A Dama dos Cravos
Capítulo 3 · Nancy ficara na cama o dia todo.…
Nancy ficara na cama o dia todo. A cabeça lhe andava à roda, e sentia os membros pesados. Mas detestava ficar de cama, e estava cada vez mais agitada. Não é que se preocupasse muito com a "Noite de Luar na Arcádia". O estudo da peça ia muito adiantado e não estava previsto nenhum ensaio para aquele fim de semana. Mas o imprevisto contratempo que viera perturbar o minucioso método de sua vida a punha de mau humor. Quando tudo não corria de acordo com os seus desejos, aconteciam-lhe essas explosões de egoísmo que a tornavam insuportável. Se bem que Catherine se recusasse a reconhecê-lo, tinha feito a menina muito caprichosa, à força de mimá-la. Para desculpar a sobrinha, dizia a si mesma que ela não passava de uma criança. E Nancy considerava, até certo ponto, que tudo que faziam por ela era uma obrigação.
Naquele dia, por exemplo, Catherine não admitiria que se pudesse censurar Nancy por falta de docilidade. Ela havia tomado religiosamente o remédio cada quatro horas e engolira sem protestar todas as beberagens quentes que a empregada, a Sra. Baxter, lhe trazia fumegando. Pela manhã encostara-se aos travesseiros para escrever algumas cartas que vinha adiando desde muito tempo. Cumprido esse dever, passou uma hora confortável a pensar em Madden. Depois pegara um livro, esforçando-se por lê-lo.
Poder-se-ia supor que uma doente assim caprichosa buscara refúgio num romance policial ou em alguma pequena história de amor. Mas o volume a que ela se lançara pertencia a outra categoria muito diversa. Era o teatro de Shakespeare. Sua biblioteca bem sortida continha, aliás, quase somente obras teatrais, e sobretudo clássicos: Molière, Ibsen, Sheridan, Shaw, todos lá estavam. Havia igualmente biografias de atores célebres. Biblioteca surpreendente para uma jovem artista aparentemente frívola.
O arranjo do quarto de Nancy, do mesmo modo, tinha por que causar admiração. Nada do bricabraque, que se poderia esperar encontrar nele. Nem um cofrezinho exótico para esconder o telefone, nem bonecas excêntricas. A peça era austera e nua, e a ordem minuciosa que nela reinava fazia pensar numa cela de convento. Sobre a cômoda, apenas duas fotografias: a de Madden e a de Catherine. Nas paredes, simplesmente pintadas de branco, um único quadro: um grande e belo desenho da Duse. Esse retrato de uma das maiores atrizes de todos os tempos desvendava o mistério, muito maior ainda, da personalidade de Nancy.
Estava, até o mais profundo de si mesma, dominada pelo teatro. Não era o impulso irrefletido que habitualmente leva as mulheres até o palco, mas uma ardente e profunda necessidade de se exprimir pela criação de belas imagens, cheias de paixão e de vida. Era difícil discernir de onde lhe viera essa necessidade. Sem dúvida, já existia em estado latente em seu pai, que tinha um temperamento expansivo. De qualquer modo, manifestara-se nela desde a mais tenra idade. Para seu grande pesar, não pudera dar-lhe livre curso. Só algumas das suas amigas mais íntimas tinham podido medir a sinceridade de sua ambição e de sua paixão pelo palcoa, mas não acreditavam que essa inclinação chegasse um dia a impor-se. Os seres que lhe eram mais caros, Catherine, e agora Madden, tendiam antes a sorrir de seu amor ao teatro. Não podiam nem queriam levá-lo a sério.
Num certo sentido, a culpada era a própria Nancy. Na verdade, era ainda muito jovem e tinha todas as hesitações e inabilidades de uma moça da sua idade. Seus acessos de mau humor, que traíam uma grande vivacidade e uma natureza fantasista, podiam levar a duvidar da constância das suas aspirações. Freqüentemente dava-se a extravagâncias, e, em sociedade, usava esses modos levianos e desembaraçados que passam por elegantes. Em última análise era, antes, uma criatura complicada. Alternadamente exaltada e deprimida, oscilava sem cessar dum extremo a outro, e era bem difícil prever o rumo que tomaria no dia em que encontrasse afinal o equilíbrio.
