A Dama dos Cravos

A. J. Cronin · Capítulo 2 de 18

Páginas do PDF

A Dama dos Cravos

Capítulo 1 · NAQUELE dia úmido de novembro só a…

 

NAQUELE dia úmido de novembro só a miniatura de Holbein podia ter atraído à Galeria Vernon tantos amadores e marchands [negociantes]. Porque ela sobrepujava, de muito, em interesse e em valor, os outros objetos que iam a leilão. Era, aliás, conhecida pelo nome de "A Dama dos Cravos". Que a família Kneller houvesse consentido em desfazer-se dessa preciosidade, é que constituía um acontecimento de todo inesperado. A miniatura representava a Senhorita de Quercy, filha de um embaixador da França junto à corte de Henrique VIII. Holbein a pintara em 1532, pouco depois do seu regresso de Bâle para Londres, e nela se encontrava a melhor maneira do mestre na época mais feliz de sua fecunda carreira de artista.

A ampla sala estava lotada, quando precisamente às 4:30 foi apregoada a miniatura. Os primeiros lances, expressos num tom de polidez cordial e um pouco arisca, começaram em 2 mil guinéus, e muito rapidamente subiram a 5 mil. Depois de ligeira pausa, atingiram 7 mil, após o que houve uma nova hesitação. Enfim, a competição prosseguiu numa cadência alternada, sinal de que por enquanto somente dois concorrentes sérios se defrontavam. Aos 9 mil e 400 guinéus, produziu-se um compasso de espera.

— Nove mil e quatrocentos guinéus!

O leiloeiro, que dominava o salão do alto do seu estrado vermelho, com trejeitos obsequiosos, o cabelo bem penteado e uma pérola cuidadosamente espetada na gravata, repetiu o lance para Bernard Rubin. A oferta era contra Rubin; mas este não tinha de modo nenhum o ar de quem aceitasse o desafio. Afinal fez simplesmente um pequeno sinal irritado com os olhos que mal se podiam ver debaixo da aba do chapéu. Então o leiloeiro anunciou:

— Nove mil e quinhentos!

Uma resposta quase imperceptível surgiu do outro lado do salão.

— Nove mil e seiscentos!

Tomado de secreta cólera, Rubin seguiu o movimento das ofertas:

— Nove mil e setecentos! — gritou o leiloeiro num tom de voz que era ainda uma provocação a novos lances.

Desafiado de novo, seu oponente não se fez esperar.

— Nove mil e oitocentos — disse o leiloeiro, voltando-se para Rubin.

Desta vez, porém, Rubin dera sua última palavra. Já fora além do limite que prefixara e seu rosto tomou a expressão de uma indiferença estóica. Seu sucesso no negócio de antigüidades devia-o o velho Bernard Rubin justamente à faculdade que possuía de saber exatamente, quase por uma questão de centavos, quando devia parar.

— Nove mil e oitocentos!

O leiloeiro repetiu o lance, atirando um olhar interrogativo à assistência. Ninguém se mexeu.

— Nove mil e oitocentos... dou-lhe uma... dou-lhe duas...

Silêncio. Então, fatídico e sonoro, abateu-se o martelo.

— Nove mil e oitocentos... dou-lhe três! É de Miss Lorimer.

Catherine Lorimer levantou-se da cadeira, postada atrás da grande mesa, e, atravessando o vasto salão de arquitetura pomposa, dirigiu-se para a porta aberta. À sua passagem, alguns dos marchands lhe murmuraram felicitações; ela respondeu apenas com um ligeiro sorriso e não lhes deu nenhuma atenção. Na verdade, não saberia nesse momento o que lhes dizer.

A despeito de uma energia conquistada à custa de duras experiências, aqueles últimos segundos lhe pareceram intermináveis, e, depois desta fatigante tensão, tal coro de aplausos lhe fazia mal. Ela jurara possuir aquela miniatura, e Rubin, se houvesse mais uma vez coberto o lance, tê-la-ia obrigado a declarar-se vencida.

