A fallencia

Júlia Lopes de Almeida · Capítulo 22 de 26

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A fallencia

Capítulo XXII

Uns passos e um roçar de saias pela escada fizeram-a voltar a cabeça. Era a Noca. Vinha buscar as meninas. Tomou Lia nos braços.

—Como está Ruth? perguntou Milla.

—Tá com febre... D. Nina ficou perto d'ella... Camilla voltou-se para o medico:

—Vá vel-a ... sim?

Elle fez um gesto de assentimento e acompanhou a mulata.

 

XXII

 

Só no fim de um mez foi que a familia Theodoro tractou de mudar-se.

Nina despediu os criados, montou a casa nova com mobilias baratas, leitos de ferro, louças brancas, sem douraduras. Pensava em tudo, traçava planos, sacudia o torpor e a apathia dos que a rodeavam, indagava preços e discutia o valor dos objectos que adquiria.

—Você dá á propria dor uma fórma de felicidade, disse-lhe um dia o medico; é a mulher mais compenetrada dos seus deveres de mulher que eu tenho conhecido.

—De que serve?!...

—Para fazer os outros felizes. A sua influencia e a sua actividade teem realizado prodigios. E eu que já não acreditava em prodigios!

—Bem vê que fazia mal...

—Bem vejo. Nina sorriu; e depois continuou:

—Fallando serio: tenho medo da responsabilidade que vou assumindo, sem saber como.

Tia Milla não está era edade de acceitar habitos novos sem grande sacrificio; Ruth só ha de querer saber do seu violino; para tudo mais foi sempre...

—Preguiçosa.

—Sim... As outras são tão pequenas!

—Eu estarei a seu lado.

Nina corou, e não respondeu.

Dias depois Noca foi ao quarto da ama avisal-a de que iriam almoçar já na outra casa.

Milla apertou as palpebras.

—A senhora torna a adormecer! Eu vou abrir a janella ... abro?

Camilla não respondeu; sentiu o corpo pesar-lhe na cama e espalmou as mãos no seu largo colchão de clina. Como era bom!

O ocio tinha-lhe infiltrado no sangue a voluptuosidade, que embellezava a sua carne de pecego maduro, colhido ao sol de outomno. O seu corpo redondo e roseo tinha o aroma expansivo da flor aberta, e a maciez da fructa polpuda e delicada que não pode soffrer nem grandes baques, nem grandes ventanias.

Noca insistiu:

—Abro a janella?

Camilla calou-se ainda, procurando gosar mais um minuto o conforto do seu quarto cheiroso. Tinha creado fundas raizes no luxo, não se podia desprender por si, seria preciso que a arrancassem.

A culpa não fôra sua... Seria a ultima vez, essa, que se extendia sob um docel assim de rendas e de setins? Só agora comprehendia o valor das minimas coisas na harmonia do conjuncto.

Alli tudo era bom. A ideia da necessidade, do tacão acalcanhado, do chapéu feito em casa, do vestido forrado de algodão, irritavam-n'a até á doença. A pobreza tem morrinha; é suja.

Quiz lembrar-se do seu quarto de solteira, buscando na humilhação do passado a resignação do futuro; dormira na mesma alcova que a irmã Sophia. Mal pôde reconstruir na memoria o mobiliario barato d'esse aposento, em que havia roupas pelas paredes...

Noca andava pelo quarto; Camilla olhou:

Era em frente áquelles grandes espelhos que o marido a encontrava quando voltava do trabalho, satisfeito dos seus negocios, pisando e fallando alto, com as mãos carregadas de embrulhos de guloseimas e de jornaes da tarde.

E não era para elle que ella picava nos seus vestidos claros uma flor, ou uma joia discreta. Era para o Gervasio que adoçava a sua belleza e se agarrava tanto á mocidade. A mocidade!

