A Dama dos Cravos

A. J. Cronin · Capítulo 14 de 18

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A Dama dos Cravos

Capítulo 15 · Catherine deixou cambaleando o escritório, e enquanto…

 

Catherine deixou cambaleando o escritório, e enquanto caminhava dentro do espesso nevoeiro só tinha um desejo: o de não ver nem ouvir ninguém, de ficar sozinha na sua desolação. A cabeça levantada, os olhos fixos e vagos, desceu a rua e, atravessando a Madison Avenue, foi ter, por uma espécie de instinto obscuro, a um ponto deserto do Central Park. Durante alguns minutos ainda errou por ali, depois deixou-se abater sobre um banco, perto do lago gelado, e lutou desesperadamente por estabelecer um pouco de ordem em suas idéias.

A notícia do fim trágico de Brandt deixara-a num estado de estupor e vertigem. Tinha simpatia por ele. Em todas as questões de negócios, Brandt se mostrara sempre irrepreensível; e através da auréola daquela imensa fortuna, ela descobrira uma natureza tão simples e tão generosa que se acostumara a considerá-lo não apenas um mecenas mas um verdadeiro amigo. E estava morto...

Imóvel e solitária no fundo do grande parque deserto, Catherine se sentia totalmente abandonada. Na pálida claridade do crepúsculo, as silhuetas dos edifícios e dos monumentos apareciam como o símbolo de uma civilização poderosa e transbordante de vida. Ela, porém, estava só. Algumas crianças tinham passado pela sua frente, mas haviam desaparecido fazia muito, deixando somente no gelo os riscos e arabescos dos patins. Abrigadas numa ilhota, galinhas-dágua, com asas descidas sobre as patas abertas, abandonavam-se às suas tranqüilas meditações. As luzes da alameda formavam uma cadeia interminável que se perdia ao longe no nada. Tudo era sombra, angústia e silêncio.

Pouco a pouca ela teve uma visão mais clara de sua situação. Estava perdida. Desaparecido Brandt, as chances de vender a miniatura sem demora e a bom preço se desvaneceram. Aproximava-se o vencimento da letra no banco. Para lhe fazer face, bem como a outros compromissos, precisava reduzir a dinheiro tudo que possuía, estoques, créditos, encomendas e até a firma com a reputação de que gozava. Poderia mesmo dar-se por feliz se conseguisse assim evitar a vergonha da falência. Mas de qualquer modo estava vencida e arruinada. Era o fim de sua carreira, o lamentável desmoronamento do edifício que levantara com tanto trabalho. Uma dor aguda lhe apertou o coração ao recordar suas esperanças tão cedo decepcionadas, a doce embriaguez do seu efêmero sucesso... Tudo estava aniquilado, disperso como um punhado de cinzas ao vento.

Pensou, depois, naqueles que ia arrastar na desgraça, e cresceu seu tormento. Walters e Miss Miller, Breuget — oh, o pobre Breuget! — e sobretudo sua mãe, sofreriam o duro contragolpe de sua ruína. Só Nancy — graças a Deus! — já não precisava dela. Mas todos os outros! Era-lhe insuportável pensar que todos iam sofrer por causa dela.

Naturalmente, continuaria a trabalhar, e, se bem que ainda fosse jovem, encontraria refúgio numa atividade feita de esforços incessantes, de inexorável renúncia e de constante escrúpulo, de acordo com a concepção da vida que nela era uma herança do puritanismo paterno. Mas conseguiria algum dia reconquistar uma posição análoga à que perdera? Outros — ela pensava em Bertram — eram capazes de perder, de cara alegre, uma fortuna, e refazê-la num ano. Ela não era desses. O curso de sua estrela estava regulado por leis severas; se caísse não se levantaria mais.

Nos últimos tempos estivera constantemente obsedada por um estranho sentimento de impotência, como se entregue sem defesa aos golpes da sorte. Adquiria naquele instante mais nítida consciência do seu destino. Em suma, não era mais do que uma pobre mulher inerme, e precisaria de um braço vigoroso a que se agarrar, precisaria da proteção de uma vontade mais forte.

No terror da miséria e do desespero, sentiu-se tentada a matar-se. Seria tão fácil deixar-se arrastar nas sombrias e acolhedoras profundezas do esquecimento... Um simples passo em falso à passagem de um carro, um acidente banal, e estaria liberta de toda a sua miséria, adormeceria para sempre, e ninguém mais se lembraria dela.

