A Batalha de Maldon e O Regresso de Beorhtnoth

J. R. R. Tolkien · Capítulo 6 de 17

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A Batalha de Maldon e O Regresso de Beorhtnoth

III. Ofermod

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inspirou, foi escrito principalmente como poesia para que seja condenado ou 10 aprovado como tal. Este trabalho, um pouco maior que o fragmento em inglês antigo que o Mas, para merecer um lugar em Essays and Studies,

suponho que ele deva conter, ao menos de modo implícito, uma crítica da matéria e do estilo do poema em inglês antigo (ou de seus críticos).

Desse ponto de vista, pode-se dizer que o texto é um comentário mais longo sobre os versos 89 e 90 do original: ða se eorl ongan for his ofermode alyfan landes to fela laþere ðeode, “então o nobre, em sua soberba avassaladora, acabou cedendo terreno ao inimigo, o que não deveria ter feito”. A Batalha de Maldon normalmente é considerada um comentário mais longo ou uma ilustração das palavras do velho vassalo Beorhtwold nos versos 312 e 313, citadas anteriormente e usadas na presente obra. São os versos mais conhecidos do poema e, possivelmente, de todo o cancioneiro em inglês antigo. Contudo, exceto pela excelência de expressão, eles me parecem de menor interesse que os versos anteriores; de qualquer modo, a força completa do poema se perde, a menos que as duas passagens sejam consideradas juntas.

As palavras de Beorhtwold costumam ser consideradas a melhor expressão do espírito heroico do Norte, seja ele escandinavo ou inglês: a a rmação mais clara da doutrina da resistência extrema a serviço da vontade indômita. O poema como um todo costuma ser chamado de “o único puramente heroico em inglês antigo que chegou até nós”. Tal doutrina, porém, aparece com essa clareza e pureza (aproximada) precisamente porque é colocada na boca de um subordinado, um homem para quem o objetivo de sua vontade era decidido por outro, que não tinha responsabilidades para com os de baixo, apenas lealdade para com os acima dele. Nesse homem, portanto, o orgulho pessoal estava em seu nível mais baixo, e o amor e a lealdade, no nível mais alto.

Pois esse “espírito heroico do Norte” nunca é de todo puro: feito de ouro como é, trata-se de uma liga. Se não houvesse a mistura, ele levaria um homem a aguentar até mesmo a morte sem pestanejar, quando necessário: isto é, quando a morte pode ajudar na realização de algum objetivo da vontade, ou quando a vida só pode ser resgatada pela negação daquilo pelo qual se luta. Mas, uma vez que tal conduta é considerada admirável, a liga que envolve também o bom nome pessoal nunca está de todo ausente. Assim, o guerreiro Leofsunu, em A Batalha de Maldon, agarra-se à sua lealdade por causa do medo da reprovação caso retorne vivo para casa. Essa motivação, claro, pode não ir

 

seus pares, com a qual o próprio “herói” concorda totalmente; ele agiria do 11 mesmo modo se não houvesse testemunhas. muito além da simples “consciência”: o autojulgamento à luz da opinião de Contudo, esse elemento de

orgulho, na forma do desejo por honra e glória, durante a vida e após a morte, tende a crescer, a se tornar a motivação principal, empurrando um homem para além da desolada necessidade heroica — rumo ao cavalheirismo. E certamente ao “excesso”, mesmo quando ele é aprovado pela opinião dos contemporâneos, quando isso não apenas vai além da necessidade e do dever, mas interfere com ambos.

