A fallencia
Capítulo XVI
Duas borboletas brancas passaram rente a ella, perseguindo-se.
Nina fechou os olhos, mas a visão da felicidade alheia lá estava dentro. Qual seria o interesse da tia em casar o Mario?
Lia e Rachel interromperam-n'a; vinham nas bicycletas a toda a força, reclamando o jantar aos brados. O pae sorriu, achando-as lindas, assim rosadas, com os cabellos ao vento.
Ellas, já combinadas, atiraram-se para elle, turbulentamente, pedindo-lhe ao mesmo tempo as mesmas coisas. Queriam um carrinho de verdade, puxado a poneys, com o cocheiro vestido de azul.
Nina aproveitou para mandar servir o jantar, morta por interromper a conferencia da tia.
E. quando Camilla e Mario entraram na sala ninguem lhes soube lêr nas physionomias uma sombra sequer da verdade; fallavam ambos do baile, como se de outra coisa não tivessem tractado.
Foi só á noite que Milla disse no quarto ao marido:
—O Mario acceita o casamento. Assim como assim, elle não tem mesmo gosto para o commercio...
XVI
Na sua salinha da rua Fundo, extendido no velho canapé empoeirado, seu Motta, emmagrecido, com a barba crescida, as faces chupadas, olhava para as moscas que zumbiam, negrejando na cal da parede encardida.
Lá dentro, a filha cortava o silencio de vez em quando com as suas passadas vagarosas, em que se sentia o cançaço.
Tinha razão: era só para tudo. O pae, apezar da impertinencia da molestia e das suas exigencias de homem amigo da limpeza, resignava-se quasi sem protestos áquella immundicie em que se ia encharcando. Certo, que isto de se dizer que uma mulher pode fazer todo o serviço sem se enxovalhar, é coisa de romance. A Emilia andava com as mangas e o avental sujos de carvão, tinha as unhas impregnadas do cheiro da cebola e do alho; e as mãos, avermelhadas pelo uso do sabão da terra com que esfregava a roupa, tinham perdido o geito para a caricia doce, macia, tão querida das creanças e dos doentes. A pobre andava escada abaixo e escada acima, do sótam para a cozinha e da cozinha para o sótam, com os hombros vergados ao peso da bacia cheia de roupas ensaboadas ou torcidas, para extender lá em cima no telhado, a um calor de rachar.
A paciencia exgottara-se-lhe, ella andava aos suspiros, cada vez mais côr de cidra.
Quando se mirava no espelhinho do seu quarto, ella mesma se achava feia. O seu rosto alongava-se, tomava uma expressão de animal.
O pae chamou-a:
—Emilia, olhe, veja se pode dar uns pontos nestas meias ... estão-me incommodando. O paletot está sem botões.
Ella não respondeu, foi dentro e voltou:
—Estão aqui outras meias.
—Tenha paciencia, minha filha, eu não posso dobrar a perna...
Emilia agachou-se e mudou as meias ao pae. Elle continuou:
—As minhas calças de brim estão muito encardidas, será bom alvejal-as emquanto eu estou em casa. Vão ser muito precisas. O meu terno de casimira está escovado?
Ella mal respondeu com um signal de cabeça. O pae, querendo poupal-a, com remorsos de lhe dar semelhante existencia, atrapalhava-a com exigencias; eram os lenços rotos, as ceroulas sem nastros, ou por que as cadeiras tinham um dedo de pó, ou por que as plantas das latinhas morriam nas janellas á mingua d'agua, torradas de sol.
Enfadada, Emilia fazia os reparos exigidos, em silencio, com ar rebarbativo. Então o velho voltava o rosto para a parede e fechava os olhos para reter as lagrimas.
Vinham-lhe á mente os seus bons tempos de Pernambuco e a alegria da sua defuncta, tão activa, tão pagodista e festeira.
Quem diria que de tal mãe...
Á hora do jantar, a filha ajudou-o a ir para a mesa, em um canto da cozinha, ao pé de uma janella com vista para telhados.
De enfastiado, elle ás vezes não se continha e suspirava:
—Que jantarzinho cangueiro...
Emilia não respondia; punha-lhe no prato o feijão e a carne secca, que elle engulia com esforço.
Nesse dia a tarde estava quente.
O papagaio da visinha arremedava as vozes e as gargalhadas das moradoras de baixo, reunidas no quintal.
Motta sentiu vontade de palrar um pouco tambem; mas a companheira voltou-lhe as costas para ir lavar as panellas e o cheiro das banhas frias tornou-se insuportavel.
Elle voltou resignado para o canapé da saleta, martellando com a bengala o chão roido pelo caruncho e pelos ratos.
O seu sonho era sahir, voltar ao escriptorio, tactear as folhas dos livros, pensar em negocios, deixar de vêr o rosto comprido da filha e de sentir a morrinha da casa suja.
Quem de vez em quando cortava aquella pasmaceira com um pouco de alegria, era a bahiana Bertholina que lhes levava um resto de quitanda recambiada, fatias de Mané-taiado, ou cocadas com abobora, sujeitas ao azedume. E então era só:
—Yoyô! Yayá! e gargalhadas frescas e: É preciso paciencia, atraz dos dias maus vêm os dias bons, não é meu Yoyô? Tenham fé em Deus... E adeus, minha Yayá, e adeus meu Yoyô!
