A Dama dos Cravos

A. J. Cronin · Capítulo 3 de 18

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A Dama dos Cravos

Capítulo 2 · Chegou o sábado. Um vento úmido e…

 

Chegou o sábado. Um vento úmido e frio soprava em rajadas nas esquinas. Desde alguns dias fazia muito mau tempo, e Nancy se resfriou. Estava de cama e proibida de levantar-se enquanto a febre não passasse. Insistiu, porém, com Madden para que fosse pontual no encontro marcado e não deixasse de ir passar pelo menos uma noite em Wimbledon. Assim ele não perderia o seu tempo vagando, no apartamento da noiva, de uma sala para outra. Nada, aliás, tinha que fazer em Londres.

Catherine, que não estava satisfeita com a feição tomada pelos acontecimentos, retardou o mais que pôde a hora da partida. Já eram quase 16 horas quando telefonou, do escritório, a Madden para dizer-lhe que estava pronta. Sem dúvida ele ficara à espera do aviso, pois alguns minutos depois chegava a King Street. Catherine alugara os dois primeiros pavimentos de um prédio estreito, cuja fachada se abria em arco de círculo, e que pela parte traseira dava para um pátio de calçamento irregular, aonde se chegava por uma viela eriçada de mourões de ferro e de veneráveis bicos de gás. Era o cenário ideal para uma atividade como a de Catherine, e ela pusera um cuidado verdadeiramente amoroso em valorizá-lo. A decoração exterior, de um gosto muito seguro, evocara a época dos George. Debalde se procuraria um reclame ou um cartaz, e a estreita placa de cobre pregada acima do caixilho vermelho tinha esta simples inscrição: "Antica Ltd."

Através das vidraças de tons opalinos via-se uma vasta peça ocupada por objetos de madeira, harmoniosamente dispostos, e onde a pátina sombria dos móveis de nogueira, estilo Rainha Ana, temperava o esplendor dos brocados do século XVIII.

No andar superior, para onde se subia por uma larga escadaria, cuja balaustrada esculpida tinha uma curva muito bonita, Catherine instalara seu escritório particular. Era uma peça ampla e clara, com uma lareira, e no centro uma pesada escrivaninha quadrada. A um canto um cofre. No chão um precioso tapete persa, e aqui e ali, em quadros, na parede, alguns desenhos de tons vivos. Uma das especialidades de Catherine era, com efeito, a confecção de projetos para decoração de casas antigas. Conseguira assim uma reputação especial. Muitas vezes executara a transformação interior de amplas vivendas senhoriais inglesas, auferindo disso grandes proventos. Por outro lado, não era uma simples comerciante de móveis, e evitava acumular peças heterogêneas. Só conservava em depósito uma pequena quantidade delas, e cuidadosamente escolhidas. Só as comprava depois de madura reflexão, e com um objetivo bem definido. A segurança do seu gosto constituía seu melhor capital. Esse faro particular que ela possuía de pressentir a utilização de uma obra de arte é que a havia levado a adquirir a miniatura de Holbein, a qual contava vender à famosa Galeria Brandt, em Nova York.

As 4 horas soavam no velho relógio de laca quando Madden entrou no escritório. Catherine foi postar-se em frente a ele e lhe estendeu a mão. Depois do encontro dos dois em casa de Nancy, ela havia refletido, e, obedecendo à sua congênita lealdade, resolvera superar suas prevenções contra Madden e dar-lhe ao menos uma oportunidade.

— Como vai Nancy? — perguntou Catherine.

— Não muito bem. Tem de ficar na cama, e continua com febre. Mas ainda assim, insistiu para que eu viesse.

Catherine fez sinal de que sabia disto.

— Ela me avisou pelo telefone. Lamento tê-lo feito esperar.

— Não tem importância, Miss Lorimer. Já esperei tantas vezes por Nancy, no teatro, que me acostumei. É mesmo para mim uma coisa nova dispor do tempo e não precisar economizar segundos. Aposto que acabarei por achar prazer nisso.