Como Catherine Lorimer descesse a escada, Bernard Rubin aproximou-se e a acompanhou em silêncio. Havia nele qualquer coisa de enigmático. Seu carro, uma limusine negra e prateada, de dimensões e de luxo extraordinários — Rubin nunca se furtava ao prazer de dizer ao primeiro que aparecesse o preço por que o comprara — esperava-o junto ao meio-fio. No limiar, os dois pararam um instante. Já se sentiam de novo dominados pela febre e ruído da rua, pelas luzes e o tumulto de Londres, e da sala de leilões lá em cima não conservavam mais do que uma imagem irreal e distante.

— Será o mesmo, por acaso, o nosso caminho? — perguntou Rubin.

Era a sua maneira de oferecer condução.

Iam soar as 5 horas. Catherine resolveu, bruscamente, não voltar ao escritório, e ir para casa. Fez sinal de que aceitava o automóvel.

Uma rajada de chuva fê-la estremecer. Num movimento rápido, jogou-se para dentro do carro.

Em King Street, o automóvel quase não andava; mas em Picadilly foi ainda pior: um formigueiro de ônibus e táxis. À força de parar e de retomar a marcha, acabaram, entretanto, por atingir Curzon Street. Debaixo das sobrancelhas espessas e salientes, os olhos de Rubin fixavam Catherine com uma expressão de astúcia e ironia.

— Subiu muito, Miss Lorimer — murmurou, por fim.

— Você quer dizer muito alto... para você, não é, Rubin?

— Talvez, talvez — concedeu ele, num tom displicente.

O comerciante calou-se por um momento para observar o magnífico diamante que espelhava no dedo mínimo da mão esquerda da rival.

— Seus negócios devem caminhar admiravelmente, Miss Lorimer, para que pudesse pagar tal preço pela miniatura, não é?

— Sim, não vão mal — replicou Catherine, no tom mais natural que pôde imprimir à sua voz.

— Ótimo! Estou muito contente! É espantoso! Enquanto isto, nós outros, comerciantes de obras de arte, estamos numa situação bem deprimente. Não há dinheiro, nem clientes, nem trabalho. E a senhora chega, e muito simplesmente oferece 10 mil guinéus por um minúsculo Holbein! Meus cumprimentos. Quase podemos dizer que é bonito demais para ser verdade.

Os lábios de Catherine já se entreabriam para a resposta, mas preferiu calar-se. Sorriu, apenas, um sorriso rápido e contido, que criava em redor dela uma espécie de barreira de silêncio, e, com o olhar distante, derreou-se sobre o assento. A expressão resoluta que nunca a abandonava afirmava-se assim do modo mais chocante. Sob sua aparência de calma adivinhava-se, entretanto, um temperamento singularmente impulsivo, sempre pronto a explodir, e nos seus olhos sombrios perpassavam clarões fugazes que traíam uma vitalidade em constante ebulição. Ao mesmo tempo o rosto estava impregnado de melancolia, e a ruga que lhe vincava a fronte denunciava pesadas preocupações e duras canseiras. Tinha feições delicadas, a tez clara, belos cabelos castanhos, olhos pardos e ardentes, o rosto oval e pálido. Os dentes eram tão brancos que iluminavam de frescor o mais furtivo dos seus sorrisos. Não tinha mais de 35 anos. Suas atitudes serenas, a gravidade absorta e a maneira por que controlava todos os seus gestos traíam alguma coisa de impenetrável e quase inquietante.

Trazia um vestido de lã escura, muito simples, visivelmente escolhido às pressas e sem cuidado. O chapéu, que costumava pôr um pouco atirado para trás, não tinha chique. Era evidente que ela não dava a menor importância ao modo de vestir-se.

Só os sapatos, feitos sob medida e de couro muito fino, revelavam a pequenina vaidade que Catherine podia ter em mirar os pés, que os possuía delicados e bonitos.

— Naturalmente — observou matreiramente Rubin — se a senhora pode contar com um lucro seguro de, digamos, 10%, e, sobretudo, com um pagamento rápido e em dinheiro vivo...

Catherine sacudiu bruscamente a cabeça.

— Muito obrigada, Rubin! Se me empenhei tanto em adquirir esse Holbein, é porque conto tirar dele um grande lucro.

— Um grande lucro? Será que ainda há isso? Aqui, de qualquer modo, é difícil. Não, aqui — chacoteou, parodiando uma canção popular — "aqui não o encontrarás"...

