A fallencia
Capítulo XX
No armazem, apertou a mão dos caixeiros, desde o mais infimo, e deteve-se a fallar com o Joaquim.
—O senhor que tenciona fazer agora?
—Sr. Theodoro, eu fui já ha dias convidado para a casa Gama Torres... Devo entrar para lá amanhã...
—Muito bem ... muito bem!... balbuciou em tom frouxo o negociante. E, relanceando o olhar triste pelo armazem, em um ultimo adeus saudosissimo, sahiu para a rua.
Na porta visinha a velha Terencia, com a carapinha occulta no lenço branco, e os bracinhos delgados extendidos para deante, sacudia os ultimos grãos de café, peneirando-os na bacia de folha furada a prego. Já a sombra se extendia pelas calçadas, e só lá em cima o sol encarapuçava de ouro as platibandas dos predios.
XX
Á hora em que Francisco Theodoro entrou em casa, já havia estrellas no céo. O Dr. Gervasio e as meninas esperavam-n'o no portão. Logo no jardim elle sentiu-se abraçado pelas filhas e a Nina com demorada ternura. Desprendendo-se de todos, olhou á roda, procurando alguem.
—D. Camilla adormeceu ha pouco, acudiu o medico—Noca está ao pé d'ella.
Francisco Theodoro não respondeu; sentou-se em um banco, com ar de extenuado, com a cabeça pendida para o peito; e, depois de uma longa pausa:
—Está desesperada, muito contra mim?
—Não; respondeu o medico, está resignada. São todos fortes, acredite.
—Coitadas...
—Não diga assim, papae! exclamou Ruth, não se afflija! Neste mundo então só ha logar para os ricos?
—Bom, só...
—Qual! havemos de ser muito felizes, descance.
—Como recebeu ella a noticia? tornou o negociante, voltando-se para o medico.
—Naturalmente, teve um abalo ... não esperava semelhante coisa, mas venceu-se com admiravel coragem. Em todo caso, dei-lhe um calmante para obrigal-a a dormir e repousar os nervos...
—Fez bem; obrigado.
—Tio Francisco, o senhor deve estar muito fraco; venha tomar sopa, ao menos...
—Estou cançado...
—Por isso mesmo, tome um caldo e vá-se deitar.
Entraram. Na grande sala de jantar havia um certo ar de abandono. Nina esquecera-se de enfeitar a mesa com as flores do costume, e a gaiola vazia do cacatuá punha a um canto uma nota de tristeza e de morte. Francisco Theodoro acceitou a sopa, tomou-a em silencio, e logo depois, deixando todos á mesa, pediu licença para subir. O medico, receioso, acompanhou-o com a vista. Que se iria passar lá em cima? como receberia Camilla o marido?
Parecera-lhe ter sentido passos; deveriam ser d'ella, que já estivesse acordada e andasse nervosamente pela casa...
Lia e Rachel, tão turbulentas, encolhiam-se uma na outra, observando tudo pasmadamente.
Imperturbavel, Nina servia a todos.
—Que edade teem mesmo estas meninas? perguntou o medico de repente, apontando para as gemeas.
—Seis annos, respondeu Ruth.
—É cedo para entrarem para o collegio, balbuciou elle, completando alto um pensamento qualquer.
Tinham acabado de jantar, quando Francisco Theodoro desceu.
—D. Camilla?
—Quando eu subi dormia ainda; mas soluçava de vez em quando. Depois acordou e fez-se de forte para tranquillisar-me. Talvez que ella não tivesse comprehendido todo o alcance da desgraça...
—Comprehendeu, mas resignou-se.
—Obrigado por todos os seus cuidados, doutor; tenho ainda um favor a pedir-lhe: venha cá amanhã, cedo, ás sete horas da manhã. Será possivel?
—Virei.
—Obrigado.
O medico sahiu, recommendando á Noca mil cuidados com Milla. Duas horas depois, a casa estava em silencio; as creanças dormiam, e Nina, não vendo Ruth nas salas, julgou-a recolhida e desceu devagar ao escriptorio do tio, que achou escrevendo na sua larga secretária.
—Dá licença, tio Francisco?
O negociante encobriu depressa com o braço o papel em que escrevia, e respondeu:
—Póde entrar.
E Nina entrou, embaraçada, percebendo o movimento do tio.
—Que quer você?
—Quero pedir-lhe um favor...
—Eu ainda os poderei prestar?!
—Oh! tio Francisco!
—Diga lá.
—Tenho vergonha ... eu...
—Diga, diga.
