A fallencia

Júlia Lopes de Almeida · Capítulo 1 de 26

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A fallencia

Capítulo I

CAPITULO XI

CAPITULO XII

CAPITULO XIII

CAPITULO XIV

CAPITULO XV

CAPITULO XVI

CAPITULO XVII

CAPITULO XVIII

CAPITULO XIX

CAPITULO XX

CAPITULO XXI

CAPITULO XXII

CAPITULO XXIII

CAPITULO XXIV

CAPITULO XXV

 

A FALLENCIA

 

I

 

O Rio de Janeiro ardia sob o sol de dezembro, que escaldava as pedras, bafejando um ar de fornalha na atmosphera. Toda a rua de S. Bento, atravancada por vehiculos pesadões e estrepitosos, cheirava á café crú. Era hora de trabalho.

Entre o fragor das ferragens sacudidas, o gyro ameaçador das rodas e os corcovos de animaes contidos por mãos brutas, o povo negrejava suando, compacto e esbaforido.

Á porta do armazem de Francisco Theodoro era nesse dia grande o movimento. Um carroceiro, em pé dentro do caminhão, onde ageitava as saccas, gritava zangado, voltando-se para o fundo negro da casa:

—Andem com isso, que ás onze horas tenho de estar nas Docas!

E os carregadores vinham, succedendo-se com uma pressa phantastica, atirar as saccas para o fundo do caminhão, levantando no baque nuvens de pó que os envolvia. Uns eram brancos, de peitos cabelludos mal cobertos pela camisa de meia enrugada, de algodão sujo; outros negros, nús da cintura para cima, reluzentes de suor, com olhos esbugalhados.

Ao cheiro do café misturava-se o do suor d'aquelles corpos agitados, cujo sangue se via palpitar nas veias entumescidas do pescoço e dos braços.

No desespero da pressa, o carroceiro soltava imprecações, aos berros, furioso contra os outros carroceiros, que passavam raspando-lhe a caixa do caminhão, todo derreado para a aniagem das saccas, respirando a poeirada que se levantava d'ellas. Os outros respondiam com eguaes improperios, que os cocheiros dos tilburys, em esperas forçadas, ouviam rindo, mastigando o cigarro.

Os carregadores serpeavam por meio de tudo aquillo, como formigas em correição, com a cabeça vergada ao peso da sacca, roçando o corpo latejante nas ancas lustrosas dos burros.

Transeuntes recolhiam-se apressados, de vez em quando, para dentro de uma ou outra porta aberta, no pavor de serem esmagados pelas rodas que invadiam as calçadas, resvalando depois com estrondo para os parallelepipedos da rua.

Aqui, alli e acolá, pretinhas velhas, com um lenço branco amarrado em fórma de touca sobre a carapinha, varriam lepidas com uma vassoura de piassava os grãos de café espalhados no chão. Com o mesmo açodamento peneiravam-n'os logo em uma bacia pequena, de folha, com o fundo crivado a prego. Era o seu negocio, que aquelles dias de abundancia tornavam prospero. Enriqueciam-se com os sobejos.

Assim, em toda a rua só se viam braços a gesticular, pernas a moverem-se, vozes a confundirem-se, chocando nas pragas, rindo com o mesmo triumpho, gemendo com o mesmo esforço, em uma orchestra barulhenta e desharmonica.

A não serem as africanas do café e uma ou outra italiana que se atrevia a sahir de alguma fabrica de saccos com duzias d'elles á cabeça, nenhuma outra mulher pisava aquellas pedras, só afeitas ao peso bruto.

Dominava alli o trabalho viril, a força physica, movida por musculos de aço e peitos decididos a ganhar duramente a vida. E esses corpos de athletas, e essas vozes que soavam alto num estridor de clarins de guerra, davam á velha rua a pulsação que o sangue vivo e moço dá a uma arteria, correndo sempre com vigor e com impeto.

Já de outras ruas descia aquella onda quente, arfante de trabalho, vinha da rua dos Benedictinos e vinha dos armazens da rua Municipal, todos atulhados de café, que esvaziavam em profusão para os trapiches e as Docas, tornando-se logo a encher famintamente.

Em uma ou outra soleira de porta trabalhadores sentavam-se descansando um momento, com os cotovellos fincados nos joelhos erguidos, salivando o sarro dos cigarros, a saborear uma fumaça, olhando com indifferença para aquella multidão que passava aos trancos e barrancos, na ancia da vida, num torvelinho de pó e gritaria.

De vez em quando, grupos de rapazinhos, na maior parte italianos, surgiam nas esquinas e percorriam todo o quarteirão, ás gargalhadas, enchendo os bolsos com o café das africanas velhas, cujos guinchos de protesto se perdiam abafadas pelo ruido complexo da rua.