— É possível — confessou Catherine — mas, escute-me, Rubin, e pare com essa amolação. No mês que vem levo a miniatura a Nova York e a vendo a Brandt. Ele foi à Argentina, mas a 12 de dezembro estará de volta. Vai comprar-me a miniatura e me dará por ela 20 mil libras.

— Ah! Ah! Então é Brandt? — fez Rubin com uma entonação respeitosa. — A senhora é uma mulher esperta, mas, para lhe falar com franqueza, minha cara, eu não teria me exposto a tal risco.

— Posso dar-me a esse luxo — replicou Catherine cordialmente.

— Meus parabéns. — E Rubin fez uma pequena reverência. — Bem entendido. A senhora conhece suas possibilidades melhor do que eu.

Encarou-a de novo com uma insistente curiosidade, à qual se misturava um sentimento de involuntária deferência. Mas a moça retomara a sua expressão séria e tranqüila, querendo, sem dúvida, com isto, dar a entender que a conversa já se prolongara demais. Calaram-se os dois, então, até o momento em que Rubin, evidentemente desejoso de que ela não se fosse guardando dele a impressão daquelas indiscrições, encontrou outro assunto para conversar:

— Como vai sua sobrinha Nancy?

Referia-se à jovem atriz Nancy Sherwood. Catherine mudou de cara, e seus traços exprimiram a maior ternura.

— Vai otimamente! Acaba justamente de ficar noiva.

— Magnífico. E quem é o felizardo?

Catherine mordeu os lábios.

— Vou saber hoje. Estou convidada para uma reunião à noite, a fim de conhecê-lo. Mas peço-lhe um pouco de... Que época engraçada a nossa! No meu tempo as coisas se passavam de outro modo...

— Mas, minha cara, a senhora ainda é jovem! — interrompeu Rubin em tom caloroso.

— Muito obrigada! Você sabe o que quero dizer... Eis que Nancy parte para passar duas semanas em Nice, a fim de repousar um pouco antes do novo papel, e na volta nos traz o futuro marido como se fosse uma bolsa que acabasse de comprar!

— Sim, sim, hoje em dia essas coisas se fazem rapidamente — disse Rubin, rindo — mas no fundo, a cantiga é sempre a mesma.

Quando o carro fez a volta em Curzon Street e parou em frente à casa de Catherine, Rubin tentou uma última espertezazinha.

— Quer dizer que a senhora, na pior hipótese, assegurou um destino para o Holbein?

Batia-lhe na mão enquanto ela se levantava. E continuou.

— Se não chegar a desfazer-se dele, será um soberbo presente de noivado, não?

Estas palavras irônicas ainda ressoavam aos ouvidos de Catherine, quando ela entrou em casa. Morava ali num luxuoso edifício moderno. O frio esplendor dessa construção ofendia-lhe o gosto, mas o local lhe convinha para os negócios, e sua profissão exigia um endereço importante. O porteiro abriu-lhe a porta e a acompanhou até o elevador. Um segundo empregado, tão agaloado quanto o primeiro, conduziu-a ao sexto andar, onde se separou dela.

De origem modesta e levando uma vida muito simples, Catherine ainda se divertia com toda essa encenação, e às vezes sentia uma alegria infantil diante do aparelho pneumático que lhe trazia a correspondência, e diante das meias brancas dos criados. Mas naquela noite estava completamente absorvida por seus pensamentos. Com os supercílios franzidos, recordava as palavras de Rubin, e se perguntava até que ponto a velha raposa estava a par de suas dificuldades financeiras. Afinal, com um suspiro, confessou a si mesma que ele podia nada saber de preciso, mas havia razão para que lhe atribuíssem graves dificuldades.

No instante em que entrou no apartamento, seus traços se distenderam, e ela pareceu imediatamente triste e apreensiva. Pensava no dia árduo que acabava de viver. Depois de uma trabalhosa e estéril discussão com um cliente, mal tivera tempo de almoçar. Depois, fora a excitação dos lances. Tinha agora uma forte dor de cabeça que lhe dava vertigens, e um arrepio correu todo o seu corpo exausto. Num gesto nervoso, arrancou da cabeça o chapéu e o atirou, com as luvas, ao divã. Em seguida, foi para a pequena cozinha preparar o chá e cozer um ovo.

