e por diferentes cozinheiros). Nesses casos, contentamo-nos em dizer que isto e aquilo é o “metro”, se soubermos, por alguma razão ou outra, que tal padrão simples era tudo o que o poeta usou conscientemente e que outras partes importantes de sua prática se devem a processos menos conscientes, aos quais damos o nome de “ouvido”, ou “sensibilidade”, ou instinto. […]
A receita em inglês antigo, contudo, não é das mais simples, pois seu esquema levava em consideração quase todos os fatos fonéticos da língua e os amarrava de modo intrincado. Somente a estrutura vocálica (rima) eles
“cozinheiro” como um condimento a ser empregado de acordo com a 75 necessidade e o gosto. deixavam “sem consideração” — como parte do esquema — e era passada ao A receita do inglês antigo incluía o comprimento da
sílaba (duração), acento (altura) — do qual três graus pelo menos eram distinguidos conscientemente: primário, subordinado, atônico —, alternância no padrão rítmico nas sílabas dos versos e a aliteração nos sons de ataque (de sílabas tônicas).
Esses elementos não eram isolados, mas indissoluvelmente conectados — o acento e o comprimento só eram considerados juntos, e a aliteração era introduzida em conexão com ambos, às vezes ditada por eles, às vezes colorindo as palavras e determinando o ritmo, por assim dizer, em casos duvidosos. Essa função da aliteração é importantíssima e é frequentemente negligenciada por críticos que percebem as interligações dos nossos tipos arti cialmente isolados. Mas, para falar a verdade, enormes quantidades de meios-versos em inglês antigo são suscetíveis a análises variadas caso a aliteração seja desconhecida. Nos lugares em que o verso inteiro está disposto e a aliteração é conhecida, só em casos raros há dúvida — salvo apenas quanto à nomenclatura.
Então, não devemos esperar uma receita simples. Mas uma coisa deve ser observada: a prática do poeta era solidamente fundada nos fatos da fala natural, ainda que formal e cerimoniosa. Nela encontrava-se um guia infalível no período clássico. Foi somente depois, quando as fórmulas estabelecidas e os versos dos antigos poetas se tornaram uma convenção em desacordo com os fatos da fala é que se instaurou a confusão e a inconsistência […].
Pois ainda que o emprego deliberado do ritmo possa ser observado claramente em Beowulf, e as alterações no ritmo para diferentes propósitos, isso não faz parte da “receita”, sendo um ornamento, uma cor, ou “condimento” especialmente empregado pelo poeta […].
A poesia anglo-saxônica é inteiramente construída por blocos contrabalançados, e um padrão rítmico em comum não era alcançado, e nem objetivado. Chamarei esse princípio fundamental de peso: é o comprimento da sílaba, mas não como se mede em uma máquina […] e sim apreciado pelo ouvido e pela mente, facilmente in uenciado por elementos simultâneos, como um tom agudo, a altura, a importância real em signi cação (para o sentido) e a importância sugerida (a importância aparente atribuída às palavras pela forma, posição no verso, rima, aliteração etc. É uma tentativa constante do inglês antigo fazer coincidir a importância real e aparente, mas isso, é claro, não é sempre possível em um idioma tão traiçoeiro). O peso de um elemento poético é, na verdade, constituído em grande parte pela duração de tempo, mas colorido pela altura (acento) e signi cação. A poesia anglo-saxônica é construída como uma muralha, ou torre, de pedaços sólidos com o peso mais ou menos igual, independentes, mas cimentados pela aliteração, empilhados camada sobre camada, ou verso sobre verso. A base é a sílaba pesada e sua contraparte habitual, a sílaba leve: essa é a base verdadeira da língua. A forma mais simples de receita para um único verso, então, é esta:
2 blocos (bem independentes metricamente), cada qual consistindo em 2 elementos plenos, ou “pés”. Um pé é uma sílaba pesada — uma sílaba longa e tônica (alta, signi cante) — e uma sílaba leve concomitante — breve e átona (baixa, insigni cante). O cimento é oriundo da regra de que a primeira sílaba pesada de cada bloco deve começar com o mesmo som consonantal — que chamaremos, seguindo o costume tomado dos nórdicos, de staves.
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Nota
75 É claro que isso não signi ca que os poetas em inglês antigo desconsideravam a estrutura vocálica mais do que Milton o fazia, apesar de suas observações sobre a rima. A aliteração é um fator poderosíssimo na poesia não aliterante. O efeito de “opening on the foam / of perilous seas in faery lands forlorn” (“Ode to a Nightingale”, de Keats) deve-se mais a um padrão que lembra as leis galesas do cynghanedd, mas menos esquemático. Da mesma forma, os padrões vocálicos desempenham um papel importante em Beowulf. Há muitos casos obviamente “ecoicos”: streamas wundon / sund wið sande (212–13): bramido das ondas; mærne þeoden / hæleð hiofende, hlaford leofne (3141–2) — lamentação.
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