A fallencia
Capítulo III
Nina, encostada á grade, via Mario afastar-se; e lá em cima, no terraço, ao lado do marido adormecido, Camilla curvou-se para o Dr. Gervasio e beijou-o na bocca.
III
Com preguiça de ir visitar as velhas tias do Castello, Camilla mandava ás vezes as filhas pequenas abraçal-as em seu nome, em companhia da Noca. As senhoras Rodrigues moravam ainda na mesma casa, do alto do morro, muito antiga, com janellas de guilhotina e paredes encardidas. D. Itelvina raramente punha os pés na rua, e era tida como a creatura mais sovina do bairro. A outra, D. Joanna, pouco parava alli, sempre voltada para Deus. Era viuva de um colchoeiro rico, morto de anasarcha, de quem soffrera os máos tratos que, na inconsciencia das bebedeiras, elle lhe ministrava.
Viviam as duas, desde creanças, na mesma casa, herança dos paes, conservando os seus habitos de vida mesquinha, amando idéaes diversos: uma concentrando-se, outra expandindo-se, consistindo para uma todo o prazer da vida em aferrolhar, esconder bens que as mãos apalpam, e para a outra só em querer bens do céo, com que a alma sonha.
Nada sorria naquella habitação arida e velha. No quintal, nem um canteiro de flores; uma horta rachitica a um canto, algumas laranjeiras e um coradoiro de grama pisada e sem viço, extendendo-se ao lado de um tanque de cimento, coberto por um telheiro de zinco. Dentro, o mesmo desconforto: salas com poucos moveis e esses antiquissimos, alcovas vazias e uma cozinha de tijolos desgastados pelas pancadas do machado na lenha.
D. Itelvina percebia bem que para conservação d'aquella casa deveria fazer-lhe grandes concertos; mas queria obter da irmã que os fizesse todos por sua conta, o que lhe parecia mais justo.
A irmã é que não olhava para os buracos dos ratos e pouco lhe importava isso, desde que a sua Senhora do Carmo e o Santo Christo do seu oratorio estivessem alumiados, a sua alma em graça, e que ella pudesse fazer todas as semanas as suas confissões aos frades capuchinhos. Esta era, para tudo mais, uma senhora apathica, gorda, de uma brancura anemica, com uns olhos castanhos muito doces e um cabello grisalho, curto, que ella cobria com uma touca preta de folhos encrespados. A saia, redonda e muito franzida, mostrava-lhe os pés largos calçados em duraque, e nas mãos finas e côr de leite tinha, ora o livro de orações, de folhas já denegridas nos angulos, ora um rosario de ambar benzido pelo bispo.
D. Itelvina não parecia crente. Ninguem a vira nunca de joelhos em frente ao oratorio da irmã. Nenhum traço commum lembraria a outrem o parentesco entre ambas. Esta era alta, morena, de nariz forte e labios finos.
A voz de D. Joanna tinha inflexões brandas, de alma tranquilla; a voz de D. Itelvina tinha sibilações desafinadas, rouquejava ou tinia, como se sahisse de orgãos de bronze. Nem as duas sabiam se se amavam.
Os bons dias e as boas noites eram trocados sem o beijo que confraternisa as almas. Toleravam-se, talvez, apenas; apoiavam-se mutuamente, guiadas pelo habito.
Quando Noca bateu á porta, ouviu gritos dentro: e calculou logo que haviam de ser da Sancha, a negrinha orphã que D. Itelvina explorava nos arranjos da casa.
Abriu-se uma janella com bulha impaciente e appareceu a cara de D. Itelvina, indagando de quem batia.
—Ah!... é você, Noca! espere um pouco, eu já vou.
Dentro, a mulata explicou:
—Nhá Milla mandou fazer uma visita e saber das senhoras como estão ... ella não pôde vir, porque...
—Já sei. Isto é muito alto ... se fossem as escadas do Lyrico, muito que bem!... casa de pobres...
—Não, senhora! não é por isso, nem as senhoras são pobres! até dizem todos o contrario...
—Dizem? mentiras! mentiras só... Como vae seu Theodoro?
—Muito bem.
—Excellente homem; aquillo é que foi sorte grande, hein Noca?
—Foi, sim, senhora; elle é bom ... tem as suas impertinencias ... mas a gente já sabe que é do genio...
—Qual o quê! Milla deve adorar o marido de joelhos! Neste tempo já não é facil uma moça pobre e sem protecção encontrar um casamento assim!
—Isso é verdade... Ella tambem é muito boa.
—Você se lembra de quando elles moravam na Lapa, que até você levava ás vezes comida da casa de pasto para dar ás meninas?
A mulata sorriu com ar contrafeito e modesto, lembrando-se que não fôra só da Lapa que ella levava os restos dos jantares da casa de pasto do amigo, mas que subira muitas vezes a ladeira do Castello, com a trouxinha das carnes na mão, para matar a fome de Milla e das irmãs, então hospedadas em casa de D. Itelvina.
—De quem é que você matava a fome, Noca? perguntou uma das creanças.
—De uma viuva que já morreu, emendou Noca, impellindo as duas creanças para o quintal. Vão ver a vista ... vão ver os signaes dos vapores ... dizia ella.
D. Itelvina olhou para as duas meninas e não pôde conter-se que não exclamasse:
—Tanta gente com fome e tanto dinheiro esperdiçado em vestidos de creanças! Milla teve sempre propensão para o desperdicio... Bonitos aquelles vestidos! Onde os compraram?
—Vieram de Paris...
—Uhm ... não haviam de ser baratos ... aquillo é seda, não é?
