A Dama dos Cravos
Capítulo 6 · No domingo, às 10 horas, Nancy deu…
No domingo, às 10 horas, Nancy deu entrada em Curzon Street. Passara a noite num canto de vagão de terceira, pobre criaturinha abandonada e sucumbida. O resto da companhia ficara em Manchester para, ao menos, fazer a viagem de dia. Mas Nancy sentira necessidade de voltar logo para casa. O fracasso da peça, na qual fundara tão grandes esperanças, abalara-a terrivelmente. Enquanto o trem varava a escuridão, seu rosto pálido espelhava toda a enormidade de sua decepção. Perdera sua expressão habitual de ligeireza, e a alegre mascarazinha sob a qual a gente a conhecia. Todos os que julgavam Nancy pelo seu ar de garota empreendedora e bonita deviam vê-la naquele momento. Dir-se-ia uma criança que acabasse de ser repreendida.
Entretanto, antes de chegar a Londres já se dominara. Como ela própria costumava dizer, podiam picá-la em pedacinhos sem que deixasse transparecer nada. Empoou as faces, que traziam as marcas da longa viagem e talvez também de alguma lágrima furtiva. Mas ao chegar já havia premeditado uma pequena cena em estilo de ópera. Atirou-se aos braços de Catherine que a esperava para o desjejum.
— Catherine, minha querida! — exclamou como se estivessem separadas desde alguns anos. Encostou o rosto no da tia, afastou uma almofada e deixou-se cair no divã ao lado de Catherine. — Fiz uma viagem de enlouquecer, lá no norte! Catherine aproximou dela o bule de chá.
— Coma primeiro; depois me contará tudo.
— Querida! — Nancy teve um frêmito teatral. — Ser-me-ia impossível engolir coisa alguma. Estou terrivelmente nervosa!
— Como! Nada comeu ainda hoje?
— Não quero nada, absolutamente nada! Nada além de uma pequena omelete, ou qualquer coisa parecida, e torradas, suco de laranja... Ah! ia me esquecendo. — Solicitada ao mesmo tempo pelo gosto da tragédia e pelos seus hábitos de criança amimada, desempenhava seu papel. — Digo-lhe que fiquei às tontas, como uma louca!
— Já esteve com Chris?
— Já, ele foi muito gentil, verdadeiramente ideal. Foi buscar-me à estação e levou-me para casa. Mas eu queria vê-la, Catherine, e falar com você a sós.
— Muito bem — disse a outra, já tranqüila.
Deitou o chá na xícara da sobrinha, serviu-lhe açúcar e creme.
— Eu bem sabia que viria aqui. Não precisa criar cabelos brancos por causa dessa peça.
— Peça! — exclamou Nancy com uma careta. — Se ao menos fosse uma peça! Talvez pudesse dar alguma coisa se a Renton, essa lamentável Renton, não a matasse. Massacrou-a tão bem que no fim parecia que estávamos diante de um carneiro estrangulado. Nada temos a esperar daquela mulher. Não tem talento, e nunca terá. E sobretudo está muito velha. Ah! se tivessem me dado o papel dela, Catherine! Tal como eu sou, obrigada pelo elogio!, eu teria salvo a peça. Pelo menos teria evitado o fracasso dessa desgraçada representação. Oh! Catherine! Eu que contava com um grande sucesso em Londres! Isto me ajudaria tanto em minha carreira neste momento!
Sob o peso do desgosto, engoliu de um trago a xícara de chá.
Catherine reprimiu um sorriso. Apesar do cansaço nervoso da longa viagem noturna, Nancy nunca fora tão bonita como nessa manhã, enquanto se deixava arrebatar por uma emoção ao mesmo tempo sincera e simulada. Sem dúvida alguma, pensava Catherine, Nancy sente um grande prazer em demonstrar a si mesma seu talento dramático, e isto não lhe vai de todo mal.
— É lamentável — falou por fim Catherine — mas vale a pena se chatear tanto?
— Se vale a pena?
Nancy encrespou-se, indignada:
— Que pergunta estúpida, Catherine!
A tia respondeu com ar absorto:
— Eu estava pensando em nosso amigo Madden.
— Minha cara, sei aonde quer chegar. Eu adoro Chris. Mas adoro igualmente o teatro. Como artista, tenho, positivamente, deveres para comigo mesma. Você sabe como foram brilhantes meus começos e a rapidez com que me afirmei. E justamente no momento crítico, caio nesta esparrela! Verdade, a peça é tola, e o insucesso foi merecido. Mas eu me comprometi e não posso voltar atrás; seria uma covardia. — Saltou na ponta dos pés, e começou a andar pelo quarto. — Não, minha querida Catherine. Seria o fracasso total. Estou resolvida a casar com Chris, mas quero antes conhecer o sucesso. Quero justificar-me perante mim mesma. Preciso de sucesso, sucesso...
