A fallencia
Capítulo XXIV
—Não tive a intenção de a offender. Se eu não tivesse encontrado aqui aquelle maldicto homem, as coisas teriam caminhado de outra maneira. Compete agora a mim o dever de zelar pela sua honra. A senhora é viuva, o Dr. Gervasio é solteiro, amam-se, casem-se. É logico.
—Pelo amor de Deus! Mario!
—A senhora não é creança, deve perceber que d'esse modo compromette o futuro das meninas. O tempo lhe dirá se tenho razão...
—Que insistencia! uma vez por todas: basta, basta, basta!
—Bem, mamãe, calo-me.
—Emfim!
Era opportuno o ponto. As meninas entravam em tropel pelo jardim, gritando:
—Mario, Mario!
Elle chegou á porta, agitadissimo e extendeu os braços a Ruth, que lhe pareceu muito magrinha, já de vestido comprido, como uma senhora. O abraço evocou em ambos a lembrança do pae. Mario semeou beijos e lagrimas nos cabellos da irmã, na sua primeira effusão de ternura.
Foi só depois de tudo acabado, que a Noca, contemplando o moço de frente, murmurou:
—Gentes! reparem como o bigode de Mario cresceu, e como elle está bonito!
XXIV
Domingo de verão: as cigarras chiavam estridulamente no flamboyant da rua. Grande socego em tudo.
Fechada no seu quarto, Camilla tentava ler, mas os olhos fugiam-lhe da leitura para as caminhas vazias das gemeas, entregues desde a vespera á baroneza da Lage. Cumpriam-se as ordens de Mario.
A familia espalhava-se ao bruto ponta-pé da pobreza: uns para aqui, outros para acolá... Que imprevistas soluções tem a vida!
Numa persistencia cruel, o conselho do filho fincava-se-lhe no cerebro. Exangue e dolorida, ella não luctava; a fatalidade faria d'ella o que quizesse... O que a atormentava sobretudo era a saudade das gemeas, que tinham levado comsigo toda a sua alegria e que, ausentes d'ella, iriam dispensando á outra os afagos que deveriam ser só seus! Pobres innocentes, lá viria um dia em que o preconceito da honra se levantasse no seu caminho, como um rochedo em cujas arestas lhes ficassem o sangue e a carne.
Via já a outra como uma inimiga. Fôra ella quem lhe tirara o filho para a irmã; era ella quem lhe tirava as filhas para si. O pretexto humilhava-a, achava-se indigna por não ter tido forças de defender as creanças, arrancadas de casa pela pressão da necessidade. Olhou para as mãos: eram bonitas, mas não sabiam fazer nada. Camilla escondeu-as depressa, arrepiada, nas dobras do casaco.
E o conselho do filho não a deixava, numa fixidex allucinadora. Sim, só Gervasio poderia salval-a, se quizesse dizer primeiro a palavra que ella não tinha coragem de pronunciar.
Camilla fechava os olhos, tapava os ouvidos e sempre, continuamente, entre o seu orgulho de mulher e os seus extremos de mãe, badalavam as palavras do filho:
—Case-se, case-se, case-se!
E elle tinha razão; só assim ella tornaria a ter um lar onde aninhasse as filhas; cessariam os sacrificios de Nina e de Ruth, a Noca trabalharia só para si, e o Mario...
O resentimento que lhe ficára d'aquelle filho, que viera de longe para lhe dizer amarguras, avolumou-lhe as lagrimas que chorava. Tinha-se humilhado, havia de humilhar-se até ao fim. Fallaria a Gervasio.
Devia fazer-se isso depressa, a tempo de salvar toda a gente e reunir as creanças antes do desapêgo completo.
Francisco Theodoro assim quizera, furtando-se á responsabilidade da familia, fugindo da vida desde que a vida, em vez de presenteal-o, lhe pedia favores. Era o abandono; pois bem, ella reconstituiria o lar que elle desmanchara; o seu velho amor, purificado por tantos sobresaltos, por tantas agonias, resurgiria, como um dia de luz apóz outros de negrume, para a felicidade de todos!