Esta descrição do seu caráter, se lhe chegasse aos ouvidos, a faria dar gritos. No fundo, era séria e sensível e nunca ninguém pensara em esclarecê-la sobre sua própria personalidade. Havia assim poucas possibilidades de que ela, naquele dia, procedesse a um exame de consciência. Estava por demais absorvida pelo seu Shakespeare e, apesar da enxaqueca, mergulhou no estudo do "Rei Lear". Viu-se a princípio no papel de Goneril, depois no de Regan, e enfim no da doce Cordélia.
Quando terminou a leitura, deixou cair o livro. Sentia-se extremamente mal. O tempo corria, e, insensivelmente, veio a noite. A arrumadeira foi embora mas prometeu passar por lá de novo às 9 horas para ver se tudo ia bem. Nancy se pôs a devanear, e a imagem de Madden era a que lhe vinha mais freqüentemente à lembrança. Comparava aquelas horas aborrecidas com o futuro venturoso que a aguardava.
Súbito a campainha aguda do telefone veio interromper suas divagações. Pegou o fone e reconheceu a voz de John Harris antes mesmo que ele dissesse o nome. (Possuía o dom de reconhecer as vozes.) Harris pareceu aliviado por havê-la encontrado.
— É você, Nancy — exclamou com um suspiro de felicidade. — Agradeço ao Criador tê-la encontrado. Sim, estou na rádio e numa situação difícil. Sabe que irradiamos hoje "A Pérola Negra"? É um programa muito importante, às 8 horas. Ora, compreende, Nancy, Sylvia Burke faltou. Está doente. Pode avaliar o que é isto! A estrela! E temos de dar início ao programa dentro de quatro horas! Tem que me ajudar, Nancy; é preciso que faça o papel. Seja boazinha, e venha imediatamente! Podemos ainda ler rapidamente o papel juntos.
— Mas, John! — protestou Nancy. — Não sei se posso ir.
— Está louca? Não vê o que isto significa para você? Substituir Sylvia Burke? Com aqueles milhões de ouvintes para a escutarem!
Perplexa, Nancy passou a mão nas têmporas ardentes. Harris tinha toda razão. Sylvia Burke era, provavelmente, a comediante mais célebre no momento. Ali estava uma oportunidade única para se projetar, para se fazer conhecida dos inúmeros ouvintes que estariam naquela noite à escuta.
— Que tem Sylvia? — perguntou, cada vez mais espantada.
— Um resfriado. Trinta e oito graus de febre. Proibição absoluta de levantar-se.
Em qualquer outra ocasião Nancy teria rido.
— Mas o papel não lhe mete medo, não é? — insistiu Harris. — Temos apenas que ler juntos o original.
— Não, não é isto — replicou Nancy.
Tomando o termômetro, que conservava ao alcance da mão, acrescentou:
— Aguarde um momento ao telefone.
Pôs o termômetro na boca. Sessenta segundos de espera enervante. Depois olhou o mercúrio. Marcava 39. Sentiu um aperto no coração. Era impossível aceitar o convite; sair seria uma verdadeira loucura.
— Vamos, que é que se passa? — falou Harris num tom agastado. — Será que vai me deixar mofando aqui a noite toda? Que há, Nancy? Sempre pensei que tinha a cabeça solidamente plantada nos ombros. Vem ou não vem?
Os lábios de Nancy chegaram a se abrir para dizer que não, quando uma espécie de inspiração lhe fez voltar os olhos para o retrato da Duse. A grande artista, em quem se concentrava toda a sua admiração, e que tomara para modelo, preferia sempre representar, apesar das nevralgias que a punham meio louca, antes que faltar ao público. Nancy sentiu que a sua garganta se apertava.
— Naturalmente que vou, John! — Tinha a impressão de que era outra pessoa que falava. — Não me sinto muito em condições, mas em meia hora estarei aí.
Cortou qualquer efusão de alegria do amigo, desligando o telefone. O que ia fazer era verdadeiramente louco. Saindo aquela noite, arriscava a própria vida. Catherine ficaria terrivelmente zangada com ela; e Chris...
Não lhe tinha dito que se sentia bastante mal para poder acompanhá-lo a Wimbledon? Percebeu que estava com medo, mas logo se dominou. Chris a amava; não guardaria rancor e compreenderia.
Reunindo todas as suas forças, levantou-se. Todo o corpo tremia, e precisou de um grande esforço para se vestir. Escolheu as roupas mais quentes que tinha, enfiou o casaco de pele, e enrolou ainda mais uma echarpe no pescoço.
Depois tragou uma boa dose do remédio e pediu pelo telefone um táxi. Lançando, enfim, um último olhar ao espelho, abanou tristemente a cabeça, fez um breve gesto melodramático, e apagou a lâmpada.