A fallencia

Júlia Lopes de Almeida · Capítulo 5 de 26

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A fallencia

Capítulo V

Uma raiva surda roncava-lhe no peito, quando chegou á rua do Ouvidor.

Veio-lhe então em cheio o aroma das flores frescas, á venda na esquina; e a graça de uma mulher que passava com um chapéu atrevido e um vestido bem feito, distrahiram-n'o um pouco...

 

V

 

Noca foi ao quarto de Mario, avisal-o de que a mãe lhe queria fallar.

—Você sabe pr'a que é? perguntou-lhe o moço.

—Desconfio: ha de ser por causa da tal franceza... Parece que ainda foi outro dia que você nasceu, e já anda por ahi na extravagancia!

—Vae pregar a outra freguezia.

—Verdade, verdade, seu pae tem razão...

—Eu logo vi que o sermão havia de vir empurrado por papae; disse Mario com ironia, dando o ultimo retoque á toilette. Nisso abriram a porta, elle voltou-se; era a mãe.

Noca deu uma volta pelo quarto, puxou as cobertas da cama até os travesseiros, sacudiu com a toalha o estofo da poltrona, escancarou a janella e sahiu, deixando uma ponta de ordem no desalinho do quarto.

—Eu ia subir; Noca veio chamar-me agora mesmo.

—Achei melhor fallarmos aqui. Não seremos interrompidos.

—Como quizer. Sente-se, mamãe.

Camilla sentou-se e fixou no filho um olhar magoado. Elle, pegando-lhe nas mãos, perguntou-lhe com um sorriso contrafeito:

—Então?

—Estás nos dando serios desgostos, Mario.

—Eu?

—Sim; bem sabes de que se trata.

—Calculo; mas, francamente, não vejo razão para tamanho alvoroço...

—As tuas faltas são muito repetidas. Não te emendas!

—As minhas faltas são tributos da mocidade, faceis de perdoar.

—Enganas-te.

Mario largou as mãos da mãe e tornou-se muito serio.

—Então não comprehendo.

—Comprehendes. Fallo ... fallo d'essa mulher com quem andas agora ... dizem todos que ella arruinará a tua saúde e a nossa fortuna...

—Oh! mamãe...

—Não é creatura por quem um rapaz da tua edade se apaixone. Eu quando a encontro na rua nem sei onde ponho os pés.

Mario corou, e murmurou qualquer coisa que a mãe não ouviu.

—Receio sempre vêr-te apparecer a seu lado; porque eu sei que tens tido a coragem de te apresentar em publico com ella. Vê a que horror expões tua familia, já não digo teu pae, que é um santo, mas que emfim, é homem; mas a tua irmã e a mim. É feio da tua parte sujeitar-nos a uma decepção d'essa ordem...

Mario mordia os beiços, brancos de raiva.

—Mamãe...

—Não me interrompas; já agora direi tudo. É preciso acabar com a exploração d'aquella mulher. Deixa-a quanto antes, hoje mesmo, ouviste? Teu pae exige isso de ti, elle sabe que por causa d'ella tens commettido já indignidades. É uma vergonha, todos os dias são dividas e mais dividas!

Mario continha a custo a sua colera, apertando com as mãos, nervosamente, as costas de uma cadeira.

—Põe os olhos em teu pae. Segue-lhe o exemplo.

Mario sorriu com desdem.

—Meu pae está velho; já não se lembra do que fez na mocidade.

—Bem sabes que elle nunca teve mocidade; trabalhou sempre como um animal.

—Os portuguezes nasceram só para isso; eu tenho outros gostos e outras aspirações. Meu pae não me comprehende.

—Mas o dinheiro que esbanjas de quem é?!

—Ah, o dinheiro! Logo vi que havia de ser por causa do dinheiro! disse elle com redobrado escarneo.

—Por isso e por outras coisas; exclamou Camilla, espicaçada pela ironia do filho.

—Mas que outras coisas, mamãe!? retrucou elle, plantando-se deante d'ella, com raiva.

—Já te disse, já te disse! não te finjas de surdo! Por causa da tua saude, que é fraca, e da tua reputação.

—Reputação! ora, mamãe, e é a senhora quem me falla nisso!

Camilla estacou, sem atinar com uma resposta, comprehendendo o alcance das palavras do filho. A surpreza paralysou-lhe a lingua; o sangue arrefeceu-se-lhe nas veias; mas, de repente, a reacção sacudiu-a e então, num desatino, ferida no coração, ella achou para o Mario admoestações mais asperas. Percebia que a lingua dizia mais que a sua vontade; mas não podia contel-a. A dôr atirava-a para deante, contra aquelle filho, até então poupado.

