A fallencia

Júlia Lopes de Almeida · Capítulo 11 de 26

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A fallencia

Capítulo XI

Camilla olhou e teve pena. O capitão Rino estava mais magro; toda a sua roupa, escura e desageitada, parecia dançar-lhe no corpo; havia uma tristeza resignada nos seus olhos garços. Ella levantou-se, pretextando dôr de cabeça e subiu para o seu quarto.

Rino pensou: «Ella foge-me ... talvez seja melhor assim.»

Ouvia-lhe desesperado o rumor dos passos pela escada acima e ninguem percebeu que elle estava com o ouvido á escuta e os labios franzidos por um sorriso amargo.

Lia e Rachel balançavam-lhe os braços rindo muito, comparando as suas grandes mãos ás d'ellas, tão mimosas...

—Capitão Rino, porque não nos traz nunca sua irmã? perguntou-lhe Ruth.

Com toda a calma, como se nenhum desgosto o abalasse, elle respondeu:

—Catharina é uma exquisita; ella sae todos os dias, mas para andar lá pelo morro colhendo plantas... Raras vezes vae á cidade ou faz visitas. Somos uns insociaveis, nós dois. Meu pae era maritimo, minha madrasta foi sempre muito doente, e está nisso, julgo eu, a origem do nosso mal ... ou do nosso bem, quem nos dirá?

Fazendo uma carinha comica, e apontando para o céu, Ruth respondeu com ar solemne:—Só Deus!

 

XI

 

Era a hora do café no armazem de Francisco Theodoro. O escriptorio estava cheio; o Innocencio, miudo e trefego, retorcendo com mão nervosa o bigodinho aloirado, com os olhos pequenos fulgurando-lhe no rosto pallido, dilatava as narinas, cheirando dinheiro, que lhe parecia andar esparso no ambiente de todo aquelle enorme casarão de S. Bento.

Percebia as coisas de relance, e apanhava no ar as que lhe convinham.

A seu lado o velho João Ferreira, espadaúdo trigueirão, largo de faces e de gestos, commentava com benevolencia os actos do governo, berrando ás vezes contra a opinião dos outros, que o atacavam por todos os lados em vivas represalias.

O Lemos sorria calado, muito estupido para entrar em questões de tal ordem. Que lhe fallassem do preço da carne secca, que importava em grosso, e dos jacás de toicinho, e a sua opinião figuraria logo com todo o peso da autoridade. O Negreiros em pé, com o seu enorme nariz de cavallete, que a mão distrahida acariciava de vez em quando, era o unico republicano naquelle ninho de velhos portuguezes afferrados ás instituições tradicionaes da sua patria e d'esta que o seu amor e o seu bem-estar escolheram.

João Ferreira desculpava a fraqueza dos homens; palrador, como todo o minhoto, discursava por gosto, abafando com o seu vozeirão as ironias do Innocencio, um ou outro aparte medroso do Lemos, e os protestos de Francisco Theodoro, que não comprehendia como um tão fiel monarchista pudesse achar desculpas para os desatinos d'esta «Republica de ingratos.»

Negreiros sorria com a serenidade de um confiante. Elle fôra sempre um republicano e um extremado e era por isso olhado por alguns dos seus compatriotas com extranheza e susto. Como João Ferreira no maior ardor de seu discurso esbarrasse com a expressão alegre do rosto de Negreiros, e lhe comprehendesse o contentamento de o ter de seu lado, tergiversou e, com maldade alegre, achou logo tambem motivos de aspera censura ao mesmo governo que tinha gabado havia pouco. Não, que elle já estava maduro para dar o seu braço a torcer!

Os outros triumpharam, era assim que o queriam; e chegou a vez de Negreiros entrar na discussão.

Foi nesse instante, no meio da balburdia de vozes, que o capitão Rino appareceu no limiar da porta, com o chapéu na mão, e uma expressão interrogativa no rosto.

