A fallencia
Capítulo VII
—Quem é? ... quem é?! Perguntou ella com avidez phrenetica, puxando imprudentemente pela manga do medico.
O Dr. Gervasio, ainda no mesmo logar, olhava para a mulher de lucto que seguia numa pressa de quem foge; á voz de Camilla, voltou-se atarantado, sorriu com esforço evidente e depois, baixo, muito baixo, mas com modo sacudido e nervoso, disse:
—Não faças caso: uma mulher que amei e que morreu.
Uma nuvem negra toldou a vista de Camilla e o coração apressou a sua marcha num batimento louco.
Ruth, com toda a pachorra, escolhia os doces que um caixeiro ia separando para um prato de papelão.
O dr. Gervasio pediu á Camilla que serenasse o seu espirito. Elle lhe contaria tudo mais tarde. Descançasse, que aquillo era uma coisa passada, perfeitamente extincta.
Ella fingiu acceitar a promessa; no fundo duvidou d'ella; mas para que tentar uma recriminação, se a sua lingua fraca não lhe sabia traduzir os sentimentos fortes? Ficaria no seu papel de mulher: esperaria calada...
VII
O commercio de café nadava em ouro. Casas pequenas galgavam de assalto posições culminantes; havia por todo o bairro cafezista um perenne rumor de dinheiro. E a maré do ouro subia ainda com a magna abundancia das enchentes que ameaçam inundação.
O preço do café chegara a uma altura a que antes nunca tinha attingido. Era um delirio de trabalho por todos aquelles armazens de S. Bento.
No de Francisco Theodoro o movimento era enorme.
Seu Joaquim não parava um minuto, num vae-vem incessante, realizando milagres de actividade, observando, colhendo, dirigindo, mandando, rapido no expediente, segurissimo nas suas previsões e nas suas ordens. Elle sabia de tudo, adivinhava tudo, sem que ninguem o visse arrancar uma confidencia ou uma denuncia dos seus amigos ou dos seus subordinados. Era nelle que parecia incarnada a alma d'aquelle casarão da rua de S. Bento, por que era o nome d'elle que andava de bocca em bocca, no ar, desde o caminhão, na porta da rua, até o fundo, o pateo dos ensaccadores, onde as pás do café, cahindo em rythmo, davam ao trabalho um acompanhamento de musica.
Seu Joaquim, pequeno, com o seu ar atrevido, podia, de um momento para o outro, fazer cessar todo aquelle gyro vertiginoso, armar grèves, paralysar a vida, fechar a porta ao dinheiro que quizesse entrar.
Era d'elle todo o prestigio á vista dos trabalhadores boçaes, das formigas do armazem que negrejavam por alli num movimento incessante.
Francisco Theodoro descançava nelle, deixava-o agir, «conhecia-lhe o pulso», dizia; não fizera elle o mesmo no principio da sua carreira? Agora, bem assente na vida, aristocratisava-se, dava-se ares de grande personagem.
Havia uma hora em que o gerente subia ao escriptorio do patrão para alguns esclarecimentos, e nesses curtos minutos, roubados á actividade de baixo, Seu Joaquim achava geito de expôr a situação do dia, dar as notas pedidas e ainda fallar do movimento das grandes casas proximas, fazendo de relance, num quadro comparativo, o realce do armazem de Francisco Theodoro.
E, nesses dizeres simples, havia entre os dois homens como que uma chammazinha, brilhando tonta, faisca de ambição assanhada pelos successos proprios e alheios.
Ambos amavam a casa, ambos a queriam ver no plano mais alto.
Seu Joaquim, lá comsigo, attribuia a prosperidade do negocio ao tino da sua gerencia, experta e positiva. A seu vêr, a gente do escriptorio era inepta e não contribuia em nada para o exito do negocio.
Julgava-se figura predominante, indispensavel, e usava por isso de impertinencias, que Theodoro tolerava, em desconto do serviço.
Quando o gerente descia a escada do escriptorio e voltava para o armazem, Francisco Theodoro reclinava-se na sua cadeira e ficava pensativo. Na sala proxima as pennas dos empregados rangiam nos livros e o rumor das folhas que viravam era ás vezes o unico que se ouvia.
Naquella grande paz da fortuna conquistada, Francisco Theodoro sonhava então com viagens demoradas, largos periodos de abstracção.
Vinha-lhe o cançaço.
Todavia, se reflectia nisso, recuava, com a certeza de que lhe seriam inaturaveis os dias sem aquella confusão de trabalho, longe d'aquella atmosphera carregada e das tantissimas preoccupações do seu commercio. A esse desejo indeciso, que com tanta justiça o seu corpo e o seu espirito fatigado reclamavam, mesclava-se agora uma febrinha nascente, que o incitava a novas emprezas e que elle combatia com animo e juizo.
Oh! se o Mario fosse um homem, se tivesse geito e coragem para aquella vida ... com que satisfação elle o sentaria no seu logar e lhe mostraria o caminho já feito, facil de percorrer!
Fôra bem castigado o seu desejo de ter um filho, não pelo filho, mas pelo orgulho da continuação d'aquella casa, que levaria o seu nome a outras gerações. Viera o filho e voltava as costas á fortuna.
A casa passaria a mãos extranhas, ou teria de morrer com elle...
Era o que lhe custava, deixar a melhor obra da sua vida, em que tinha concentrado tamanhos sacrificios, sonhada nos seus tempos de tropeções pelas ruas, e executada depois aos bocadinhos, no esforço de uma vontade energica, a gente que a pagasse, como uma coisa qualquer, e lhe mudasse o nome.