Um quarto de hora depois, diante do bule e do porta-ovos vazios, mediu subitamente o nada que era a sua existência. Quatrocentas libras por ano só para o aluguel do apartamento e outras 600 para o escritório. Acabava de dar 10 mil por uma simples miniatura. E seu jantar não chegara a lhe custar quatro pence [centavo de libra]. De súbito, pôs-se a rir às gargalhadas até o momento em que os olhos se lhe encheram de lágrimas. Eram lágrimas amargas, e se ela as deixasse correr livremente teria desabado sobre si mesma, soluçando.

Voltou para o quarto. A peça estava tranqüila, e continha alguns poucos móveis, escolhidos com gosto. Tirando os sapatos, Catherine atirou-se a uma poltrona e acendeu um cigarro. Raramente fumava; só quando estava ou muito contente ou muito triste. E naquela noite sentia-se totalmente abandonada. Nos últimos tempos, seus negócios vinham andando muito mal. No comércio de antigüidades há um incessante movimento de fluxo e refluxo. Como os outros, ela conhecera a prosperidade; agora estava no último degrau, e não havia mais quase esperança. Continuaria, decerto, a lutar corajosamente. Já se impusera todas as restrições possíveis. Não podendo fazer economia nos dois aluguéis, renunciara ao carro e sacrificara tudo que não fosse estritamente indispensável. E, no entanto, a situação ia sempre piorando.

Revestindo-se de decisão, proibiu a si mesma de pensar por mais tempo em suas dificuldades de dinheiro. Teria muito tempo para isso segunda-feira, quando se avistaria no banco com o Sr. Farrer. Por enquanto sua tristeza tinha causas mais profundas e mais íntimas. Sentia-se tão terrivelmente só! Aos olhos dos amigos mais chegados e dos parentes, aos olhos de todo o mundo, sua vida era um sucesso. Recordava o tempo dos seus começos, revia-se jovem de 17 anos, quando acabara de deixar a escola, na casa meio vazia de Tulse Hill. Nesse tempo não passava de uma tímida datilografazinha em Twiss & Wardrop, artigos de ferro em grosso, Duck Court, High Holborn. Nesse bazar, de uma categoria superior, deram-lhe um lugar de praticante, porque seu pai conhecia um dos sócios, como ele, muito dado às coisas da igreja. Mas, apesar dessa recomendação, cada vez que o Sr. Twiss lhe dirigia a palavra ou o Sr. Wardrop franzia a testa, ela começava a tremer.

Desse tempo para cá, sua vida mudara muito. Dirigia agora a casa Antica, de King Street, St. James, e de Park Avenue, em Nova York e era respeitada pelo seu gosto e sua competência. Consideravam-na uma especialista em instalações de estilos antigos, e em todas as questões concernentes às artes decorativas e à pintura. Era, talvez, entre todas as mulheres do mundo inteiro que fazem comércio de antigüidades, a mais conhecida. Tudo isto, entretanto, só lhe despertava sombrios pensamentos. Se triunfara foi por ser dotada de uma vontade de ferro, porque cerrara os dentes e resolutamente sacrificara tudo. Para fazer sua carreira impusera ao seu jovem coração timorato a mais severa disciplina e as mais duras privações. Quisera a qualquer preço chegar à meta, ser alguém. Atingira agora o fim visado, e seu orgulho estava satisfeito. Mas, pobre dela!, como, ao fim de toda essa luta, tudo lhe parecia inútil e vão!

Ao seu lado o telefone tocou. Num gesto fatigado — porque um dos tormentos de sua vida era estar assim sempre à mercê desse instrumento — retirou o fone. Era sua mãe que a chamava, da confortável vilazinha que Catherine instalara para ela, cinco anos antes, em Wimbledon.

— Afinal a encontro, Catherine!...

Mesmo na extremidade do fio, a velha Sra. Lorimer tomava desde logo o tom de censura de uma mulher abandonada:

— Que milagre ter eu a felicidade de encontrá-la! Levei o dia todo a sua procura. Parece que nunca tem tempo para trocar algumas palavras com sua velha mamãe. Nunca!

— Mas eu não liguei para você ainda ontem à noite? — perguntou Catherine com indulgência.

— É verdade, mas de qualquer modo. . . — replicou a velha num tom lastimoso. — Alô, alô! Está ouvindo?

— Estou sim, mamãe.