Dentro dos armazens a mesma lufa-lufa.

No de Francisco Theodoro não havia paragem.

O primeiro caixeiro, seu Joaquim, um homem moreno, picado das bexigas, de olhos fundos e maçãs do rosto salientes, gesticulava em mangas de camisa, apressando os carregadores esbaforidos.

Á porta, um capataz de tropa, mulato, furava com um furador tubular de aço e latão todas as saccas que sahiam, para que se escapasse pela abertura uma mancheia de grãos. Os carregadores apenas retardavam os passos nessa operação, e o café cahia cantando na soleira.

Ao fundo, um rapazinho magro e amarello, o Ribas, apontava num caderno o numero de saccas que levavam, rente á escada de mão por onde os carregadores subiam para as tirar do alto das pilhas, correndo depois pelo asphalto desgastado e denegrido do solo.

Tudo era feito numa urgencia, obrigada a grande movimento.

Um sopro ardente de vida, uma lufada de incendio bafejada por cem homens arquejando ao mesmo tempo na febre da ambição, varava todo aquelle extenso porão negro, sem janellas, ladeado de saccos sobrepostos e adornado nas vigas sujas do tecto por infinita quantidade de teias de aranha, enredadas, como longas sanefas viscosas de crépe russo.

De vez em quando, um ruido de cascata rolava pelo interior do armazem. Era o café, que ensaccavam na área do fundo, e que na quéda das pás desprendia um pó subtil e um cheiro violento.

Fóra, chicotadas cortavam o ar com estalidos, e pragas rompiam alto, no som confuso, em que vozes humanas e rodas de vehiculos se amalgamavam com o estrupido das patas dos animaes.

Alguns carregadores exhaustos paravam um pouco, limpando o suor, mas corriam logo, chamados pelos olhos de seu Joaquim, que ia e vinha, muito trefego, sungando as calças que lhe escorregavam pelos quadris magros.

—Aviem-se! aviem-se! temos hoje muito que fazer!

Era o seu estribilho.

E havia sempre muito que fazer naquella casa, uma das mais graúdas no commercio de café. Dir-se-ia que o dinheiro aprendera sózinho o caminho dos seus cofres, correndo para elles sem interrupção.

Ao lado do armazem e communicando com elle por uma portinha estreita, havia á esquerda o corredor e a escada, que levava ao escriptorio, acima, no primeiro andar.

Em uma sala ampla, quadrada, de madeiras velhas e papel barato, o Senra, guarda-livros, escrevia em pé, junto á escrivaninha collocada ao centro. Em outra carteira trabalhavam os dois ajudantes, um velho, o Motta, de sorriso amavel e modos submissos; e o outro, um moço bilioso de barbinhas pretas, mal plantadas em um queixo quadrado.

Nessa sala o trabalho era silencioso. As pennas não paravam, mal dando tempo ás mãos para folhearem os livros e as diversas papeladas. Diziam-se phrases sem se levantar os olhos da escripta, e as perguntas eram apenas respondidas por monosyllabos.

A um canto, sobre uma mesinha solida, entre uma das janellas e a parede, estava a prensa de copiar; e no outro canto, em um alto banco de madeira pintada, a talha de philtro já ennegrecida pelo uso. Pelas paredes, pastas de molas, rotuladas, em filas, prenhes de contas, recibos e cartas a responder. Ao fundo, entre a talha e o corredor da entrada, abria-se uma janella para o negrume do armazem, sob uma claraboia estreita, de pouca luz.

Era em um gabinete, ao lado, com uma janella para a rua e egual avareza de mobilia, que o dono da casa escrevia a sua correspondencia, bem repousado em uma larga cadeira de braços.

Elle alli estava, acabando de fechar uma carta.

Toda a sua pessoa reçumava fartura e a altivez de quem sae victorioso de teimosa lucta. Gordo, calvo, de barba grisalha rente ao rosto claro, com os olhos garços tranquillos e os dentes brancos e pequeninos, tinha um bello ar de burguez satisfeito.

Não era alto e quando andava fazia tremer a casa, tal a firmeza dos seus passos pesados.

Um ou outro empregado vinha de vez em quando fazer-lhe uma pergunta, a que elle respondia com paciencia, indicando claramente as cousas, com minucias, para evitar confusões.

Francisco Theodoro, á sua larga secretária de peroba, dava a face para o cofre de ferro, de trincos e fechaduras abertas.