—É, sim, senhora. D. Joanna sahiu?
—Já se sabe! anda pelas egrejas... Se não fosse eu, não sei como havia de ser!...
Noca reparou, olhando para a alcova do oratorio, aberta para a sala, que a lamparina estava apagada.
D. Itelvina continuou:
—Joanninha só vem a casa para comer e dormir. Tem quem lhe faça tudo... Ella não tem apparecido por lá?
—Não, senhora...
—Ruth porque não veio?
—Ficou dando licção. Ella tocou no concerto e foi muito festejada.
—Ha de lucrar muito com isso... Aposto em como não sabe ainda pregar um remendo ou fazer um vestido.
—Graças a Deus, ella não precisa d'isso!...
—O futuro o dirá...
—Credo!
—Pois sim. Cada vez bemdigo mais a educação que minha mãe nos deu. Havia dias, que era desde manhã até de noite a fazer balas...
—Tá hi! e D. Joanna não deu p'ra outras coisas?
—Ella sempre foi religiosa, mas depois de viuva refinou! E ainda se queixa de doente, que tem faltas de respiração e pernas inchadas!
—Coitada!
—Minha filha! ella vae d'aqui a pé a São Francisco, ao Carmo, á Penitencia, a S. Bento a qualquer egreja da cidade!... Ás cinco horas já está nos Capuchinhos; e á tarde aqui na egreja do hospital ella canta com as Irmãs e com os soldados. E cada ladainha que Deus nos acuda!
Alguem batia á porta, e D. Itelvina, tendo espreitado pela janella, voltou-se apressada e foi reaccender a lamparina do oratorio.
Sancha appareceu, com os beiços inchados pelo excesso do choro, e, despendurando a chave da porta da rua, segura pela argola a um prego na sala, olhou com ar de queixa muda para a Noca.
A negrinha não teve resposta: a outra disfarçava, contemplando as paredes núas e desbotadas da sala. Pela janella aberta via-se parte de um paredão desmoronado, e lá em baixo, em um fundo largo e fresco, um trecho de mar muito azul.
D. Joanna entrou, arfando de cançaço, e sentou-se logo na primeira cadeira, ao pé da porta. Sancha tirou-lhe a touca, guardou-lhe o livro e os rosarios, e sumiu-se, sem ter descerrado os labios nem enxugado os olhos vermelhos e inundados.
—Hoje a egreja estava repleta; fallou monsenhor Nuno ... foi um grande sermão, de muito proveito e de muita fé! disse D. Joanna, e depois de uma pausa: Ó Noca! Milla não vae nunca ás solemnidades religiosas?
—Vae todos os domingos á missa.
—Bem! que não deixe perder a sua alma! Entretanto, eu rezo por todos. A pena que eu tenho é de me custar tanto a ajoelhar ... estou com as pernas cada vez mais inchadas...
—Isso é scisma, resmungou D. Itelvina, retirando-se para o interior. Noca aconselhou logo um remedio prodigioso, benzido com cinco cruzes. Ella sabia d'essas coisas. Todos de casa a consultavam. A botica era a chacara, com as suas folhas, cultivadas umas, agrestes outras; conhecia-lhes os segredos, roubava-lhes os filtros mais subtis e applicava-os acompanhando-os com orações especiaes dos santos martyres. Era sempre a Noca quem avisava ás pessoas da familia qual o melhor dia para cortar o cabello, para fazer uma viagem ou para tomar qualquer mezinha. Sabia as voltas da lua, e traduzia os sonhos que lhe contavam, com palavras de convicção inabalaveis. Criara todos os filhos de Milla, desde o Mario até á Bijú, a pequena mais nova, já morta.
Quando ella descia o morro, as creanças queixaram-se de fome e confessaram que não queriam voltar a visitar aquellas tias, que não lhes davam nada. Nem um bocadinho de pão!
Na praça do Castello, Noca, com pena, entrou numa quitanda, posta de novo, brilhando ainda nas tijellas lavadas e no barro das panellas e das moringas á venda, e comprou fructas para as duas meninas.
Portuguezas, de saias curtas e grandes arrecadas de oiro, iam e vinham, parando umas á porta, com pimpolhos ao collo, e outras fallando alto, para dentro. A dona do negocio respondia a todos, conversando em ar de mexerico disfarçado, com a mulata, a quem via pela primeira vez.
—A senhora vem morar pr'a qui?
—Não; vim fazer uma visita.
—A quem, inda que mal pergunte?
—Ás senhoras Rodrigues; conhece?
—As duas velhotas da travessa de S. Sebastião?
—Essas mesmo.
—Não conheço outra coisa!... E depois de uma pausa, em que procurou conter-se, abalou a fallar sem interrupção. As senhoras Rodrigues eram muito conhecidas no bairro. Diziam que D. Itelvina passava horas da noite excavando o quintal, á procura dos afamados thesouros guardados pelos jesuitas. Os visinhos viam uma luz de lanterna movendo-se na sombra do pateo, rente do chão, e olhavam-na com desconfiança.
A outra era uma beata de egreja e já constava que legaria os seus haveres ao frei Angelo, dos Capuchinhos. A quitandeira affirmava que ellas haviam de passar mal da barriga: decorriam semanas sem que lhe comprassem nem um triste feixe de espinafres ou molho de cenouras!
Quando a Noca atravessava o largo, com uma creança por cada mão, para a ladeira do Seminario, sentiu que alguem, que viera correndo, lhe puxava pela saia; voltou-se e viu Sancha, com ar de medo, de quem foge.
—Uê! que é que você quer?