Assim, o herói Beowulf (de acordo com as motivações atribuídas a ele pelo estudioso do caráter heroico-cavalheiresco que escreveu o poema a seu respeito) vai além do necessário, deixando de lado as armas para que seu confronto com o monstro Grendel seja uma luta “com espírito esportivo”: isso aumentará sua glória pessoal, embora o coloque em perigo desnecessário e enfraqueça suas chances de livrar os daneses de um desastre intolerável. Mas Beowulf não tem dever algum para com os daneses, pois ainda é um subordinado sem responsabilidades para com os de baixo: e sua glória também é a honra de seu povo, os geatas; acima de tudo, como ele mesmo diz, é algo que dará crédito ao senhor a quem jurou lealdade, Hygelac. Contudo, ele não deixa de lado seu cavalheirismo, e o excesso persiste, mesmo quando já é um rei idoso, sobre o qual todas as esperanças de um povo repousam. Não se digna a liderar uma força de guerreiros contra o dragão, tal como a sabedoria poderia levar até mesmo um herói a fazer; pois, como ele explica numa longa passagem de “vanglória”, suas muitas vitórias o livraram do medo. Acaba usando apenas uma espada nessa ocasião, já que lutar com as mãos nuas e sozinho contra um dragão é impossível até para o espírito cavalheiresco. Mas dispensa seus doze companheiros. Beowulf é salvo da derrota e atinge-se o objetivo essencial, a destruição do dragão, apenas por meio da lealdade de um subordinado. O cavalheirismo de Beowulf, se não fosse por isso, teria terminado apenas com a sua própria morte inútil, com o dragão ainda à solta. Da maneira como as coisas se dão, um subordinado sofre um perigo maior do que o necessário e, embora não pague o preço da mōd de seu mestre com a própria vida, o povo perde seu rei de modo desastroso.

Em Beowulf, temos apenas uma lenda sobre o “excesso” de um nobre. O caso de Beorhtnoth é ainda mais marcante, mesmo visto apenas como uma estória; mas também é tirado da vida real por um autor contemporâneo. Aqui temos Hygelac se comportando como o jovem Beowulf: planejando uma “luta com espírito esportivo” em termos iguais; mas às custas de outras pessoas. Nessa situação, ele não era um subordinado, mas a autoridade a ser obedecida naquele local; e era responsável por todos os homens sob suas ordens, para não desperdiçar as vidas deles, exceto com um único objetivo, a defesa do reino contra um inimigo implacável. Ele mesmo diz que seu propósito é defender o reino de Æthelred, o povo e a terra (versos 52–3). Era heroico da parte dele e de seus homens lutar até a aniquilação, se necessário, na tentativa de destruir ou barrar os invasores. Foi totalmente descabido que ele tratasse uma batalha desesperada, com esse único objetivo real, como um confronto com espírito esportivo, para ruína de seu propósito e dever.

Por que Beorhtnoth fez isso? Devido a um defeito de caráter, sem dúvida; mas era um caráter, podemos supor, que não foi formado apenas pela natureza, mas moldado também pela “tradição aristocrática”, preservada em contos e versos de poetas que agora se perderam, exceto por seus ecos. Beorhtnoth era mais cavalheiresco do que estritamente heroico. A honra era, em si mesma, uma motivação, e ele a buscou correndo o risco de colocar seu heorðwerod, todos os homens que lhe eram mais caros, numa situação verdadeiramente heroica, na qual só podiam se redimir pela morte. Magní co, talvez, mas certamente errado. Insensato demais para ser heroico. E dessa insensatez Beorhtnoth, pelo menos, não podia se redimir completamente pela morte.

Isso foi reconhecido pelo poeta de A Batalha de Maldon, embora os versos nos quais sua opinião se expressa sejam pouco considerados ou minimizados. A

excessiva, cedeu terreno demais à gente odiosa”. “então o nobre, por sua ousadia 13 De fato, esses são versos que contêm uma crítica severa , ainda que não incompatível com lealdade, e mesmo com amor. Canções de louvor a Beorhtnoth durante seu funeral podem muito as implicações de suas palavras, embora a maioria das pessoas esteja mais 12 familiarizada com a tradução de Ker: tradução deles citada anteriormente é (creio eu) correta ao representar a força e bem ter sido compostas, não muito diferentes do lamento dos doze príncipes por Beowulf; mas elas também podem ter terminado com a nota agourenta soada pela última palavra do grande poema: lofgeornost, “mui desejoso de glória”.

