A Dama dos Cravos

A. J. Cronin · Capítulo 6 de 18

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A Dama dos Cravos

Capítulo 5 · No sábado, último dia de novembro, Nancy…

 

No sábado, último dia de novembro, Nancy foi com toda a companhia para Manchester, a fim de representar "Noite de Luar na Arcádia", e, como ficara combinado, Madden a acompanhou. A première [estréia] devia realizar-se na segunda-feira no Teatro Real, e uma première de Chesham era sempre um grande acontecimento. Assim, uma pequena multidão assistiu à partida da companhia, na estação de St. Pancrace. Nancy estava de excelente humor. Com os braços carregados de flores, foi fotografada no centro de um grupo pelos repórteres, que em seguida lhe fizeram a homenagem de bater uma chapa dela sozinha ao lado do próprio Chesham. Catherine, que conhecia a queda de Nancy pela publicidade, havia arranjado as coisas previamente com uma agência.

Madden — tinha de reconhecer — portara-se de modo impecável. Como de hábito, conservava-se sempre ao lado de Nancy mas sem nunca tornar-se importuno. Cercava-a de cautelas hábeis e discretas. Antes que o trem partisse, Catherine pôde trocar com ele apenas algumas frases convencionais e recomendar-lhe ainda uma vez que cuidasse da pequena. Voltando para casa, tinha a impressão de estar com melhores disposições para com ele.

Na terça-feira, Catherine correu, curiosa, aos jornais. Como era de prever, os de Londres não diziam grande coisa, limitavam-se a fazer o elogio da peça. Os de Manchester, ao contrário, davam resenhas detalhadas, e o tom dos comentários era em geral caloroso. Catherine deparou com uma passagem em que o critico elogiava a interpretação de Nancy, e sentiu-se orgulhosa. Até então, ela assistira a todas as representações em que Nancy tomava parte, e não duvidava do seu talento. A garota tinha muitas qualidades e era excelente, sobretudo, nos papéis de jovens modernas. Desempenhava-os com uma arte sem afetação, e juvenil; comunicava-lhes uma certa verve ácida, cheia de verdade e ironia. Não transmitia apenas o caráter do personagem; fazia-lhe também a sátira.

Contudo, Catherine, se bem que orgulhosa de Nancy e encantada de vê-la afirmar-se, não abandonava certa afetuosa reserva em relação à sobrinha. Não conseguia levar de todo a sério suas explosões de entusiasmo quando falava da profissão e de sua vocação teatral. O drama — dizia consigo mesma — é um domínio imenso e obscuro; e Nancy, com sua graça, sua leviandade, e aquela sede de felicidade que lhe era própria, parecia viver num mundo inteiramente diverso. Isto não a impedia de rejubilar-se com o sucesso da menina. Desejava que a peça alcançasse salas cheias em Londres durante algum tempo; e daqui até lá — calculava — a aventura com Madden seguiria seu curso normal ou terminaria.

Nos dois dias seguintes esteve inteiramente absorvida pelos preparativos de viagem. Tinha a cabeça ocupada por coisas mais sérias do que aquela peça teatral. Mas esta voltou-lhe à lembrança na quarta-feira, da maneira mais inesperada. Foi à tarde. O telefone tilintou, e a voz de Madden lhe soou aos ouvidos.

— Está ainda em Manchester? — foi a primeira pergunta de Catherine.

— Não. Estou no hotel. Voltei a Londres ontem, para tratar de um negócio urgente. Lamentei, mas era indispensável.

— Como vai a peça?

— Oh! bem, muito bem — respondeu ele um pouco precipitadamente. — Nancy está obtendo um sucesso incontestável. Darei detalhes pessoalmente. Gostaria, Miss Lorimer, de almoçar comigo?

Ela refletiu um instante. Estava livre, mas não queria dever nada a Madden.

— Não. O senhor é que será meu convidado.

— Como queira. Venha então apanhar-me e me leve a um recanto tranqüilo. A um desses restaurantes de Fleet Street, de que tanto tenho ouvido falar. Concorda?