— Ahn... estou vendo.
Fez-se silêncio. Nancy parou com suas idas e vindas e, numa brusca mutação, sua fisionomia exprimiu uma ardente súplica.
— Só há um meio para me ajudar — começou, plantando-se diante da tia com um olhar e uma atitude que lembravam ao mesmo tempo o jogo de cena da Duse, de Ellen Terry e de Sara Bernhardt. — Tem de me ajudar!
— Eu? Mas como, Nancy?
— Não me olhe assim, como se eu estivesse louca, minha querida, você bem sabe em que estou pensando.
— Precisará de um papel em outra peça?
— Exatamente!
Nancy deixou-se cair, com um suspiro, no banco do piano, e tirou uns acordes solenes.
— Neste justo momento, Catherine, pode intervir em meu favor. Tem uma influência tão grande... Sim, faz das pessoas o que quer. Toda gente a ouve. Por exemplo, Sam Bertram.
— Por que precisamente Bertram?
— Porque... — Nancy tirou um novo acorde ao piano — porque, se é que ainda não sabe, Bertram vai partir para Nova York com a nova peça, Dilemme. E porque ainda não recrutou a companhia. E porque na peça haveria um papel fabuloso para mim!
— Mas, Nancy, é impossível! — respondeu Catherine com vivacidade. — Não posso pedir tal favor a Bertram.
— Deve pedir, querida — insistiu Nancy, premindo energicamente o pedal forte. — Deve pedir, se não quer arruinar minha vida e fazer-me infeliz.
— Não, não posso!
— Deve pedir. Há em Dilemme um papel que parece escrito para mim. Não é um grande papel, querida, mas é exatamente o que me serviria. Se me dessem esse papel, eu ressuscitaria os mortos. Mas não é só isso. Eu poderia ainda seguir para a América com você. Quero ir com Chris; os negócios o chamam. Resolveu levar-me para nos casarmos lá. Vê, portanto, como tudo se arranjaria admiravelmente se pudesse encaixar-me na companhia de Bertram. Viajaremos os três juntos, e faremos uma viagem maravilhosa.
Catherine encarou fixamente Nancy, e, como sempre, experimentava uma surpresa misturada à desconfiança, à idéia de que aquele demoniozinho, tão prodigioso de astúcia e de candura, a puxava pela ponta do nariz para onde queria. Entretanto, isto a divertia.
— Parece-me que você pensou cuidadosamente nesse negócio desde muito tempo, não é verdade?
— É claro, querida!
— Mas nada indica que Bertram se deixará convencer tão facilmente quanto eu.
— Basta que lhe peça! — exclamou Nancy.
Catherine refletiu ainda um momento, e cedeu.
— Está bem, tentarei.
— Como você é boa!
Depois de um último acorde, Nancy precipitou-se sobre a tia e passou-lhe os braços pelo pescoço.
— Oh! Eu bem sabia que me faria isso! Tinha confiança em você. Como sou feliz! Sei que quando se mete em qualquer coisa já está de antemão vitoriosa.
Olhou Catherine nos olhos com a mais terna gratidão. Em seguida, após um rápido olhar ao minúsculo relógio de platina que trazia no pulso:
— Agora preciso ir. Prometi a Chris encontrar-me de novo com ele às 11 horas. Chris é sempre tão gentil, e eu detesto fazê-lo esperar. Vá hoje, Catherine, vá hoje mesmo, à casa de Bertram, ou, em último caso, amanhã de manhã. Adeus e mais uma vez um milhão de agradecimentos.
Após a partida de Nancy, Catherine sentiu-se perplexa. Por um lado, não podia fugir à idéia de que Nancy abusava dela tão calculada quanto gentilmente; mas por outro dizia consigo mesma que nenhum serviço que prestasse à sobrinha era demais para a afeição que lhe tinha. Era certo que exercia alguma influência sobre Bertram. Se Nancy estava bem informada, Catherine conseguiria mesmo convencê-lo. Se bem que lhe fosse penoso, com seu gênio independente, pedir um favor, sabia que com isso ia causar uma grande alegria a Nancy, que nela depositara toda a sua confiança. Sua fisionomia abriu-se, e já estendera a mão para o telefone. Na verdade, duvidava que Bertram tivesse ficado em Londres no fim de semana, mas pelo menos saberia por Winter, o criado de quarto, onde poderia encontrá-lo na semana seguinte.