—Quero pedir um favor, disse a negrinha, meio engasgada, tirando do seio uma nota de quinhentos réis amarrotada e immunda.
—Que favor, gente?
—Quando voltar cá, traga isto de arsenico, disse ella apontando o dinheiro que offerecia á mulata.
—Arsenico ... p'ra que?! você tá doida?!...
—P'ra nada! faça esta esmola...
E como Noca não extendesse a mão, a negrinha atafulhou-lhe o dinheiro, rapidamente, pela golla aberta do vestido, e voltou como uma setta para casa.
As cabritas andavam soltas, pastando nas hervas altas; o sol, muito quente, alvejava roupas extendidas nas ruas, e na torre repintada dos Capuchinhos o sino badalava, convidando á oração.
Noca apressava-se, arrastando as duas meninas. Logo que chegaram a baixo, ao largo da Mãe do Bispo, viram Mario passar no seu phaeton, que elle mesmo guiava numa posição correcta. O lacaio, sem descruzar os braços, sorriu para as creanças; o moço passou sem reparar nas irmãs, que ficaram com ar despeitado, agarradas á saia da ama.
O carro de Mario rodava já pela Guarda Velha, e Noca pensou:
—Elle vae alli, vae direitinho p'ra casa da tal Luiza, o diabo da mulher que lhe come os olhos da cara. Uhm! eu gostava de ver só!
O Dionysio dizia-lhe que a franceza era bonita e muito chic, e ella sentia no fundo uma curiosidade doida de conhecer a amante d'aquelle rapaz que embalara nos braços e cujo corpo redondinho e nú suspendera tantas vezes no ar p'ra o fazer rir. E fôra uma creança alegre; agora não era; pelo menos em casa mostrava-se tão arredio e tão sério... Noca suspirou e, depois de um levantar de hombros, proseguiu nos seus pensamentos:
—Afinal de contas, faz elle muito bem: a mocidade passa e o dinheiro foi inventado para se gastar. Elle gosta d'ella, acabou-se! Sabe Deus o que o pae teria pintado tambem; agora falla e quer dar leis ao coração do filho... Está-se ninando! Aquelle! pois sim! Cada um sabe de si...
Ao mesmo tempo sentia piedade pela Nina. Em casa a unica pessoa que percebera aquelle segredo fôra ella. Sabia, mas calava-se muito bem calada; para que arranjar barulhos? Era tão boa, a pobre, tão facil de contentar... Bastava vêr os vestidos e os chapéus que ella usava: tudo restos de Milla e de Ruth, que ella fuchicava a seu geito... Nunca pedia nada, nunca se punha em evidencia, ninguem se lembrava até quando ella fazia annos! Talvez houvesse em casa um pouco de ingratidão para com a moça; mas de quem era a culpa? Mario era um rapaz rico e de bom gosto, havia de escolher mulher mais bonita, que fizesse vista numa sala.
Noca adorava o Mario; achava-o lindo, com o seu pequeno buço aloirado e os seus olhos negros e pestanudos. A flor da familia. Aquelle sahira á mãe.
Passava um electrico. As creanças sacudiram a mulata:
—Vamos, Noca!
—Vamos mesmo, que hoje de mais a mais é terça-feira...
A conselho do Dr. Gervasio Camilla, tinha marcado as terças-feiras para as suas recepções. No começo houve reluctancia em casa. Francisco Theodoro gostava de porta franca em todos os dias da semana; a mulher mesmo, criada em velhos habitos, vexava-se de marcar dia para as suas visitas. Comquanto o novo systema a constrangesse, submetteu-se, porque era da vontade do Dr. Gervasio, e para esse o portão da chacara estava sempre escancarado.
Elle não faltava, ia vêl-a todas as manhãs, almoçar no logar de Francisco Theodoro, que almoçava sosinho duas horas antes, a um canto da grande mesa vazia; e alli o medico ensinava áquella gente o meio de se conduzir na sociedade, polindo-lhe o espirito, alterando-lhe os gostos, fazendo-a preferir o queijo que elle preferia, o vinho de que mais gostava, as aves e as caças com molhos delicados, de fino paladar.
A docilidade dos ouvintes fazia-o abusar de phrases que elle formava para si, com o pretexto de as dizer aos outros, e que elles todavia acceitavam, com agrado, num sorriso...
Nessa manhã de terça-feira estavam ainda ao almoço, quando palmas gordas estrondearam no jardim.
—É o Lelio, exclamou Ruth, arrancando o guardanapo do pescoço e correndo para fóra.
Era o Lelio; viram-lhe o gordo cachaço, atravéz dos vidros da porta, quando elle passou pelo corredor.
Com o pretexto de mostrar ao medico um annel novo, Camilla extendeu-lhe a mão, luminosa de pedrarias.
Elle segurou-a, e erguendo-a um pouco, observou:
—Tal qual cinco raios de sol... Sim, senhora! é muito perfeito este brilhante ... mas este outro ainda é mais limpido...
Ella sorria, e Nina excedeu-se em tratar das creanças, com o proposito de desviar a attenção.
—Ponha este annel fóra... É indigno da sua mão.
—Brilha tanto!
—É do Cabo, muito amarello.
—Mas eu estimo-o muito. Foi o primeiro presente de meu marido.
—Vá lá, que não são mal escolhidas as suas pedras, precisa ainda de um brilhante negro, para este dedinho que está muito nú. Tenho pena que não goste de perolas; só quer pedras que fulgurem.
—Só.
—Vamos para a saleta? trouxe-lhe um livro.
—Versos?
—Não. Um romance.
—Ainda bem; eu só gosto de versos quando o senhor m'os lê. Uma monotonia...