Nina sentiu impaciencia na voz do tio, e resolveu-se:
—Quero pôr em nome de suas filhas a casa que o senhor me deu. Ella é pequena, mas caberemos todos lá, se...
Nina corou; o tio contemplou-a em silencio, depois, sentindo que as lagrimas lhe corriam em fio pelo rosto, disse:
—Fez você muito bem em dizer-me isso; eu precisava de chorar. Bem vejo que não ha só ingratos no mundo; você é um anjo. Acceito o seu agasalho; olhe por minhas filhas.
As gemeas são muito pequenas, não teem educação ... é o que mais me pesa! Ruth, essa tem talento e um recurso. Tenha tambem paciencia com sua tia, é quem vae soffrer mais...
—O senhor ha de lhe dar o exemplo de resignação.
—Sim. Você que entende d'isso? Vá dormir.
—Mas...
—Vá dormir.
Nina murmurou, muito embaraçada:
—Boa noite.
—Adeus, minha filha. Que Deus a faça feliz.
Ella sahiu sem comprehender bem os gestos desencontrados nem o sentido das palavras do tio.
Elle queria estar só. A dôr fazia-o desconfiado, temia que o amor da familia não subsistisse á catastrophe.
Em que fizera elle até então consistir a felicidade e o seu merecimento aos olhos d'ella? No dinheiro, só no dinheiro. Elle era bom porque sabia cavar a fortuna, encher a casa de joias, de fartura e de conforto. Elle era bom, porque, tendo partido de coisa nenhuma, chegara a tudo, visto que o dinheiro é o dominador do mundo e elle tinha dinheiro.
Ainda não comprehendia como tendo trabalhado tanto, junctado com tão tremendo esforço em tão largo periodo de sacrificios, deixara agora ir tudo por agua abaixo, em tão curtos dias. Desfazer é facil!
Revoltado contra si, Francisco Theodoro cravou as unhas na calva, chamando-se de leviano e de miseravel. Como toda a gente se riria da sua falta de senso. A culpa era d'elle. Deixar-se levar por cantigas com a sua edade e a sua experiencia! Sentia ferver-lhe o odio por todos os amigos que o tinham inebriado com palavras perigosas e futeis. Então todos chamavam o Innocencio Braga de honrado, perspicaz e arguto. Agora, depois de tudo feito e perdido, é que o diziam um especulador sem consciencia. Mas agora era tarde; estava tudo perdido.
Recomeçar a vida? como? Já nem o proprio exemplo da coragem antiga lhe valia de nada.
A energia gastara-se-lhe. Nem o corpo nem o espirito resistiriam á lucta tremenda de recomeçar.
Pela primeira vez Francisco Theodoro percebeu que ha na vida uma coisa melhor do que o dinheiro—a mocidade. Com o corpo vergado, o espirito amortecido, elle era o homem extincto, o phantasma do outro, que ficava boiando no passado, desconhecido por todos, só amado pela sua lembrança.
«Velho ... estou velho! pensava elle, já não sirvo para nada. E agora? Para onde ha de ir esta gente, que eu mesmo habituei a grandezas? Para o sobradinho da rua da Candelaria? Nem isso... Camilla naquelle tempo contentava-se ... agora já se afez a outra coisa. Camilla! Camilla sem sedas? não, não se pode comprehender Camilla sem sedas. Onde tinha eu a cabeça? Miseravel! Eu sou um ladrão, roubei a meus filhos. Eu sou um ladrão!»
Como se quizesse fugir das proprias ideias, começou a andar pelo escriptorio, com ar desvairado. Vingava-o a sensação de que tudo agonisava com elle.
A especulação, a fraude, a ganancia, a traição e a mentira, iriam roendo e corrompendo fortunas e caracteres. Enganados e enganadores seriam todos engulidos conjunctamente pela outra fallencia, de que a sua era uma das precursoras.
No fim, havia de apparecer a justiça punindo as ambições e as vaidades d'estes tempos e d'estes homens doidos, quando, depois de tudo consummado não houvesse nada a refazer, mas tudo a crear.
A pulsação do seu sangue alvoroçado dava-lhe a percepção phantastica de que o Brasil seria arrastado vertiginosamente pela maldade de uns, a ignorancia de outros e a ambição de todos, em voragens abertas pela politica amaldiçoada.
Já não culpava o patricio, o Innocencio Braga, como causa directa da sua ruina. A responsabilidade da sua perda cahia em cheio sobre a Republica, que elle invectivava de criminosa, na allucinação do desespero.
Toda a sua vida de trabalho rotineiro, material, sem ideaes, mas cançativa na sua brutalidade mesmo, parecia-lhe agora como um rio caudaloso que tivesse vencido a nado e de que, só depois de transposto, percebesse o volume e os perigos.
