A Batalha de Maldon e O Regresso de Beorhtnoth

J. R. R. Tolkien · Capítulo 10 de 17

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A Batalha de Maldon e O Regresso de Beorhtnoth

Notas

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[Além do material acima, Tolkien também escreveu um conjunto substancial de notas sobre o

poema, organizadas pelo número do verso (Bodleiana MS. Tolkien 30/2, ff. 84–123). A seleção

limitada de notas aqui apresentadas ressalta a abrangência do interesse de Tolkien na história, na

língua e na narrativa do poema, ainda que muitos detalhes linguísticos técnicos tenham sido

omitidos. Para orientar melhor o leitor, e conforme a prática de Christopher Tolkien em Beowulf: A

Translation and Commentary, o número do verso e o texto em inglês antigo em questão seguem a

porção correspondente da tradução.]

o nobre [não toleraria covardia]; 6 se eorl Aparentemente usado apenas para Byrhtnoð neste poema. Originalmente, eorl era usado para alguém de sangue nobre, mas não necessariamente de alguma posição superior ou distinta. Na antiga poesia heroica (aristocrática), é praticamente sinônimo de homem crescido e capaz de lutar. Na Escandinávia, a mesma palavra ganhou intensidade, e signi cava chefe ou homem local poderoso, de posição próxima à de rei. Aqui, vemos uma provável in uência desse uso escand[inavo] (earl, posteriormente jarl) em eorl, que originou a palavra moderna earl [conde].

[o mensageiro dos] piratas; 26 wicinga Em verso, somente em Maldon. Ocorre nos vv. 26, 73, 97, 116, 139, 322.

Essa popularidade re ete as condições da época. A palavra signi cava exatamente o que queremos dizer com pirata: um víkingr em escand[inavo]. Pronto para atacar a gente do seu próprio lar se fossem ricos . Em uma saga (Hallfreðar), vemos a sua versão de “o dinheiro ou a vida”, típico do ladrão de estrada. Eles diziam “o dinheiro e a vida”. Sokki, o víkingr, incendiou a casa de Þorvald (porque Þorvald era bem de vida). “Que mal lhes z?”, pergunta Þ. “Nós vikings não ligamos para esse tipo de coisa — queremos sua vida e o seu dinheiro”. E conseguiram.

Pro ssão honrada — especialmente para os lhos mais novos, ou aqueles que passavam por apuros em casa. Seu sentido original é debatido — mas nessa época = pirata, e assim foi glosada. Um viking, testemunhando uma carta de outorga inglesa, intitula-se arch-pirata, pirata-chefe.

conforme o julgamento deles; 38 on hyra sylfra dom Uma antiga expressão germânica […]

Naturalmente implicava o controle completo da parte de alguém que detinha o “autojulgamento” e um pagamento bem polpudo. Outorgar o “autojulgamento” a alguém era ou um ato de generosidade =

que à vontade — ou um reconhecimento de uma injustiça ou derrota.

Em uma comunidade livre (como a Islândia), ele com frequência levava à justiça, já que uma oferta generosa de “autojulgamento” forçava, pela opinião pública, aquele que o aceitava a ser generoso no seu juízo. Neste tipo de contexto, contudo, implica ganância tirânica.

Byrhtnoth falou, e ergueu o escudo; 42 Byrhtnoð maþelode, bord hafenode Um tipo antigo de frase com rima. Esse tipo com aliteração e uma rima inserida como ornamento fortuito é encontrado na poesia mais antiga. É algo diferente, mas abre caminho para a rima sem aliteração. Cf. 271, 282.

irado, resoluto; 44 yrre and anræd Evidentemente uma expressão tradicional — cf. Beowulf 1575; an-ræd talvez também tenha existido como = feroz para prosseguir; cf. an-mod = unânime.