Na saleta, ella abriu a veneziana e aspirou com força o aroma dos resedás plantados junto á parede. Gostava dos aromas fortes. Que dia maravilhoso! depois, voltando-se:
—O livro?
—Está aqui.
—Já leu?
—Já. Trata-se de um amor um pouco parecido com o nosso.
—Então não leio. Sei que está cheio de injustiças e de mentiras perversas. Os senhores romancistas não perdoam ás mulheres; fazem-nas responsaveis por tudo—como se não pagassemos caro a felicidade que fruimos! Nesses livros tenho sempre medo do fim; revolto-me contra os castigos que elles infligem ás nossas culpas, e desespero-me por não poder gritar-lhes: hypocritas! hypocritas! Leve o seu livro; não me torne a trazer d'esses romances. Basta-me o nosso, para eu ter medo do fim.
—Não tenha remorsos; o nosso não acabará!
—Remorsos ... remorsos de que? Pensa, Gervasio, que, desde o primeiro anno de casado, o meu marido não me trahiu tambem? Qual é a mulher, por mais estupida, ou mais indifferente, que não adivinhe, que não sinta o adulterio do marido no proprio dia em que elle é commettido? Ha sempre um vestigio da outra, que se mostra em um gesto, em um perfume, em uma palavra, em um carinho... Elles trahem-se com as compensações que nos trazem...
—Isso tudo é vago e abstracto.
—Não importa. E as denuncias? e as cartas anonymas? e os ditos das amigas? Eu soube de muitas coisas e fingi ignoral-as, todas! Não é isso que a sociedade quer de nós? As mentiras que o meu marido me pregou, deixaram sulco e eu paguei-lh'as com o teu amor, e só pelo amor! E assim mesmo o enganal-o peza-me, peza-me, porque, quanto mais te amo, mais o estimo. É uma tortura, que parece que foi inventada só para mim!
Gervasio não respondeu. Tinha o rosto contrahido por uma expressão de ciume. Passado um instante de silencio, murmurou:
—É extraordinario! Nunca julguei possivel essa dualidade no amor. Bem, levarei o livro. Adeus.
—Não vá... É cedo ... supplicou ella, com o rosto pallido, illuminado de paixão. Fique, é tão bom! Fallarei noutra coisa. Ensine-me a fallar, Gervasio.
—Então, diga lá:—amo-te!
E ella ia repetir as palavras, quando as gemeas entraram ruidosamente.
Lia queria saber se aquelles navios pretos e pequeninos espalhados no jornal eram do capitão Rino.
—São; disse a mãe abreviando explicações. Vão brincar.
—Ih! então elle é muito rico?
—É. Vão brincar.
As meninas sahiram e o assumpto voltou-se para o capitão Rino. O medico ridicularisava-o; queria-lhe mal, achava-o medroso, desenxabido, muito branco e muito loiro, mal ageitado nas suas roupas. Faltava-lhe linha, faltava-lhe espirito, faltava-lhe tudo.
Camilla negava alguns d'esses defeitos. Não tivesse medo: ella só o amaria a elle, em toda a sua vida.
Havia já muito tempo que duravam aquellas conversas na saleta, com a porta escancarada para o corredor, por onde de vez em quando Lia e Rachel passavam á galope, montadas nas bengalas do pae.
Era á despedida que o medico e Camilla marcavam, de vez em quando, uma entrevista, longe, em uma casa da Lagôa, conservando o respeito por aquella habitação onde as filhas d'ella viviam soltas, procurando-a a todos os instantes, irrompendo de traz dos reposteiros ou dos moveis quando menos se esperava.
Ruth acabara a licção. Sentiram os passos do maestro na escada. Gervasio ergueu-se.
—Pois vou-me por ahi abaixo com o Lelio. São horas das moças bonitas na rua do Ouvidor...
—Quem me dera que eu fosse uma d'ellas... A velhice aterra-me ... por sua causa! E ella vem perto!...
—Tontinha! e não sou eu mais velho?
—Sim ... mas os homens! Quando eu tiver os cabellos brancos, você...
—Eu já não terei nenhuns; serei calvo como um ovo e viveremos ambos com as doces recordações d'estes dias lindos. O nosso romance não acabará nunca. Dê-me as suas ordens, minha senhora, aqui temos o Lelio.
Camilla acompanhou-os ao terraço.
—Que me diz da sua discipula? perguntou ao maestro.
—Muito bem. Vae muito bem! D'aqui a pouco ensina-me...
—Ella é estudiosa...
Emquanto os dois conversavam, o medico passeou o olhar pelo jardim; depois disse, voltando-se indignado para Camilla:
—O bandido do seu jardineiro está-lhe fazendo bordaduras de horta nos canteiros! Aquelles feitios em gramas são de pessimo gosto. Não tem instincto, o desgraçado! Hei de lhe arranjar outro, um francez acostumado a lidar com as flores de Nice. Verá a differença.
Este errou a profissão: nasceu para tosquiador ou barbeiro. Nem faz idéa do que seja a harmonia das cores; veja aquelle canteiro: o rôxo ao pé do escarlate, o amarello ao pé da cor de rosa! Tudo mais, folhagens, folhagens e folhagens! Parece que estes jardineiros fazem guerra ás flores! Pois cá terá o outro amanhã. Vamos, maestro?
Elles desceram e Camilla ficou encostada a um pilar, até ver sumir-se o medico; já elle tinha desapparecido e ainda ella olhava, pensativa...
Fôra ha annos... Gervasio morava já na mesma casa do Jardim Botanico, bem installado, mas muito mettido comsigo.
