A Dama dos Cravos
Capítulo 20 · Na manhã seguinte, Nancy despertou com a…
Na manhã seguinte, Nancy despertou com a plena consciência do seu sucesso. Por alguns minutos ficou confortavelmente estirada, entregue aos seus devaneios e respirando o perfume das flores que recebera no teatro e que trouxera ao quarto uma nota tropical. Enquanto uma expressão distante perpassava no seu bonito rosto, ela evocava os rápidos acontecimentos da véspera.
Sentia-se quase aterrorizada à idéia de que o triunfo que desejara, para o qual tanto trabalhara, chegara afinal, mas não se deixava levar por ilusões. Compreendia que aquela criação era infinitamente superior a tudo que fizera até então. Talvez os outros tivessem na verdade motivos para dizer que fora notável; ela, porém, não se iludia. Antes, sua vaidade se demoraria saboreando o maravilhoso sucesso. Agora estava mudada. Reconhecia que devia seu êxito à dor, ao sofrimento que a amadurecera e que libertara todas as forças secretas da sua natureza. Não desempenhava seu papel; pela primeira vez, vivia-o. E, com uma humildade que não lhe era usual, rogava agora que lhe fosse dado continuar nesse caminho.
Mas só uma ligeira sombra na sua fronte denunciava esse profundo trabalho interior. Sentando-se na cama, acendeu um cigarro e ficou fumando pensativa. Depois telefonou, pedindo o almoço.
A rapidez e a deferência com que a serviram foi para Nancy mais uma prova da consideração que conquistara. Dois garçons e uma camareira acorreram sem ruído como se desde algumas horas estivessem esperando que ela desse sinal de vida. Num instante, as cortinas foram afastadas, arrumadas as flores e a mesa de rodas empurrada para junto da cama com a toalha irrepreensivelmente limpa, sua prataria, os sucos de frutas geladas, o chá fervendo e os bolos.
Reclinada sobre os travesseiros passou a vista pelos jornais. Choviam os superlativos. Em muitas das críticas o espetáculo era celebrado como o melhor da temporada e todos rivalizavam em elogios a Nancy.
Soou o telefone. O primeiro chamado era de Bertram.
— Bom dia, Nancy. Espero que tenha repousado bem. — Havia em sua voz uma solicitude paternal e muito carinho. — Bem, muito bem, filha. Já leu os jornais?
— Já, Bertram.
— Está contente?
— Sim, naturalmente — respondeu Nancy com os olhos perdidos ao longe.
— Espero. Ah! ah! Com os diabos! — O riso estalou na outra ponta do fio. Depois, Bertram ficou sério. — Escute, Nancy. Você triunfou, e sabe disto. Triunfou de um golpe, e bem. Escute, eu me incumbo de tudo. Seu papel será modificado e ampliado. Irei cedo para o teatro, mas gostaria de antes almoçar com você. E agora, guarde bem o que vou lhe dizer, abra os dois ouvidos. Vão bombardeá-la com todas as ofertas possíveis. Não assine nada, nem o papel mais insignificante, sem antes me mostrar. Compreendeu? Nada antes de me pedir opinião. E agora, até logo. Encontrar-nos-emos às 2 horas.
Desligando o telefone, Nancy sorria com ar sonhador. Mas quando a porta se abriu, logo retomou uma expressão de triunfo. Correspondeu ao beijo de Catherine e deu resposta às suas perguntas em tom alegre.
— Mas naturalmente, Catherine, dormi admiravelmente bem. Que estava pensando? Pesadelos? Ah! querida, seja boazinha, atenda ao telefone. Isto não vai parar: ofertas, perfumes grátis, pó-de-arroz grátis, fotografias. Toda a Quinta Avenida desfilará por aqui.
Catherine pegou o fone, e o cobriu com a mão.
— Madame Lilien da Rua 57. Deve saber quem é...
— Sim, sei, diga-lhe que irei, que madame... - (sou eu) gostaria de ver as últimas criações dela...
Depois de dar o recado Catherine sentou-se à beira da cama e observou Nancy com uma expressão divertida.
— Para uma estrela, até que não perde a cabeça. Não está nervosa, nem um pouquinho?
Nancy, que bebia um suco de frutas, mergulhou o nariz no copo e, encarando Catherine com os seus grandes olhos, fez um gesto negativo muito divertido.
— Por que nervosa? São coisas que eu previa há muito. Era o que desejava. Agora consegui, estou lançada. E, acredite-me, não vou dormir no meio do caminho.
— Não fie-se muito nisto — respondeu pausadamente Catherine.
— Querida, então eu devo tomar uns ares modestos e acanhados? Não, fique tranqüila, seja gentil e ajude-me a tirar a bandeja daqui. Não estou bonita? Quer estender o braço e me passar o estojo de manicure?
