A Dama dos Cravos
Capítulo 7 · Na antevéspera do embarque, o tempo estava…
Na antevéspera do embarque, o tempo estava carregado e brumoso. Um sol, de um vermelho desmaiado, piscava de vez em quando, como um grande olho, por entre as nuvens amareladas. Numa cabina reservada do trem que corria para Southampton, através de paisagens pontilhadas de chaminés negras, estavam todos os quatro; porque Charley tomara o hábito sentimental de, a cada viagem de Catherine, acompanhá-la até o navio.
Madden e Upton, que se sentaram defronte um do outro, haviam travado relações falando sobre futebol; enquanto Nancy, com o casaco de pele na prateleira do trem, e o novo estojo de toalete ao lado, folheava nervosamente os jornais ilustrados, com a esperança de encontrar neles uma fotografia sua ou de suas companheiras. Tivera uma pequena decepção à idéia de que Bertram e a companhia não haviam tomado passagem no Pindaric, e, sim, embarcariam dois dias depois no Imperial, um navio mais rápido, e, como não deixava de observar, mais elegante. Entretanto, já se refizera desse golpe de azar.
Catherine experimentava uma sensação de beleza a que não estava habituada. Sentia-se induzida ao otimismo; e a vida se lhe afigurava digna de ser vivida. Como era bom ter amigos!
Bertram, por exemplo, se mostrava extraordinariamente gentil com ela, e que alegria de se encontrar em companhia de Nancy e de Madden! Seus pensamentos galopavam. Dentro de algumas semanas, revenderia a miniatura a Brandt, libertar-se-ia de todos os seus apertos financeiros, e assistiria à felicidade de Nancy. De repente, sentiu que esta se inclinava para ela.
— Olhe, Catherine — disse Nancy com um sorriso estudado — a minha fotografia que publicaram aqui. Acha boa?
Catherine lançou os olhos ao jornal. O retrato era recente e muito bonito. Fora tomado sob um ângulo de todo imprevisto, em plena luz. Nancy era vista nele de alto a baixo, a cabeleira jogada para trás, lembrando Hermes, o mensageiro dos deuses ao alçar o vôo.
— Excelente — opinou calorosamente Catherine — e muito original!
— Não é vaidade... mas é tão importante para mim! Sabe, para a publicidade, e o resto.
Madden e Upton contemplaram igualmente o retrato, e Upton se preocupou particularmente com a semelhança.
— A semelhança — interrompeu Catherine — é muitas vezes uma questão de ponto de vista. Aqui está, por exemplo, um retrato que acham parecido comigo. Não posso julgar se é verdade ou não. Vejam vocês mesmos.
Apertou o fecho do estreito e luxuoso estojo e estendeu-o aos amigos. O Holbein circulou de mão em mão, em meio a profundo silêncio. Madden contemplou-o longamente e disse, afinal:
— É verdade, parece com você, Catherine. E é um quadrinho encantador.
Upton, que olhava por cima do ombro do companheiro, concordou.
— Por que preço — acrescentou — poderão vendê-lo a um americano?
— Vinte mil libras, é o que espero — respondeu Catherine rindo.
— Vale — disse Madden sisudo. — É uma obra de grande classe.
Nancy, na outra extremidade da cabina, interveio com uma gargalhada:
— Será que vai querê-la para você, Chris?
Madden respondeu com bom humor:
— Decerto.
E entregou o quadrinho a Catherine, que o guardou de novo no estojo.
Upton olhou para o relógio, o que indicava nele menos a preocupação pelas horas do que o desejo de matar a fome e a sede.
— E se almoçássemos? Tenho uma fome de lobo, e reservei uma mesa no carro-restaurante para o meio-dia.
O repasto decorreu o melhor possível. Catherine estava de excelente humor, e contagiou de sua alegria a roda. Logo depois, chegaram a Southampton, e, um instante após, o trem parou na estação marítima diante de uma longa fila de camareiros vestidos de branco, em cujos gorros se liam nomes de navios. Encostada ao cais erguia-se a possante massa negra do Pindaric. Se bem que semelhante viagem não fosse para ela uma novidade, Catherine nem por isto deixava de sentir no momento do embarque a febre da aventura. O hábito não lhe destruíra o prazer que encontrava em cada viagem. Aspirando o ar fresco do mar com uma alegria impaciente, agarrou-se afetuosamente a Nancy para subir a longa ponte.
