A Batalha de Maldon e O Regresso de Beorhtnoth

J. R. R. Tolkien · Capítulo 16 de 17

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A Batalha de Maldon e O Regresso de Beorhtnoth

V. Desenvolvimentos Notáveis nos Rascunhos de O Regresso

V

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 O REGRESSO

 

[O Regresso passou por muitas guinadas e reviravoltas fascinantes nos seus vinte anos de desenvolvimento, desde os mais antigos fragmentos de diálogo rimado até o drama aliterante esmeradamente harmônico com mais de 350 versos. Deixo documentadas abaixo algumas das mais notáveis dessas revisões, focando naquelas que têm relevância para os temas e episódios mais críticos do drama. Cada uma das quatro seções começa com meu próprio comentário antes de seguir o rastro das alterações signi cativas nos manuscritos (seguindo a classi cação de Honegger e a paginação da Biblioteca Bodleiana).]

A BRIGA

O que seria de um drama, ainda mais uma “sequência” da Batalha de Maldon, sem algum choque de armas? Contudo, no modo irônico de O Regresso, a emoção da batalha, até mesmo para Totta, dura pouco, dando lugar à confusão, ao embaraço e à vergonha quando se descobre que os seus oponentes não são guerreiros vikings destruidores, mas uns desgraçados locais e ladrões mesquinhos — mais ao estilo de Gollum do que de Grendel. Os rascunhos mostram Tolkien esforçando-se no aperfeiçoamento da descoberta da espada de Beorhtnoth, seu uso ignóbil e a inspiração para a “piada com duplo sentido” em Maldon.

Versão α:

Este fragmento antigo começa com Pudda (> Totta): “Vamos logo! Deve haver outros por perto / da corja pirata” (A Traição de Isengard, cap. 5, nota 10). Presume-se que a briga já ocorreu fora do palco, embora muitos elementos da obra nal já estejam presentes: Pudda confunde os oponentes com homens do Norte e Tibba (> Tída) o corrige; um terceiro ladrão de corpos é avistado depois, e Tibba descarta qualquer ameaça.

Versão A:

No rascunho na Bodleiana assinalado como a cópia mais antiga, é Tudda (Tída) quem descobre a famosa espada de Beorhtnoth: “A espada ali no meio”. Quando Totta detecta os intrusos, Tudda age imediatamente, incitando seu companheiro a pegar em armas: “Sus! Ataque! Espada em mão! / — Ora, pegue alguma caída no chão!” (MS. Tolkien 5, ff. 2–3).

A reação de Tudda com o resultado da briga é também muito diferente neste ponto: ‘Por Deus do céu, Totta, este eu abati. / Esse morreu? Co’a espada d’ouro? Ligeiro / achou o melhor espólio do campo inteiro’. Assim como na versão nal, Tudda corrige a impressão errada de Totta de que os oponentes eram nortistas, identi cando-os como “ladrões de corpos”.

Versão B:

A indicação cênica esmaecida, a lápis, vem depois da convocação de Tudda às armas, sugerindo que os ladrões que se aproximam con guram uma ameaça real: “Dois homens surgem por trás com espadas no escuro” (ff. 6–7).

Versão C:

Aqui, Tudda de fato pega a espada de Beorhtnoth na refrega: “Por Deus do céu, Totta. Este aqui abati / co’a espada do mestre!” (f. 10v).

Versão D:

Ver Apêndice IV. A ação, embora ainda seja narrada em rima, começa a se assemelhar à forma nal. Totta assume o papel de descobridor da espada; Tudda dá o aviso e encoraja seu companheiro inicialmente; Totta exulta com seu feito e a piada sinistra é atribuída a ele; Tudda o repreende por usar a espada assim.

Versão E:

Tudda repreende Totta nessa primeira versão aliterante do drama: “Que delírio, Totta. Limpe-a agora, / tal arma foi feita para usos melhores” (f. 26).

Versão H:

“Ahá! Tome isso então! Tída, veja! / Matei este aqui. Não rasteja mais: / não esperava uma espada topar tão cedo; / mas foi bem na fuça. De fato, é um tesouro, / o melhor espólio da disputa inteira!” (f. 68v).