Mas no mesmo instante voltou à lucidez, e repeliu todas essas imagens que lhe apareciam como uma nódoa. Coragem! Esta palavra tinha sido sempre a divisa de sua vida. Só a coragem contava e, diante daquela derrota, precisava de coragem mais do que nunca. Levantando-se de um salto, ajustou mais o casaco ao corpo e dirigiu-se a passo firme para o hotel.

Nancy, que se preparava para ir ao ensaio, correu ao encontro da tia e lhe passou os braços em torno do pescoço.

— Catherine, querida, eu estou tão triste!

Lera a notícia nos jornais. E prosseguiu com uma voz precipitada:

— Mas devemos esperar que nem tudo esteja perdido! Que azar! Se ao menos fosse depois!

Catherine havia readquirido o completo domínio de si mesma. Respondeu, calma:

— Brandt morreu, não deve esquecer.

— Evidentemente, querida...

Nancy hesitou.

— É bem o seu modo de encarar a vida.

Ficou ainda um momento, cumulou Catherine de demonstrações de solidariedade e de gentis tagarelices, fê-la sentar, ofereceu-lhe um coquetel e um cigarro, instou para que ela comesse alguma coisa. Mas tudo isso era perfeitamente superficial; no fundo, Nancy, ardia do desejo de correr ao teatro, fazer o ensaio e voltar para os seus pequenos negócios pessoais. Afinal foi embora com um gesto de pena.

Catherine tinha a garganta bastante apertada para poder comer. Mandou buscar um copo de leite quente e o engoliu com dois comprimidos de um soporífero. O sono era agora para ela o único meio de se reconfortar. Tirando a roupa, deitou-se imediatamente.

Sob o efeito da droga adormeceu profundamente, mas se pôs a sonhar, e um mundo de imagens confusas e grotescas a torturava sem cessar.

Perseguia-a a louca idéia que já lhe passara pela mente desde muito e que ainda mais agravava seu sofrimento. Lucie de Quercy, a mesma cujos traços a miniatura reproduzia, voltava à vida e se identificava com a personalidade de Catherine, integrando-se na sua desgraça e no seu abandono. Ela mesma, Catherine Lorimer, não era mais do que a imagem daquela que Holbein pintara, a vítima da vida e do amor. Eram os seus próprios lábios que se forçavam a esboçar aquele sorriso pálido e fixo; era a sua própria mão que, num gesto cansado, segurava o ramo de cravos. Todas as circunstâncias, através das quais o retrato viera a ser propriedade dela, formavam uma cadeia inelutável. Era ao mesmo tempo uma reminiscência e uma profecia. Não era somente a história, mas o próprio destino da desgraçada Lucie de Quercy que se repetia nela. E a evidência dessa fatalidade, surgindo-lhe em meio às sombras agitadas do seu pesadelo, arrancou-lhe um grande grito de terror.

Sobressaltou-se. Tinha a garganta seca. Notou que amanhecera. E tão logo retomou consciência da situação em que se encontrava, a sua dor despertou de novo, mais aguda e mais viva. Para escapar-lhe, pulou da cama, tomou um banho frio e se vestiu às carreiras. Lançando um olhar ao quarto vizinho, verificou que Nancy ainda dormia.

Saiu. Não tinha nenhum projeto. Não queria voltar ao escritório porque não podia suportar a idéia de ver Breuget e o teatro de sua desgraça. Seus gestos lhe surgiam ao olhar como dentro de um nevoeiro. Atordoada, foi andando ao longo da Rua 52. Numa esquina, entrou num bar e pediu café e pão. Depois atravessou Times Square e se deixou levar pela multidão que se precipitava à escadaria de uma estação subterrânea do metropolitano. Escapar e fugir!... Achava-se agora num carro superlotado, e o trem varava, rangendo e silvando, a escuridão. Catherine só pensava nos meios de evadir-se, e já chegava a uma das últimas estações. No cais deserto, o vento tinha gosto de sal, e o rumor longínquo das ondas encheu-lhe de repente os ouvidos. Seguiu por uma rua escura e suja, cheia de lojas em desordem, de bares onde saboreavam ostras e peixes, de pavilhões de tiro ao alvo, com as paredes esburacadas cheias de velhos cartazes aos pedaços. Diante dela elevavam-se as magras e grotescas armações dum Luna Park. Uma luz se fez no seu espírito e lhe produziu um sentimento de amarga irrisão. Seus lábios se crisparam num ricto doloroso. Estava em Coney Island.

