A Dama dos Cravos

A. J. Cronin · Capítulo 15 de 18

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A Dama dos Cravos

Capítulo 16 · O dia nasceu claro e frio, sob…

 

O dia nasceu claro e frio, sob a imensidão do céu azul. O sol dourava a cidade. Catherine, cuja agitação cedera lugar a um sentimento de profundo e sereno reconhecimento, estava sentada, no quarto, e escrevia para Londres. Já dera por telegrama a boa-nova a Walters, determinando-lhe as providências a tomar junto ao banco, e queria contar igualmente tudo à mãe.

Mal terminou, bateram à porta. Era um telegrama. Abriu-o e leu:

"Chego segunda Europa stop Première Nancy má desculpa stop Vou buscar-te stop Amo-te Charley"

Então Charley punha em execução sua ameaça? Sorriu com doçura, enquanto largava o telegrama. Sentia-se, de certo modo, reconfortada em pensar que ia revê-lo. Era um amigo fiel e tão certo! Tinha, é verdade, aquela insensata pretensão. Se até aqui ela lhe dera poucas esperanças, com maioria de razões agora não lhe daria mais nenhuma. Contudo, sabia que encontraria sempre em Charley um refúgio e um amparo. Ele estava presente sempre que Catherine precisava de ajuda. Não seria esta a solução do problema criado pelo seu amor por Madden, a resposta fácil a todas as suas angústias? Por um momento, ficou mergulhada nesses devaneios, e seu rosto retomou uma expressão melancólica.

Depois se dominou, fechou e selou as cartas e levou-as ao correio. Ao voltar para o quarto, olhou pela janela. O tempo estava de uma beleza irresistível. Oh! a alegria de sentir de novo a terra firme debaixo dos pés! Mas para isso fora preciso um verdadeiro milagre.

Ascher comprara a miniatura. Evidentemente não era para ele, mas para algum cliente. Breuget suspeitava que fosse Joe Sharp, o magnata do aço de Pittsburg, para quem Ascher habitualmente trabalhava. Até então, Sharp só comprara obras da escola pré-rafaelita, mas podia ter tido uma veneta e se interessar agora por outros gêneros. Que importava aliás a pessoa do comprador? Com aquele dinheiro, Catherine encontrara de novo sua chance, e estava profundamente convencida de que não a deixaria escapar nunca mais.

O telefone tilintou:

— O Sr. Madden deseja vê-la, Miss Lorimer. Pode subir?

Tomada de espanto, ela ficou imóvel, e o sangue refluiu-lhe das veias para o coração. Sentia de novo aquele martelar que lhe fazia arfar o peito e lhe apertava a garganta.

— Sim — conseguiu, afinal, responder. — Mande subir.

Era natural que ele voltasse para assistir à première de Nancy, mas o simples fato de ouvir pronunciar o seu nome mergulhava Catherine numa perturbação feita de medo e de alegria.

Madden entrou com uma pressa que não lhe era comum, mas por isto ou por aquilo se esqueceu de apertar a mão dela. De pé, a alguns passos de Catherine, observava-a com singular insistência.

— Nancy está no teatro — disse ela. — Tem muito que fazer e quase nunca pára aqui. Mas vou telefonar já para ela.

— Não telefone. Eu a verei mais tarde.

Catherine deixou cair a mão que já estendia para o telefone. Se bem que Madden se comportasse com a reserva habitual, ela o sentia preso de uma superexcitação que a intimidava. A despeito de sua inquietação, forçou um sorriso.

— Quando chegou?

— Agora mesmo. Passei toda a noite no trem.

Ele falava entre dentes, mas sua voz tinha um timbre estranho, diferente do habitual.

— Catherine, eu gostaria de conversar com você, se não se importa.

Ela o encarou surpresa. Seu rosto pálido e sombrio traía, sob a máscara rígida, um profundo sofrimento. Estava vestido ainda mais negligentemente do que de costume, e rodava o chapéu entre as mãos. Bruscamente, Catherine adquiriu a convicção, que lhe já aflorara à mente, de que ele tinha preocupações de negócios.

Mais de uma vez suspeitara que Madden gastava mais do que devia; recentemente discutira com a sobrinha a esse respeito. Ele tinha também obrigações em Graysville: a mãe, a manutenção da casa e tudo que com isso se relacionava. E agora, após longas e dispendiosas férias, voltava para Cleveland, e sem dúvida encontrara a fábrica em muito má situação.

