A Dama dos Cravos
Capítulo 13 · Catherine estava de novo em Nova York.…
Catherine estava de novo em Nova York. Ainda era segunda-feira, e fazia apenas três dias que ela desembarcara na gare da Grand Central. Mas esses três dias lhe pareciam uma eternidade. No tumulto da grande cidade que a envolvia novamente, os dias passados em Graysville lhe deixavam a lembrança de um sonho longínquo e muito doce.
Nancy e Madden igualmente haviam voltado. Bertram assinara contrato com o Imperial Theater, e os ensaios recomeçaram. Tendo resolvido adiar sua viagem a Cleveland, para ser agradável a Nancy, Madden se instalara de novo no Waldorf.
Nos dias que se seguiram, Catherine quase não se encontrou com ele, e viu-se igualmente privada da companhia da sobrinha. Se bem que Nancy estivesse de todo absorvida pelo seu teatro e pelos ensaios, Madden quase nunca a abandonava. Acompanhava-a ao meio-dia, à tarde e à noite aos restaurantes mais elegantes, e lhe satisfazia todos os caprichos. Nancy se entregara ao trabalho com um zelo desesperado, mas nos intervalos atirava-se loucamente aos prazeres da vida mundana. Assim ela combinou para a quinta-feira à noite ir a uma boate com Catherine e Madden.
Catherine não tinha muita vontade de ir, mas cedeu para fazer a vontade de Nancy. Procurava concentrar todas as suas energias nos negócios. Estava obsedada pelo pensamento de que tinha que vender a miniatura de qualquer modo, e aguardava com impaciência a chegada de Brandt. Notava que essa inquietação submetia a sua resistência nervosa a uma dura prova.
Quando chegou quinta-feira, sentia-se irritável e esgotada. Só uma coisa era clara demais: o intenso desejo que sentia de rever Madden.
Quando se encontraram à noite, ela ficou aterrorizada com a mudança que se operara nele. Parecia ter emagrecido e envelhecido, e tinha olheiras profundas.
Foi um encontro estranho. Sua encantadora amizade, a lembrança das horas passadas em Londres e durante a primeira parte da travessia, depois a noite em que patinaram lado a lado no lago de Graysville, tudo isso parecia expelido de seu espírito. Sua atitude traía uma reserva dolorosa. Não olhava para ela; e quando lhe estendeu a mão, estava gelada. Para Catherine foi este um instante cruel. Quanto a Nancy, estava muito ocupada com a sua própria pessoa para se aperceber de qualquer coisa.
Ficaram alguns minutos no saguão do hotel. A conversa esmorecia. Madden saiu e chamou um táxi. Quando chegaram à boate, a sala estava cheia mas haviam reservado uma boa mesa. Catherine ficou de novo admirada da facilidade com que Madden, que ela revia, na lembrança, em meio de gente fracassada, sabia dar ordens.
Ele pediu um Magnum. Apesar do champanhe, a conversa se arrastava. Felizmente pouco depois da entrada dos três, as luzes se apagaram para o primeiro número do programa de cabaré. Apareceu Daisy Jervis. Avançando sob a luz deslumbrante do projetor para o microfone instalado no meio do palco, começou a cantar seu repertório. Era uma artista conhecida do rádio e das boates. Não era bela, mas sua transbordante vitalidade exercia fascinação.
Nancy a escutava com atenção fixa e uma atitude de prevenção crítica que é própria do ofício. Se bem que não se abstraísse do ambiente, Catherine não podia desviar os olhos do perfil de Madden. Sob a luz que caía do palco, ele parecia ainda mais magro e abatido. Fumava sem parar, e seus dedos, agitados em movimentos febris, estavam amarelecidos pelo tabaco. Ela ainda não o havia notado. Seria o sinal de uma preocupação secreta que se houvesse abatido bruscamente sobre ele? Madden evitava sempre olhá-la. Tinha os lábios cerrados e a boca imobilizada numa expressão de grande abatimento.
