A Batalha de Maldon e O Regresso de Beorhtnoth

J. R. R. Tolkien · Capítulo 17 de 17

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A Batalha de Maldon e O Regresso de Beorhtnoth

VI. Provando o Pudim: O Regresso em diálogo com o Legendário

VI

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“sem o elevado e o nobre, o simples e vulgar é totalmente vil; e sem o simples e ordinário, o nobre e heroico não possui signi cado.” — J.R.R. Tolkien, em carta a Milton Waldman [Cartas, n. 131]

É de se esperar que os leitores deste livro encontrem em A Batalha de Maldon e O Regresso de Beorhtnoth algo daquele interesse “intrínseco” que Tolkien descreve em suas notas introdutórias ao poema anglo-saxão. Mas muitos desejarão, inevitável e compreensivelmente, explorar também sua importância “acidental”, perguntando-se que luz os trabalhos de Tolkien com Maldon jogam em O Senhor dos Anéis e no legendário. Como penso que essa é uma boa pergunta, e honestamente considero-me um desses leitores, dedico essas páginas nais para tal investigação.

O próprio Tolkien indicou que tal inquirição poderia render frutos. Em uma carta para Anne Barret da Houghton Mifflin, em 1964, ele a rma que “por algum tempo pensei vagamente na reimpressão conjunta de três coisas que [...] realmente con uem”, colocando O Regresso junto de “Beowulf: e Monsters and the Critics” e “Sobre Estórias de Fadas” — dois textos frequentemente vistos como as fundações críticas de qualquer estudo importante da obra de Tolkien (Cartas, n. 259). Mais incisivamente ainda, ele certa vez observou para Rayner Unwin que O Regresso é “muito pertinente para a divisão geral de a nidade demonstrada em O Senhor dos Anéis” (Chronology, p. 696).

Ainda que O Regresso talvez não tenha exatamente monopolizado a atenção de Tolkien por vários anos consecutivos, seu longo e robusto processo de desenvolvimento — que quase sobrenaturalmente acompanha a publicação de suas obras de cção mais importantes — também sugere que raramente estava muito longe do seu pensamento. Rascunhos antigos dividem a folha de papel

É

com sua arte e com versos como os de “Errantry” (ver a Introdução). É difícil dizer em que pé estava o trabalho em O Regresso no início dos anos de 1930, mas ele certamente havia começado muito antes de 1937, quando foram publicados tanto O Hobbit quanto a edição de E.V. Gordon de A Batalha de Maldon . Quinze anos depois, Tolkien escreveria euforicamente a um certo Sr. Burns sobre duas publicações no prelo:

Também quei sabendo que foram aceitos um diálogo dramático em verso aliterante de verdade (de estilos variados) sobre cavalheirismo e bom senso (na boca de dois anglo-saxões ctícios) e, mais notável, um “romance” de pelo menos 500.000 palavras: exultação. (Chronology, p. 414)

Quando O Regresso nalmente apareceu, no volume de 1953 de Essays and Studies , apenas nove meses se passaram até a publicação de A Sociedade do Anel, em julho de 1954.

Super cialmente, O Regresso poderia parecer um prelúdio estranho para O Senhor dos Anéis, mesmo que este seja, resumindo da forma mais simples, a história de dois companheiros comuns viajando por lugares apavorantes em uma demanda difícil. Ainda que uma análise assim super cial tenha claras limitações, não é um ponto de partida ruim. Precisamos apenas reconhecer que as descobertas feitas nesse nível podem representar — tomando emprestada a metáfora culinária que atravessa os estudos de Tolkien sobre a versi cação anglo-saxônica — não tanto a “receita” essencial, mas os “condimentos” triviais.

