A Dama dos Cravos
Capítulo 18 · Na manhã seguinte, Catherine tinha uma entrevista…
Na manhã seguinte, Catherine tinha uma entrevista de negócios em Riverside Drive, com uma Sra. Van Beuren, que, por informações de Breuget, manifestara interesse pelas suas tapeçarias de Beauvais. Na realidade, essas tapeçarias não lhe pertenciam mas lhe foram confiadas pela casa Richet & Cia., de Paris. Se as vendesse bem, caber-lhe-ia uma comissão importante.
Graças àquele domínio de si mesma, que era um dos traços marcantes do seu caráter, Catherine readquirira toda a sua destreza. Vestiu um costume, e, às 9h30min, punha-se a caminho para o escritório. Breuget que, mais ainda do que habitualmente, brilhava como uma moeda nova, já a esperava. Correu-lhe ao encontro.
— Embalei tudo bem, Miss Lorimer. Podemos apanhar o pacote imediatamente.
— Está bem.
Ele ria, esfregando as mãos.
— Não disse, desde o primeiro dia, que íamos galgar a encosta? Venderemos as tapeçarias. Faremos este ano excelentes negócios...
Fez um pequeno gesto de cabeça, cheio de promessas, saiu na frente, chamou um táxi, instalou cuidadosamente Catherine, amarrou o precioso embrulho e entrou no carro.
— É estranho, Miss Lorimer — disse após sentar-se confortavelmente — eu submeti Ascher a um torniquete em regra, mas nada pude arrancar dele quanto ao comprador da miniatura.
— Tem alguma importância isto? — perguntou ela distraidamente.
— Meu Deus, não, desde que não temos mais nada com o negócio. Mas, de qualquer modo, a gente tem curiosidade. Pense: uma obra tão célebre, e de repente puf! desaparece do mercado.
— Você não disse que o comprador devia ser Sharp?
— Não. Não foi ele. Isto eu sei. Sharp continua fiel aos pré-rafaelitas.
— Será que Ascher quis ficar com o quadro para si mesmo?
— Não. Ele me convenceu de que já o mandou ao cliente.
— Realmente — suspirou Catherine — é estranho... Mas não quebremos a cabeça com isso. É página virada. Pensemos nos nossos projetos.
Chegados a Riverside, eles se encontraram diante de uma casa coberta de telhas, de janelas emolduradas de faiança e com uma bela grade de ferro fundido, cujo aspecto mostrava que aquela residência outrora célebre conservava vestígios do antigo esplendor. A Sra. Van Beuren se tomara de paixão pelas tapeçarias mas não sabia onde as pôr. Tinha já muitos quadros nas paredes da sala de jantar, e as tapeçarias não combinavam com o salão do primeiro andar.
Catherine falava pouco. Seguia a Sra. Van Beuren através da casa e a escutava atenta. Mas, ao primeiro golpe de vista, verificou que o hall de entrada constituiria o lugar ideal.
— Está inteiramente satisfeita com o seu hall? — perguntou à cliente, descendo para o térreo.
— Para dizer a verdade, não estou.
A Sra. Van Beuren olhou em torno de si com um ar de dúvida.
— Acho que falta proporção.
— Então deixe-me tentar uma experiência. Poderíamos fazer dele a melhor peça da casa.
Com a ajuda de Breuget e de um empregado da casa, Ca-therine retirou uma série de gravuras bastante insípidas que decoravam a parede principal e colocou no lugar delas uma tapeçaria representando uma cena de caça. Puxando para trás uma arca italiana que estava meio escondida a um canto, instalou nas duas extremidades dois altos castiçais que descobrira no salão atravancado e colocou entre os dois um prato retangular de prata lavrada.
A metamorfose era surpreendente. O hall ganhara um aspecto inteiramente diverso, e o próprio Breuget aplaudiu calorosamente a reforma, balançando a cabeça. Mas a mulherzinha no seu entusiasmo não parava de falar.