Ainda que não houvesse fundamento para essas suposições, era assim que Catherine explicava a aparência de derrota de Madden. Depois das experiências por que acabava de passar, sentia-se cheia de compaixão, e experimentava um terno desejo de ajudá-lo, e, se possível, aliviá-lo das suas preocupações. Aproveitou a ocasião:

— Escute — disse ela com a voz mais jovial que pôde — num dia tão bonito não se pode ficar fechado em casa. Eu não tenho nada que fazer. Se almoçássemos juntos?

— Almoçar? — fez Madden como se fosse a última coisa em que ele pudesse ter pensado.

— Sim, almoçar — repetiu Catherine com decisão. — Poderemos assim conversar tranqüilamente: se começamos, devemos ir até o fim. Você parece terrivelmente preocupado. Um dia de ar livre lhe fará bem, e Nancy não estará aqui antes das 4 horas. Tenho uma idéia. Vamos subir o Hudson, até o Mountain Bear Inn. Com este tempo, será maravilhoso!

A fisionomia de Madden resplandeceu, e ele repetiu as palavras da amiga:

— Será maravilhoso! — Houve uma pausa, durante a qual ele pareceu voltar à realidade. — Vou arranjar um carro.

— Não — protestou Catherine, decidida. — Isto é comigo. Se acredita que pode continuar a atirar dinheiro pela janela, está errado.

Ela telefonou para a gerência, e pediu um automóvel. Dez minutos depois, enrolados em cobertores no fundo de uma comprida limusine, os dois rodavam através das ruas escuras, atravessavam a ponte e atingiam a margem esquerda do rio. Passado o subúrbio, vararam pelo campo ao longo do Hudson, cujas águas rugidoras estavam acrescidas das que se desprendiam das neves. Do outro lado, erguiam-se as colinas nevadas cobertas de pinheiros entanguidos. O ar estava puro e gelado, a estrada endurecida como pedra, e uma forte claridade banhava todas as coisas.

Catherine mal compreendia como lhe acudira a idéia daquela escapada. Talvez fosse o desejo secreto de encontrar de novo um pouco de atmosfera de Vermont. Seu coração transbordava de alegria. De qualquer modo, era impossível alguém escapar ao encantamento que emanava da paisagem. Num movimento rápido e revestido de boa camaradagem, ela se voltou para Madden e lhe perguntou num tom que se esforçava por tornar tão despreocupado quanto possível:

— Não está arrependido de ter vindo?

— Não — respondeu Madden, sem a olhar. — Sinto-me muito feliz.

Ela sorriu, e como não podia impedir-se de estabelecer uma comparação entre aquele dia e o da véspera, descreveu para o companheiro sua peregrinação desesperada e o feliz desfecho da aventura.

— Então vendeu o quadro? — fez Madden, quando ela terminou. — Estou muito contente.

— Sim, agora estou rica, e é o momento oportuno para me tomarem dinheiro emprestado.

Ele não prestou atenção a essa observação, que, entretanto, visava estimulá-lo a falar dos seus negócios. Sem mesmo tentar renovar a conversa, mergulhou no silêncio. A cabeça um pouco inclinada para a frente, parecia absorvido numa meditação profunda e sem finalidade.

Súbito, uma parede de rochedos se levantou diante deles, mas, por uma brecha que parecia ter sido aberta pelo punho de algum gigante, seus olhares descortinaram uma paisagem de suaves ondulações, por onde corria o rio. Abandonaram, então, o curso do Hudson, tomaram um caminho particular, contornaram o sopé de Mountain Bear e pararam defronte de um restaurante. Nesse recanto, a neve era mais espessa, e, nas escarpas menos íngremes, grupos de jovens divertiam-se com seus esquis.

Catherine e Madden desceram do automóvel. A neve rangia sob seus passos. Um velho porteiro, de boné e com grandes luvas de pele, fê-los atravessar o vestíbulo e galgar uma larga escadaria cujas paredes eram decoradas com caixas de vidro contendo borboletas exóticas. Entraram no refeitório, um salão com forro de madeira, ornado de troféus de caça, e bem instalado. Numa lareira em semicírculo, ardiam enormes achas.

