A fallencia
Capítulo VIII
Abençoados os que não fraqueiam e podem ao fim da existencia erguer bem alto a cabeça sem respingos de vicio. Esses não terão patinhado na enxurrada enganadora, esses dirão aos filhos:
—Olhem para a minha vida e façam como eu fiz.
Era o que pensava Francisco Theodoro, querendo agarrar-se á sua fé antiga, que temia cahisse agora, abalada pela ventania d'aquelles dias de loucura.
VIII
Na saleta de engommar, Noca, com o ferro na mão, sabia do que se passava em toda a casa. Nesse dia ella trouxera uma braçada de roupas para cima de uma cadeira junto da taboa. Lia e Rachel interromperam-n'a depressa.
—Noca, você corta um vestido para a minha boneca? pediu Lia.
—E outro para a minha, Noca?
—Vão-se embora. Hoje não tenho tempo para conversas.
—Um só, Noca, sim?
—Não faço nada! Amanhã seu pae está ahi gritando que não tem roupa!
Mas as meninas ficaram, trouxeram a rastos uma esteira, sentaram-se nella e a Noca não teve remedio senão cortar os vestidos das bonecas e ainda dar-lhes agulhas, linhas e retalhos. Distribuido o serviço, levantou-se. Nina passava a caminho da despensa e sorriu-lhe; mas a mulata mal correspondeu ao cumprimento, enjoada pela bondade d'aquella creatura.
A culpa era do sangue, da sua raça, que menos estima os superiores quanto mais estes a afagam. Por isso ella morria de amores por Mario, um rapazinho atrevido, de genio authoritario e palavras duras.
Começava a alisar a primeira camisa do patrão, quando o Dionysio se acercou da taboa.
—Agora é que você está chegando, Dionysio?!
—É Fui levar um recado de seu Mario... A senhora já sabe que elle deixou a franceza? Esta agora é mais bonita; é uma carioca de se lhe tirar o chapéo!
—Ora veja só, como Dionysio está tolo... Ella apontou as creanças, que poderiam ir mexericar lá para dentro. E depois:
—É loura ou é morena?
—Morena, altinha, muito chic.
—Bem. Vá arrumar o quarto de Mario, ande.
Mal sahiu o Dionysio entrou a criada Orminda, uma caboclinha de olhar sonso.
—Olhe aqui, D. Noca, o que eu achei em baixo do travesseiro de D. Nina.
—Que é? perguntou a mulata, sem levantar a vista do trabalho.
Um retrato.
Noca olhou; era um retrato de Mario. Guardou-o, sem dizer nada. Orminda continuou:
—Minha ama está escrevendo uma carta, lá no quarto...
—É para Sergipe.
A cabocla sorriu.
—O professor de musica está ahi...
—Já sei... Vae pedir ao jardineiro um pouco de hortelã, anda, para eu botar de infusão.
Noca tinha ascendencia sobre a criadagem, que a tratava por dona. Mesmo entre os brancos a palavra da sua experiencia era ouvida com acatamento. Ella era a mulher desembaraçada, a doceira dos grandes dias de festa, a unica das engommadeiras capaz de satisfazer as impertinencias do dono da casa; ninguem sabia como a Noca preparar um remedio, um suadouro, nem dar um escalda-pés synapisado, nem tão bem escolher o peixe, preparar um pudim ou vestir uma creança.
Alegre, forte, falladora e arrogante, com o genio picado e a lingua prompta para a réplica, não admittia admoestações nem conhecia economias. As suas roupas, muito asseadas, cheiravam bem; andava de côres claras e fitas alegres, pizando com todo o peso do seu corpo volumoso e encarando as creaturas de frente, num bom ar de sinceridade.
Eximia na traducção e interpretação dos sonhos, era de uma imaginação lentejolada de pequeninas idéas extravagantes e concepções originaes. Para o mais insignificante facto, tinha uma explicação mysteriosa, embrulhada em nevoas e superstições curiosissimas, que sahiam da sua bocca como lemmas fataes, de uma verdade indiscutivel.
E aquella influencia extendera-se pela familia toda. Camilla consultava-a; Nina contava-lhe os seus sonhos, pedindo-lhe explicações; Ruth ouvia-a com enorme interesse, de alma aberta para tudo que tivesse ares de phantasia; e a criadagem pedia conselhos, rezas, remedios, palpites de jogo e consolações de desgostos...
Noca acudia com promptidão a todos, gabando-se, sem hypocrisia, de gostar de ser util e servir de muito a muita gente...
Ella andava agora desconfiada com a tristeza mal disfarçada de Milla. Desde aquelle passeio ao Neptuno deveria haver por alli grande novidade... O Dr. Gervasio, entretanto, desfazia-se em cuidados ... e o pobre do capitão Rino era recebido com certa seccura, que o estupido parecia não comprehender!
A Nina, coitada, emmagrecia como um arenque, e só Ruth passava sem ver nada, como se a musica a levasse por outros caminhos... O patrão ... esse tambem ruminava qualquer coisa...