Uma hora mais tarde estavam sentados, um defronte do outro, no Fromage of Cheshire. Grande animação reinava em torno. Madden teve de contar os dias passados em Manchester. Falava com calor. O ensaio geral correra bem, a sala estava cheia, e Nancy foi simplesmente notável. Entretanto, Catherine, que o ouvia sem interrompê-lo e sem tirar os olhos do rosto bronzeado e imóvel do americano, podia descobrir-lhe nas palavras certas reticências. Alguma coisa nele não combinava com as suas palavras.

— Eles vão encurtar algumas cenas — concluiu — o fim do segundo ato será um pouco modificado. Ficará melhor para as representações que vão dar aqui.

— O senhor não aprecia muito a peça, não é? — insinuou Catherine.

Ele confessou francamente:

— Não. Pelo menos, não acho bastante boa para Nancy.

Sem que Madden o desconfiasse, e Catherine nada deixasse escapar do que sentia, era essa a resposta que ela desejava ouvir. A simplicidade e a franqueza de Madden a comoveram e dissiparam suas últimas prevenções. A partir desse instante, ela compreendeu que tinha simpatia por Madden e que se encontraria com ele daí em diante sem desprazer.

— Gosta muito de Nancy, não é?

— Sim, Miss Lorimer, e bem gostaria hoje de falar de tudo isso consigo.

Calaram-se ambos. Catherine distraidamente esfarelava o pão. Depois ele falou:

— A senhora deve ter pensado que lhe seria difícil entender-se comigo. Talvez não tenha confiança em mim, mas esteja certa de que tenho um amor infinito por Nancy. Ela é tudo no mundo para mim.

Catherine levantou os olhos rapidamente para Madden, como para se desculpar, e ligeiro rubor subiu-lhe às faces.

— Lamento-o, devo parecer-lhe sentimental e antiquada, mas tento apenas explicar-lhe minha atitude. Desejo tão ardentemente a felicidade de Nancy, e sei bem, malgrado todo o cinismo moderno, que o caminho da felicidade para ela é encontrar o homem que lhe convenha, o homem que a ame de verdade, que a arranque dessa tola vida de teatro e que lhe dê um verdadeiro lar... Meu Deus, sei que é a eterna canção... Mas, fora de moda ou não, é exatamente o que desejo para Nancy!

— Creia-me — respondeu ele com profunda sisudez — era justamente isso que eu queria dizer. Sinto-me muito contente de ver que neste ponto a senhora pensa exatamente como eu. Nancy é uma encantadora atrizinha, mas, coitada, detesto vê-la rebaixar-se assim em peças estúpidas e ouvi-la declamar aquelas bobagens. Na minha opinião, é tempo perdido. Se ao menos ela pudesse representar Shakespeare! Não é esse o sonho de todas as jovens atrizes? E, para falar com franqueza, se eu me casar com ela, preferirei, mesmo não sendo um Romeu, que ela interprete Julieta a domicílio...

Esta linguagem, que combinava tão perfeitamente com os sentimentos que ela experimentava, fê-la rir.

— Então nós nos compreendemos. Somos amigos, não é assim? E o senhor será para Nancy o homem que lhe convém.

— É uma grande alegria para mim, Miss Lorimer. E desde que estamos em vias de concluir um pacto de amizade, gostaria, se está de acordo, de chamá-la de Catherine.

— Combinado, Chris. Mas sob a condição de que não me tome por um dragão!

— Se é um dragão — retrucou ele, jovial — você é de qualquer modo, o dragão mais encantador que jamais conheci.

Riram às gargalhadas, e a tensão que até esse momento lhes paralisava as relações, desapareceu de um golpe. Houve um silêncio. Madden, que já devia estar achando demorada demais essa explicação sobre assuntos delicados, não experimentou retomá-la. Observava com curiosidade a velha sala cujas paredes patinadas pelos séculos conservavam inúmeros sinais desse remoto passado.

— Sempre desejei vir uma vez aqui. Talvez esse desejo lhe pareça muito banal e muito americano, mas eu o sentia. E sempre me causará certa impressão lembrar-me de que comi no Fromage of Cheshire.

— A cozinha é ótima — disse ela.

Madden pôs-se a rir.

