A fallencia

Júlia Lopes de Almeida · Capítulo 10 de 26

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A fallencia

Capítulo X

Nina estava hirta, encostada ao espaldar de uma das cadeiras arrumadas junto á mesa. Um vento de desespero sacudiu-lhe as idéias, sem que ella atinasse com que palavra responder. Francisco Theodoro reclamou então d'ella, mesmo para a tirar do embaraço em que a via, que lhe partisse uma fatia do roast-beef frio e que lhe fosse depois buscar o Jornal, esquecido em cima, no quarto de toilette.

Aquella maneira polida e reservada não era a usada pelo negociante nos seus momentos de censura. Ao contrario, elle abusava dos termos violentos e atroava a casa com as suas mais altas vozes. E era uma d'essas crises que a Nina esperava e que viu mudada num tom em que a admoestação era misericordiosa, e por isso mesmo mais commovedora.

Ella não respondeu, e apressou-se em servir o tio.

 

X

 

Raras vezes as tias do Castello appareciam em Botafogo. D. Itelvina não se arredava de casa, espicaçando o serviço da Sancha, arreliada com os desperdicios e a beatice da irmã; esta é que, de longe em longe, ia sentar-se á mesa de Milla para uma palestra curta, no intervallo das suas devoções.

Nina, ainda atarantada pela advertencia do tio, punha no terraço a gaiola do cacatuá, quando viu D. Joanna atravessar o jardim com os seus passos vagarosos, de mulher gorda e cançada.

—Que milagre! a senhora por aqui!

A velha sorriu-lhe e só depois de sentada num banco do terraço é que fallou, com a blandicia costumada, desamarrando com as mãos papudinhas o nó da mantilha preta.

—Mal imagina você por onde tenho andado!

Olhe: ás cinco horas já eu estava em São Bento, ouvindo a missa de N. S. da Conceição; depois dei muitas voltas pela cidade, angariando esmolas.

—Tão cedo?

—Nos bairros pobres a vida começa de madrugada. Por fallar em esmolas, hontem estive em casa das Bragas, da rua dos Ourives. Conhece-as?

—Não, senhora.

—É pena; são umas almas muito tementes a Deus. Achei-as atrapalhadissimas, preparando doces para offerecerem ao vigario Alves, que faz annos hoje. Não imagina como ellas são...

—Desculpe, tia Joanna, interrompeu Nina; e voltando-se para dentro:

—Ó Dionysio, leve o café ao Sr. Mario, ouviu?

—Ainda estão dormindo?!

—Tio Francisco já sahiu.

—Triste peccado é a preguiça ... emfim, cá estou eu rezando por todos... Pois as Bragas entregaram-me dez cartões para um grande concerto que vae haver no Cassino, em beneficio da egreja do Monte Serrate... Para o fim que é, ninguem se póde negar; Camilla deve levar a Ruth a essas festas de musicos... Eu pago a minha cadeira, mas lá não vou, e as outras nove espero deixal-as aqui. Vocês vão a tantos espectaculos indecentes, que não fazem nada de mais indo a este, que é para bom fim. Canta uma tal ... Marcondes, ou ... não sei quê...

—A senhora falle com tia Milla. Seu João! chamou ella interrompendo outra vez a conversa, voltada para o jardineiro que passava: olhe! é preciso fazer um ramo novo para a sala de jantar; como não ha rosas, faça de folhagens... Já reparou para as palmeirinhas da entrada?

—A chuva escangalhou-as; desfolhou as flores, e abriu covas nos canteiros, que Deus nos acuda!

—Veja se remedeia isso hoje mesmo...

O jardineiro passou; D. Joanna disse:

—É pena que não haja rosas; eu gostaria de levar algumas ao vigario Alves. Hontem a mulher e as filhas do Dr. Mendes passaram lá o dia, pregando cortinas, tapetes, ajudando D. Maria a enfeitar o quarto do filho... Aquellas são tambem muito boas pessoas...

—Quer café, tia Joanna?

—Acceito... Você é das taes que nunca vão á missa ... ha de se arrepender...

—Não tenho tempo... Quer mais assucar?

—Quero... Qual não tem tempo!... pois olhe, você tem peccados atraz de si, que deve purgar, se quer merecer o nome de boa filha...

