A Dama dos Cravos
Capítulo 9 · Na manhã do dia seguinte, o vento…
Na manhã do dia seguinte, o vento desaparecera. O céu estava claro e o mar calmo. Quando Nancy se encontrou com o noivo no convés às 10 horas, Catherine não estava com ela.
— Escute — gritou Madden — onde está a nossa terceira associada?
— Associada honorária, por esta manhã — respondeu ela, jovial. — Está com enxaqueca.
Madden fez um ar de espanto.
— E no entanto, não faz muito tempo que ela disse nunca ter tido dor de cabeça em viagem.
— Talvez tenha se esquecido de bater na madeira — disse Nancy rindo. — Mas fique quieto, querido. Sua pequena aqui está, saudável e bem disposta.
— Por que não foi fazer exercício?
Ela fez uma careta. Sua seriedade da véspera cedera lugar à petulância habitual. Na frescura daquela bela manhã, sentia-se reviver.
— Não discuta comigo, querido — interrompeu alegremente — não discuta antes do nosso casamento. Não me amole, e dê-me um cigarro.
— Como não fuma dos meus, vou comprar da sua marca. Desceram pelo elevador até o hall principal, onde Madden comprou um pacote dos cigarros preferidos da noiva. Encarando Nancy, ele teve de confessar a si mesmo que ela nunca estivera tão encantadora. Esbelta, viva, com aqueles modos de rapaz, trazia um casaco de pele de camelo, muito justo ao corpo, e esta visão cortava a respiração do noivo. Atirava o cabelo para trás e estava pondo batom nos lábios.
— Gosta de mim, Nancy? — perguntou ele a meia voz.
Ela suspendeu a operação. Uma onda inesperada de ternura a envolveu, e o seu ar de estouvamento a abandonou. Sua respiração se fez difícil, e de súbito ela teve a medida de como Madden lhe era caro, de tudo que o noivo representava para ela. Olhando-o com ar sério, através dos seus longos cílios, respondeu simplesmente:
— De todo o coração.
Calaram-se ambos. O rosto de Madden tornou-se alegre, e ele tomou-lhe a mão. Por um segundo seus dedos se acariciaram; depois ela fez um risozinho de embaraço. Havia encontrado de novo seu equilíbrio.
— Não se esqueça de que estamos no meio do Atlântico — sussurrou, dando-lhe o braço.
Durante um minuto consultaram os avisos de bordo, e no momento em que iam retornar à escada o olhar de Madden caiu sobre o compartimento de venda de flores. Veio-lhe uma inspiração.
— De passagem, poderíamos mandar um buquezinho a Catherine. Ela gostaria.
— Boa idéia! Compre-lhe cravos; ela gosta. E olhe estas orquídeas roxas. Não são maravilhosas? Eu gostaria de ter uma.
Madden riu, pediu os cravos para Catherine, e Nancy teve sua orquídea.
Catherine não apareceu também no almoço, e só às 2 horas foi que Nancy e Madden deram com ela num canto do convés de cima. Parecia muito contente de estar ali, estendida na espreguiçadeira, bem enrolada num cobertor; e a bandeja ao lado indicava que pelo menos tomara alguma coisa. Nancy gritou:
— Olá! Como vai a cabeça?
— Já está bem melhor.
Confortavelmente instalada, Catherine os recebeu rindo. Depois, virando-se para Nancy, disse:
— Pensei que estavam jogando pingue-pongue.
— Exatamente. Este torneio é um verdadeiro suplício. E você conhece a energia impiedosa de Chris.
Após ligeira hesitação, Madden interrompeu-a:
— Estávamos preocupados com você, Catherine. Está melhor, de verdade?
— Muito melhor. Eu me cansei muito nestes últimos tempos. Preciso refazer-me até o fim da viagem.
Ele não estava completamente tranqüilo.
— Ficou sem graça não a vermos à mesa. Nem no exercício, hoje de manhã. Está em grande falta conosco.