Mais ao longe, um cais solitário marginava a perder de vista o duplo nada do mar e do céu. O ar estava claro. Durante muito tempo, Catherine seguiu pela calçada deserta. Andou o dia todo, a cabeça baixa e os olhos fixos como se procurasse alguma coisa. Mas se bem que houvesse readquirido um pouco da sua lucidez e do seu equilíbrio, na sua alma só havia abandono e desespero. Depois, o crespúculo a arrastou para as luzes da cidade, atirou-a ao turbilhão irônico e excitante de Nova York, aos clarões multicolores e deslumbrantes, no burburinho selvagem das ruas.

Ao voltar para o hotel, sentia-se no último grau do abatimento e da fadiga quando, de súbito, seu olhar caiu sobre um monte de papeizinhos brancos, todos trazendo os dizeres usuais: "Há um recado para a senhora no escritório". No mesmo instante, o telefone interno tilintou.

— Oh! Miss Lorimer — disse uma voz polida e cantante — o Sr. Breuget procurou a senhora inutilmente o dia todo. Tocou várias vezes e veio aqui pessoalmente.

"Ora, foi só Breuget", pensou Catherine tristemente. E respondeu:

— Está bem, obrigada. Telefonarei a ele mais tarde.

Ia desligar num gesto frouxo, fatigado, quando a voz se fez ouvir de novo:

— Um instante, por favor, Miss Lorimer. Está na linha justamente o Sr. Breuget.

Houve um estalido e Breuget falou:

— Alô! Alô! É a senhora, Miss Lorimer? Deus do céu, onde se escondeu a senhora?

Segurando com a mão a têmpora dolorida, Catherine forçou um tom calmo:

— Estive andando um pouco o dia inteiro, Breuget. Não se preocupe.

— Mas, meu Deus!, a senhora não sabe o que aconteceu?

Surpreendida com a delirante excitação de Breuget, Catherine sentiu os lábios úmidos.

— Que há?

— Procuro-a por toda parte desde a manhã — exclamou Breuget, ofegante. — Não posso mais conter-me senão rebento como um balão. Miss Lorimer, minha cara Miss Lorimer, vendemos o quadro!

— Quê?!

— É verdade, sim! Tão certo quanto há um Deus no céu. Tenho vontade de rir, de cantar, de dançar de alegria!

Catherine viu tudo girando aos seus olhos. Não podia acreditar, e pensava que o velho tinha enlouquecido. Encostando mais o fone ao ouvido, disse numa voz lenta e penetrante:

— Oh, Breuget, você está doido?

Ele a interrompeu com uma onda de palavras ruidosas.

— Graças a Deus, não. Meus cinco sentidos funcionam normalmente, Miss Lorimer. Escute! Deixe-me explicar, por favor, ou terei um ataque. Hoje de manhã, apareceu Ascher, amigo e fraternal. Deplora a morte de Brandt, e tudo que se lhe segue. Tagarela meia hora sobre uma porção de coisas. Depois desembucha seu negocinho: está incumbido de nos oferecer 100 mil dólares pela miniatura.

Catherine teve nova vertigem. Segurou-se às bordas da mesa e teve de reunir todas as forças para não cair. Devia, sem dúvida, acreditar no que Breuget lhe contava. Murmurou, com a voz sumida:

— Espero que você tenha aceito.

— Mas é claro — urrou ele.

Houve um silêncio emocionado, e depois Catherine baibuciou:

— Então, apesar de tudo, vendemos a miniatura... Cem mil dólares.

— É fato! — vociferou Breuget, numa explosão de alegria. — O cheque está passado. Mandei-o ao banco às 11h30min. O dinheiro já está à nossa disposição. Fique no hotel, Miss Lorimer. Chego aí imediatamente.

Sentindo que as forças a abandonavam, Catherine deixou cair o fone. Um forte soluço lhe sacudiu a garganta, e ela rolou no divã. A luz apagou-se em torno; fez-se noite. Pela primeira vez na vida, Catherine desfalecera.