Uma noite alguem lhe batera á porta com desespero: era Francisco Theodoro, que o chamava como o medico mais proximo, para ver uma filha que ardia em febre. Tinham ido provisoriamente para a sua visinhança, mudando o Mario, que tivera a palustre. O medico não clinicava, mas cedeu á supplica e salvou Ruth de um typho. A doença fôra longa; a menina só acceitava remedios e alimento pela mão do seu amiguinho, que tratou tambem de fortalecer Mario.
Camilla dizia então em extase, ao marido:
—Devemos ao Dr. Gervasio a vida de nossos filhos! A entrada fôra victoriosa; justificava o ascendente do medico na familia... Nem fôra no começo que elle amara a Camilla. Nesse tempo ella não sabia ataviar-se, nem fazer sentir a sua formosura. Tinha os modos de uma boa mãe tranquilla, muito banal, com discursos longos e choradeiras sobre a morte muito recente de uma filhinha, que a tornavam fastidiosa. As gemeas, então de mezes, andavam sempre pendentes do paletot branco da mãe. Gervasio odiava aquelles casacos e aquellas queixumeiras insipidas. Mas esse tempo de prostração foi passando, e ella ascendeu pouco a pouco, vagarosamente, para a formosura e para a graça. A evolução não foi rapida, mas reflectida e suave, como impellida por sopros delicados. Quando o medico percebeu quanto Camilla mudava, e que essa transformação lenta e visivel se fazia ao influxo dos seus gostos, da sua convivencia e do seu espirito, começou a observal-a com redobrada attenção, cultivando o prazer de a tornar outra, como que uma obra sua.
Camilla usava agora as cores claras, que lhe iam bem, e que elle lembrara como mais propicias á sua tez, adquiria expressões novas, inflexões de voz em que nascia uma musica de tons coloridos e harmoniosos, fazia outros gestos, mais graves e adequados, pisava de maneira mais rythmada e linda, deixou os perfumes misturados, sem escolha, por uma essencia branda; e tudo isso o fazia sem esforço, obedecendo á suggestão. O medico via nella um reflexo perfeito da sua alma, sentia-a voltar-se, subir para elle; e absorvido nesse estudo delicado—apaixonou-se por ella.
Levada na fascinação, só tarde Camilla percebeu o perigo que a solicitava; então quiz fugir: fechou-se em casa, esquivava-se a vêr o medico; mas, atravéz da distancia e do silencio, elle percebia o amor d'ella a chamal-o, a envolvel-o todo com uma obsessão de loucura.
Passaram-se assim longos mezes, de saudades sem remedio, de agonias mudas; até que um dia, cançados de uma resistencia inutil, deixaram-se vencer.
Para elle, aquella ligação foi uma victoria; para ella como que uma lei da fatalidade. Era, porque tinha de ser, e a sua culpa salvaguardava-se nessa crença.
Havia muito tempo já que o Dr. Gervasio entrara na intimidade da familia: sabia-lhe os segredos, lia todas as cartas vindas de Sergipe, com repetidas supplicas de dinheiro. Conhecia a historia do nascimento de Nina, filha natural do Joca, e da fugida d'elle, compromettido em uma casa de commercio; estava ao facto das doenças de D. Emilia, das habilidades calligraphicas do velho Rodrigues e da já alta somma de dotes dada por Francisco Theodoro ás cunhadas.
Tudo isto soubera-o elle naturalmente, sem indagações; vinha na enxurrada dos desabafos, no desafogo da amisade.
Com o amor, elle tinha tambem sabido conquistar a estima. Toda a gente em casa o ouvia com attenção.
Um pouco d'essas coisas vagou pelo espirito de Camilla, quando, de olhar alongado, seguia ainda a sombra de Gervasio.
Dias depois ella dava os últimos retoques á sua toilette, em frente ao espelho, quando o marido entrou.
Camilla viu-o no crystal e perguntou-lhe, mesmo sem se voltar:
—Por que é que você veio tão cedo?
—Por duas razões...
E, como elle interrompesse a phrase, ella, sobresaltada, acercou-se, indagando com interesse:
—Você está doente? Diga!
—Não tenho nada filha, descança.
Camilla sorriu e voltou tranquilla para defronte do espelho.
—Então que motivos são esses?
—O primeiro, para pedir ao Gervasio que vá ver o Motta, que quebrou hoje uma perna.
—O velho?
—Sim.
—Coitado! como foi?
—Foi no serviço da casa; descendo de um bond. Já está medicado, mas quero que o Gervasio lhe examine o apparelho. O segundo motivo é mais serio.
Sem afastar do rosto o pompon do pó de arroz, Camilla interrogou com certa indifferença:
—Que é?
—Trata-se do senhor seu filho.
—Meu só?! tem graça...
—Tem graça? Olha, eu é que lhe não acho nenhuma! Está um bilontra, o tal senhor!
—Aposto, meu velho, em como você vem por ahi com recriminações?!
—Certamente; porque afinal de contas a verdadeira culpada das patifarias do rapaz és tu.
Camilla voltou-se indignada, com os olhos chammejantes de colera:
—Hein?!
—Não dou um passo na rua que não encontre um credor do senhor meu filho!
—Ora, logo vi, por causa de dinheiro! murmurou com desprezo Camilla, olhando para o marido de alto.
Elle continuou:
—É preciso que tu o advirtas hoje mesmo, que isto não póde continuar assim! Elle mantem agora uma mulher: dá-lhe vestidos, carro, casa, e com toda a impudencia faz contas em meu nome! Já se viu coisa egual?!
—É a mocidade...
