A Dama dos Cravos

A. J. Cronin · Capítulo 11 de 18

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A Dama dos Cravos

Capítulo 12 · Quando Catherine despertou, o sol inundava o…

 

Quando Catherine despertou, o sol inundava o quarto, e dentro da casa, como fora, a vida já retomara seu curso. Esse rumor de atividade a estimulou. Saltando da cama, enfiou às carreiras um robe de lã e desceu para a sala de jantar. A Sra. Madden, Chris, o tio Ben e o jovem Sammy iam naquele mesmo instante para a mesa.

— Mas como? — exclamou a Sra. Madden com o rosto esfuziante de alegria. — Nós nunca imaginamos que você desceria. Nancy pediu café na cama.

— Numa manhã destas, a gente tem de levantar-se, sobretudo quando se tem a perspectiva de ir patinar.

— Muito bem — falou Sammy, tirando um filhós. [biscoito frito de farinha e ovos, com açúcar e canela ou calda doce] — Então vem conosco?

Catherine sentou-se. A Sra. Madden serviu-lhe café e Madden lhe passou o toucinho frito. Os filhoses, que Sammy informou serem uma especialidade da Sra. Hickey, eram frescos e leves. Catherine sentia-se deliciada. Como na noite anterior, deixara-se arrastar a essa atmosfera de alegria natural e acolhedora, que lhe reaquecia o coração. Notara que a mãe de Chris estava encantada, e isto simplesmente porque ela havia descido para a primeira refeição do dia.

Logo depois todos se dirigiram ao lago. Nancy ainda não dera sinal de vida, mas Sammy, que havia adotado Catherine, não se retardou. Tirando da garagem um bonito par de patins para ela, acompanhou-a até a beira do lago. Madden foi também.

A manhã estava maravilhosa. Catherine caminhava entre Madden e Sammy pela estrada gelada, e gostaria que esse passeio durasse toda a vida. Todos os passantes conheciam Chris e o cumprimentavam com uma cordial deferéncia. Depois do que ela observara e soubera na véspera, tinha agora uma nítida impressão do caráter do rapaz e dava-lhe o justo valor. Admirava aquele equilíbrio entre a bondade e a força que explicava o apego de Madden às tradições familiares, assim como sua fidelidade às velhas amizades.

No embarcadouro, Sammy se ajoelhou com uma cavalheiresca solicitude e lhe apertou os patins. Depois os dois se precipitaram. Com uma ligeireza de pássaro deslizavam pela superfície gelada. Madden, que ficara na praia, seguia-os com o olhar até que desapareceram na volta do golfo. Seu rosto assumira uma expressão estranha. Gostava de patinação, se bem que não tivesse tido muitas oportunidades de praticá-la no curso daqueles últimos anos. Bem que desejaria ter acompanhado os dois... Era talvez essa a razão por que tinha o ar tão abatido enquanto voltava lentamente para casa, a fim de esperar Nancy.

Era quase 1 hora, quando Catherine e Sammy por sua vez regressaram. O almoço, sem dúvida, acabara havia muito tempo, porque a mesa estava nua e a casa vazia. Mas a Sra. Madden respondeu às desculpas dos retardatários com um gesto cheio de compreensão.

— Não se preocupe — disse a Catherine, rindo gostosamente — porque eu guardei o almoço quentinho.

Ao fim de cinco minutos, tudo estava pronto, e a dona da casa sentou-se à mesa com os dois, satisfeita de os ver comer com tanto apetite.

— Vão voltar a patinar de tarde? — perguntou, por fim.

— Já não sinto os tornozelos. E depois, Chris falou de um passeio para a noite, todos juntos. Vão acender uma fogueira numa das ilhas, e eu gostaria de estar lá.

A velha senhora teve um momento de hesitação.

— Não gostaria de tomar chá comigo? Tenho sempre água quente na chaleira às 3 horas.

 

Uma confortável tranqüilidade reinava no salão. O relógio fazia o seu tique-taque solene a um canto, e o castiçal sobre a cômoda de nogueira refletia as chamas da lareira. Sammy fora à granja com Hickey para ver uma ninhada de cachorrinhos. A Sra. Madden serviu o chá; depois calou-se por um momento. Afinal, depois de uma tossezinha, pôs-se a falar, desviando os olhos para os lados.

