A Dama dos Cravos

A. J. Cronin · Capítulo 10 de 18

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A Dama dos Cravos

Capítulo 11 · Na quarta-feira de manhã, Catherine tomou às…

 

Na quarta-feira de manhã, Catherine tomou às 8h30min o rápido que a levaria a Graysville. Ia só. Nancy e Madden haviam seguido na véspera. Bem instalada numa boa poltrona reclinável, onde fazia uma temperatura tépida, agradável, enxugou a vidraça com as luvas para poder ver desfilar a paisagem hibernal. Em marcha cada vez mais rápida e fazendo um ruído crescente, o trem varava os campos cobertos de neve. Passou-se o dia. À noite Catherine teve de trocar de trem, para seguir por uma pequena estrada regional. E partiu de novo na direção do poente. O sol de um vermelho ardente espalhava sobre a terra rude e nua todos os esplendores do céu. Meia hora depois, o condutor passou pelo vagão, e avisou, cortesmente:

— Dentro de alguns minutos chegaremos a Graysville, Madame.

Catherine estava ligeiramente emocionada. Era a sensação de chegar, enfim, ao término da viagem, sensação a que se misturava a de impaciência, curiosidade e uma espécie de receio. A locomotiva apitou, os freios rangeram e o trem parou. Ela foi o único passageiro a descer na plataforma estreita. Com a valise aos pés, as faces avermelhadas pelo vento, e o coração apertado pela emoção da espera, contemplou a estação deserta.

Súbito, uma silhueta surgiu da sombra e se aproximou a passos lentos. Era um velho magro. Tinha as pernas arqueadas e trazia um casaco de couro com capuz, sob o qual seu rosto curtido esboçava um vago sorriso de boas-vindas.

— É mesmo a senhora, Miss Lorimer? — perguntou, enquanto deixava expandir-se o seu sorriso. E apresentou-se:

— Meu nome é Hickey. — Pegou a valise. — Venha. O automóvel está lá fora, na praça.

Ela o acompanhou até o carro — um cupê antediluviano, alto, mas tão bem conservado que a carroçaria verde espelhava e as peças metálicas pareciam de cristal. Os próprios pneus estavam caprichosamente lavados. Muito orgulhoso de sua máquina, Hickey ajudou Catherine a subir, chamou à atividade os pistões gastos, e se pôs em marcha com prudente lentidão. Desceram a rua principal aos solavancos. Os transeuntes eram raros, e a cada um Hickey dirigia um pequeno aceno de mão, ou um cumprimento cerimonioso.

— Não há muita gente aqui — assinalou, como uma explicação a Catherine. — Todos estão se preparando para patinar. Faz exatamente o tempo apropriado, e eles gostam muito. O Sr. Chris manda dizer-lhe que a senhora encontrará todos embaixo, no alpendre.

— Os senhores têm aqui um bom rinque? — perguntou ela.

— Maravilhoso! Trinta milhas em redor, o lago está gelado.

Parou o carro. Dois jovens com os seus patins cumprimentaram-no sorrindo, e, com um gesto largo, Hickey os convidou a entrar no automóvel. Eram uma moça e o irmão, parentes longe de Madden, como o chofer sussurrou a Catherine ao retomar a marcha. Hickey era de uma loquacidade inesgotável. Cônscio dos seus privilégios de velho serviçal, sabendo além disso que era considerado por todos como um fenômeno único no seu gênero, continuava a tagarelar incessantemente enquanto Catherine contemplava a bonita paisagem hibernal.

À saída da aldeia, a estrada descia para o lago e serpenteava ao longo do rio gelado, marginado de moitas de salgueiros e de zimbros. Ao longe, as colinas se desenhavam no crepúsculo. Já se avistava o rinque, e no oriente erguia-se o disco pálido da lua.

O mistério da hora e o encanto da paisagem agiam sobre Catherine, despertando em seu coração reminiscências perturbadoras. Ficou imóvel, enquanto o velho Hickey deixava os dois passageiros ocasionais perto de um pequeno embarcadouro particular, dando-lhes toda espécie de conselhos e advertências, e recomendando-lhes, sobretudo, que não chegassem tarde para o jantar.

Depois botou de novo o carro em movimento e o dirigiu para uma casinha branca que se erguia na volta do caminho, no centro de um pequeno pomar de fruteiras enfezadas. Era uma construção simples e sem pretensões em estilo colonial, com uma fachada Império sem ornatos. Um instante depois, o carro parava diante da porta, que logo se abriu. A Sra. Madden estendeu a mão a Catherine.

A moça reconheceu imediatamente a mãe de Chris. Alta e magra, parecia-se impressionantemente com o filho. No seu rosto desenhava-se a mesma expressão tranqüila do de Madden. Dele se desprendia a mesma certeza e a mesma firmeza, revelando a disciplina interior de toda uma vida feita de paciência, constância e bondade. Fixando Catherine com um olhar estranhamente profundo, no qual se lia uma calorosa e cordial acolhida, disse após os cumprimentos:

— Deve estar gelada. Entre logo, venha aquecer-se.

