A fallencia

Júlia Lopes de Almeida · Capítulo 9 de 26

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A fallencia

Capítulo IX

Pela primeira vez o viram interessado por uma festa. Francisco Theodoro pediu-lhe que a dirigisse. D'esse dia em deante o medico punha e dispunha do palacete, como senhor absoluto. Determinava como as coisas se fizessem. A ceia seria no terraço, ao fundo, sob una toldo de seda, entre bosquetes de avencas e camelias brancas; desenhava ornamentos, encommendava flores, substituia estofos, harmonisava cores, dava estylo e graça ao que só tinha peso e luxo; idealisava a matéria, arrancava uma alma delicada áquellas salas carregadas e mudas.

Milla assistia a tudo silenciosa, abatida pelas suas suspeitas; mas, pouco a pouco, Gervasio convencia-a de que a sua ciumada era uma doidice. Não tivera elle tambem ciumes do capitão Rino? E ahi estava: já nem pensava nisso!

Como o coração de Milla não comportasse rigores, affeito á felicidade, ella foi esquecendo.

 

IX

 

Uma tarde, Mario entrava na sala de jantar, quando viu o Dr. Gervasio á mesa; então tornou a sahir, sem dizer uma palavra.

Milla sentiu o coração parar-lhe no peito. Theodoro não ligou importancia ao caso; para elle o filho voltara a buscar algum objecto esquecido, e, tão enthusiasmado estava a fallar em negocios, que só para a sobremesa disse espantado:

—É verdade, e o Mario? então o Mario não voltou?

Nina murmurou, desculpando-o:

—Acho que está incommodado...

—Vou ver isso.

Theodoro levantou-se.

Calaram-se todos, como se o mesmo fio de desconfiança os ligasse entre si. Camilla tremeu. Que diria o filho? como o ouviria o pae? No seu amor, de tamanhos supplicios, nenhum egualara nunca ao d'esse instante.

Tinha chegado a hora do marido saber tudo, e pelo Mario!

Dr. Gervasio comprehendeu-a e tentava socegal-a de longe, com um olhar firme, de confiança, certo de que nada vale antecipar tristezas, que nem por isso as coisas deixam de vir, pelos seus pés ou pelas suas azas, quando têm de vir. Mas tudo o fazia esperar que não viesse a que ella temia...

E para afastar preoccupações, fallou de alegrias: annunciavam-se festas; abria-se uma exposição de pintura, excellente; e commentavam-se os brios de um tenor novo para o Lyrico...

Elle sentia que a sua voz soava falso; ninguem o ouvia, nem elle mesmo, que apezar da calma apparente dizia aquellas palavras pensando em escutar outras, que viessem de fóra, como raios, fulminando tudo.

Milla encostou-se ao espaldar da cadeira, muito pallida, com uma expressão interrogativa no olhar assombrado. Dr. Gervasio fallava, fallava...

Entretanto, Theodoro rompeu pelo quarto do filho.

—Então, seu Mario? isso faz-se! Entra-se em uma sala para jantar é volta-se para traz sem satisfações, de mais a mais deante de visitas?!

—Visitas?... que visitas? o Dr. Gervasio?... Esse é de casa.

—Não é; mas que fosse; se não me consideras nem a tua mãe, devias ao menos respeitar o hospede.

—Mas se é o hospede que eu detesto! não posso vêr aquelle homem, papae, não posso vêr aquelle homem!

—Tu estás doido! porque?!

Mario calou-se, de repente, arrependido, de olhar esgazeado. O pãe insistia, furioso:

—Essas coisas não se dizem á tôa; responde: porque lhe tens essa raiva?

—Não sei ... desde creança que antipathiso com elle ... por instincto... Aborreço aquelle rosto pallido ... aquelle corpo esguio ... aquella voz desegual, aquelle sorrizinho de mófa, embirro com as suas mãos de mulher, com os seus ditos de pedante, com a sua assiduidade, com os seus sapatos, com a côr das suas roupas, com os vidros das suas lunetas, com as suas essencias, com elle e com tudo que é d'elle. Não me pergunte mais; não posso dizer mais nada; talvez lhe pareça pouco. É muito. Por hoje desculpe-me. Estou doente.