O coração faz pagar caro ás mulheres a sua gloria, bem o sabia. Dera tudo, certa de que não era a honra do marido que sacrificava mas a sua propria. Elle não era auctor nem cumplice, não podia ser arguido pela sociedade hypocrita.
Por fortuna, tinha-se empenhado com um homem de bem: Gervasio salval-a-ia. Mario dissera um dia:
—Escolha entre mim e o Dr. Gervasio—Ahi estava ella agora radiante, escolhendo a ambos, porque adorava um, porque era mãe do outro.
As horas passavam devagar. Num piano visinho rompeu uma polka faceira; resoavam gargalhadas na rua.
Que dia lindo e como havia gente alegre na vida! Camilla foi á janella; vacillava ainda. Nem uma nuvem no céu; voltou para dentro e esbarrou com as caminhas vazias. Numa imposição de vontade, despiu-se á pressa e enfiou o vestido de sahir; os dedos mal atinavam com os colchetes; nem olhou para o espelho, na anciedade de partir, de correr para o futuro...
Eram quatro horas quando entrou no bond que a levaria á casa do Dr. Gervasio. Colheu a cauda do vestido, dobrou sobre o rosto o seu véo de viuva, ciosa de que lhe não lessem os pensamentos na alteração do rosto. Dobrava-se, emfim, á vontade da nora, aquella creatura implacavel, que nunca a procurava, conservando-se a distancia, com medo do contacto. Camilla sorria d'aquelles grandes escrupulos, tão tardiamente acordados...
Para melhor evitar a sogra, Paquita mudara-se para Petropolis; e o Mario, sempre com medo de perder a barca, mal visitava a familia, carregado de encommendas para a mulher e o filho, um rapagão nascido longe da avó.
Camilla esquecia-se de tudo isso, abrindo os olhos para as imagens exteriores. Era como se tivesse sahido de um carcere: tudo lhe parecia differente e mais bonito. Começavam já a apparecer as chacaras de Botafogo, grandes relvados, altas palmeiras, frescuras de agua e de sombras macias.
Em quantas d'aquellas casas, ella fizera brilhar as suas joias, rugir as suas sedas, vagar o perfume do seu lenço de rendas e dos seus vestidos! Bons tempos ... ah! mas elles voltariam, quando a fortuna e a lealdade de Gervasio a repuzessem no logar de que a ambição do marido a tinha arrancado.
Ia leve. Como é bonito e curto o caminho da felicidade!
O bond dobrou a rua dos Voluntarios; e uma subita angustia cahiu no coração de Camilla. Ia passar pelo palacete Theodoro como uma extranha. Por um grande trecho da rua, ella esperava esse momento com curiosidade e terror; e quando o momento chegou, quiz abranger tudo com a vista, adivinhar até o que se passava dentro d'aquellas grossas paredes. Na fugacidade do instante só pôde perceber que a janella do seu quarto estava aberta e que tinham substituido por areia preta a antiga areia branca do jardim. Teve impetos de mandar parar o bond, de entrar pela casa, ir até á sua saleta, continuar o bordado ou a leitura interrompida e beijar as duas filhinhas, coradas, offegantes pelas ultimas corridas da bicycleta, que lá deviam estar dentro, ao pé da Noca, na sala de engommar, sobraçando as suas grandes bonecas de olhos azues...
O bond passou, e Milla, toda voltada no banco, olhava para a sua casa, depois para o seu jardim, e ainda, emquanto a viu, para a alta copa ramalhuda da sua mangueira...
Sentiu então como que um desdobramento de personalidade. Ella que passava, sózinha, vestida da lã negra, com um véo de crepe pela cara, mal arranjada, abotoada á pressa, não era a Camilla dos vestidos claros e das mãos luminosas; essa estaria lá dentro do palacete no seu eterno sonho de mocidade, de amor e de belleza...
Quando entrou em casa de Gervasio, teve um impeto de voltar para traz. Todos os seus escrupulos se levantaram em revoada. Feriu-a então a ideia de que já era avó, e que esse titulo devia ser um ridiculo algemando-a ao silencio. O filho de seu filho seria tambem um inimigo? Tão pequenino, apenas nascido, e já teria força para se interpor entre ella e a felicidade?