A chegada subita d'aquelle extranho, para quem Francisco Theodoro fez logo um logar ao pé da sua secretária, abaixou o calor da conversa.

Dividiram-se os grupos; houve risos baixos, pancadinhas nos hombros, de reconciliação e amisade. Só os olhinhos do Innocencio Braga ardiam na mesma febre, e os seus dedos magros torciam com maior nervosismo as pontas do bigode delgado.

—Que novidade é esta, o senhor por aqui?!

—Não lhe roubarei o tempo; é por curtos instantes.

—Ora essa! tenho muito prazer com a sua visita ... dê-me licença de o apresentar aos meus amigos.

Feitas as apresentações, o Isidoro entrou com o café em uma grande bandeija e houve uns segundos de silencio. Depois, Francisco Theodoro perguntou baixo ao capitão se lhe quereria fallar reservadamente.

—Não, senhor; venho apenas despedir-me e rogar-lhe que apresente os meus cumprimentos á sua familia. Parto para o Pará.

—Porque não vae jantar comnosco? o senhor não imagina como é querido lá em casa. A minha gente não lhe perdoaria isso! Bem sabe que não fazemos cerimonias.

—Obrigado, mas a minha viagem d'esta vez é mais longa, obriga-me a preparativos que não me deixam tempo para nada. Na volta levarei os meus respeitos a todos.

O capitão corava dizendo estas coisas. Todo o seu sangue, agitadissimo, lhe bailava sob a pelle de loiro.

—Bem, bem! as obrigações não se deixam por coisa nenhuma ... dou-lhe razão; sou homem de negocios. Darei os seus recados á minha gente. Camilla vae ficar triste ... paciencia... Pois quando quizer lá estamos ás ordens como bons amigos; e Francisco Theodoro extendeu a mão larga ao capitão Rino, que a apertou confuso e alvoroçado.

Seu Joaquim appareceu no escriptorio e pousou um maço de papeis na secretária, pedindo a Theodoro que lhe désse prompto expediente.

Aquillo equivalia a uma despedida; havia urgencia de recomeçar-se a lida. Levantaram-se todos.

Innocencio Braga deixou-se para ultimo e e ao despedir-se do negociante pediu-lhe uma entrevista em sua casa, para negocio urgente, de alta importancia.

No olhar de Theodoro houve uma interrogação pasmada. O do Innocencio tinha lampejos de ouro. Seu Joaquim observava em silencio.

O capitão Rino, que desceu na frente, topou com o caixeiro Ribas no corredor, junto ás grades do armazem, de orelhas molles e hombros descahidos, ruminando odios em silencio contra o Joaquim, que o deprimia á vista de todos. O capitão levava os olhos cheios de outras imagens, para attentar nelle. O bafo quente da rua, cheia de povo e de sol, acordou-o do sonho. Na calçada, mesmo á porta do armazem, a velha Terentia varria á pressa as pedras com a vassourinha de piassava, e a cabecinha amarrada no lenço branco, pendente para o seu trabalho. Os carregadores iam e vinham, cruzando-se, serpeando entre os vehiculos repletos de café, numa gritaria medonha. O trabalho trombeteava a todos os ventos a sua força poderosissima.

O capitão Rino seguiu, abrindo passagem atravéz de grupos compactos e movediços.

Aquella multidão aturdia-o.

O mar limpo e vasto obrigara-o sempre a viver das suas proprias commoções, a ser um isolado e um melancholico, affeito a amar na natureza o que ella tem de maior e de mais simples.

A onda do povo rude com que esbarrava, era bem mais complexa do que a do oceano que elle cortava com a prôa firme do seu Neptuno.

Talvez tivesse escolhido mal a sua profissão. A vida do homem era aquillo que alli estava: a agitação perenne, o trabalho violento, o amor sem idealisações, o espectaculo renovado de tudo que a terra produz, mata e faz renascer para a fulguração do tempo, que é instantaneo e é eterno.