— Lamento.
Madden encarou-a, como se o tom de indiferença de suas respostas o afligisse. Nancy afastou-se, cantarolando em direção à mesa de pingue-pongue, porém ele não parecia disposto a abandonar Catherine.
— Recebeu nossos cravos?
— Recebi, Chris. — Ela se deteve. — Mas, peço-lhe, não me mande mais flores. Sério, não precisa.
Ele pareceu mais penalizado ainda. Hesitou um instante, e depois, cedendo a um impulso repentino, disse:
— Será que a contrariei em alguma coisa?
Ela lhe examinou longamente a fisionomia, e depois desviou os olhos:
— Será indispensável que briguemos esta tarde? — murmurou, afinal, num tom amistoso. — Claro que não me fez nada. Apenas preciso estar um pouco só.
Madden corou, e uma expressão de sofrimento passou em seu rosto. Depois olhou-a como de costume:
— Desculpe-me, Catherine. Eu me esquecia de que estava com dor de cabeça. Desculpe-me por ter incomodado.
Afastou-se em seguida, e foi ao encontro de Nancy.
Catherine estendeu-se na cadeira, com o livro nos joelhos; parecia absorta na contemplação do mar e do céu. Ninguém adivinharia seu tormento, nem o amargo e intolerável fardo que pesava sobre seu coração. Parecia-lhe haver mergulhado um punhal no coração. O único pequenino vislumbre de consolo que lhe restava era a sensação de haver começado a pôr em prática a resolução que tomara durante aquela cruel noite de insônia. Devia manter sua integridade pessoal a qualquer preço; e preferiria morrer a prejudicar no mínimo que fosse a felicidade de Nancy.
Os dois dias seguintes passaram muito rápido. O navio aproximava-se celeremente de Nova York. A travessia fora excepcionalmente favorável, e esperava-se, a bordo, encontrar o navio-farol de Nantucket na sexta-feira de manhã. Sentindo chegar o fim da viagem, os passageiros manifestavam crescente sociabilidade. Mas Catherine, a pretexto de que precisava de repouso, mantinha-se em amável reserva, se bem que se visse às vezes na obrigação de integrar-se na vida de bordo. Entretanto, geralmente conseguia isolar-se. Em várias ocasiões sentiu pousar sobre ela o olhar furtivo e inquieto de Madden, mas poupou-se o sofrimento de encontrar-se a sós com ele, até o grande baile tradicional da última noite de viagem.
Essa festa, com seu inevitável acompanhamento de champanha, confetes, gorros de papel e outras futilidades de carnaval, afigurava-se-lhe a mais dura prova a que sua resistência poderia ser submetida. Era impossível escapar-lhe. No começo, as coisas não lhe correram mal, porque pôde entreter-se com o comandante e com Lady Blandwell e fingir um profundo interesse pelas banalidades náuticas de um, e as pretensiosas tagarelices da outra. Mas quando a orquestra começou a tocar, e os projetores lançaram suas luzes multicores através das colunas do salão, e os passageiros entraram a dançar, seus nervos ficaram extremamente tensos. Ficar sentada no seu canto, sorrir, opor a toda aquela alegre agitação uma cara amável e tranqüila era mais do que ela podia suportar. Por momentos, pensou que ia trair-se; esta sensação a fazia perder a segurança e podia levá-la a cometer uma falta.
O velho comandante convidou-a a dançar; aceitou, alvoroçada, para fugir àquela inércia. Depois de alguns giros pelo salão, ele a reconduziu ao seu lugar. Neste instante o olhar de Catherine se encontrou com o de Madden. Até então, ele só havia dançado com a noiva; mas veio tirar Catherine.
Por um segundo, que lhe pareceu um ano, ela ficou parada olhando para a mesa, e o movimento de suas artérias lhe dava uma vertigem. Tentou esquivar-se:
— Eu danço mal.