— Oh! a senhora sabe muito bem, Miss Lorimer... perdão, Catherine. Sabe muito bem o que quero dizer. Em todo o caso, a torta é excelente. Mas o que sobretudo me comove é pensar que o Dr. Johnson, Boswell e Goldsmith estiveram aqui, sentaram-se debaixo deste mesmo velho forro esculpido, aqui conversaram e escreveram. E nada mudou. Os garçons de avental vão e vêm, e gritam seus pedidos através da portinhola da cozinha exatamente como no tempo das diligências. Sim, vai me achar ingênuo, mas não posso deixar de dizer: gosto dessas coisas do tempo antigo, e creio que nunca me cansarei delas.

Seu entusiasmo era comunicativo.

Catherine observou:

— Há uma infinidade de coisas a ver em Londres.

Ele fez com a cabeça um gesto de aprovação e serviu-se de aipo.

— Eu sei. Estava até agora muito ocupado com a Nancy para ter tempo de vê-las. Não queria pedir a Nancy que me acompanhasse aos museus. — Sorriu de novo, e depois ficou sério. — Mas gostaria de dedicar a tarde de hoje aos museus. Há muitas descobertas a fazer aqui na City... se é que não vou perder-me.

Havia algo de tão tocante no tom caloroso das palavras de Madden que Catherine se comoveu. Lembrou-se de que ele não conhecia decerto em Londres ninguém a não ser ela própria, e imaginou-o perguntando o caminho aos policiais e vagando através do crepúsculo, muito perplexo e solitário, para se perder nos pátios das velhas casas. E então exclamou:

— Escute. E se eu lhe servisse de guia? Se alguém conhece essas coisas, sou eu.

O rosto de Madden irradiou um tal clarão de alegria que ela se sentiu enternecida.

— Verdade? Vai me fazer isso? Mas seria um aborrecimento, e você tem tantas coisas mais importantes a fazer.

— Ora, o tempo! Arranjarei tempo. Depois, não me aborreço tão facilmente quanto pensa.

Era uma hora e meia quando eles deixaram Fleet Street e se afastaram na direção do Strand. A alta cúpula da catedral de S. Paulo recortava-se no céu azul. Havia anos que Catherine não voltava a esse bairro do centro e experimentava uma sensação estranha ao pisar aquele mesmo calçamento que fora, na sua juventude, a testemunha das suas primeiras lutas. Enquanto iam andando ao longo dos Law Courts, ela reviu aqueles lugares caros ao seu coração: St. Clement Danes, com sua estação do metrô, a leiteria onde ela almoçava habitualmente duas pequenas salsichas e uma xícara de chocolate. Vendo desenrolar-se aos seus olhos o panorama dos velhos tempos, sentiu uma breve e suave nostalgia. A despeito do progresso, como tudo aquilo mudara pouco!

Catherine conduziu o companheiro através dos "Inns of Courts" para mostrar-lhe a casa onde trabalhou Ben Jonson e a capela cujo carrilhão ainda hoje toca todas as noites. Visitaram depois a Igreja St. Mary the Strand, aonde ela ia muitas vezes na sua hora livre da tarde. Madden descobriu em si uma predileção por essa igreja. Mas Catherine o apressava. Seus passos e seus pensamentos a arrastavam irresistivelmente para Holborn, e foi com o coração batendo forte que tomou o caminho de "Staple Inn Courtyard". Alguns segundos antes, ainda estavam mergulhados no alarido e no tumulto da rua. Súbito fez-se silêncio em torno deles, e se encontraram diante da venerável fachada cuja severidade era atenuada pelo pipilar dos pardais nos grandes olmos.

— Que maravilha! — disse Madden quando se sentaram num banco. — Em pleno coração de Londres! Nunca vi a descrição de coisa parecida em parte alguma... Que lugar predestinado para o sonho!

— Era aqui que eu vinha cismar — respondeu Catherine.

Madden olhou-a, atento, comovido pelo estranho timbre de sua voz. E após um minuto de silêncio, continuou, com uma insistência que não lhe era habitual:

— Estou convencido de que todos estes lugares têm uma grande significação para você. Conte-me um pouco da sua vida.

— Não tenho na realidade grande coisa a contar.

E, forçando um sorriso, ela prosseguiu:

— Eu tinha nesse tempo 17 ou 18 anos, e trabalhava aqui pertinho. Então nas minhas horas vagas vinha para cá e me sentava num banco... Como vê, é sempre a mesma velha lengalenga sentimental. Para que repetir-lhe essas coisas?