Nina franziu as sobrancelhas e, desviando a vista do rosto branco da tia, olhou para o jardim, ainda empapado d'agua, muito verde, juncado de folhas arremessadas pela ventania.

D. Joanna saboreava o café, sem reparar na moça, que continuava em pé, com o rosto contrahido por uma expressão de raiva e de melancholia.

Ruth encontrou-as assim. Ella vinha toda fresca do banho, com o seu cabello negro e ondeado solto sobre os hombros estreitos, e o vestido branco, de cinto largo, que lhe tornava a cintura grossa e lhe dava ao corpo um ar de anjo de cathedral.

—Como está crescida! exclamou D. Joanna ao vel-a.

Ruth mostrou os dentes alvos num sorriso alegre.

—Bons dias! Sabe, tia Joanna? ainda hontem pensei na senhora!

—Porque?...

—Porque ando com muita vontade de ir ao observatorio do Castello ver a lua e as estrellas.

—Que lembrança! pensei que fosse para a levar a alguma festa de egreja...

—Não; isso cança-me, e, depois, já tenho visto tantas! Naquella da Sé, outro dia, os musicos desafinaram que foi um horror! Se ao menos cantassem bem... Quem me lembrou a ida ao observatorio foi o capitão Rino. Ver bem a luz e a côr das estrellas é o que me preoccupa agora. Leve-me lá, titia, sim?

—É melhor que você pense em conhecer o céu por dentro.

—Seria querer demais. Você já leu hoje a Flor de Neve, Nina?

Nina meneou com a cabeça, que não.

—Que historia é essa de flor de neve? indagou D. Joanna.

—É um romance do Jornal, muito bonito. Estou morta por saber se a Magdalena morreu ... tambem se tiver morrido não tornarei a pegar no Jornal!

D. Joanna ia reprovar a leitura, quando Camilla appareceu no terraço, bonita, de peignoir côr de rosa, toda rescendente, dando as mãos ás duas filhas pequenas.

Nina tomou a bençam á tia e, para fugir á presença da velha, que naquelle momento se lhe tornara odiosa, entrou logo para a sala de jantar.

—Isto aqui está muito humido; porque não foi lá para dentro, tia Joanna?

—Este banco está enxuto. A Nina estava aqui...

Camilla, depois de cumprimentar a tia, tirou da gaiola o cacatuá e beijou-o no pennacho.

Depois, para a velha:

—O que a trouxe tão cedo?

D. Joanna voltou á historia das Bragas, da missa em S. Bento, e apresentou á sobrinha as dez cadeiras para o concerto em beneficio da capella do Monte Serrate.

—Como é para um motivo de religião, eu fico, do contrario não; porque exactamente no domingo tenho convite para uma festa.

—Hoje faz annos o vigario Alves; você não lhe manda um bilhete?

—Posso mandar.

—Acho bom. Elle reza muito por sua intenção. É um santo padre e um perfeito homem.

—Elle é bonito, e trata-se bem. Já tomou café, titia?

—Já... Porque é que você deixa Ruth ler jornaes? Ella fallou ahi num folhetim; isso são obras impuras; é preciso zelar pela alma de sua filha.

—O pae não se importa, que hei de fazer?

—Ainda não fez a primeira communhão?

—É cedo.

—Não é tal. Ella não quererá?

—Se quer! ainda que não fosse senão para pôr corôa e véu... Todas as meninas sonham com a primeira communhão. É um ensaio para o casamento.

—Heresias... E o Mario ... como vae o Mario?

—Está um moço bonito.

—E ... mais ajuizado?

Camilla corou levemente, roçou em um disfarce as faces pelas azas brancas do cacatuá, e respondeu com um sorriso:

—Como todos os rapazes de vinte annos...

Lia e Rachel tinham-se engalfinhado a um canto por causa de um pecego verde, derrubado pela chuva e que ambas disputavam. Milla chamou a Noca, que interviesse e levasse as contendoras para dentro. D. Joanna levantou-se com um gemido e foi sentar-se a um canto da sala de jantar.