A última vez que Catherine estivera ali fora em pleno verão, e a sala regurgitava de passeantes e automobilistas. O décor de uma simplicidade rústica lhe agradava mais assim como estava agora. Disporiam do local para eles só, provavelmente, porque eram duas horas passadas. Sentaram-se diante de uma janela, perto do fogo, tendo à sua frente o magnífico panorama das montanhas.

O almoço foi simples mas suculento. Madden não tinha grande apetite. Quase não falava, mas se mostrava muito solícito com Catherine, e seu olhar perquiridor e profundo não a largava. Sob seus olhos, que a fixavam, Catherine se sentia tomada de uma vaga sensação de fraqueza. Depois de um silêncio particularmente prolongado, falou, forçando um sorriso:

— Nós tínhamos alguma coisa a discutir, não é verdade?

— Sim — aquiesceu Madden pausadamente — ou pelo menos eu lhe havia rogado que me ouvisse, porque tenho alguma coisa a lhe dizer, Catherine.

Ela baixou os olhos. Madden pronunciava o seu nome num tom que lhe transtornava o coração. Como seria feliz em poder ajudá-lo, e, não importa como, facilitar-lhe as coisas!

— Está preocupado — insinuou ela precipitadamente — mas deve saber que poderá sempre contar comigo.

E, depois de uma pausa, acrescentou:

— Trata-se de assunto de dinheiro?

Uma expressão de aturdimento manifestou-se na fisionomia de Madden. Ele a encarou e sacudiu lentamente a cabeça.

— Como pôde ocorrer-lhe essa idéia, Catherine? Dinheiro eu tenho bastante.

Sua tranqüila segurança era mais convincente do que todos os protestos. Não havia dúvida. Aterrorizada, ela percebeu que estava em pista errada. Mas, então, que haveria? Estremeceu; não podia olhá-lo de frente.

Com uma voz calma, como um homem que enuncia uma verdade incontestável, Madden falou:

— É alguma coisa mais importante, Catherine, muito, muito mais importante. Eu te amo!

Ela ficou completamente imóvel na cadeira. Em suas artérias o sangue pôs-se a rolar em ondas precipitadas, como uma torrente selvagem. Os dois estavam inteiramente a sós na sala. O corpo de Catherine se distendera ao calor do fogo, e uma sensação de bem-estar lhe perpassava os membros.

— Eu julgava amar Nancy — continuou Madden com a mesma voz contida e baixa — mas era pura imaginação, era o efeito de uma cara bonita depois de tantos anos de trabalho duro. A juventude, o Mediterrâneo e todo aquele cenário. Agora eu sei. Não sabia antes de encontrá-la. É o grande amor que só aparece uma vez na vida. Nunca pensei que pudesse haver isso. Há dias tento lutar. Mas isto não tem sentido. Não posso mais, não posso, absolutamente, resistir. Quero que ao menos você saiba: eu a amo... sim, Catherine, eu a amo.

Não podendo mais suportar, Catherine desviou o rosto.

— Não pode ser — disse ela — é impossível.

— É verdade.

Ela tinha lágrimas nos olhos. Levantou-se como cega, e apoiou-se à janela.

— Perdoe-me, Catherine. Eu precisava dizer-lhe. Experimentei silenciar mas não pude.

Madden levantou-se, por sua vez, foi até ela e se conservou numa atitude de súplica muda. Fora, começara a nevar. Espessos flocos passavam por trás das vidraças como sombras claras; e era essa a única nota viva na paisagem. A Natureza inteira estava parada numa imobilidade total; as árvores pareciam sentinelas com capotes brancos.

O céu era de um amarelo-açafrão e sob sua cúpula infinita a terra jazia, alva e brilhante. Essa calma e essa beleza deram o último golpe no coração de Catherine. Apertou as têmporas com as mãos: sentia-se vencida e sem forças.

— Deixe-me só — cochichou ao amigo — peço-lhe, deixe-me só.

Recaiu o silêncio, um silêncio profundo e torturante. Os flocos de neve evolavam-se agora mais rápidos, como minúsculos pássaros brancos arrebatados no espaço.

— Compreendo — disse afinal Madden em voz surda — não gosta de mim.