— Sobretudo não mexa mais! — gritava. — Nem um milímetro! Isto deve ficar assim, exatamente assim!
— Sim, mas defronte, na outra parede, falta um grande espelho biseauté de moldura estreita — opinou Catherine. — Nós temos um exemplar magnífico do tempo de George I, que resolveria muito bem.
— Sim, sim — murmurou a Sra. Van Beuren — irei logo amanhã vê-lo.
No caminho de volta, Breuget se pôs a rir e depois, voltando-se respeitoso para Catherine, falou:
— Eu não tinha razão? A encosta está vencida, e chegamos ao cimo. Eu o havia sentido nestes velhos ossos!
O cimo... Que significação podia ainda ter essa palavra para Catherine, pobre dela! A um pretexto qualquer, ela se fez conduzir à Rua 57 e voltou a pé para o hotel. Lembrara-se, de repente, de que Upton ia chegar naquele mesmo dia, e que ela devia ir esperá-lo. Mas a que horas o Europa atracaria?
Ao entrar no quarto, seu primeiro pensamento foi que Charley já devia ter chegado, porque um grande pacote de flores descansava sobre a mesa. Mas quando o abriu, viu que se enganara. Era um magnífico ramo de cravos. Tinham um frescor virginal, exalavam um doce perfume e seu aspecto era um bálsamo para os olhos. Vinha da parte de Madden. Então reacendeu-se a dor no coração de Catherine. Com os olhos semi-cerrados ela premiu suavemente a face contra as macias corolas. A beleza dos cravos lhe era intolerável, tanto aquelas flores lhe pareciam conter em si toda a tristeza de sua felicidade perdida. Ficou assim muito tempo, e, como levantasse os olhos, deu com o espelho na parede. A visão que se apresentou ao seu olhar deixou-a num estupor. Tinha diante de si, como a evocar um passado distante, a imagem exata da miniatura, enriquecida de toda sua história. "A Dama dos Cravos"... — pensou tristemente. — Estava ali, em verdade, todo o seu destino.
Nem uma carta, nem uma palavra acompanhava o buquê. Ela sabia que Madden ia telefonar-lhe; e quase no mesmo instante a campainha tocou. A voz era baixa e morna.
— Preciso vê-la, Catherine — disse ele. — Preciso vê-la imediatamente.
Catherine refletiu rapidamente. Fortalecida pelos acontecimentos das últimas horas, havia firmado de modo irrevogável sua decisão. Mas era claro que devia conceder ainda a Madden um último encontro nem que fosse para lhe comunicar sua resolução. Sua descaída passara. Saberia agora ser forte, e não perder de vista o fim que se traçara. Não querendo almoçar com ele, pensava num lugar a lhe propor para o encontro. De repente, lembrou-se do Metropolitan Museum. Era um cenário que lhe convinha.
Às 2h 15min, transpôs a porta do museu. Madden já a esperava, andando de um lado para outro, no saguão, diante da borboleta. Estendeu-lhe a mão em silêncio. Mas se ela imaginara que a conversa se desenrolaria naquele local varrido pelas correntes de ar, sob o olhar das estátuas majestosas que os contemplavam do alto, enganara-se. Madden a levou para uma sala afastada, onde estavam expostos móveis do primeiro período da história dos Estados Unidos. E em seguida a arrastou para uma peça de madeira lavrada, procedente da costa do Maine, e aí parou e pôs-se a contemplá-la. Ela mediu então a profundeza do sofrimento do amigo. Sua vivacidade da véspera desaparecera. Parecia esgotado, e em sua voz se percebia um estranho cansaço.
— Catherine, eu precisava estar com você! Ontem não pudemos conversar. Você tomou aquela resolução num momento de exaltação. Talvez tenha refletido melhor. Catherine, nós não podemos viver um sem o outro. Vê-la é para mim uma felicidade inexprimível. Passei toda a noite sem dormir, pensando em você. Só há uma resolução. Devemos partir juntos.
Ela compreendeu desde logo que seria mais duro, infinitamente mais duro do que pensara, e foi buscar no mais profundo do seu ser a coragem necessária para resistir.