Documente, Catherine levantou-se e obedeceu. Não saberia dizer por que, mas a atitude Nancy a surpreendia. Observava dissimuladamente a sobrinha, o rosto fino e bonito, as maçãs salientes, os supercílios depilados, e aquele belo corpo vigoroso que se estendia no leito, ágil como o de um animal novo.
Tilintou de novo o telefone, e Catherine atendeu.
— É Carl Morris, da Vestris. Pede uma entrevista.
Nancy se inclinou para a frente.
— Morris! Morris, da Vestris-Film! — Nancy mordeu os lábios, o que nela era sinal de uma reflexão intensa e rápida. — Quando quer vir?
— Logo que possível.
— Diga-lhe então que às 11.
Marcada a visita, Nancy voltou ao seu suco de laranja.
— É um personagem muito importante, não é? — fez Catherine.
— Morris! Mas é, creio, o homem mais poderoso de Hollywood. A metade da Vestris e meia dúzia de outras companhias pertencem a ele. Gira com milhões; é uma espécie de deus do cinema. Tem um firmamento pessoal, semeado de estrelas que são dele, cintilando ao longe. De tempos em tempos, cria uma nova estrela e a acrescenta ao seu estoque.
Catherine olhou-a com ar interrogativo. Havia no tom de Nancy uma nuança nova que a chocava. Porque não estava em sua natureza zombar do Olimpo de Hollywood.
Calaram-se ambas. Por fim, Catherine falou:
— Bem. Vou tratar da vida. — Sorriu. — Deixo-a, portanto, entregue ao Sr. Morris.
Um quarto de hora depois, ela deixava o hotel.
Nancy não se apressava de modo nenhum, e quando chamou a camareira às 10h30min, seus movimentos não denunciavam nenhuma impaciência. Enfiou um leve robe de chambre por cima do elegante pijama, arrumou cuidadosamente o rosto e o cabelo, mandou trazer todas as flores para a sala, e ficou lá.
Estendida no divã, não teve de esperar muito. Exatamente à hora marcada, Morris chegou. Contrariamente à lenda de que todos os diretores de Hollywood são altos, corpulentos e ruidosos, era um homem magro, alerta e discreto.
Entrou como uma rajada, como quem receia perder um trem. Batendo os calcanhares à alemã, inclinou-se sobre a mão de Nancy, pegou uma cadeira junto do divã, sentou-se e ficou a observar a moça com um olhar insistente. Ficou um momento calado, e pareceu satisfeito com o exame. Suas narinas se dilataram para aspirar o perfume das rosas. Tirando do bolso uma cigarrara de ouro maciço, acendeu um cigarro turco. Depois recostou-se no espaldar da poltrona com o ar de um artista que vai atacar a execução de sua obra-prima.
— Encantadora, encantadora — constatou com um gesto bondoso de mão. — Pode-se fazer dela alguma coisa. Que diz, miss... como é? Sherwood? Para a sociedade dos filmes Vestris! Publicidade, publicidade, nada como a publicidade.
Antes que ela pudesse responder, Morris inclinou-se para a frente e continuou com crescente entusiasmo:
— Escute, Miss Sherwood, eu sou um homem franco nos negócios. Todos os que conhecem Carl Morris sabem disto. Compreende por que estou aqui?
— Adivinho — respondeu Nancy, impassível, olhando-o nos olhos.
Morris sacudiu a cabeça.
— Bem. Começamos a nos entender. A senhora teve um grande sucesso, não é verdade?
— Não foi ainda o que espero obter.
Morris fez um gesto de assentimento.
— Cada vez melhor! Aprecio a ambição naqueles com quem trabalho. Escute, minha filha, cartas na mesa. Eu estava ontem no teatro. Você me agradou. Precisava, porém, confirmar minha primeira impressão. Aí está por que vim aqui. Agora estou completamente tranqüilo. — Fez-se um silêncio impressionante. — Quero contratá-la.
Nancy não disse nada. Seu olhar imperturbável continuava cravado no pequeno Morris que se inclinava sobre ela com ares confidenciais, e lhe dava pancadinhas nos joelhos com amável sem-cerimônia.
— Você sabe, minha filha, o que eu posso fazer. Posso fazer de você uma estrela como a Garbo ou a Hepburn. Posso transformá-la numa vedete. E o farei. Sabe quem sou eu? Carl Morris. Sei o que digo. Se desejo fazer alguma coisa, faço instantaneamente. Não ligo ao dinheiro. Para fazer a Herman, gastei um milhão. Agora ela me rende 10 milhões e até mais. Viu o último filme da Herman? Simplesmente fabuloso. Arte, drama, paixão, tudo; só para a cena dos esponsais, o leito do imperador Napoleão, autêntico, nada de imitação, custou-me 30 mil dólares.
