A fallencia
Capítulo IV
—Tambem não sei p'ra que seu Mario faz assim; só p'ra metter a gente em embrulhos...
—Tem paciencia, Noca ... elle é creança... Amanhã eu lhe darei conselhos...
—Hum... Lia entornou o oleo da lamparina no chão, e eu já fico esperando aborrecimentos. É sabido: azeite entornado, desgosto em casa!
—Cala a bocca; lá vem seu Theodoro. Boa noite, Noca!
Francisco Theodoro gyrou pela casa, verificou se estava tudo bem fechado e fez á mulata as perguntas previstas pela mulher. Depois, já a caminho do dormitorio, voltou-se e foi dizer-lhe:
—Olhe, Noca, se a enxaqueca do Mario augmentar, sempre será bom dar-lhe uma pastilha de antipyrina...
—Sim, senhor, eu vou vêr...
Francisco Theodoro sahiu, e a criada suspirou, vexada, abaixando a cabeça.
IV
Era meio-dia, quando o Dr. Gervasio saltou do bond e encaminhou os seus pés bem calçados para a rua dos Benedictinos.
Já o trabalho descia torrencialmente por toda a larga rua. Carroções fragorosos abalavam os parallelipipedos, ameaçando esmagar tudo que topassem adeante, numa chocalhada, aos arrancos dos burros alanhados pelas correias dos chicotes. Carroceiros vermelhos, de grenha suja e pés gretados, esbofavam-se, agarrados aos grilhões dos varaes, saltando deante das rodas, na bruteza selvagem da sua lida.
Ao alarido das vozes confundidas, misturavam-se o cheiro do café crú e a morrinha do suor de tantos corpos em movimento, como que enchendo a atmosphera de uma substancia gordurosa e fétida, sensivel á pelle pouco afeita a penetrar naquelle ambiente.
Atravéz dos crystaes da sua luneta de myope, o Dr. Gervasio olhava para tudo com o seu ar curioso, de cabeça erguida e narinas dilatadas, como se o olfacto o ajudasse tambem um pouco a conhecer o porque e o destino de todas aquellas coisas.
Com a bengala suspensa, os dedos das luvas irrompendo-lhe do bolsinho do veston, a cartola luzidia, a gravata clara, picada pelo brilho faúlante de um rubim, elle atravessava como um extrangeiro aquellas ruas, só habituadas aos chapéos de côco, ás roupas do trabalho diario, alpacas e brins burguezes, ou aos trapos immundos dos carregadores boçaes.
Como tivesse perdido o endereço do velho Motta, teve o Dr. Gervasio de subir ao escriptorio de Francisco Theodoro. No armazem, em baixo, a grita do negocio tocava á loucura: pareciam todos impellidos por molas flexiveis, de movimentos rapidos; eram machinas, não eram homens, aquellas creaturas nunca dobradas ao peso do cançaço...
O Dr. Gervasio, presumindo-se de forte pela sua ducha fria e a sua gymnastica de quarto, espantava-se da maneira lépida por que aquelles homens tiravam as saccas do alto das pilhas e as punham aos hombros. O seu braço fino, mas valente, sentia-se humilhado deante d'aquelles biceps de athletas.
Francisco Theodoro sorria-se do seu espanto, e para que elle não perdesse de novo o endereço, chamou um rapaz do armazem, o Ribas, e mandou-o acompanhar o medico até á casa do enfermo.
—Será melhor assim; disse elle, não haverá perigo de errar o caminho, porque, comquanto você seja carioca, nesta parte da cidade, olhe que é mais extrangeiro do que eu!
O Ribas sacudiu a poeira do chapéo, enterrou-o até as orelhas enormes, e, balançando os longos braços sem punhos, dentro d'um casaco enfiado á pressa, caminhou adeante, todo vergado, como um velho.
E por toda a rua de S. Bento, elle guardou aquella compostura, sem relentar os passos nem voltar a cabeça. Entrado na da Prainha, modificou a atttitude de caixeiro em serviço, foi-se deixando ficar atráz, até marchar ao lado do medico, morto por lhe pedir um cigarrinho.
O Dr. Gervasio percebeu-lhe a vontade.
Deu-lhe cigarros.
Atravessavam o largo da Prainha; que o sol alcatifava de ouro. Fazia calor. Ribas lembrou:
—Se o senhor quizer tomar alguma coisa, aquelle botequim é muito bom.
—Não tenho sêde.
—É que lá para deante não ha nenhum que preste...
«O rapaz quer cerveja, pensou comsigo o medico; pois façamos a vontade ao rapaz.»