A voz grave de Winter, fácil de reconhecer, fez-se ouvir na outra extremidade do fio. Com uma ligeira hesitação, e num tom misterioso, respondeu que o patrão estava em casa.
— Ótimo — exclamou Catherine. — Então diga que eu vou imediatamente conversar com ele alguns minutos.
— Oh, não, Miss Lorimer! Não é possível...
— Por quê? Ele não há de estar ocupado o dia todo.
— Lamento, Miss Lorimer. Mas ele está doente.
— Doente?
Na entonação de Winter havia certa expressão de angústia.
— Que tem ele?
Depois de um silêncio cheio de reticências, a voz retomou um tom de majestosa discrição:
— Se Miss Lorimer faz questão de saber, o patrão está com dor de dente.
Havia tanta solenidade nessa comunicação, que Catherine fez um esforço para conter uma gargalhada. Para não ferir os sentimentos de Winter, cuja extrema suscetibilidade ela conhecia, apressou-se em desligar. Persistia entretanto no propósito de ir à casa de Bertram. Desde que ela queria fazer a vontade a Nancy, era melhor não se retardar.
Lá pelas 3 horas, calculou que o dente de Bertram já não o fazia sofrer tanto, e pôs-se a caminho para Portman Square. Tocou a campainha no n° 16, e Winter em pessoa, sempre alto, magro e digno, apresentou-se diante dela.
— Lamento muito, Miss Lorimer... — começou.
Ela notou que o criado ainda não sabia muito bem se devia deixá-la entrar ou não. Antes que ele tivesse tempo de adotar uma resolução, já Catherine estava no vestíbulo e lhe dirigia um sorriso tranqüilizador:
— Não há nada, Winter, conheço o caminho.
Sob o olhar embaraçado do criado, ela penetrou no escritório, onde, conhecendo como conhecia os hábitos de Bertram, esperava encontrá-lo.
Não se enganara, mas antes por efeito do acaso do que de sua sagacidade. Bertram não estava com jeito de trabalhar. Enrolado num robe de chambre e a cabeça envolta num xale escocês, achava-se arriado a um canto da lareira, como a imagem viva da angústia e da miséria humana.
— Então, que tem, Bertie? É assim tão terrível?
— Mais do que isto — resmungou ele.
Ao cabo de um instante, Bertram virou com dificuldade a cabeça e olhou-a com uns olhos vesgos:
— Que diabo quer de mim?
Se bem que ela estivesse cheia de compaixão, Bertram apresentava uma figura tão digna de lástima com seu cachecol e o rosto inchado, que Catherine teve dificuldade em conter o riso. Explicou às pressas:
— Vim por um minuto, de passagem, e com muito prazer. Deixe-me tratar de você.
— Você não pode fazer nada — murmurou ele, triste. — Não quero ser incomodado, e disse isto a Winter.
— Winter não tem culpa. Vamos, Bertie...
— Não quero ouvi-la. Dor de dente, atrozes dores faciais! Não posso pensar agora em comprar antigüidades.
— Mas eu não quero vender-lhe nada!
— Você não viria aqui se não fosse por alguma coisa. Eu a conheço! Sobretudo num domingo. Vá embora, Catherine!
— Não, não vou — respondeu ela, resoluta, aproximando-se do doente. — Não suporto vê-lo sofrer assim. Esteve no dentista?
— Odeio os dentistas! Nunca fui a nenhum. Odeio toda a classe...
Um novo acesso arrancou-lhe gemidos e o fez emborcar na poltrona.
— É um abscesso. Não se vê nada. Não se pode fazer nada.
— Mas pode-se arrancar o dente.
— Arrancar? — Ele estremeceu. — Sem injeção? Arrancar a frio? Você está louca? Esta mulher pensa que sou de ferro. Deus lhe perdoe!
Indignado, Bertram deu as costas para a amiga, e, segurando a face inchada, pôs-se a mimá-la. Catherine, que o observava com carinhosa solicitude, reconheceu mais uma vez a exatidão da velha fórmula, talvez cediça, mas sempre verdadeira, segundo a qual os homens podem comportar-se como verdadeiras crianças, sobretudo quando não têm uma mulher que cuide deles.
— Deixe-me ver, Bertie.
— Não se meta!
— É preciso. Seria simplesmente ridículo ficar nesta situação.