— Dança muito bem; acabo de verificar.
Com um cigarro entre os dedos de unhas pintadas de vermelho, Nancy colocou-se entre os dois. Trajava um vestido de seda negra que lhe realçava o brilho dourado dos cabelos, e sapatos prateados, de salto alto. Parecia assim mais encantadora do que nunca, e duma juventude inverossímil. Com um sorriso de encorajamento, exclamou:
— Vamos, Catherine, dá-lhe esse prazer, por mim!
Não havia saída. Catherine levantou-se e deu alguns passos ao lado de Madden; então ele a envolveu com o braço, e se bem que não fosse um ás, acompanhava bem o ritmo da música.
— Por que não queria dançar comigo? — perguntou, afinal, com uma voz inteiramente natural e calma.
Agora que qualquer retirada estava cortada por aqueles braços que a enlaçavam, ela sentia as batidas do coração, que lhe ressoavam nas têmporas como golpes de martelo. Mordendo os lábios, apelou para toda a sua energia a fim de esboçar um pálido sorriso.
— Estou muito velha para essas coisas...
— Que bobagem! — replicou ele com o seu riso tranqüilo. — Parece-me, ao contrário, que agora é que você começa a viver.
— Oh! Talvez seja também porque estou pensando era outras coisas, no desembarque amanhã, nos meus negócios, no futuro.
Calaram-se por um momento. A música os embalava com o seu ritmo. Catherine sentia o olhar de Madden pesar sobre ela.
— Então, meus projetos não lhe interessam mais? — perguntou pausadamente.
— Como não? — Ela procurava conservar inflexões banais na voz. — Vai ficar algum tempo em Nova York?
— Sim. Eu planejava passar lá alguns dias com a Nancy e com você, e "ciceroneá-las" na cidade. Esperava que depois vocês fossem comigo a Vermont para conhecer minha mãe, e alguns amigos de Graysville.
Catherine fez um sinal de contrariedade.
— Creio que não vou poder ir.
— Mas eu visitei sua mãe — replicou Madden com um sorriso eloqüente e persuasivo.
Fez-se silêncio. Ela havia compreendido.
— Bem — disse afinal, desamparada — tratarei de arranjar as coisas.
— Como você é amável! Precisa conhecer a paisagem de Vermont. Eu achava ótimo, quando passava lá minhas férias, em criança, e é por isto que hoje ainda gosto mais dela.
Fez uma pausa, e, depois, continuou de súbito, falando rápido mas sempre no mesmo tom:
— Que será que não está correndo bem, entre nós, Catherine? Era tão bonito, e depois tudo mudou. Você me evita; os outros nada percebem, mas eu noto. Tudo que posso dizer-lhe, Catherine, é isto: Você é uma criatura maravilhosa! Sua amizade tem para mim um valor infinito, não apenas porque vou ser o marido de Nancy, mas por mim mesmo. Não podemos voltar a viver em boa harmonia?
Apesar de todo o domínio que tinha sobre si mesma, Catherine sentiu um calafrio de terror mortal percorrer-lhe o corpo. Ela, que procurara fugir de Madden a qualquer preço, por amor de Nancy! De súbito constatava que essa completa mudança de atitude era uma flagrante inabilidade. Não sabia mais a que santo agarrar-se e experimentava um vago sentimento de consternação.
— Está redondamente enganado — balbuciou — Já lhe disse que tenho estado preocupada estes últimos dias, mas isto nada tem que ver com a nossa amizade.
— Quer dizer que nada notou por você mesma?
Ela abanou a cabeça.
— Ah! É assim? — Madden calou-se. Depois teve um sorriso meio embaraçado. — Então, a verdade é que nada há a fazer!