O proprio mar, que escolhera e a que se lançara na phantasia da adolescencia, não era á orla branca da Terra que vinha atirar a sua grande queixa, a sua furia formidavel ou a sua voluptuosidade infinita?

A terra pallida dos areaes, a terra côr de sangue das mattas, a terra negra do ouro, a terra rôxa dos cafeeiros, mãe da abundancia, ou a terra clara dos laranjaes, fonte de perfume, não é por ventura a parte do mundo consagrada ao homem, onde o seu suor, em cahindo, se transmuda em orvalho fecundo?

O capitão Rino olhava para toda aquella gente, marinheiros, soldados, vadios e trabalhadores braçaes, negros ou portuguezes, uma população de homens apressados, sem lhe fixar o desalinho do gesto ou a preoccupação das vistas abrasadas. Eram homens, passavam em repellões, pensando no ponto da chegada. Elle ouvia-lhes a respiração, a offegancia dos peitos cançados e a cadencia dos passos batendo dominadoramente as pedras duras do chão.

Aquelle ruido era sempre para elle uma musica de sonoridade nova.

Entrou na rua da Prainha, tomou depois a da Saude, sem notar o aspecto desegual da casaria, os negros trapiches tresandando a cebos de carnes e meladuras de assucar esparramadas no solo, onde moscas zumbiam desde a porta da rua até lá ao fundo do armazem, aberto para um quadro lampejante de mar.

Os trapiches succediam-se, repletos de barricas, de saccos, de fardos e de pranchões, enchendo o ar de um cheiro complexo, que a maresia levava de mistura, e de sons asperos dos guindastes, suspensos sobre balanças. Lanchas passavam perto em roncos e silvos entrecortados, e aquella confusão louca de vozes, que lhe era familiar, dava-lhe agora a impressão de que a terra se debatia num delirio de febre.

Elle ia ao morro da Conceição, dizer adeus a um antigo companheiro, agora padre. Para isso, enveredou por uma ladeira estreita, talhada sobre rocha branca. A rua serpeava em curvas contrafeitas, elevando-se aqui para se despenhar acolá, acotovellando-se em angulos de um lado para descer ao outro em escadarias toscas.

De casas velhas, abertas para a grande luz, sahiam mulheres para extender ao sol blusas de marinheiros, emquanto lá dentro vozes frescas de moças cantavam modinhas ternas.

Á beira dos precipicios, creanças, quasi núas, atiravam com os pés, d'entre montes de lixo, latas vazias, que rolavam, tinindo pelas ribanceiras, e velhas, sujas, agachadas em uma ou outra soleira, coziam trapos, entre gatos adormecidos e gallinhas soltas.

O dia estava azul, e o ar do mar vinha, em grandes lufadas, acariciar a face quente e robusta da terra.

Capitão Rino atravessava uma rua de marinheiros.

Ao ver alguns rostos tranquillos e braços grossos de mulheres, trabalhando ao ar livre, pareceu-lhe que o coração d'aquella gente era resignado e sabia esperar.

A grande virtude estava com ella, só os simples podem ser fortes.

Depois de varias voltas, por caminhos muito accidentados e sujos, elle viu-se na ladeira da Conceição, entre casas baixas, umas com as faces para as outras, mal abertas, de ar desconfiado.

Outra gente alli se movia nas ruas. Rolavam no cisco das calçadas velhos botões azinhavrados de fardas. Mulheres de soldados tagarellavam em lingua aspera, com visinhas de má compostura, e um fartum enchia a atmosphera da rua longa, até ás proximidades da velha fortaleza.

Em todo o comprimento do seu passeio, foi alli a primeira vez que o capitão Rino ouviu uma voz lamurienta, a pedir-lhe uma esmola.

Ahi estava uma coisa que elle não ouvia nunca sobre a onda inconstante...

Pouco depois bateu á porta do amigo, mas elle não estava em casa; só voltaria á noite. Rino continuou para cima até o pateo do forte e e ahi sentou-se um bocado na muralha, olhando para baixo.