Fê-la subir a escada e a introduziu num quarto. Um bom fogo ardia numa lareira holandesa de ferro e projetava seus reflexos no cortinado, na pesada arca esculpida e nas cadeiras maciças.

— Espero que esteja bem aqui — disse a Sra. Madden com uma súbita solicitude que foi direta ao coração de Catherine. — O lugar é muito modesto porque somos gente simples.

— Mas é encantador, verdadeiramente encantador! — exclamou a visitante.

A Sra. Madden sorriu com um sorriso tranqüilo, que lhe iluminou o rosto austero. Pareceu estar procurando as palavras para exprimir sua satisfação, mas, sem dúvida, tinha dificuldade em traduzir em palavras seus sentimentos. Ficou assim um instante parada, certificou-se de que nada faltava a Catherine, avisou que o jantar ia ser servido, e retirou-se.

Meia hora depois Catherine descia para a sala de refeições, uma peça espaçosa e bem iluminada dando para o hall e onde se comprimia naquele instante uma imprevista multidão. Os patinadores tinham voltado e trouxeram consigo muitos amigos e vizinhos. Catherine teve assim uma primeira visão da larga hospitalidade que se praticava na casa de Lakeside.

Madden e Nancy estavam de pé em frente à lareira, com os dois irmãos de caras sorridentes que haviam viajado no automóvel e que agora lhe eram apresentados com os nomes de Luke e Betty Lou. Perto estava sentado, muito teso em sua cadeira de balanço, um velho de cara enrugada e inteligente, o tio Ben Emmet, irmão da Sra. Madden. Em frente a ele, tomaram lugares o professor da escola de Graysville e sua irmã. Depois vinham Doc Edwards, pequeno e roliço, metido num grosso capote de piloto, e Pop Walters, gordo e calvo, de olhos piscantes e cheios de malícia. Lá estava Sammy Emmet, neto de Ben, com o nariz todo cheio de sardas, e que, como Luke, trazia no peito um emblema de clube. No último plano, enfim, uns 20 rapazes e moças, de camisas de esporte em cores claras, as faces queimadas pelo vento e o olhar brilhante, que conversavam e riam.

Catherine levou algum tempo entrando em contato com toda essa sociedade. Graças à Sra. Madden, que levava muito a sério seu papel, ela travou conhecimento com cada um. Era uma gente simples, sem nada de chocante; via-se que trabalhavam arduamente para ganhar a vida, mas todos manifestavam uma cordialidade espontânea e sincera que impressionou Catherine ao extremo. Imediatamente a forasteira se sentiu à vontade com eles.

Catherine quase não teve ensejo de conversar com a sobrinha e Madden, porque a Sra. Madden lhe deu o braço, e todos passaram para a sala de jantar.

Após a longa viagem e aquela ducha??? de ar frio, Catherine tinha muita fome, e comeu com ótimo apetite. Em meio a uma assistência tão numerosa, ninguém poderia ocupar-se especialmente dela. Madden, que ostentava??? uma camisa de pólo cinzenta, estava sentado no começo da mesa e constantemente ocupado em passar os pratos. Nancy mostrava uma fisionomia meio carrancuda. O cigarro numa das mãos e o garfo na outra, fumava e comia sem prestar atenção à tagarelice de Sammy Emmet, que estava sentado à sua direita. Admirada, Catherine franziu involuntariamente a testa. Mas seus dois vizinhos, Walters e o pequeno Doc Edwards, não lhe deixaram tempo para refletir.

— Experimente esse vinho de sabugueiro, Miss Lorimer — disse Doc Edwards, sério. — Foi prensado pela própria Suzan Madden. Nada como vinho para acabar com o frio.

Catherine degustou o vinho admiravelmente temperado e achou-o excelente. Voltou-se rindo para o homenzinho:

— O senhor deveria levá-lo em suas visitas aos doentes. Deve ser penoso, nesta estação, estar sempre em viagem.???

Ele a olhou sem compreender, e depois soltou uma gargalhada.

— A senhora se engana, — disse por fim — chamam-me "Doc" mas não sou médico. Tenho apenas a farmaciazinha na esquina da rua principal, ao lado da igreja batista.

Catherine corou, porque esse pequeno mal-entendido a encabulou; mas Doc continuou tranqüilamente, com a mesma amabilidade e modéstia:

— Nós aqui não tomamos ar de gente importante, Miss Lorimer. Veja Chris Madden: fez uma belíssima carreira mas nunca esqueceu o velho Joe Edwards que o levava para pescar quando ele não era mais do que um moleque de sete anos.

— Verdade? — perguntou Catherine com interesse.

— Sim. Toda vez que Chris vinha aqui à casa do tio Ben. E eu creio que Suzan não gostava que ele fizesse essas despesas em estrada de ferro. Mas nós não nos preocupávamos. Nós bordejávamos pelos lagos e, palavra!, a senhora precisava ver o pirralho a primeira vez que pescou uma grande carpa!