— Bem, mas não desligue! Tenho uma infinidade de coisas para lhe dizer. Espere um pouco. Tomei nota de tudo... Onde estão meus óculos? Ah, estou com eles no nariz! Bem, para começar, você vem aqui amanhã para o fim de semana com a Nancy e o noivo?

— Sim, provavelmente...

— Bem, minha querida. Agora, escute. Eu queria que me trouxesse algumas bagatelas, lã, amêndoas confeitadas, bolachas de chocolate e um bom romance novo. Sobretudo não se esqueça das amêndoas confeitadas, Catherine! Sim, e enquanto estivermos aqui compre-me também pastel de anchova. Gosto tanto deles. É tão bom, nas noites de inverno, com chá, no canto da lareira. Escute ainda, Catherine... Está entendendo? A lã tríplice de que eu necessito para meu novo xale, logo disso eu havia de me esquecer...

Catherine, que ouvia pacientemente, fez um ligeiro sorriso.

— Muito bem, mamãe, suas ordens serão cumpridas.

— Ordens? Veja só!

Logo a voz da Sra. Lorimer readquiriu o tom choramingas:

— Eu lhe peço algumas ninharias, e logo você se arrebita toda. Na verdade, Catherine, o modo como trata sua velha mãe passa dos limites. Ah, se seu pobre pai ainda fosse vivo!...

A habitual alusão ao túmulo paterno provocou um sobressalto em Catherine.

— Vamos, minha mãe — interrompeu com vivacidade — você compreendeu mal.

Houve uma pausa.

— Está zangada comigo?

— Ora, não, mamãe!

— Está bem. — Um pequeno suspiro de alívio correu pelo fio. — Aliás, é natural... está ouvindo? Alô! Esta idiota da telefonista sempre corta as nossas ligações! Então, boa-noite. Deus te proteja, minha querida! E não se esqueça das amêndoas confeitadas...

Catherine repôs o fone no lugar, abanando a cabeça. Se bem que a mãe se houvesse tornado bem mais tratável depois que tinha sua casa própria e tudo de que necessitava, sofria duma idéia fixa: a de ser uma perpétua vítima. Adorava queixar-se, e a força de lamúrias chegava freqüentemente ao limite do suportável.

Mas, lançando um olhar rápido ao relógio, Catherine afugentou resolutamente da cabeça todas as suas preocupações. Retomando a energia, passou para o banheiro e abriu as torneiras. Se bem que não tivesse nenhuma vontade de sair, não queria por nada deste mundo desapontar Nancy. Despiu-se rápido, e mergulhou na banheira. Enquanto seu corpo se reanimava ao calor caricioso da água, pensava na sobrinha, e insensivelmente as rugas se apagavam da testa, e um sorriso de expandiu nosseus lábios. Adorava Nancy, a filha de sua irmã mais velha Grace, que se casara, contra a vontade da mãe, com Joe Sherwood. Grace conheceu 15 anos de felicidade com Joe. Mas, confirmando uma sombria predição havia muito esquecida, os dois tiveram morte misteriosa e súbita num acidente de automóvel, viajando pelo campo. Desde esse triste dia Catherine tomou conta de Nancy, que a esse tempo não passava de uma débil menina de 14 anos. Catherine cumulou-a de solicitude, pô-la numa escola de arte dramática, e, cedendo às suas instâncias, dois meses antes permitiu-lhe enfim subir à ribalta. No seu transbordamento de afeto, Catherine se zangava com todos os que se permitiam dar a entender que ela estragava a sobrinha com uma excessiva indulgência. Para ela, Nancy era a mais gentil e a melhor moça do mundo e não havia criatura tão bonita.

Espantava-se ao pensar que agora Nancy era uma mulher, e voltava de Cote d'Azur para anunciar friamente que estava noiva. No entanto, o que podia lhe acontecer de melhor era justamente casar-se, construir para si o mais cedo possível um lar, e passar os melhores anos da existência entre um esposo e filhos. Nada Catherine desejava mais ardentemente para ela, e o desejava naquela noite com mais fervor do que nunca.

Saindo da banheira, friccionou fortemente a bonita pele clara. Era grata àquele corpo cheio de saúde, que lhe permitira suportar as fadigas e provações dos últimos anos.