— Fugir? — perguntou com um pálido reflexo do seu antigo sorriso nos olhos. — Fugir como duas crianças? Eu tenho outro modo de ver as coisas, Chris. Estamos acima disto, parece-me.
— É preciso agir — disse ele com a voz alterada. — Não podemos despedaçar as nossas vidas.
À custa de um esforço extremo, ela conseguiu adotar um acento aparentemente despreocupado.
— Seria o que nós faríamos, se fugíssemos. Nós mesmos nos julgaríamos lamentáveis e covardes.
— Mas por que, Catherine?
— Você se esquece de Nancy?
— Não a esqueço. Mas não é a mesma coisa; a vida de Nancy não depende da minha. Nancy pertence a outra geração, mais dura e mais fria. Não notou, ontem de noite, quando voltamos? E em Vermont? Os outros bem que o observaram, ainda que não dissessem nada. Ela refará a vida mais facilmente do que nós, e terá menos dificuldade em esquecer.
Catherine sacudiu a cabeça.
— Ela o ama. Não, Chris! Não podemos fazê-la sofrer, afastá-la para que nós mesmos sejamos felizes. Muito menos podemos desonrar-nos aos nossos próprios olhos. Se, como diz, temos uma concepção profunda da honra e da fidelidade, não devemos traí-la. Não vê, Chris, que só uma coisa prima sobre todas as outras, e que é a retidão?
— Não sobre "todas" as outras.
Arrebatado pela emoção, Madden tomou-lhe a mão e a apertou contra a sua face.
— Não, Chris, não!
Ele a largou, ficou ofegante, as mãos pesadamente caídas sobre uma mesa, o rosto esquivo, como se não suportasse mais olhá-la face a face.
— Por que faz isto? — disse Catherine com uma voz surda. — Não vê que torna o dever ainda mais duro para nós?
Presa de uma vertigem de paixão, ele a contemplou por muito tempo. Mas Catherine conseguiu encouraçar-se contra o desejo selvagem que lia nos seus olhos. Sentia que estava na obrigação de resistir; devia resistir de qualquer modo. Se não, estariam perdidos.
Um longo e pesado silêncio se fez entre os dois. Madden permanecia de pé diante dela, branco como um morto, e lhe escrutava a fisionomia. Leu-lhe nos olhos uma resolução inabalável. O olhar fixo, como o de um cego, ele olhava pela janela. Alguns minutos se passaram. Por fim falou:
— Está bem, Catherine. Se pensa assim, nada mais tenho a dizer. Vou levá-la para casa.
Capítulo 19
Naquela mesma tarde, Nancy chegou ao hotel às 3h 30min. Não esperava estar livre antes das 5, porque Bertram decidira fazer ainda um ensaio geral antes da première. E avisara Catherine de que não estaria de volta antes da hora do chá, mas não previra que Bertrand mudaria de opinião e despacharia toda a companhia com ordem formal de repousar, a fim de que todos estivessem saudáveis e bem dispostos às 8 horas.
Nancy foi docilmente para casa a fim de deitar-se. Desejando cair na cama imediatamente, evitou passar pelo salão e entrou para o quarto pela porta lateral, sem fazer ruído. Estava inteiramente absorvida pelos seus pensamentos, preocupada exclusivamente com sua próxima entrada em cena. Súbito ouviu vozes ao lado. Surpresa, ficou imóvel no meio do quarto. Reconheceu, perplexa, a voz de Catherine e a de Madden. Sua fisionomia mudou. Percebia nitidamente todas as palavras do que diziam os dois. Eles evidentemente acabavam de chegar e se despediam. Um estranho adeus, cheio de reserva, e, entretanto, sombriamente eloqüente. Cada palavra atingia Nancy como um golpe de clava. Permaneceu pregada no mesmo lugar até que percebeu que Madden se retirava. Cinco minutos depois, Catherine também saía.