Vendo-a abstracta, com os olhos humidos, cheios de tristeza, Noca avisou, já impaciente:

—Olhe, nhá Milla, a gente não deve ir tarde; o carro d'aqui a pouco está ahi.

—Ajuda-me a vestir...

—E as meninas, lá embaixo? Lia e Rachel agora é que vão tomar banho...

—Você tem razão ... eu estou mal acostumada... Vá, eu me arranjarei sozinha. Tambem, para este vestuario... Que saudade, Noca!

—Que se ha de fazer?! Agora é ter coragem!

Duas horas depois Nina passava a ultima revista á casa, abria as gavetas verificando se todos os moveis estavam vazios e limpos, e percorria tudo, do salão á cozinha, da cozinha ao fundo do quintal; Noca ajudava-a na inquirição, remexendo as prateleiras e fechando as janellas e as portas.

No escriptorio, por mais que tivessem lavado, lá ficava indelevel, em uma sombra, no assoalho, a mancha do sangue de Francisco Theodoro. Nina ia passar por cima d'ella, quando Noca deu um grito. A moça recuou, olhando atterrorisada para o chão:

—Pisei?!

—Quasi...

—Meu Deus!

Contemplaram-se as duas por entre lagrimas.

—Foi uma grande desgraça, Noca!

—Se foi! Ainda me parece mentira...

—A mim tambem. Ás vezes julgo mesmo que elle vem da cidade e que vou vêl-o abrir o portão... Pobre tio Francisco!

Pela primeira vez, pareceu-lhes que aquella mobilia impassivel lhes extendia os braços numa supplica.

Na secretaria, ao lado do codigo de Orlando, o tinteiro de prata já vazio e em que a canneta sem penna pesava num abandono de corpo morto, havia scintillações frias.

Nas paredes, chispavam as molduras dos quadros, e desenhava-se a figura atrevida do cavalheiro de bronze, de chapéo emplumado na mão, em um aceno arrogante de adeus.

Disseram-lhe o ultimo, e fecharam a porta.

Na limpeza da casa, Nina encontrara em um caixote, no porão, entre um sem numero de objectos mutilados e antiquissimos, o chicotinho com que Mario a zurzia nos dias de colera, quando, pequena e magra, ella fazia reboar pelos corredores a sua tosse de cão, que elle abafava gritando-lhe:

—Cala a bocca! cala a bocca!

Calar a bocca tinha sido todo o seu trabalho na vida. Com um triste sorriso desbotado, Nina separou de todos os objectos destinados para a fogueira, aquelle chicotinho revelador e prophetico, e guardou-o como reliquia.

Para que nascera ella, senão para ser batida?

Depois de toda a casa fechada, foram para o jardim. Camilla e as duas gemeas esperavam-nas sentadas no banco, em baixo da mangueira. Atraz d'ellas, muito magrinha e pallida, Ruth mal sustentava a caixa do seu violino, pasmando para as arvores amadas um olhar dolorido e longo.

Um minuto depois accommodavam-se no carro. Noca fechava o portão do jardim, entregava as chaves ao criado do Dr. Gervasio, que esperava alli, na rua, para ir leval-as ao patrão. Subiu por ultimo para a caleça. Ao primeiro arranco do carro, de todos os peitos sahiu um suspiro e todos os olhares se voltaram para a casa.

Ruth chorou; parecia-lhe que deixava alli o pae, o seu querido papae... Só Lia e Rachel gorgearam uma risadinha.—Emfim, iam para a casa nova!

Durante a viagem ninguem mais fallou.

Para que? Diriam todas a mesma coisa. Abafavam gemidos, disfarçavam lagrimas, e iam assim, de negro, começar vida nova.

Eram dez horas quando o carro parou em frente á casa de Nina.

Na visinhança, tocavam exercicios num piano desafinado. O sol irradiava com força no cascalho branco do chão.