O motivo da demanda que Tolkien achava tão valioso pode ser importante, mas não devemos nos esquecer da jornada de volta. Quando, em 1961, ironizou a ignorância do tradutor sueco de O Senhor dos Anéis quanto a Beorhtnoth e o poema que escrevera — “Voltar para casa morto e sem cabeça (como o fez Beorhtnoth) não é muito prazeroso.” [Cartas, n. 229] —, Tolkien já seria capaz de lembrar mais que uns poucos regressos complicados em suas histórias. “Mas nem correntes nem barras podem impedir o retorno ao lar profetizado outrora”, a rma orin (prematuramente) aos homens da Cidade-do-lago em O Hobbit. Ainda que as profecias de outrora, como Bilbo observa depois, de certa forma acabem mesmo se concretizando, orin não está lá para desfrutar. O próprio Bilbo escapa com certa facilidade; ao contrário de Beorhtnoth, a morte de Bilbo é apenas “Presumida”, e ele retorna a tempo de evitar o leilão da sua toca e da maior parte dos seus bens, embora se diga que “o incômodo do ponto de vista legal […] durou anos”. O regresso de Frodo ao Condado em O Senhor dos Anéis é um tanto mais lúgubre. Logo após a miraculosa conclusão de sua demanda ao Monte da Perdição, ele de ne o Condado ocupado pelos ru ões com trágica concisão: “Sim, isto é Mordor”. E, embora os companheiros consigam colocar ordem nas coisas, Frodo logo “afastou-se discretamente de todas as ocorrências do Condado, e Sam cou condoído de perceber quão pouca honra Frodo tinha em seu próprio país”. Túrin, o herói trágico de Os Filhos de Húrin, é o que está na pior situação. Ao regressar para a casa de sua mãe em Dor-lómin, com seu trabalho (e o de Morgoth) ainda incompleto, Túrin nalmente alcança “a casa que buscava. Erguia-se vazia e escura, e nenhum ser vivo morava perto dela”. A mãe e a irmã por quem procurava tinham partido há muito tempo.

Isso, é claro, pode ser simplesmente um “condimento”. Se estivermos buscando a receita — descobrir se há alguma conexão essencial entre essas obras, podemos olhar as questões postas em O Regresso. A guerra é romântica ou mero desbaratamento? Como a guerra e o esporte podem ser fundidos ou confundidos? O que faz um herói ser o que é? O que o motiva? De que serve o espírito heroico do Norte? Tais questões são exploradas ao longo de todo o legendário de Tolkien.

O drama em verso lança sobre elas um olhar severo desde o começo. Seja lá quais ações inquietantes e feitos valentes tenham ocorrido, caram no passado. Encontramo-nos na posição de Totta: sozinhos com os mortos na escuridão. A cena sinistra de um campo de batalha devastado torna-se comovente e perturbadora nas mãos de Tolkien e, às vezes, sua atenção parece passar mais tempo e ser mais vívida ali do que nas grandes batalhas em si. A última defesa diante do Portão Negro dissolve-se aos olhos quase antes de começar, com Pippin esmagado sob o peso de um trol; mas Gimli depois descreve a busca pelo amigo — “o aspecto de um pé de hobbit, mesmo que só ele esteja visível embaixo de uma pilha de corpos” — e o esforço para tirar “aquela grande carcaça” de cima dele. Não temos um relato exato da Batalha de Dagorlad, mas conhecemos os Pântanos Mortos, e como!

Vemos repetidamente a ligação desconfortável entre a guerra e o esporte: desde as origens do golfe em O Hobbit até a competição amistosa entre Gimli e Legolas para ver quem matava mais Orques no Abismo de Helm. Quando, em Moria, Frodo arranca sangue pela primeira vez com Ferroada, Aragorn grita encorajamentos — “Um para o Condado!” — como se estivesse marcando os pontos no placar. Assim como a o espírito esportivo da decisão de Beorhtnoth, o fascínio e o perigo de se confundir os dois estão sempre por perto. Faramir chega a descrever o declínio de Gondor nestes termos: seu povo, lamenta para Frodo e Sam, agora ama “a guerra e a valentia como coisas boas em si, ao mesmo tempo entretenimento e m”. Temos a sensação de que tal declínio estava tomando forma há muito tempo, encorajado por aqueles de quem se poderia esperar melhor exemplo. Nos Apêndices, camos sabendo sobre o breve reinado de Eärnur, último rei de Gondor, quase mil anos antes de Aragorn e o retorno do rei.

Era homem de corpo vigoroso e humor in amado; mas não tomou esposa, pois seu único prazer estava no combate ou no exercício das armas. Sua proeza era tanta que ninguém em Gondor era capaz de enfrentá-lo nos jogos de armas, em que se deleitava, parecendo mais um campeão que um capitão ou rei.