— Eu gostaria de saber — insistiu ele. — Gostaria de conhecer a história dos começos da sua vida. Creio que a compreenderei. Eu também, de início, tive dias difíceis.

Catherine estava muito admirada da emoção que a assaltara ao rever aqueles lugares, mas, antes que se refizesse, começara, tanto para si mesma quanto para ele, a evocar as reminiscências da sua vida de mocinha. Por cima das suas cabeças o céu resplandecia de uma luz densa, lépida e tranqüila. A tarde era de uma rara doçura. Aos seus pés os pombos mariscavam e se pavoneavam. O ruído abafado da cidade chegava até eles como o das ondas numa praia longínqua.

A princípio Catherine teve dificuldade em encontrar as palavras, mas a simpatia com que Madden a fitava ajudou-a a reunir essas remotas imagens.

Falou do seu começo de vida, como datilógrafa, na firma Twiss & Wardrop. Em sua casa a vida não era alegre, porque sob o tênue verniz de respeitabilidade burguesa transparecia a nudez da pobreza. O pai, que conciliava sua profissão de pequeno corretor sem clientela com uma atividade de evangelista fanático, escolhera para ela aquele meio de vida. Era um homem severo, de fronte dura e sorriso glacial. Não a compreendia, e não tinha nenhuma esperança de fazer dela alguém. Twiss, pertencente à mesma seita que o velho Sherwood, só aceitara Catherine em seu escritório por comiseração.

Estas medíocres circunstâncias explicavam sua precoce ambição, e o fato de sua alma sensível se haver interiorizado e endurecido. Queria mostrar ao pai, e a todos os seus, o quanto era capaz. Vastos planos germinavam-lhe no espírito. Com suas meias pretas de algodão e seu vestido modesto, era a esse tempo uma pobre menina marcada pelas privações, mas bem-posta e ativa, sempre apressada em retomar o trabalho. A febre da vida londrina era para ela o melhor dos estimulantes. Com os grandes olhos espantados, via desfilar à sua frente a riqueza e o luxo. Quando saía, tarde, do seu escritório abafante, ficava esperando, debaixo de chuva, em frente ao teatro lírico de Covent Garden, para assistir à chegada das personalidades importante. Entrementes acabava de aprender datilografia, estenografia e contabilidade. Assim foi que conseguiu a estima do Sr. Twiss e mesmo a do rabugento Sr. Wardrop. Duas vezes teve aumento de ordenado, até que este atingiu a soma vertiginosa de duas libras e cinco xelins por semana. Quando levou essa grande nova ao pai, este a princípio só manifestou uma incredulidade repreensiva.

Ao fim de quatro anos, quando ela contava apenas 24, enfim encontrou sua oportunidade. O velho Eugene Hart, cuja loja de antigüidades ficava muito perto de Oxford Street, abordou-a um dia no escritório e perguntou-lhe se aceitava ser sua secretária particular, com 200 libras por ano. Eugene Hart era um judeu de cabelos negros, trigueiro, com um aspecto de criança e conhecido por sua habilidade. Ia freqüentemente a Twiss & Wardrop mandar consertar objetos antigos, mas mais freqüentemente para mandar fabricá-los de novo. Com o seu olho agudo, observava muitas vezes Catherine e, graças ao instinto infalível de sua raça, adivinhara-lhe as qualidades.

Para ela foi uma coisa pungente deixar a casa Twiss & Wardrop, mas a oferta de Hart abria-lhe perspectivas muito promissoras. Como agora não ficava pregada à sua mesa de trabalho, iniciou-se nas sutilezas do ofício. Familiarizou-se com os estilos e logo aprendeu a identificá-los ao primeiro golpe de vista. Em companhia de Hart, assistia a toda espécie de transações, nas galerias do West-End de Londres e também nas mansões senhoriais da Escócia. Tendo podido apreciar os talentos da moça, e torturado por uma saúde muito precária, Hart a deixou muitas vezes trabalhar sozinha.

Era para ela uma grande responsabilidade fazer compras para Hart; e nunca se esqueceu do dia em que, com voz trêmula, lançou sua primeira oferta num leilão, em meio a uma multidão de marchands de idéias tão rígidas como seus chapéus altos. Conquistou a consideração deles. Não era ainda a notoriedade, mas, quando aparecia, todos começavam a se interessar por ela. Começou a economizar, porque, além de seu ordenado, Hart lhe dava ainda uma comissão, e, quando ela conseguia negócios proveitosos, fazia no fim do mês uma bonita soma. Sobretudo, afeiçoou-se apaixonadamente ao seu ofício; gostava da atmosfera da profissão e das suas amplas e múltiplas possibilidades.

