A fallencia
Capítulo XXIII
Corriam assim os mezes. Os amigos escasseavam, mais pelo retrahimento da familia que pela sua mudança de fortuna. Os infelizes julgam os homens peiores do que elles são, e nunca vêem em si a causa justificada de certos abandonos. Camilla queixava-se ás vezes das relações antigas, sem cogitar que quem mais fugia era ella, envergonhada da sua nova situação.
Levado talvez mais pelo habito que por outra causa, o Dr. Gervasio continuava na assiduidade antiga; as suas visitas eram mais curtas, feitas de passagem; evitava, com escrupulosa discreção, os almoços naquelle lar pobre e simples. Demais a mais, não podia fallar nunca a sós com Milla, naquella casa estreita; encontrava-a rodeada sempre da familia, fechada no seu rigoroso vestido de viuva, muito arredia. Aquellas esquivanças não o atormentavam, elle sentia que a ia amando com menos amor e mais amizade; era como uma irmã, necessitada do seu amparo e do seu conselho, que elle não podia deixar de vêr todos os dias; o calôr da sua mão e o som da sua voz já não lhe alvoroçavam os sentidos adormecidos; e bem percebia que no coração d'ella a paixão estava tambem apaziguada, e que para Camilla elle ia já sendo apenas o amigo.
E assim se passaram poucos mezes, até que chegou um dia em que o olhar de Camilla, irradiando, se trocou com o d'elle num fulgor de desejo. O fogo abafado pelas cinzas da tristeza irrompia subitamente, como uma labareda de fragoa. Elle espantou-se, ella conteve-se envergonhada, e separaram-se ambos inquietos e torturados.
XXIII
Adeus, mamãe! nós vamos levar estas sobras do jantar ás creanças da Jacintha, ouviu? Nina disse que não vale a pena guardar para amanhã; é pouco e póde azedar.
—Mas que creanças são essas? perguntou Camilla ás duas gemeas, que lhe fallavam do quintal com a trouxinha da comida num guardanapo.
—São as netas da Jacintha...
Ruth appareceu atraz das irmãs.
—Mamãe não conhece... Jacintha é uma velha paralytica que mora na visinhança da minha discipula. Sempre que passamos por lá nos pede esmola... É tão velhinha que faz pena. Combinámos com a Nina que sempre que sobrasse alguma coisa do jantar fossemos levar a ella. Quando me lembro do que se desperdiçava lá em casa! Por um lado, mais vale a gente ser pobre... Os ricos, não é por mal, mas como não conhecem a necessidade dos outros não consolam ninguem...
—Falla baixo! Bem, meus amores, vão, antes que seja noite.
—Anda depressa, Noca.
—Mamãe, como nós vamos acompanhadas, podemos depois fazer um passeiozinho?
—Sim...
As creanças sahiram com a mulata. Camilla sorriu. A Providencia não a desamparava. Ainda na sua casa havia sobras para dar...
A tarde cahia com lentidão; a viuva, derreada na cadeira de balanço da sala de jantar, olhava pela janella aberta para a grande amendoeira do quintal, cujas folhas côr de ferrugem cahiam espaçadamente, com um rumor timido.
Invadia-a uma grande tristeza, um desejo vago de fugir, de sumir-se na transformação de uma essencia diversa. A sua alma amorosa crescia-lhe dentro do peito na ancia do calor do abraço e do sabor do beijo. Não podia mais, as roupas negras suffocavam-na, lembravam-lhe a todos os instantes aquelle minuto inolvidavel, que se lhe fixara na vida, que se repetia sessenta vezes em todas as horas e de que ella não se libertaria nunca!
Nunca? Quem sabe? a sua carne forte acordava de um longo lethargo com fremitos de mocidade, capaz de todos os prodigios. Se a paixão que ella via arrefecer nos olhos de Gervasio se reaccendesse! Se elle voltasse a amal-a com aquelle amor antigo, todo de extremos... Se elle voltasse!
Na pallidez da tarde moribunda, a grande amendoeira desnudava-se, tranquillamente. Camilla olhava para ella, invejando-lhe a serenidade, quando sentiu passos.
Voltou-se.
Gervasio sorria-lhe da porta.
—Vem! murmurou ella então, num triumpho, extendendo-lhe os braços. Elle precipitou-se.
—Emfim, voltas a ser minha! a ser minha!
—Espera ... socega ... a Nina está em casa...
—Que importa a Nina?
—Cala-te! Oh, eu já não posso mais!
Muito junctos, com as boccas quasi unidas, elles repetiam as mesmas palavras de outr'ora, que soavam agora aos ouvidos de Milla como novas.
O céo ia mudando de côr; as folhas da amendoeira desprendiam-se celeres e com frequencia; dir-se-ia uma tarde de outomno, e era apenas começo de verão.
Camilla, reentrada no seu sonho maravilhoso, parecia illuminada. O medico puxou-a para si, ia beijal-a, quando a Nina appareceu na sala, com modo disfarçado.
—Querem luz? Como as meninas estão tardando!
Gervasio não respondeu; achou-a importuna. Camilla disse com meiguice:
—É cedo, minha filha...