Até onde continua o fragmento de sua obra, o poeta de Maldon não elabora o argumento contido nos versos 89–90; ainda que, se o poema teve algum fecho bem azeitado e uma avaliação nal do tema (como é possível, já que certamente não se trata de uma obra produzida de modo afoito), esse ponto provavelmente tenha sido retomado. Contudo, se ele sentiu a necessidade de criticar e expressar sua desaprovação de algum modo, então sua análise do comportamento do heorðwerod perde a agudeza e a qualidade trágica, que eram seu objetivo, se a crítica não receber o devido valor. Por meio dela, a lealdade dos seguidores ganha peso ainda maior. O papel deles era resistir e morrer, e não questionar, embora um poeta responsável por registrar a cena pudesse comentar, com justiça, que alguém havia cometido um erro sério. Na situação em que estavam, o heroísmo era algo magní co. Seu senso de dever permaneceu intocado pelo erro de seu mestre, e (de modo mais pungente) nem mesmo no coração dos que eram próximos do velho guerreiro

 

soberba ou do voluntarismo, que é o mais heroico e o mais comovente; desde 14 Wiglaf, o amor foi diminuído. É o heroísmo da obediência e do amor, não aquele da debaixo do escudo de seu parente, passando por Beorhtwold em

Maldon até Balaclava, mesmo se essa virtude é cantada em versos que não sejam melhores que os de “A Carga da Brigada Ligeira”.

Beorhtnoth estava errado e morreu por causa de sua insensatez. Mas foi um nobre erro ou o erro de um nobre. Não cabia a seu heorðwerod culpá-lo; provavelmente muitos deles não achariam que ele era culpável, sendo eles mesmos nobres e cavalheirescos. Mas os poetas, como tal, estão acima do cavalheirismo, ou mesmo do heroísmo; e, se alcançam alguma profundidade ao tratar tais temas, então esse “espírito” e os objetivos que busca serão questionados, mesmo apesar dos próprios autores.

Temos dois poetas que analisam longamente o heroico e o cavalheiresco, usando tanto arte como meditação nas eras mais antigas: um perto do começo, em Beowulf; e outro perto do m desse período, em Sir Gawain. E, provavelmente, um terceiro, mais perto do meio, em Maldon, se tivéssemos toda a sua obra. Não é surpreendente que qualquer consideração da obra de um deles conduza à dos outros. Sir Gawain, a mais tardia, também é a mais completamente consciente, e é clara a intenção de criticar ou avaliar todo um código de sentimento e conduta, no qual a coragem heroica é apenas uma

 

semelhanças internas com Beowulf, mais profundas do que o uso da antiga 15 métrica “aliterante”, parte, que inclui diferentes lealdades. No entanto, é um poema com muitas

a qual é, mesmo assim, algo signi cativo. Sir Gawain,

como o grande exemplo de cavalheirismo, é retratado, claro, como alguém profundamente preocupado com sua própria honra e, embora as coisas consideradas honrosas possam ter mudado ou se expandido, a lealdade à palavra dada e ao senhor, bem como a coragem que não recua, permanecem. Essas virtudes são testadas em aventuras que não estão mais próximas da vida cotidiana do que Grendel ou o dragão; mas a conduta de Gawain se torna mais valiosa e mais digna de consideração, mais uma vez, porque ele é um subordinado. Envolve-se no perigo e enfrenta a perspectiva certa da morte simplesmente por lealdade e pelo desejo de garantir a segurança e a dignidade de seu soberano, o rei Arthur. E dele depende, em sua demanda, a honra de seu senhor e de seu heorðwerod, a Távola Redonda. Não é por acidente que, nesse poema, assim como em Maldon e em Beowulf, temos a crítica ao senhor, a quem cabe a vassalagem. As palavras são marcantes, embora menos marcantes do que o papel menor que costumam ter na crítica do poema (como também em Maldon). Contudo, assim falou a corte do grande rei Arthur, quando Sir Gawain partiu:

Diante de Deus, é vergonha

que tu, senhor, devas perder-te, que nesta terra és tão nobre!

Entre os homens como ele não se acham iguais, por certo!

Cuidar-se de dar-lhe mais valor e ajudá-lo seria sábio,

e a tão caro e benquisto varão quiçá um ducado ofertar,

ilustre líder de lordes que muito eleva este reino;

assim seria melhor do que ao assassínio entregá-lo,

decapitado por um homem-él co em estranha vanglória.

