A Dama dos Cravos

A. J. Cronin · Capítulo 5 de 18

Páginas do PDF

A Dama dos Cravos

Capítulo 4 · Para seguir a praxe, o autor teria…

 

Para seguir a praxe, o autor teria de introduzir aqui uma cena sensacional, de efeito irresistível. Com grande horror dos milhões de ouvintes, Nancy cairia sem sentidos diante do microfone e seria transportada para casa debaixo de uma tempestade de neve, em conseqüência do que contrairia uma pneumonia dupla e morreria, com acompanhamento de violinos, no espaço de 24 horas.

Na realidade, malgrado o pouco tempo de que dispunha para estudar o papel, e apesar de sua enxaqueca, Nancy se saiu brilhantemente. Ao voltar para casa, pensava em Beechwood, e preparava-se para receber uma saraivada de censuras. A essa hora, Madden já estava em caminho para encontrar-se com ela.

Na manhã do dia seguinte, a vida retomou seu curso regular. Não apenas Nancy escapou ao trágico destino que acabamos de descrever, mas até se sentia melhor. A temperatura era de novo normal, e na segunda-feira ela estava em condições de recomeçar os ensaios de "Noite de Luar na Arcádia".

Entrementes, também Catherine voltara ao trabalho. Sentada no escritório, a cabeça entre as mãos, contemplava com ar ansioso a miniatura de Holbein que repousava num estojo de veludo verde. O Sr. Sugden, um dos diretores da Galeria Vernon, fizera questão de trazê-la em pessoa. O olhar de Catherine, ao mesmo tempo perscrutador e grave, pousava longamente sobre o pequeno retrato.

Era uma obra-prima de delicadeza, e dela emanava uma impressão de sutil melancolia. Lucie de Quercy estava de pé, ao lado de uma mesa de dois planos, um dos quais, o de cima, era coberto de um pano de brocado vermelho, enquanto o de baixo suportava um bandolim e alguns livros. Usava um vestido marrom enfeitado de arminho; e sua mão, descansando negligente sobre o brocado, segurava um ramo de cravos. Era muito bonita, de uma beleza pálida, frágil e cismadora, que irradiava um encanto esquisito, meio enigmático. Sobretudo os olhos, de um castanho acentuado e profundo, exprimiam uma compreensão infinita. Ela parecia fixar Catherine com a insistência de uma pessoa viva. Havia qualquer coisa de tão íntimo e de tão eloqüente em seu olhar que Catherine tinha a impressão de ler nele uma confidência que, há séculos, lhe estava especialmente destinada, e que a arrastava a um passado remoto. E ela se surpreendeu quase respondendo ao olhar de Lucie de Quercy, como se se abandonasse à influência dessa mulher tão misteriosamente bela naquele seu ar absorto.

Catherine a conhecia bem a história dessa dama dos cravos, inseparável da miniatura e baseada em dados históricos. A jovem francesa viera para a corte de Henrique VIII com seu pai, o Conde de Quercy, para se iniciar na vida mundana, mas, principalmente, para mandar fazer seu retrato por Holbein. Após muitos e sérios aborrecimentos de dinheiro, o artista pouco antes deixara a Suíça para vir fixar-se em Londres. Lucie deixara em Paris o noivo, Pierre de Noailles. Não estava ligada a ele por um sentimento superficial, mas por um amor ardente, sincero e puro. O retrato foi executado (figura hoje na Galeria Real de Haia), e Lucie pediu ao mestre que fizesse uma cópia em miniatura para o noivo. Holbein acedeu, e a miniatura ficou mais perfeita do que o próprio quadro. Na primavera desse mesmo ano Lucie o levou para Paris, mas, ao chegar, soube que dois dias antes Noailles havia sido morto em duelo. Ficou-lhe a miniatura como uma trágica testemunha do seu incurável desgosto. Nunca se casou. Com o coração despedaçado, suportou o destino. Consagrou-se às obras de caridade, e morreu num convento com 37 anos.

Pancadas na porta chamaram Catherine à realidade. Ficou ainda um instante imóvel; depois, com a voz ligeiramente trêmula, falou:

— Entre.

Era o seu procurador, o Sr. Walters. Ele parou junto à mesa com um grande pacote escuro na mão, e olhou gravemente a miniatura por cima dos ombros de Catherine.

— Muito bonito, Miss Lorimer — murmurou em voz baixa e deferente — muito bonito de verdade!