—Já me tardava! É a pouca vergonha. Que trabalhe.
—Trabalhar! Mario tem só dezenove annos!
—Faze mãos de velludo para o acariciar; é o costume!
—Mas por que não lhe falla você?
—Por que?! Ora essa! porque lhe vou á cara, se elle me retruca com um desafôro!... Esperarei mais alguns dias ... falla-lhe tu primeiro. Não lhe mettas caraminholas na cabeça; dize-lhe que trabalhe, que siga o meu exemplo, e que se deixe de fazer dividas. Isto competiria a mim, bem sei, se não me tirasses toda a força moral.
—Eu?!
—Sim. Acodes com pannos quentes sempre que o reprehendo, e ahi está o resultado... E viva um homem honrado para isto! Uma vergonha...
—Ora! tambem você exaggera. Mario tem boa indole. É incapaz de uma acção má. Descançe; eu fallarei com elle. Quer então que eu o aconselhe a deixar a tal mulher?...
—Por força! Uma perua velha, que o ha de comer por uma perna. Não posso estar continuamente a desembolsar contos de réis para os caprichos da tal madama. Podes dizer ao Mario que, ou elle toma caminho, ou o mando para a Marinha.
—Já não está em edade disso, nem eu me separo de meu filho!
—Temos outra. Faze o que quizeres; hoje falla-lhe tú, e se elle não seguir outro caminho, terá de se haver commigo. Diabo, tenho outros filhos!
—Coitado do Mario! tú nunca o amaste muito...
—Han! Eu?! eu é que nunca o amei? Oh! senhores ... está bom, está bom, fallemos noutras coisas... Acalma-te ... e veste-te á vontade. As Gomes já estão ahi: vi-as no jardim com a Ruth.
—Que me importam a mim as Gomes!
Francisco Theodoro chegou-se á janella, afastou a cortina e olhando por entre os vidros, informou com voz amavel:
—Lá está tambem o capitão Rino... Ahi estava um bom casamento para a Nina, hein? Gosto d'elle, parece um excellente rapaz ... apezar da procedencia.
—Que procedencia?
—Homem! a mãe morreu ás mãos do marido, por crime de adulterio... Emfim, isso já foi ha tantos annos, que ninguem se lembrará do caso...
—Você lembrou-se.
—Ora, porque ainda hontem me fallaram nisso... Bom casamento para a Nina ... bom casamento!...
Camilla sorriu com desdem e tratou de abotoar melhor o seu broche de perolas, sobre a escomilha côr de rosa do peitilho. Coitada da Nina ... pois sim!
—Muito bem! lá chegam o Lelio e o Gervasio... Sou muito amigo do Gervasio, mas olha que elle tambem é um exquisitão. Não diz nada á gente da sua vida, lá dos seus principios... Com a intimidade que lhe damos era natural que soubessemos mais d'elle que toda a gente; e afinal sabemos só o que todos sabem. Aqui para nós, não sympatisam geralmente com elle por ahi; dizem que elle nunca escreveu uma linha e que vive a criticar livros e auctores... Realmente, elle não perdôa a ninguem. Pois vou fallar-lhe. Até já.
Antes de sahir, Theodoro contemplou a mulher, ageitou-lhe os caracóes da nuca e, attrahindo-a, quiz beijal-a; ella porém esquivou-se com um movimento rapido. Francisco Theodoro riu-se e sahiu pensando comsigo:
—Todas as mães são assim! Só porque lhe fallei do filho...
Em baixo, Ruth colhia flôres para as visitas, que se aggrupavam sob as ramas abundantes da mangueira. As Gomes, a mãe e duas filhas moças, eram indefectiveis: todas as terças-feiras lá iam, houvesse máo ou bom tempo. A velha era uma senhora toda cheia de preconceitos e escrupulos, e com a cabeça recheada de receitas, tanto medicinaes como culinarias, que ella offerecia a toda a gente que lhe ficasse ao alcance da voz. As filhas eram expertas, cantavam ao piano e ao violão e vestiam-se com graça, fazendo valer pannos baratos.
O capitão Rino examinava as palmeiras com a attenção de um botanico, emquanto o maestro e o Dr. Gervasio cumprimentavam as senhoras.
Francisco Theodoro appareceu risonho, com as duas mãos extendidas para a querida Sra. D. Ignacia Gomes, que se levantou remexendo as sedas farfalhantes do seu vestido cor de pinhão. Que excellente seda aquella! já passara por tres feitios differentes, e ainda era aquillo que se via!
—Cara senhora, então, o amigo Gomes?
—Vem logo; ah! elle tem muito trabalho, não imagina.
—Sei, sei ... a vida foi feita para as mulheres. E ainda ellas se queixam! Só se falla por ahi em emancipação e outras patranhas... A mulher nasceu para mãe de familia. O lar é o seu altar; deslocada d'elle não vale nada!
Todos concordaram; e Francisco Theodoro passou adeante, puxando o Dr. Gervasio para uma alléa mais solitaria do jardim:
—Vou pedir-lhe um obsequio. Lá um dos meus empregados, um ajudante de guarda-livros, o Motta, quebrou hoje uma perna, ao descer de um bond. O homem foi tratado na pharmacia do Souto, mas ... sabe que esses apparelhos feitos assim á pressa não inspiram confiança; peço agora ao amigo que amanhã vá lá vêl-o.
—Perfeitamente. Onde mora?
—Na rua Funda, tenho aqui o numero...
Francisco Theodoro sacou de um bilhete escripto a lapis.
—Rua Funda? Onde é isso?
—É no outro mundo, lá para os lados da Saúde.