Quem já ouviu contar que tal curso um rei adotou,

qual cavaleiros brincando de intrigas na corte de Natal!16

Beowulf é um poema muito rico: existem, é claro, muitas outras facetas no modo como se descreve a morte do herói; e a consideração (esboçada anteriormente) dos valores cambiantes do cavalheirismo na juventude e na idade madura e mais responsável é apenas um ingrediente disso. Contudo, claramente é algo que está lá; e, embora a imaginação principal do autor estivesse agindo em caminhos mais amplos, a crítica do senhor que era o objeto da vassalagem é abordada.

Assim, o senhor de fato pode receber crédito pelos feitos de seus cavaleiros, mas não pode abusar de sua lealdade ou colocá-los em perigo apenas para esse propósito. Não foi Hygelac que mandou Beowulf para a Dinamarca por se vangloriar ou fazer um juramento temerário. As palavras que dirige a Beowulf quando este retorna são, sem dúvida, uma alteração da estória original (que aparece de modo furtivo quando se fala da incitação dos snotere ceorlas, versos 202–4); mas são ainda mais signi cativas por causa disso. Ouvimos dizer, nos versos 1992–7, que Hygelac tinha tentado impedir que Beowulf entrasse numa aventura temerária. Muito correto. Mas, no m do poema, a situação se reverte. Ficamos sabendo (versos 3076–83) que Wiglaf e os geatas consideravam que qualquer ataque ao dragão seria temerário e que tinham tentado impedir o rei de empreender tal aventura perigosa com palavras muito parecidas com aquelas usadas por Hygelac muito antes. Mas o rei desejava a glória ou uma morte gloriosa e jogou com o desastre. Não poderia haver crítica mais pungente do “cavalheirismo” em poucas palavras do que a exclamação de Wiglaf: oft sceall eorl monig anes willan wræc adreogan, “pela vontade de um homem muitos devem sofrer opróbrio”. Essas palavras o poeta de Maldon poderia ter inscrito no cabeçalho de sua obra.

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Notas

10 De fato, há a clara intenção de que funcione como uma recitação para duas pessoas, duas formas em “vaga sombra”, com a ajuda de alguns lampejos de luz, ruídos apropriados e o cantochão no m. É claro que nunca teve uma montagem. [N.A.]

11 Ver Sir Gawain e o Cavaleiro Verde, versos 2127–31. [N.A.]

12 Tolkien se refere ao escocês William Paton Ker (1855–1923), professor de literatura inglesa que lecionou em várias universidades britânicas, inclusive em Oxford. [N.T.]

13 To fela signi ca, como expressão idiomática do inglês antigo, que terreno algum deveria ter sido cedido. E ofermod não signi ca “ousadia excessiva”, nem mesmo se atribuirmos valor completo ao pre xo ofer [ancestral do inglês moderno over], recordando como o gosto e a sabedoria dos ingleses rejeitavam fortemente o “excesso” (quaisquer que fossem suas ações). Wita scal geþyldig […] ne næfre gielpes to georn, ær he geare cunne . Mas mod, embora seja um termo que possa conter ou implicar coragem, não signi ca “ousadia”, não mais do que o termo em inglês médio corage. Signi ca “espírito” ou, quando não está acompanhado de quali cações, “espírito elevado”, do qual a manifestação mais comum é o orgulho. Mas na forma ofer-mod ele está quali cado, com desaprovação: ofermod é, de fato, sempre uma palavra de condenação. Em poemas, esse substantivo ocorre apenas duas vezes, aplicado uma vez a Beorhtnoth e, na outra, a Lúcifer. [N.A.]

14 Personagem do poema Beowulf que acompanha o herói-título em sua batalha nal contra o dragão. [N.T.]

15 É provavelmente a primeira obra a aplicar a palavra “letras” a essa métrica, a qual, na verdade, nunca as levou em conta. [N.A.]

16 Before God ‘tis a shame / that thou, lord, must be lost, who art in life so noble! / To meet his match among men, Marry, ‘tis not easy! / To behave with more heed would have behoved one of sense, / and that dear lord duly a duke to have made, / illustrious leader of liegemen in this land as be ts him; / and that better would have been than to be butchered to death, / beheaded by an elvish man for an arrogant vaunt. / Who ever heard tell of a king such courses taking, / as knights quibbling at court at their Christmas games!

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