Então a primeira resistência de Catherine foi quebrada. Seu coração batia tão forte no peito que todos os seus pensamentos se embaralhavam. Um frêmito de ternura a percorreu toda, e, reprimindo um soluço, virou-se para ele:

— Chris, você bem sabe que eu o amo de todo o coração...

E viu-se nos braços dele, seus lábios entregues aos dele, as faces ensopadas de lágrimas. Durante alguns segundos, ela o estreitou contra si. Uma felicidade indizível, tal que o seu coração não podia contê-la toda, a envolveu.

Depois, soltando um grito, ela se desprendeu de um golpe.

— Chris! Não devemos fazer isso! É impossível! Devemos pensar em Nancy.

Ainda mais pálido do que ela, Madden tomou-lhe da mão e a conservou entre as suas como se não quisesse mais largá-la.

— Devemos também pensar em nós mesmos. Nós nos amamos. Nada mais tem importância.

Ela havia readquirido a lucidez. Estava perturbada até o mais profundo do seu ser, mas lutava desesperadamente para se dominar.

— Há sim, Chris, outra coisa. Nancy o ama. Contra isso nada podemos. Nunca, nunca, nunca! Você tem deveres para com ela, e eu também.

Ele cerrou os dentes, e, apelando para todas as suas forças, quis resistir.

— Catherine, meu amor, compreenda! Você gosta de mim, me pertence...

— Eu compreendo, Chris. Mas era preciso primeiro que você pudesse pertencer-me, e você pertence a Nancy. Sabe o que eu represento para ela. Não posso fazer-lhe nenhum mal. Nunca na vida! E você também não, não pode.

Ele não respondeu. Tinha o rosto desfigurado pelo sofrimento. Olhou-a nos olhos, porém ela sustentou o olhar, e então ele baixou as pálpebras. Fora, a neve, que continuava a cair, amontoava-se suavemente contra as vidraças.

Com um soluço sufocado, Catherine se pôs a arrumar a bolsa para partir. Havia nos seus gestos alguma coisa de decisivo, que o aterrou. Estava tão perto dela que podia respirar-lhe o perfume dos cabelos. Contendo a respiração, disse-lhe numa voz despedaçada:

— Eu sabia que seria assim, Catherine, desde o primeiro instante em que a vi. Mas, ao menos, sabendo o que sente por mim, meu sofrimento fica menos pesado.

Ela não respondeu; apenas o encarou. Madden sentiu-se como inundado pela grave beleza daqueles olhos, mas a amorosa angústia que lia neles impôs-lhe silêncio. Seu coração ficou gelado em seu peito, e ele a acompanhou à saída.

Capítulo 17

 

A volta para Nova York foi uma silenciosa tortura. Madden permanecia calado, encolhido no seu canto. Catherine olhava fixamente a paisagem através da portinhola. Seu rosto estava pálido, marcado pelas olheiras, e ela apertava o queixo de encontro ao agasalho de pele. Como conseguiu chegar até o seu quarto sem cair, era o que, depois, não podia compreender.

Cinco horas. Nancy voltara do teatro, trazendo consigo Bertram, Paula Brent e John Sidney. Os coquetéis circulavam, e Nancy, que ia esvaziar o seu segundo copo, ficou encantada de rever Madden.

— Alô, querido! — exclamou em tom jovial. — Eu só o esperava amanhã de manhã. Como é gentil de sua parte. Vem, que lhe dou um beijo bem gostoso!

Na sua excitação, Nancy não atentara na dolorosa hesitação de Madden ao atravessar a porta. Não desconfiou tampouco da luta penosa que se travava nele, enquanto se aproximava dela. Correu ao encontro do noivo, pendurou-se no pescoço dele e beijou-o.

— É tão bom vê-lo de novo — suspirou com satisfação. — Tive um dia tão fatigante! Bertram nos trata como cachorros, e eu precisava sentir você junto de mim.

Tinha as faces rosadas e os olhos brilhantes. Atraiu-o para si e observou-o com riso feliz. Catherine desviara os olhos; estava pálida mas se dominara. Só o tremor dos seus lábios traía ainda o seu tormento.

Paula Brent, estendida numa espreguiçadeira em atitude pitoresca, examinou, surpresa, os dois recém-chegados.

— Mas de onde vêm vocês? Parecem gelados, como se viessem do alto da montanha!

Catherine sentiu todos os olhares convergirem sobre ela.