Emquanto Francisco Theodoro conversava com o medico, Camilla desceu a escada exterior do palacete, olhando de relance para todos.
As Gomes acharam-n'a muito bonita e, intimamente, espantavam-se de não verem nella nem o menor signal de decadencia. Aquella pelle alva e macia, aquelles cabellos negros sem um fio branco, aquelles dentes perfeitos e brilhantes, sem um toque siquer de ouro que attestasse a passagem dos annos e das mãos dos dentistas, faziam-n'a parecer sempre a mesma Camilla dos tempos da Lapa, em que D. Ignacia a conhecera.
Vendo-a descer tão bonita, o capitão Rino corou até á raiz dos cabellos e foi elle o ultimo que se approximou, tocando-lhe de leve nos dedos estrellados de anneis.
Nina, que espreitava de cima, achou a occasião opportuna para mandar pelo criado a bandeja de prata com o vermouth.
—Por que não subiram?
—Estamos bem. A sua Ruth tem feito as honras da casa. E como ella está crescida; já não lhe ficam bem os vestidos curtos...
—Não diga isso ao pé d'ella; apezar de que estou certa de que não toleraria as caudas; é muito creança e tem modos de rapaz. Não imagina, D. Ignacia, que phantasia a d'esta menina!
Não sei como se arranja, mas a verdade é que se encarrapita nas arvores com o seu violino; e faz gosto ouvil-a tocar lá em cima. Diz que é para fazer concertos com os passarinhos. Veja se eu a posso pôr de vestidos compridos. Que horror!
—Ah! mas é preciso perder este costume; ella já tem os seus treze annos...
—Quatorze ... quasi quinze! mas não parece.
—Isso de trepar nas arvores é para rapazes; uma menina de educação tem deveres...
Ruth interrompeu o discurso da velha, trazendo-lhe uma manga-rosa muito perfumada.
—Não falle mal de mim, D. Ignacia; aqui tem a senhora uma fructa colhida por mim lá nos cocurutos da arvore. Se eu não tivesse ido buscal-a, a senhora não a teria agora...
—Ahi está...
D. Ignacia cheirou a fructa, com força, cerrando os olhos papudos; e depois, voltando-se:
—Camilla, você já comeu geleia de manga?
—Não me lembra...
—Pois é gostosa e facil de fazer; olhe...
Emquanto a D. Ignacia desfiava a receita do doce, Camilla olhava para ella, ouvindo o murmurio de outras vozes, querendo distinguir as palavras do medico e do capitão, sorrindo imbecilmente, destacando de longe em longe uma ou outra coisa, um elogio ao Neptuno, da esquerda, ou um—expreme-se e põe-se na peneira— da direita.
Nesse dia Mario não appareceu ao jantar e Francisco Theodoro queixou-se d'elle ao Dr. Gervasio, em um vão de janella, num desabafo de sentimento.
Gervasio ouvia-o calado, mordendo o charuto, dando-lhe razão, sem dizer comtudo uma unica palavra. Theodoro assegurava:
—A mãe tem um coração de pomba, incapaz de fazer nem pensar no mal. A bondade excessiva leva aos desatinos ... aquelle filho é o mais velho e ella encontrou nelle toda a sua ternura ... não lhe levo a mal,—é mãe. Repare que para com as meninas ella é mais severa!
O Dr. já observara isso mesmo; nessa mesma noite elle aconselhou Camilla a que fizesse a vontade ao marido, reprimindo o filho. Elle conhecia a amante de Mario: era uma franceza gananciosa, podre de rica, de cabellos pintados e carne molle. Não valia nada e arruinara muita gente boa.
Camilla prometteu que faria valer a sua autoridade materna e envolveu-se na conversação geral, fugindo d'aquelle assumpto irritante.
Á noite foram outras visitas, dous negociantes solteiros e duas moças da visinhança, as Bragas.
Francisco Theodoro acoroçoava os jogos e as musicas, acolhendo entre os joelhos gordos, ora a filha Rachel, ora a Lia, que se atiravam para elle estonteadas, amarrotando os bordados dos seus vestidos brancos, interrompendo com as suas corridas e risadas a conversa dos grandes. E foi no meio d'aquelle barulho, que um dos negociantes, o Negreiros, da rua das Violas, se lembrou de fallar das operações commerciaes do Gama Torres, com elogio e assombro.
Uma das Gomes, a Carlotinha, cantava modinhas ao piano com uma graça picante, que a mãe tolerava a custo e que fazia rir muito as outras.
O capitão refugiou-se em uma janella. Ruth foi ter com elle: o moço ao principio não lhe prestou attenção; seguia, atravéz das cortinas, os olhares trocados entre Camilla e Gervasio.
Seriam todos cegos, só a elle caberia descortinar aquelle amor, tão evidente?
Ruth, derreando a cabeça para traz, olhava para o céo tranquillo. Houve um largo espaço de silencio entre ambos. Ruth disse por fim, sem abaixar os olhos:
—Que parecerá a terra, vista de lá...?
—Uma gotta de luz...
—Ainda bem; alegra-me saber que vivo em uma estrella. E como ellas hoje estão bonitas! Se Deus me désse a escolher uma, eu ficaria embaraçada. Olhe, repare para aquella, como é grande e suave!
—É Vesper...
—Linda, linda, linda!
—Levante mais os olhos, para acolá; repare para o Cruzeiro, como está limpido hoje! Maravilhosa noite!
—Sim ... estou vendo ... cinco estrellas brilhantes em um lago negro. Porque é tão escuro aquelle pedaço do céo ao lado do Cruzeiro?
—Porque não tem astros.