Como era bemsoante aquelle—Casa Theodoro—um rythmo de ouro!
Naquella rua, de casas ricas, ella seria a mais rica, se o Gama Torres não se tivesse posto adeante, ajudado pela mão do diabo, que a de Deus só auxilia os homens de longos trabalhos e bellos exemplos.
O que dera fortuna ao Torres? O jogo. Sabia-se agora, por toda a cidade, que elle jogava na Bolsa como um doido. O resultado ahi estava—magnifico; mas não poderia ter sido pessimo?
Certamente, concluia elle comsigo,—não é a isso que se chama ser bom negociante; obra do acaso, nem mais nem menos...
Chegara a hora do café. O primeiro a entrar nesse dia foi o Lemos. As carnes pesavam-lhe; sentou-se logo.
—Então como vae isso, Seu Theodoro, han?
—Bem... Muito trabalho.
—É o que se quer. Eu tambem não paro. Mas quer saber quem vae mesmo de vento em pôpa? O Innocencio; O ladrão tem mão certeira; não erra o tiro! Vi-o hoje fazer grandes transacções com a maior fleugma. O dinheiro não lhe escalda as mãos. Elle vem ahi; deixei-o lá embaixo a conversar com um sujeito. É um finorio de marca.
—É experto, é.
Minutos depois o Innocencio Braga entrou, trefego e alegre, em companhia do Negreiros, que subira para tratar de um negocio, e, emquanto este se entretinha com Theodoro, o Innocencio dizia, voltando-se para o Lemos:
—Hoje é para mim um dos dias mais felizes da minha vida! Imagine que recebi carta do meu procurador, dizendo já ser minha uma quinta lá da minha aldeia, e que eu ambicionava desde rapazinho...
—Terras de trigo?
—Não é por isso. A propriedade só dará despezas. Comprei-a por vingança. O dono era um fidalgo d'esses velhos, de raros exemplares. Por uma questão estupida maltratou meu pae. Eu era pequeno, mas não me esqueci da offensa. Os dias passaram; o fidalgo arruinou-se, e o filho do meu velho ganhou o bastante para fazel-o assignar, ainda que de cruz, as escripturas que lhe dão direito á posse da sua quinta. Meu pae já se installou no palacio; o diacho é que, pelos modos, elle não se acostuma á ociosidade e vae para o campo mondar o linho com os empregados ... não faz mal, é o dono.
—Realmente, foi um acto de amor filial, muito digno ... murmurou o Lemos, assoando-se com estrondo.
Isidoro entrou com o café e a conversa generalisou-se.
—Então, senhor Theodoro, é verdade que o Joaquim é seu interessado?
—É...
—Inda bem. Você não parecia portuguez, homem; você parecia inglez!
—Porque?
—Por não querer socios. Um casão d'estes póde enriquecer muita gente. Olhe que é um erro isto de querer tudo para si.
Sim, pensou Francisco Theodoro, a vida é curta, e uma fonte cavada com tanto esforço é justo que dê agua com abundancia para muitas sêdes...
Já o Isidoro recolhia as chicaras quando entrou o João Ramos, a bufar de calor. Pediu noticias da saude de todos e mesmo antes de ouvir as respostas vasou quanto sabia acerca dos negocios. Vinha da casa do Lessa, que auferira lucros extraordinarios de uma especulação de café. Elle tambem se mettera em grandes emprezas; sacou papelada que lhe enchia os bolsos e representava muitos contos de réis.
Innocencio Braga citava nomes de pobretões tornados em millionarios, com a alta, quando João Ramos o interrompeu, consultando os amigos se deveria acceitar a presidencia de um banco. Elle hesitava...
Innocencio aconselhou-o a que accedesse. O cargo era de prestigio. Depois, o tempo effervescente do jogo tinha passado. As transacções agora faziam-se com mais segurança. Tambem elle tinha em formação um grande projecto...
Theodoro suffocava; não ouvia fallar noutra coisa. O seu visinho da esquerda e o seu visinho da direita passavam, quantidades fabulosas de libras para a Europa, ganhas no azar do momento. E elle?
As suas reflexões tomaram um curso tristonho. Trabalhara tanto, para afinal alcançar o que os outros adquiriam com um gesto!
A pouco e pouco os seus amigos mais circumspectos iam-se atirando á voragem da Bolsa. Afortunados, como se mão invisivel os guiasse, ganhavam quasi sempre. Só elle resistira, firme nos seus principios de moral e de economia. Mas o contagio da febre manifestava-se já nos primeiros arrepios da tentação.
Francisco Theodoro reflectia...
Quando os amigos sahiram, elle caminhou machinalmente para a janella.
Olhou: embaixo a pretinha velha varria pressurosa a calçada, ajuntando o café da rua. Carregadores sahiam-lhe da porta, vergados ao peso das saccas. Os carroções passavam cheissimos, com estardalhaço, chocalhando ferragens, e um rumor compacto de vozes levantava-se no ar espesso, engrossado de pó.
Era o trabalho, que passava, ardente e esbaforido.
D'aquelle esforço surgiria a redempção do povo. É com suor e lagrimas que se fertilisam os melhores campos.
Da enxada, que fatiga o braço e rasga o seio do barro, é que deriva o bem da humanidade, a agua que mata a sêde e a arvore que dá sombra e se desmancha em flores.