A casa era pequena, em um trecho socegado da rua de D. Luiza, disfarçada por um jardinzinho mal cultivado. Dentro sentiram-se todos oppressos; habituados á largueza de um palacio, parecia-lhes que aquelles tectos e que aquellas paredes se apertariam de repente, esmagando-os a todos.

O melhor quarto fôra arranjado para Milla e as gemeas; Ruth e Nina dormiriam na mesma alcova, Noca num quarto ao fundo.

A sala de jantar, forrada de novo com ventarolas e japonezes no papel, abria para uma nesga de quintal por um patamarzinho de ladrilho que a desafogava. Tinham-n'a alegrado com um par de cortinas de cretone claro e uns vasos de flores na janella.

Nina explicava á tia como determinara as coisas, sujeitando-se a mudal-as, se lhe não agradasse a posição d'ellas.

Suppuzera melhor supprimir a sala de visitas, e fazer d'ella, que era ampla e clara, a sala de trabalho. Em vez do sofá, do dunkerke inutil, de uma ou outra cadeira preguiçosa, estavam alli a machina de costura, cadeiras fortes, uma estante para musicas, um armario, uma mesa e uma taboa de engommar.

—Aquella taboa faz tão máu effeito aqui ... murmurou Milla numa censura leve, sentando-se, muito abatida.

A sobrinha explicou:

—A saleta lá dentro é muito pequenina, ficou vazia, para as creanças brincarem nos dias de chuva. Se a senhora quer, põe-se lá a taboa.

—Depois...

Quando acabaram de percorrer tudo, Lia e Rachel pediram para ver o resto.

Onde estava a sala do piano? e o escriptorio? Onde guardariam as suas bicyclettes? A cosinha então era aquelle cochicholo?

A mãe anediava-lhes os cabellos, sem responder, com os olhos parados.

Tinham arranjado para cosinheira uma preta velha, de trinta mil réis mensaes. Milla achou-a repugnante e disse a Nina que lhe puzesse ao menos um avental. E á hora do almoço não comeu; olhava para as gemeas que iam devorando os bifes e o arroz da cosinheira nova.

Nina offereceu Collares á tia, que bebeu pouco, sem nem ao menos indagar a proveniencia d'aquelle vinho, tambem, soube-lhe mal, bebido por um copo de vidro, e lembrou-se com pena das suas garrafas de crystal lapidado que atiravam sobre a toalha bouquets iriados e tremeluzentes. Eram como violetas e botões de ouro que nascessem da luz e se espalhassem sobre o adamascado do linho.

O vinho viera da adega do Dr. Gervasio; ninguem mais o bebeu. Lia pediu repetição do bife, Rachel exigiu batatas, e Nina, diminuindo a sua ração, encheu os pratos das primas.

O sol entrava pela janella numa larga toalha de ouro, rebrilhando no verniz novo dos moveis e nas roupas vermelhas dos japonezes retorcidos do papel.

A preta velha trouxe o café numa bandeijinha, mal arrumada, que pousou brutalmente em um canto da mesa.

Camilla fechou os olhos para não ver; quando os abriu, a sobrinha extendia-lhe uma canequinha delicada, do ultimo apparelho do palacete.

Mexendo o café, vagarosamente, a tia perguntou-lhe:

—Só veio esta canequinha?

—E uma chicara de chá; nós bebemos bem nas outras. Veio tambem um copo de crystal. Esqueci-me de o pôr na mesa... Quer mais assucar?

—Não quero differenças para mim.

Depois:—Realmente, custa muito a beber num vidro grosso!...

—Eu não acho...

—Ah, você!

Nina sorriu e foi abrir a porta ao criado do Dr. Gervasio, que entrou trazendo a correspondencia, jornaes e uma carta para Francisco Theodoro, que o carteiro levara ainda á rua dos Voluntarios da Patria.

—Você esteve lá em casa outra vez?! perguntou Milla admirada.

—Sim, senhora. Fui lá com seu doutor, um homem gordo, seu Serra e mais o leiloeiro.