Tinha elle por habito, tornado já em cacoete, remexer com a mão curta e gorda o dinheiro e as chaves guardados no bolso direito das calças. No começo da sua vida, dura de trabalho e de aspera economia, aquillo seria feito com intenção; agora representava um acto machinal, alheio a qualquer pensamento de avareza ou de orgulho de posse.

Depois de muitas horas de trabalho febril, sem repouso, vinha o momento de paragem, a hora do café, que um mulato moço, o Isidoro, levava primeiro ao escriptorio, servindo depois os empregados do armazem.

Os degráos já gastos da escada rangiam então ao peso de um commissario visinho, o João Ramos, e do ensaccador Lemos, da rua dos Benedictinos, do Negreiros, da rua das Violas, e do Innocencio Braga, recentemente associado ao grupo. Ás duas horas reuniam-se sempre alli para o cafézinho, descançando o corpo e desannuviando o espirito com palestras de seu interesse e do seu gosto.

Nesse dia tinham soado já as duas, quando os negociantes appareceram.

Francisco Theodoro levantou-se e bateu com os pés, desenrugando as calças.

—Homem! vocês tardaram...

—Culpa do Lemos...

E depois:

—O senhor está com a casa repleta!

—Tenho exportado muito café!

—Felizardo! aproveite a epocha, que não póde ser melhor!

Corria então o anno de 1891 em que o preço do café assumira proporções extraordinarias. O movimento crescia e casas pequenas galgavam aos saltos grandes posições.

—O que eu te invejo, disse o Ramos, unico que ousava tratar Theodoro por tu, não é a fortuna, é a mulata que te engomma as camisas!

Os outros olharam rindo para o alvo e lustroso peitilho do dono da casa, que saboreava o café, com ar satisfeito, de pé, com o pires muito afastado do corpo, seguro na ponta dos dedos.

—Não é má essa, regougou o Lemos, o commendador Lemos, da Beneficencia, franzindo o narizinho, submerso entre duas bochechas, que nem de creança.

Depois de um riso fraco e desafinado, ouviu-se a vozinha aflautada do Innocencio, perguntando a Theodoro:

—Aqui o seu visinho Gama Torres é que fez um casão de um dia para o outro, hein?

—Homem, sempre é verdade aquillo?!

—Se é!... tenho provas... Afinal, eu inspirei-o um pouco no negocio...

Fixaram todos a vista no Innocencio Braga. Era um homem pequenino, magro, com uns olhinhos negros, febris e um fino bigode castanho, quasi imperceptivel.

—Custa-me a crêr nesses milagres ... ponderou Theodoro, pousando a chicara na bandeja que o Isidoro offerecia.

—Affirmo; questão de arrojo. Presumiu alta, abarrotou o armazem e esperou a occasião. O sogro ajudou-o, está claro...

—Não meditou nas consequencias que poderiam sobrevir se se désse uma baixa.

—Quem falla em baixa?! Eu só lhe digo que o commercio do Rio de Janeiro seria o melhor do mundo se tivesse muitos homens como aquelle. Senhores, a audacia ajuda a fortuna. Fiquem certos que o bom negociante não é o que trabalha como um negro, e segue a rotina dos seus antepassados analphabetos. O negociante moderno age mais com o espirito do que com os braços e alarga os seus horizontes pelas conquistas nobres do pensamento e do calculo. O Torres é de bom estofo; é d'estes. Conheço os homens.

Olhavam todos para o Innocencio com um certo respeito, reconhecendo-lhe superioridade intellectual.

—O Gama Torres teve dedo, teve; sentenciou o Lemos.

E logo o Innocencio accrescentou:

—Tambem aquelle está destinado a ser o nosso Rottschild!

Theodoro contrahiu as sobrancelhas. Ser o primeiro negociante, o mais habil, o mais forte fôra sempre o seu sonho...

Voltando-se, inquiriu dos outros explicações meudas acerca d'aquelle negocio fabuloso. O tempo favorecia as especulações, e elle meditava no assumpto, alisando a barba grisalha, rente ás faces gordas e macias.

O Negreiros, tendo dado volta á sala e enfiado pela porta do escriptorio o seu enorme nariz de cavallete, virou-se para os outros e disse a meia voz:

—Que diabo! não posso acostumar-me a vêr aquelle velho como ajudante de guarda-livros!

—Que quer você? murmurou Theodoro; o Mattos empenhou-se por elle e afinal a acquisição foi boa. Precisa mais do que os moços, e como dá boa conta do recado não penso em substituil-o. É assiduo.

—Outro exquisitão que você tem cá em casa é lá embaixo o Joaquim ... ninguem dirá que é o mesmo, lá fóra...