Sem suportar o escárnio do Rei-bruxo, cavalgou com uma “pequena escolta” para enfrentar seu adversário em um duelo imprudente diante de Minas Morgul, e dele “jamais se ouviu falar outra vez”, tendo assim início, desnecessariamente, a era dos Regentes.

Em sua conversa com Frodo acerca dos grandes contos e da vasta teia de histórias junto às Escadarias de Cirith Ungol, Sam também observa essa confusão na natureza das histórias de aventura: “Eu costumava pensar que eram coisas que a gente maravilhosa das histórias saía para procurar porque queriam elas, porque elas eram emocionantes, e a vida era um pouquinho tediosa, uma espécie de esporte, poderíamos dizer”. Sua percepção indica o golfo que separa os atores de um drama e seu público, e as questões morais que se colocam. Pela perspectiva do público, quanto mais medonhos os apuros, melhor é a história. Como Sam coloca, deixando de lado seu desgosto, “o próprio Gollum poderia ser bom numa história”.

A crítica à conduta de Beorhtnoth em “Ofermod” desviou a conversa sobre A Batalha de Maldon da noção preestabelecida acerca da qualidade puramente heroica do poema e sua celebração dos laços que o historiador romano Tácito chama de comitatus: o grupo de vassalos leais a um senhor até a morte na batalha. E, no entanto, apesar de reprovar a conduta de Beorhtnoth, Tolkien é inequívoco em sua admiração pelo “magní co” heroísmo daqueles que escolhem sacri car a vida por amor e lealdade. Assim como Tída e Totta fazem louvores a homens valentes como Ælfwine e Offa em 991, o motivo do comitatus é expresso de forma comovente nos relatos de guerra do legendário. Quando éoden cai de Snawmana nos Campos de Pelennor e o Senhor dos Nazgûl chega para tripudiar sobre a vítima, o rei não estava “totalmente abandonado”, mesmo que “os cavaleiros de sua casa [jazessem] abatidos ao seu redor”. Éowyn ainda se postava entre eles, destemida, e é ela quem dá m à monstruosa montaria alada do Nazgûl. Merry também lembra seus votos — “Homem do Rei!” —, mesmo paralisado de medo; “sua vontade não deu resposta” até que, vendo o exemplo de Éowyn, sua “coragem lentamente nutrida” despertou e, juntos, contra todas as probabilidades, a lealdade deles a éoden (junto com suas lâminas) assegura que a voz do Senhor dos Nazgûl “nunca mais [fosse] ouvida naquela era do mundo”.

O vínculo do comitatus frequentemente se sobrepõe aos laços familiares, como no caso de Éomer e éoden. A relação entre tio e sobrinho — lho da irmã —, observa Tolkien, é de particular importância histórica e lendária. Lembramo-nos de que orin Escudo-de-carvalho não é o único Anão a cair na Batalha dos Cinco Exércitos. Os jovens Fili e Kili juntam-se a ele: “tinham tombado a defendê-lo com escudo e corpo, pois era o irmão mais velho da mãe deles”.

Tal conduta parece profundamente entranhada nas culturas da Terra-média. Isso ca visível na icônica cena em que Gandalf defende a ponte de Khazad-dûm contra o Balrog, ordenando que o resto da sociedade fuja. A semelhança da cena com A Batalha de Maldon já foi discutida por acadêmicos; Alexander M. Bruce a rma que é um tipo de correção da atitude de Beorhtnoth na rampa. Aqui, Aragorn e Boromir relutam tanto em sair do lado do líder com o combate tão próximo que chegam a ser desobedientes: eles “não obedeceram ao comando, mas ainda mantiveram suas posições”. Erguem-se os gritos de batalha e eles se apressam para ajudar o mago, e somente após ele repetir o comando — “Correi, tolos!” — e cair no abismo, eles relutantemente obedecem e Aragorn passa a liderar a companhia na fuga desesperada de Moria.

Em alguma medida, talvez esses dois preferissem se engal nhar com o Balrog, e até mesmo cair junto com Gandalf, expressando o espírito heroico do Norte, a doutrina de resistência malfadada sintetizada em A Batalha de Maldon por Beorhtwold, velho membro do comitatus. Desde o primeiro colóquio entre os dois no Conselho de Elrond, quase um episódio de desa o, como num repente, a con ança sombria de Aragorn de que irá “[por] à prova algum dia” a sua espada e seus nervos ecoa, como observa Tom Shippey, a comovente fala de Ælfwine em Maldon: “Que agora se ponha à prova quem é bravo”.

