A Dama dos Cravos

A. J. Cronin · Capítulo 18 de 18

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A Dama dos Cravos

Capítulo 21 · Quando Catherine entrou em casa, às 5h30min,…

 

Quando Catherine entrou em casa, às 5h30min, teve a impressão do que alguma coisa se passara. Nancy estava em traje de sair, e voltava, sem dúvida, do seu almoço com Bertram. Se bem que a menina nada deixasse perceber, Catherine adivinhava que Nancy não estava à vontade. A princípio nada disse, depois pediu chá. Somente quando este estava servido, foi que ela se voltou para Nancy e lhe perguntou num tom de afetuosa solicitude:

— Então, que há? Será que o contrato deu em nada?

Nancy fumava, pensativa, o seu cigarro.

— Não, o contrato está assinado.

— Mas, então, que é que há?

Nancy calou-se um instante.

— Para falar em linguagem de romance, querida — disse por fim — acabo de fazer o maior sacrifício de minha vida.

— Sacrifício? — indagou Catherine, aterrada. — Por quem?

— Pela minha carreira — respondeu Nancy, escandindo as sílabas.

Catherine pousou a xícara na mesa e franziu a testa:

— Quer afinal, ou não, explicar-me de que se trata?

O olhar de Nancy era vago. Mas não se conteve:

— Devolvi a Madden a liberdade, e para sempre.

Fez-se um silêncio de consternação. Catherine se viu presa de um tremor, e seu rosto fremiu. Depois desencadeou-se nela uma tal tempestade de sentimentos diversos, cólera, piedade, indignação, medo, que ficou atordoada.

— Nancy — exclamou, em tom severo — deixe de fazer comédia, e diga-me enfim o que se passa!

Nancy tinha os olhos pregados na brasa do cigarro.

— É inútil ficar nervosa, o sacrifício está consumado. Ou Chris ou minha carreira. Cabia-me escolher. Ora, jamais, jamais eu renunciaria à minha vocação.

— Entretanto, sempre sustentou que podia conciliar as duas coisas.

— Agora já não sustento. Desde ontem à noite.

Qualquer outra explicação era supérflua. Catherine compreendia perfeitamente a situação, mas recusava admiti-la. Insistiu.

— Você não pode fazer isto, Nancy! Está um pouco embriagada pelo seu sucesso de ontem e por todos esses acontecimentos. Mas é uma loucura renunciar assim à sua felicidade!

— Quem lhe disse que renuncio à felicidade?

— Eu sei que renuncia — respondeu Catherine, séria — posso julgar o que é isso.

Nancy lhe atirou um olhar rápido e eloqüente.

— Não. Não pode julgar, desde que se trata de mim. Uma mulher não pode conciliar o casamento e o teatro. Já se tentou mil vezes a experiência, e nunca deu certo. Oh! Sim, eu sei bem que costumava dizer... É inútil insistir. Eu acomodei Chris. Mas com você, Catherine, quero ser inteiramente sincera. Esta mudança é a conseqüência do sucesso. Todas as portas se abrem para mim, uma carreira sensacional, o triunfo.

Sua voz tomou uma entonação surda e estranhamente distante:

— Serei um dia uma grande, uma grandissíssima artista...

— Não esteja tão certa disso — interrompeu Catherine num tom cortante. — Muitas outras têm acreditado assim no sucesso, e...

— Comigo a coisa é outra — retrucou Nancy, com uma expressão sonhadora. — Subirei sempre cada vez mais. Prepare-se para me ver um dia representar Ofélia.

Catherine lembrou-se das palavras de Izzard, o crítico. Sentiu-se envolver por uma onda de resignação, mas numa suprema tentativa tornou com voz suplicante:

— E se conseguir, enfim, esse grande triunfo, que acontecerá? Será mais feliz? O sucesso não faz a felicidade. Sei que isto lhe parece insensato, e no entanto é verdade, é terrivelmente verdadeiro. Sou mais velha do que você, querida, e conheço a vida. Fala de sua carreira. Escute, eu também fiz uma carreira e sacrifiquei tudo por ela. Acredite-me, não vale a pena. Se eu tivesse de recomeçar, preferiria um lar, meu, mesmo que fosse no bairro mais pobre; filhos, e alguém para me amar na velhice, antes que toda a glória e toda a popularidade do mundo.