O número ia terminar, e Nancy, que nada notava nos companheiros, bebia o seu champanhe e fazia observações sobre os vizinhos de mesa. Reconhecia já a maior parte dos "dez mil" da alta sociedade nova-iorquina, e em qualquer outra ocasião os pequenos reparos que ela fazia com ares de superioridade teriam produzido o efeito de uma sátira muito divertida. Subitamente fez um sinal com a mão para um canto do salão, onde descobrira alguns amigos da companhia.
— Bertram está aqui, Catherine! Com a Brent e John Sidney. Estão numa mesa que nem de longe se compara com a nossa! À sua saúde, Chris!
Daisy Jervis fez ouvir uma nova canção, uma rouca melodia da Broadway, toda em dissonâncias brutais e síncopes bruscas. Era o clou [fecho] do seu programa, e todos a escutavam em profundo silêncio. A voz rude da cantora interpretava admiravelmente o ritmo agudo e cortante da vida das ruas, e refletia todas as crueldades e todo o ruído da vida moderna.
Catherine agora se deixara conquistar. Não podia fugir à instância daquelas cadências marteladas. Mas o canto lhe fazia mal e ela tinha o coração opresso. Lançou um olhar ao salão superaquecido, resplandecente de flores e de jóias. No meio daquele luxo provocante, entre as decorações exóticas e as garrafas de alto preço, estava uma humanidade perfumada e bem-posta, cheirosa e bem tratada, congelada em vestidos de seda e plastrões engomados, homens de fisionomias astutas e duras cabeças de mulheres empoadas como máscaras e duma beleza quase metálica.
Um grande desânimo se apoderou dela, e uma intensa necessidade de evasão. Involuntariamente, reviu Graysville e a bonita paisagem de Vermont, pensou em tudo que a vida pode oferecer de simples e de belo, ar fresco, uma alimentação sadia e a aspereza dos claros horizontes campestres. Uma nostalgia dolorosa, como nunca experimentara em sua vida, a empolgou. Gostaria de escapar daquele ambiente artificial e acabar seus dias num tranqüilo retiro. Essa mesma nostalgia — pensava — Lucie de Quercy devia ter sentido quando, após haver assistido às solenidades da corte, soube da morte do bem-amado do seu coração e encontrou destruída a sua felicidade.
As luzes se acenderam de novo. Catherine não pôde ver Madden porque ele ocultava o rosto com a mão. Mas Nancy teve um grito de entusiasmo:
— Esta mulher é formidável. É verdadeiramente um número sensacional!
Catherine bebeu um gole de água gelada. A exclamação de Nancy quase lhe fazia mal. Tudo que a cercava lhe parecia cada vez mais estúpido e vão. Para grande alívio seu, um garçom se aproximou da mesa no mesmo instante para lhe avisar que chamavam Miss Lorimer ao telefone. Catherine pediu licença, levantou-se e acompanhou o rapaz.
Fez então na mesa um estranho silêncio. Por fim, Nancy observou:
— Catherine não se sente bem de todo. Nada disto interessa a ela.
— É verdade — disse Madden. — Nada disso interessa a ela.
— Coitada! E faz tanto esforço para se interessar.
Madden lançou a Nancy um olhar rápido.
— Ela já se sacrificou muito por você, não?
— Oh! sim, naturalmente — concordou Nancy. — E podemos dizer que de todo o coração.
Madden se endireitou na cadeira. Levantando a cabeça, encheu de novo a taça de champanhe e a bebeu de um trago. Depois fincou os cotovelos na mesa, e falou num tom sisudo:
— Escute, Nancy, tenho uma coisa para lhe dizer. Depois que voltamos de Graysville, estive refletindo. Acho que devemos nos casar imediatamente.
— Se você quer — respondeu Nancy com um ligeiro sorriso.
Os olhos sombrios de Madden não a largavam.
— Quero dizer, imediatamente mesmo. É preciso acabar com isto. Casaríamos nos últimos dias da semana que vem.
— E por que, Chris?
— Por que não? Você gosta de mim, não é?
— Bem sabe que gosto.
— Então está combinado. Sábado, 8, quando eu voltar de Cleveland; e você já terá dado a primeira representação.
O tom de instância que havia na voz de Madden a comoveu. Baixou os olhos.
— Está bem, querido — murmurou. — Combinado. Sinto-me realmente muito feliz, você sabe. Imagine que em Graysville eu estava atormentada pela idéia de que ia exigir-me que abandonasse o teatro antes do nosso casamento.