— Estou muito contente de você haver vindo até aqui, Catherine. Agora que já começo a envelhecer, não faço muita questão de novas relações. Mas quando faço alguma, isto para mim assume grande significação.

Catherine não respondeu. Sentia-se comovida, e agradavelmente tocada por aquelas palavras afetuosas. Estendendo o braço para a mesa, a Sra. Madden pegou um volumoso álbum de fotografias encadernado em pelúcia. Majestoso e um pouco ridículo, era um desses velhos álbuns de família, recordação de dias muito remotos. Involuntariamente Catherine disse a si mesma que ele teria provocado os motejos de Nancy. Mas nada havia na voz da Sra. Madden que pudesse provocar o riso quando ela acrescentou:

— Aqui está um velho retrato de Chris. Acho-o muito bom.

Catherine pegou o álbum aberto que ela lhe estendera, e seus olhos caíram na fotografia muito empalidecida dum menino de seis a sete anos, de calças curtas, com um velho chapéu de palha atirado para trás. Sim, era bem Chris. Catherine teria reconhecido, em qualquer idade, aqueles olhos sombrios que a fixavam através de uma fisionomia de criança com um ar sisudo de interrogação. Sentiu na garganta um aperto de enternecimento; foi com grande esforço que conteve as lágrimas sob as pálpebras abaixadas.

— Um retratinho encantador — disse por fim. — A senhora deve mostrá-lo a Nancy.

— Ela já o viu — respondeu, pausadamente, a mãe de Chris.

Catherine levantou os olhos para a velha senhora, e, rápido, os desviou. Surpreendera-lhe no olhar uma expressão apreensiva que foi um golpe no seu coração.

— É uma tolice minha falar assim — prosseguiu a Sra. Madden em voz ainda mais lenta. — Mas eu desejo tanto que Chris seja feliz!

— Será — retrucou a moça.

— Nancy é uma moça encantadora — tornou a Sra. Madden com certo embaraço na voz — mas não me acostumo facilmente à idéia de que ela é atriz. É verdade que sou muito antiquada...

— Tudo se arranjará bem — interpretou Catherine em tom caloroso.

A Sra. Madden retomou a palavra com uma entonação grave:

— Falamos precisamente do assunto de todo casualmente ontem à noite enquanto você estava fora. Nancy parece firmemente decidida a não deixar o teatro, mesmo depois de casar-se com Chris. Ela fez para nós a esse respeito uma verdadeira conferência. Acha que uma mulher dos nossos dias pode perfeitamente ser casada e seguir uma carreira de artista. No meu tempo, a carreira da mulher era o casamento; mas talvez as idéias hajam evoluído muito; temos de ser indulgentes. Gosto muito de Nancy. Contanto apenas que o meu Chris seja feliz com ela!

— Será — reafirmou convictamente Catherine. — Eu conheço Nancy; é ainda muito jovem, mas tem muito boa índole. E, falando sério, não acredito que ela fique muito tempo no teatro. Assim que vir que não é uma grande estrela, dirá adeus à cena para não ser mais do que uma boa esposa. Deixemo-la agir, e tudo se arranjará por si mesmo.

— Esperemos — suspirou a Sra. Madden com a mesma expressão grave, calma e pensativa nos olhos.

A conversa foi interrompida pela chegada da Sra. Hickey que trazia uma bandeja de bolos quentes; e após isso nem Catherine nem a Sra. Madden voltaram ao assunto.

À tarde, Catherine preferiu não sair. Previa que o passeio organizado para a noite seria muito fatigante. Realmente, os convidados foram ainda mais numerosos do que na véspera, e ninguém perdeu tempo à mesa. Todos tinham pressa de se pôr a caminho, e às 8 horas umas 20 pessoas se dirigiram alegremente para o lago. Madden era uma delas. Nancy, ao contrário, se recusara a ir, jurando pelos seus santos que a simples vista de um par de patins a punha louca. Queria — disse — ficar em casa para trabalhar.

No embarcadouro, uma vez calçados os patins, todos se deram as mãos cruzando os braços e a longa cadeia humana se distanciou na suave luz do crepúsculo. Eles avançavam num ritmo regular dentro do encantamento da noite que descia. A lua, muito alta no céu, parecia um enorme lampião, e projetava na água reflexos de prata. Para o sul os tetos familiares da aldeia cintilavam sob a geada. A leste, as cadeias de montanhas formavam uma ponte imensa que parecia conduzir à morada dos deuses. Mas diante dos patinadores, à saída do golfo, o lago gelado estendia a perder de vista o seu espelho sombrio, liso como o mármore e macio como a ágata.