Catherine interrompeu-se, um pouco vexada. Impassível, Nancy a olhava com uma comiseração a que se misturava a arrogância. Respondeu, num tom distante:

— É o seu modo de encarar as coisas. Eu as vejo de outra maneira.

— Vai se arrepender.

— Não, nunca!

Fez-se um silêncio, angustioso. Catherine fitava a sobrinha com olhos entristecidos. Estava consternada, mas ainda não se confessou vencida:

— Diga-me, Nancy, já não tem amor por Chris?

— Amo-o sim. Mas não o bastante. Há qualquer coisa que me fala mais ao coração do que a presença de Chris. E foi por isto que tive de separar-me dele.

— Não posso crer — murmurou Catherine. — Não posso acreditar nisso, em você menos do que em ninguém.

Nancy levantou-se. Sua fisionomia continuava impenetrável.

— Lamento que pense assim, querida! É triste, mas nada há a fazer. Cada um deve viver sua vida. Eu escolhi este caminho. E é tudo!

Olhou o relógio, arrumou os cabelos para trás, num gesto tranqüilo, e voltou para o quarto de dormir.

— Às 7 horas, tenho de estar no teatro.

— Nancy! — exclamou Catherine, súplice.

Mas Nancy já não a ouvia. A porta se fechava com um ruído seco. Esse ruído, em que se resumia a inutilidade de tantos esforços, atingiu Catherine no coração. Ela fizera todo o possível para induzir Nancy a voltar atrás na sua decisão; fracassara. Talvez estivesse errada, mas Nancy lhe parecia uma criança mimada e caprichosa que arruinava sua vida e se lançava estouvadamente à infelicidade, estendendo os braços às bolhas de sabão de suas ilusões, cujos reflexos irisados lhe ofuscavam os olhos. Estremeceu. Com uma tristeza feita de ternura, recordava o dia em que Nancy, pequena criatura abandonada, viera para sua companhia. Tinha o coração despedaçado, mas conservava os olhos estranhamente enxutos. De quanto amor não cobrira a sobrinha! Quantos planos arquitetados, quantos sacrifícios consentidos na esperança de fazê-la feliz!

Seu desgosto se expandiu num profundo suspiro. O coração lhe sangrava à idéia de que Nancy abandonara Chris. Tinha a impressão desesperante de os haver perdido a ambos... Nada mais lhe restava senão o sentimento doloroso de sua impotência.

Capítulo 22

 

Sábado de tarde. O quarto de Catherine, cheio de papéis de embrulho, de cabides, de cobertores, oferecia o espetáculo melancólico de uma partida precipitada. As malas grandes já tinham sido mandadas para bordo, e Catherine acabara de despachar a arrumadeira. Sentara-se um instante para descansar, e seus olhos erravam pelo quarto em desordem. Os tapetes estavam juncados de destroços, os jarros vazios, as flores acabavam de fenecer nas bordas da janela. Esse caos surgia aos olhos de Catherine como a própria imagem da sua vida. Em vão dizia consigo mesma que tudo seria reposto em ordem num piscar de olhos, limpo, arejado e refrescado. Mas — pobre dela! — para outro viajante...

Três horas depois deveria partir no Pindaric, o mesmo velho navio fiel que a trouxera. Ao seu ver, esse simples fato era uma prova típica da inanidade de suas caminhadas errantes através da existência. Upton embarcava com ela. Com aquela obsequiosidade que lhe era natural, fora, pouco antes, à agência da companhia comprar-lhe a passagem, porque ela só no último momento se lembrara de tratar das formalidades da viagem.

Devia reconhecer mais uma vez que a solicitude de Charley lhe era infinitamente preciosa. Um rapaz gentil e um bom amigo.

Mas também sabia perfeitamente que ele jamais poderia ser outra coisa para ela. Era muito indeciso, muito fácil, muito emotivo para dominá-la. Ela precisava de uma criatura que a subjugasse e que soubesse, à força de retidão e de simplicidade, fazê-la despertar para o amor.