Vestiu-se mais lentamente do que de costume, escolhendo um vestido que comprara quando de sua última viagem a Paris. Habitualmente quase não se preocupava com o traje. Achava que não tinha tempo nem razões especiais para se pôr elegante; e às vezes mesmo vestia-se com um desleixo que fazia sorrir, porque os outros viam nisso uma manifestação de originalidade da parte de uma mulher rica e que triunfara na vida. Naquele momento queria fazer-se bonita para Nancy.

Às 8h30min, estava pronta, e diante do estreito espelho de Vauxhall que encimava a mesa de toalete, verificou que, apesar dos sinais de fadiga que lhe marcavam o rosto, não estava desagradável de olhar. Algumas tênues sombras lhe sublimavam os olhos, mas a tez, que não carregava o peso do pó, era clara e fresca. A cor bonita dos lábios, cortados sobre a resplendente alvura dos dentes, atestava um sangue puro e vigoroso.

Lá fora, a chuva cessara. O asfalto, que uma leve brisa secara, convidava a caminhar. Nada Catherine apreciava tanto quanto andar a pé pelas ruas tranqüilas. Mas, lembrando-se dos seus sapatos de soirée, resistiu à tentação. Tomou um táxi para chegar até Adelphi, onde Nancy morava no último andar de uma velha casa nas proximidades de John Street.

O edifício, onde havia principalmente escritórios, não tinha elevador. E enquanto galgava a escadaria, Catherine já percebia o rumor de vozes. Quando a bonita criada de quarto de Nancy a introduziu, e o criado especialmente contratado para a festa a ajudou a tirar o casaco, as duas peças contíguas já estavam cheias de convidados, e todos excitados pelo fumo e pelo ruído.

Mal Catherine deu alguns passos, Nancy precipitou-se para ela e a beijou com a maior efusão.

— Oh, Catherine, como estou contente de vê-la! Todos estes dias senti tanto sua ausência!

Catherine sorriu.

— Mas então por que não me fez uma visitinha? Não está de volta desde quarta-feira?

— Eu teria ido de bom grado, querida, mas não pode imaginar como estive absorvida pelos ensaios, e por Chris, e por tudo o mais!

— Faço idéia.

Catherine pôs-se a mirar com ternura a sobrinha. Como estava encantadora aquela noite! Se bem que tivesse apenas 24 anos, sua beleza esbelta e racée [de linhagem] já atingira pleno desenvolvimento. O rosto era gracioso, mas de traços nítidos, com maçãs salientes, olhos azuis amendoados, e pequenos supercílios altos. Os cabelos, em tom pálido, conforme a última moda, brilhavam como fios de ouro. A boca estreita estava escarlate porque ela não espalhara o baton. Sob uma aparência displicente, uma vivacidade eletrizante animava-lhe o corpo delicado.

— Sabe — disse Catherine com fingida severidade — que sempre acreditei que sua arte fazia o papel de marido?

Nancy deu uma risada.

— É verdade, mas isto não me impede de casar com Chris.

— Ora vejam — respondeu Catherine com um sorriso e olhando em redor. — Mas onde está Chris?

— Vou deixar que você vá procurá-lo, querida.

— O quê?

— É engraçado. Você está sempre tão perdida entre meus amigos, querida, que aposto que não vai encontrá-lo.

— Se ele é um cavalheiro — observou Catherine, em tom de gracejo — parece-me que compete a ele descobrir-me.

Nesse instante mesmo, vários dos convidados entraram. Depois de fazer uma careta para a tia, Nancy correu a recebê-los. Catherine dirigiu-se ao buffet e se instalou numa cadeira diante de um prato de fatias de pão com caviar. Estava muito prevenida para se misturar desde logo com os presentes, e preferia retardar-se um pouco na companhia de um sanduíche. Era extraordinariamente senhora de si, o que devia menos à frequentação da sociedade — a que entretanto estava habituada — do que à sua perfeita simplicidade natural. Gostava da vida social, mas a observação de Nancy era justa; e a maior parte dos amigos que a sobrinha reunira naquela noite lhe eram totalmente estranhos. Pensou ter reconhecido alguns, o jovem ator David Almoner, que fazia papéis de Shakespeare, e sua mulher, Nina George, a pianista; o fotógrafo Arnold Rigby, John Harris, o diretor dramático da Rádio de Londres; e, depois, Tony Ulrick, cujos poemas humorísticos ilustrados por ele mesmo tinham grande sucesso, se bem que Catherine, pela sua parte, os achasse muito insípidos. Mas, na sua maioria, aquelas caras não lhe diziam absolutamente nada. Bebeu uma taça de champanha e mordiscou um sanduíche. O buffet estava excelente. Sem o confessar, ela apreciava tanto mais essas iguarias, quando não podia dar-se ao luxo de comprá-las.