A música parou, e eles voltaram para a mesa. Alguém havia enchido a taça de Catherine. Ela a esvaziou de um trago, e o champanhe que borbulhava em suas veias a reanimou um pouco. Quando olhou em torno, viu Madden que novamente dançava com a noiva, e o médico de bordo que se aproximava da mesa para tirá-la. Em seguida dançou com o Sr. Pym, que nunca deixava de fazer um giro com ela pela sala, e depois, mais uma vez, com o comandante. Por fim, aproveitou o fato de algumas pessoas abandonarem o salão para se retirar também e recolher-se ao camarote.
Ler era-lhe impossível, e não podia pensar em dormir. Deitou-se e ficou a lutar interminavelmente com os pensamentos os mais diversos que a assaltavam. Virava-se para um e outro lado, e só quase de manhã foi que caiu num sono profundo.
Quando a camareira a despertou, o navio já entrava no porto, e diante dela desfilava, lento, o panorama de Nova York. Esse espetáculo e a perspectiva de chegar enfim ao final da viagem, de tomar pé em terra firme e poder em breve escapar, restituíram a Catherine um pouco de sua segurança. Vestindo-se rápido, ela subiu para o convés. Estava, sobretudo, decidida a nada deixar perceber, a não ceder e manter sua decisão até o fim.
No convés superior, avistou Nancy e Chris. Contemplavam a silhueta duramente recortada da cidade, que se desenhava no céu como uma Acrópole moderna. Tendo reconquistado sua confiança em si mesma, podia ostentar uma postura tranqüila.
Depois de um vago cumprimento, dirigido tanto à sobrinha quanto a Madden, ela falou:
— Não é admirável? Sinto-me feliz de que Nancy tenha a oportunidade de ver Nova York sob um aspecto tão favorável.
— Sim — respondeu Nancy — parece uma cidade magnífica. — Seu olhar refletia um interesse desacostumado. — Ver a América pela primeira vez é um acontecimento que conta na vida de uma pessoa.
— Poderia ser confundida com Cristóvão Colombo — sussurrou Catherine.
— Exatamente — replicou Nancy. E semicerrando os olhos: — Apenas, desta vez é a América que vai me descobrir!
O Sr. Pym aproximou-se, mais respeitável do que nunca. Voltando-se para Catherine, murmurou com ar misterioso:
— Os repórteres estão a bordo, Miss Lorimer. Quer, como é de praxe, ficar alguns instantes à disposição deles?
Catherine compreendeu a intenção amistosa de Pym. Ele queria dar-lhe a oportunidade de explorar com fim comercial a nova da sua chegada com a miniatura. Ninguém tinha mais nítida noção da importância da publicidade do que o silencioso Sr. Pym. Virando-se, ela avistou o grupo de repórteres que se aproximava lentamente. De colarinho aberto e chapéu desabado, eram na sua maioria rapazes de ar altivo e indiscreto.
— Morning, Miss Lorimer — fez o que vinha na frente, tocando na aba do chapéu.
Catherine reconheceu Kelly, representante de um dos principais vespertinos.
— Alegra-me vê-la de novo. Como vai? Bonita atualidade, esse velho quadrinho antigo que traz do outro lado do mar, não?
Catherine concordou, e se preparava a descrever a miniatura sob as cores mais atraentes quando seus olhos caíram sobre Nancy, que observava a cena com uma viva curiosidade. Um sentimento a empolgou, afastando de um golpe todas as suas preocupações pessoais. Sem pensar mais, falou:
— Touxe algo mais interessante. A miniaturazinha não tem tanta importância, ou pelo menos, pode esperar. Mas quero apresentar-lhes minha sobrinha Nancy Sherwood. Vai trabalhar na nova temporada de Bertram. Se querem tirar-lhe a fotografia de antemão, aproveitem a oportunidade, porque ela vai dar o que falar!
Instantaneamente nove pares de olhos se desviaram de Catherine para se colarem em Nancy e nove abas de chapéus fizeram um pequeno salto no ar. Houve um breve silêncio.
— Escute, Miss Lorimer — falou depois Kelly com um ar compenetrado — parece-me que a senhora tem razão. Que acham vocês, rapazes?