Enquanto Catherine enfiava as luvas, ele examinava em detalhes o escritório com um olhar demorado e tranqüilo, em que se lia a curiosidade de um entendido.

— Muito bonito tudo isto. Deixe-me dizer-lhe que estas coisas me agradam imensamente, sobretudo este maravilhoso tapete.

— É, sim — concordou Catherine. E num tom cortês, acrescentou: — É persa do século XVIII. O artesão que ligou os fios, trabalhou nisso, creio, 10 anos. E todas essas cores são velhas tinturas vegetais...

— Naturalmente — concordou Madden — é um Kirman de Laver, não é?

Catherine encarou-o um pouco espantada. Era preciso uma verdadeira competência no assunto para identificar, não apenas a província, mas o lugar de origem do tapete, que procedia, precisamente, de Laver.

— Conhece antigüidades? — perguntou curiosa. Ele respondeu com um ar muito sério:

— Não, não entendo nada, pelo menos não entendo tanto quanto pensa. Mas me interesso pelo assunto, e procuro tomar pé. Tenho lido alguma coisa, e na Europa corri bastante os museus. Há assim domínios que a nossa civilização americana ignora, como os tapetes da Pérsia e os velhos móveis italianos. Sim, e depois, naturalmente, se isto não a contraria, a salada à francesa... — Ele deu uma gargalhada. — No que se refere ao preparo da salada à francesa, sou um especialista.

— Vejam só! — disse Catherine.

Ela se sentia cada vez mais desconcertada ante os aspectos imprevistos daquele homem, cuja originalidade não podia deixar de reconhecer. Os pensamentos mais contraditórios lhe passavam pela mente, e enquanto descia as escadas sentia-se tomada por uma sensação de azedume que, entretanto, não deixava de ser agradável.

Na rua um automóvel azul os aguardava.

— Espero — explicou ele, rápido — que lhe convenha este carro. Nancy me disse que a senhora desistiu do seu automóvel, e então eu arranjei este.

— É o seu?

— Não — respondeu Madden, surpreso. — Aluguei-o.

Sem querer, Catherine mordeu os lábios.

— Nem por isto deixa de ter um certo ar de riqueza... — murmurou com uma ponta de zombaria.

Mal acabava de dizer isto, arrependeu-se; Madden, porém, não reagiu, fez como se não tivesse ouvido.

O automóvel rodava macio. Madden conhecia bem o caminho. Atravessou o Parque St. James, depois seguiu pelo cais do Tâmisa, sobre cujas vagas o sol poente espalhava uma suave bruma dourada. Madden se inclinava um pouco para diante, o chapéu mole amarfanhado entre os joelhos, e contemplava com uma atenção fixa a paisagem que desfilava ante seus olhos.

— É tão atraente para mim — falou afinal. — É um espetáculo tão diferente do de Cleveland, que estou inteiramente fascinado.

— Há muitas coisas que o fascinam, Sr. Madden?

Ele hesitou em responder.

— É verdade. Vejo que lhe dou a impressão de um casca-grossa. Mas que quer? Há 15 anos trabalho tanto que ainda não pude respirar. Depois da morte de meu pai, no tempo da guerra, atravessei uma fase muito dura. Então comecei a subir a encosta e tive de andar de rastros para não cair. Não pode imaginar, Miss Lorimer, a situação de um homem que o trabalho agarra pela garganta, que chega a não poder mais nem admirar um pôr-de-sol, e que nunca tem tempo, se ouso dizer, de conhecer uma moça como Nancy.

— Sim, compreendo muito bem.

Um clarão de simpatia passou pelos olhos de Catherine, porém ela logo se dominou.

— Espero — acrescentou — que não se decepcione com o que vai ver durante este fim de semana.

— Gosto de fazer novas relações. E depois, trata-se dos parentes de Nancy e seus.