Estava alquebrada, pezavam-lhe as pernas; soube-lhe bem a flacidez da poltrona, que a envolveu logo numa caricia de somno. Cochilou gostosamente, mal ouvindo as correrias e as gargalhadas das creanças, o tinir das louças que punham na mesa, e os passos da criadagem em movimento. Atravéz do somno tudo aquillo era subtil e bom como uma musica a distancia. Quando despertou, iam servir o almoço. Perto, em um vão de janella, o Dr. Gervasio, com roupa clara e flores na lapella, conversava baixo com a Camilla.

D. Joanna tossiu para prevenil-os da sua presença; não se queria aproveitar do momento para indiscreções. Por fortuna, Nina entrou na sala, vinda da cópa, carregando uma cestinha de uvas brancas.

Lá em cima Ruth atacava os graves e agudos do violino, com frenesi.

«Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo, parece o zurrar de um burro!» pensou comsigo a velha, espreguiçando-se disfarçadamente.

Á hora do almoço, o Dionysio trouxe uma bandeija para servir Mario no quarto, visto que este só comparecia á mesa da familia quando o Dr. Gervasio não estava.

Camilla mal encobria o seu desespero, velando aquella offensa com desculpas frouxas, só para que o medico não reparasse. E elle nem viu tal coisa; acceitou os pretextos sem desconfiança. Mario merecia-lhe pouca attenção.

Entretanto, Nina apartava para o primo o melhor bife, o pedacinho de pão mais fofo e os ovos mais perfeitos. D. Joanna notou aquillo muito calada, com medo de mexer em casa de maribondos, arrancando do peito suspiros curtos, que afogava em bordeaux...

Dr. Gervasio observava a Ruth, que os exercicios, que lhe ouvira não estavam no andamento justo. Deveria repassal-os, antes da lição; depois aconselhou a Camilla que chamasse uma aia ingleza ou allemã para as gemeas, que perdiam o tempo, pervertendo-se com a linguagem de criadas boçaes. Elle opinava pelas allemãs; são disciplinadoras, risonhas e mais accessiveis que as outras. Depois de dirigir uns dois gracejos a Nina, o medico fixou com attenção o rosto pallido e humilde da D. Joanna, muito calada ao lado de Ruth. Lembrou-se de relance do encontro que tivera com ella no alto da ladeira de João Homem, sobre as pedras gordurosas da calçada, entre magotes de moleques curiosos e paredes sujas de predios velhos.

Ficara-lhe no ouvido toda a censura d'ella, e houve então nelle um impeto de agarrar Milla e de beijal-a mesmo alli, deante dos olhos castos e pudibundos da velha.

Foi só depois do café, ao accender o charuto, que elle ouviu D. Joanna, com o seu tom assucarado, queixar-se á sobrinha:

—Porque é que você não ensina ao menos as suas filhas a se persignarem quando se sentam e se levantam da mesa? Dar graças a Deus pelos bens que recebem não é vergonha nenhuma... A sua consciencia, Milla, está muito perturbada por máus conselhos e exemplos de atheus sem caridade... Eu não queria fallar, mas tenho-lhes muita amisade para ficar impassivel; não lhe parece que está em tempo de ensinar estas meninas a respeitarem a nossa religião?

Dr. Gervasio sorriu; comprehendera o remoque; Milla protestou:

—Todos em casa eram religiosos, ninguem deixava de ouvir a sua missa ao domingo, excepto a Nina, que nunca tinha horas para coisa nenhuma, e uma ou outra criada mais sobrecarregada de serviço; á noite tambem ninguem adormecia sem ter rezado pelo menos um Padre Nosso. Ella não se esquecia dos seus deveres.

Isto foi dito em tom secco, que encrespou um tanto o genio manso da tia; para vingar-se do medico, de quem suppunha emanar toda a alteração d'essa familia tão sua, ella exclamou com ironia, voltando-se para elle:

—Aposto em como o doutor tambem reza todas as noites?

—Aos meus deuses, respondeu elle com toda a calma, porque não?

—Como se chamam os seus deuses?

—Camões, Dante, Shakespeare... Nunca adormeço sem ter lido algum poeta, e de alguns recito mentalmente versos divinos. É a razão por que me explico ter tão bellos sonhos, visto que este feio homem que aqui está, excellentissima, tem sonhos que perfumariam a existencia da mais formosa das mulheres. Hontem li Dante. Estive no inferno, D. Joanna, e que inferno bellissimo!