O Sr. Walters era sempre extremamente digno e respeitoso. Era um velho de aspecto paternal, muito bem tratado. Com o seu colarinho alto e engomado e seu modo de vestir quase sacerdotal, lembrava um alto dignitário da Igreja. O andar era também eclesiástico e, a cada passo, seus pés pareciam acariciar o tapete. Já há longos anos trabalhava para Catherine, e ela conhecia de cor e salteado todas as pequenas fraquezas do empregado. As principais eram uma paixão excessiva pelo chá muito forte e sua devoção pela arte gótica. Apegava-se tão imperturbavelmente aos seus hábitos que encarnava em si uma verdadeira instituição; e seu amor pela profissão de antiquário, sentimento que o punha em constante conflito com os marchands, cuja grosseria o exasperava, era verdadeiramente tocante. Acontecia às vezes que Catherine, por brincadeira, o perturbava gritando-lhe do alto da escada "rápido, rápido, Sr. Walters!", mas no fundo tinha-lhe grande estima.

— Uma pequena obra-prima — prosseguiu o Sr. Walters com admiração. — É notável que todos esses detalhes em nada prejudiquem a impressão do conjunto.

— Notável, realmente — disse Catherine aprovando secamente a observação, como se tivesse de fazer um esforço para falar.

— E tão característico desse pobre Holbein! A senhora achará talvez engraçado que eu o chame de "pobre". Mas é sempre com piedade que me lembro da terrível moléstia de que ele morreu. Não tinha mais de 46 anos. Conhecera maus momentos em Bâle e, para cúmulo da infelicidade, perdeu todo o dinheiro que possuía. Entretanto, deve ter sentido uma grande alegria em pintar essa miniatura. Que mulher encantadora! Sabe também, Miss Lorimer... perdoe-me a observação... que ela se parece com a senhora?

— Está gracejando!

— É verdade, parece. A semelhança é mesmo impressionante. Esses olhos são exatamente os seus. — Fez uma pausa. — Creio que conhece a história dessa mulher.

— Claro que conheço — replicou friamente Catherine. — Todos os negociantes de antigüidade a conhecem, e não vamos repisá-la. Pobre criatura!

O Sr. Walters pareceu surpreso com o tom da resposta.

— Está bem, está bem, Miss Lorimer. Eu apenas dizia comigo mesmo que essa história parecia interessar-lhe.

Catherine se voltou para ele, com um sorriso forçado.

— O que me interessaria ainda mais seria vender a miniatura. Precisamos de dinheiro, Sr. Walters; e o senhor sabe. Como vamos com Lady Ansen?

Walters hesitou na resposta.

— Lady Ansen telefonou hoje de manhã. — Sua voz tomou uma entonação inquieta. — Resolveu não fazer a restauração que planejava.

— Como! — exclamou Catherine com um ar de contrariedade. — Ainda quarta-feira ela nos dizia que ia começar.

— Eu sei — disse Walters, baixando a voz. — Mas mudou de opinião. Disse que os tempos estão muito duros.

— Duros... — repetiu Catherine com azedume. Conteve-se. Chegara ao ponto de ceder ao enervamento, mas para que se entregar?...

— Lamento muito — prosseguiu Walters. — Fiz tudo para convencê-la.

— Sei, sei. Evidentemente a culpa não é sua. Não o censuro. E Lady Ansen tem toda razão. Os tempos estão verdadeiramente difíceis. Para todo o mundo e para nós também — acrescentou com um suspiro.

Seus olhos se fixaram de novo na miniatura.

— Temos de vender esse Holbein nas melhores condições possíveis e rápido!

— A senhora está pensando em Brandt, de Nova York, não é?

— Sim, em Brandt. Ele pode aproveitá-lo para a exposição, estou certa. Se não houvesse partido para a Argentina, não teria faltado a esse leilão. Teria, sem dúvida nenhuma, chegado a 20 mil libras, Sr. Walters. É o que deve dar-me pela miniatura.

— De acordo, Miss Lorimer. — Baixou a voz. — A senhora teve ocasião de fazer ótimo negócio com ele, da outra vez. Tem muito gosto e uma enorme fortuna.

— Uma enorme fortuna? Deus o sabe! — respondeu Catherine abatida.

— A senhora mesma vai fazer a viagem, Miss Lorimer?