Disse estas últimas palavras num tom de perfeito à vontade. Catherine, ao contrário, teve um sorriso contrafeito.

— É que me vejo na obrigação de preveni-lo. Talvez nos ache um pouco simples, minha mãe e eu. Pertencemos à classe média, Sr. Madden, e somos desesperadamente pequenos-burgueses. Não se deixe iludir pelo luxo de minha instalação. Entro às vezes em relações de negócio com os grandes deste mundo, mas não me esqueço de que comecei minha carreira como datilógrafa, a 15 xelins por semana. Levava para o trabalho o almoço num saco de papel. E, acredito, não mudei muito.

— Verdade?

Virando-se para Catherine, Madden viu que ela falava muito a sério.

— Pois bem — disse — a senhora começa a subir na minha estima.

Ela não pôde deixar de rir a essa resposta, pronunciada num tom de extrema dignidade. Pelo menos — pensou — ele tem o dom do humor, o que facilita muito as coisas. No entanto, sua desconfiança não se desarmara. Com a intuição que lhe era própria ele se deu conta disto. Após uma pausa, prosseguiu calmo:

— Aborrece-lhe não saber nada a meu respeito, não é, Miss Lorimer?

Por motivos que ela própria desconhecia, Catherine corou.

— Suplico-lhe — falou, retomando o ar sério — que me compreenda bem. Não me preocupo com exterioridades. Penso no homem em si, no que quer casar com a Nancy.

Fez-se um silêncio. Estranhamente comovido pela simpatia que julgava discernir nas palavras de Catherine, e se bem que isto lhe fosse penoso, sentiu-se tentado a falar-lhe ao menos de alguma daquelas coisas exteriores a que a moça aludira.

Madden havia notado que, desde o começo, ela o tratava desdenhosamente. Com sua falta de pretensões e o desleixo do seu traje, acontecia-lhe freqüentemente ver-se nesta situação; isso mais o divertia do que o contrariava. Detestava a pose; sempre a detestara. Desdenhava da elegância moderna, dos restaurantes chiques, dos hotéis de luxo, da agitação da vida mundana. Assim é que fizera a viagem à Europa num navio de emigrantes, percorria o continente como um turista modesto, hospedava-se em hotéis medíocres, viajava de terceira classe pelo prazer de freqüentar gente simples, e se contentava, muitas vezes, em almoçar um sanduíche e um copo de vinho.

Talvez tivesse herdado essa sobriedade dos seus ascendentes, em particular de sua mãe, uma senhora de Vermont, chamada Suzanne Emmet, que aliava uma grande doçura a um senso inflexível do dever. Seu pai, Seth Madden, originário da Virgínia, possuía também toda a amabilidade da gente do sul dos Estados Unidos, mas não sua indolência. Era um homenzinho ossudo e barbudo, com olhos encovados e um humor de santarrão. Fixara-se em Cleveland, e como boticário laborioso pusera-se a fabricar uma cola especial, que patenteara com o nome de Fixfast. Seu pequeno laboratório nunca prosperara muito, mas após sua morte, em 1917, quando Chris se batia no front europeu, veio a degringolada e o descrédito. Quando o jovem Madden, voltando da guerra, assumiu a direção do negócio, custou-lhe muito tomar pé. Entretanto, estava decidido a restaurá-lo e desenvolvê-lo, e entrou de corpo e alma no trabalho.

Quinze anos se passaram e os que nesse tempo viram o estabelecimento não o reconheceriam agora. Madden não fazia ruído nem frases, mas, sob suas atitudes tranqüilas, dissimulava-se uma energia metódica e refletida. Lançou no mercado uma nova cola, de um vermelho-cereja, que secava muito rápido. O negócio crescia constantemente. Com muita prudência começou por comprar as pequenas fábricas de cola da região, assim como suas patentes, e fechar os laboratórios que trabalhavam por processos anacrônicos; depois concentrou sua indústria em Cleveland. O capital duplicou, triplicou, quadruplicou e, finalmente, passou a exprimir-se por milhões. Madden era mais rico do que nunca chegara a imaginar no tempo dos seus devaneios de criança. A bem dizer, pouco se preocupava com dinheiro, salvo quando se tratava de animar sua velha mãe, a quem amava ternamente. Em 1929 comprara para ela em Graysville, no Estado de Vermont — porque a velha tinha grande apego à terra natal — uma pequena e confortável vivenda em estilo colonial.