Quer ligados por vínculos de lealdade ou dever para com uma missão, quer pelo desejo mesclado de, no mínimo, fazer render uma boa canção, essa crença desesperada é expressa ao longo de todo O Senhor dos Anéis. Durante o período em que esteve Portador-do-Anel, Sam é de fato descrito em termos que muito claramente ecoam a famosa expressão de Beorhtwold: quando Frodo, que se presume estar morto, é levado pelos Orques, o “cansaço [de Sam] era crescente, mas sua vontade estava tanto mais vigorosa”. E, nos esforços nais rumo ao Monte da Perdição, ele se vê transformado:

Mas, mesmo enquanto a esperança morria em Sam, ou parecia morrer, ela se transformava em uma nova força. O singelo rosto de hobbit de Sam tornou-se severo, quase sisudo, à medida que a vontade se endurecia nele, e sentia todos os seus membros atravessados por uma excitação, como se estivesse se transformando em uma criatura de pedra e aço que nem o desespero, nem a exaustão, nem in ndáveis milhas áridas podiam subjugar.

Esses ingredientes compartilhados não se restringem, absolutamente, a O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Maldon espia pela tradição da morte de Isildur, conforme relata a narrativa tardia “O Desastre dos Campos de Lis”. O rei encontra seu m nas águas fatais do rio Anduin. Quanto aos cavaleiros da “seleta escolta” de Isildur, mesmo sua poderosa parede de escudos não consegue rechaçar a força mais numerosa de Orques, e “não demorou muito para que estivessem todos mortos, à exceção de um”. É provavelmente na saga de Túrin Turambar que os ingredientes estão mais visíveis, como sugeriu Richard C. West em seu estudo do ofermod no longo desenvolvimento do conto. Túrin foi criado dentro de tradições aristocráticas muito parecidas com as de Beorhtnoth e Torhthelm; seu cânone pessoal incluiria, entre outras lendas, os contos recentes de malfadada resistência contra Morgoth, como o duelo de Fingol n ou a última defesa do seu próprio pai na Batalha das Lágrimas Inumeráveis. Túrin dedica sua vida breve e infeliz a reparar os malfeitos cometidos por Morgoth contra sua família. Enquanto a esperança — por paz, família ou vitória — se desvanece, sua soberba não. E essa soberba, combinada à maldição de Morgoth, leva-o de um desastre a outro. Assim, ele se dedica completamente ao jogo da guerra, no qual é bastante hábil — sua proeza com espada e escudo é praticamente inigualável. Em Nargothrond, rejeita até mesmo os Valar, e o código de Beorhtwold de resistência condenada — em que a derrota, embora inevitável, não serve de argumento — torna-se quase uma religião para Túrin. Ele procura imitar o pai, que, ao desa ar Morgoth, realizou um “grande feito” que a morte não pode desfazer, pois está “escrito na história de Arda”. Com tamanha soberba, chega até mesmo a ultrapassar Beorhtnoth: ele constrói a ponte — e, depois, recusa-se a derrubá-la — que logo auxilia os inimigos no saque e na ruína de Nargothrond.

De fato, Túrin acaba sendo autor de um dos feitos mais audazes de todas as Eras; será (vagamente) lembrado até mesmo no nal da Terceira Era por matar Glaurung: o herói prototípico, o primeiro matador-de-dragão. Será que ele aprende a lição no confronto nal com Glaurung, trazendo companheiros voluntários (mesmo que, no nal, tenham desistido ou tombado), optando por uma abordagem taticamente sagaz em vez de um ataque frontal? Seus malfeitos são redimidos por essa façanha? Será que Tolkien busca recompensar sua resistência por meio da estranha profecia de Mandos e do papel que há de desempenhar na Dagor Dagorath, no m do mundo? Seu legado, assim como o de Beorhtnoth, é aberto a interpretações. E, embora Tolkien tenha escrito e reescrito a história de Túrin, em maior ou menor extensão, em verso e em prosa, é importante lembrar que o material que jaz na fonte foi intencionalmente retido, como se perdido no tempo. Um texto-primigênio, o Narn i Chîn Húrin não é, como Maldon, o fragmento que sobreviveu de um poeta perdido, mas o poema perdido de um poeta conhecido, chamado Dírhavel. A rma-se que a forma em verso desse conto perdido no mínimo lembrava de algumas maneiras a métrica aliterante do inglês antigo, na qual Maldon foi escrito e com a qual Tolkien certa vez experimentou escrever a história de Túrin, projeto que abandonou nos anos de 1920, ainda que também tenha dado origem ao que foi chamado de “A primeira versão de O Silmarillion ”.