Por tributo dar-lhes-ão lanças; 46 Hi willað eow to gafole garas syllan O “tesouro” do tributo geralmente assumia a forma de anéis, cotas de malha e petrechos de guerra. A troça aqui é que B[yrhtnoth] diz que “eles vão lhes dar como tributo lanças, lanças mordazes e antigas espadas, e o tipo de petrechos que não tem (ou não terá) serventia para vocês em combate”. Uma piada com duplo sentido. O tributo será dado na forma de golpes; o equipamento de guerra estará do lado oposto.

a ponta envenenada; 47 ættrynne ord Signi cava especi camente a ponta da lança, mas às vezes era usado para espadas. Aqui, diz respeito a armas perfurantes no geral.

[espadas forjadas] antigamente; 47 ealde Um elogio. A arqueologia parece con rmar que o feitio germânico das espadas declinou na Inglaterra, e que o que fazia uma boa espada ser chamada de eald [antiga], além do fato de sê-lo, era a atribuição lendária a W ēland etc.

Espadas antigas venciam batalhas. Beowulf e a eald sweord eotenis [na tradução de Tolkien: “uma lâmina gigante, antiga, com gumes rígidos […] a obra de gigantes”.] com a qual B[eowulf] deu cabo da família-Grendel, 1558. Offa (Uffo) venceu a batalha com Skrep [espada usada por Offa, uma gura lendária mencionada em Beowulf e Widsith].

[tais] petrechos; 48 heregeatu

Tornou-se o termo técnico para “equipamento”, esp. a “indumentária” dada pelo senhor ao vassalo, sendo devolvida ao senhor quando da morte do vassalo — o sentido é ampliado e abrange cavalos, cf. 188 em que B[yrhtnoth] é mencionado como hlaford [lorde, senhor] de Godric — e se torna, no m, tributo pagável ao senhor de um solar quando um ocupante morria.

ponta e gume; 60 ord and ecg

Sinédoque: ord, ponta = lança; ecg, gume = espada

A sinistra zombaria é a de que “ord and ecg” serão nossos juízes e árbitros, e decidirão nossa querela antes de chegarmos ao ponto em que teremos de pagar.

as correntes d’água se encadearam; 66 lucon lagustreamas As correntes do mar juntaram-se todas em uma na subida da maré. lança de arremesso; 77 franca

Outra palavra de muita idade, provavelmente de uso frequente na poesia em inglês antigo, mas preservada por acaso principalmente neste poema tardio […]. Provavelmente signi cava um tipo especial de lança para arremessar, venábulo — mas, como de costume, na poesia é usada com sentido vago.

fatal; 91 cald

Uma palavra prolí ca [literalmente “frio”] que conota “fatal”. Bem empregada aqui com seu duplo sentido: (1) aplicada à água de fato e (2) à travessia fatal que marcou a virada na batalha e o início do desastre. O emprego das palavras na poesia anglo-saxônica é repleto de sutilezas desse tipo para os que observam.

Para outros usos prolí cos, cf. 96 wælwulfas, que, ao mesmo tempo em que descreve vividamente os daneses avançando como uma matilha de lobos famintos “a oeste pelo Panta”, também conota proscritos, inimigos de todos os cristãos.

glória na batalha; 104 tir æt getohte Cf. tir æt tohtan (Judith, 197). Um exemplo de como meios-versos se agarravam à mente dos poetas. Aqui ele não se ajusta muito bem. A palavra usual é tohte = formação de batalha (alinhada?). O substantivo getoht só é atestado aqui. Não se vê nada do espírito irritante do mestre-escola insistindo na citação exata.

os corvos iam de lá para cá, e a águia ávida por cadáver; 106–107 Hremmas wundon / earn æses georn

Os corvos e a águia (e o lobo também) são os seguidores tradicionais dos acampamentos militares, e tornavam-se ávidos e ativos na véspera da batalha, esperando por carniça, o que provavelmente acontecia mesmo com gralhas e corvos. Eles foram introduzidos aqui, é claro, com o propósito primário de reforçar o cenário sinistro e o sentimento de lugubridade antes do início da batalha. O corvo que acompanha as batalhas aparece em Elene, Judith, Beowulf e Brunanburh.