Que via elle? a casaria desegual, feia, derramada, brilhando aqui na telhas novas de reconstrucções, mostrando acolá outras, negras ou esverdinhadas, sobre paredes encardidas? Reparava para o movimento continuo da rua embaixo, cortando com uma linha larga e branca os predios melancholicos? Não. Com os olhos fixos na agua crespa da bahia, coalhada de vapores negros, de navios brancos, de embarcações de todo o feitio, elle só pensava em Camilla, tão rigida para com elle quanto docil e amorosa para com o outro...

Fugia. Estava tudo acabado. Era o adeus á sua mocidade, áquelle sonho de amor, que elle dizia atravéz d'aquella infinidade de corações felizes, fortes, que esses telhados abrigavam por certo. Não haveria mais ninguem assim, tão desafortunado.

Como seria bom viver, mesmo naquelle immundo bairro de trabalho, com o coração tranquillo, com fé no amor!

Para elle, estava escripto: não tornaria a ver Camilla. A humilhação da ultima visita queimára-o como brasas. Ainda se ella o desprezasse, mas não amasse o outro!

E toda a causa da sua desventura estava naquella preferencia. Porque havia de ser o outro, e não elle?

O sino da Conceição badalou com força. Rino voltou-se; dois padres moços, de batina, atravessavam o largo, como dois pontos pretos de exclamação em um quadro vasto de sol. Nesse instante o moço maritimo teve a visão de que, ao encontro da sua, vinham duas almas eguaes, tristes na sua esterilidade. Ainda aquellas tinham o seu ideal, se guardavam intacto o oleo divino que todas as chagas suavisa e todas as miserias embelleza.

E elle? sem fé sem um fito qualquer que explicasse o motivo dos seus dias, com um amor renegado, cavalheiro sem dama e sem sonho, que valia neste mundo, onde o homem merece pelo que pensa, pelo que crêa, pelo que combate ou pelo que amplia?

Os padres passaram; elle quiz seguil-os, mas o corpo, cançado, amollecido, ficou ainda. E o pensamento recalcava: por que havia Milla de preferir o outro? parecia-lhe que todo o seu amor seria para sempre doce e platonico, se ella fosse para todos uma mulher austera, bem encerrada no circulo de seus deveres.

Esta idéia trouxe a lembrança da mãe, morta a facadas pelo pae, como adultera. A imagem d'ella encheu-lhe o coração; ergueu-se bruscamente e começou a descer a rua, apressado com a ideia de fugir para longe, salvar-se do perigo que o solicitava.

Era preciso não tornar a ver Milla; nunca mais! Para algo lhe serviria o seu orgulho de homem.

A vontade domaria o coração rebelde. Não tornaria a vel-a.

A idéa da mãe lembrou-lhe a irmã; tinha ainda tempo de ir jantar com ella naquella silenciosa casa das Laranjeiras. Só no dia seguinte iria para bordo aprestar o Neptuno.

Devia pensar noutras coisas; esforçava-se por isso. Desejar Milla, para que? não tornaria a vel-a...

Desceu o morro apressado, até á rua dos Ourives e seguiu por ella, sacudindo os hombros no movimento bamboleado do corpo, num andar de quem nada quer ver resoluto acalmado por um esforço em que entrara todo o poder da sua vontade.

Fugir de Camilla e para sempre, crear, talvez, lá longe, em terras do norte, uma familia honesta, era o que devia fazer, o que faria, inevitavelmente e bem depressa, como remedio para esquecer...

O capitão atravessou ruas, passou por amigos como se ninguem visse, e só ao desembocar na rua do Ouvidor parou de chôfre, com um batimento forte de coração. Deante d'elle, magestosa no seu vestido preto picado apenas no peito por uma rosa escarlate, Camilla sorriu-lhe, extendendo-lhe a mão enluvada. Era uma reconciliação e um appello; elle não atinou com que dissesse. Ao lado da mãe, Ruth fixava nelle aquelle brilhante par de esmeraldas que Deus lhe déra por olhos. Trocados os cumprimentos ellas não se detiveram, e o moço seguiu tambem o seu caminho, enfraquecido, todo embebido no aroma d'ella todo deslumbrado por aquelle ar de deusa inattingivel.