Aproximou-se mais um passo. O olho de Bertram, que era só o que se mexia ainda na face inchada, rolou ferozmente para um lado. Enroscado como um cãozinho que o dono ameaça com o chicote, entregou-se, gemendo, à sua sorte e abriu a boca. Um caco de molar punha uma escura mancha na gengiva inflamada.
Depois de estabelecer a causa de tanto sofrimento, Catherine voltou a sentar-se em frente à lareira, e pôs-se a refletir sobre o caso.
— Você está vendo, Bertie, que é uma loucura deixar as coisas nesse estado. É preciso arrancar o dente já, já.
— Impossível! — retrucou ele com a voz sumida. — Não se pode dar injeção...
— Recorreremos ao gás hilariante — replicou laconicamente Catherine.
Bertram empalideceu sob o cachecol em que de novo enrolara a cabeça. Só o instinto de conservação é que ainda o sustentava.
— Gás?
— Naturalmente, Bertie. Aplicar-lhe-ão o gás hilariante.
Ele fez um supremo esforço de resistência.
— Não suporto narcótico. Só em pensar desfaleço. Nunca na vida suportei narcótico.
— Pois bem, será a primeira vez — falou com ar severo Catherine. — Vou chamar agora mesmo o Dr. Blake, ele lhe tirará esse desgraçado dente num abrir e fechar de olhos.
— Não, não! Experimente! Uma vez que eu adormeça, morro para sempre. Aliás já estou melhor. Estou inteiramente bom... ai! ai!
Sempre protestando, fazia laboriosas tentativas para se levantar da poltrona quando uma nova crise o fez abater-se de novo no assento.
Catherine encarou o velho amigo com um ar tão compadecido quanto inflexível. Depois foi ao vestíbulo de onde telefonou para o Dr. Blake, seu dentista, que morava muito perto, em Queen Ann Street, e lhe pediu que fosse até lá. A Winter, que estava sucumbido e lívido como uma sombra, pediu água quente e guardanapos limpos.
Ficou no vestíbulo até a chegada do dentista.
Recomendou-lhe:
— Faça um bom serviço, e rápido.
— Compreendo, Miss Lorimer — respondeu o Dr. Blake, rindo. — Nunca deixes para amanhã o que podes fazer hoje.
Foram encontrar sua vítima num quarto do andar superior. Humildemente ele se entregava à sua sorte, e, mesmo, sentia-se muito fraco para poder reagir. Num minuto o aparelho foi posto a funcionar. Bertram atirou um olhar furtivo aos sombrios cilindros e aos tubos vermelhos, e se pôs a tremer como se soprasse um vento gelado.
— Não sobreviverei a isto — murmurou com uma voz desfalecida. — Vocês vão me assassinar!
— Não diga bobagens — falou Blake, com bom humor.
— Não será necessária uma chaise longue [poltrona]especial, ou coisa parecida? — balbuciou Bertie.
Blake respondeu, sempre cordial:
— Seria inteiramente inútil.
Arregaçou a manga direita, de acordo com todas as regras da arte.
— Desabotoe o colarinho e sente-se direitinho.
O paciente respondeu com um risinho de dor.
— Sentar direitinho — repetiu, como um eco moribundo. — Se não houvesse chegado meu último momento, eu riria na sua cara...
Nesse instante, a porta abriu-se e Winter avançou com uma bacia na mão, solene como um carrasco que vai espalhar rios de sangue. Foi o golpe de misericórdia. Bertram cerrou fortemente os olhos. Quando Blake lhe aplicou a máscara de borracha no rosto, algumas palavras ainda escaparam do fundo da sua garganta contraída:
— Segure minha mão, Calherine. Por Deus, aperte com força...
Três minutos depois ele abriu os olhos, e, sem saber o que dizer, olhou para o Dr. Blake, que, assoviando, arrumava os ferros. Winter e sua bacia tinham desaparecido. Desaparecidos também — e isto foi, no espírito de Bertram, a aurora que desponta — o dente, a dor e todo aquele pesadelo. A certeza do milagre o esmagava. Ficou tranqüilamente sentado até que o dentista se foi. Então ergueu-se e encarou Catlherine com um largo sorriso no qual se lia todo o seu alívio.
— Foi você...
Quis certificar-se de que não era vítima duma ilusão, e palpou as faces. Depois riu de novo como uma criança.
— Maravilhoso esse éter. Não fui bastante corajoso?
— Admirável de coragem, Bertie.
— Com os diabos, não era nada divertido. Qualquer um se teria portado assim. Quando penso no narcótico e em todo o resto...
— Sim, você se comportou bravamente. E era um dente de meter medo.