Ao chegar a bordo, teve uma recepção triunfal. Já havia viajado tantas vezes no Pindaric que todos os homens da equipagem a conheciam, e ao vê-la expressaram uma viva e respeitosa satisfação. Essa desvanecedora acolhida foi doce como o mel para Nancy, que ainda estava fazendo sua aprendizagem nessas coisas.
— Diga-me, será que o navio é seu? — perguntou à tia, depois de haverem desfilado diante de uma fila de moços a bordo.
Catherine riu:
— Se é, está ao seu dispor.
Tinham um grande camarote duplo, com comunicação interna, na ponte C. O de Madden era mais para trás, a estibordo. Nancy logo mergulhou no mundo desordenado de telegramas, cartões e flores que já esperava encontrar, enquanto Catherine se entretinha com a Sra. Robbins, a camareira que a servia em todas as viagens. Pouco depois apareceu o Sr. Pym, o comissário de bordo. Era um homem corpulento, de faces vermelhas e olhos saltados. Era estrábico mas dissimulava esse pequeno defeito olhando de banda.
— Estou encantado — declarou, conservando a mão de Catherine na sua como se fosse um privilégio — estou encantado de ver que é dos nossos, Miss Lorimer! Espero que façamos uma boa travessia. Se posso ser-lhe útil basta uma palavra.
— Então, peço-lhe que ponha isto no seu cofre — respondeu Catherine, entregando-lhe a miniatura.
O comissário a recebeu com a devida deferência.
— Oh! sim, já ouvi falar, Miss Lorimer, pode ficar inteiramente tranqüila, que ficará bem guardada. — Esfregando as mãos, transpôs a porta de costas. — Permita-me que mande lhe levar frutas. Nada mais agradável do que algumas frutas num camarote!
Esta era uma das fórmulas consagradas do Sr. Pym, mas ele a reservava para os seus passageiros preferidos. De fato, assim que o comissário partiu, apareceu um moço com uma bandeja cheia de magníficas frutas de estufa.
Nancy exclamou:
— Querida! Como está! Que recepção principesca! É um verdadeiro conto de fadas!
— Não sei — replicou Catherine com um ar um pouco distante. — Não me preocupo com isso, e todos aqui sabem que não sou nenhuma princesa.
— Não há nada mais agradável do que algumas frutas num camarote — continuou Nancy, imitando de modo impecável o digno comissário de bordo. — E a senhora trouxe sua sobrinha! Espero que façamos uma boa travessia. Com frutas no camarote! — Torcia-se toda de tanto rir, mas havia em seu riso uma certa dissonância desagradável. — O velho é grotesco, não acha, Catherine?
Catherine recusou associar-se a esse acesso de alacridade:
— Não gosto, Nancy — respondeu, tranqüilamente — que fale assim. Esse velho grotesco é um dos meus melhores amigos. Desde minha primeira viagem, tem me prestado uma infinidade de serviços. Eu não era, nesse tempo, mais velha do que você hoje, mas era muito nervosa e tímida para que me animasse a dirigir a palavra a qualquer pessoa. Ele teve para comigo cuidados de mãe, apresentou-me a outros passageiros. Por mais que o ache ridículo, há muitas pessoas, muito conhecidas, que se sentem felizes de chamar o Sr. Pym seu amigo. É um grande tipo!
— Catherine querida — exclamou Nancy, cuja expressão galhofeira cedera lugar a uma cara de perfeita contrição — não me compreendeu! Eu não sabia que o estimava tanto, eu também estou muito comovida com a amabilidade dele.
Catherine voltou a rir.
— Está bem. Eu sabia que não fazia por maldade; desde que se sente bem aqui, estou contente.
Alguns minutos após elas subiram ao convés, onde Upton e Madden as esperavam. A ameaça da separação estava já no ar. Um moço deu o primeiro golpe de gongo, e os que não iam viajar começaram a deixar o navio.
— Tenho de ir — disse Charley com um profundo suspiro. — Prometa-me, Catherine, cuidar-se, e etc. etc...
— Naturalmente, Charley.
Como acontecia em cada separação, ele parecia tão sucumbido de tristeza que Catherine sentiu um aperto no coração. Charley dedicava-lhe uma afeição tão fiel, tão devotada e tão perdidamente sentimental, que cada vez ela se sentia comovida quase a ponto de sentir amor por ele.
— Palavra! — prosseguiu ele. — Cada vez que parte, fico num estado deplorável. Se me abandona por muito tempo, e se eu não vou à sua procura para trazê-la com minhas próprias mãos, quero ser enforcado!