Um criado abriu o guarda-vento; ella entrou indecisa para o vestibulo. Nunca se encontrara alli sozinha: Gervasio não quizera expol-a aos commentarios dos seus criados; preferira ter um canto obscuro, todo destinado a ella e que nenhuma outra mulher maculasse com a sua presença ou a sua indagação curiosa.
O mesmo criado conduziu-a por um corredor atapetado, ornado de plantas, até uma sala do mesmo pavimento terreo, abrindo sobre um jardinzinho interior, onde as dracenas se empennachavam de flores.
Pediu-lhe que esperasse alli. O senhor doutor conferenciava com um individuo no escriptorio, mas ia avisal-o.
Ella respondeu-lhe que não, não tinha pressa; ficaria até que o outro sahisse...
Quando se viu só, Milla levantou o véo com um suspiro de allivio. Olhou amorosamente para tudo: nas paredes alguns quadros; uma certa sobriedade nos arranjos e nos moveis. Reconheceu numa cadeira uma almofada bordada por ella, e, a um canto, um jarrão chinez com que Francisco Theodoro presenteara o medico, após uma doença grave do Mario.
O marido! o Mario! como elles lhe fugiam para o horisonte da vida... Aquelle jarrão evocava uma epocha feliz. O filho era então já um rapazinho atrevido, mas tão meigo, tão lindo! o marido era forte, fallador, arrebatado, ameaçando fazer cahir a casa ao furor das suas rebentinas. E ella? Ella bem differente: caseira, mal vestida, egoista e muito severa para as faltas alheias... Prodigalisava-se pouco, o proprio marido não obtinha d'ella mais do que o carinho frio, de condescendencia; não por mal, não por proposito, nem sabia porque...
Fôra Gervasio que lhe ensinara a enternecer-se, a reprimir as suas coleras, a perdoar as fraquezas dos outros, a embellezar a sua casa, a sua pessoa, a sua vida, a querer bem a todos, com intelligencia e com consciencia. Antes não o houvera conhecido; ella talvez não tivesse sido boa para ninguem, mas teria sido honesta e não conheceria o soffrimento.
Com os olhos parados nas figuras polychromas do jarrão, Camilla relembrava todo o martyrio do seu amor, nascido pouco a pouco da intimidade...
O tal individuo demorava-se no escriptorio. Ella levantou-se, foi á janella olhar para o jardim. As plantas eram finas; como no interior da casa, havia tambem alli uma tranquillidade distincta. Sentia-se que os gostos e os instinctos do dono sabiam subordinar-se a uma vontade forte.
Camilla olhava abstractamente para as flores, quando ouviu passos no corredor. Voltou-se; Gervasio appareceu no limiar da porta.
—Que é isso, Milla?!
—Nada ... eu...
—Por que vieste?!
Camilla avançou timidamente. Elle continuou:
Por que não me mandaste chamar logo que entraste? Estás tão pallida!... tão fria... Foi uma imprudencia vir aqui, a esta hora!... Mas por que?!
—Lá eu não poderia fallar...
—Tens razão, aquella casa é tão pequena! está-se tão perto de todos! Senta-te, meu amor.
—Contrario-te?
—Nunca! estamos junctos! Falla.
—Eu...
Mal pronunciou a primeira palavra, Camilla arrependeu-se da sua resolução. Era quasi velha, já era avó! Áquelle pensamento toda se enrubeceu; calou-se de novo, com os olhos razos de agua.
—Não te comprehendo ... assustas-me! Tens segredos para mim? Olha que me zango! Vamos, que aconteceu?
—Amas-me sempre?
—Sempre!
—Como ... no principio?
—Mais.
Então baixinho, num sussurro, com o rosto unido ao rosto d'elle, Camilla disse tudo. Levada pelo seu sonho, ella não percebia quanto as mãos d'elle tremiam nas suas mãos e que sombras lhe passavam pelo rosto transtornado.
Quando ella acabou, elle não respondeu; ficou por largo tempo immovel, como se ainda esperasse a ultima palavra.