Acompanhando a direção do olhar de Catherine, ele descobriu o molar: estava ali junto, numa cama de algodão. Pegou o dente e considerou-o com orgulho.
— Ah! Aqui está ele. Uma grande raiz inflamada. É melhor que esteja fora do que dentro, hein, Catherine? Graças a Deus, tenho bons nervos, e foi isto o que me permitiu resistir.
Levantando subitamente os olhos, Bertram notou no olhar da moça qualquer coisa que o sobressaltou, como um colegial pegado em falta. Olhou-a como se não tivesse a consciência tranqüila, depois baixou lentamente a cabeça. Os cantos da boca se lhe puseram a tremer, e finalmente participou de uma ruidosa e alegre gargalhada, que durou muito tempo.
— Deus do céu, Catherine, como eu tremia! E como você fez bem em usar a violência comigo! Se não fosse você, eu estaria ainda conhecendo o inferno em vida. — Estendeu a mão e tocou a sineta. — Agora, vamos tomar chá. Estou com fome. Tenho um apetite feroz. Não comi nada o dia todo, você sabe.
— Não, só eu tomarei chá. O que está lhe fazendo falta é uma boa sopa fortificante.
— Boa idéia! Preciso alimentar-me. Parece até que não como há uma semana.
Um pouco mais tarde, depois que Winter chegou e novamente se foi, Bertram, com o guardanapo passado em torno do pescoço, atacando a vigorosos golpes de colher um saboroso potage [sopa], exclamou:
— Catherine, você errou a vocação. Devia ter-se feito enfermeira ou médica. Não, não; estou brincando. Você devia casar-se. Comigo, por exemplo. — E brandiu a colher no ar. — É uma idéia. Case comigo, Catherine, e faça de mim um homem como se deve ser.
Ela se limitou a rir, sem responder.
— Se não me quer para marido, que posso fazer por você? Mas, por favor, não me peça que lhe compre coisa alguma; minha nova tournée está me arruinando.
Catherine suspirou. Se bem que preferisse abordar ela própria o assunto, aquelas palavras de Bertram lhe forneceram uma oportunidade que não devia deixar escapar.
— Pois bem, Bertie, tenho um pedido a fazer-lhe. Trata-se justamente de sua turnê. Não quererá você dar um papel à minha sobrinha Nancy Sherwood?
Chocou-o menos o objeto do pedido do que o tom caloroso em que ela o formulou. Lentamente escorregou até o fundo da poltrona.
— Ah! Ah! Então é isso? Ela a lançou nos meus calcanhares, o demoniozinho...
— Certamente, ela é esperta — retrucou vivamente Catherine — e você sabe que é uma boa atriz.
— Sim, não é má — concedeu ele. Calou-se. — E tem topete. Ouvi falar da intervenção dela, à última hora, no rádio. São coisas que se comentam. — Calou-se de novo. — Hum... seria melhor que ela esperasse ainda um pouco. Daqui a um ou dois anos, terá mais experiência.
— Daqui a um ano ou dois, será muito tarde — disse Catherine gravemente. — Ela se casará antes disso, e deixará a Inglaterra. Agora mesmo é que precisa de um papel. Você compreende, Bertie, com o temperamento que ela tem, quer demonstrar a si mesma o quanto é capaz. Desde que vai abandonar a profissão, deseja fazê-lo com um sucesso.
Ele escutava meditativo.
— Estou entendendo.
— Além disso — prosseguiu ela com empenho — eu gostaria muito que ela fosse comigo para a América. Trata-se do futuro, da felicidade da menina, de tudo que conta na vida de Nancy.
Houve um silêncio. Durante um bom momento, Bertram, com ar pensativo, alisou o queixo com a mão.
— Está combinado, Catherine — falou por fim. — É só por você que faço isto. Na peça há um papel para Nancy, feito sob medida. Diga a ela que passe amanhã pelo meu escritório.
Fremente de alegria, Catherine saltou aos pés de Bertram e lhe tomou as duas mãos entre as suas:
— Obrigada, Bertie, nunca me esquecerei disto!
— Não é nada. Penso aliás que Nancy será uma boa partenaire [parceira] para Paula Brent, que faz o papel principal.
Bertram não ocultava o contentamento que sentia em atender à amiga.
Pouco depois, ela se despediu. Sentia um grande alívio, e correu para casa a fim de telefonar a Nancy. Sua partida para a América lhe apareceria doravante sob novos e mais felizes auspícios. Sempre pensara em fazer aquela viagem com a sobrinha. E além disto, como devia confessar a si mesma, muito em segredo, foi para ela uma grande alegria pensar que Madden também ia.