A Dama dos Cravos

A. J. Cronin · Capítulo 13 de 18

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A Dama dos Cravos

Capítulo 14 · Perto de 3 da tarde, Catherine foi…

 

Perto de 3 da tarde, Catherine foi para o escritório, a fim de esperar Brandt. Uma chuva fina ensopava o ar. Contra os seus hábitos, a essa hora ela tomou um táxi, e, enquanto o carro rodava lentamente através das ruas, seus pensamentos lhe pareciam tão turvos, obscuros e confusos quanto as pesadas nuvens que se arrastavam no céu. Revia de mistura as cenas da noite passada, o clube, Daisy Jervis, o grupo de Longchamps, os modos desenvoltos de Nancy, e o rosto rígido de Madden.

Em seguida, com uma perfeita lucidez, evocou a imagem de Chris, que, após várias semanas de ociosidade não habitual, chegava a Cleveland para se entregar ao trabalho de todos os dias. Via-o descer do trem, a maleta na mão, a gola do casaco levantada e o chapéu desabado. Ele parava, depois, para contemplar, com aquele olhar sombrio e sério, a pequena fábrica que fora o ponto de partida de sua fortuna e na qual todos, empregados, operários, vendedores e representantes, se apressavam em dar-lhe as boas-vindas.

Em que se baseava ela para reconstituir essa cena, não o poderia dizer, mas estava tão convencida de que não se enganava como se a ela tivesse realmente assistido.

Suspirou e tentou fugir aos seus devaneios para concentrar todas as energias que lhe restavam e utilizá-las no seu encontro com Brandt. Uma vez vendida a miniatura, poderia tomar suas resoluções e voltar imediatamente para a Inglaterra. Logo no dia seguinte ao da estréia da peça de Nancy, nada a reteria mais. Madden e Nancy não precisariam mais dela. Na lua-de-mel — pensava com uma certa amargura — ela só poderia ser-lhes importuna.

Um ligeiro estremecimento a dominou quando desceu do automóvel e atravessou a rua debaixo da chuva. Breuget a esperava no gabinete privado, uma pequenina peça, o bastante para acomodar uma escrivaninha, um radiador elétrico e duas cadeiras. Ele estava nervoso, e Catherine o percebeu logo, se bem que o rosto magro do velho, de perfil aquilino, ostentasse uma polida despreocupação. Preparara café no pequeno aquecedor e, com ares solenes, ao mesmo tempo ridículos e comoventes, serviu-o com biscoitos. Ela aceitou, agradecida. Era um bom café à francesa, quente e forte.

Enquanto ela o bebia, observava o velho, sua figura característica, o terno que trazia os sinais de várias lavagens e cujas mangas estavam bastante puídas, a camisa de uma alvura impecável mas deixando entrever, sob o alto colarinho engomado, alguns consertos cuidadosos, os sapatos tão bem engraxados que as rachaduras do couro se tornavam quase invisíveis. E súbito se sentiu dominada por uma infinita piedade. Nunca prestara uma atenção especial a Breuget, salvo quando se tratava de seus negócios, mas de repente experimentava para com ele um sentimento inteiramente novo, o da compaixão humana; lia claramente na pessoa do velho auxiliar a história de uma longa luta contra a decadência, num esforço desesperado para salvar a honorabilidade de sua existência medíocre.

— E depois — disse ela bruscamente — se vencermos, procuraremos melhorar um pouco sua situação.

Breuget corou até a raiz dos seus raros cabelos grisalhos. — Oh! não, Miss Lorimer.

— Sim, sim! — replicou Catherine em tom resoluto.

O velho a encarou com um ar tímido, e depois desviou os olhos. Balbuciou:

— Obrigado, Miss Lorimer, muito obrigado.

Calaram-se. Ele tirou o relógio, um relógio trabalhado em ouro e esmalte, em estilo Luís Felipe, lembrança dos bons tempos passados.

— Eu esperava que o Sr. Brandt viesse.

— Não são ainda 3 horas?

— Exatamente 3, Miss Lorimer.

— Vamos, não se aflija, Breuget. — E ela lhe dirigiu um olhar amistoso e encorajador. — Quero dizer que você terá seu aumento.

Catherine imaginava que fosse essa a razão do nervosismo do pobre homem.

Ele se apressou em explicar:

— Oh! Não é isso. É pela senhora que estou preocupado. Trata-se de um negócio de tal importância...

Interrompeu-se com um vago alçar de ombros.

— Brandt virá. — Ela falava num tom de absoluta certeza. — Depois de tudo o que disse... Nós o conhecemos, não é? Manterá a palavra.

Houve um momento de silêncio, durante o qual os dois pensaram no seu famoso cliente. Segundo a expressão de Catherine, Brandt sabia o que queria, e sempre o conseguia. Era um homenzinho escuro e esperto, que dissimulava o olhar penetrante sob os óculos, e que juntara uma fortuna fabulosa com a hábil combinação de duas atividades: os transportes e o negócio de madeiras para construção. Em todo o país, o seu nome evocava um extraordinário espírito de empreendimento. A história de suas realizações, desde a imensa cadeia dos seus depósitos de madeira no noroeste até o novo instituto de química que acabava de construir em São Francisco com finalidade humanitária, era quase lendária. E a conta dos tesouros acumulados em seu castelo espanhol, em seu palácio de Veneza e em sua grande casa em estilo barroco nos arredores de Key West se exprimia por milhões.

Uma tal vitalidade se desprendia de sua pessoa que bastava pensar nele para que se tivesse a sensação de sua presença. Catherine teve um sobressalto quando emergindo dos seus devaneios se apercebeu de que continuava sozinha com Breuget. O relógio do velho, com seu tique-taque implacável, marcava agora 3h 15min.

— Não é estranho, Miss Lorimer? — disse Breuget, apertando o pescoço com a mão. — Devo telefonar para ele?

Catherine fez um sinal que não.

— Não o apressemos. Se não está ocupado em outros negócios, ainda virá. Se não vier, ele mesmo nos telefonará.

— Está bem, Miss Lorimer.

Breuget, entretanto, não podia suportar a tensão da espera. Esgueirando-se pela loja, ele postou-se atrás da porta de vidro, de onde podia ver uma parte da rua. Catherine apoiou-se sobre os cotovelos e ficou imóvel. Espreitava os ruídos da entrada, mas só o vozeiro da rua e os gritos de um jornaleiro lhe chegavam, aos ouvidos. Esses pregões — não sabia por quê — lhe produziam um efeito praticamente enervante. Então Breuget correu para ela com um jornal na mão. Tinha o ar espantoso de quem houvesse recebido uma violenta pancada na cabeça. A princípio não pôde dizer uma palavra. Ofegante, uma expressão de loucura nos olhos, branco como cal o rosto onde só se viam as duas manchas vermelhas das maçãs, permanecia estatelado.

— Veja, Miss Lorimer — exclamou afinal com a voz entrecortada. — Veja!

Ela deu um salto, tomada de um grande pavor.

— Que houve?

— Brandt está... ele não... não comprará a miniatura...

Sumiu-lhe a voz. Seu rosto se crispou, e ele se abateu sobre uma cadeira em pranto.

Catherine arrancou-lhe das mãos o jornal, e um grande título, na primeira página, lhe deu notícia de que Brandt havia morrido com 10 outros passageiros num terrível desastre de aviação.