— Sim. Informe-se dos navios que vão partir no começo do mês que vem. Creio que há o Pindaric no dia 7; é um bom navio. E sobretudo conseguirei nele um camarote muito barato.

Walters conservava os olhos fixos no chão.

— Será que as coisas vão assim tão mal, Miss Lorimer? Eu pensava... decerto, estou a par da situação... Mas não pensei que chegasse a tanto.

Calou-se, e depois prosseguiu, elevando a voz num pequeno crescendo dramático:

— Se posso fazer alguma coisa, Miss Lorimer, ajudá-la, não importa como...

A fisionomia de Catherine iluminou-se, num sorriso gracioso e sincero.

— Seria completo, Sr. Walters! O velho empregado de cabelos brancos, sacrificando as economias de toda uma existência para salvar a patroa da falência! Não, não chegamos, apesar de tudo, a esse ponto. Temos sempre saído das dificuldades, e sairemos ainda desta vez. E agora, não fique aí plantado diante de mim, com os olhos arregalados, como se o oficial de justiça já estivesse esperando atrás da porta. Vamos, ao trabalho!

— Decerto, Miss Lorimer — balbuciou o velho, retirando-se.

Ao chegar à soleira, lembrou-se do embrulho que trazia na mão.

— Ah! Eu ia me esquecendo. Eis aqui, Miss Lorimer, o que trouxeram para a senhora.

Voltou, depôs o embrulho na escrivaninha, e saiu dignamente na ponta dos pés, fechando a porta sem fazer ruído.

Ficando só — porque ela jamais deixaria transparecer diante de Walters a gravidade da sua situação — Catherine retomou sua expressão apreensiva. Com um gesto cansado, pegou o pacote. Ocupou-se um instante em desatar o nó, porque nunca se decidia a arrebentar brutalmente um cordão, muito menos um bonito cordãozinho tricolor como aquele. Conseguiu-o, afinal, e o papel se abriu. Os seus olhos se arregalaram, traindo um verdadeiro encantamento e alegria: a caixa regurgitava de magníficos cravos. Antes mesmo de notar o cartão que os acompanhava, já sabia que as flores vinham de Madden, porque se lembrava de haver dito, quando passavam à margem de um jardim, no caminho de Beechwood, que o cravo era a sua flor preferida. Pegou o cartão: não era impresso e trazia estas palavras escritas em boa caligrafia: "Chris Madden, Cleveland, Ohio". No verso, leu esta breve frase: "Em sinal de reconhecimento pelo fim de semana interrompido — e por Nancy".

Não pôde reprimir um riso divertido à idéia de que seus direitos de propriedade sobre Nancy estavam assim reconhecidos e proclamados. Mas que alegria receber aquelas flores maravilhosas! Havia uma eternidade que ninguém se lembrava de oferecer-lhe cravos, e como era gentil da parte de Madden ter se recordado daquela declaração feita de passagem! Depois de pôr o ramo num velho vaso de Worcester, cuja tonalidade dum marrom-fosco e dourado combinava bem com a cor dos cravos, disse a si mesma num pequeno acesso de alegria interior: "Não convém, entretanto, que eu o deixe pegar o costume...".

Um perfume intenso e suave encheu logo a sala. Ela escolheu um lugar para o vaso em cima da escrivaninha. Já calma, trancou a miniatura no cofre, e depois mergulhou de novo no trabalho, que nada tinha de agradável. Tomando de um lápis e de um bloco, começou a fazer a conta das suas dívidas.

Tivera de tomar emprestados 6 mil guinéus para pagar a miniatura, porque a soma líquida de que dispunha chegava no máximo a 4 mil libras. Felizmente os bancos lhe facilitavam crédito de bom grado, e o Sr. Farrer, do Banco de St. James, levara a boa vontade ao extremo, adiantando-lhe as 6 mil libras necessárias, sob a garantia exclusiva do conceito de sua casa. Esse empréstimo ela o devia realmente menos ao seu ativo do que à sua reputação pessoal.