Enquanto Catherine se afastava, todos os obturadores estalaram e depois uma saraivada de perguntas caiu sobre Nancy. Ela a enfrentou sem pertanejar e respondeu habilmente a tudo, distribuindo os sorrisos mais amáveis.
Quando terminou a entrevista, Nancy exclamou, esfalfada:
— Muito obrigada, Catherine. Era justamente o novo começo que eu desejava.
Apoiado ao corrimão, Madden seguira de longe a cena. Aproximou-se e, pela primeira vez naquele dia, dirigiu a palavra a Catherine:
— Nancy prometeu almoçar comigo no Waldorf. Não quer ir conosco?
Catherine esboçou um gesto de pena.
— Tenho o que fazer — respondeu, agradecendo o convite com um sorriso intencionalmente convencional — e nos primeiros dias estarei muito absorvida.
— Mas não se esquecerá de Vermont, não é?
— Não, decerto. Não esquecerei.
Deixaram o tombadilho juntos e, quando Catherine se despediu de todos os conhecidos, as formalidades de polícia foram rapidamente atendidas. Fosse de propósito ou por acaso, perdeu de vista Nancy e Madden. Uma vez na rua, chamou um táxi e foi sozinha para o hotel.
Capítulo 10
Catherine mergulhou de cabeça baixa no trabalho, porque via nisto o único remédio para o atroz sofrimento que lhe dilacerava o coração, sem lhe dar tréguas.
Logo que chegou ao Tower Carlton, onde costumava hospedar-se, telefonou a Breuget, seu correspondente em Nova York. Ele não fora recebê-la no cais por determinação dela mesma, mas esperava o chamado e correu logo ao hotel. Catherine mal tivera tempo para se instalar no pequeno quarto verde e dourado que tantas vezes já a acolhera, de lançar um olhar pela janela que da altura de 30 andares dominava o gigantesco desfile da Quinta Avenida, de cumprimentar o gerente do hotel, Sr. Lenz, que a cumulara de flores, de frutas e de manifestações de júbilo e confirmara que um segundo quarto de dormir, contíguo ao dela, estava reservado para Miss Sherwood, e já Breuget se precipitava com as mãos estendidas, a barbicha em bico à francesa, fremindo de contentamento.
George Breuget, parisiense, era, de profissão, especialista em objetos de arte e relógios do século XVIII. Vindo para Nova York tentar sua oportunidade, falira, e teria literalmente morrido de fome se Catherine não o socorresse.
Beijando-lhe a mão, o francês lhe fez uma série variada de cumprimentos, cada qual mais galante, instalou-se numa poltrona e apoiou sobre os lábios o castão da sua célebre bengala de cana, como se quisesse ele próprio pôr um termo à sua inesgotável loquacidade, e ficou à espera das perguntas e das ordens da moça.
— É verdade, Breuget — disse ela, virando-se para trás e olhando-o nos olhos. — Trouxe a miniatura.
— Perfeito, Miss Lorimer.
— Entrou em contato com Brandt, como lhe pedi?
— Está tudo bem encaminhado. Brandt é esperado em Nova York dentro de 10 dias — Breuget puxava pelo "r" com ingênua suficiência. — Quarta-feira às 15 horas ele virá ao meu escritório para ver a miniatura. E... para a comprar, Miss Lorimer, a senhora verá. É o que lhe digo. Confie em mim.
Catherine cerrou os lábios.
— Que você esteja com a razão! De qualquer modo, agiu bem. Nesse meio tempo, vou expor a miniatura. Toda Nova York deve admirá-la, habilmente realçada num estojo de veludo verde. É preciso também que os marchands a vejam; todos eles, Ascher e os outros. É necessário que se fale muito dela; isto nos ajudará. Não tenho o menor desejo de que o nosso amigo Brandt acredite poder impor-nos o seu preço. O preço somos nós que o fazemos. Não é, Breuget?