Proprietário das Fábricas de Cola Reunidas, Madden era uma das personalidades mais conhecidas de Cleveland. Mas conservara sua simplicidade de maneiras e se expressava por frases curtas, com uma tranqüila modéstia. Tinha agora 35 anos, e durante cinco trabalhara como um forçado. Tendo atingido o fim que se prefixara, dissera a si mesmo que chegara o momento de parar um pouco. Assim, na primavera anterior, fechara o escritório para umas férias na Europa.

Essas imagens do passado lhe voltavam ao espírito enquanto rodava ao lado de Catherine, e sentia-se tentado a revivê-las para ela.

Mas não se decidia a abordar o assunto, e ainda hesitava quando o automóvel desembocou em frente a Beechwood, que era como a velha Sra. Lorimer batizara sua "vila". Eram quase 5 horas, e a fachada da pequena casa, cheia de bonitos ornatos, já se divisava entre as sombras da noite. Madden guardou o carro, pegou o saco e os pacotes de Catherine e seguiu a moça ao longo da estreita vereda que conduzia à porta de entrada. Penetraram na sala de visitas onde a Sra. Lorimer, junto à lareira, se balançava impaciente numa cadeira de balanço.

— Como se atrasaram! — gritou a velha irritada, e sem ao menos lembrar-se de cumprimentar os recém-chegados. — Um minuto mais, e o chá estaria intragável.

Era uma mulherzinha de 70 anos, rechonchuda e curta de pernas, cujos olhos piscavam incessantemente como os das aves, e que abanava a cabeça de maneira agressiva. Trazia um vestido de seda negra, pois não tirara o luto desde a morte do marido, nove anos atrás. Na cabeça, onde debalde se procuraria um fio branco, tinha um gorro de renda branca, e este toucado, juntamente com a idade, e toda a sua aparência — e, principalmente, as bochechas pendentes — davam-lhe uma curiosa semelhança com a Rainha Vitória. Semelhança de que ela estava perfeitamente consciente e de que, no íntimo, não se orgulhava pouco.

Naquele momento, é verdade que a Sra. Lorimer nada tinha duma Graciosa Majestade, e parecia animada, ao contrário, de intenções francamente belicosas. Sem ligar à presença de Madden, que se limitara a mimosear de passagem com um aceno de cabeça, submeteu a filha a um bombardeio de perguntas relativas às pequenas encomendas que lhe fizera e à saúde de Nancy. Depois, quando Catherine lhe satisfez enfim a curiosidade, a velha se levantou e passou diretamente para a sala de jantar. A mesa estava cheia de comidas abundantes e imprevistas. Não era nem um almoço, nem um lanche, nem um jantar, mas uma estranha combinação das três refeições. Havia pão branco e pão preto, em côdeas e em fatias, duas espécies de bolo, fatias de queijo com aipo, e biscoitos num prato de prata. Ao centro, debaixo do lustre, um pudim de creme, junto a uma compoteira com ameixas cozidas. Peggy, a criadinha, trouxe logo em seguida uma imponente torta de peixe fumegante, e, numa enorme bandeja, apareceu um majestoso bule de chá.

A Sra. Lorimer deitou o chá nas xícaras e serviu a torta. Teve o cuidado de escolher para si a melhor porção, provou-a, bateu com a cabeça num ar de crítica e deu a entender, com uma ligeira careta, que estava ao seu gosto. Só então teve tempo para atentar na pessoa de Madden. Ainda que tardio, o exame foi muito severo. E a conclusão, mais severa ainda.