Um grito que era ao mesmo tempo um soluço e uma infantil exclamação de horror subiu da garganta de Nancy. Inteiramente atordoada, entrou na sala. Estava incapaz de pensar, as frases que acabara de surpreender ocupavam-lhe toda a mente. Seu olhar errava sobre as coisas, abstrato. Então Chris amava Catherine! Sim. Chris, com quem ela ia casar-se no sábado seguinte, amava Catherine. Uma onda de cólera a percorreu, cedendo depois a uma frieza mortal. Atirou-se ao sofá, mordendo os lábios. Compreendia o que se passara, como se houvesse visto. Catherine e Madden se esforçavam, ambos, por lhe proporcionar a felicidade. Sua altivez encrespou-se. Sentia-se impotente e escarnecida, ela tão segura e confiante em si mesma. Sim, toda a vida foi assim: aceitara todos os bens, como se lhe fossem devidos, achava natural. Por uma revelação fulminante, descobria agora o que era na verdade, e onde estava. Rebentou em soluços.
Não sabia há que tempo estava ali estendida a chorar. Deitou-se de costas. Seus olhos tomaram uma expressão estranha, seu corpo vigoroso e encantador jazia num total abandono. Não estava em condições de coordenar as idéias, mas parecia-lhe que sua sensibilidade ganhara em acuidade e em profundeza. Bastaram aqueles minutos intensos para que se despojasse de sua aparência infantil. Bruscamente deixara de ser uma criaturinha superficial e atingira a plena consciência de si mesma. Em seu derredor, os contornos das coisas se esfumavam. Imóvel, seguia o curso das réstias do sol na parede; mas constantemente voltava-lhe o sofrimento para paralisar o esforço do seu pensamento. Tinha a obscura intuição de um lento trabalho de dissolução, que nela se processava, de uma espécie. de renascimento interior em que seu espírito se expandia como uma luz, e que lhe trazia um calor novo.
Suspirou profundamente, ergueu-se e olhou o relógio. Eram quase 5 horas. Pediu chá, bebeu uma xícara e acendeu um cigarro. Pouco depois abriu-se a porta e Catherine entrou.
— Como? — exclamou atirando o chapéu sobre a mesa — Já está aí?
Nancy fez um breve sinal de cabeça.
— Cheguei neste instante. Tome uma xícara de chá comigo.
Nancy falava com uma calma extraordinária. Serviu o chá, e ficou escutando Catherine que lhe contava a chegada do Europa. Upton estava de excelente humor, e muito contente por poder assistir à première.
Calaram-se as duas, e depois Catherine perguntou com um ligeiro sorriso:
— Como se sente para a estréia?
Nancy olhou para o teto.
— Muito bem. Por quê?
Catherine pousou a xícara na mesa.
— Oh! Não sei. Receava que estivesse nervosa. Oferecia-me para qualquer coisa em que lhe pudesse ser útil.
Houve uma pausa. Nancy esmagou o cigarro no cinzeiro sem voltar a cabeça.
— Não preciso reanimar-me com licores ou bolos — observou com um sorriso misterioso. — É coisa do tempo dos espartilhos, do medo, dos desmaios e das crises de choro.
— Tudo correrá bem, espero. Não é preciso dizer mais nada.
O ar distante de Nancy surpreendia Catherine. Ela contava que a sobrinha ficasse, antes da première, numa certa agitação febril. Ora, a garota parecia, ao contrário, extraordinariamente calma, indiferente mesmo.
Não tirou disto outra conclusão senão a certeza em que Nancy estava de sua felicidade. Quanto ao mais, muito pouco se preocupava com o sucesso ou o insucesso da peça. Isto pouca importância tinha para ela. Por amizade a Nancy, devia assistir ao espetáculo, mas estava firmemente resolvida a deixar logo em seguida, o mais rápido possível, os lugares onde vivera seu doloroso romance de amor. Era uma resolução irrevogável. O Pindaric partia no domingo seguinte. Uma vez a bordo, esse episódio de pungente loucura estaria para ela definitivamente encerrado. Tinha a convicção de que, entregues a si mesmos, Nancy e Madden acabariam por se entender e por esquecê-la.
