A fallencia
Capítulo XV
No dia seguinte, quando acordou, era tarde. Tia Joanna sahira sozinha para as devoções; nem a presentira. Tia Itelvina andava aos berros pela casa.
Ruth saltou da cama assustada e foi entreabrir a porta:
—Que é?
A tia respondeu-lhe com mau modo, em uma rebentina:
—A Sancha fugiu!
Um tremor de febre percorreu o corpo de Ruth.
Atirou-se para a cama, puxou os lençóes até a cabeça. Para onde teria ido a pobre, sózinha, sem conhecer ninguem? De quem seria a culpa se lhe acontecesse uma desgraça?... De quem, senão d'ella?... Ora! sempre seria mais feliz lá fora...
Quando nesse dia Noca appareceu no Castello, Ruth lançou-lhe os braços ao pescoço. Era a sua libertação.
D. Itelvina rabeava pelas salas e corredores, culpando a irmã, que se levantava fora de horas para a carolice e deixava a casa escancarada, provocando a negrinha para o assanhamento da rua.
Foi ao fragor d'essas invectivas que Ruth se despediu da velha, deixando-a sozinha no seu casarão, onde as catingas do rato e do mofo vagavam conjunctamente.
XV
Creanças, venham lanchar! gritava Nina para o jardim, ás gemeas, quando viu entrar a Therezinha Braga.
—Você chegou a boa hora, Therezinha, nós vamos tomar café. Entre.
—Estou com muita pressa; quero ver se vocês me emprestam o ultimo figurino.
—Mas nós não temos d'isso. Tia Milla manda fazer tudo fora...
—Manda a Noca pedir alli á casa do Dr. Nuno!
Nina vacillava, com vontade de servir a amiga; mas a mulata, que ouvira tudo da janella da copa, interveio com ar peremptorio:
—Seu Theodoro não quer que se peça nada á visinhança.
—Elle não precisa saber ... insistiu a Therezinha, ainda no jardim.
—Oh, xente! Porque é que a senhora não manda pedir os figurinos em seu nome?
—Porque estamos mal com o Dr. Nuno ... ora, você bem sabe!
—Eu não. Eu só sei que temos ordem de não incommodar a visinhança. Seu Theodoro não é para brincadeiras; quando põe a bocca no mundo vae tudo raso! Creanças! olhe só onde ellas estão!
—Vae buscal-as, Noca, que o café arrefece. Entra, Therezinha, talvez se possa arranjar alguma coisa...
—Esta D. Nina, não tem emenda! murmurou por entre dentes a mulata.
Servindo o café, Nina explicou á Therezinha:
—A baroneza da Lage está lá dentro; eu vou pedir-lhe que me mande logo os seus figurinos.
—É para o meu vestido de baile.
—Você mesma é que o vae fazer?
—Que remedio! Sabe de que côr são os das Gomes?
—Não...
—Amarellos! A Carlotinha pediu á modista que lhe decotasse bem o vestido atraz, para mostrar o signal preto da espadua ... é levada, a Carlotinha! Ninguem dirá, ás vezes, que é uma moça de familia: parece outra coisa...
—Está muito bonita, agora, depois que engordou.
—Mas cada vez mais maliciosa...
Nina não respondeu; mandava o copeiro servir o café á sala. Lia e Rachel entraram arrastadas pela Noca, tentando morder-lhe as mãos, muito pirracentas.
—Já viram só estas meninas como estão! Bem, D. Nina! dê todos os sonhos a Ruth.
Nina elevou, sorrindo, o prato de sonhos em direcção a Ruth, que se balançava em silencio numa cadeira, e então as creanças avançaram para a mesa, á espera do café.
—Ora graças!
Engulido o café, Therezinha declarou:
—Tenho muito que fazer; adeus, vou-me embora!
As gemeas fugiram tambem, com as mãos cheias de sonhos, para o jardim; Nina e Ruth ficaram sós, muito caladas, ouvindo as moscas voejar sobre os restos assucarados dos pratos.
De repente, Nina:
—Em que é que você está pensando, Ruth?
—Na Sancha.
—Que ideia!
—É que ninguem sabe! fui eu que disse á Sancha que fugisse. Tive tanta pena d'ella! Tia Etelvina é má: batia na negrinha com vara. Eu vi. A Sancha nem parecia gente; suja, desconfiada ... que estupida! Não sei como ella podia aguentar aquella vida. Fui eu que lhe disse que fugisse; e depois que ella fugiu, tenho medo que morra por ahi átoa, que não ache emprego, que se embebede ou fique embaixo de um bond... Até sonho com a Sancha. Que coisa horrivel!