Catherine imaginou imediatamente a cena: o barco banhado de sol e balançando ao vento, o caniço vergado sob o peso, o peixe de escamas de prata caindo com ruído sobre a tábua, o rosto infantil, excitado mas atento, de Chris. Mediu de repente a solidez dos laços que prendiam Chris ao lugar do nascimento da mãe, e compreendeu por que ele era ali tão conhecido, estimado e querido. Agora ele vencera, obtivera grande sucesso; e entretanto era sempre o meninote de Suzan Emmet e Graysville.

Terminado o jantar, voltaram todos para a sala de visitas. Os jogadores de bridge sentaram-se a uma das mesas, e em outra se organizou uma partida de animal crakers, um jogo loucamente movimentado. Quanto a Catherine, o jovem Sammy Emmet lhe pediu que assasse umas castanhas na lareira.

Sentada a um canto do fogo, apreciava a descuidada alegria da roda. Na mesa redonda, presidida por Madden, o alarido crescia. Uma ou duas vezes pareceu a Catherine que o tom de voz de Chris traía um bom humor afetado. Mas o calor do fogo a mergulhava pouco a pouco numa benéfica sonolência. Meia hora depois, despediu-se discretamente da Sra. Madden e se esgueirou para o quarto.

Quase logo após, Nancy entrou, com o indefectível cigarro nos lábios.

— Contente de ter podido escapar, não? — falou.

— Por que "escapar"? — perguntou Catherine, surpresa.

Nancy não respondeu, mas ergueu os ombros nervosamente. A tia prosseguiu:

— Como, Nancy? Não se sente bem aqui?

Nancy franziu a testa.

— É muito bonito, querida... mas talvez um pouco cômico.

— Cômico? — repetiu Catherine, confusa.

Nancy fez um sinal afirmativo. Via que Catherine não a compreendia e se tornava agressiva.

— Há muitos tapetezinhos por toda parte, muitos parentes pobres que comem fazendo ruído e riem de tudo e de coisa alguma. E todas essas imagens de santos pelos cantos! E todos esses versículos bíblicos nas paredes, como aqui acima da cama!

Catherine seguiu com os olhos o olhar de Nancy.

— Isto não é um versículo da Bíblia — replicou secamente — mas um modelo de bordado, e muito bem trabalhado.

— Estou vendo — prosseguiu Nancy com crescente irritação — mas de qualquer modo minha situação aqui nada tem de divertido. Uma semana mais, e eu enlouqueceria. Sinto que me olham de esguelha porque sou atriz. Toda vez que acendo o cigarro, examinam-me como se eu houvesse cometido um pecado contra o Espírito Santo. Não há nem um miserável cinema neste canto perdido. Por que Chris não podia apresentar-nos sua aborrecida parentela em Cleveland, em lugar de nos trazer aqui. Se Deus quiser, voltaremos para Nova York depois de amanhã.

— Mas, Nancy...

— Oh, Catherine, peço-lhe perdão...

Já Nancy se arrependia de suas palavras. Tremiam-lhe os lábios e seu olhar exprimia uma contrição sincera.

— Eu sei que sou insuportável. Só devia ter vindo aqui depois da première. Isso me dá pena por causa de Chris; mas estou fora de mim. É porque tenho na cabeça bastantes preocupações, muito diversas.

— De que se trata?

— Mas está claro que de minha peça! Não sabe o que a profissão representa para mim? Sim. Tenho Chris e sinto-me loucamente feliz com ele. Mas há também o teatro. Tenho necessidade de sucesso, Catherine, da embriaguez do sucesso!

Emocionada pela veemência dessas palavras, Catherine ficou em silêncio. Pela primeira vez, media a violência da paixão de Nancy pelo teatro. Sérias dúvidas a assaltaram. Nancy aspirava à glória. Muito bem. Mas teria as qualidades necessárias para alcançá-la? Não lhe faltavam beleza, inteligência e talento; mas possuía essa qualidade que não se adquire e sem a qual não há grande artista: a profundeza e a solidez de caráter? Súbito, Catherine se viu tomada de angústia. Receava por Nancy.

— Não lhe parece que pede um pouco demais à vida? — perguntou à sobrinha com voz surda.

— Talvez, mas preciso disso — respondeu Nancy.

Aproximou-se de Catherine, beijou-a, e num instante desapareceu.

Imóvel, os lábios cerrados, Catherine ficou um momento à janela. Uma beleza serena revestia a paisagem, e ela se sentia dominada pela paz que reinava naquela pequena comunidade de seres sadios e tranqüilos. Gostaria de ir ao encontro de Nancy, falar-lhe, consolá-la, acalmá-la. Se não o fez foi porque sabia que seria de todo inútil. Ela própria se sentia constrangida e intimidada. E, com um suspiro, foi para a cama.