—Vá trazendo para cá essas ideias...

—Descance; esta religião não se ensina; é para os iniciados. A senhora já ouviu fallar em Byron?

—Algum inimigo da nossa Egreja, como o senhor?

—Mas eu não quero mal á sua Egreja! acho-a só muito triste, toda voltada para a morte... Não lhe quero mal, porque para sua glorificação ella tem creado cathedraes que são verdadeiras apotheoses da arte.

—Só por isso?

—É uma das razões, e a unica facil de explicar-lhe.

—Julga-me muito bronca.

—Ao contrario, estou-lhe fallando como a um litterato! Agora, se quer, discutamos religião e philosophia. Conhece Comte?

—Algum damnado.

—É o termo.

—Eu sei, adoram-no numa Capellinha da rua Benjamin Constant. Que peccado!

—Ah! já tem noticias... Estamos bem adeantados.

—O senhor é um dos taes que não perdem essas sessões?

—Eu nunca lá vou. Já lhe disse, detesto a philosophia. Para enfadar-me basta-me a medicina e para distrahir-me as minhas roseiras. A senhora conhece algum bom remedio para matar pulgões de roseira? Tenho uma Yellow Persian quasi perdida!

—A sua medicina nem para as plantas serve?

—Nem para as plantas, a miseravel!

—Tia Milla! disse Nina apressada, entre as portas do corredor.

—Que é?

—Estão ahi a baroneza da Lage e a irmã...

—Meu Deus! e eu de peignoir!

Dr. Gervasio voltou-se e disse:

—Pois está muito bem; quem procura uma senhora a estas horas, sujeita-se a ser recebido assim. Digo-lhe mais; para mim não ha vestido tão bonito.

—Então vou assim mesmo...

D. Joanna sorriu com magua; até nisso a opinião do diabo do homem era seguida!

—Bem, Milla, ficamos despedidas, disse ella, eu vou-me embora. O dinheiro dos bilhetes?

—É verdade! Nina! dá cem mil réis a tia Joanna pelas dez cadeiras. Até outra vez, tia Joanna. Lembranças.

—Adeus.

A moça sahiu.

—Jesus! exclamou logo a velha, já passa de uma hora e Milla esqueceu-se de dar-me o cartão para o vigario Alves!

O medico voltou-se rapidamente, com uma curiosidade transparecendo-lhe no rosto. Que desejaria Milla dizer por escripto ao padre Alves? A velha percebeu-lhe a extranheza do gesto e voltou-lhe as costas antes que elle lhe pedisse alguma explicação, afogando o rosto flacido na juba negra de Ruth, com muitos abraços, ternuras e lembranças ao Mario.

Quando Camilla entrou no seu salão, a baroneza da Lage, toda de setim preto, estava de pé, contemplando um quadro insignificante, ricamente emmoldurado.

A irmã, sentada perto do sofá, com um arzinho enfadado de loira anemica, distrahia-se brincando com os dedos enluvados nos berloques do seu cordão de ouro.

A dona da casa desculpou-se logo por se apresentar d'aquelle modo...

—Mas está em sua casa, está muito bem. Olha, Paquita, este peignoir é quasi egual áquelle que eu comprei hontem no Raunier, não é?

A Paquita meneou languidamente a cabeça, que sim.

—Adivinhe agora o motivo da minha visita! disse a baroneza atravéz de um bello sorriso.

—É facil. Vem participar-me o seu casamento!

—Casar-me, eu? qual!

—Porque não? É a viuvinha mais cobiçada d'este Rio de Janeiro.

—Infelizmente. Imagine: tenho agora em casa uma senhora, especie de dama de companhia, sabe? só encarregada de receber e despedir os meus pretendentes... Não se ria, saiba que é verdade. Não é verdade, Paquita?

Paquita meneou a cabeça, que sim.

—Bem vê. Mas onde ouviu dizer que eu estava noiva?

—Em um bond.