A Madden, ela amava de todo o coração, de um amor de que antes nunca fora capaz. Nunca deixaria de amá-lo. Seria seu destino, como fora o da pobre Lucie de Quercy, trazer eternamente uma dor secreta no fundo do coração. Para pensar nele, necessitava de recorrer a todo o seu bom senso e a toda a sua razão. Não o vira mais depois da noite do triunfo de Nancy, e apenas sabia que deixara o hotel. Não se admirava de ele não a ter procurado mais. Talvez a princípio, sem o confessar a si mesma, esperasse que ele viesse. Mas agora refletia que a situação era muito complicada para um desfecho tão simples. Sentimentos por demais delicados estavam em jogo. A atitude de Nancy devia tê-lo ferido mortalmente e transtornado a sua vida interior.

Estava firmemente convencida de que Madden já seguira para Cleveland, que já havia suportado bastante caprichos de mulheres e decidira, de uma vez por todas, pôr um ponto final nesse doloroso capítulo de sua existência. Seu olhar caiu sobre o telefone. Aquele pequeno instrumento era o mais indicado para restabelecer o contato com Madden. Mas preferiria morrer antes de recorrer a ele. Sua altivez o impedia. Não fora ela própria que propusera a separação? Não, não! Se Madden não voltava por iniciativa própria, ela só tinha de ficar onde estava. Uma separação nítida e definitiva era a melhor solução. Para ela aí estava, também, a única chance de salvar-se.

Sem dúvida ele a esqueceria rapidamente. Casaria com uma jovem americana que soubesse fazê-lo feliz. Catherine teve um calafrio à idéia do pequeno episódio que lhe voltava à memória. Georges Cooper não a chorara muito tempo, Madden seguiria o exemplo... Sem amor, e com as mãos vazias, ela seguiria até o fim o seu caminho solitário.

Levantou-se lentamente, reuniu suas forças e se pôs a embrulhar as últimas coisas. Nancy estava no ensaio e era pouco provável que pudesse estar livre antes da hora do embarque. Ao pensar em Nancy, seu coração ficava duplamente pesado: de repente, Nancy lhe parecera tão mudada, tão distante. Não lhe falaria mais de Madden nem das suas próprias preocupações, ela que, numa cabeçada, sacrificara o amor à arte.

O sucesso de Nancy estava assegurado. Iria afirmando-se sem cessar, e sua carreira se apresentava sob os mais brilhantes auspícios. Não fora em vão que ela abandonara Madden. Estava assinado o contrato com Morris; na primavera, ela iria para Hollywood com honorários que ultrapassavam seus mais ousados sonhos. Apesar do seu compromisso com Morris, continuava nos melhores termos com Bertram que continuaria a ser seu manager quando ela voltasse ao palco. O empresário já tinha remodelado a peça para valorizar mais o papel de Nancy. Estava cheio de entusiasmo, e acariciava uma porção de belos projetos. Reservava para Nancy o estrelato na próxima tournée, e mandara aos jornais, sob o título de "Uma Nova Estrela Surge no Horizonte", uma entrevista em que só falava da sua extraordinária descoberta — descoberta, aliás, cujo mérito ele se atribuía todo.

Num gesto definitivo, Catherine fechou a maleta. Tudo estava acabado. Só lhe restava dar suas instruções ao porteiro, e ir embora sem dizer nada. Um silêncio esquisito enchia o quarto. Do outro lado do corredor, a música de uma estação de rádio chegava aos ouvidos de Catherine, uma música irreal, que lhe era ao mesmo tempo estranha e familiar. Imediatamente pôs-se a escutar, e sentiu um aperto no coração. Era a ária a cujo som dançara com Madden no Pindaric. Palavras banais e uma melodia sentimental... As lágrimas lhe subiram aos olhos, porém ela as reprimiu. Coragem! A coragem era tudo que lhe restava. Entretanto, a música não parava, e aquele ritornelo monótono crispava seus nervos doloridos.

Pôs o chapéu e o casaco. Correu com um último olhar todo o quarto e se aprontou para sair. Os membros lhe pesavam, e sentia a cabeça oca. Passou para a sala. E aí encontrou Madden, de pé, à entrada.

Seu coração parou; depois começou a bater loucamente. Aquela visão era tão inesperada e dolorosa que se julgou vítima de uma alucinação. E, no entanto, era mesmo ele. Com um ar grave e calmo, Madden foi ao encontro dela.