A notável passagem em Beowulf 3024 é a única em que o poeta verdadeiramente a na sua imaginação com esses símbolos convencionais — o corvo discutindo a refeição com a águia tem conexão direta com a permanência desse motivo na discussão dos “twa corbies” [dois corvos], ou dos “ree Ravens” [três corvos] das baladas.

Dois corvos.

Te assenta no osso do pescoço

Que eu bico o olho azul desse moço,

Do cabelo, um tufo dourado

Para o nosso ninho surrado.49

o escudo levava pontada; 110 bord ord onfeng Um tipo de frase retininte muito apreciada, empregada para sugerir o eco de golpes repetidos.

lho da sua irmã; 115 swuster sunu

Essa relação tinha especial importância nas linhagens germânicas, e o laço especialmente próximo que existia entre o tio e o lho da irmã é um motivo em várias lendas (notavelmente Finnsburg).

Não há, contudo, razão para suspeitar que Wulfmær não fosse mesmo swuster sunu de Byrhtnoth, e isso é uma boa advertência para o tipo de crítica que costuma tratar como falsi cações os eventos e situações reais que, por acaso, são iguais aos motivos familiares das lendas. As coisas não se tornam lendárias a menos que tenham sido antes experiências humanas comuns e comoventes. Contudo, a afeição tradicional nessa relação (seja ela ou não o último remanescente do matriarcado!) pode ter sido o motivo para a menção especial feita pelo poeta.

Conta-se; 117 gehyrde ic

Não deixa necessariamente implícito que o poeta não estava lá e que está transformando em verso as narrativas dos sobreviventes. Não signi ca nada além de “o relato diz”. Observe o subjuntivo de discurso indireto em sloge 117; isso não deixa implícita qualquer dúvida quanto à façanha de Eadweard.

sulista; 134 suþerne

É possível que os “daneses” frequentemente tivessem armas caras saqueadas na França, Itália, Espanha — ou adquiridas em Constantinopla; mas talvez a palavra remonte a tempos heroicos mais antigos, em que coisas caras eram assim denominadas com frequência.

um dos daneses; 149 dreng

Uma palavra escandinava. Provavelmente assim empregada aqui de propósito. É a única ocorrência em inglês antigo, mas é atestada em inglês médio.

Wulfmær, o jovem; 155 Wulfmær se geonga Para distingui-lo do Wulfmær mais velho, parente de Byrhtnoth, que tombara antes. Hyse unweaxen implica que ele ainda estava na adolescência. Cniht aqui tem o sentido de garoto.

Todas as palavras como cniht são traiçoeiras. Visto que os jovens solteiros ou ainda menores de idade são, a um só tempo, os mais audazes e os mais assíduos em serviço, essas palavras se desenvolvem simultaneamente em direções diferentes. Os sentidos de guerreiro valente, galante — jovem, vassalo, serviçal, garoto, rapaz. Em inglês antigo, cniht geralmente = garoto […]. Seu alçamento para a classe superior [ou seja, knight, “cavaleiro”] é pós-inglês antigo e se deu pelo sentido de serviçal.

lustrosa; 163 bruneccg

Com o gume reluzente. Um epíteto famoso. Cf. brad ond brunecg, referindo-se a uma seax [faca] (Beowulf 1546). Brun com sentido de brilhante (usado para armas) ocorre também em Judith, Beowulf e na Adivinha 17 [do Livro de Exeter].

O sentido de obscuro, escuro, castanho também ocorre em verso e é o único sentido na prosa de qualquer período. Isso indica (1) ou que as palavras eram distintas (2) ou que o outro sentido, brilhante, era o convencional quando se referia a metais.

A palavra brun passou do falar g[ermânico] para o românico, donde bruno; mas aí também adquiriu esse sentido de brilhante, que ocorre frequentemente na Canção de Rolando.