D'alli até á Carioca já os seus passos se collavam ás pedras, desejosos de parar para a seguirem depois, quando ella voltasse para o calor da sua casa; mas o capitão Rino obrigou-se a ter juizo e caminhou para um bond das Aguas Ferreas, que era justamente o assaltado nessa occasião.

Só depois de sentado reparou que estava juncto da D. Ignacia Gomes e das duas filhas, a Carlotinha e a Judith, ambas muito faceiras e risonhas nas suas toilettes claras.

D. Ignacia suspirava, cançada do esforço da tomada de logar, com as mãos carregadas de embrulhos, e o toucado já descahido sobre a orelha esquerda. Não a pilhariam tão cedo na cidade, affirmava.

Reconhecendo o capitão Rino, pediram-lhe logo noticias da familia Theodoro, como estava a boa Camilla?

Elle disse o que sabia, um pouco atrapalhado, corando.

A Carlotinha, sempre trefega, debruçava-se sobre o collo da mãe, dizendo-lhe com a sua voz maliciosa phrases em que entrava mais atrevimento do que espirito. Tinham-se mudado para as Larangeiras e offereciam-lhe a casa. D. Ignacia vinha espantada com os preços dos objectos adquiridos; se não fossem as moças, ella não viria á cidade; gostava do seu canto, da boa paz caseira.

—E o Sr. Gomes, como está? perguntou o capitão, menos por interesse do que para dizer alguma coisa.

—Coitado, como velho cheio de trabalho. O Sr. não imagina! meu marido sacrifica-se pelos outros e o resultado nós sabemos qual é. Este mundo é de ingratos...

—Sim, é de ingratos; confirmou o capitão.

Até as Larangeiras D. Ignacia teve tempo de despejar todas as lamentações da sua alma attribulada; fallou de tudo, até das cozinheiras e do máo serviço do açougue. O discurso, interminavel, numa lenga-lenga, ora lamurienta, ora resignada, tornava ao capitão insupportavel a longura da viagem.

Carlotinha perguntou pelo Dr. Gervasio. Que era feito d'elle, que ninguem o via, senão no palacete Theodoro?

Rino encolheu os hombros; não sabia. Judith debruçou-se por sua vez, e contemplou-o com curiosidade.

Tinham chegado ao termo da viagem e desceram com muitos offerecimentos, apontando o portão da sua residencia.

O capitão Rino correspondeu ás expansões com amabilidade discreta, admirado da exuberancia d'aquella gente. Que lhe importavam as denguices da Carlotinha, de olhar gaiato e tez de jambo, ou as da Judith, pallida e pequena, se todo o seu pensamento estava na outra, naquella Milla de formosura opulenta, de quem guardava ainda na palma a doçura da mão enluvada?

A fatalidade d'aquella paixão bem se revelava em tudo; elle furtava-se a vêl-a, saudoso e afflicto, mas forte na sua resolução, e eis que ella lhe apparecia em uma volta de rua, inesperadamente! O bond parara no ponto e o moço desceu, caminhando para deante até a chacara da madrasta; o portão estava aberto, entrou.

Nos largos canteiros touceiras de cannas da India erguiam os seus pennachos de flores vermelhas e amarellas; elle tomou á esquerda, por uma rua ladeada de gyrasóes e de magnolias côr de ouro velho. Era ao fundo d'essa rua que apparecia a casa, de feição antiga, solida e simples, com paredes brancas e largas janellas de guilhotina.

Sentindo gente, veio um cão enorme lá de dentro, aos saltos e latidos, e logo apóz appareceu Catharina no patamar de pedra, da escada em semicirculo.

Ella desceu ao encontro do irmão, muito risonha.