— Você abandonaria?
Ela fez sinal que sim.
— Não era talvez coisa minha só. Porque eu tinha a impressão de que lá em Graysville eu não era bem vista. Parecia-me que não gostavam de mim por ser atriz. E no entanto, querido, o teatro representa tanto para mim! — Seus olhos, que o fixavam com ternura, refletiram nesse momento uma emoção real. — Mal estreei. Mas mostrarei o que sou, você verá! E não com esses papéis imbecis em farsas idiotas, mas com autênticas criações: Ibsen, Shaw, Shakespeare. Um dia, Chris, farei Ofélia, e de cortar a sua respiração. Sei que posso fazê-lo, e é preciso que chegue até lá. Quero que se orgulhe de mim. Oh! querido, é horrível ter no sangue semelhante vocação! Ela é tão forte quanto o meu amor por você. Nada posso fazer; jamais renunciarei à vocação! E por que havia de renunciar? Nosso amor é compreensivo; e vivemos no século XX, não é? Não há razão no mundo que fosse capaz de me impedir de o possuir continuando na minha carreira. Conhece alguma, querido? Diga!
Esta declaração feita num tom de imprevisto calor perturbou-o profundamente. Conservou os olhos abaixados, mas segurou a mão de Nancy por baixo da mesa e apertou.
— A princípio eu não podia compreendê-la, Nancy, mas agora, sim. Pensava que não tinha pelo teatro mais do que um encantamento superficial. Mas, acredite-me, se lhe agrada conciliar o casamento e sua carreira, eu me arranjarei perfeitamente, também eu.
Fez-se silêncio.
— A humanidade sempre se desaveio por essa questão de casamento e carreira. Mas nós dois saberemos resolvê-la, não é, Chris?
— Sim. Saberemos.
— Agradeço-lhe, Chris — murmurou ela. — Meu amor por você ficará ainda maior.
Calaram-se de novo; depois Nancy perguntou:
— E você, querido, continua a gostar do mesmo modo de mim?
Ele a encarou com um olhar calmo e franco.
— Sim. Eu a amo, Nancy. Não lhe disse já mil vezes?
Quando Catherine voltou, eles falaram de coisas sem interesse. Fazia-se tarde. A orquestra tocou um desses trechos acelerados que anunciavam o fim da festa. Pela primeira vez durante a noite, Madden olhou Catherine nos olhos. Parecia ter reencontrado seu equilíbrio, e perguntou num tom amável:
— Boas notícias, espero, não?
Catherine sorriu.
— Era Breuget. Brandt telefonou de Chicago para marcar um encontro. Recebeu as fotografias que mandei, ampliações em cor da miniatura, e está entusiasmado. Chega amanhã de avião aqui, e nós nos encontraremos às 3 horas. Só terei de entregar a miniatura a ele, e o negócio está feito.
— Formidável!
Nancy gritou sua satisfação por cima da mesa. Seu olhar irradiava, como se se tratasse de sua própria felicidade.
— Felicito-a, querida. Como estou contente!
— Sim. É um peso que me tiram de cima do coração — disse Catherine.
— E a mim também.
A orquestra emudeceu. Eram 2 da madrugada, e a assistência se levantava para sair.
— Creio — falou Madden — que vamos todos dormir.
Nancy pôs-se a rir.
— Está louco, querido! Ainda é muito cedo. Devemos festejar o acontecimento. — Vestiu o casaco de pele. — Vamos ao Longchamps comer um sanduíche com Bertram e a companhia.
Uma sombra passou pelo rosto fatigado de Madden, mas ele se dominou. Catherine também não tinha vontade de prolongar a noitada. Quis dizer alguma coisa, mas desistiu. No vestíbulo encontraram Bertram e os companheiros. Leslie, Jean Marcks e Gloria Bishops se juntaram a eles, e, contemplando a imagem impressionante que o grupo formava nos grandes espelhos, Nancy se sentiu muito lisonjeada no seu orgulho.
Daí em diante, Catherine não teve ocasião de conversar com Madden. No dia seguinte ele partiu para Cleveland.