— Então, o senhor quer casar com Nancy? Só posso dizer-lhe, rapaz, que a noz será dura de roer!

— Nancy e eu — respondeu ele, no mesmo tom — nos entenderemos sempre, Sra. Lorimer.

— Talvez — disse a velha com um ar sobranceiro. — Mas precisará de tempo e de trabalho para chegar a isso. E que Deus o proteja, rapaz, se não vencer!

Foi o começo de toda uma série de observações, de perguntas, de provérbios e citações bíblicas que a velha atirou à cabeça de Madden. Dado o rigor puritano que decorria de sua educação, e graças a um egoísmo profundamente enraizado, ela era muito de temer. Mas, estimulada por várias xícaras de um chá muito forte, e por consideração de alta moral, parecia estar aquela noite em perfeita forma, esmagadora.

Catherine conhecia a mãe, e aprendera a suportar seus piores acessos de mau humor. Dando conta, com dificuldade, da horrível torta de peixe, que detestava desde muito criança, observava Madden e o modo como ele enfrentava a fuzilaria de sua mãe. A contragosto, admirava-lhe o espírito e o domínio de si mesmo. Naturalmente, ele dissimulava o seu estado de espírito porque, com o rumo impossível que a conversa tomara, devia sentir-se como um peixe fora dágua. Entretanto, escutava com interesse o que se dizia, e comia com apetite.

Pouco a pouco, e quando já haviam chegado às ameixas, Catherine descobriu que Madden, tivesse ou não feito esforços para isso, estava a pique de conquistar a velha. Quando voltaram ao salão, onde ardia um bom fogo, projetando uma tépida claridade sobre a pele de urso estendida diante da lareira, bem como sobre a guarnição estilo Rainha Vitória, as peças de porcelana e os bibelôs que decoravam a mesinha, a Sra. Lorimer soltou um suspiro de satisfação.

— Sente-se nesta poltrona, Sr. Madden — disse ela. — Verá que é muito confortável. Pertencia ao meu saudoso marido, e não consinto que qualquer um se sente nela. Pode ficar assistindo à nossa "paciência".

O jogo de paciência a dois em que ela pensava, e que constituía uma surpreendente infração aos seus princípios puritanos, era, com o rádio, pelo qual tinha loucura, sua principal paixão. A cada fim de semana obrigava impiedosamente Catherine a servir-lhe de parceira. Madden lançou um olhar interrogativo à moça e, sem a menor dúvida, leu em sua fisionomia, porque tomou um tom suplicante:

— Sua filha parece um pouco cansada. Que acha de uma partida comigo?

— Meu Deus! Catherine está sempre cansada quando se trata de proporcionar um prazer à velha mãe.

— Não, não é isto, minha senhora. Eu é que estou com muita vontade de jogar — replicou Madden — e esteja certa de que não sou um adversário desprezível.

— Verdade? — exclamou a Sra. Lorimer, aprestando-se para a peleja. — Não é um adversário de se desprezar? Muito bem. Veremos.

Olhou o relógio.

— Dispomos de uma boa meia hora. Às 8 haverá um belo programa no rádio: "A Pérola Negra". Devemos ouvi-lo.

Sentaram-se junto à lareira em torno à mesa coberta com um pano verde, enquanto Catherine, feliz por haver escapado à tarefa, instalava-se no divã e acompanhava o jogo com crescente atenção. Sabia, por uma longa experiência, que, se Madden não cedesse em toda linha, haveria discussão e briga.

A Sra. Lorimer saiu bem. Foi mão, tirou boas cartas. Com as lunetas no nariz, e conservando ao alcance das mãos as famosas amêndoas confeitadas, recostou-se no espaldar da poltrona com um ar satisfeito. Tinha a chance e dirigia o jogo. Mas após um instante, Madden, que se mantinha de guarda, passou a conduzi-lo.