—Já! Andaram depressa!... Olhe, é bom avisar o carteiro.

—Seu doutor já avisou.

—Bem; póde ir...

A carta era de Sergipe. O pae de Camilla queixava-se de doenças e de atrazos; estava muito velho, pedia recursos ao genro. D. Emilia andava ameaçada de congestão; o Joca internara-se com a familia para o interior, por mingua de empregos, a Sophia fôra pedir-lhe agazalho por ter brigado com o marido e as outras duas filhas iam indo.

Desde a primeira até a ultima palavra arrastava-se um suspiro lamentoso de pobreza e de inercia.

Quando Camilla acabou de lêr a carta, deixou-a cahir aberta sobre os joelhos e calou-se muito pallida. Ruth soluçava com a cabeça deitada na mesa. Ouvira as supplicas, mas o que a alterava não eram os cuidados do avô, era o destino d'aquelle sobrescripto que ella tinha deante dos olhos, com o nome do pae, que, na illusão da vida, viera de longe, impellido por varias mãos desconhecidas e que, chegando ao final, não encontrava ninguem!

Releram a carta; vinha atrazada. Já por lá deviam estar fartos de saber a verdade. Como teriam recebido a noticia? Camilla cerrou as palpebras; viu a mãe, tal qual era na primeira visita de Theodoro ao Castello: falladora, animada, com aquelles grandes olhos trefegos sempre reluzindo de esperança ... deveriam estar bem amortecidos agora, aquelles olhos, bem cançados de chorar... E, como nunca, Milla sentiu saudades do carinho e do consolo materno. Estava tudo acabado! Que ventura, se pudesse voltar a ser pequenina, innocente e adormecer no collo da mãe! Seria tão dôce... tão dôce...

Os rigores do lucto trariam a todos reclusos se a estreiteza da casa e o bom senso de Nina não reagissem contra as praxes. Depois, não bastava a economia, era preciso trabalhar, fazer pela vida.

Conheceram-se, pela primeira vez na familia, as agruras do calculo, o dever das restricções.

Mario escreveu lamentando ter de demorar-se em Paris, retido por uma doença de Paquita, cujo nome repetia em todos os periodos. A verdade é que na familia ninguem contava com elle, e que todos dissimulavam resentimentos, fugindo de aggravar tristezas.

Noca, prompta em expedientes, arranjou depressa freguezia para engommados.

Aquillo aborrecia Camilla, que não gostava de vêr trouxas de roupa atravancando a casa. O ferro, a fumaça, os peitilhos das camisas alvejando ao sol augmentavam-lhe o tedio e o mal estar. A vida pesava-lhe.

Uma tarde a mulata entrou com uma novidade: tinha encontrado uma discipula de violino para Ruth, a filha de um empregado publico da visinhança.

Camilla oppôz-se. Vêr a sua pobre filha andar na rua angariando dinheiro alheio? nunca. Não tinham ainda chegado a tal extremo...

—Mas tia Milla, a não ser que Mario lhe dê uma mezada, com que devemos contar? perguntou Nina, estupefacta d'aquella affirmativa e accrescentou: o que nós trouxemos, mesmo com economia, não dará para mais de dois mezes...

Camilla arregalou os olhos, como se só então tivesse a percepção da sua desgraça...

Aproveitando a perplexidade da mãe, Ruth convenceu-a de que as lições seriam um meio de a distrahir; já não aguentava aquelles dias sem fim.

Só a Nina não sobravam horas para trabalhos de interesse; precisava dividir-se em todos os misteres domesticos; as cosinheiras não paravam, umas porque bebiam, outras porque achavam o ordenado mesquinho... Era um vae-vem cançativo, e ella sujeitava-se a tudo, pondo o encanto da sua paciencia nos trabalhos mais rudes e pesados. Cumpria a sua missão de mulher, adoçando soffrimentos, serenando tempestades e conservando-se na meia sombra de um papel secundario.