— Acertou — disse enfaticamente, retirando as luvas — fomos às montanhas. Estivemos sentados lá em cima, acima do Hudson. Estava magnífico, com essa neve.

— Nas montanhas do Hudson? — repetiu Sidney, incrédulo.

Era um rapaz insípido e displicente, de cabelos ondulados, elegantemente vestido.

— Deus do céu! — exclamou ainda com um arzinho superior.

— Não, acho muito interessante — replicou Paula Brent. — Já viu uma avalancha? John, dê-me um cigarro.

Catherine corou imperceptivelmente. Bertram, também ele a observava. Mas com um ar de segurança tranqüila, ela se aproximou de Nancy e sentou perto dela.

— Então teve um dia de muito trabalho?

Nancy ergueu um copo vazio.

— Simplesmente terrível para todos nós — exclamou, exaltada. — Graças a Deus, começamos segunda-feira. Bertie nos dirige como a animais de circo. Já lhe disse, não é verdade? Jumbo, salta! Salta comigo através dos arcos! Ou: cuidado com a gravata! Mas eu estou muito contente porque Chris voltou. Vamos sair todos juntos, não é? E passar uma noite agradável. Será maravilhoso. Tome um coquetel, Catherine!

Catherine recusou. Após o ar puro e gelado da montanha, aquela atmosfera superaquecida e fumacenta fazia-a sentir-se como doente. Viu que Madden também não bebia nada. Então, voltou-se para Bertram:

— Está satisfeito com os ensaios?

Ele riu, espichou as pernas, e com ar misterioso olhou para o bico dos sapatos.

— Será que algum dia estou contente, eu? Mas uma coisa posso dizer-lhe: é que esta sua impertinente sobrinha não é, entretanto, destituída de talento.

Nancy fez uma careta.

— Um cumprimento do domador! Jumbo, salta! Que alguém ligue o rádio e em seguida partamos em bando e vamos nos divertir!

O jovem Sidney aumentou o volume do rádio, e Nancy largou Madden para ir pintar os lábios. Com um traço preciso e minucioso, espalhava o baton, que combinava exatamente com o esmalte vermelho das unhas.

Uma vez mais Catherine admirou o encanto e a vida que emanavam do rosto da sobrinha. Os supercílios estavam talvez depilados demais, e a boca sublimada de modo um pouco arbitrário; mas a fronte era inteligente e os olhos notáveis por sua beleza. Se bem que seus movimentos fossem calculados, só queria fixar o que restava neles de graça espontânea e de juventude. Estremeceu ligeiramente. Não, nunca seria capaz de fazer-lhe mal. Nancy podia ter seus defeitos, ser egoísta, fria e muito leviana; mas era ainda uma criança. Quando chegasse à maturidade, suas qualidades profundas se expandiriam. Seu casamento com Madden lhe abriria novos horizontes. E sobretudo ela adquiriria uma concepção da vida inteiramente diversa.

— Que houve? Não vêm? — perguntou Nancy. — Poderíamos ir jantar no Rainbow, e depois ir ouvir os novos cantores tiroleses, não?

Madden tomou uma expressão imperturbável. Foi com esforço que falou:

— Não creio que tenha disposição para sair ainda esta noite, Nancy.

— Parece-me — falou Paula, olhando-o por cima dos ombros — que os montanheses estão um pouco cansados.

— Mas, querido — protestou Nancy com um ar dengoso — não fará isto com sua mamãezinha. O amorzinho vai ser bem bonzinho com a mamãezinha!

O próprio Bertram explodiu numa gargalhada. Era verdadeiramente cômico ver Nancy arremedar assim a denguice dos americanos. Só Madden, que olhava pensativo para o soalho, não participou da hilaridade. Sentia o olhar de Catherine, que pesava sobre ele. Afinal, fez um sinal de assentimento, e levantou-se.

— Está bem, Nancy, vou.

Prepararam-se todos para sair. Nancy tomou o braço de Madden, Sidney engoliu às carreiras um último aperitivo, e Bertram ajudou Paula a vestir o casaco. Mas Catherine, que pretextara dor de cabeça, não os acompanhou. Desejava que Madden e Nancy pudessem ficar a sós. Rogou a Deus que tudo se arranjasse entre eles, e foi do fundo do seu coração que partiu esta súplica.