—Se estás doente, trata-te; só mesmo um delirio de febre explica o que disseste. Fica bom, que temos de ajustar contas! E que o caso não se repita, ouviste? que não se repita!... senão ... olha que eu não sou bom!

Francisco Theodoro sahiu ameaçador, mas foi dizer ao medico que effectivamente o Mario estava indisposto...

Nessa noite, como nas outras, o moço foi para a rua sem um— até logo!

Era preciso ir buscar a felicidade onde a encontrasse; a casa aborrecia-o.

A familia andava a passear pela chacara, na doce pasmaceira costumada, vendo regar as plantas e nascer as estrellas. Fazia um calor barbaro. Ruth voava agarrada ás cordas do balanço, cantando alto, e atirando flores de cajazeiro á mãe, cada vez que ella lhe passava por perto.

Camilla recebia-as com ambas as mãos e sorvia-lhes o aroma acido e leve, numa deliciosa sensação, afagada pela homenagem.

—Cuidado, minha filha!

—Ahi vae um beijo, mamãe!

O beijo voava com as flores, que se prendiam aos cabellos de Milla. E o passeio continuava, arrastado e feliz.

—Um dia esta menina leva um tombo!... Mas eu sei o que faço. Amanhã cedo mando cortar as cordas do balanço. Mais vale prevenir!

—Não, Theodoro, não! É o divertimento d'ella; e é tão innocente!

—Lá vens tu...

Ruth não os ouvia, voava no ar como uma pluma, cerrando os olhos á claridade que se diffundia nas côres gloriosas de um crepusculo ardente. De vez em quando, num impulso mais forte a sua cabeça roçava na rama florida do cajazeiro, e o sussurro das folhas tinha para os seus ouvidos um rumor divino e rythmado, de musica impeccavel. Toda a sua força se concentrava nas mãos, que a aspereza das cordas magoava, unica parte então sensivel do seu corpo, que ia e vinha na luz cambiante da tarde, como uma sombra movediça e impalpavel.

Na vertigem do vôo, ella não via, em cima e em roda, senão claridades estonteadoras, onde anjos azues abriam azas esgarçadas de nuvens fugidias, por entre barras de ouro e ennoveladas fogueiras rubras. Em baixo, na terra côr de ambar, o velludo verde das gramas e dos arbustos distendia-se num espreguiçamento voluptuoso e macio, á espera do somno.

Ia chegando a hora da consagração purissima da natureza: a hora das estrellas. Não tardou que o alaranjado poente se concentrasse num roxo escuro, bipartido em ilhotas negras, sobre um mar de prata. De repente, a penumbra.

O calor augmentava; houve roncar de trovoada ao longe.

—Quer Deus Nosso Senhor que eu me vá embora, disse o medico.

—Sim, é prudente, nós vamos ter chuva ... respondeu Theodoro, consultando o céu. E chuva de arrazar!

Camilla ordenou a Ruth que descesse e fosse dentro buscar o chapéu do medico. Despediram-se.

Quando Theodoro entrou em casa, perguntou á Noca:

—Seu Mario?

—Seu Mario sahiu...

—Hum ... eu já esperava isso mesmo... Mas elle paga...

Camilla e Nina entreolharam-se com ligeiro susto, seguiram caladas para a saleta, onde costumavam passar o serão. Mal se sentaram, Milla impacientou-se. Formigas de azas voltejavam em nuvem ao redor da luz, e perseguiam-n'a a ella tambem, batendo-lhe no rosto e entrando-lhe pela golla do vestido.

—Tudo se junta, quando a gente está aborrecida! disse ella zangada.

Nina sacudiu as formigas com o lenço.

Pelas dez horas, Francisco Theodoro chamou de novo a mulata.