— Naturalmente, Miss Lorimer. Evidentemente, as circunstâncias atuais são desfavoráveis.
— Desfavoráveis? São francamente más. Mas escute, meu velho amigo, vou dar-lhe um rude golpe. Se não conseguirmos vender essa miniatura, 100 mil dólares sonantes, nós dois teremos que procurar outro meio de vida.
Breuget deu de ombros, com otimismo, como para tranqüilizá-la.
— Conseguiremos, Miss Lorimer, e em seguida galgaremos a encosta. Estou convencido de que os negócios vão se animar. Se conseguirmos atravessar estas próximas semanas, estaremos salvos.
Catherine fez um sinal de aprovação, e seu olhar se perdeu de novo no vazio.
— Sim, — murmurou — mais algumas semanas e depois tudo andará melhor.
Fez um esforço para coordenar as idéias, levantou-se e pôs o chapéu.
— Ao trabalho, vamos expor o Holbein. Mas primeiro olhe-o.
Breuget pegou a miniatura e pôs-se a estudá-la com um ar diferente de êxtase.
— Maravilhoso, maravilhoso! — exclamou por fim.
De pé, ao lado dele, Catherine contemplava também o retrato com novos olhos, e sentia-se invadida por um sentimento de piedade que nunca antes experimentara. Aquela fisionomia agora lhe parecia viva. Lia nela as suas próprias angústias e as próprias aspirações. Naqueles traços que todos diziam parecidos com os dela, vislumbrava uma tristeza muito próxima da sua, destino de solidão e de melancolia semelhante àquele de que ela própria estava ameaçada. Parecia-lhe que sua alma escapava misteriosamente para ir fundir-se com a de Lucie de Quercy. Experimentava no fundo do seu coração uma impressão estranha, a impressão de retroceder no espaço e no tempo; e em meio ao tumulto da vida moderna, parecia-lhe perceber o eco longínquo de épocas passadas.
— É curioso, Miss Lorimer, este retrato parece com a senhora de maneira surpreendente.
Catherine fez um gesto de enérgica discordância sob o qual procurava ocultar o efeito que essas palavras lhe causavam. Com uma voz ligeiramente rouca, respondeu:
— O primeiro que agora me disser isto, atiro-lhe uma cadeira à cabeça.
Depois, fazendo meia volta, encaminhou-se para a porta.
Os dois desceram a Avenida em direção ao escritório, numa pequena loja apertada entre um atelier de alta costura e uma elegante casa de flores. No caminho, e como já passasse de 1 hora, Catherine induziu Breuget a ir almoçar com ela. Foram a um pequeno bar, onde comeram sanduíches com café e bolos.
Chegando ao escritório ela se entregou prazerosamente ao trabalho de dispor a miniatura na pequena vitrina com moldura de bronze sobre um fundo de veludo de Gênova cor de borra de vinho. Enquanto se entregava a esse pequeno trabalho de decoração, disse consigo mesma que aí estava toda a razão de ser de sua existência.
As francas felicitações de Ascher, que não tardou em aparecer, a alegraram muito. De todos os marchands de Nova York era sem dúvida o mais competente, e Catherine notou que ele aprovava inteiramente a aquisição. Mais tarde, porém, quando retomou o caminho do hotel, sentiu-se de novo deprimida e muito fatigada.
No hotel, Nancy tomara posse do seu quarto à sua maneira habitual, isto é, espalhara suas coisas por todos os cantos e se estendera no divã, tendo ao lado a lâmpada acesa e o chá preparado. Esse cenário familiar lhe restituiu um pouco do seu bom humor. Tirou os sapatos, enfiou os chinelos e em dois tempos trocou o vestido por um robe de chambre [roupão] confortável e macio, cinzento-rola. Então sentou-se perto de Nancy e serviu o chá. Descobriu, com um sorriso, que Nancy desdenhara o chá do hotel e se servira da provisão que ela trouxera de Londres.