A sirena deu um longo mugido, e logo uma ligeira vibração abalou a enorme carcaça do navio. O momento era emocionante. Upton despediu-se de Nancy e de Madden, apertou a mão de Catherine entre as suas e, desviando a vista, desceu a escada correndo. Uma tal tristeza emanava da sua silhueta que Catherine ficou toda perturbada. Enquanto Nancy e Madden, apoiando-se à balaustrada, acompanhavam com os olhos as operações da partida, ela se afastou e subiu para o convés de cima.
Banhada na leve bruma do mar, pôs-se a caminhar de um lado para outro, num recanto solitário, e bruscamente sentiu-se engolfada num abismo de melancolia. Puxado por dois rebocadores, o navio embicou para o poente. Logo a vibração se acentuou e foi se acelerando. A proa cortava com velocidade crescente as ondas dum escuro pálido, gaivotas turbilhonavam por cima da esteira soltando seus gritos dissonantes, e pouco a pouco a terra firme ia se apagando no horizonte.
Eram instantes estranhamente solenes e emocionantes aqueles, e se bem que Catherine resistisse à tentação de analisar suas impressões, experimentava uma curiosa sensação de incerteza. A vida lhe aparecia sob uma nova luz, com contornos confusos e vagos. Um rumor de passos que se aproximavam cortou suas reflexões desencantadas. Voltando-se, ela viu Madden. No mesmo instante suas dúvidas se desvaneceram, e essa presença amiga lhe causou um forte prazer.
— Nancy me mandou para cá. Ela foi ao camarote descansar um pouco.
Catherine respondeu com um aceno de cabeça, e, durante algum tempo, ficaram os dois passeando sem dizer palavra.
— Não é bom pôr o seu casaco? — perguntou ele enfim. — Está frio.
— Não. Estou bem.
Calaram-se de novo por algum tempo, quando de repente Madden se pôs a falar, mas como se tivesse dificuldade em entrar no assunto:
— Esse Upton é um belo rapaz. À primeira vista parece leviano e descuidado, mas tem o coração no lugar próprio. — Vacilou um instante. — E depois está terrivelmente apaixonado por você...
Catherine não respondeu.
— É uma coisa que não me sai da cabeça — continuou Madden, num tom um pouco constrangido e mesmo perturbado. — Meto-me às vezes em coisas que não são de minha conta... Apesar de eu só a haver encontrado há pouco tempo, parece que sempre nos conhecemos. Não posso evitar isso... É mais forte do que eu.
Interrompeu-se. Ambos continuaram em silêncio. Catherine olhou-o de esguelha: parecia sentir-se desamparado, e, no entanto, resoluto. Então, sorridente, ela falou:
— E daí?
— Bem. Vou dizer o que penso. Aprendi nestes últimos dias a conhecê-la, e digo sempre a mim mesmo que nunca teve da vida tudo que podia receber dela. Você dá sempre, dá, criatura, ninguém a vê aceitar ou tomar nada. Sinto-me tão feliz com a Nancy que tenho um imenso desejo de vê-la feliz também. Mas não conseguirá me fazer afastar a idéia de que tem algum segredo no coração. Desculpe-me se digo bobagens. O que eu queria dizer era... Por que não se casa com Charley e não deixa que ele tome conta de você para toda a vida?
Ela tardou a responder. Se qualquer outro lhe houvesse falado nesses termos, ela ficaria gravemente ofendida; mas não queria mal a Madden. Estava, ao mesmo tempo, surpreendida e agradavelmente emocionada. Decerto, era ridículo da parte de Madden fazer, assim, o tio velho, mas sua evidente solicitude e a afeição que parecia ter por ela a comoviam profundamente.
— Não — falou por fim — não se trata de o pobre Charley tomar conta de mim.
— Por que não? Ele é bastante rico!
— E é isto o que conta na vida?
— Penso que isto conta.
Ela sacudiu a cabeça.
— Não alteraria nada. Como vê, sou de todo antiquada, incuravelmente romântica, e desesperantemente teimosa. Se estivesse disposta a casar-me, o dinheiro não teria nenhum papel nisto. Por infelicidade, não tenho amor por Charley.
De novo o silêncio reinou. Esta explicação não parecia satisfazer inteiramente a Madden.
— Santo Deus! — falou pausadamente, com uma ruga profunda vincando-lhe a fronte. — Então, não há nada a fazer?
— Nada — respondeu tranqüilamente Catherine.
Desceram pela ponte prestando ouvido às rajadas do vento nas superestruturas do navio e ao ruído das vagas que batiam contra o costado. Quando o crepúsculo chegou, e o barco se constelou de luzes, ela se despediu de Madden e foi para o camarote.