—Seu Mario?

—Elle ainda não voltou...

—Está direito. Você vá lá embaixo botar a tranca na porta. Quando elle vier, mesmo que bata, não abra. Percebeu?

—Percebi, sim, senhor.

—Agora chame o Dionysio.

E ao Dionysio, como a todos os criados, foi dada a mesma ordem.

Milla levantara os olhos do livro que estava lendo. Nina picava os dedos com a agulha, mal acertando com a costura.

Theodoro voltou-se para ellas:

—Nos tempos antigos não havia chaves de trinco. Os filhos deitavam-se á mesma hora que os paes...

—Sahiam pelas janellas ... murmurou Camilla.

—Pois sim!

—E se chover? A noite está tão feia...

—Que volte para traz. Não vem a pé.

—Mas como despede o tilbury ao portão, terá de voltar a pé, e debaixo d'agua...

—Pois que apanhe chuva, se chover, exclamou Theodoro fóra de si; ou raios, se cahirem raios. Senhora, isto então é vida?!

—É a mocidade...

—Já me tardava. Muito obrigado! Eu pude passar a minha dobrado em dois ao peso do trabalho, e o senhor meu filho só sabe gastar o que ajuntei com o suor do meu rosto!

—Elle não tem a mesma saúde; Mario é fraco.

—Mais uma razão.

—Qual razão!

—Basta; resolvi, acabou-se. D'aqui em deante, ou o rapaz me entra em casa a horas convenientes ou...

—Ou?...

—Ou que vá dormir para o diabo!

Camilla olhou com desprezo para o marido, ennojada d'aquella furia. Quiz replicar, mas veiu-lhe de repente um grande medo de que Francisco Theodoro a fizesse de novo intermediaria das suas ameaças, e fugiu da sala para não responder, batendo com a porta, num desespero.

—É por estas e por outras que o Mario está assim ... resmungou o negociante, percorrendo a sala com as mãos nos bolsos, a tilintar as chaves.

Fóra, a noite estava negra, abafadissima. Vinha da terra e dos vegetaes um cheiro intenso, morrinha de febre, que engrossava a atmosphera, corporisava-a, tornando-a irrespiravel.

Ainda não eram onze horas e já se recolhiam todos para os quartos, amodorrados, bambos.

Pouco depois levantou-se a primeira lufada, que veio roncando de longe, soturnamente.

Fecharam-se as janellas; a tempestade ahi estava. Quando rezava para dormir, Noca teve um estremecimento: uma coruja passou cantando rente ao beiral do telhado.

A mulata persignou-se duas vezes e ficou á escuta.

O que passou depois, foi o vento.

Ella deitou-se com um suspiro.

Quem não se deitou foi a Nina. Sózinha, no seu quarto estreito, abriu a janella e debruçou-se para o jardim, sondando a rua, através do arvoredo.

Os lampeões de gaz mal alumiavam as calçadas solitarias, envolvidos pelas nuvens de poeira, que vinham de longe, varridas pela ventania, lambendo tudo. De vez em quando, um bond passava, de oleados corridos, com tilintar de campainhas que vibravam timidamente no vozear medonho da noite.

Nina voltou para dentro, desabotoou o corpinho e atirou-o para uma cadeira; sentia-se oppressa. O tufão descançava: ella voltou á janella, curiosa, com anciedade, cosendo o peito nú ao peitoril largo. Não viu nada. A voz arrastada de um bebedo guinchava na esquina, em falsete, acompanhada por outra voz, que fallava na mesma toada. Uma nova lufada veiu forte, terrivel, abalando tudo.

A unica janella illuminada da visinhança fechou-se.

O bebedo foi arrastado para longe, perderam-se os seus queixumes á distancia, e só ficou o vento, cada vez mais forte, uivando, uivando.

Agora não parava; enchia tudo com o seu sopro formidavel.