Eugene Hart morreu três anos mais tarde. Catherine, para quem ele fora um admirável amigo, ficou só. Quando todo o espólio estava vendido e o síndico fechou a loja, pareceu-lhe que sua vida terminara. Estava completamente desamparada, quando, graças a um acontecimento imprevisto, se aprumou de novo.

Tinha conhecido um advogado chamado Cooper, cujo escritório estava em plena prosperidade. Georges Cooper era um rapaz trabalhador e simpático. Sua vida, perfeitamente digna. Por origem e educação, pertencia, como Catherine, à pequena burguesia. Jurara a si mesmo, por amor-próprio, que nunca renegaria o meio em que nascera. Os dois se encontravam muito freqüentemente, e Catherine gostava da companhia dele. Muito naturalmente o advogado se apaixonou por ela e propôs-lhe casamento.

Para Catherine a tentação era grande. Estava com 25 anos, um sangue generoso circulava-lhe nas artérias. Não ia bem quanto ao trabalho; o pai, que era agora um velho enfermiço e rabugento, tornava-lhe a vida insuportável, e ela se sentia profundamente desgraçada. Que alegria não seria possuir um marido, filhos, um lar! Cada vez que pensava nisto, atormentava-a uma sede de ternura. Como o outro caminho lhe parecia ingrato, e que pouca era a sua esperança de, se o seguisse, atingir o seu fim!

Viu-se numa terrível dificuldade para tomar uma decisão. Mas Georges instava para que ela respondesse. Chegou um dia (um dia de inverno como aquele) em que teve de escolher entre uma carreira e um lar. Triste, desanimada, procurou um refúgio neste velho pátio e se sentou num banco para travar o seu combate solitário. Quando se levantou, chegara a noite, e sua resolução estava assentada. Naquela mesma noite escreveu a Cooper para lhe comunicar sua recusa; e ao mesmo tempo ofereceu-se para um lugar de redator suplente no Collector, uma revista mensal de arte e decoração.

Uma semana mais tarde, fazia parte da redação, e ao fim de um ano ocupava o posto de redator-chefe. Em seguida montou seu próprio negócio, Antica, Sociedade Anônima de Responsabilidade Limitada. Daí em diante o vento soprava a favor. Suas relações com personalidades de primeiro plano lhe valeram uma real notoriedade na profissão, tanto em Nova York quanto em Londres. Naturalmente tinha de lutar; quem não tem suas dificuldades? Mas começava a ganhar muito dinheiro, e o gastava; pôde cuidar da mãe e de Nancy.

Terminada a narrativa, houve um longo silêncio. Sem a olhar, Madden lhe apertou com força a mão.

— Sinto-me feliz e orgulhoso, Catherine, por me haver contado tudo isto. Só uma pessoa me causa pena.

— Quem é?

— Georges Cooper — respondeu lentamente. — Porque ele bem deve compreender tudo que perdeu.

Ela sorriu com uma ponta de melancolia.

— Não perdeu grande coisa. Creio que se casou, e que encontrou a felicidade.

Talvez Madden estivesse dominado por essa pesada melancolia que tão freqüentemente nos deixa a evocação do passado. Bruscamente, após olhar para o relógio, levantou-se.

— Quase passou a hora do chá! Você deve estar gelada, assim tanto tempo imóvel. Vamos nós dois a essa casa de chá que você freqüentava, e tomaremos chá quente.

Agora era ele que assumia o ar de cicerone, e a conduziu através da multidão diretamente para a casa de chá, cuja recordação ela tão bem guardara. No interior estava claro e fazia calor. O bule fumegava e silvava no balcão, e ao longo das paredes os espelhos refletiam os garçons atarefados e os grupos de fregueses que se reconfortavam, riam e tagarelavam em torno das pequenas mesas de mármore. Os dois devoraram grandes xícaras de chá e fatias torradas com manteiga.

— Como é bom! — disse Catherine.