Chegavam incessantemente novos convidados. David Chesan, autor da peça "Noite de Luar na Arcádia", na qual Nancy devia aparecer, fez sua entrada, seguido de perto por Sam Bertram, o célebre Bertie, que eclipsava todos os outros empresários. Ambos foram recebidos por Nancy com explosões de alegria. Bertram fez para Catherine um pequeno sinal em que se lia uma profunda amizade e significava que ele não tardaria em ir fazer-lhe companhia. Catherine respondeu com um sorriso. Conhecia Bertie desde alguns anos, fornecia-lhe às vezes a decoração necessária a uma mise-en-scène [entrada em cena] e apreciava-lhe a natureza vigorosa e a jovialidade de bom escocês.

O ruído crescia. Em meio ao tumulto, Ulrick recitou um dos seus poemas, enquanto Nina George improvisava ao piano um acompanhamento burlesco. Catherine começava a se sentir exausta, quando de súbito uma voz se elevou ao seu lado, destacando-se entre todas pelo tom calmo e também pelo sotaque americano.

— Parece-me que nós somos aqui as duas únicas pessoas de juízo.

Catherine virou-se surpresa. Um homem pequeno e um pouco pálido postara-se junto a ela numa atitude displicente, as mãos nos bolsos, e correspondia ao seu olhar de curiosidade com um sorriso cheio de malícia.

Era moreno e sólido, e podia ter 35 anos. Uma fina cicatriz alva cortava-lhe o lábio superior um pouco grande, e dava-lhe ao rosto estreito uma expressão de obstinação e de frieza. A tranqüila segurança que revelaram suas palavras desagradou a Catherine.

— Quererá o senhor dizer que estou nesse número? — perguntou ela, erguendo ligeiramente as sobrancelhas.

— A menos que isso não lhe convenha...

— Então o senhor seria o único e derradeiro representante duma humanidade sábia e sofredora...

Ele se pôs a rir, e uma discreta alegria se espelhou nas pequenas rugas que lhe circundavam os olhos.

— Estou estarrecido, Miss Lorimer. Parece-me que a senhora tem ainda mais espírito do que Nancy me diz. E ela afirma que tem muito.

Catherine ficou estupefata.

— Quer dizer que o senhor é...

— Pois não! — interrompeu ele com uma inclinação de cabeça e um risinho seco. — Sou Chris Madden. Vamos, não faça essa cara de enjôo. Sei bem que não sou digno de Nancy, mas farei os maiores esforços para o ser.

Num gesto mecânico, Catherine segurou a mão que se estendia para ela, e procurou refazer-se.

— Tola que sou! — exclamou. — Mas eu não podia imaginar que Nancy casasse com um americano...

— Sim, e eu — acrescentou Madden, sempre com a mesma voz tranqüila — nunca pensei que acabaria tomando uma inglesa por esposa.

Catherine teve de reconhecer que a lição não fora de todo imerecida. Corou, e pôs-se a examinar o rapaz furtivamente. Muito à vontade, fleumático, ele prosseguiu:

— Sim, como vê, tudo acontece de modo diferente do que prevemos. Quando encontrei Nancy em Nice... Deus! nunca esquecerei esse instante; fazia um bonito sol, nada que se parecesse com o seu nevoeiro daqui, Miss Lorimer... perdi o fôlego. — Hesitou, e retomou a calma. — Sim, isto se passou entre nós dois, como tem invariavelmente acontecido desde Adão e Eva.

— É, então, um verdadeiro idílio...