Catherine, ofegante, fendia o espaço. Muitas vezes ela patinara nas lagoas dos arredores de Londres, nas quais flutua sempre um leve nevoeiro e há sempre o perigo do degelo. Mas nunca encontrara uma tal extensão diante de si, um ar assim puro, um gelo como aquele, virgem de qualquer rastro e de qualquer mancha. A alegria inundava o seu coração. O leve ranger dos patins cantava aos seus ouvidos como uma música. O vento lhe açoitava as faces, fazia voar atrás dela as pontas do xale e lhe fustigava o sangue. Sentia correr em suas veias uma embriaguez semelhante à do champanhe.

Atingiram enfim sua ilha, um montículo redondo, cinco milhas ao largo, coberto de arbustos secos e de pequenos salgueiros. Alguns minutos depois, a grande fogueira preparada de antemão estava ardendo. Os patinadores formaram um grande círculo em torno do fogo. Apareceram as garrafas térmicas, e os copos de café circularam de mão em mão. Com o ar de quem desenterra um tesouro, Betty Lou tirou do agasalho de pele um pacote de biscoitos. Depois, Andy Dunn, o caixeiro da grande loja local, pegou o acordeão. Tocava velhas canções populares impregnadas de ternura e de romantismo, Swanee River, Aunt Dinah, Uncle Ned. Simples e bonitas, as melodias se elevavam no céu noturno, e todos, quase sem o sentirem, puseram-se a cantar.

Catherine olhava em torno de si os rostos dos cantores iluminados pelos reflexos do braseiro, e pela segunda vez naquele dia sentiu as lágrimas virem aos olhos. De todo o coração, desejaria que Nancy estivesse ali. Sentia-se reinar em todos aqueles seres assim reunidos uma solidariedade muda e profunda, essa fraternidade que une, sobre a terra, os homens de boa vontade.

Súbito, passaram a entoar uma canção que era a mais graciosa de todas: Juanita. Catherine não se conteve mais. Era deles, e se pôs a cantar com eles.

Ao mesmo tempo lançou um olhar furtivo a Madden, e notou que ele tinha os olhos fixos nela. Todo o dia, e mesmo desde a chegada, mal o vira. Mas naquele momento surpreendeu-lhe na fisionomia uma expressão de perturbação estranha e profunda. Olhava-a como se tivesse dificuldade em reconhecê-la, como se a visse pela primeira vez na vida.

Quando cessou o canto, houve um longo silêncio; todos verificaram que o repertório se esgotara. Então levantaram-se todos, e os risos e tagarelices recomeçaram mais animados. De repente Catherine se apercebeu de que Madden estava de pé ao seu lado.

— Foi tão gentil de sua parte! — disse ele com uma voz estranhamente embaraçada — Juntar-se assim a nós.

— Por que não? — Ela se pôs a rir, e no seu riso havia uma certa angústia. — Só que eu não chego a cantar duas notas certo!

— Que é que tem? Estava ótimo.

Quando novamente todos se deram as mãos, entrelaçando os braços, Madden ficou junto a Catherine. As mãos dele, dentro das luvas de lã dura, apertaram as da moça com uma suave firmeza. Todo o tempo da correria através do lago, ele mal pronunciou algumas palavras. Quando chegaram à casa, Chris não dirigiu a Catherine mais do que um rápido olhar, que logo desviou, e lhe deu um breve boa noite.

Entretanto, não foi deitar-se logo. Deixando os outros, esgueirou-se para o pomar, onde, sob o clarão da lua, as fruteiras contorciam, com gestos grotescos, os ramos nodosos e os troncos devastados. Um instante ficou imóvel. Depois, maquinalmente, procurou acender o cachimbo. Mas este logo se apagou, e Madden, sem o sentir, conservou-o entre os dentes. De súbito, atrás das cortinas do quarto de Catherine, fez-se luz. Com a respiração suspensa, Madden conservava os olhos fixos na janela. Depois apoiou a fronte contra a fria casca de árvore. Seu rosto, sob a pálida claridade da lua, tinha o mesmo ar de devastação dos velhos troncos rugosos que projetavam suas sombras em torno dele.