Entretanto, talvez não tivesse sido difficil percorrer aquillo de outra maneira e melhor... Não fosse elle um ignorante e não se teria deixado enfeitiçar por palavras!
Era pois tambem certo que a intelligencia e a instrucção valiam alguma coisa...
Resumindo os seus pensamentos de vencido, Francisco Theodoro disse alto, num suspiro:
—Trabalhei, trabalhei, trabalhei, e aqui estou como Job!
Mas o som da sua propria voz assustou-o. Espreitou a vêr se o viam. Foi á porta; não havia ninguem. Lembrou-se depois dos seus projectos de viagem: idas á Europa, regalados descanços.
Era de justiça, diziam todos, e a justiça fizera-a elle por suas mãos; o homem nasceu para o trabalho, elle devia voltar para o trabalho.
E as forças? Onde estavam ellas, que as não sentia? Ah! corpo miseravel! corpo miseravel.
Affogueado, como se tivesse brasas na cabeça, Theodoro procurou a frescura do ar livre e foi encostar-se ao humbral da janella.
Fôra numa noite assim, de lua clara, que o avô se enforcara numa amendoeira, fugindo, no seu delirio de perseguição, a um inimigo que lhe ia no encalço. Era um camponez rude, o avô; havia muitos mezes antes d'esse acto que elle andava taciturno, agitado; depois, que tranquillidade!
Francisco Theodoro olhou para a noite:
O luar estava lindo, boiava no ar morno o aroma das esponjas e dos manacás, que a luz cobria de uma brancura sedosa e doce.
O aroma das plantas avivou-lhe tambem a sensação dos seus triumphos de outr'ora. Aquella essencia divina nascia da fertilidade das suas terras, trabalhadas por homens pagos por elle.
A criadagem! Como os seus creados, menos feliz do que elles, precisava tambem agora do salario de um patrão, com que matasse a fome á mulher e aos filhos...
—Como Job! repetiu elle furioso, arrancando as barbas e unhando as faces. Não lhe bastava o arrependimento, a dor moral, queria o castigo physico, a maceração da carne, para completa punição da sua inepcia.
Não saber guardar a felicidade, depois de ter sabido adquiril-a, é signal de loucura. Elle era um doido? Sim, elle era um doido. Tal qual o avô! Riu alto; elle era um doido!
Foi então que do fundo do jardim vieram os sons de um violino tocado em surdina.
Francisco Theodoro estremeceu, as pernas vergaram-se-lhe, olhou pasmado para o grande céo tranquillo, onde as estrellas palpitavam, Comprehendeu; Ruth não quizera perturbar a tristeza da familia e fugira com a sua musica para fóra! Aquella era uma forte, amava o seu idéal mais do que tudo, mais do que a vida! Que reservaria Deus áquella alma de extase e de sonho?
Os gemidos da musica vagavam na noite clara como queixas de anjos invisiveis. Não pareciam vibradas por mãos humanas aquellas notas suavissimas e repassadas de doçura. Tremulo, vencido pela commoção, Francisco Theodoro ajoelhou-se e chorou copiosamente. O ultimo beneficio era-lhe ministrado pela filha, como um sacramento. Nem elle soube quanto tempo durou aquella crise de pranto que o suffocava. Quando Ruth acabou a sua musica e elle lhe sentiu os passos leves e apressados na areia, teve impetos de chamal-a e cobril-a de beijos.
Mais forte, porém, do que o seu amor e a sua ternura, foi o medo de enfraquecer. Elle fugiu para dentro; tinha tomado a sua resolução.
Cada homem é creado para um fim. O d'elle tinha sido o de ganhar dinheiro; ganhara-o, cumprira o seu destino. Não podendo recomeçar, inutilisado para a acção, devia acabar de uma vez. Toda a energia da sua vida se concentraria num movimento unico e decisivo.
Ruth subia a escada. Elle foi collar o ouvido á porta para escutar-lhe os passos. Beijaria o logar em que ella punha os pés... Esteve assim longo tempo, depois voltou-se e foi sentar-se a um canto, esperando...
Pouco a pouco a casa adormecia, até que se encheu toda do pesado silencio do somno.
Á uma hora Francisco Theodoro levantou-se muito pallido, persignou-se e rezou, alli mesmo, entre o lampejar das molduras e o ar atrevido do cavalheiro de bronze. Finda a oração, caminhou resolutamente para a sua secretária. A bulha dos seus passos firmes abafou um sussurro leve de saias que deslisavam pela escada abaixo.