Enquanto comia, ela se olhou no espelho, e ajeitou sob o chapéu uma mecha de cabelo rebelde, que caía sobre a fronte.

— Meu Deus, que cara a minha! Mas eu bem a mereci; toda mulher que conta sua vida devia ser punida.

— Não fui eu que pedi que contasse? Um dia também eu lhe contarei a minha história.

Ela riu.

— Contando que não me diga que vendeu jornais nas ruas de Cleveland.

Ele fez uma careta.

— Está bem. Só que não eram jornais, mas amendoim.

— E naturalmente andava descalço, não?

— Naturalmente! — Madden acabou de comer, com ar cismador, a sua torrada. — A única coisa que ainda me preocupa é saber como passarei a noite. Pode imaginar como me sinto perdido sem Nancy. Ficarei contando os minutos até que ela volte. — Hesitou um instante. — Isto não sugere a idéia de ocupar comigo ainda um pouco hoje de noite? E ir a um espetáculo qualquer em minha companhia? — Desdobrando rapidamente um jornal que comprara na rua, passou em revista com a ponta do indicador a coluna dos anúncios de espetáculos. — A julgar pelos títulos, devem levar, um pouco por toda parte, boas coisas.

Catherine observou:

— Não nos devemos fiar nos títulos.

Ela sentia que já fizera muito por ele naquele dia, e não estava muito disposta a ir ao teatro. Entretanto seguiu com o olhar o dedo de Madden até o momento em que parou no nome do Savoy, e verificou com alegria que levavam Gilbert e Sullivan.

— Iolanthe! — exclamou. Madden levantou os olhos.

— Gosta dessa velha opereta?

Catherine corou um pouco.

— Agora sou eu a ingênua, mas adoro Gilbert e Sullivan. Talvez porque toda vez que desejava ouvir uma das peças deles não podia. Quantas vezes, neste mesm a casa de chá, não sonhei com um lugar de pé, para ouvir Pinafore, O Micado ou Iolanthe! Mas havia a escola noturna, onde eu tinha horas suplementares de aula, e nunca fui ao teatro...

— Ótimo. Então iremos hoje — concluiu ele, chamando a garçonete para pagar.

Encontraram sem dificuldade cadeiras bastante atrás, e assim se notaria menos que estavam sem traje de rigor. A orquestra atacou a ouverture [abertura]. Subiu o pano, e Catherine logo se sentiu mergulhada num encantamento.

Acontecia-lhe freqüentemente ser obrigada a assistir à première de uma revista em voga ou duma opereta moderna, cujos ritmos trepidantes a deixavam indiferente. Agora era coisa muito diversa, e o espetáculo se adaptava ao seu estado de alma. Pouco lhe importava que aqueles achados de fantasia e de melodia fossem coisa moderna ou não. Arriscando-se a passar por antiquada, confessava abertamente o prazer que sentia.

Mas Madden experimentava as mesmas sensações, e ela o notava porque o companheiro falava pouco. Nos intervalos ele se absteve de comentários, e também não a importunou oferecendo-lhe café ou gelados. A maior parte do tempo ficava sentado, muito quieto, com o queixo na mão e os cotovelos apoiados nos braços da poltrona, e os olhos pregados no palco. À saída, enquanto esperavam um táxi à porta, sussurrou rápido:

— Mais uma coisa pela qual lhe sou grato. E acrescentou:

— Nancy ficará muito contente de saber que foi tão gentil comigo. Contarei tudo a ela, assim que volte.

Catherine sorriu.

— Não. Foi você que me fez companhia.

— De modo nenhum! — protestou ele com vivacidade. — Eu sou um companheiro insípido, e creio que fui muito aborrecido hoje. Estou sempre me perguntando o que teria se passado em Manchester.

Enquanto rodavam para Curzon Street, pensavam ambos em Nancy. Quando o automóvel parou, Catherine convidou Madden a subir para tomar uma última xícara de chá. Ele aceitou. Na antecâmara, viram um telegrama na bandeja de prata. Ela o abriu e leu:

"Première insucesso completo stop Londres adiado abandono definitivo provável regresso amanhã querida stop choro raiva Nancy."

Mordendo os lábios, Madden arrancou das mãos o telegrama.

— Pobre menina! É horrível! Eu não queria que a carreira dela terminasse assim...

E quase imediatamente despediu-se de Catherine.