Quem provocava confidencias indiscretas da mulata era Nina, que, com o pretexto de passar uma gravata ou alisar uma fita, ia á saleta do engommado logo que d'ella via sahir o Dionisyo.
A mulata percebia tudo e não tinha escrupulos em repetir a verdade. Ora, aquillo talvez curasse a moça, pensava comsigo. Se os amores não passassem, que seria da gente? O coração quer-se á larga. Soffrer por causa de um homem? Não vê!
Nina, com os olhos humidos, as mãos curtas, de dedos ligeiramente achatados, espalmados na taboa ainda quente do ferro, escutava tudo muito caladinha e, quando a ultima palavra cahia dos beiços grossos da Noca e que a mulata começava a assoprar as brasas, ella voltava para dentro, sentava-se a coser, achando-se mesquinha, feia e muito desgraçada. Todos os esforços que fazia por agradar eram inuteis; Mario nem parecia vêl-a e mal parava em casa... A outra era bonita; morena e altinha. Era pouco o que sabia, mas o bastante para a fazer soffrer.
Emquanto, no bulicio da casa, todos se agitavam no trabalho activo, Camilla conservava-se no seu quarto, muda, encolhida em uma poltrona, com as mãos inuteis, o olhar febril.
A visão d'aquella mulher de lucto, da manhã do Neptuno, não a deixava nunca; sentia-lhe, como um castigo, a formosura, o perfume, e aquelle ar discreto de honestidade e de elegancia. O que a punha doente, e que a atormentava ainda mais, era a obstinação de Gervasio em negar-lhe uma explicação qualquer. Que haveria entre ambos?
No seu ciume e resentimento, Camilla esquivava-se agora ao medico; era em vão que elle a chamava para as suas doces e crueis entrevistas. Mas toda a sua força em resistir ia afrouxando, e ella sentia bem que, apezar de tudo, chegaria um dia em que os seus pés a levariam para elle.
Foi ainda naquelle canto do quarto que Francisco Theodoro a encontrou, ao voltar da cidade.
—Estás doente? Olha que eu trouxe um camarote para a Aïda. O Negreiros disse-me que vae muito bem por esta companhia...
—Que entende o Negreiros de musica!
—Elle tem excellente ouvido. Acho bom desceres. O Gervasio está lá em baixo...
Milla desceu, e, ao sahir para o terraço, parou entre portas, escutando o que dizia o Dr. Gervasio. Elle estava sentado, de costas para ella. Em frente d'elle, em pé, Ruth ouvia-o attentamente, com a corda de pular enrolada no braço, e o rosto ainda vermelho pelo exercicio interrompido.
—«Você disse que a irmã da Lage é uma moça bem educada, querendo dizer que ella é uma moça instruida. Ha dififerença: educação e instrucção não se confundem. Repare: porque considera você essa moça como bem educada? Porque falla francez, inglez, toca e desenha; não é assim? Pois essas prendas, ainda que adquiridas com esforço, compram-se aos mestres; as outras dão-se ou nascem da boa convivencia. Uma pessoa instruida não será de exterioridade agradavel se não fôr educada. A instrucção nem sempre transparece e nem sempre concorre para a felicidade. A educação prepara-nos para a tolerancia e revela-se em tudo, na maneira por que fazemos um cumprimento, por que andamos na rua, porque nos ajoelhamos em uma egreja, por que comemos a uma mesa, por que fallamos ou por que ouvimos fallar, por que em discussões tonalisamos as nossas opiniões com as opiniões contrarias; por mil effeitos, emfim, que, sendo imperceptiveis, realçam o individuo, porque o pulem e o tornam digno da boa sociedade. A instrucção é a força com que apparelhamos o nosso espirito para a vida, lança e escudo para ataque e defesa; a educação é o perfume que os paes intelligentes derramam na alma dos filhos e que por tal geito se infiltra nelles, que nunca mais se evapora, seja qual fôr o ambiente em que vivam depois.
É bom não confundir as duas palavras, Ruth, porque essas confusões, á vista grossa dos indifferentes, não tem importancia; mas alteram a verdade e não escapam aos ouvidos delicados.»
—Não tornarei a trocar o sentido d'essas duas palavras...
—O Lelio disse-me hontem que lhe tinha trazido uma valsa de Chopin. Ora, você pode tocar, mas não pode interpretar bem semelhante auctor.
—Porque?
—Porque ainda não tem edade para comprehendel-o.
Chopin é um musico perigoso, minha filha; é um torturador, um excitador de almas. Contente-se com os seus classicos, mais sadios e mais frescos. A musica como a leitura, deve ser ministrada com prudencia. Fallarei ao Lelio. Sua mãe já desceu?
—Está ahi, atraz do senhor.
—Ah...
Milla soccorreu-se da filha para não ficar só com o medico, que a via muito esquiva. A pallidez e a tristeza adoçavam-lhe a physionomia, dando-lhe um encanto novo. O Gervasio observava-a calado, indeciso, com medo de resolver de chofre a situação, com uma palavra só...