Em inglês médio, pelo menos quando aplicada ao aço (e vidro, e diamantes), entendia-se como algo que brilhava com luz branca. Sugere-se, com alguma probabilidade, que é o mesmo que brun — marrom, e que foi usada pela primeira vez com referência às espadas da Idade do Bronze e, ao tornar-se parte do vocabulário poético quando usada para descrever elmos, espadas e pontas de lança, mudou de sentido conforme estes mudaram de metal e aparência. Não é um desenvolvimento semântico incomum. punho pálido brilhante; 166 fealohilte De punho pálido. Fealu em inglês antigo signi ca pálido, especialmente amarelo pálido (compare com “fallow deer”), como folhas cando pálidas e douradas. Não há nenhuma relação com a palavra fallow em

relação à terra.50 Fealohilte não é atestado em nenhum outro lugar.

corcel; 189 eoh

A mais antiga palavra para cavalo. Em inglês antigo, sobreviveu basicamente como eo- em nomes como Eomer , sendo suplantada (exceto na linguagem poética que preservou tantas palavras antigas) por sinônimos como hors (corcel, corredor); mearh etc. Cf. eored = eoh-rid, uma cavalaria.

naqueles mesmos arreios nos quais não era correto; 190 on þam gerædum þe hit riht ne wæs

(que ele aparecesse) — porque o cavalo do Nobre era conhecido, e provavelmente ajaezado de modo especial e ricamente arnesado: a explicação se encontra em 239, em que se vê que os homens confundiram o vulto de Godric fugindo a galope no famoso cavalo, pensando que fosse Byrhtnoth, o que levou ao pânico.

adequado; 195 mæð

Lit[eralmente] medida, e é usada em inglês antigo (e médio) para limites decentes de moderação; na prática, o sentido aqui é “[mais homens] do que era decente”, ou respeitável.

homens da sua casa; 204 heorðgeneatas Usado para os vassalos pessoais de um senhor ou rei que viviam no seu salão e sentavam-se à sua mesa junto do fogo. Sem dúvida, aqui não signi ca nada além dos membros das tropas pessoais de Byrhtnoth, o heorðwerod, cf. 24. Mesmo assim, elementos das antigas condições sobrevivem. É essa a palavra com a qual Beowulf descreve a si mesmo e seus companheiros quando chegam na Dinamarca. Portanto, um heorðgeneat frequentemente estava próximo (cf. Beowulf 260–261). Beowulf era sobrinho de Hygelac.

Lembrem-se de todas as falas que amiúde zemos ao beber o hidromel; 212 Gemunon þa mæla þe we oft æt meodo spræcon Cf. Beowulf 2633 (Wiglaf diz:) [Assim vertido no Beowulf de Tolkien, ll. 2208–13: “Não me esqueço do tempo quando, lá onde bebíamos nosso hidromel no festivo salão, juramos ao nosso mestre, que nos deu estas coisas preciosas, que o recompensaríamos por esses trajes de guerreiros, os elmos e as robustas espadas, se acaso tal necessidade lhe sobreviesse.”]

Para além do motivo chamado de “comitatus”, há também o sentimento de que se devia fazer valer os votos feitos ao beber. Os Jomsvikings são o grande exemplo clássico, um bando de vikings celibatários (ou seja, ocupavam um forte militar permanente onde não havia nem mulheres e nem crianças), que defendiam Jomsburg no N. da Alemanha e se tornaram tão poderosos que chegaram a tornar-se reis. Foram eles que colocaram Swein Barba-Bifurcada no trono da Dinamarca. Os mais famosos eram Palnatoke e Sigvaldi, lho de Strut-Harald. No brinde fúnebre ofertado pelo Rei Swein, havia bebida assustadoramente forte e cornos enormes. [?Eles] tinham que beber à memória do pai do Rei, então a Cristo, depois a Miguel e, então, a Strut-Harald — e a essa altura já estavam animados para fazerem votos, e o Earl Sigvaldi jurou que invadiria a Noruega, e todos seguiram seu juramento.