—Estás boa? perguntou-lhe elle, segurando-lhe no queixo forte e ligeiramente quadrado e fixando-lhe de perto os olhos claros.

—Estou, D. Mariquinhas é que está doente, com uma das lymphatites do costume.

—Chamaste medico?

—Chamei, e lá a deixei com a Hermengarda ao pé da cama.

—Que Hermengarda?

—Aquella enfermeira mulata, do nº 15, mãe do...

—Já sei.

—D. Mariquinhas gosta muito d'ella. Queres ir vel-a agora?

—Depois; fiquemos por aqui. Os teus gyrasóes estão muito lindos.

—Não parece um jardim japonez? Repara. Temos chrysanthemos que nem os dos biombos, cannas como as das ventarolas, lirios e gyrasóes... D. Mariquinhas acha detestaveis todas estas flores e falla em mandal-as arrancar... Esta nossa madrasta tem singularidades. Não comprehende o adorno e desconhece a graça das linhas. Só gosta das flores pelo cheiro.

—Que tens feito?

—Lido, cosido e jardinado; que mais hei de fazer? quem me acompanha se eu quizer sahir?

—Effectivamente estás muito só.

—Preciso casar-me.

—Casa-te.

—Tenho medo.

—Os homens assustam-te?

—Um pouco. São enganosos, e eu sou franca. Imagina o conflicto! Depois, a lembrança da nossa mãe faz-me odiar o casamento.

—Sê honesta.

—Quem pode saber hoje o que será amanhã?

—Tens razão. Fica solteira; serás mais feliz. Tens uma alma indomavel. Conserva-te aqui. Esta casa é tão propicia a uma vida de calma e de reflexão!

—Minha madrasta, bem sabes, vive em guerra aberta commigo. Chama-me com malicia—doutora. Todos os meus gostos são assumpto de mofa para ella, e todos os seus são para mim de aborrecimento. E ahi tens a calma d'esta casa. Fresca tranquillidade!

—Tem paciencia ou, então, dou o dito por não dito. Casa-te!

—Com quem?

—Commigo não pode ser.

—Nem tu quererias.

—Porque?

—Porque amas a Camilla Theodoro.

Tinham-se afastado de casa e seguido para as bandas do pomar. O jardineiro passou com o carro de mão cheio de folhas seccas, e cumprimentou o moço, que não lhe correspondeu á cortezia, tonto, pasmado para a irmã, que estacára tambem ao dizer as ultimas palavras.

—Nega, se és capaz; disse ella.

—Não nego.

Quedaram-se mudos, contemplando-se de face.

Pela mente de ambos passou, dolorosissimamente, a lembrança da mãe assassinada pelo marido. Comprehenderam-se atravéz do silencio. Catharina murmurou:

—Á proporção que envelheço, mais se vincula em mim a saudade d'ella e não consigo desvanecer o meu rancor por elle. Não lhe perdôo.

—Nem eu; mas a sociedade absolveu-o...

—Os homens. Ella era tão boa!

—Enganou-o.

—Que monstruoso castigo! E o resultado, lembras-te? O teu afastamento de casa e o meu odio. Em vão elle se fazia bom para agradar-me; era de uma humildade que commovia a todos, menos a mim. Não tornei a beijar-lhe a mão.

—Nem mesmo na hora da morte?!

—Nem mesmo na hora da morte. E eu quiz; curvei-me; mas quasi ao encostar a minha bocca á mão d'elle, ergui-me com terror. Elle percebeu tudo. Que morte!

—Foste cruel.

—Fui humana. Tu o amavas?

—Antes? muito!

—Depois?

—Não. Mas era nosso pae...

—E ella era nossa mãe!

—Tens razão. Para os filhos a mãe é sempre a melhor e a mais pura entre as mulheres.

Um sabiá cantou e elles ficaram a escutar, com os olhos rasos de agua.

—Foi no Neptuno que percebeste tudo, não foi? perguntou Rino mudando de tom.