Nina consolou-a. A Noca já lhe contara que a pretinha quizera envenenar-se; era menos burra do que parecia.
—Você é muito nervosa; deixe lá a Sancha, pense em outra coisa. Tia Milla ainda está no terraço com a baroneza da Lage ... vamos lá?
—Para que?
—Para fallar nos figurinos... Eu ando um pouco desconfiada com tantas visitas d'aquella senhora ... você tem reparado como ella cochicha com Mario?
—Não...
—Pois repare... A lesma da Paquita tem bom advogado!
—Mario não gosta d'ella.
—Quem disse?
—Elle mesmo, bem alto, outro dia na mesa. Você não ouviu?
—Ouvi...
—Então?
—Então? Quem sabe o que estará para acontecer!
Nessa tarde Camilla participava em segredo ao marido que a baroneza da Lage viera declarar-lhe o amor da irmã por Mario, e lembrar-lhe que o baile seria uma bella occasião para a apresentação dos noivos.
O negociante olhou boquiaberto para a mulher.
Ella disse:
—Elles desejam abreviar essa historia, porque o velho quer ir para a Europa.
—Mas é incrivel!
—Porque?
—Porque! porque o Meirelles é um homem pratico; não ha de querer entregar a filha a um rapaz sem profissão! Isso não pode ser. A Lage está doida.
—Você é injusto... Mario não tem profissão, mas pode vir a tel-a.
—Lá vêm cantigas! Pois sim! Aqui para nós: o rapaz não vale nada. Quem não trabalha, que garantia pode dar á familia?
—Elle é rico, e a Paquita ainda o é mais...
—Por esse lado approvo. O dote d'ella é bom, e a familia excellente. Se o Mario soubesse ser o que sempre desejei, pouco me importaria que se casase com mulher pobre. São as melhores; trazem a experiencia da vida. A experiencia da vida é um grande dote.
—Você falla com Mario?
—Eu?! eu não. Não concorrerei com o meu conselho para semelhante asneira. Arranjem-se; Que diabo! elle ainda não tem vinte annos. Falla-lhe tu ... se quizeres.
Francisco Theodoro passeava pelo quarto, com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar as chaves.
—A Lage disse-me tambem que você entrou em uma grande negociata com o Innocencio...
—Como soube ella d'isso?!
—Não sei... Diz que a sua casa vae ser uma das mais fortes ahi...
—Tenho medo...
—Hein?
—Não é nada; está feito. Pois senhores, parece incrivel, elles querem mesmo o casamento?
—Então? Logo que Mario queira, será coisa para uns quinze dias. O Meirelles deseja levar os noivos comsigo. Bem pensado, Paquita teve bom gosto.
—Muito fresco! Olha: eu lavo d'ahi as minhas mãos.
—Logo vi... Mario já deve ter chegado; eu vou fallar com elle. Por emquanto é bom não dizer nada a ninguem.
—A quem o dizes...
Theodoro ficou só no quarto, mudando de casaco e de calçado, vagarosamente, com sentido no negocio que o preoccupava.
Como diabo teria a Lage sabido d'aquelle negocio com o Braga?
Abriu a janella e encostou-se.
De baixo, da sala de jantar e da cozinha subiam o cheiro de gorduras e a musica da crystallaria e da prata movidas pelo copeiro.
No grande lago do parque, de aguas renovadas, patos gordos desprezavam as migalhas de pão que a Rachel e a Lia, deitadas de bruços na relva sobre os bordados bem engommados dos vestidos, lhes atiravam ás mancheias. Sob a jaqueira enorme, carregada de fructas grandes como ubres tumidos, o cão de guarda preso á corrente, devorava uma enorme posta de carne em um alguidar. Todas as plantas, bem tratadas, rebentavam em grellos viçosos ou se expandiam em flores, e pela rua de palmeiras, que ia ter á horta, o jardineiro vinha carregado com uma cesta de fructas e frescos pés de alface.
A terra suava de farta; não lhe faltava nem o adubo que lhe dá força, nem o ornamento que lhe dá graça. Afigurou-se então a Theodoro, com clareza, que a vida é uma coisa bem boa para quem vence e faz cahir sobre o terreno que o circumda a chuva de ouro fecundante.