Na manhã seguinte, os Jomsvikings caram bem abatidos com isso, achando que tinham dito “palavras grandiosas demais”. Mas começaram a tomar providências, o que levou ao completo desastre em uma das mais famosas batalhas navais escandinavas, relatada na Heimskringla, da qual quase 250 navios participaram. [Acréscimo a lápis:] Note que temos aqui uma convenção, mas uma convenção viva, pois os compromissos assumidos em lealdade no comitatus ainda eram completamente genuínos. Eles ainda tinham uma qualidade especial.

sem esquecer seu desejo de vingança; 225 fæhðe gemunde Ter na mente o ódio amargo, o dever de vingança e, assim, demonstrar bravura implacável.

parede de escudos; 242 scyldburh Esse é provavelmente o termo mais antigo para o que também é chamado, neste poema, de wihaga 102, bordweall 277. Conseguimos discernir o que era por causa da glosa, testudo […]

Aparece em alto-alemão antigo como sciltburg = testudo. O nórdico antigo dispõe de skjaldborg como nome de uma antiga formação de guerra. Sua descrição clássica está na saga de Harald Hardrada a respeito da batalha de Stamford Bridge, em 1066. Geralmente, referia-se aos corpos en leirados bem juntos, escudo tocando escudo — uma formação formidável — de modo que é uma façanha um único guerreiro conseguir irromper num ataque impetuoso, como faz Eadweard se langa. Cf. a formação do Quadrado Britânico em “Fuzzy-Wuzzy” [poema de Rudyard Kipling de 1892].

249 Sturmere

O único local mencionado no poema. Muito provavelmente = Sturmer, em Essex. E é um grão de evidência da origem do poema em Essex. Note que Leofsunu não era o autor (é muito evidente que ele morreu), mas o fato de um topônimo em Essex ser o único mencionado em 325 versos que tratam da queda de muitos nobres talvez indique que o autor era da região.

homens; 249 hælæð

É interessante observar esse pl[ural] arcaico sobrevivendo em um trecho tardio de poesia.

um simples “ceorl”; 256 unorne ceorl Um homem que não era da nobreza, ou um nobre de nascimento (eorl), mas livre e não unido pelos mesmos sentimentos de honra aristocrática (pelo menos de acordo com as noções de uma sociedade aristocrática) — mas, mesmo assim, sacri cava a vida em nome da lealdade. O poeta provavelmente via isso como um testemunho particular do amor inspirado por Byrhtnoth. Dunnere não teria de enfrentar o mesmo opróbrio ao voltar para casa se tivesse partido após a morte de B.

unorne = humilde, medíocre, de pouco valor — se usado para roupas, pobres, rotas. Tem origem obscura.

refém; 265 gysel

Não sabemos o que um “refém” estava fazendo no séquito de B, especialmente um refém com nome

inglês (e cujo pai também era inglês). Contudo, note que on Norðhymbron = Nortúmbria,51 quer a referência seja aos daneses, quer aos ingleses da região. Na confusão daqueles dias, quando a Nortúmbria era um reino à parte (em teoria, pagavam tributo aos Reis de Wessex), é claro que tanto ingleses quanto daneses com frequência estariam no mesmo exército, lutando contra as forças de Wessex. E o nome inglês também não prova uma linhagem puramente inglesa nessa época — pelo menos 100 anos após o estabelecimento de nitivo dos escandinavos na Nortúmbria (ocupando-se da lavoura etc.).

Um paralelo com o dever do refém de se portar exatamente como um membro original do comitatus está em Cynewulf and Cyneheard, em que o gisel britânico no séquito de Cynewulf luta com os outros homens do rei contra as forças muito maiores conduzidas por Cyneheard, o qual, contudo, oferece a todos a chance de poupar-lhes a vida.