—Muito carnavalesco e mettido com as damas, hein? Que se divirta, aqui trabalha como nenhum. É uma praça de arromba: descança-me.

—Ouvi dizer que elle vae casar com a Delphina do Recreio...

—Historias! o rapaz é serio.

—Tolo é que elle não é, resmungou o Negreiros, procurando o chapéo.

O Innocencio despediu-se tambem; ia num pulo ao Torres. Os affazeres eram tantos, que mal lhe davam tempo para engolir o café.

Quando elle sahiu, olharam uns para os outros interrogativamente. O commendador Lemos sentenciou:

—Este Innocencio é espertalhão! Está aqui, está director do banco. Não duvido que o Torres tivesse sido empurrado por elle... Tem uma labia!

—E sabe encostar-se a boas arvores. O Barros tem-lhe dado boas commissões e não é á toa que elle procura tanto agora o Torres... Mette-se sempre na melhor roda... Aquelle não veio de Portugal como nós, sem bagagem e cheirando a páo de pinheiro; trouxe luvas e meias de seda... O patife!

—São os que naufragam...

—Quando não vêm á caça e não têm o geitinho que este revela... Canta que nem um passaro, para attrahir a gente!

—É uma intelligencia superior! suspirou o Ramos, esticando com ambas as mãos o collete sobre a barriga arredondada. Depois, refestelando-se no sofázinho austriaco, teve uma ponta de censura para as cousas d'esta terra: o governo era fraco, o povo indisciplinado, a cidade infecta.

Inda nessa manhã, vendo marchar um pelotão de soldados, sem cadencia nem rhythmo, lembrara-se da maneira por que os soldados da sua patria andavam pelas ruas. As fardas eram mais bonitas, os metaes mais polidos, os passos eguaezinhos, um, dois, um dois; fazia gosto. E assim, em tudo mais aqui, o mesmo relaxamento.

A maldita Republica acabaria de escangalhar o resto. Veriam.

Só no fim perguntaram pelas familias.

—A proposito, perguntou o Ramos a Theodoro, aquella menina que vae tocar violino no concerto dos pobres é sua filha?

—Que concerto?

—De amanhã, no Cassino. Foi a minha madama que leu isso num jornal...

—Póde ser... são cousas lá da mãe ... a pequena tem um talentão; o proprio mestre espanta-se.

—E bonita! vi-a um d'estes dias, observou o Lemos.

—Não, isso não! por emquanto ainda não se póde comparar com a mãe ... protestou Francisco Theodoro, com sinceridade e um certo orgulho.

Os outros sorriram.

—Lá isso, você tem um pancadão. Feliz em tudo, este diabo!

Houve uma pausa.

—Realmente, insistiu Francisco Theodoro, o Gama Torres deu um cheque valente. Pois olhem, eu não dava nada por elle: um brasileirito magro...

—E começou outro dia!

—De mais a mais, parecia acanhado ... timido...

—Qual! isso não! Conheci-o caixeiro, alli do Leite Bastos. Foi sempre um atirado; ahi está a prova: fez um casão de um dia para o outro. Dou razão ao Innocencio; aquelle está talhado para ser o nosso Rottschild...

—Vejam lá, rosnou o Lemos com a papada tremula e um brilho de cobiça nos olhinhos pardos, eu quiz fazer o mesmo negocio e lá o meu socio é medroso e: tá, tá, tá, é melhor esperar... Está ahi!

—Fez bem, foi prudente! Deixem lá fallar o Innocencio. Senhores, o commercio do Rio de Janeiro é honesto e não se tem dado mal com o seu systema, observou Theodoro.

—Sim, o Innocencio aprecia isto de fóra, por isso diz o contrario. Chama o commercio do Rio de Janeiro de ignorante e de porco.

—Porco?! bradaram os outros, indignados.

—Porco, confirmou o Ramos com solemnidade.

—Tudo mais acceito, o porco é que não engulo, observou do seu canto o Lemos, o anafado.

Ramos sentiu saltar-lhe na lingua esta resposta: «porque os animaes da mesma especie não se devoram entre si»; mas por consideração ao amigo calou-se. Elle confessava-se seduzido pelas exposições do Innocencio. Que talento!

—Mas, afinal de contas, que quer o Innocencio?! perguntou Theodoro de pé, cruzando os braços sobre o fustão alvo do collete.

—Queria ... pensava encontrar aqui uma praça mais desenvolvida, maiores transacções, casas de mais vulto. Diz que não temos sabido aproveitar as aragens. Que só trabalhamos com o corpo. Não o ouviu?

—Com que diabo quereria elle que trabalhassemos?