Entraram no botequim. Em uma salinha estreita, com chromos nas paredes e papeis de cor no lampeão de gaz, havia tres mesinhas vazias e uma occupada por dois ciganos angulosos, que gesticulavam largamente, sacudindo-se nas suas longas sobrecasacas encebadas. Tudo ás moscas. O dono da casa veio, com ar somnolento, pedir as ordens; o Dr. Gervasio deu-lh'as, olhando para um violão pousado no balcão, e de que se dependurava uma larga alça de cadarço vermelho.
Aquelle instrumento abandonado suggeriu-lhe a idéa das noitadas de modinhas amorosas pelas estreitas ruas do bairro. Ou na treva, ou á claridade baça do luar, aquelles predios teriam ouvidos com que escutassem musicas vagabundas? Afigurava-se-lhe que não. A fadiga dos seus dias rudes tornaria de chumbo o seu somno, impassivel a sua alma cançada. Por mais que o trovador berrasse, a sua voz chegaria lá dentro como um leve zumbir de abelhas...
O dono do botequim julgou vêr no olhar do medico um reparo ao desleixo da sala e arrebatou a viola para dentro.
«Foi-se a unica nota pittoresca», pensou Gervasio, atirando os nickeis para a mesa.
Continuaram calados o seu caminho. E era um caminho todo novo para o medico, que o achava interessante na sua fealdade, extravagante no seu conjuncto de velharias e sobejidões.
A novidade do meio dava-lhe um prazer de viagem: beccos sordidos, marinhando pelo morro; casas acavalladas, de paredes sujas; janellas onde não acenava a graça de uma cortina nem apparecia um busto de mulher; caras preoccupadas, grossos troncos arfantes de homens de grande musculatura, e ruido brutal de vehiculos pesadões, faziam d'aquelle canto da sua cidade, uma cidade alheia, infernal, preoccupada bestialmente pelo pão.
Subiam a rua da Saude. Chegando á esquina do becco do Cleto, Dr. Gervasio olhou: ao fundo, no mar muito azul, barrava o horizonte um vapor do Lloyd.
Pontas finas de mastros riscavam de escuro o espaço limpido. Em terra vinham marinheiros aos grupos, baloiçando-se nos rins. Portuguezes levavam cargas, em carrinhos de mão, para um trapiche.
Foi logo adeante que um grupo de moleques irrompeu furioso, cercando o Ribas, exigindo-lhe os dez tostões do jogo da vespera. Eram quatro: um caboclinho de olhos negros e vivos, um negrinho retinto, um menino loiro, que os outros denominavam o Bota—por trazer uma bota velha suspensa de um barbante a tiracollo—, e um italianinho sardento, sem pestanas.
—Venham os dez tostões! venham os dez tostões que você ficou devendo hontem no jogo ... reclamavam.
E o Ribas defendia-se, hypocritamente:
—Que jogo? Eu?!
—Sim, senhor, não se faça de engraçado!
O menino loiro exigiu a entrada do dinheiro para a bota: elle era o caixa; os companheiros romperam em assobios e chufas.
Dr. Gervasio apressou o passo, deixando o Ribas numa roda-viva de provocações.
Que se arranjasse.
A curiosidade instigava-o a andar para deante; por bom humor talvez, sabia-lhe bem aquella caminhada. Tinha um olhar curioso para cada fachada arruinada, e parou com um sorriso, vendo em uma janella de vidros quebrados um vaso de cravos brancos.
As flores trouxeram-lhe á idéa as mulheres.
Reparou então que só topava com homens, caixeiros apressados ou embarcadiços de pelle queimada, ou mulatos chinellando nas calçadas, mostrando os calcanhares sem meias, num bate-pés barulhento.
Já agora não sentia só o cheiro do café, como em S. Bento, sentia tambem o do assucar ensaccado, o das mantas nauseabundas da carne-secca, o dos jacás de toucinho nos trapiches e nos grandes armazens, e o de sabão das fabricas, numa mistura enjoativa e asphyxiante.
Veiu-lhe a impressão de atravessar o ventre repleto da cidade, abarrotado de alimentos brutos, ingeridos com a avidez porca da doidice—e olhou para si, receioso de encontrar nodoas e immundicie por toda a sua pessoa.
E assim foi andando até as Docas, já esquecido do Ribas e já esquecido do velho Motta. Ao pé das Docas parou.
No chão, perto da porta, saccas de milho sobrepostas exhalavam cheiro de fermento; o caruncho, passando por entre os fios do canhamo, passeava ao sol.