Æscferð, lho de Ecglaf; 267 Ecglafes bearn […] Æscferð Estranhamente parecido com Unferð Ecglafes sunu em Beowulf.

271 æfre embe stunde he sealde sume wunde O verso é notável porque substitui completamente a aliteração pela rima.

jamais vacilava, incansavelmente lutava […]; 281–2 fus and forðgeorn feaht eornoste / Sibyrhtes broðor and swiðe mænig oþer É difícil decidir como pontuar. Temos uma espécie de “conexão uida”.

Este é outro exemplo em que a aliteração é substituída pela rima.

283 cellod

Signi cado e etimologia desconhecidos. Já vimos os paralelismos que existem entre A Batalha de Maldon e outros fragmentos restantes da poesia do século décimo. Di cilmente se poderia duvidar que há uma ligação entre esta passagem e sceolde cellod bord […] (Finnesburh 29). Infelizmente, tanto Maldon quando Finnesburh sobrevivem apenas em transcrições do século XVIII. É difícil determinar se o século XVIII corrompeu uma ou ambas as passagens.

[em batalha Offa matou] aquele pirata-do-mar; 286 þone sælidan Qual? O que havia matado Byrhtnoth?

Observe que toda a parte de 184–286 é, na verdade, dedicada a um breve episódio na batalha: a fuga de Godric, Godwine, Godwig, o reagrupamento do séquito pessoal do próprio Byrhtnoth e seus muitos discursos. A morte do sælidan — por Offa, claramente o chefe do séquito de B (ver suas palavras altivas sobre o restante dos desertores no conselho de guerra) — é reservada para o nal.

o parente de Gadd; 287 Gaddes mæg Claramente = Offa. Nada mais sabemos. Mæg, desta forma, é usada para estabelecer uma relação entre um homem e qualquer ancestral notável — em geral (mas não sempre), exclusivamente seu pai. Gadd pode ter sido tio ou avô.

um velho vassalo ele era; 310 se wæs eald geneat Temos aqui outro exemplo de uma antiga situação tradicional e sua ocorrência real coincidindo. Não há razão para duvidar que Byrhtwold era mesmo um eald geneat, e que ele disse mesmo palavras memoráveis não muito diferentes dessas que, sendo notáveis, caram consagradas. Contudo, era tradição do eald geneat ser implacável e destemido e “falar palavras aladas”.

Compare eald geneat æsc acwehte com eald æscwiga, em Beowulf 2042, cujo lugar na história de Ingeld corresponde ao do sinistro Starkaðr nórdico.

O velho vassalo é mais cioso da honra da casa até mesmo que o mestre — mas, se for uma situação “literária”, ela o será apenas porque é também uma situação comum na realidade.

Até agora, ninguém duvidou da autenticidade de Maldon — é difícil dizer por que foi negligenciado

— mas, pelo menos tão sensata quanto algumas das críticas “internas” ao texto, seria uma que

indicasse o quão mítico é isso tudo

o caro swuster sunu é o primeiro a cair

todos os personagens fazem discursos de “comitatus” no melhor modo “épico”

o eald geneat entra no nal, pregando uma coragem que desa a completamente o fado. Na verdade, podem até dizer que ele foi uma invenção do poeta, e seu nome, uma mera variação de Byrhtnoth inserida para enfatizar aquilo que o poeta queria apresentar como sendo o caráter de B — mas, é claro, os dois Bs têm caráter bem diferente.

Toda mente será mais severa […].; 312–313 Hige sceal þe heardra heorte þe cenre / mod sceal þe mare þe ure mægen lytlað Esses dois versos são merecidamente famosos — em inglês antigo, são vigorosos e resumem de modo curiosamente compacto e potente o atributo especial do heroísmo do Norte: a menos que admita a derrota, você não é derrotado, uma crença fria, sinistra e desesperadamente severa, mas nobre, e não corre o risco, no momento, de ser superpopularizada e exagerada. De fato, se for lida de maneira atenta, di cilmente é possível livrar-se da impressão de que esses versos são mais antigos e remontam a um tempo anterior à trama do contexto — do fato de que Byrhtwold provavelmente disse essas exatas palavras justamente porque eram ou proverbiais ou uma citação familiar.