Seu Motta sorria lambiscando as cocadas, feliz por vêr alguem rir.
Nessa tarde a Bertholina iria a proposito; mas quem appareceu foi o Ribas.
Seu Motta contava as moscas da parede, sem querer dar confiança ao rapaz, mas abria os ouvidos.
Elle estava mortinho por dizer o que sabia, e logo depois de uma meia duzia de palavras:
—Hontem houve um baile em casa de seu Theodoro. Diz que a rua estava cheia de carros. Só o vestido da D. Camilla custou dez contos...
—Quem acredita nisso...
—O Mario vae casar-se com uma moça que tem para cima de mil contos. Foi ao baile coberta de joias. Seu Guimarães, seu Castro, todos estes turunas do café foram lá.
—Como sabe você de tanta coisa?
—Foi o Isidoro quem me contou.
O Ribas, com os hombros descahidos e um sorriso nos labios molles, fallava em sumptuosidades, com a voz empapada em saliva.
O velho tossiu, fingiu querer dormir, negando confiança ao rapaz, sentindo-o abusivo. Vendo que o outro o não entendia, exclamou:
—Você não tem que fazer?
—Eu ainda não achei emprego...
—Veja lá, eu não quero que seu cunhado pense que o retenho em minha casa.
—Meu cunhado não me governa.
Seu Motta despediu o Ribas, mas logo que o viu descer a escada sentiu-lhe a falta. Ao menos aquillo era alguem, sempre trazia um echo de vida, um zum-zum de fóra.
O Ribas desceu, enfarado d'aquelle velho cainha, que não escorrera nem um tostãozinho para o café; se pensava que elle ia levar as novidades só pelo amor dos seus olhos! Burro! Elle ainda haveria de ensinar toda aquella canalha a temel-o e a chover-lhe dinheiro no bolsinho; era só fallar com o Pirueta da Pedra do Sal, que lhe ensinasse a capoeiragem...
Na rua da Saúde parou á porta do armarinho da irmã, a Deolinda, que esmiuçava a grenha hirsuta de um filho de tres annos, recostado sobre o seu ventre enorme.
Ribas fez-lhe signal da porta, perguntando se podia entrar e observando ao mesmo tempo se o cunhado estaria alli; ella disse-lhe que não entrasse e, sacudindo-se a custo, foi á porta e fallou-lhe em segredo.
—Você não tem vergonha? vá-se embora! Ubaldino tá hi...
—Queria que você me emprestasse quinhentos réis...
—Onde é que eu vou buscar dinheiro, gente!
—Na gaveta do balcão.
—Na gaveta! por você ter mexido na gaveta do balcão é que aconteceu o que aconteceu; vá-se embora!
—Não seja má, Deolinda.
—E o seu ordenado? Olhe: nós não fazemos negocio nenhum... Minha creança está para nascer e eu não tenho nem uma camizinha arranjada. Mal dá p'ra comer, sabe Deus como!
—Não seja sovina; depois eu pago.
—Ubaldino ahi vem ... vá-se embora.
—Ora...
E com arremesso o Ribas seguiu pela calçada até ás Docas; á porta encheu-se de batata roxa, cozida, que a Bertholina bahiana vendia, tagarellando com uns marinheiros do Lloyd. Depois das batatas o Ribas ainda teve uns tostões para tangerinas. Só bem repleto foi que bateu as solas rotas pelas calçadas, a caminho da rua de S. Bento.
Ahi chegado, quiz desafiar a paciencia de seu Joaquim, postando-se como um basbaque á porta do armazem, vendo os trabalhadores na sua faina entrarem e sahirem sem interrupção.
Em cima, no escriptorio, Francisco Theodoro, amollecido pela sua noitada de festa, narrava lealmente ao Meirelles, pae da Paquita, a inaptidão do filho para o trabalho.
O Meirelles sorria; que descançasse, elle encaminharia tudo,—e accrescentava:
—Paquita, com aquelle ar de songa-monga, é de uma energia de homem. Não é de brinquedos. Tem um juizo notavel. Eu agora levo-os para a Europa, faço o Mario observar o movimento das principaes praças e na volta você verá, Theodoro, como o seu filho ha de trabalhar! Será então tempo de você ceder-lhe o campo...
—E eu estou morto por isso...
—Então? Urge andar depressa, que eu não quero perder a viagem do Equateur.
Francisco Theodoro começava a comprehender que a Paquita, se era assim, seria a unica mulher capaz de modificar o caracter do filho. Mario seria um instrumento nas suas mãos energicas. Não a suppozera nem a cria ainda tal, tão fragil, tão esbranquiçada e inexpressiva a vira sempre na moldura dos seus cabellos louros.
Estava bem; Mario precisava de uma vontade firme, que o dominasse e dirigisse; nem com uma lanterna accesa encontraria coisa tão boa.
Paquita seria a salvação do seu filho, a garantia da sua casa commercial, que já não acabaria com elle.
Pensando assim, uma ternura desabrochava na sua alma para aquelle filho perdido, que tamanhas desillusões lhe semeara na vida. Começava a sentir que lhe não perdera o amor.
Elle continuaria aquella casa, com tanto trabalho nascida, que teria com elle a mesma firma, a mesma tradição... Seria sempre a Casa Theodoro, feita pela sua ambição, perpetuada na sua descendencia...