— Eu não podia deixá-la partir — disse-lhe num tom de cordialidade tranqüila — sem lhe ter dito adeus.

Então era para isso? Ele viera só para se despedir. O pulso de Catherine aquietou-se um pouco. Uma sensação de frio estranho lhe percorreu todo o corpo.

— Afinal — prosseguiu ele com um ar desembaraçado — há muito que nós combinamos ser bons amigos. Separemo-nos, então, como bons amigos.

O rosto de Catherine estava pálido e desfigurado.

— Sim — murmurou ela com dificuldade — separemo-nos como amigos.

— É o que espero!

Olhou tudo em torno de si, surpreso.

— Onde está Upton?

— Já foi — respondeu ela surdamente.

— Oh! Que pena! Eu queria muito apertar-lhe a mão, a ele também.

Catherine baixou a cabeça e seus olhos se conservaram fixos no chão. Um rubor lhe subiu às faces. Aquele bom humor forçado que ela nunca vira em Madden era-lhe uma tortura. Apelou para toda a sua altivez.

— Eu direi a ele.

— Obrigado, Catherine. Ele tem a sorte de poder fazer a viagem com você.

— Acha?

Essas palavras, nas quais ela punha todo o desembaraço de que era capaz, faziam-na sofrer insuportavelmente. Calaram-se ambos. Catherine sentia que aquela prova se prolongava; sentia-se morrer. Levantando com dificuldade a cabeça, tentou encará-lo.

— Bem, agora tenho de ir. Creio que nada mais temos a dizer um ao outro.

Ele pegou-lhe a mão.

— Perdão, um instante ainda.

Sentando-se na beira da cama, Chris fez um gesto displicente para tirar um embrulho do bolso.

— Antes da nossa separação, desejo dar-lhe uma pequena lembrança.

Pegada de surpresa, ela o olhou com um olhar de tristeza e espanto; depois, num movimento mecânico, tomou o embrulho que Madden lhe estendia. Sob seus dedos crispados o cordel se soltou e o invólucro caiu. Aturdida, ela reconheceu o estojo verde e abriu. Continha a miniatura de Holbein.

— Você! — exclamou. — Então foi você!

— Por que não? — respondeu ele num tom muito à vontade. — Podia dar-me esse prazer.

Catherine sufocava. Compreendeu, de um golpe, que fora Madden, fora a intervenção dele, que a salvara da ruína. Com a morte de Brandt, ele tomara a si o negócio por intermédio de Ascher. E agora? Consternada por essa revelação, e pelo rumo que tomara a conversa, sentia-se incapaz de pensar, e lutava com as suas lágrimas.

Ele sacudiu a cabeça.

— Você não sabia o que pensar a meu respeito, não é verdade, Catherine? A princípio em Londres, depois em Vermont. Ora, eu não sou pobre. Não. Sou mesmo rico, tão rico que não preciso parecer que o sou. Não sou simplesmente o proprietário de uma pequena fábrica em que comecei. Nestes 10 anos subi à força de trabalho. Antes de minha partida para a Europa concluí a última operação de fusão. Se lhe interessa, Catherine, sou hoje o presidente do Truste Internacional das Colas.

Estupefata, ela o contemplava. O nome que ele acabava de dizer lhe cortava a respiração. Era uma empresa gigantesca, uma organização conhecida no mundo inteiro. Da costa ocidental à costa oriental, inúmeros cartazes lhe recordavam o poderio. Ela englobava tudo, fabricava tudo que leva cola, desde a cera de sinete até o esparadrapo. Em Nova York e em Londres suas ações eram disputadas na bolsa. Catherine se lembrava vagamente daquelas fotografias de imensas instalações: grandes usinas, fundições, curtumes, entrepostos e oficinas de embalagem, cantinas e acomodações para os empregados, campos de esportes, um estádio, uma piscina. E ele, Madden, que ela julgava pobre, estava à testa de tudo aquilo, controlava aquela enorme empresa. No estado de perturbação em que estava, essa descoberta ultrapassava o seu entendimento.

— Agora preciso ir — murmurou. — Charley está à minha espera.

Os olhos vagos, a cabeça baixa, ela pôs a miniatura em cima da mesa e se dirigiu para a porta.