Capítulo 8
O jantar correu rápido e sem protocolo, porque o capitão Ireland não aparecia na primeira noite, e nenhum dos passageiros habituados à travessia pensou em se vestir a rigor. Mas, a julgar pelos vizinhos de mesa, a viagem prometia ser agradável. Lá estavam Jay Freench, o célebre jornalista internacional, Edward Brett, um arquiteto de reputação mundial e Lady Blandwell, que empreendia sua primeira turnê de conferências na América.
No dia seguinte, a vida de bordo se organizou num quadro restrito mas divertido. Atendendo às exortações do Sr. Pym, o mar permanecia calmo. Catherine retomou seus hábitos de passageira, como se nunca tivesse vivido de outra maneira. De manhã eram os exercícios de ginástica, e em seguida o banho na bela bacia de mármore pomposamente chamada de piscina olímpica. Nancy, que tinha certa tendência para a preguiça, ficaria de bom grado na cama se Catherine, em quem as viagens punham o diabo no corpo, não a obrigasse a jogar a bola, a fazer exercício na máquina de remar e montar no cavalo elétrico.
Depois do lanche, as duas se enrolavam em cobertores, estendiam-se nas espreguiçadeiras, liam, contemplavam o desfilar das nuvens. A pedido de Catherine tomavam muitas vezes o chá no convés de cima, de preferência a irem fechar-se no suntuoso jardim de inverno onde a orquestra praguejava. Um coquetel antes do jantar e uma sessão de cinema completavam esse programa cotidiano.
A grande preocupação de Catherine era que a viagem deixasse uma recordação agradável a Nancy. Sua primeira travessia fora para ela um encantamento; conservara dessa viagem uma impressão inapagável. Esforçava-se, assim, por despertar o mesmo estado de espírito e o mesmo entusiasmo em Nancy. Mas cada dia tinha de defender-se contra um ligeiro sentimento de desilusão. A garota não era facilmente acessível ao entusiasmo, e não estava em sua natureza entregar-se sem reservas à admiração. Muito jovem ainda para já estar blasée [calejada], era-lhe inconcebível que ela pudesse aborrecer-se; mas diante da vida guardava uma atitude fria e distante.
Pela primeira vez, Catherine começou a compreender que, se bem que elas tivessem apenas 10 anos de diferença na idade, estavam separadas em suas concepções da vida por um verdadeiro abismo, e pertenciam a duas gerações diversas. Procurou, então, aproximar-se da sobrinha. Às vezes se perguntava se não estaria com a menina e com Madden mais assiduamente do que eles desejariam. Tratou de deixá-los mais tempo a sós, mas era constantemente chamada a restabelecer a trindade do seu pequeno grupo, que freqüentemente se fazia o centro de uma sociedade. Nancy, com efeito, gostava de ver muita gente em torno de si.
Mas não se equivocaria em suas suposições. Superficialmente, Nancy ostentava todos os defeitos da geração nova; contudo, tinha também sua vida interior. O fracasso de Manchester deixara-lhe uma ferida sempre aberta, e secretamente ela aspirava refazer-se dessa derrota com um sucesso ruidoso. Se bem que nunca falasse do assunto, só pensava na futura temporada de Nova York, e pensava constantemente no seu papel. Costumava retirar-se inopinadamente, em geral à noite, para estudá-lo. Como era muito independente, ninguém se preocupava com essas vigílias solitárias; mas Nancy levava a sério a tarefa.
Aconteceu assim que, numa quinta-feira à noite, Nancy se fechou às 9 horas no camarote, deixando a Madden o cuidado de acompanhar Catherine ao cinema. Era uma noite sombria e tempestuosa.
Os filmes, uma grosseira farsa e alguns aspectos de viagens, eram insípidos. Além disso, o navio jogava desagradavelmente, e assim a sessão nada tinha de atraente. Entretanto, Catherine poucas vezes sentira tanto prazer no cinema. Sentada na escuridão, acompanhava distraída as imagens que desfilavam na tela. Experimentava um grande bem-estar em sentir a presença de Madden ao seu lado e a marcha agitada do navio no mar grosso. Súbito, Madden virou-se com o rosto iluminado por um sorriso que ela bem conhecia.
— Parece-me que o tempo piora. Como se sente?
— Nunca me senti tão bem — respondeu ela, gracejando.
— Quer descer?
— Se você não for também, não.