Até aí tudo estava em ordem, mas os compromissos que sobre ela pesavam nesse fim de ano eram tão esmagadores que nem se animava a pensar neles: despesas e impostos, impostos vertiginosos, amarga lembrança dos anos de vacas gordas, e montando tudo a 2 mil libras. As contas não pagas, relativas ao material e mão-de-obra, importavam, além disto, em 800 libras. Sem entrar em detalhes, Catherine fez a soma. Os pagamentos que tinha de fazer em janeiro elevavam-se a cerca de 5 mil libras. Essa dívida, inelutável e ameaçadora, é que a levara a lançar-se à aventura desesperada que representava a compra da miniatura. Sabia perfeitamente que estava acuada pela amarga necessidade de conseguir esse negócio com Brandt. Só depois disso poderia fazer face às suas obrigações, cobrir seu déficit no banco, e com os lucros que lhe restassem esperar tempos talvez melhores. De qualquer modo, era-lhe absolutamente necessário revender a miniatura.

Assim que tomou essa decisão, pôde considerar com mais serenidade a longa coluna de cifras. Depois pôs-se a escrever a Breuget, seu representante em Nova York, para lhe anunciar sua próxima chegada e lhe recomendar que entrasse desde logo em contato com Brandt. Era uma carta importante, e, se bem que tivesse ao alcance das mãos a máquina desocupada de Miss Miller, Catherine a escreveu do próprio punho com a sua letra alongada e clara.

Acabava de terminar esse trabalho, quando bateram à porta. Era Miss Miller. No seu rosto magro esboçou-se um sorriso contrafeito e pudico, que revelou de imediato a Catherine a identidade do visitante que lhe era anunciado.

— O Sr. Upton está aí — murmurou Miss Miller. — Ele diz que marcou entrevista com a senhora.

— Creio que é para o almoço, não?

— Parece-me que sim, Miss Lorimer.

Catherine encarou a vermelha Miss Miller com uma curiosidade divertida. Charley Upton tinha seus encantos, não há dúvida, mas causava em Miss Miller uma impressão profunda, e a discreta exaltação, bem feminina, que sua chegada sempre provocava nela, a cada vez produzia em Catherine um novo espanto. "Então", pensava ela estupefata, "um homem representa ainda alguma coisa na vida reconcentrada e árida de nossa Miss Miller!"

— Muito bem. Mande-o entrar.

Um instante depois Charley Upton dava entrada na sala.

— Sabe, Charley? — disse-lhe Catherine, antes que ele pudesse abrir a boca (e ela deve ter se apressado para ser a primeira a falar) — um dia mandarei Miss Miller almoçar com você. Ela era capaz de ter uma síncope de alegria; mas creio que acharia não ser uma recompensa excessiva.

O ligeiro sorriso que Charley deixou escapar ia muito bem com a gardênia que ele trazia à lapela.

— As mós do Senhor giram lentamente — replicou num tom desembaraçado — mas fazem boa obra. Ela nem sempre há de ter sido a triste solteirona que parece.

— Meu Deus, Miss Miller não é velha! Está acabada devido ao excesso de zelo no trabalho, pela freqüência ao seu estúpido clube de mulheres, pelo uso do leite e dos bolos, pelas correrias ao metropolitano e pelas preocupações que lhe traz a bolsa de água quente. Se não tivesse a cada semana sua dose de cinema, de Clark Gable e de você mesmo, Charley, ela definharia lentamente. É o tipo clássico da pobre moça de escritório e da mulher que trabalha para viver; sou eu quem diz, Charley, e sei o que é isso.

Charley continuou rindo:

— Parece-me que você quer discutir comigo hoje. Habitualmente tem tanto o que fazer que não consigo que me ouça.

Catherine o observou com gravidade. Como ele era sempre o mesmo! Um homem moço ainda, impulsivo e generoso, não muito sobrecarregado de inteligência, um pouco enfeitado e envemizado, perfeitamente agradável e gentil. Sua principal qualidade era nunca se fazer passar pelo que não era, e não procurar impor-se. Tinha 45 anos, mas não parecia; e nunca na vida suas mãos conheceram trabalho algum. Seu pai começara a vida num pequeno escritório de advogado em Birmingham, subira à força de diplomas e de método, e finalmente se tomara co-proprietário dum pequeno jornal de província, que dirigiu durante cinco anos. Concentrando todas as suas ambições nas empresas jornalísticas, desenvolvera seu negócio, procurara apoios financeiros, comprara ações, e depois liquidara tudo para prosseguir na carreira em Londres. De sucesso em sucesso, tornara-se o único proprietário do Sunday Searchlight, uma estranha folha dominical, especializada em histórias de crimes e divórcios, com uma tiragem de 5 milhões e meio de exemplares.