Vestiu-se para a noite. Marcara encontro com Upton a fim de jantarem no Pierre. Soaram exatamente as 7 horas; era tempo de sair. Beijou cordialmente Nancy, desejando-lhe felicidade. De novo a impressionou a tranqüilidade da moça. Pensou compadecida: "Está nervosa, e procura disfarçar".
O jantar foi com um pequeno grupo: o Coronel Ogden, sua mulher, uma Sra. Moran, e, enfim, Charley e Catherine. Ela mostrara o desejo de que fossem poucos os convidados, porque sabia que Charley, que tinha tantos amigos em Manhattan quanto em Mayfair, convidaria de bom grado uma vintena deles. A despeito do sofrimento que lhe feria o coração, o jantar servido à perfeição, a boa acolhida e os vinhos excelentes, e sobretudo a companhia agradável tiveram sobre Catherine um efeito calmante. Os Ogden eram gente importante, sendo o marido considerado um dos maiores banqueiros de Nova York; e a Sra. Moran, uma mulher franzina, morena e inteligente, era esposa ou, como diziam, a "viúva de pólo", de Ralph Moran, um dos ases desse esporte. Catherine suspeitava de que Charley tivera com a Sra. Moran um caso, que, com o tempo, tomara a forma de uma terna amizade.
Naquela noite, Charley se superou. Com sua loquacidade e suas anedotas manteve a mesa sempre em hilaridade. Deitava champanhe, sem parar, nas taças. À sobremesa, seu riso tinha qualquer coisa de estranho. Gaguejava, ligeiramente, mas nele isto não chocava porque, ao contrário, combinava com sua bonomia natural. Depois de conferenciar com o homem da adega, insistiu em oferecer uma garrafa de um Tokay muito raro. Esse vinho dourado, aromático, capitoso deu o golpe final em Catherine. No momento da partida, ela sentiu que devia a essa leve embriaguez o esquecimento momentâneo de suas preocupações. Era uma sensação muito agradável.
À sua chegada ao teatro, a sala estava já quase cheia e um incrível vozerio agitava-se no foyer [sala de espera]. Graças ao renome internacional e às suas relações, Bertram tinha, mesmo em Nova York, um imenso público. Não podia contar com esse público como uma claque — e mesmo, mais de uma vez, a assistência não se embaraçara em lhe demonstrar o seu vivo desagrado — mas ele lhe assegurava na premiére a presença de numerosos amigos, mais inclinados à severidade do que à indulgência.
Do seu lugar, nas cadeiras da orquestra, Catherine examinou a sala e reconheceu muitos habitués [freqüentadores habituais] célebres. Súbito, tudo pareceu rodar ante seus olhos: na extremidade da mesma fila estava Madden, sentado muito perto de Bertram. Sua impressão foi tal que ela pensou ter uma síncope. O sangue deixou de correr-lhe nas veias, depois agitou-se em torrente batendo-lhe nas têmporas. Baixou a cabeça sobre o programa, segurando-o com a mão trêmula, para fingir que lia. Ele não a tinha visto. As luzes se apagaram, e cessou o rumor das conversas. Aliviada, Catherine levantou a cabeça e olhou o cenário, que representava o salão de uma casa de campo inglesa. Aliás, já conhecia a peça.
O personagem central era um homem de negócios, de idade incerta, chamado Renton, que amava apaixonadamente a mulher. Esta era encarnada por Paula Brent, que fazia uma criatura displicente e felina, inclinada às aventuras. Ao começar a peça, a heroína estava justamente empenhada numa experiência desse gênero, e o primeiro ato era, sobretudo, consagrado às suas efusões e aos acessos de ciúme de Renton.