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Notas

49 Twa Corbies. / Ye’ll sit on his white hause-bane / And I’ll pike out his bonny blue een, / Wi’ a lock o’ his gowden hair / We’ll theek our nest when it grows bare.

50 Fallow deer é o “gamo”, animal da família dos cervos. Aí, fallow diz respeito à sua cor amarelada. Fallow também é um substantivo, usado para a terra que foi lavrada e deixada para repousar, sem cultivo. [N.T.]

51 No texto original da tradução de Tolkien não consta o verso 266, em que se diz que Æscferð era de uma família da Nortúmbria, reino do norte da Inglaterra. [N.T.]

52 Quanto a isso, as “Crônicas em verso” (de tipos variados) são, em certa medida, uma exceção.

53 Não excluo a possibilidade de uma “escrita ruim”.

Quando o metro é muito difícil ou desnecessariamente complexo, ou inadequado para o propósito, um poeta pode deixá-lo de lado e usar uma forma mais fácil, seja por considerar sua própria destreza inferior, seja por uma razão genuinamente artística (e ambos os motivos podem se combinar). Mas o metro rígido do inglês antigo não é — especialmente no próprio idioma inglês antigo — difícil ou arti cial; não exige uma simples ginástica métrica que interfere na naturalidade expressiva. Quando não se consegue produzi-lo, a razão só pode ser uma das alternativas propostas.

54 E com isso não quero dizer, é claro, que o metro muda, mas que, para um homem que o esteja empregando na cabeça, certos versos antigos não vão escandir com precisão. Mas e se o homem reverencia os antigos poetas? Ele vai alterar os versos defeituosos ou o metro?

55 A não ser como parte de um conhecimento especí co que pertence à linguística histórica, o que não tem nenhum efeito na prática poética, nem mesmo se o próprio linguista histórico passar a escrever poesia.

56 Tenho em mente, é claro, o inglês antigo, e períodos em que a “língua elevada” empregada na poesia é, essencialmente, apenas uma variedade culta do idioma cotidiano. Não estou considerando os esforços especiais da tradição oral em certas condições culturais — empreendidos por colegiados sagrados, ordens iniciadas ou pelo clero — com vistas a manter a pronúncia correta de idiomas obsoletos ou estrangeiros em ritos de seitas ou religiões. Em inglês antigo, não precisamos nos haver com as condições que eram ou são válidas na preservação (ou nas tentativas de se preservar) do sânscrito, do hebraico, ou do árabe. O próprio latim, idioma sagrado do Ocidente, não tinha tal tradição. Sua pronúncia foi exposta à constante in uência do vernáculo.

57 Palavras ou expressões atestadas por escrito uma única vez na língua. [N.T.]

58 É claro que ambas talvez fossem frequentes em poemas perdidos, orais ou escritos. Provavelmente eram. Mas o princípio é o mesmo. A tradição oral consegue preservar um corpo de poesia maior do que o que sobreviveu na escrita durante os séculos destrutivos, mas não consegue preservar tudo, em todos os lugares, de maneira uniforme e imparcial. A própria língua não consegue. Aprendizes da poesia tradicional deviam frequentemente enfrentar problemas como os que Beo 924 nos apresenta.

59 Mas pertencia a uma família poética — de onde vem o talento da maioria dos poetas islandeses.

60 Það var þar haft ölteiti, að menn kváðu vísur [“Era hábito deles ali, quando bebiam cerveja, que os homens recitassem estrofes”. Saga de Egil xxxi].

61 Mas observe que isso também pressupõe o reconhecimento tanto da existência de unidades, ou versos, quanto da sua formação a partir de hemistíquios conectados! Pois é claro que esses dois fonemas aliterantes mínimos não poderiam ser agrupados de um só lado do verso.