Com a morte do velho, Charley se encontrou diante de uma fortuna grande demais para que ele pudesse esperar vir a gastá-la toda, algum dia, se bem que tivesse boas aptidões para isso. Tinha um lugar na direção do jornal, mas raramente o ocupava; era sempre, ao contrário, o primeiro a chegar ao banquete anual da empresa e ao baile que se lhe seguia. Quanto ao mais, não fazia rigorosamente nada. Contudo, desempenhava o seu papel do modo mais elegante. Pertencia a meia dúzia de clubes, tinha inúmeros amigos, montava a cavalo e caçava um pouco, sabia apreciar um jantar e uma boa anedota, dava pancadinhas no ombro de uma porção de alegres companheiros, cuidava de sua "forma" como bom sportman, passava longas horas com o alfaiate, o camiseiro, o sapateiro, ia à tarde às duchas quentes, emprestava dinheiro a todo o mundo e entretanto nunca se deixava embrulhar. Em suma, era impossível descobrir-lhe o menor defeito.

Oito anos atrás, conhecera Catherine num baile de caridade, e, como confessava, perdera completamente a cabeça. Na semana seguinte, propôs-lhe casamento, e desde então a intervalos regulares a punha na penosa obrigação de recusar-lhe a mão. Entrementes, consolava-se com bonitas garotas de balé, mas isto não passava de rápidas aventuras, de que, aliás, não fazia mistério algum — o que constituía um argumento em seu favor.

Em meio a esses namoricos, seu amor por Catherine esplendia como uma flor preciosa num jardim antes desolado. Tinha em sua dedicação tanta fidelidade, e sua esperança de chegar um dia, de qualquer modo, aos seus fins denunciava uma obstinação tão comovente, que Catherine odiaria a si mesma se o magoasse.

Catherine tinha de render-se à evidência de que não amava Charley. Lançando-se à carreira que escolhera, renunciara a qualquer idéia de casamento. No mais profundo de sua consciência dormia, contudo, como uma suspeita, a idéia de que a inabalável constância de Charley, associada à solidez de uma fortuna igualmente inabalável, numa hora de fraqueza poderia levá-la a se atirar aos seus braços para neles buscar um refúgio contra as canseiras e sofrimentos em que gastava a existência. A idéia de que ela, Catherine Lorimer, "que se fizera por si mesma", poderia ver-se um dia, para escapar à miséria, na absurda situação de pertencer a um homem que lhe era inferior pela inteligência surgia-lhe como um pesadelo. Mas não chegava a libertar-se inteiramente da inquietação que lhe causava esse pesadelo, sobretudo quando Charley estava sentado ao seu lado e lhe pegava na mão. Olhava-o então franzindo as sobrancelhas como para forçá-lo a recuar. Era assim que ela o fitava naquele momento.

— Ainda não me explicou por que vem perturbar-me em meu trabalho nesta hora não habitual.

— Mas é justamente essa a hora conveniente. Venho buscá-la para almoçar.

Ela teve um gesto de enérgica recusa.

— Estou muito ocupada.

— Sempre está ocupada, Catherine. Mas tem de vir.

— Não. Não vou.

— Sim, virá. Reservei uma mesa no Embassy.

— Escute, Charley, já lhe disse que tinha de trabalhar. Como quer que eu me desembarace honestamente na vida se você me atrapalha deste modo?

Ele se pôs a rir.

— Mas não tenho culpa de você ser a mulher mais célebre do West-End... Seu nome está em todos os jornais a propósito da miniatura de Holbein.

— Não vai dizer-me que o Sunday Searchlight fala de mim...

— Ainda não, mas falará a seu tempo. Para ficarmos na questão capital, sabe que encomendei o almoço?

— Que foi que encomendou?

— Vou começando, também, a conhecer seus gostos: língua "bonne femme", salada à Flórida, suflê de queijo.

Como poderia ela resistir? A contragosto seu, a sua fisionomia se iluminou.

— Magnífico! — disse, levantando-se de um salto — Vou. Mas saiba que dentro de uma hora estarei de volta, sentada aqui à escrivaninha. Compreendeu? Às 2 horas, precisamente. E não vou por você, mas pela língua!

Charley riu de novo e lhe pôs nos ombros sua curta capa de pele.

— Basta-me que venha!

E como descessem a escada, ele acrescentou:

— Diga-se de passagem que tenho uma questão a lhe propor à sobremesa. Porque positivamente já é tempo de eu lhe fazer de novo uma pergunta.