Ficou depois por muito tempo calada, recolhida na sua alegria. Era como se a tivessem encerrado em uma redoma luminosa e cheia de perfumes, em que houvesse outra atmosphera que lhe alterasse a natureza, isolando-a de tudo o mais. As roupas do lucto não lhe pesavam, semelhavam rendas levissimas; pela primeira vez a imagem do marido no ultimo momento se lhe apagou na memoria... Era já noite quando ella acompanhou Gervasio ao jardinzinho da entrada. Elle sentia-a tremula, numa commoção de virgem, como se aquelle velho amor peccaminoso fosse um amor nascente.
A sua voz, lenta e grave, tinha inflexões timidas, e a brancura da sua carne, tantas vezes beijada por dois homens, parecia-lhe, na sombra, de uma immaterialidade purissima.
—Agora és só minha, só minha! dizia Gervasio, apertando-lhe as mãos com força, quando um homem se approximou do portão e o empurrou. Olharam, com espanto, mas logo Camilla deu um grito: reconhecera o filho e correu para elle.
Mario olhou para o medico com aborrecimento não disfarçado e recuou, dando logar a que elle passasse para a rua, como a despedil-o.
Trocaram um cumprimento rapido e cruzaram-se.
Foi só depois do portão fechado sobre as costas do outro que o Mario se voltou para a mãe com uma expressão que significava— ainda?!
Camilla rompeu em soluços e então o filho abraçou-a docemente, e foi-a levando para dentro. Nina accendeu o gaz, batendo os dentes, num accesso nervoso; depois contemplaram-se todos, em silencio. Foi ainda soluçante, que Milla perguntou afinal:
—A Paquita?
—Está muito pesada, por isso não veio.
Camilla sentiu o sangue sumir-se-lhe. Que! um neto! o seu Mario ia ter um filho!
—Demorei-me mais na Europa por esse motivo: os medicos acharam imprudente que a Paquita se mettesse em viagens...
—Fizeram bem. Por aqui soffreu-se tanto!... Quando chegaram?
—Esta madrugada. Desembarcámos ás nove horas...
Outra decepção: todo o dia no Rio, e só á noite o filho a procurava!
Elle explicou: tivera muito trabalho, idas á alfandega, uma trapalhada! E as irmãs? onde estavam as irmãs?
—Já vêm, andam ahi pela calçada. Vae avisai-as, Nina.
A moça sahiu. Mario continuou:
—Porque não as entregou á minha cunhada? Ella escreveu-nos fallando nisso...
—Tive pena ... não me quero separar d'ellas.
—Sim, concordo que é penoso; mas é para o bem d'ellas, e esta situação não póde continuar. Paquita é uma mulher sensata, mesmo a bordo determinou tudo da melhor maneira: Lia e Rachel vão para a casa de minha cunhada; Ruth irá morar comnosco, isto até lhe facilitará um casamento, coisa sempre difficil para uma moça pobre, e Nina tem o recurso de ir para a casa do pae...
—E ... eu?!
—A senhora, visto que agora é livre ... porque não se ha de casar?
Camilla tornou-se rubra e escondeu o rosto nas mãos.
Mario não soubera reprimir-se, e já agora proseguia:
—Acho preferivel o casamento á continuação d'esta vida. Perdôe-me que lhe diga, mas suas filhas merecem outros exemplos...
As mãos de Milla, geladas, apertaram com mais força o rosto em fogo.
Mario fallou ainda.
Elle premeditara o seu discurso, ao lado da previdente Paquita; mas a lingua recusava-se a repetil-o inteirinho, no seu rigor de fórma decisiva.
Vinha como uma espada, cortando todos os nós. Prevalecia-se da sua autoridade de homem.
A mãe teve nojo, e num só grito explodiram-lhe todas as queixas. As faces, de vermelhas tornaram-se lividas, as mãos e os beiços tremiam-lhe; avançou:
—Vá dizer á Paquita, á sua pratica e sensata Paquita, que eu não preciso do dinheiro d'ella, ouviu? Não se demore, que ella é capaz de bater em você!
—Mamãe!
—Perversos! vir de tão longe, o meu filho, para me dizer isto. O meu filho! e eu que tinha tantas saudades!
—Mamãe, a senhora é injusta...
—Injusta é ella, que me quer separar de todos os filhos e te ensina a faltar-me ao respeito. Acham que tenho soffrido pouco?!
—Acalme-se e reconhecerá que temos razão. Paquita é um anjo.
—Um diabo do inferno!
—A senhora está-me offendendo.
—E ninguem me offendeu? Diga! ninguem me offendeu?!
—Socegue: tudo se ha de arranjar; bem sabe que eu não tenho nada; a fortuna é de minha mulher, mas nós lhe daremos uma mezada, visto que...
—Recuso; não quero nada d'essas mãos. O meu filho morreu no dia em que se casou. Se o envergonho, é melhor fingir que não me conhece. Vá-se embora.
—Mamãe...
—Vá-se embora! Eu não preciso de nada. Suas irmãs sahiram para dar uma esmola. Temos sobras em casa. Que castigo, meu Deus!