Sentia-se o estalar crepitante das folhas estorricadas pelo sol e o aroma das verdes, que elle ia levando pelo ar em revoada louca. Na inutil resistencia da lucta, as arvores contorciam-se, estalavam; cahiam arbustos arrancados pelas raizes, e fructas verdes despenhavam-se sobre as telhas, com estrondo.

Nina expunha a cabeça núa ao açoite da tormenta, ennervada pela fixidez da sua ideia. Entretanto, sabia, o Mario não merecia aquillo, não a amaria nunca.

Havia uns quinze annos já que ella morava naquella casa, levada pelo pae, o Joca; era então muito enfezada, apezar dos seus dez annos. Entrara para alli como poderia ter entrado para um asylo qualquer: para ter cama e pão. Não ignorava isso, lembrava-se de tudo. Era obrigada mesmo a meditar no passado mais do que queria. Não conhecêra a mãe, e em frente á mudez da tréva pensava nella, como se a tivera visto. Não comprehendia por que rejeitavam o seu coração amoroso. Nem mãe na infancia, nem noivo na mocidade. Que triumpho!

Sabia pelos outros que a mãe fôra uma mulher da má vida e baixa classe; mais nada; e não era pouco.

Criara-a desde o primeiro anno a avó paterna, D. Emilia, sem muitos agasalhos, porque o dinheiro era escasso e a paciencia já não era nenhuma. Por causa d'isso aprendera depressa todos os serviços caseiros, era a copeira da familia, e aos nove annos já não se atrapalhava quando tinha de pôr uma panella de arroz ou de feijão no fogo. Lá teria ficado sempre em Sergipe, se o Joca não se tivesse casado com uma viuva carregada de filhos e que não podia vêr a enteada deante de si... Sempre as antipathias! Não era para tornar má uma creatura? Lembrava-se que não fôra tambem acolhida com enthusiasmo na casa de Francisco Theodoro.

Ao principio, amedontrada, Nina procurara a companhia dos criados, de preferencia á da familia, habituada aos serviços grosseiros e ás palavras brutas, com o seu ar de cãozinho batido. Toda a gente tomava isso como o mais claro indicio dos instinctos baixos; aquillo era o traço da lama que ella trazia da mãe e que arrastaria pela vida fóra.

Habilidosamente, Noca aproveitou-a para entreter Ruth, que dava então os seus primeiros passos. E nesse mister, a menina revelou a doçura do seu caracter e o engenho do seu espirito. Ruth em poucos dias preferia-a aos outros, atirando-lhe ao pescoço magrinho e pallido os seus dois bracinhos redondos. Aquella conquista foi uma gloria para Nina. O amor de alguem nascia para ella, como a luz para um cégo, e sentia nos beijos côr de rosa da creança gorda e bem tratada o aroma da vida, que até então ella só parecia ter espreitado de longe.

Mario era nesse tempo um rapazinho de cinco annos, alto e forte para a edade, muito lindo, arrojado e pouco amavel para ella. Abusando da sua força e da sua posição de preferido, trazia-a fascinada, prompta a ceder ás suas vontades absurdas.

De todas as pessoas, uma das mais indignadas contra a adopção da Nina em casa de Theodoro fora D. Joanna, para quem a menina cheirava a peccado e era uma blasphemia viva aos preceitos da moral religiosa. Para essa classe ha os asylos, affirmava ella; as plantas damninhas não são para os canteiros de violetas. A caridade faz hospicios, orphanatos, rodas, onde se apuram e aperfeiçoam os filhos da impureza e da vergonha; mas agazalhar no seio honesto um animal desconhecido, era exporem-se a um veneno de effeitos imprevistos.

Milla não repellia a ideia, cheia de indignação pela origem da sobrinha; entretanto, a coitada ia pouco a pouco conquistando as boas graças de todos, de vagar, pela sua docilidade e o seu prestimo.