Recebendo em cheio a colera materna, Mario julgou perceber nella insinuações de outrem. Havia de andar por alli a intervenção damnada do Dr. Gervasio. Quando Camilla acabou de fallar, elle começou, destacando as palavras, que sahiam pesadas:

—A senhora pode censurar-me em nome de meu pae, visto que elle não teve coragem para tanto; mas em seu nome, não!

—Mario!

—Em seu nome, não! Quem me lançou neste caminho e me fez ter os gostos que eu tenho?

—O excesso do meu amor por ti está bem castigado!... Mas não é isso agora que desespera teu pae...

—Meu pae é cego para as culpas dos outros; por que não será tambem cego para as do filho? A pessoa que tanto o indigna é menos nociva á familia que...

—Basta!

—Não basta; a senhora assim o quiz; conhece o meu genio, podia ter evitado esta explicação. Talvez seja melhor assim: afinal eu precisava dizer-lhe alguma coisa, eu tambem. É isto:—odeio o Dr. Gervasio, e dou-lhe a escolher entre mim e elle.

Camilla fixou no filho olhos de espanto. Houve um largo silencio. Depois elle repetiu, martellando as palavras:

—Ou elle ou eu.

A mãe, com uma lividez de morta, não voltava da sua estupefacção. Todo o corpo lhe tremia, e lagrimas vieram pouco a pouco borbulhando, grossas e pesadas, nos seus olhos extaticos. Tentou defender-se, chamar de calumnia áquella idéa; mas as palavras morreram-lhe na garganta, e ella encolheu-se na poltrona, cingindo os braços ao busto, como se tentasse esmagar o coração offendido.

Mario caminhou nervosamente pelo quarto; depois, voltando-se para a mãe, ia fallar ainda, mas viu-a de aspecto tão miseravel, que uma subita misericordia se apoderou d'elle.

Ella chorava, muito encolhida, fazendo-se pequenina, no desejo de desapparecer.

—Perdôe-me, mamãe; mas que queria que eu dissesse?!

Camilla levantou para o filho os olhos humilhados, e murmurou quasi imperceptivelmente:

—Nada...

Mario recomeçou a passear, com as mãos nos bolsos, a cabeça baixa. Camilla, ainda na poltrona, com as costas para a janella, os cotovellos fincados nos joelhos e o queixo nas mãos, procurava uma palavra com que pudesse convencer o filho da sua innocencia. Tudo lhe parecia preferivel áquella humilhação. Daria a luz dos seus olhos,—ah, antes ella fosse cega! para que Mario a julgasse pura, muito digna de todo o respeito das filhas, muito honesta, toda de seu marido e das suas creanças... Comprehendia bem que o sentimento e a imaginação nas mulheres só servem para a dôr. Colhem rosas as insensiveis, que vivem eternamente na doce paz; para as outras ha pedras, duras como aquellas palavras do seu filho adorado. Antes ella fora surda: não as teria ouvido!

Quantas vezes o marido teria beijado outras mulheres, amado outros corpos ... e ahi estava como d'elle só se dizia bem! Elle amara outras pela volupia, pelo peccado, pelo crime; ella só se desviara para um homem, depois de luctas redemptoras; e porque fôra arrastada nessa fascinação, e porque não sabia esconder a sua ventura, ahi estava a bocca do filho a dizer-lhe amarguras...

Lia e Rachel corriam no jardim, batendo por vezes na venezianna do quarto.

Mario aconselhou:

—Será bom apparecer; as meninas estão notando a sua ausencia...

—Antes eu tivesse morrido no dia em que nasci! pensou Camilla levantando-se.

Empurraram a porta. Era o Dionysio que vinha saber se o patrão precisaria do carro. Ouvira fallar na vespera em um almoço na Gavea.

Mario respondeu com impaciencia e sem abrir:

—Não preciso de nada! Depois voltou-se e foi direito á mãe; puxou-a para si, beijou-a na testa e, com carinho:

—Diga a meu pae que hoje mesmo me despedirei d'ella...

 

Quando Camilla sahiu do quarto, sentiu-se agarrada pelas filhas gemeas, que a puxavam para o jardim, gritando com enthusiasmo:

—Venha ver, mamãe!

—Que coisa linda, mamãe!

—O homem disse que foi papae que mandou!

—Adivinhe o que é!

—Diga; sabe o que é, mamãe?

A mãe não respondia; deixava-se levar sem curiosidade, toda tremula ainda, revendo no fundo da sua alma o rosto do filho ao dizer-lhe aquellas palavras terriveis. As creanças riam, e aquellas risadas eram como um clangor de sinos reboando em torno d'ella. Os sons avolumavam-se, repercutiam no seu cerebro dolorido. Elle sabia! Mario sabia! Quem lhe teria dito? que bocca immunda profanara aquelle segredo, em que ha tantos annos se encerrava? Seria a da Noca? E os outros da casa saberiam tambem?