Todos os annos Francisco Theodoro celebrava os anniversarios d'elle, da mulher e dos filhos com banquetes de tres e quatro mesas, vinhos a rôdo e danças até a madrugada.
Nesses dias o medico fazia apenas o seu cumprimento, offerecia-as violetas e o brinde do estylo, e retirava-se cedo para a casa silenciosa, lá para os lados do Jardim Botanico, onde ia fazer as suas leituras, commodamente reclinado na sua cadeira de balanço dentro do robe-de-chambre que lhe agazalhava o corpo magro.
Camilla conhecia as suas antipathias por essas festas e não se lamentava por isso da ausencia.
A immensa casa era então pequena para o numero de amigos. Nos jardins illuminados a balões e a copinhos, nas salas, nos corredores, nos terraços, no buffete, nos quartos, em toda a parte havia povo, rumor de vozes e cheiro abafado de plantas pisadas, flores amornadas por luzes, essencias diversas reunidas ao odor dos molhos e das carnes servidas no banquete. As camas sumiam-se ao peso de capas, mantilhas, chapéus e sobretudos. Os convidados varavam todos os aposentos, como quem anda por sua casa. Nina, as criadas e Noca atiravam para dentro de um quarto, o unico fechado, tudo o que não devia estar embaraçando o caminho: tapetes retirados á pressa para as danças; mesas de centro, almofadões do sofá, que tomavam espaço; floreiras, etc. As creanças corriam pela casa, espalhando passas e migalhas de doces; e um pianista pago dedilhava no Pleyel do salão as polkas e as valsas do seu repertorio.
A essas festas iam sempre os collegas e os conhecidos de Francisco Theodoro, o pessoal da sua casa de commercio, gente da visinhança, alguns doutores, um senador do imperio, a quem era dirigida a melhor das attenções, e amigas de Camilla, do tempo do collegio, mulheres de posição e bem apresentáveis, que só com as ricas ella topara depois, na balburdia da vida.
Nos intervallos da dança havia sempre quem tocasse difficuldades ao piano, ou cantasse algum romance italiano.
Francisco Theodoro, jubiloso e amavel, instava para que comessem, para que bebessem. Não se esquecia de ninguem, punha mancheias de balas nos regaços das creanças, ordenava que se abrisse champagne, conduzia as senhoras edosas ao buffet, recommendando á Noca que distribuisse pela criadagem vinhos e doces.
Eram festas pantagruelicas, em que o riso se communicava mais pelo barulho que pela intenção.
Camilla dançava, roçando os seus maravilhosos braços nús pelas mangas dos commendadores ou dos empregados do marido.
Á mesa os brindes succediam-se atropelladamente. Para o fim, havia sempre uma voz alta, pausada, que se erguia á victoria do trabalho honrado e puro, e essa voz lembrava os máos dias de Francisco Theodoro, a sua pobreza, a sua energia e o seu triumpho.
O dono da casa respondia com palavras tremulas e olhos humedecidos. Tilintavam as taças e a musica vibrava com força na sala. Voltavam para as danças. Como Ruth não dançasse, o pae chamava-a de—minha estudiosa—gabando-a aos convidados, que olhavam um pouco espantados para ella. Ruth esquivava-se áquella curiosidade e fugia para fora. Iam encontral-a depois no balanço, sósinha, voando á claridade das estrellas...
Só no dia seguinte ao do festim é que o Dr. Gervasio ia ao palacete Theodoro saborear o perú quebrado do almoço e os fios de ovos, na quietação cançada da familia.
Então eram por toda a parte vestigios da barafunda. Nina contava os talheres, que espalhados entre a loiçaria e os crystaes punham ondas de luz pallida na mesa do jantar; Noca varria as salas, criados lavavam os marmores da escada e do vestibulo e o jardineiro guardava os copinhos e as lanternas disseminadas pelo jardim.
Era uma d'essas festas que Francisco Theodoro desejava agora offerecer aos seus amigos. Desceu a consultar a mulher e o medico. Encontrou-os ainda no terraço, ao lado de Ruth, que as mãos da mãe prendiam nervosamente.
Milla acolheu á ideia com frieza; o marido insistiu:
—Você está molle, anda differente. Reaja, tome remedios. Que diabo! eu tenho obrigação de obsequiar os homens. Elles vêm ahi em nome da colonia. Não quero fazer figura triste.
—Alguma manifestação? perguntou Gervasio.
—Sim. Uma tolice. Ideias do Braga, do Lemos e de outros. Avisou-me hoje d'isso o Negreiros. Foram até ao ministro, e não sei mais o que! Emfim, já disse, o que eu não quero é fazer figura triste. O engraçado é que minha mulher fallava em dar um grande baile, e agora, que se apresenta a occasião, faz cara feia!
Dr. Gervasio acudiu. Achava magnifica a ideia e procuraria auxilial-a na execução. De si para si pensava que esse pretexto traria Milla ao movimento da sua vida habitual; arrancal-a-ia d'aquella obstinação de pensamento, d'aquella apathia physica que o atormentava.