No seu orgulho de homem sahido do nada, aquelle goso material da riqueza enchia-lhe a alma de uma especie de heroismo.
Era como se elle tivesse feito tudo, desde as pedras dos fundos alicerces do seu palacio até as mais exquisitas fructas do seu pomar e as mais divinas flores das suas roseiras. Semente germinada á custa do seu dinheiro, era obra sua, envaidecia-o, como se a suprema perfeição da planta lhe tivesse sahido de entre os dedos poderosos.
Em todo esse sentimento de conquista havia, a bondosa ingenuidade de ter sabido crear para os seus uma felicidade perfeita.
Nunca os filhos saberiam o que era uma infancia como fôra a sua, desagasalhada, errante; nunca a mulher saberia o que era ter um desejo sem esperança de satisfação, e a todos envolveria sempre o luxo, a abundancia e a alegria.
As copas das palmeiras desenhavam-se em fila na atmosphera limpida.
Uns passos rangendo na areia chamaram-lhe a attenção para baixo da janella: Camilla e Mario sahiam de casa para o jardim. Ella; alta, bem desenhada no seu vestido claro, andava de vagar; elle, com o peito florido por um fresco bouquet de myosotis, as mãos nos bolsos, parecia ouvir a mãe com attenção a que não era afeito.
Seguiram ambos para o jardim da frente e deram volta á casa; quando os perdeu de vista, Francisco Theodoro desceu á sala de jantar; A mesa estava prompta; Nina, com o seu aventalzinho bordado sobre um vestido escuro, dava uns retoques á fructeira.
—O Dr. Gervasio almoçou cá? perguntou-lhe o tio.
—Como sempre.
—Virá jantar?
—Creio que não...
—É o diacho ... eu precisava fallar-lhe!
—O seu empregado está peior?
—Parece-me que sim ... coitado...
Nina suspirou, e da fructeira passou ás flores da jarra, pensando no velho Motta, que mal conhecia, entretanto. Depois de uma pausa:
—Quer que eu mande tocar a sineta?
—É bom esperar um pouco; tua tia está em conferencia com o Mario. De maneira que o Gervasio não voltará hoje por aqui?
Nina não respondeu, o coração batia-lhe com força. A ideia da Lage deu-lhe o presentimento da verdade. Seria certo, Deus do céo, que Mario se casaria com a outra? Conferencia com elle... para que?
Francisco Theodoro recostara-se em uma cadeira do terraço, lendo um jornal da tarde a que pouca attenção prestava. O que estaria a mulher a dizer ao filho? Julgava do seu dever não intervir naquella creançada; se o fizesse, seria para despersuadir a moça de tal casamento: conhecia a frivolidade do filho; o que o espantava era o consentimento do intransigente Meirelles: só explicava aquillo por caduquice; miolo molle.—O homem ensandeceu! Ora, ora! dar a filha ao Mario!—resmungava elle de vez em quando, com estupefacção, como se fizesse um commentario ao artigo acabado de ler.
Nina, que se agitava de um lado para o outro, indo de armario a armario, de janella a janella, veio para o terraço e encostou-se á balaustrada, muito abatida. De seus olhos pardos sahia uma luz branca, onde relampejavam fulgores frios.
Vira de relance a tia e o primo embaixo dos tamarineiros, e fugira depressa da janella da copa para o terraço, com medo de perceber-lhes nos gestos a expressão exacta das palavras que diziam. Adivinhava a verdade, mas temia ouvil-a, porque essa verdade não a magoaria só, offendel-a-ia tambem. Era como que um ultrage á sua mocidade outomniça, á sua pobreza e á sua fé no amor. Sentia-se predestinada a ser na vida uma espectadora da ventura alheia, e uma revolta de sentimentos dava-lhe desejos máos.
A tia, contra o dever, não amava, não era amada, não sacrificava tudo pelo perfume de uma palavra amorosa, pela loucura divina de um beijo? Aquelle livro de paixão, tão imprudentemente aberto deante dos seus olhos, não a fizera por tantas vezes estremecer de inveja e sonhar com as delicias do amor?
Até ahi respeitara aquella paixão, sentia-a sincera, fazia-se céga, apiedada d'aquellas almas felizes. Agora tinha impetos de se vingar, de arrancar das mãos do tio o jornal, de gritar-lhe com toda a força a historia d'aquelles amores que a humilhavam, porque entre ella e a tia, não era a outra, casada e mãe, mas sim ella, orphã e virgem, quem tinha direito áquella felicidade de amar e de ser amada...