—Veja, mamãe, que lindeza! gritou Lia apontando para um grande relvado do jardim onde tinham posto um grupo de bonecos pintados a côres, um menino e uma menina resguardados pelo mesmo chapéo de sol azul.

Rachel bateu palmas e deliberou que o menino se chamaria Joãosinho e a menina Maria.

—Maria, não! ha de se chamar Cecilia; protestou Lia.

—Ha de ser Maria, ha de ser Maria e ha de ser Maria!

—É verdade, mamãe, que a menina se ha de chamar Maria?

Camilla não respondeu; sentou-se em um banco, e, em vez de olhar para os bonecos, poz-se a olhar para as filhas, muito lindas, com os seus bibes brancos, e os cabellos soltos.

—Vocês gostam muito de mim? perguntou-lhes ella de repente, puxando-as para si.

—Eu gosto muito!

—Eu gosto mais!

—Mentira! quem gosta mais sou eu!

—Eu acho mamãe muito bonita!

—Eu tambem acho.

—E se eu fosse feia ... bem feia ... se ... por exemplo, eu tivesse bexigas e ficasse marcada, sem olhos, com a pelle repuxada ... ainda assim vocês gostariam de mim?

—Muito, muito!

—Se Deus me désse uma doença repugnante ... como aquella doença do Raymundo, sabem? a morphéa, e que todos fugissem de mim com nojo e com medo ... que fariam vocês?

—Eu havia de estar sempre ao pé de mamãe! Havia de lhe metter a comida na bocca; mudar-lhe roupa e contar-lhe historias...

—E eu havia de dormir na mesma cama que mamãe...

—Por que é que a senhora diz isso?! Não chore, mamãe!

Camilla beijou as filhas com transporte, e uma grande serenidade cahiu sobre o seu rosto pallido. Poderia contar com alguma coisa, as filhas defendel-a-iam dos maus tratos do mundo.

A campainha do almoço repicava no primeiro toque; Ruth fechava o seu violino e Nina descia ao jardim com a Noca, para admirarem tambem o grupo do lago, mandado da cidade por Francisco Theodoro.

Nina vinha na frente, com o seu modo tranquillo de ménagère, bem penteada, com um vestido escuro, alegrado pela nota branca de um aventalzinho circumdado de rendas. Atraz d'ella, Noca bamboleava o seu corpo cheio, sem collete, vestida de chita clara, rindo alto de uma anecdota do copeiro.

Camilla teve um sobresalto.

Tambem aquella, a Nina, saberia tudo? Teve impetos de lhe ir ao encontro e perguntar-lho; mas abaixou os olhos para os cabellos negros da Rachel e da Lia, que se cosiam ás suas saias, e passou-lhes as mãos na cabeça, de vagar, numa caricia muda, grata ao seu amor e á sua innocencia.

—Que engraçadinho! não acha, tia Milla, que ha de fazer bonita vista depois de collocado no meio do lago?

—Acho...

—É de muito gosto!

Noca tinha pena. Coitadinhas das creanças! haviam de ir assim tão núas para o sereno das noites? Muito chic!

Uns admiravam a belleza da menina, outros a do menino, e afinal concordavam que o conjuncto é que valia tudo. Ruth veio por ultimo; queixava-se de fome. A campainha vibrava pela segunda vez. Pediram, a opinião d'ella; não era tão bonito, aquillo?

—Nunca apreciei bonecos; vocês bem sabem...

—Isto é o mesmo que ver gente! exclamou Noca, indignada, isto não é boneco! Você é enjoada! É verdade! Mario ainda não viu... Oh! Dionysio! chama ahi seu Mario!

Nina voltou-se, vermelha, para a janella do primo; elle não appareceu, e Ruth, instando pelo almoço:

—Que milagre! Dr. Gervasio hoje não appareceu! exclamou sem intenção, colhendo uma Marechal Neel para o peito.

Camilla estremeceu e olhou para a filha com curiosidade e mal disfarçado susto. Porque teria ella dito aquillo?

Noca abaixou-se na orla do canteiro, procurando com mãos apressadas um trevo de quatro folhas, para dar á pobre da Nina. Oh! se ella encontrasse o trevo, a moça seria correspondida pelo ingrato do primo, e assim o diabo da franceza iria bater a outra porta... Deus fizesse com que ella achasse um trevo de quatro folhas!

Meia hora depois estavam todos á mesa, e ainda a mulata procurava com ancia a folhinha fatidica.

Mario atravessou o jardim; ella sentiu-lhe os passos e voltando-se chamou-o.

—Uê! porque não foi almoçar?!

—Preciso ir já para a cidade. Diga isso mesmo a mamãe...

—Não foi se despedir d'ella?

—Não ... já nos fallámos ... diga isso mesmo.