Apezar de miuda e de pallida, ninguem a via doente; tinha os musculos flexiveis, como o genio. Aos doze annos conservava o seu ar estupido e humilde; não conhecia uma lettra; mas ensinava as criadas novas a varrerem a casa e a pôrem a mesa com perfeição. Como o Mario lhe batesse um dia com os arreios do seu cavallo de páo, Francisco Theodoro resolveu pôl-a em um collegio, de pensionista, recommendando uma instrucção pratica, nada ornamental. Bem orientado andou.

O collegio fôra o seu melhor tempo. Do pae não sabia senão de longe em longe, quando elle participava á irmã o nascimento de mais um filho, com umas lembranças murchas, para ella, no fim da carta.

Ao principio, a idéia d'aquelle irmão, que não veria talvez nunca, sensibilisava-a; depois deixou de pensar nisso... Para que?

Foi só depois de mulher que Nina começou a amar a mãe; amor ignorado por todos e que ella cultivava como um segredo caro. Sondae bem o coração mais puro, que lá no fundo achareis um mysterio, alguma coisa que existe e que se nega, ou porque faça corar ou porque faça soffrer.

Nina tinha vexame de perguntar pela mãe e ardia em desejos de saber d'ella. Onde estaria essa mulher repudiada?

Ninguem lh'o dizia; assim, ora a imaginava na sepultura, e era a idéia mais consoladora, ora regenerada, mas sozinha ... ora em um d'esses recantos negros da cidade, já velha e ainda atolada no vicio, batida, escarnecida, miseravel.

No meio da treva, que ella interrogava com ancia, pareceu-lhe sentir a alma impenetravel da mãe solicitando-a no agoniado suspiro do vento; então extendeu os braços, soluçando, no desejo da Morte, para o encontro definitivo das duas almas e a fusão de um beijo eterno, que redimisse uma e désse á outra a sua primeira alegria.

Reboaram os primeiros trovões, com enorme estampido; um zig-zag de ouro cortou o espaço negro, e á luz branca de um relampago a casaria muda bailou macabramente com o arvoredo escuro.

A convulsão passou, para voltar depressa; na phosphorescencia mobil e offuscante da luz, todas as coisas tomavam proporções extraordinarias, mas logo, nos intervallos, a treva da noite mais se condensava.

Applacou-se o vento, e então, só de um jacto, a chuva cahiu, pesada, brutal, ensurdecedora.

A agua borrifava a janella. Nina procurou um chale, envolveu-se e voltou. Era tempo: através das torrentes da chuva, viu tremeluzir indistincta no véo fosco das aguas, a lanterninha de um tilbury.

Debruçada, alongando a cabeça, a moça gritou:

—Mario! Mario!

Mas a sua voz fraca perdia-se no diluvio.

O primo abria o portão; ella tentou ainda dizer-lhe que voltasse, que o pae lhe trancara a porta; mas a lanterninha do carro movia-se já na sombra, ia-se embora.

Nina voltou para dentro, accendeu a vela e esgueirou-se para o corredor.

Com o coração aos saltos, foi resvalando pela alcatifa do passadiço, com a precaução de quem vae para o crime.

Quando chegou a baixo já o Mario sacudia a fechadura com impaciencia, praguejando raivoso.

Ella tacteou os ferrolhos e recommendou:

—Espere um bocadinho, Mario!

—Que estupidez!

—Não faça barulho ... já vae! sussurrava ella sem que elle a ouvisse de fóra.

Emfim, a porta abriu-se. Mario esperava cosido ao humbral.

—Que idéia foi esta de deixarem a chave...

E elle interrompeu a phrase e a cólera, ao ver a prima alli. Por que seria ella e não qualquer criado, quem lhe ia abrir a porta?

—Foi ordem do tio Francisco. Boa noite.

Nina quiz subir logo, mas uma lufada de vento obrigou-a a proteger a chamma da vela com a mão, e com o gesto desprendeu-se-lhe uma ponta do chale que a envolvia. Na meia escuridade do vestibulo, Mario percebeu-lhe a doçura do hombro nú, pequeno, redondo, um pouco de carne virginal guardada até ahi em um recato que nem o baile afugentara nunca. E já elle não viu senão a pureza d'aquelle hombro assetinado, sahindo do meio das lãs, como um desafio aos seus sentidos, num assalto impudico e voluptuoso.