Os atores eram bons, e os caracteres bem apresentados. Contudo, o público ainda se mostrava reservado. Talvez fosse um pouco lento o ritmo da peça. Paula Brent, no papel principal, tinha muito estilo. Sua criação era calcada na vida: uma mulher bela e indolente, já madura, com uma predileção pelos deshabillés de seda e pelas luzes coloridas, expandindo-se em olhares langorosos e apertos de mão furtivos. Entretanto, Paula nada tinha de particularmente original. Já aparecera muitas vezes em papéis análogos, e ao cair o pano a assistência não manifestou mais do que uma aprovação cortês .
— Muito bem — observou Upton, satisfeito — mas ainda não vimos Nancy.
A Sra. Ogden inclínou-se para ele:
— É uma desvantagem não aparecer desde o primeiro ato.
— Não sei — disse o marido num tom de dúvida. — Estou curioso de ver qual será o antídoto dessa Brent. Ela é ótima, mas a gente tem vontade de moê-la a pancadas.
O segundo ato passava-se no escritório de Renton, alguns dias depois. Nancy fez sua entrada no papel de Madge Rogers, a secretária de Renton. Quando ela apareceu em cena, Catherine teve um pequeno assomo de orgulho. Imediatamente notara que o Coronel Ogden estava com a razão. O público esperava, impacientemente, senão Nancy, pelo menos a artista que devia enfrentar a Sra. Renton, ou, na expressão do coronel, servir-lhe de antídoto, e de ver como o conflito ia se desenrolar. Desde as primeiras frases, que Nancy pronunciou com uma displicente segurança, Catherine se convenceu de que ela até então não tivera melhor papel. De qualquer modo a menina era particularmente dotada para encarnar caracteres ultramodernos; mas dessa vez o personagem parecia feito sob medida. Dava da pequena secretária, bonita e obstinada, uma imagem tão nítida e tão verdadeira que chegava quase a incomodar. Comparada com as travessuras da Sra. Renton, o papel de Nancy ganhava um relevo importante.
Madge amava Renton. Esse homem honesto e fatigado lhe contava, numa hora de abatimento, todas as suas desgraças domésticas. Com muito sangue-frio, e mesmo audácia, a secretária lhe explicou que ele agia mal com a mulher, era muito tolerante. Devia defender-se mais energicamente, e isto arranjando uma ligação com outra mulher. Era esse o melhor meio de reconduzir a sua esposa à razão. E por devotamento ela se oferecia para fazer nessa aventura o papel de partenaire.
— Meu Deus! — cochichou Upton a Catherine — Nunca pensei que Nancy fosse tão emancipada.
A partir dessa cena, o público começou a se esquentar. Desaparecera a reserva do começo; uma atmosfera de tensão ia se apossando da sala. Catherine estava simplesmente encantada. Sabia que Nancy tivera o pressentimento de que aquele papel lhe oferecia as maiores oportunidades; e agora agarrava a sua chance. Fascinava os espectadores pela sua segurança sob a qual transparecia seu amor egoísta pelo Sr. Renton, e pela sua ardente vontade de vencer graças à sua beleza e à sua habilidade. Catherine se agarrava aos braços da poltrona. Jamais vira Nancy representar tão bem. Esqueceu tudo o que a rodeava, e na obscuridade seu rosto se iluminou. De todo coração desejava a Nancy o maior dos sucessos.
O ato terminava com a resposta de Renton, que, infeliz e fascinado, aceitava a proposta da moça. Logo a sala explodiu em aplausos; eles foram em crescendo até o momento em que Nancy se apresentou só à frente do pano. Fez-se, então, um grande alarido. Ainda febricitantes, os espectadores se levantavam. Em todos os lábios adejava uma pergunta que tocava os ouvidos de Catherine como uma carícia.
— Quem é ela?
Sim, era Nancy Sherwood, a descoberta de Bertram. Recordavam-se as reportagens anunciando a chegada de Nancy a bordo do Pindaric. Na sala de espera e nos corredores, o tema era retomado e desenvolvido, acompanhado das suposições mais absurdas. O próprio Bertram, cuja fisionomia estava radiante, era assaltado por pessoas que o interrogavam com curiosidade. Quando Catherine passou por ele, para voltar ao seu lugar, o empresário atirou-lhe por cima do ombro um sorriso cúmplice:
— Eu não disse?