—Onde havia de ser?

—E só aquella vez bastou?

—Só.

—Manda calar aquelle sabiá, Catharina!

—Deixa lá o passaro; chora.

—... Parto depois de amanhã. D'esta vez a viagem será longa... Entrego em Belém o commando do Neptuno a outro. Tenho substituto; está tudo combinado e resolvido. Bem resolvido. Devo fugir-lhe. Não era preciso que evocasses a lembrança do passado para me dissuadir...

—Não tive a intenção de te dissuadir; quer-me parecer que o amor não é figura de barro que se amolgue com os dedos. Sómente, como ella ama o Dr. Gervasio...

—Por quem soubeste isso?

—Por nossa madrasta, que sem sahir d'aqui sabe sempre de tudo, benza-a Deus!

—Mas quem lhe diria a ella semelhante coisa?!

—Talvez o medico ... talvez a cozinheira... talvez o vento. O vento traz-lhe aos ouvidos coisas que ninguem mais ouve. E é uma espada desembainhada para todas as faltas, aquella mulher!

—De mais a mais, é uma calumnia! Camilla é discreta; mesmo que isso assim fosse, quem poderia adivinhar?

—João, amores são como luzes atravéz de rendas: apparecem sempre.

—Não, não; é preciso convencel-a de que isso é falso. Milla não ama ninguem; não ama ninguem!

Catharina fechou os olhos por um segundo, depois recomeçaram a andar, um ao lado do outro, silenciosos, pisando o enorme tapete solferino que as flores dos jambeiros-rosa alastravam no chão. A tarde descia clara e calma, toda azul, com leves tons opalinos.

—Catharina?

—João?

—Precisava ter-te sempre a meu lado...

—Pois casa-te e chama-me para a tua companhia. Eu criarei os teus filhos. Procura amar outra mulher. Ha tantas no mundo, ha tantas!

—Ha uma só: a que amamos. Só quero aquella.

—Soffres muito?...

—Horrivelmente, horrivelmente! Este desabafo ha de fazer-me bem. Custa muito guardar um segredo d'estes! E eu guardo o meu ha tanto tempo!

—Parecia-te. Bem viste que eu já o tinha commigo.

Sorriram ambos, com tristeza.

Como tivessem dado volta ao pomar, passaram pelo recanto onde Catharina tinha o viveiro das rosas, mas não se detiveram. Tornaram a cruzar-se com o jardineiro e, tomando a larga rua dos gyrasóes, entraram em casa.

Antes de se sentarem á mesa, os dois irmãos foram ao quarto da madrasta, uma senhora muito gorda, que se alastrava pela cama, com um lenço amarrado na cabeça e o rosto polvilhado de amido. A Hermengarda tinha cerrado as janellas e vigiava a doente, na penumbra. Sobre a mesa muitos vidros de remedios, e um cheiro de camphora espalhado em tudo.

O leito rangeu, ao movimento do corpo enorme, que se voltava a custo, e a enferma, fazendo uma voz debil, queixou-se de muitas dores e de muito frio.

Os enteados disseram-lhe meia duzia de phrases animadoras, recommendaram-lhe paciencia e, sentindo que a importunavam, sahiram em bicos de pés.

Antes de se sentarem á mesa, Catharina confessou ao irmão sentir-se alliviada com a ausencia da madrasta. Teriam assim um jantar mais intimo.

Elle perguntou:

—Afinal, tu a aborreces só por ella ser tua madrasta?

—Só. Se a morte de minha mãe tivesse sido natural, eu acceitaria depois a madrasta, senão com ternura, ao menos com respeito. Assim, quero-lhe mal, porque, escolhendo meu pae, ella offendeu minha mãe. Mas o mal está feito e é irremediavel, não fallemos nelle. Suppõe que eu sou uma exquisita, que ella é outra, e não penses mais nisso.

Ao jantar fallaram-se baixo para não incommodar a doente, cujo quarto era na visinhança.