62 Hoje em dia, ela não pode ser completamente apreciada sem alguma prática por ingleses há muito acostumados às rimas nais e ao verso branco, e à aliteração como ornamento (uma função essencialmente distinta da que desempenhava no metro anglo-saxão). Ademais, o modo como lemos a poesia em inglês antigo é geralmente displicente demais para que consiga aperfeiçoar nossa sensibilidade métrica. Um islandês ainda consegue detectar prontamente (e fazer objeção) a ausência de aliteração.

63 Visto que a mudança fonética em inglês geralmente seguiu o caminho da redução na quantidade total de palavras, nós deveríamos ter, desse modo, desenvolvido metros “cataléticos”. Eles realmente ocorrem em islandês e talvez tenham sido gerados ou sugeridos assim — embora isso não seja nem de longe certeza: é mais provável que tenha havido simplesmente experimentações e invenções métricas. Outras inovações são, na verdade, ampliações. Não há, em inglês antigo, rastros certeiros de formas cataléticas resultantes de ampliações.

64 [A referência é à classi cação de Eduard Sievers baseada nos tipos de hemistíquios aliterantes. A2 é uma variante do hemistíquio “decrescente” (/ x / x).]

65 Coisa parecida se encontra em Beowulf, como em weardode hwile 105b, ou anacruse, como em swa wæter bebugeð, 93b; þa secg wisode 402b, mas, mesmo contando os casos em que a emenda é clara ou provável, a proporção é muito menor.

66 A preservação de formas passadas deve ser diferenciada do uso poético de variantes dialetais, que em certas condições podem estar disponíveis a um poeta — na forma de variantes reais, retiradas da língua corrente; assim como again rimando com men ou rain. É claro que, com o passar do tempo, um desses dialetos pode deixar de ser corrente e as formas derivadas dele, encerradas na poesia, tornarem-se parte de uma dicção poética.

67 E nem todas elas: pois perdeu-se uma consoante em night tanto quanto em heart, mas antes; e os poetas de uma época menos pedante já rimavam night com white e coisas assim com frequência demais para serem alvo de objeção dos amantes da ortogra a. Além disso, a consoante que falta tinha sumido completamente. Não temos mais (X), e mesmo a ortogra a não consegue preservar na memória de todos os sons que, na fala normal, já sumiram.

68 Assim como wind, pronunciado de forma a rimar com dined. Isso pode ter derivado historicamente de uma pronúncia normal mais antiga na qual essa palavra se desenvolveu, como nd, bind, blind etc. Mas sua preservação se deve à escassez de rimas com ĭnd (um produto da linguística histórica) que, à exceção de wind, encontra-se somente em palavras estrangeiras ou contrações bem recentes: como sinned, pinned. E, mesmo aqui, apoia-se no fato ortográ co que ind geralmente representa (aind). A pronúncia poética é raramente usada, a não ser por força da rima.

69 Mas Alfred não teria nenhuma di culdade quanto ao g. Os dois tipos de g ainda aliteravam quando ele era vivo.

70 Uma vez descontados os erros palpáveis que podemos atribuir à hubris ou a propensões dos escribas.

71 Deixo de lado os claramente defeituosos vv. 1, 109, 172, 183; e também 29, 32, 192 em que, como veremos, a violação das regras é apenas aparente, apesar dos óbelos editoriais.

72 Mesmo depois de ser inspirado. Sua composição “improvisada”, conforme o relato, tem nove versos; seus trabalhos posteriores exigem re exão. Ele estudou a matéria e produziu poesia depois de “ruminar”, como nos conta Beda.

73 aquele que fez o poema / e, assim, passou muitas noites em claro. [N.T.]

74 [“Enquanto os outros dormiam”. / “Fiz a cerveja de Odin, / Enquanto outros dormiam; para o capitão / Que se assenta sobre a terra, todo ávido / Eu z — sinto muito por isso!” (201)]. [N.E.]

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