Num banquinho de pau, e toda derreada sobre os joelhos, uma bahiana de hombros roliços e dentes sãos, vendia gergelim, mendobi, batata doce e tangerinas aos marinheiros chegados essa manhã do Norte. Pelo grande portão em arco, viam-se lá dentro das docas os caminhões seguirem pelos trilhos para o caes, e as galerias em cima, por cujas rampas as saccas, apenas impellidas, desciam vertiginosamente.
Dr. Gervasio olhava interessado para dentro, quando sentiu uns passos arrastados; voltou-se: o Ribas estava a seu lado, tranquillo mas amarfanhado, atando com mãos ligeiramente tremulas a gravata suja.
—O senhor já passou a rua Funda!
—Nesse caso voltaremos.
E voltaram, sem que o medico diminuisse de attenção, achando curioso um ou outro telhado colonial, de beiral estendido, uma ou outra sacada de rotulas, com janellas baixas, de caixilhos meúdos, muito velhinhas, suggerindo lembranças, provocando divagações... Então elle parava, erguendo o queixo bem barbeado, a olhar para aquillo. O Ribas não comprehendia, e ficava á espera, com ar estupido e os braços pendurados.
Passavam por um armarinho, quando o Ribas, não se contendo, disse com orgulho:
—Esta loja é de minha irmã ... ella está alli ... o senhor dá licença?...
—Pode ir.
Dr. Gervasio olhou. Em um balcão tôsco e estreito almoçavam um homem macilento e uma mulher moça, gravida, vestida de chita preta, sentada em um banco, com creanças núas agarradas á saia. O almoço parecia parco,—não havia toalha nem vinho; o medico surprehendeu de relance dous copos d'agua e qualquer coisa pallida dentro de um prato. Para não errar o caminho resolveu-se a esperar o guia, olhando entretanto para a meia duzia de objectos expostos, na vidraça modestissima da porta: linhas de rede de crochet e de costura, anzóes e agulhas, cigarros, objectas de pescaria e cartas de A B C.
O Ribas não se fez esperar; pareceu ao medico que o não tinham recebido bem...
Seguiram d'alli por deante silenciosos, até que o Ribas avisou:
—Ahi está a rua Funda.
Dr. Gervasio olhou e sorriu a uma observação que as reminiscencias de um quadro lhe suggeriam.
Aquella rua Funda, subindo estreita pela encosta do morro da Conceição, ladeada de casas de altura desegual, de onde em varaes espetados pendiam roupas brancas recentemente lavadas, desenhando-se negra no fundo muito azul do céu, lembrava-lhe uma viella de Napoles velha, onde o pittoresco não é por certo maior, e de que elle tinha uma aquarella em casa.
—É interessante, murmurou baixo, emquanto o Ribas, na frente, ia galgando a rua e batia á porta do Sr. Motta, um sobradinho amarello, de janellas de guilhotina e flores no peitoril, em latinhas de banha.
O velho Motta dormitava no canapé da salinha de visitas, com a perna extendida sob uma colcha de retalhos de chita. Ás palmas do medico a filha acudiu pressurosa, cuidando ter de receber a Deolinda do armarinho, que ficara de ir acompanhar o velho um bocado do dia; vendo o Dr. Gervasio, ella estacou interdicta, com os olhos arregalados e aconchegando com as mãos tontas a golla do paletot de chita.
—Quem procura?
Dr. Gervasio explicou-se.
—Faça o favor de entrar...
A filha do Motta caminhou na frente, com ar envergonhado, colhendo as mostras de desmazello da casa: aqui um pé de meia cahido da cesta de costura, acolá um panno de crivo roto, pendurado de um braço de cadeira.
O velho, despertado com sobresalto, mal atinava com o que dizer.
Sim, elle conhecia o medico, e agradecia o cuidado do patrão.
A filha fez sentar a visita e correu a fechar a porta de uma alcova em desordem. Era trintona, picada de bexigas, com as mãos desenvolvidas pelo uso da vassoura e da cozinha. O medico acompanhou-a com a vista, depois apressou-se em examinar o apparelho do doente, achando tudo em ordem, bem prevenido. Ainda bem; elle desacostumara-se dos seus trabalhos profissionaes. A clinica irritava-o, como se tivesse pelos homens um interesse mediocre.
Sentindo os dedos do medico percorrerem-lhe a perna, seu Motta descrevia, numa lenga-lenga, a sua queda e a sua falta de recursos. Suppunha fazer falta, cahira exactamente em uma occasião de grande movimento no armazem...
A filha trouxe café em chicaras de pó de pedra; Dr. Gervasio bebeu uns goles por gentileza e o velho sorriu, approvando-lhe a amabilidade.