—Deveria ter sido por alli que Lucifer cahiu.
—Por que?
—Fez um rasgão no filó doirado. Por isso Deus poz alli a cruz, para que o diabo não tornasse a passar pelo buraco.
O capitão sorriu.
—Se eu fosse passaro, continuou ella, gostaria de voar á noite...
—Como as corujas.
—Não. As corujas são feias, mettem medo, e eu só gosto do que é bonito. Quereria ser uma ave branca e com azas tão fortes que me levassem até acima das nuvens. Desde pequenina que eu gosto de olhar para o céo e que me desespero por não poder voar... Ás vezes sonho que estou voando ... e é tão bom!
O capitão Rino lembrou-lhe que fosse ao Observatorio do Castello, o que lhe seria facil, visto ter lá familia na visinhança. Assim veria bem a lua e a côr das estrellas.
Interessado por aquella imaginação ardente, o capitão Rino explicava á menina os nomes das estrellas, sentindo roçar-lhe pelo hombro o cabello d'ella, vendo-lhe na transparencia luminosa do olhar a chamma de uma curiosidade insatisfeita.
Elle tinha uma linguagem clara, mas interrompia as phrases de vez em quando, com sobresalto, voltando-se para a sala attrahido pela voz de Camilla.
Ruth nem percebia a causa nem reparava mesmo naquelles movimentos e continuava a interrogal-o, com o olhar acceso para o grande céo illuminado.
Rebentaram palmas, lá dentro. Carlotinha acabara uma modinha requebrada, e andava muito faceira pela sala, desafiando as Bragas para uma valsa.
—Quem toca?
Judith foi para o piano, que atacou com força e pedal.
Apezar do barulho, Francisco Theodoro discutia com o Negreiros o arrojo do Gama Torres, attribuindo ao acaso o exito da famosa empreza, o que o amigo negava, affirmando o tino especial do outro.
Estava calor, os leques de papel adejavam como borboletas nas mãos das moças. Carlotinha não logrando dançar com o Rino nem com o Negreiros, atirou-se aos braços da Therezinha, a mais moça das Bragas. E as duas rodopiaram pela sala.
Duas horas depois o negociante acompanhava as visitas até ao portão. D. Ignacia ia desde a porta de braço com o marido, o Gomes, um velhote gordo, de grandes lunetas de tartaruga. As Bragas, muito falladoras, prometteram á Carlotinha e á Judith moldes de casaquinhas modernas, como as que traziam vestidas. Camilla acompanhava-as tambem, retardando o passo, entre o Dr. Gervasio e o capitão Rino, que não dizia nada, recebendo em cheio o effluvio d'aquella noite sem par! Um bond passou e as Gomes partiram. Nina ficara em cima, accommodando a casa, vendo fechar as janellas da sala.
O medico chegou-se então para Francisco Theodoro, perto do gradil, á espera de outro bond para o Jardim. Camilla sentou-se em baixo da mangueira e o capitão imitou-a, olhando-lhe para o perfil doce, ensaiando uma confissão que não lhe sahia nunca dos labios tremulos. Camilla abandonava-se, parecia provocar essa grande palavra, como se não bastassem á sua vaidade de mulher os amores do amante e do marido.
Assim imaginou o capitão Rino, todo penetrado do aroma e do encanto d'ella. A mão de Camilla pousara no banco, e elle então, com o mesmo gesto esquivo e assustado, apertou-a de leve; ella levantou-se, com modo brusco, sacudida por um arrependimento, culpando-se da sua leviandade, e partiu logo para a luz clara do luar, deixando o capitão na sombra da arvore. O olhar do Gervasio indagou logo de tudo, emquanto o marido fallava em coisas indifferentes. Foi nesse instante que lá em cima, no terraço, toda voltada para a lua branca, Ruth tocou no seu violino uma sonata harmoniosa e larga.
Em baixo fizeram pausa na conversa, com as almas suspensas naquella musica e naquella noite.
Sentado no mesmo banco, o capitão Rino olhava com desespero para o vulto claro de Camilla, que lhe fugia e se chegava para o seu amor feliz, toda embebida na poesia d'aquelles sons. Fechou os olhos para não ver...
A doçura da musica enchia tudo de um sentimento ignoto, prolongado... Uma estrella cadente riscou o espaço com um fugitivo fio luminoso. Camilla apontou-a com o dedo.
A sonata abria-se numa harmonia ampla e intensa, quando de repente Theodoro gritou para cima:
—Não são horas de musica. Para a cama!
Depois, em um murmurio satisfeito:
—O diabo da pequena tem sentimento, hein?
—Tem mais do que isso, affirmou Gervasio: tem talento, tem inspiração!
—Tanto esta é applicada, quanto o irmão... Bem! lá vem o seu bond doutor!
O medico, despediu-se á pressa e correu; o capitão Rino vencia a custo a sua commoção e sahiu tambem, descendo a pé pela rua a baixo, apezar dos pedidos de Theodoro, que esperasse alli mesmo outro bond para a cidade.
Camilla entrou em casa antes do marido e procurou immediatamente a Noca, que vigiava o somno de Rachel e de Lia.
—Mario já entrou, Noca?
—Não senhora. Dionysio já veio ha que tempos e disse que seu Mario ficava lá...
—Lá?... Em casa da tal Luiza?!
—É...
—Se meu marido sabe! Olhe ... se elle perguntar, você responda que Mario entrou com enxaqueca, e que por isso não foi á sala. Ouviu? Diga que elle está dormindo.
—E se elle amanhã perguntar a Dionysio?
—Você previna primeiro o rapaz.