A viração da tarde encheu a sala com o aroma das dracenas; Camilla sorveu-o com deleite, como se fôra um afago do céu. Emfim, fallara, tinha-se dissipado a nuvem e já sorridente, instou pela resposta:
—Queres?...
O medico ergueu-se de chofre, e com voz metalica e dura disse rapidamente:
—Não pode ser.
Camilla moveu os labios, numa agonia de morte. O que ella temia alli estava. Elle tinha razão, era bem feito, casar, para que? Fôra a nora que a obrigara a tamanha humilhação! Atraz d'aquella mascara de seriedade, Gervasio havia de se estar rindo d'ella, da pretenção d'aquelle miseravel corpo de avó a um noivado de amor! Teve a impressão dolorosissima de estar coberta de rugas e de cabellos brancos; olhou para as mãos com medo; não comprehendeu bem o motivo porque continuava alli e levantou-se com esforço, para se ir embora. O seu destino estava escripto: via todo o futuro tapado pelo corpo pequenino do neto.
Gervasio, pondo-lhe as mãos nos hombros, fêl-a sentar-se outra vez, com brandura.
—Para que? perguntou-lhe ella, quasi chorando.
—Para te dizer tudo: eu sou casado.
Camilla abafou um grito, tapando a bocca com a mão.
Elle dissera aquillo num desabafo, na ancia do golpe inevitavel, com uma voz cortante como a de um machado lanhando um tronco verde. Rôto o segredo, apiedou-se logo e fallou com humildade, muito chegado a ella. Tambem pensara nisso, elle, tambem a quereria fazer sua aos olhos de toda a gente, mas estava preso a outra mulher, até que a morte...
—A morte! suspirou Camilla.
E elle continuou, muito commovido:
—Viste-a uma vez, lembras-te? era aquella mulher de lucto que encontrámos na volta do Neptuno. Achaste-a bonita ... percebeste a nossa impressão e tiveste ciumes... Eu não queria que soubesses ... mas agora a explicação deve ser completa, dir-te-ei toda a verdade. Meu pobre amor, perdôa-me...
Gervasio segurou nas mãos de Camilla; ella retirou-as devagar e fixou-o com um olhar de tão clara interrogação, que elle continuou mais baixo, mastigando as palavras:
—Sim, amei-a muito! casei-me por amor; mas no dia em que percebi que ella me enganava, deixei-a... Moravamos no Rio Grande, ella ficou lá com a mãe, eu voltei para aqui. Quiz divorciar-me ... ella oppôz-se; oppõe-se ainda; quer ter-me acorrentado como um cão: consegue-o. É tudo.
Era tudo. Camilla percebeu o melindre do segredo, mantido para evitar-lhe uma offensa. A razão illuminava-se-lhe; ella não podia ser aos olhos d'aquelle homem nem melhor nem mais digna do que a outra que elle desprezara; a mesma culpa as nivelava, e se elle não encontrara perdão para a esposa, como encontraria respeito para ella?
Sempre calada, puxou o seu véo de viuva para o rosto e levantou-se.
O aroma das dracenas invadia tudo, numa exhalação suffocante.
Gervasio beijava-lhe as mãos, supplicando-lhe que lhe perdoasse; fôra por amor de ambos. Porque não continuariam a viver como até então?
Camilla não respondia, e como elle instasse, ella pediu:
—Deixa-me ir embora!
—Tens razão; precisas descançar. Mas não podes ir assim, deixa-me ao menos mandar buscar-te um carro!
Camilla desprendeu-se, já muito impaciente; queria ir sozinha, andar a pé, ao ar livre. Elle consentiu, adivinhando que a perdia para sempre. Talvez fosse melhor assim...
Ella colheu a cauda da saia e sahiu tiritando de frio, por aquella luminosa tarde de verão. Encontrara fechada a porta do futuro; voltava para traz, aturdida, como se sentisse dentro da cabeça um sino doido, badalando furiosamente. Elle era casado! Elle mentira-lhe! Tantos annos de mentira, tantos annos de mentira!