É

É pouco surpreendente que O Regresso e o legendário compartilhem um ingrediente essencial, essa preocupação com os frutos da guerra e a ética do combate, mas, se quisermos a receita em si, devemos também considerar como esses ingredientes são incorporados no modo de fazer. Encontramos aqui uma ligação que não recebeu tanta atenção: pode-se dizer que uma grande parte de O Senhor dos Anéis segue o mesmo esquema dialógico de O Regresso.

Em última análise, o debate de Tída e Totta transcende Beorhtnoth e a rampa, e suas perspectivas acabam representando um contraste quixotesco entre fantasia e realidade, romance e realismo. Tais perspectivas são frequentemente contrastadas nas histórias de Tolkien. De fato, é difícil não pensar em Maldon quando Bilbo diz, em O Hobbit, que, tendo ouvido “canções sobre muitas batalhas”, ele “sempre [entendeu] que a derrota pode ser gloriosa”. Bilbo se esforça para ajustar essa visão à sua própria experiência depois de ir parar numa batalha assim — “parece muito desconfortável, para não dizer desanimadora”. E, no entanto, mesmo esse Hobbit realista admite que se sentiu “esplêndido” usando uma espada da lenda de Gondolin; e, embora aquela batalha tenha sido “a mais horrenda de todas as experiências de Bilbo e a que na época ele mais odiou”, paradoxalmente, era também “dela que ele tinha mais orgulho e mais gostava de recordar muito tempo depois”.

Em O Senhor dos Anéis, porém, essas perspectivas são assadas junto da estrutura essencial da história: assim como as vozes de Tída e Totta, elas se alternam em tensão do Livro III ao Livro VI. Com a partida de Boromir (outra

gura que já foi comparada a Beorhtnoth) no início de As Duas Torres, a

sociedade se dispersa, e a simples narrativa de uma demanda é cindida, permitindo que Tolkien exiba sua considerável aptidão na técnica de entrelaçamento do romance medieval. Os muitos enredos convergindo e divergindo às vezes podem ser desorientadores, mas Tolkien resumiu os “dois ramos principais” assim: “1. Ação Primária, os Portadores-do-Anel. 2. Ação Subsidiária, o resto da Comitiva que leva à questão ‘heroica’” [Cartas, n. 210]. Nesse último, que vai do Livro III ao V, vemos o retorno milagroso de Gandalf como Cavaleiro Branco, a magia antiga da Floresta de Fangorn, a derrocada do mago Saruman e seus Uruk-hai e nossos heróis trilhando as Sendas dos Mortos e cavalgando para romper o cerco de Gondor. Embora a narrativa permaneça hobbitocêntrica e Merry e Pippin sejam nossos pontos focais elementares, temos uma aventura que toca as raias do esporte: oferecem suas espadas e tornam-se cavaleiros de reis e grandes senhores, desfrutam dos espólios de guerra em meio aos destroços de Isengard, ou cavalgam como o vento em Scadufax, com Gandalf nas rédeas.

Por outro lado, a jornada dos Portadores-do-Anel narrada no Livro IV e nos primeiros capítulos do Livro VI é de natureza diferente. Conforme Frodo e Sam se arrastam (vagamente) rumo a um destino que mal conseguem discernir, não são conduzidos pelos Sábios ou pelo Rei que retorna, mas pelo miserável Gollum. Vestem-se com trapos de Orques para não serem notados; os campos de batalha que atravessam são de milhares de anos atrás (embora os alagados enlameados não pareçam menos ameaçadores por isso), e coisas como comida, água limpa, ou uma hora de descanso tornam-se os mais raros dos luxos. O contraste entre as experiências vividas pelos Hobbits, se já não era óbvio, ca nítido com alguma re exão. Encontrando-se novamente, a nal, nos limites do Condado, Merry compara sua aventura a um “sonho que desapareceu devagar”. Mas, para Frodo, a volta para casa dá “mais a sensação de adormecer outra vez”.