NA RAMPA

No texto publicado, quando os exaustos Tída e Totta chegam à rampa, levando o corpo decapitado do mestre de volta para a cena do crime, por assim dizer, eles param para re etir. De todos os episódios no drama, este é o mais claramente conectado ao argumento em “Ofermod” — e poder-se-ia dizer plausivelmente que inspirou o ensaio tanto quanto o próprio poema Maldon. O confuso Totta se pergunta por que os ingleses parecem não ter tirado vantagem da posição estratégica; Tída responde com o boato que corria na cidade pela manhã, e fala da censura quanto ao erro fatal de Beorhtnoth. Totta não nega a acusação, embora responda com uma canção que ecoa a Crônica de Brunanburh , e celebra a queda de Beorhtnoth. Ainda que desde muito cedo haja alguma alusão a esse ponto de virada fatal da batalha, a cena passou por grande desenvolvimento nos rascunhos.

Versão α:

Pudda (> Totta) pergunta: “Como de repente / Tomaram a ponte? Há aqui pouco rasto / De luta. Mas na água um número vasto / Devia haver, só que aqui no tabuão / Há um só.” Tibba (> Tída) responde apenas: “Bom, a Deus nossa gratidão” (A Traição de Isengard, cap. 5, nota 10).

Versão C:

Aqui, Tudda (> Tída) coloca a questão, e é Totta quem dá as más notícias: “O que diz a cidade inteira, / é que foi graças a ele. Ai de nós! / Soberbo e audaz demais. Foi-se veloz. / Relevemos: seu grão cor o enganou. / Deixou-os passar; desa ou-os; tombou. / Último lho dos homens que os cais / deixaram, contam-nos livros e lais, […]” (f. 11)

Versão E:

Totta novamente ca se perguntando: “Que estranho, sabe / como eles passaram assim pela rampa, / ou abriram caminho sem muita luta? / Sinais de batalha restaram poucos”. Tudda responde: “Ai, Totta, amigo, do mestre é a culpa / ou em Maldon, hoje, é o que muitos diziam. / Demasiado soberbo,

À

tombou o mestre / Perdoemos o engano que o orgulho causou. / À hoste deu passagem, tão sôfrego estava / por repetir façanhas dos antepassados / e co’as próprias mãos o inimigo abater / dando aos poetas grandiosas canções. / Da sina zombou e assim pereceu” (f. 27).

Versão H:

Aqui o texto alcança essencialmente a forma nal, com a crítica de Tudda (“nobreza insensata” etc.) feita em correções com caneta azul (f. 69v).

O SONHO DE TOTTA

Neste que é talvez o episódio mais icônico do drama, Totta cochila na carroça depois de sua a itiva jornada, tendo “de almofada o corpo” de Beorhtnoth pela longa estrada até a abadia de Ely. Ele sonha primeiro com a missa fúnebre do seu senhor, mas as luzes das velas na missa logo são sufocadas pela visão sombria e sinistra do movimento inexorável do tempo. A cena muda na segunda parte do sonho, e move-se não para frente, mas para trás no tempo e, no salão iluminado, ele se junta ao canto, entoando a crença de desesperada coragem de Beorhtwold, os dois versos mais famosos (ainda por serem escritos) de toda a poesia anglo-saxônica. As duas fases do sonho de Totta já aparecem nos rascunhos antigos, mas Tolkien parece estar em con ito ao decidir se (e como) deve integrar a fala icônica de Beorhtwold.

Versão A:

Totta, dormitando na carroça, começa a descrever uma visão do enterro de Beorhtnoth e a lenta ruína do tempo: “Em Ely, há Missa, círio e cantochão / antes do enterro. Os dias passarão, / e homens; damas choram em Angelcynn; / vêm novos dias; seu túmulo, assim, / passa extinguir-se, e seus parentes […]. As velas se apagam logo! […]”. A visão onírica então muda: “Ouço-as sim — palavras boas e audazes. / Belas palavras, scop! Sei que ninguém / esquecerá por eras e eras…”. O sonho é então interrompido pelo mesmo solavanco da versão

nal: “Hein? / Tromba e chacoalha! Tudda, é o que eu lhe digo, / nos dias de

Æthelred, a estrada é um perigo!” (f. 4).