Ele acrescentou com um ar confidencial:
— E tudo isto graças a uma dor de dentes...
Terminado o intervalo, toda a gente correu para seus lugares.
— É uma beleza, não se pode nem fumar um cigarro até o fim.
Ogden exclamou:
— Tanto pior para o cigarro. Eu quero saber o que vai acontecer!
Era o estado de espírito geral. Todo o público estava concentrado na atitude de intensa curiosidade. Subiu o pano em meio a um profundo silêncio. O cenário era um quarto de hotel em Littleton-on-Sea, onde Renton fora passar o fim de semana com a secretária. Estava-se no verão, e pela janela entreaberta viam-se o céu azul e o mar. Quando Nancy apareceu, houve algumas palmas, logo reprimidas. Era evidente que ela já conquistara completamente o público.
Trajava um elegante vestido de praia, de listras grandes, e uma atitude frívola marcava seus menores gestos. Acendendo um cigarro, estendeu-se na espreguiçadeira e considerou com um ar satisfeito os pés de unhas pintadas de vermelho. Anunciou então a Renton, como uma coisa muito natural, que a mulher dele resolveu divorciar-se. Renton não podia acreditar. Mas não era propriamente um gracejo. Madge sabia desde o começo que, longe de reconciliar Renton com a mulher, aquela aventura lhe fornecia o pretexto que ela procurava para obter a desejada separação com todas as desejáveis compensações morais e financeiras. E realmente a Sra. Renton, um instante depois, entrava no quarto.
A cena que punha frente a frente as duas mulheres, enquanto Renton permanecia aniquilado a um canto, era das mais emocionantes da peça. Dela se desprendia uma impressão de rara violência. Nas intenções do autor, fora escrita para a Sra. Renton. Segundo todas as leis do teatro, esta devia ser a figura dominante do drama. Mas todas as leis do teatro foram subvertidas. Impelida por uma força misteriosa, Nancy não consentia em ser eclipsada pelo personagem principal. Cada golpe recebido, ela o revidava com sangue-frio. Seu texto não a ajudava como o da rival, mas ela sabia como o utilizar de modo a forçar a admiração dos espectadores. A significação do conflito que estava na raiz daquela disputa era ainda mais sublinhada e ampliada pelo choque dos caracteres. Na platéia, que escutava, ofegante, a tensão atingira um grau extremo.
— Meu Deus, que demoniozinho! — cochichou alguém atrás de Catherine. — Ela representa a peça sozinha.
À saída, Paula Brent não recebeu mais do que algumas fracas palmas. Todos os olhares continuavam fixos em Nancy. Agora que a mulher fora embora, a secretária usava toda a sua influência para fazer o desgraçado Renton aceitar a solução que ela friamente premeditava: casar com ela. E passando para o quarto vizinho, deixou-o entregue ao seu dilema. De onde o título da peça.
Renton descobriu então a cilada que Madge lhe armara. Desde o início, ela decidira forçar o casamento. Na sua derrota, Renton percebeu que tinha sido vítima de duas mulheres: a esposa e a amante. Elas haviam tecido a teia em que se deixou prender. No auge do desespero, empunhou um revólver e meteu uma bala na cabeça.
Era o ponto culminante da peça, e devia ser o ponto final. Mas o original foi superado, com a volta de Nancy à cena. Bertram previra o efeito, e habilmente modificara, em conseqüência, o desfecho. Nancy ouvira o tiro. Trazia ainda o traje de praia, e avançava lentamente, quando tropeçou no corpo de Renton estendido no assoalho. Estava morto. Então se desenrolou uma cena sem palavras que superou de muito os minutos precedentes e os relegou ao esquecimento.