Ela seguia de novo as peripécias do filme, quando um pensamento súbito lhe passou pela cabeça. Por que estava achando prazer em ficar ali sentada e suportar aquele espetáculo medíocre, com todos os incômodos da tempestade? Num sobressalto de contrariedade, reconheceu que esse prazer provinha da presença de Madden ao seu lado; e a última coisa que ela poderia desejar era que esse estranho bem-estar terminasse. Seu sorriso apagou-se. Em vão tentou refletir, mas não teve mais tempo. Bruscamente uma terrível claridade se fez no seu espírito.
Madden estendera a mão para segurar a cadeira de Catherine, que se empenhava com os assentos contíguos num verdadeiro jogo de empurra. No mesmo instante o navio adernou pesadamente e atirou a moça contra ele. Durante alguns segundos, enquanto a marcha do navio se normalizava, Madden a segurou fortemente para impedi-la de cair. De um golpe, tudo se baralhou aos olhos de Catherine: o navio, o mar, o mundo inteiro. Quando o barco readquiriu o equilíbrio, Madden a reinstalou cuidadosamente no seu lugar.
— Que recompensa terei? — perguntou ele. — A medalha do Rei Alberto para os atos de salvamento em pleno mar?
Catherine não respondeu. Dependesse disso sua própria vida, ela não poderia proferir uma sílaba. Pálida até os lábios, os membros paralisados, permanecia inerte, ferida pela terrível revelação que se abatera sobre ela como um raio. Amava Madden; amava-o com toda a sua alma. Tudo agora se fazia claro, de uma clareza inexorável: a alegria que experimentava na companhia dele, os votos que fazia por sua felicidade; aquela secreta esperança de obter dele um olhar ou um sorriso... Tudo se tornara claro, claro e aterrorizante como uma cena que se desenrola na escuridão e que é iluminada de repente pela chama ofuscante de um clarão imprevisto. Uma vertigem mortal a dominou. Por um instante acreditou que ia desmaiar. Mas, cravando os dedos no braço da poltrona, dominou a própria fraqueza. Continuava ali sem um movimento, toda perturbada por grande agitação interior, cega e ferida de estupor.
Lentamente o filme chegou ao fim. A luz se reacendeu, e os espectadores que haviam resistido trocaram pequenos sinais de felicitações. Com a cabeça abaixada, Catherine se dirigiu para a saída, acompanhada por Madden. Não havia quase ninguém no convés. Nessa calma e nesse silêncio, Catherine se sentiu ainda mais desgraçada. Não podia encarar o companheiro. Sabia que seus olhos trairiam a mudez de sua alma; e no entanto se sentia no torturante dever de ocultar a luta que se travava no seu íntimo.
— Creio que vou descer — disse por fim.
Como conseguira reaver sua voz natural, nem ela mesma o soube.
— Já? Mas você sabe que Nancy nos pediu que a deixássemos só. Vamos dar um pequeno passeio pelo convés.
O tom em que Madden falava era perfeitamente natural. Ela não podia saber se o companheiro adivinhava ou não o terrível estado em que se via mergulhada.
— Não. Prefiro descer. Já está tarde.
— Que importa? Nós hoje quase não fizemos exercício. Você gosta tanto de respirar a brisa do mar alto.
Com um esforço indizível, ela se impôs olhá-lo. A amistosa solicitude que leu nos olhos dele fez-lhe mal.
— Não. Vá sozinho. Esses filmes estúpidos me cansaram.
— Bem, se prefere... — disse Madden com um ar reticente. — Então, boa noite!
— Boa noite!
Estas palavras, pelo menos, ela pôde pronunciar sem embaraço, e forçou os lábios a esboçar um sorriso furtivo. Deu as costas e correu para a escada, deixando Madden no convés.
Chegando ao pavimento inferior, parou e levou a mão à garganta. O palpitar do seu coração a paralisava. Antes de ir ao encontro da sobrinha, precisava refazer-se, coordenar os pensamentos, compor uma atitude. Ao pensar em Nancy, aumentou seu sofrimento, e a situação lhe pareceu ainda mais medonha. Vencendo o corredor às carreiras, deslizou pela escotilha para o convés da proa. Na escuridão tropeçou em cordoalhas e utensílios de bordo, mas não lhes deu atenção. Nenhuma dor física podia comparar-se ao sofrimento de seu coração. Chegou afinal à proa e lá, agarrada ao corrimão, com todo o corpo açoitado pelo vento, envolta na noite profunda e no poderoso tumulto das ondas, sua alma mergulhou num tal abismo de dor que ela rebentou em soluços.