—Já me tardava. O bond é o eterno mexeriqueiro d'esta terra. Tambem vocês quando não querem comprometter os seus informantes, attribuem ao pobre bond todas as indiscreções... Por isso o abomino. Só saio de carro... Não! Eu não venho participar coisa nenhuma; venho pedir a sua Ruth para abrilhantar um concerto que nós, protectoras do Sagrado Coração, pretendemos dar no dia quinze. Se não fosse coisa de religião, eu não me metteria nisto. Já me têm pedido para organizar festas em beneficio de escolas e de hospitaes para pobres, como se na nossa America houvesse pobreza... Creia, minha amiga, no Brasil não ha miseraveis, ha atheus. Precisamos de regenerar o povo com exemplos de fé christã.

Camilla concordou; Paquita atreveu-se a dar uma sentença.

Houve uma pausa.

—Paquita deu-me um dia d'estes noticias de seu filho; diz que está muito bonito moço.

Paquita atirou á irmã um olhar de reprovação; mas as palavras já tinham sahido, e nenhum poder as faria voltar ao ponto de partida.

—Está ... mas um pouco vadio; não gosta de trabalhar...

—Oh! nem precisa d'isso! É muito distincto. Eu, no caso d'elle, faria o mesmo.

—Sim, mas o pae é que não se resigna a isso.

Paquita esboçou um sorriso que não foi notado. A baroneza continuou:

—Já recebeu convite para o nosso baile?

—Já...

—Esperamos que seja Mario quem nos marque o cotillon. Papae gosta muito do Mario.

O pae da baroneza e da Paquita era um velho portuguez, antigo cavouqueiro, que boas auras de fortuna tinham tornado capitalista. Toda a cidade conhecia as suas anecdotas e simplicidades. Demais, elle gabava-se dos seus principios rudes e pesados.

—Nós tambem preparamos um baile; somente a data é ainda incerta, disse Camilla.

—Já se falla nisso.

A baroneza conversava com volubilidade, mal tocando nos assumptos. Fallou muito e fallaria ainda mais se a Paquita não a interrompesse de repente com uma phrase secca:

—Vamo-nos embora.

—Sim, vamo-nos embora.

Quando ellas se despediram, com a promessa de que Ruth tocaria no concerto, Camilla ficou com as mãos cheias de bilhetes para a matinée.

A baroneza, no meio da vidrilhada do seu vestido de setim preto, caminhava como se levasse musica comsigo; tinha os passos cadenciados, o busto bem erguido, um calor doce nos seus formosos olhos acastanhados de morena.

Paquita seguia-a, com o seu modo vago, em que tudo parecia escapar á observação. Camilla notou, ao apertar-lhe a mão, a magreza do pulso, um pulso alvo, fino, de creança doente, entrevisto entre a luva e a manga.

Em baixo, no vestibulo, as moças esbarraram com o Dr. Gervasio, que sahia tambem, cançado de esperar por Camilla.

Houve então uma troca de olhares significativos entre a baroneza e a silenciosa Paquita, que fez ao medico um quasi imperceptivel signal de cabeça. A irmã, muito expansiva, reteve-o, fallou-lhe com alegria, achando geito de lhe encher os bolsos com os bilhetes do seu concerto de religião.

Nessa tarde o capitão appareceu em Botafogo. Começavam a notar-lhe a ausencia; Lia e Rachel, quando o viram, saltaram-lhe para os joelhos.

Ruth veio em alvoroço, chamando-o de ingrato, pedindo noticias do Neptuno. Nina acolhia-o sempre com sympathia, achando nelle um ar de bom amigo, a quem num lance de perigo ou de angustia o coração de uma mulher póde vasar uma confidencia e pedir um conforto; Francisco Theodoro abriu-lhe os braços: Porque não apparecia, havia tanto? Só Camilla sorriu com esforço e reserva, extendendo-lhe a ponta dos dedos frios.

E era por isso que elle fugia agora d'aquella casa, onde o seu pensamento vivia encurralado, como um animal teimoso. O seu amor por Camilla crescia á proporção que elle se abstinha de a procurar, ou que se via maltratado por ella. Não achava explicação para aquella mudança; não a recebera elle no seu navio como a uma princeza?

As creanças abraçavam-n'o com enthusiasmo.

—Meninas! que é isso? então! exclamava Francisco Theodoro, rindo, muito fraco pelas denguices das gemeas.