Acudiu-lhe então a ideia perversa de haver um proposito malicioso naquella historia. Não lhe affirmara Noca tantas e tantas vezes que a prima o amava?

A filha da mulher de má vida ahi estava agora, como devia ser: livre de hypocrisias. Mario extendeu-lhe os braços.

Nina comprehendeu.

Uma onda de sangue subiu-lhe ao rosto; segurou o chale com força e subiu correndo.

A vela apagou-se, os degráos da escada pareciam multiplicar-se debaixo de seus pés. No alvoroço, pisava sem cautela ora no assoalho, ora no passadiço, sentindo as faces abrasadas de vergonha, feliz no seu desespero, suppondo-se ainda perseguida pelos braços do Mario, que se quedara estupefacto no mesmo ponto.

Um trovão estalou, como se uma bomba tivesse rebentado em casa. Nina sentiu os joelhos vergarem-se-lhe, mas continuou no seu galope tonto até ao patamar. No corredor, em cima, receou ainda errar de porta.

Com as mãos extendidas apalpava a escuridão, ouvindo só o estrondo da chuva, compacta, sempre egual. Temia que o primo a perseguisse e não se atrevia a voltar a cabeça, para não esbarrar com elle, alli mesmo, juncto aos seus calcanhares.

Os pés, habituados ao caminho, levaram-na direita ao fim; uma rajada assobiando pelas frinchas de uma porta, fêl-a reconhecer o quarto, de que deixara aberta a janella, e ella entrou arrebatada, forçando a porta, que resistia. Fechou-se logo á chave, collou o ouvido á fechadura. Ninguem; suspirou de allivio, estava só. Um relampago conduziu-a á janella, de que fechou os vidros, alagando-se toda. Despiu-se á pressa, ás escuras, deixando cahir toda a roupa molhada no chão.

E foi á luz branca de um outro relampago que ella se viu toda núa, muito pallida, no grande espelho do guarda-vestidos. Escondeu o rosto de repente, como se vira um phantasma, e saltou para a cama, enfiando a camisa de dormir, num movimento de louca, com medo da noite, com medo da sua propria imagem, que se lhe afigurava impressa para todo o sempre no vidro...

Envergonhada, prevendo grandes males, em uma angustia em que se fundia um prazer, adivinhando os pensamentos do primo, maldizendo-o e adorando-o, sentindo-se d'elle para a vida e para a morte, quasi que se arrependia de se não ter abandonado, soluçando por aquelles braços de que fugira...

Era tal a sua confusão e a vibração dos seus nervos, que não sentiu alguem andar pelo corredor de vela accesa e passos compassados.

Mario adormecia feliz, na melhor paz da vida; Francisco Theodoro voltava para o somno interrompido, tendo intimamente perdoado a quem abrira a porta ao seu rapaz, por tão feia noite de trovoada,—e ainda Nina, na estreiteza da sua cama, com os olhos pasmados para o tecto negro, soffria, soffria, soffria...

No outro dia, ás oito horas da manhã, quando Francisco Theodoro entrou na sala de jantar para o almoço, comido sempre cedo e á parte da familia, já lá encontrou a sobrinha, retocando os arranjos do copeiro para a sua mesa.

—Bons dias, Nina; você passou bem a noite? perguntou-lhe elle, fixando-lhe os olhos pisados.

—Eu passo sempre bem ... respondeu ella corando.

Elle teve pena; e mais baixo, para que o criado não o ouvisse:

—Você fez mal em abrir a porta a meu filho; elle não lhe merece esses sacrificios ... e ... e mesmo isso não lhe fica bem; a sua intenção foi boa; realmente a noite estava pavorosa ... comtudo espero ser esta a ultima vez que sou desobedecido.