Como Catherine previra, sua mãe se pôs a trapacear. Tinha um feio defeito: não se conformava em perder. Isto nunca! Houvesse o que houvesse, e a todo custo, queria ganhar. Fosse ou não um caso de consciência, pouco lhe importava. Antes que suportar a vergonha de uma derrota a velha se resignava a enganar o próximo, e isto sem nenhuma precaução.

Naturalmente, Madden o percebeu imediatamente. Catherine, cujos olhos sombrios permaneciam fixados nos jogadores, esperava o momento de ver a batoteira desmascarada. Se ele protestasse haveria uma cena; se nada dissesse, é que lhe faltava de todo energia. Mas Madden adotou outra tática. Com o ar mais sério do mundo, pôs-se a ajudar a velha nas suas trapaças, a princípio com discrição, depois cada vez mais ostensivamente. Em lugar da carta ruim a que ela tinha direito, passava-lhe uma boa e insistia em não se aproveitar de suas próprias chances. Cada vez mais, assim, ele colaborava nas manhas da parceira. A princípio, a Sra. Lorimer estourava de rir, com íntimo contentamento, e aceitava os presentes de boas cartas que Madden lhe fazia; depois, foi pouco a pouco mudando a expressão do rosto. Atirou ao adversário um ou dois olhares desconfiados, e enfim, após uma série de lances felizes, parou, hesitou um momento, e corou.

— Por que o senhor me olha assim? — perguntou, exaltada.

— Admiro-a, Sra. Lorimer — respondeu Madden em tom sério. — Corri o mundo inteiro, e nunca encontrei um jogador que valha a senhora!

— Que diz? — exclamou a velha.

— É verdade, nunca, minha cara senhora.

Sua voz tomava aquelas inflexões arrastadas, características da gente do sul dos Estados Unidos.

— A senhora é o maior campeão que eu já enfrentei na vida!

A velha senhora suspirou profundamente. Seus olhos em forma de botões pareciam sair das órbitas, e ela se preparou para fulminar o interlocutor. Mas de súbito caiu na risada. Ria de estofar o pescoço, e, atirando à mesa as cartas, emborcou a taça de amêndoas confeitadas. Em toda a sua vida, Catherine nunca vira coisa semelhante.

— Meu Deus! Meu Deus! — exclamou afinal a Sra. Lorimer arquejante. — Que graça! Campeão! Ouviu, Catherine?... É incrível!

— Não, é verdade, minha senhora — repetiu Madden. — Asseguro-lhe...

Não conseguindo dominar-se, ela se balançava na cadeira e mandava, com um gesto de mão, ao rapaz que se calasse, enquanto as lágrimas provocadas pela hilaridade lhe corriam pelas faces.

— Pare — suspirava — o senhor me mata, rapaz! Não é muito engraçado... Campeão no jogo de cartas! E eu trapaceei o tempo todo!

Nunca talvez naquela pequena sala aborrecida haviam ressoado semelhantes gargalhadas. Afinal, a velha conseguiu retomar sua dignidade.

— Meu Deus! — exclamou, enxugando as lágrimas. — Perdemos o programa.

Com uma agilidade de que ninguém a julgaria capaz, correu para o rádio e o ligou.

Por um instante o aparelho fez ouvir uns grunhidos confusos, depois encontrou a voz natural. A peça já começara realmente. Era uma moça que falava.

Madden encarou Catherine, e viu que ela igualmente o olhava, espantada. Os olhos da velha se arregalaram e erraram algum tempo de um para o outro. A moça do rádio continuava a falar.

— É impossível! — disse Madden.

Não, não era possível. Nancy estava de cama com febre, não o avisara de nada. Nancy estava doente; não se achava em condições de poder levantar-se.

— Que é que há? — exclamou a Sra. Lorimer, completamente aturdida.

— Deve ser engano — disse Catherine, consternada e perplexa.

Mas não era engano. A voz que chegava até eles, clara e nítida, através do espaço, era, sem a menor dúvida, a de Nancy.