Tirou uma fumaçada, e continuou cada vez mais importante:
— Então, escute, Miss Sherwood. Vamos ser bons amigos. Venha hoje à noite à minha casa. Sim, sim, nada tem a recear. Conhecerá minha mulher e minha garota, a Sofia. Sendo um grande homem de negócios, também sou um bom pai de família. Precisa conhecer minha pequena Sofia. Seria uma segunda Shirley Temple, se eu quisesse. Vá lá em casa, minha filha. Falaremos de todas as coisas. Ouer assinar um contrato a longo prazo?
Um contrato com Morris! Nancy sabia de sobra o que isso significava. Era a ascensão, o cimo, o paraíso! O contrato resolveria tudo e satisfaria os seus menores desejos: dinheiro, fama, tudo que pudesse valorizá-la. Bem. Assinaria o contrato. Hollywood não poderia prejudicar-lhe a carreira teatral; seria intransigente nesse ponto. Seus olhos erravam por muito longe. Havia lutado e vencido, e de um salto chegava à glória.
Os dois conversaram ainda 20 minutos. Depois que se puseram de acordo quanto aos pontos essenciais do seu trato, o homenzinho levantou-se, bateu de novo os calcanhares e desapareceu.
Nancy perdeu a calma. Tomada de vertigem, encolheu-se sobre si mesma. Aquele cômico homenzinho, com todo o seu poderio e os seus milhões, acreditava nela. Sob a hábil orientação de Morris, ela ia conhecer a glória. A despeito do seu domínio sobre si mesma, teve de repente a sensação de que ia enlouquecer. Apertando fortemente a fronte com a mão, esforçava-se em vão por sufocar os soluços que lhe subiam à garganta.
Enquanto assim se debatia, ouviu tocar o inexorável telefone. Gostaria de atirá-lo para um canto. Mas a gerência anunciava que Madden estava lá embaixo.
Esta notícia a fez empalidecer. Ficou um instante com os lábios trêmulos se perguntando o que devia responder. Depois que surpreendera a conversa de Madden com Catherine, não vira mais o noivo a sós. E ele estava lá...
— Diga que suba — respondeu em voz firme — e mande logo dois coquetéis de champanha.
Esfregou nervosa as mãos. Durante os poucos minutos que lhe restavam, lutou com todo o ânimo para encontrar a atitude que combinaria melhor com a decisão que tomara. "Meu Deus", rezou, "dai-me forças para desempenhar este papel até o fim!"
Quando Madden entrou, ela foi ao seu encontro, e estendeu-lhe as mãos alegremente.
— Meu desejo está satisfeito — exclamou virando o rosto. — Chegou no momento oportuno, Chris! Tive uma manhã maravilhosa! Felicite-me!
— Por quê? Um novo sucesso?
Ela fez um sinal afirmativo.
— Um contrato com Morris.
Ele a olhou de alto a baixo, com sua reserva habitual.
— É verdade — prosseguiu Nancy — estive tão ocupada pela manhã que nem tive tempo de vestir-me. É verdade que este era o melhor trajo para receber um magnata de Hollywood. Não me acha bonita?
— Decerto — respondeu ele com um sorriso franco. — Você sabe que sim. E Morris deixou-se seduzir?
Ela riu.
— Devia ter visto. Uma verdadeira cena de teatro! O pequeno Morris, que tem quatro pés de altura, recitava o seu monólogo: "Preciso da senhora, Miss Sherwood. Só o leito de Napoleão me custou 30 mil dólares. Mas eu vou fazer da senhora uma estrela. E a senhora será apresentada a Sofia, que seria, se eu quisesse, uma segunda Shirley Temple. Vá, minha filha. Sim, sim, nada tem a recear. Quer um contrato a longo prazo?"
Nancy arremedava o homenzinho à perfeição, e parecia encontrar nesse gracejo tanto prazer que custou a responder ao garçom que lhe trazia os aperitivos.
— Ponha aí — disse, ainda rindo, e indicando a mesa junto ao divã, onde se sentou, assim que a porta se fechou novamente.
— Não pudemos ainda falar da noite passada, Chris. Enfim estamos um instante a sós. Bebamos pelo meu sucesso, e não faça esse ar de desaprovação. Tudo vai caminhando tão perfeitamente bem!
Ela engoliu o seu coquetel de um trago, enquanto Madden bebia lentamenle. O dia estava escuro e feio; era agradável a temperatura tépida do quarto.