O tom em que ele pronunciara aquelas palavras, que tinham a aparência de uma espécie de declaração, era tão pouco convincente, que Catherine pôs na sua resposta uma pontinha de dúvida e quase de hostilidade. Talvez estivesse enciumada. Mordeu os lábios e seus olhos mediram o rapaz de novo. Era um segundo exame, ainda mais severo do que o primeiro. Examinou-lhe a roupa, que em nada lembrava as elegâncias de West-End, depois a camisa, que estava longe de ser nova. Seus olhos se apertaram. Toda a sua solicitude por Nancy despertou.

— E que fazia em Nice, Sr. Madden?

— Bem, gozava umas férias. Era a primeira vez, depois de muito tempo. Tinha visitado Roma, Florença e Veneza, e de repente senti saudade da França. Não a via há 22 anos, desde a guerra. É muito tempo, e entretanto, quando a gente repara, vê que passou tão depressa!

— Certamente — disse Catherine com indiferença — o tempo sempre engana. Pensa passar aqui muito do seu tempo, Sr. Madden?

— Depende de Nancy, Miss Lorimer. Eu gostaria que pudéssemos casar o mais breve possível. Mas Nancy é tão ocupada com o seu teatro! O papel na nova peça a está cansando muito. A primeira representação deve ser dentro de duas semanas em Manchester, e Nancy passa os dias em ensaios e preparativos. Enquanto isto durar, ficarei com ela, depois procurarei convencê-la a ir comigo para a América.

— Tudo isto me parece um pouco precipitado, Sr. Madden, não acha? — E Catherine fez um sorriso glacial. — Todos nós gostamos de Nancy, e, quanto a mim, tenho-lhe uma profunda afeição...

— Oh, sei disso — replicou ele, cortando-lhe a palavra. — Nancy me fala tanto da senhora. Foi simplesmente admirável para com ela.

— Chame a isto como achar melhor; a felicidade de Nancy é tudo para mim. Compreenderá, portanto, que eu deseje saber alguma coisa do homem que vai ser o marido dela.

Madden pareceu dobrar-se sobre si mesmo, e sua fisionomia tomou uma expressão dura.

— Estou ao seu dispor — replicou, com um olhar de esguelha.

Houve um silêncio. Catherine desviou os olhos, porque sentia que sua vivacidade magoara Madden e se censurava ao mesmo tempo pela sua impaciência. Mas, perguntava-se enervada, como poderia ter agido de outro modo? Estava um pouco aborrecida com a sobrinha por tê-la mantido assim na ignorância de quem era o noivo. Esperava encontrar um homem de todo diferente, um homem de quem não tivesse dificuldade em decifrar os pensamentos e a vida. Aquele estrangeiro, aquele americano desenvolto que se impunha a ela com tanta sem-cerimônia, inspirava-lhe não antipatia, mas uma espécie de desconfiança, que ela devia aprofundar, por amor a Nancy. Engolfada nessas reflexões, sentia-se muito pouco à vontade junto de Madden, quando Nancy se aproximou deles e lhes dirigiu um sorriso irradiante.

— Estou contente de ver que vocês já se conhecem. Agora que já sabe o pior, Catherine, diga-me: que pensa dele? Não é horrível?

Madden olhou para Nancy, e seu rosto retomou a sua animação.

— Receio que ela realmente me ache horrível. O mais estúpido é que eu não estava preparado para descobrir uma Miss Lorimer tão jovem e tão bonita, e ela, por seu lado, não imaginava ter de encontrar-se com um personagem assim tão mal-ajambrado. Devo confessar-lhe que ainda não paramos de discutir.

— Ela é terrivelmente arrogante — disse Nancy — mas, quando a conhecemos melhor, não é tão terrível.

Catherine teve um sorriso forçado. Era extrema a sua tensão nervosa.

— Falando sério, minha querida — continuou Nancy — eu gostaria que se entendesse bem com Chris. Não acreditará, mas afirmo-lhe que ele ganha se for visto mais de perto. Convencer-se-á disto se formos sábado a Wimbledon.

— Muito bem, pois, estou pronta para tudo — replicou Catherine com uma sombra de sarcasmo que era bem surpreendente nela.

— De qualquer modo, está avisada — concluiu Nancy com um ar de confiança satisfeita. — E agora venham comigo, e divirtamo-nos!

Mas, embora se esforçasse muito por se dominar, Catherine não chegava a se integrar no ambiente.

Uma hora depois voltava para casa. Experimentava uma estranha sensação de insegurança e mal-estar.