Versão C:

As palavras boas e audazes que cam apenas implícitas nos rascunhos mais antigos são explicitamente inseridas aqui, com uma “voz solene” declamando dentro do sonho: “Hige sceal þe heardra, heorte þe cenre, mod sceal þe mare þe ure mægen lytlað ” (f. 12).

Versão D:

Ver Apêndice IV. A súplica por uma luz con gura a transição entre as duas fases do sonho.

Versão E:

Neste primeiro rascunho aliterante, a visão chega quase à forma nal, com a expressão em inglês antigo sendo vertida para o inglês moderno e estendida por mais três versos: “Coração mais elevado, mais severo o propósito, / mais austera a vontade se hesitar nossa força! / Mente que não teme nem muda o ânimo; / quando atroz é a sina, e a treva vence, / se o corpo fracassa, acorda uma chama!” (f. 29).

Se, no texto nal, é Totta que entoa os versos (ainda que em sonho), Tolkien considerou outras apresentações. Um trecho riscado aqui esclarece a atribuição: “Uma voz grave, nem de Totta e nem de Tudda, diz lentamente”. Uma nota a lápis sugere que Tolkien ainda não tinha decidido se citava os versos do poema antigo ou se vertia na voz de Totta. A tradução do código heroico é, ainda outra vez, diferente: “Mente que não teme nem muda o ânimo, / não estremece a vontade se o mundo se abala / e o corpo fracassa. Não acaba a chama”. Totta então acrescenta: “São belas palavras. Embota-se o canto, / mas perdura a palavra, té o ndar do mundo!” (f. 30).

Versão K:

Tolkien parece ter feito testes com a versão de Totta para esses versos até o m: mesmo aqui, no datiloscrito enviado aos editores, correções marginais foram necessárias para que se atingisse a forma publicada (f. 111).

O POETA DE MALDON

Às vezes passa despercebida a sugestão — e suas implicações relacionadas — de que o jovem Torhthelm, “ lho de menestrel”, pode muito bem ser o poeta incipiente de Maldon, conforme imaginado por Tolkien. Da mesma forma que o leitor de primeira viagem de O Senhor dos Anéis, ávido por um romance heroico, mas com pouco apetite para prólogo e apêndices, talvez preste pouca atenção ao conceito do Livro Vermelho do Marco Ocidental e ao papel que Bilbo, Frodo e Sam têm na própria escrita do conto, igualmente se pode escusar o leitor de O Regresso por não considerá-lo nada além de uma coda dramática à batalha. Ainda que algum indício do papel de Totta como poeta permaneça no texto nal, Tolkien testou, mas, no m, abandonou uma designação explícita de Totta como sendo o futuro poeta.

Versão C:

Na cena introdutória, Tolkien descreve Totta como “um jovem cavalariço”, mas isso foi riscado e substituído por “o lho do menestrel, um jovem” (f. 9).

Versão D:

No canto superior esquerdo da página que abre o drama em verso, bem fraco e a lápis, Tolkien escreveu: “Imagina-se, é claro, que Totta posteriormente compôs o poema que sobreviveu, a partir do que ouviu falar” (f. 16). Essa é a última cópia que resta do poema em rimas.

Versão H:

“Para os propósitos desse poema moderno, sugere-se que, quando o corpo do duque já foi levado para o túmulo em Ely, Torhthelm (Totta) posteriormente compõe o poema A Batalha de Maldon: a partir daquilo que ele mesmo sabe, de relatos dos sobreviventes, da imaginação e da tradição épica — o último fragmento a sobreviver do antigo cancioneiro heroico inglês” (f. 63v). Esse trecho, junto com outros rascunhos da nota introdutória, “A Morte de Beorhtnoth”, foi riscado.

Em outro rascunho de “A Morte de Beorhtnoth”, uma nota de rodapé à observação de Tolkien sobre a originalidade dos famosos versos de Beorhtwold diz o seguinte: “Supõe-se aqui que Totta tornou-se, posteriormente, o autor do poema cujo fragmento sobrevive. Baseia-se (nessa teoria) em parte nos relatos de sobreviventes, e em parte na imaginação e na tradição épica” (f. 65v). A página inteira foi riscada.

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