Era uma cena contida e emocionante, de pura pantomima, porém em que Nancy atingiu os mais altos cimos da arte dramática. Em presença do cadáver, despojou-se dos seus ares de frivola superioridade. Ajoelhou-se aos pés dele; a fisionomia se lhe transfigurou, seus traços se desmancharam sob a crispação da dor. Amara aquele homem, e ele estava morto. Esta revelação fulminante aniquilava as ilusões, as imposturas e as burlas de que ela vivera até então. Fechando os olhos, pegou a mão do morto e a levou aos lábios num gesto tão trágico em sua simplicidade que ia direto ao coração. Nenhuma palavra saiu de sua boca, até o momento em que, num gesto de abatimento, deixou cair a mão inerte, foi ao telefone e disse com uma voz desesperada:
— Venha ligeiro, por favor, alguém acaba de se matar!
Era empolgante. O pano caiu em meio a um silêncio total. Uma emoção inesquecível apertou a garganta dos espectadores; ficaram sem voz. Em seguida estalou uma tempestade de aplausos e bisados no meio dos quais se ouvia a cada momento o nome de Nancy. Era o triunfo. Vários jornalistas logo o proclamaram: não foi apenas um enorme sucesso, mas uma grande sensação. E isto valia enormes manchetes; eles se conheciam!
Nancy voltou ao proscênio, a princípio pela mão de Paula Brent, pálida e um pouco apagada, depois sozinha, trazendo nos braços um ramo de flores. Empolgada por essas manifestações de entusiasmo, inclinou-se. Afinal caiu o pano de vez. Na sala de espera muitos se deixavam ficar gesticulando. Não havia mais dúvida: era uma sensação de verdade. Catherine, ainda excitada pelo triunfo de Nancy, e penetrada da impressão trágica da última cena, virou-se para Upton e os outros.
— Então, que dizem? — falou com a voz trêmula. — Não esteve fabulosa?
— Meu Deus! — disse Charley, assoando-se com ruído — Era preciso assistir para crer. Nunca vi Nancy tão boa.
— Ela é maravilhosa! — exclamou a Sra. Ogden, cujos olhos ainda estavam úmidos — Simplesmente maravilhosa!
Na multidão que se comprimia em direção à saída, o nome de Nancy estava em todas as bocas. Catherine surpreendeu um crítico célebre que, espremido no meio da balbúrdia, trocava impressões com um colega de outro jornal, no tom aborrecido que lhe era habitual.
— Estava bem — disse Grey. — Que acha você, Sam?
— É, pode ser — rosnou Sam Izzard entre dentes. — De qualquer modo, uma garota terrível, que não tem medo de nada!
— E a Brent?
— Assim, assim.
— Não chega ao calcanhar da outra, não é?
— Talvez.
— Mas a pequena é boa.
— Não há dúvida. Mas ouça. Há tantas que começaram assim e depois se evaporaram. Mas essa pequena não terminará assim, ah, não! Ela tem qualquer coisa em si. E nessa idade! Ela cumprirá as promessas.
A multidão escoou-se aos poucos, arrastando os dois críticos. Mas as palavras deles ficaram gravadas na memória de Catherine. No corredor que conduzia ao palco, ela deu de cara com Madden, Bertram e vários outros que iam para os bastidores.
Encarou Madden e exclamou, entusiasmada:
— Não é uma criação maravilhosa?
— Sim, maravilhosa, e o próprio Bertram está entusiasmado. Diz que esperava muito de Nancy, mas que ela lhe ultrapassou a expectativa.
Na entonação da voz de Chris, Catherine discerniu uma determinação e uma vontade de renúncia que lhe produziram a impressão de desafogo e também de profunda tristeza. Sabia bem que Madden respeitaria o compromisso que assumira para com ela até o fim.
Diante do camarote de Nancy, ela foi detida por Bertram, cujos ombros maciços barravam a entrada. A cordial expressão do seu rosto parecia proclamar que se tratava de uma coisa perfeitamente normal, duma reação bem natural numa artista que acaba de passar por uma tensão extrema. Com efeito, ouvia-se dentro Nancy que, nessa hora de estrondoso triunfo, soluçava perdidamente.