Portanto, quando Tolkien escreveu que O Regresso re etia a “divisão geral de a nidade demonstrada em O Senhor dos Anéis”, estava falando sério. A palavra-chave é “divisão”, pois ela captura tanto a estrutura essencial da narrativa quanto as tensões entre os dois ramos. As resenhas de C.S. Lewis da grande obra do amigo louvavam essa “invenção estrutural da mais alta ordem”, deleitando-se com a habilidade de Tolkien em localizar um “ponto médio tranquilo entre a ilusão e a desilusão”. Embora se possa dizer que Tolkien parece ocupar mais as bordas do que esse centro tranquilo, ambos os textos mostram mesmo um tipo de síntese em resolução. A matéria heroica dos Capitães do Oeste e sua última defesa diante do Portão Negro é, evidentemente, algo secundário, seja lá quantos heróis ostentem em suas

leiras. E, contudo, essa exibição desesperada — mesmo que não

completamente desesperançada — de resistência malfadada ainda tem um papel a desempenhar para que a demanda tenha sucesso. Pois Sauron se distrai, e não percebe os dois Hobbits e seu astuto guia se arrastando para as Fendas da Perdição até que seja tarde demais. Talvez sua cabeça também estivesse cheia de antigas baladas acerca de brilhantes espadas e rostos régios. Igualmente, o resgate do corpo de Beorhtnoth requer a cooperação de Tída e Totta. Sem Tída, talvez ainda encontrássemos Totta batendo os dentes no meio dos mortos. Por outro lado, sem o vigor e o olhar aguçado de Totta, Tída certamente teria tropeçado na beira do Blackwater.

Falei um tanto sobre os ingredientes e o modo de fazer, mas, como Tolkien nos lembra em sua outra grande metáfora culinária em “Sobre Estórias de Fadas”, “não devemos esquecer totalmente os Cozinheiros”. Por trás do diálogo dramático em O Regresso, há a busca de Tolkien pelo poeta perdido de Maldon: a jornada aterrorizante de Totta pelo campo de batalha, sua longa conversa com Tída e seu misterioso sonho servem de gênese imaginativa para o poema mais velho, o último fragmento sobrevivente do cancioneiro em inglês antigo. Totta, portanto, junta-se a guras como Dírhavel, Bilbo e Frodo — a longa linhagem de contadores de histórias que povoou e (dizem) produziu as histórias de Tolkien. As escritas rúnicas que adornam a sobrecapa de O Hobbit e O Senhor dos Anéis identi cam Tolkien somente como compilador ou tradutor dessas obras antigas, o último elo do tipo nas longas correntes de transmissão que ele explora em “A Tradição da Versi cação em Inglês Antigo”. O Regresso e O Senhor dos Anéis são, no m, histórias sobre histórias. São os poetas — os cozinheiros — que carregam o pesado fardo de preservar o fato e a

cção, a história e a lenda. Nossa compreensão tardia é muito in uenciada pela

forma que eles dão aos seus poemas e histórias.

E, no m, ela está nas mãos do leitor, cuja liberdade Tolkien se esforça para defender. Podemos ouvir o pranto no arpejo d’harpa? Será que damos ouvidos ao apelo da voz no escuro, pedindo que escutemos por um momento? Pode-se dizer que provamos o pudim durante a leitura.

Quando Totta lamenta que “as cantigas morrem e o mundo decai”, lembra-nos de certa forma da lição de Barbárvore, depois de contar a Merry e Pippin a triste história das Entesposas: “as canções, como as árvores, só dão fruto em seu próprio tempo e ao seu próprio modo: e às vezes murcham antes do tempo”. Podemos ser gratos pelos poetas como Totta e pela sobrevivência improvavelmente fortuita das palavras deles, conspirando para nos legar o fragmento de Maldon e o código inesquecível de Beorhtwold, e ajudando, no

m, a gerar O Regresso de Beorhtnoth e O Senhor dos Anéis também.

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