— Como passou a noite? Bem?
— Um verdadeiro encanto, querida — respondeu Nancy, abandonando o estudo do papel e encarando Catherine com seus grandes olhos brilhantes. — Um jantar magnífico com ostras excelentes, Chris chama-as, parece-me, bluepoints, e um faisão tenro, verdadeiramente divino. Depois levei Chris ao teatro. Uma pura maravilha. Podemos começar os ensaios no Imperial quinta-feira. Oh! Catherine, como gosto de Nova York! E aposto com você um chapéu novo como ela corresponderá ao meu amor.
Comeu o último pastel que havia deixado no prato.
— Ainda não olhou os jornais, querida? Estão ali no chão. Em gera!, está bem. Meia coluna de texto e quatro fotografias excelentes.
Catherine pegou os jornais e os percorreu com atenção.
— É. Ótimo. Para começar em Nova York, você entrou com o pé direito.
Nancy ria e se estirava como um gatinho que a gente acaricia.
— E todo mundo é tão gentil comigo! Chris é incomparável. Não pode avaliar quanto gosto dele. Imagina, ele quer por força que nos casemos logo após a estréia, e creio que será muito bom assim. Seria um verdadeiro conto de fadas se desde o meu primeiro contato com o público eu tivesse o meu sucesso... porque sinto, querida, que vai ser um grande sucesso!... e ainda por cima um casamento em puro estilo romântico!
Interrompeu-se.
— Você gosta de Chris, não é, querida?
— Bem sabe disto.
— E ele gosta de você também — prosseguiu Nancy — e tem por você a maior estima. Ainda agora falava a respeito. Teria um grande prazer em que fosse almoçar conosco no Waldorf, amanhã ou um destes dias.
Catherine encarou-a surpresa:
— Não quer dizer que ele está hospedado no Waldorf...
— Está sim, querida. Por que não? Eu sei bem que ele preferiria um hotel modesto, mas eu sou pela sofisticação e o convenci.
— Mas o Waldorf é horrível de caro! — observou Catherine num sobressalto. — Está certa mesmo de que ele pode com todas essas despesas, essas mudanças, essas flores, esses presentes, e hotéis tão luxuosos? Se não pode, não fica bem impeli-lo a isso.
— Não fez objeção — replicou Nancy, dando de ombros.
— Você não há de pensar que ele protestaria. Não é homem para o fazer. Detesto falar dessas coisas, Nancy, mas é um capítulo no qual temos de ser francos uns com os outros!
Nancy sorriu com o seu sorriso mais sedutor.
— Não se preocupe, querida. Tudo vai bem para Chris. Em Cleveland ele vive como um alto personagem. Foi meu dedo mindinho quem me disse. Não me olhe com um ar assim severo! Não tenho vontade de discutir por causa dessas histórias. Já me zanguei bastante com Chris hoje à tarde devido à viagem a Vermont.
Calaram-se. Nancy atravessava visivelmente um desses momentos de total despreocupação em que nada se poderia obter dela.
— Você pensa — perguntou Catherine para romper o silêncio — que Chris gostaria de a apresentar à mãe?
— Sim — suspirou Nancy, resignada. — E a todos os tios, e a todos os primos, à moda da Bretanha. E creio que a todos os moradores da aldeia. Queria que fôssemos quinta-feira para passar lá dois ou três dias. Justamente quando vou estar cheia de serviço com os ensaios. Pode calcular o que seria isso. Em pleno inverno trocar Nova York por um buraco perdido em pleno campo!
— Há pessoas que gostam do campo.
— Bom proveito!
— Precisa ir — disse Catherine com uma voz grave. — É o seu dever.
— Então você vem comigo — respondeu Nancy, amuada.
— Está bem. Fica combinado: não falaremos mais nisso. Ligue o rádio para ouvirmos um pouco de música.