—Com a intelligencia. Está claro. E elle explicou a cousa bem. O nosso commercio é formado por gente sem escola, vinda de arraiaes... Eu por mim, confesso, mal tive uns mezes magros de collegio! Apanhei muito e não aprendi nada.

Houve um curto silencio, em que passou pelos olhos de todos a saudosa visão de uma escola rudimentar, em um recanto placido de aldeia.

Depois de um suspiro, Theodoro concluiu:

—Que venham para cá os doutores com theorias e modernismos, e veremos o tombo que isto leva!

Entreolharam-se. A verdade é que tinham todos elles um soberano desprezo pelas classes intellectuaes. D'ahi um sorrisinho de expressiva intenção.

Mais um pouco de palestra sobre cambio, transacções da bolsa e assumptos lidos no Jornal do Commercio do dia encheram um quarto de hora, que passou depressa. Por fim sahiram, fallando alto, dizendo que aquella casa cheirava a dinheiro.

Francisco Theodoro foi dar o seu gyro pelo armazem. Vendo-o em baixo, Joaquim acudiu logo, limpando com a lingua o bigode molhado de café, a dar informações.

—Estamos esperando o café do Simas.

O caminhão já está ahi perto, mas ficou entalado entre os carroções do Gama Torres. Tem sido um despropósito o café que aquelle armazem tem engulido.

—Já sei d'isso ... bem. Mandou as contas para cima?

O outro disfarçou um movimento de enfado e mal respondeu:— sim, senhor; depois gritou para o fundo:

—Seu Ribas!

O Ribas cruzou-se com Francisco Theodoro, que seguiu até á área, a ver ensaccar o café.

A gente do armazem tinha quisilia á do escriptorio: fazia valer os seus serviços, deprimindo os alheios. Seu Joaquim considerava-se o melhor empregado da casa e gostava de mostrar as suas exigencias. Os caixeiros temiam-n'o; mas o pessoal de cima tratava-o com certa sobranceria, que elle não perdoava.

O velho Motta, ajudante de guarda-livros, ainda era o unico que lhe dispensava amabilidades e cortezias; mas, mesmo nisso, seu Joaquim lia uma adulação. Com certeza o velho só pensava em impingir-lhe a filha, que mirrava os seus trinta annos em um sobradinho da rua Funda.

Francisco Theodoro demorou-se um bocado na area vendo ensaccar. Passou-lhe pela lembrança o tempo dos escravos, quando esse trabalho era exclusivamente feito pelos negros de nação, com a sua cantilena triste, de africanos. Era mais bonito.

As pás iam e vinham cantando, num compasso bem rythmado, sempre seguido da voz: eh, eh! eh, eh! E agora mal se via um preto nesse serviço! E ainda acham que as cousas se alteram de vagar!

Rolavam pelo chão grãos de café, como contas de cimento, e na atmosphera carregada mal se podia respirar. Francisco Theodoro voltou. O caminhão estava já á porta e os carregadores andavam nas suas corridas afanosas. Ia subir, quando foi abordado por um dono de trapiche, o Neves, que, vendo-o da rua, entrou para lhe pedir a freguezia, accrescentando para o estimular:

—Agora mesmo venho alli do seu visinho, o Gama Torres, que me tem mandado lá para o trapiche um numero assombroso de saccas!

O movimento do armazem interrompia-os de instante a instante. Francisco Theodoro, mal respondia, com as idéas desviadas para outro sentido.

Pensava no Gama Torres, de quem toda a gente lhe fallava com elogio e pasmo. Aquelle está destinado a ser o primeiro homem da praça, dissera-lhe o Innocencio, e o Innocencio era homem de bom faro e de exito seguro em todas as suas previsões... Mas esse papel, de financeiro e negociante forte entre os mais fortes, fôra o ideal de toda a sua longa vida de trabalhos, de sujeições e de amarguras! Seria justo que o outro, de um pulo, erigisse edificio mais alto e glorioso do que o seu, cimentado com lagrimas, com sacrificios, com tantos annos de esforço e de labor?

Francisco Theodoro despediu-se do Neves sem o animar, apertando-lhe a mão frouxamente, e subiu para o escriptorio. Na escada encontrou o mulato, o Isidoro, com uma vassoura na mão.

—Cuidado!... não me tirem as teias de aranha do armazem...

—Não, senhor! Eu bem sei que aquillo dá felicidade...

Francisco Theodoro deteve-se um momento no escriptorio e entrou depois para o seu gabinete.

Fóra, o sol avermelhava as fachadas feias e deseguaes das casas fronteiras. Velhas paredes repintadas, outras com falhas de caliça, guardavam os seus segredos e as suas fortunas. Um halito ardente de verão bafejava toda a rua febril.