— Estou terrivelmente nervosa, Chris — disse ela. — Tenho o ar muito calmo, mas no fundo não estou calma. E tem que ser gentil comigo! Porque tenho a dizer-lhe uma coisa que não lhe agradará.
Ele descansou a taça e virou-se para Nancy, com uma expressão de surpresa.
— Que há, Nancy?
Ela ficou um instante em silêncio.
— Não me animo a dizer-lhe.
— Mas por quê? — replicou Madden, amigavelmente. — Esquece que sábado estaremos casados?
Novo silêncio.
— É disso justamente que se trata, Chris!
— Mas, Nancy, por Deus, aonde quer chegar?
Ela levou à boca o cigarro e aspirou profundamente a fumaça.
— Isto me dá pena, Chris, muita pena. Mas, sejamos francos... eu preferiria... por algum tempo... não me casar.
A cara de Madden tornou-se dura. Franziu a testa, e seus lábios empalideceram. Parecia fulminado.
— Não me prometeu que nos casaríamos sábado?
— Sim, eu sei. Mas desde ontem tudo mudou. Meus negócios subiram a alturas vertiginosas. Ficarei simultaneamente ligada por contrato a Bertram e a Morris. Não tenho tempo para ser uma mulher casada. Nas circunstâncias atuais, devo entregar-me unicamente à minha carreira.
Ela acentuou com um sorriso o que havia de abrupto em sua declaração, e continuou:
— Oh! Você me compreende, Chris! Amo-o muito. Mas bem vê que a situação agora não é mais a mesma. Quando nos conhecemos em Nice, eu estava ainda começando. Atravessava uma fase ruim. Afeiçoei-me a você porque precisava de alguém que se ocupasse de mim. Mas agora tenho o meu destino entre as mãos. Oh, Chris, não creia que eu tenha perdido minha afeição por você! Por nada deste mundo eu quereria dar-lhe um desgosto. Mas não reconhece que tudo se tornou muito difícil para mim?
— Difícil... — repetiu Madden num tom amargo. — Nem sabe o que essa palavra significa. Quer dizer que, porque agora teve sucesso, não deseja mais casar-se?
— Nós podemos, de qualquer modo, esperar — respondeu ela com uma voz hesitante.
— Esperar? Você já me fez esperar por toda parte como um caixeirinho! Eu tinha de estar presente para lhe trazer as luvas, para lhe comprar flores, para levá-la ao restaurante quando lhe dava na cabeça, e agora teria de...
Aqui ele elevou a voz.
— ... Teria de ir atrás de você para Hollywood, fazer o papel de cão de fila quando saísse do estúdio. Não conte com isto, Nancy! Já fiz tudo isso durante semanas, e não é o meu gênero. Não lhe pedi para ser seu cãozinho, mas seu marido.
Ela ficou em silêncio. Via muito bem que era aquela crise que desejava provocar. Mas nada, nada devia impedi-la de levar a bom termo o que resolvera.
— Desde que nos enganamos, Chris — disse pausadamente — sejamos leais. Certamente você não toleraria que eu continuasse a fazer teatro. . .
— Tem razão — exclamou ele. — Eu preciso é de uma esposa, e não...
— Não diga mais nada. Já dissemos o bastante...
Nancy levantou-se bruscamente, e, virando as costas, tirou as últimas baforadas do cigarro.
Madden olhava-a fixamente. Seu rosto estava sombrio. Parecia exausto; sentia-se completamente desamparado. Tinha-a amado; pelo menos acreditou amá-la. Seu amor não estava de todo morto. Ficou muito tempo em silêncio. Depois lembrou-se da promessa que fizera a Catherine, e tentou ainda uma vez transpor o abismo que os separava.
— Escute, Nancy, é absolutamente indispensável que nos separemos? Não podíamos fazer um esforço para nos compreendermos?
Ela se mantinha ereta, sem se mexer.
— Isto não tem sentido, Chris — disse, voltando-se para ele. — Eu previ durante muito tempo este momento. Minha vida não é sua. Nós nos amamos, mas isto não altera em nada a situação. Devemos renunciar um ao outro. Não lhe quero mal, mas é preciso acabar com isto...
Nada mais lhe restava a dizer. Cinco minutos depois ele se despedia, e voltava para o seu hotel. Andava num passo de autômato, engolfado em seus pensamentos, sacudido por sensações contraditórias. Por um estranho fenômeno, não experimentava nenhum desafogo. À sua decepção juntava-se a esmagadora convicção de haver faltado, de certo modo, à palavra dada a Catherine. Não conseguia imaginar o que seria o futuro.
Ignorava que Nancy, imóvel no mesmo lugar, os lábios tremendo, lutava com as suas próprias lágrimas.