O Motta pedia desculpas da casa ... não morava alli por gosto. Oh, se o Dr. Gervasio o tivesse conhecido em Pernambuco, quando a sua velha vivia! Com a morte d'ella tudo desandara...
O medico abreviou as lamurias, prognosticando cura rapida, e despediu-se, sem notar que a moça reapparecera na salinha, com outro casaco enfeitado a crochet.
Embaixo respirou de allivio e começou a descer a rua, por entre o palavreado guttural de papagaios suspensos ás janellas.
Sempre as mesmas cantigas, sempre as mesmas cantigas! Era preciso fugir d'aquelles abominaveis bichos; e elle apressou-se; mas logo na esquina pensou em andar por alli e fixar o bairro. Entretanto, desandava pelo mesmo caminho por que viera, quando viu uma rua cortada a pique na rocha e desejou saber que mundo haveria lá era cima. Subiu.
Creanças nuas, ainda mal firmes nas perninhas arqueadas, desciam sosinhas, ladeando precipicios.
No alto o Dr. Gervasio passou a outra rua, de grandes pedras engorduradas e denegridas, onde mulheres despenteadas fallavam alto e gatos magros se esgueiravam rente ás paredes.
Pareceu ao medico que a atmosphera alli era mais fria, de uma humidade penetrante, cheirando a velhice e a hortaliças esmagadas. Mal concebia que se pudesse dormir e amar naquelle canto sinistro da cidade, mais propicio ás minhocas do que á natureza humana, quando reparou para uma mulher moça, que, com uma lata de kerosene, aparava agua em uma bica. Era pallida e linda. Tambem ella olhava para elle com um olhar de velludo, sombrio e fixo, varado de tristeza.
Esses encontros fortuitos traziam ás vezes ao medico comparações singulares. Aquella mulher era uma invocação; o seu olhar revelava uma consciencia forte, a sua pelle, cor de luar, uma saudade infinita. Era a Agar da Biblia; uma açucena num canteiro de lodo...
Continuando o caminho, via de um lado e de outro casas desconfiadas, corredores soturnos, escadas escorregadias, que faziam lembrar o mysterio e o crime. Assaltou-o a idéa de andar por alli á noite, disfarçado de qualquer maneira. É quando o sol se esconde que o homem se mostra bem. Elle beberia com os marinheiros nas bodegas do bairro e penetraria em um d'aquelles albergues.
Aos seus instinctos repugnou logo esse mergulho na lama e rejeitou a lembrança, observando se a rosa da sua lapella ainda estaria fresca.
Nem por isso... Foi então obrigado a recuar de um salto; de uma alta trapeira atiravam agua de barrella á rua. A agua corria espumosa, em fios grossos, por entre os pedregulhos deseguaes.
—Bonito!
D'ahi em deante apressou o passo, sentindo que de todos os lados olhos se fixavam com estupefacção no seu chapéu alto. Tinha a impressão de atravessar por meio de ruinas; parecia-lhe que em toda aquella rua não haveria um unico caixilho com vidros, uma unica chave sem ferrugem, uma unica dobradiça perfeita.
Era o resto de uma cidade, tomada de assalto por gente expatriada, resignada a tudo: ao pão duro e á sombra de qualquer telha barata. Uma pobreza avarenta aquella, que formigava por toda a encosta de lagedos brutos, entre ratazanas e aguas servidas.
O Dr. Gervasio interrompeu o curso das suas idéas, ao vêr, attonito, D. Joanna sahir de uma casa.
Ella vinha cançada, com o largo rosto muito afogueado.
Trazia nas mãos curtas uma salva de prata, cheia de esmolas em cobre e em nickeis.
Ella não se mostrou menos espantada de o encontrar naquelles sitios e foram andando juntos até ao cimo do morro da Conceição, onde o ar livre varria toda a esplanada em frente ao palacio episcopal, e a luz de um céu muito anillado e puro cahia com todo o brilho.
Respondendo a uma pergunta do medico, que aspirava com força o ar do mar, como se quizesse lavar os pulmões do ambiente infecto por que passara, D. Joanna explicou que andava a pedir para a missa cantada. Palmilhava todo o Rio de Janeiro (parecia incrivel!) era sempre nessas ruas de gente meúda, miseravel mesmo, que ella colhia maior numero de esmolas. «A pobreza está mais perto de Deus», dizia ella no seu doce tom de devoção.
Depois, alli mesmo ao sol, sem resguardo, queixou-se da sobrinha. Camilla fora sempre uma desviada, nunca tivera propensão para a egreja. Um cego via melhor as coisas da terra do que os olhos d'aquella alma as coisas do céu!