Então Madden lhe barrou a saída. Operara-se nele uma completa metamorfose. Como quem tira uma máscara, abandonara seu ar indiferente e despreocupado. Uma profunda ternura lhe animava a fisionomia, e seus olhos brilhavam.

— Upton não está à sua espera. Ele toma o avião da noite para a Flórida. Mas dois lugares estão do mesmo modo reservados no navio, o seu, Catherine, e o outro para mim.

Ela deu um grito.

— Chris!

Ele a olhou nos olhos, e falou pausadamente:

— Então pensava que eu ia realmente deixá-la partir? Depois que Nancy fez tudo para nos aproximar?

Catherine olhou para ele, perplexa.

— Não compreendo.

— Escute, Catherine — prosseguiu Chris com a mesma voz descansada. — Nancy soube que nós nos amávamos. Descobriu um pouco antes da première, e se mostrou à altura do seu destino. Toda a nobreza do caráter dela se revelou subitamente. Fez o que achou que era o mais acertado, e foi, na verdade, a melhor solução.

Súbito, a situação apareceu a Catherine sob uma feição inteiramente nova.

— Nancy! — balbuciou.

Madden fez um sinal afirmativo.

— Foi Bertram quem me abriu os olhos. E então compreendi. Ele me explicou que essa crise ia marcar para Nancy o começo de sua verdadeira ascensão. Ela atingirá os mais altos cimos da arte, e encarnará Ofélia, é certo. Mas nós dois, nós nunca haveremos de esquecer o que lhe devemos.

Agora as lágrimas rolavam pelas faces de Catherine e a cegavam. Parecia-lhe que seu coração ia estalar. Então atirou-se nos braços de Chris. Ele a apertou algum tempo contra si mesmo, e sentia o bater desordenado do seu coração contra o seu próprio peito. Falou-lhe com doçura para a acalmar.

— Sim. Agora tudo está bem — cochichou-lhe numa voz carinhosa — e nós nos casaremos na sua velha igrejinha, naquele recanto de Old Inn Yard. Porque, como sempre pressenti, foi lá que eu descobri que a amava. Ficaremos algum tempo em Londres, liquidaremos seu negócio, e voltaremos para Vermont. Conheço umas pessoas que ficarão diabolicamente alegres de a possuírem. E depois talvez tenha vontade de ir também a Cleveland, não? Há lá recantos deliciosos, bem no alto da colina. Poderíamos fazer construir lá uma casa, a casa da nossa felicidade...

Ela não dizia mais nada; seu coração transbordava. Premiu a face contra o casaco de Chris e, nesse momento, seu olhar caiu sobre a miniatura. Ela continuava em cima da mesa, no estojo aberto. Uma nova onda de felicidade e de alívio submergia. Como pudera ela imaginar que seu destino estava ligado ao luto que evocava aquela imagem? Seu destino, o dela, Catherine, era a alegria. Tudo o mais não passava de uma criação de sua fantasia, um pesadelo que não voltaria. Os olhos de Lucie de Quercy estavam fixados nos dela. Estavam cheios de tristeza mas sem inveja, e como banhados de um sorriso distante.

 

Duas horas mais tarde, eles estavam no convés superior do Pindaric, e contemplavam os edifícios geométricos de Nova York, sua silhueta faiscante que se destacava muito alto no céu. A noite estava agradável, serena e clara, agitada apenas pelo movimento das vagas e o ritmo ligeiro dos hélices. Por cima das suas cabeças a lua projetava um grande halo luminoso, e seus raios desenhavam sobre as ondas uma longa esteira brilhante sobre a qual o navio deslizava tranqüilo. Estavam de pé, face a face, apoiados na balaustrada, e Madden mantinha Catherine apertada contra ele. Não precisavam mais de palavras. Um mensageiro se aproximou.

— Que há? — perguntou Chris.

— Recebi ordem — respondeu o rapaz — de entregar-lhe isto pessoalmente, cavalheiro.

Madden desatou o cordel e abriu a caixa. Depois entregou-a, sem dizer nada, a Catherine.

Um buquê de maravilhosos cravos resplendia ao clarão do luar. O cartãozinho que o acompanhava trazia estas simples palavras assinadas por Nancy:

"Sejam felizes!"

 

Fim

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