Era já noite quando Camilla entrou no seu jardinzinho da rua de D. Luiza. A casa estava ainda ás escuras, mas Ruth tocava lá dentro um adagio de Mendelssohn. Extenuada, Camilla sentou-se nos degráus de pedra, como uma mendiga á espera da esmola. As luzes dispersas dos lampiões semeavam de pontos de ouro a curva negra do morro; a ultima cigarra adormecia nas flores abertas do flamboyant, e a alma dos seres invisiveis erguia-se na noite, enchendo-a de impenetravel e sagrado mysterio...
Camilla, com o olhar aberto para o velludo macio da sombra, percebia que estava tudo perdido, irremissivelmente. No outro dia escreveria uma carta a Gervasio, com a sua ultima palavra. O adeus definitivo. As lagrimas rolavam-lhe em fio pelo rosto abrasado; estava bem certa de que aquelle era o dia da sua segunda viuvez.
Perdera na primeira o aconchego, as honras da sociedade, a fortuna e um amigo calmo, que não a repudiaria nunca... Na segunda, perdia a illusão no amor, a fé divina na felicidade duradoura, o melhor bem da terra!
Chegara ao fim de tudo, á hora tremenda da expiação. Mas fôra ella, por ventura, uma criminosa?
Maldizia-se, fôra uma confiante, dera-se toda com os seus devaneios, os seus desesperos; dera-se completamente, absolutamente, e aquelle a quem tudo sacrificara tinha-a deixado do lado de fóra da sua vida, como a uma extranha.
Elle mentira-lhe, elle mentira-lhe!
Era casado, e desprezara a mulher pela mesma culpa! Que seria ella tambem aos olhos d'elle?
Oh! ser honesta, viver honesta, morrer honesta, que felicidade! Se pudesse voltar atraz, desfazer todos aquelles dias de sonho e de ebriedade, recomeçar os labores antigos na insossa domesticidade de esposa obediente, sem imaginação, sem vontade, feliz em ser sujeita, em bem servir a um só homem, com que pressa voltaria para evitar esta humilhação, peior que todas as mortes, porque vinha d'elle, que ella amava tanto! Amava ainda. Ainda!
Olhou com desprezo para o seu bello corpo de mulher ardente. Era um despojo, de que valia? Lembrou-se com terror das filhas, aquellas creanças nascidas d'ella, predestinadas para o Soffrimento. Caminhariam alegremente para o Amor, e o Amor só lhes daria decepção e miseria.
Numa angustia, Camilla interrogou com olhar ancioso a treva muda: Senhor, que haveria no mundo para salvação das almas doloridas?!
Alguma coisa fallou-lhe no ar, em um rasgo de poesia, que subia ás estrellas: a musica de Ruth. A essencia da lagrima purificava-se no som, com um poder de infinita pacificação.
Então a viuva teve inveja da filha, d'aquelle ideal purissimo, que não lhe traria nunca o travo de um desengano. A arte a consolaria do homem, pensou, quando chegasse o dia de o amar e de o servir...
Maldicta a natureza, que a fizera, a ella, só para o amor!
Ás onze horas da manhã seguinte, Camilla sentou-se a um canto da sala de trabalho. O sol entrava pela janella, extendendo no chão uma toalha de ouro. Debruçada sobre a mesa, Ruth escrevia em papel de pauta, preparando lições para duas discipulas novas. Toda a sua indolencia antiga se transformara em actividade; Nina cosia á machina e, no meio da casa, Noca burrifava a roupa para o engommado. Ella olhou para todos. Ruth estava feiosa, muito magrinha; mas a sua coragem illuminava-lhe a fronte, uma fronte de homem, vasta e pensadora; as outras pareciam até mais bonitas naquelle afan. Estavam na sua atmosphera.
Com voz pausada e clara, Camilla pediu que lhe dessem trabalho. Olharam-na com espanto.
—Mamãe quer mesmo fazer alguma coisa?!
—Sim, minha filha... Tudo acabou, devo começar vida nova!
—Então mande buscar as meninas e ensine-as a ler! exclamou Ruth.
Um grito irrompeu de todos os peitos. Noca saltou:
—Vou já me vestir! Credo! não sei o que parece isto da gente dar os filhos. Deixe Mario fallar, afinal aqui ninguem ha de morrer de fome... Vou buscar as creanças?! Vou, ou não vou?