Que reparasse para os nomes judaicos que ella puzera nas filhas; Ruth, Lia, Rachel, quando havia tantos nomes de santas no kalendario!
As creanças haviam de seguir no mesmo caminho perigoso; e era isso o que a maguava.
Precisava salvar as creanças.
Francisco Theodoro, sim, esse era bom catholico; gostava de o ver na Candelaria, com a sua opa de irmão. Um santo homem!
—Mas D. Milla vae á missa todos os domingos...
—Ora, a missa hoje em dia é mais um dever de sociedade que um preceito de religião. Camilla só vae á egreja para se mostrar. Basta ver como ella se enfeita. Eu queria-a mais simples... A Ruth esteve algum tempo no collegio das Irmãs: pois mal sabe o catechismo e ainda não cuidou da primeira communhão! Eu peço a Deus por elles, mas...
—Faz bem.
—O senhor é dos taes, que não querem crer.
—Isso não me impede de lhe dar uma esmola para a sua missa.
—Acceito; rezarei nella pela sua conversão. Olhe que bem precisa: o senhor está empurrando Camilla para o inferno...
—Eu?!
—Quem mais!
—Oh, minha senhora, que injustiça... bem pelo contrario...
—Sim, vá fallando e não me olhe com esses olhos de motejo. Pensa que eu não sei de tudo? O unico cego alli é o pobre do marido, que não merecia que lhe fizessem isso. Eu estou cá no meu canto, mas sei do que se passa, e toda a gente sabe, infelizmente... Não é por falta de eu pedir a Nossa Senhora do Rosario, minha madrinha ... mas os peccados vêem-se, saltam aos olhos até. Já me aconselhei com o padre Mendes, sem dizer de quem se tratava, está claro, e pedi-lhe que rezasse para que isso acabasse em bem... Elle é um sacerdote, deve ser attendido ... emquanto que eu, pobre peccadora...
—Mas a senhora está louca, D. Joanna? balbuciou o medico, mal disfarçando a sua ira; não a entendo!
Com medo de uma descarga de censuras, D. Joanna despediu-se. Ia ainda dar uma volta pela Pedra do Sal.
O Dr. Gervasio mal a cumprimentou; sentia-se collado de espanto áquelle chão poeirento. Os seus amores, que elle julgava bem occultos, tinham varado as sacristias e ido do Botafogo elegante até aos casebres do Castello e da Conceição! Quiz desmentir a velha; mas os seus olhos claros, de um castanho louro, não o deixaram fallar, cortando-lhe pela raiz qualquer protesto. Ella não fallara só pela bocca, que a tinha sincera; mas tambem pelos olhos, em cuja limpidez apparecera toda a verdade.
O medico viu-a, com odio, ir arrastando, na sua peregrinação de fé, as pernas inchadas, rebolando os quadris largos, bem fornidos e que ainda os franzidos da saia exaggeravam.
Apressou-se em voltar-lhe as costas, com medo que ella tornasse, para lhe dizer ainda alguma coisa do peccado.
O que lhe repugnava, sobretudo, era a solicitada intervenção do padre. Desde então deixou de reparar nas coisas, para pensar em si. E os seus sentimentos eram de especie confusa e tristonha.
Em outros tempos, de mais verdes annos, a divulgação de taes amores não o desgostaria, talvez... Ser amante de uma mulher bonita e cobiçada não é coisa que fique mal a um homem... Por ella, sim, devia ter cuidados e mysterio; mas esse mesmo dever de discreção absoluta não seria abafado pela voz do egoismo, sempre a mais imperiosa nos homens, e pela da vaidade, se outras circumstancias não lhe exigissem segredo? As almas fortes dos homens têm d'essas pequenices, e a d'elle, sabia-o bem, era como as dos outros, amigas, sem proposito, de causar inveja aos menos afortunados...
Cançado, nervoso, picado pelo sol, o Dr. Gervasio seguiu atôa, desceu o morro, andou pelas ruas, mal respondendo aos comprimentos dos conhecidos, que ia encontrando á proporção que se approximava do seu centro habitual. Já nada do que vira e o impressionara naquelle gyro, se lhe esboçava na lembrança. Aquellas riquezas, aquelle movimento, aquellas casas, aquelle rumor de população atarefada, baixa e mesclada, aquellas altas ruas despenhadas em escadarias immundas e barrancos, tudo se dissipava e se fundia numa impressão de mar e de lixo, de onde surgia a voz melada, unctuosa da tia Joanna, offerecendo promessas, confidenciando com extranhos sobre os seus amores e os seus adorados segredos.