A fallencia
Capítulo XIII
Nessa tarde o Ribas, balançando os braços molles, entregava ao patrão uma carta manchada pelos seus dedos suados. Era do velho Motta; a perna não o deixava ainda ir ao serviço; pedia desculpas com humildade, tresuando miseria. Era o dia do vencimento do ordenado.
Francisco Theodoro deixou cahir a carta na cesta dos papeis rasgados e, cofiando a barba, cogitou na melhor maneira de responder ao Innocencio...
XIII
O palacete Theodoro preparava-se para o baile.
Desde manhã até á tarde era uma invasão de operarios pelas salas e corredores, um continuo martellar nas paredes, bulhas abominaveis de escadas arrastadas, de utensilios atirados ao chão, de laminas raspando parquets e de moveis deslocados.
Arrancadas todas as cortinas e reposteiros e atirados em monte para o despreso do porão, o sol e o vento entravam pelas janellas escancaradas, com inteiro desassombro.
Varado de ar e de luz, repleto de gente extranha, o interior da casa perdera o aspecto de intimidade e de conforto, que torna o lar amoravel e discreto.
Ruth sentia a impressão de estar numa praça publica. O baile não a interessava, e aquelles preparativos irritavam-n'a. Tinha uma salvação: fugir para o fundo da chacara, com o seu violino ou um romance qualquer. A musica inebriava-a; o livro abria-lhe scismas, e não raro ella adormecia estirada no banco do caramanchão, numa das suas longas estiadas de preguiça, entre o violino e o livro abandonados.
Os outros da familia preoccupavam-se com a festa.
Camilla ideava o esplendor do baile pensando muito em si. Reclamara da modista um vestido com bordaduras luminosas, flores e azas espalmadas sobre tules, que dessem ao seu corpo o fulgor de um astro.
O bulicio produzia-lhe febre, anceio de chegar ao fim, de ver as suas salas repletas de vestidos de baile e de casacas voejando no redemoinho das dansas.
Outras preoccupações iam-se desvanecendo, substituindo, escorregando para o esquecimento. Que valia já a tal mulher de lucto? Gervasio não provava com a sua assiduidade ser só d'ella? Talvez tivesse visto mal, quem sabe? a gente illude-se tantas vezes!
E repellia da lembrança as palavras, a meia confissão do medico, que tornavam o facto positivo e doloroso. A visão esgarçava-se. Gervasio não a deixava tomar corpo.
Elle agora demorava-se no palacete dias inteiros. Fora elle quem determinara a transformação de duas alcovas inuteis em uma sala de musica, em que essa applicação fosse indicada por pinturas a fresco; foi elle quem contractou artistas, quem escolheu mobilias novas e harmonisou o conjuncto em todas as peças. Tudo que sahia das suas mãos parecia a Camilla perfeito.
Nem a Noca, nem a Nina sobrava tempo para descanço. Vigiavam tudo. As gemeas, atiçadas pela balburdia, contentes com a novidade, atiravam-se por entre os utensilios dos enceradores e dos estofadores, rindo-se da desordem que provocavam.
Mesmo Francisco Theodoro parecia mais satisfeito.
Depois de um exame meditado, elle tinha resolvido: acceitaria a proposta do Innocencio, d'aquelle trefego Innocencio, tão perspicaz.
Livre de uma preoccupação que o enervava, tornou-se mais leve e mais risonho. Já tinha determinado as coisas: um mez depois do baile a familia partiria para Petropolis, para o novo palacete que alli estava construindo, e que, como costumava dizer: engulia dinheiro que nem um avestruz.
Um bello dia, Ruth atravessava a sala de musica para a escada, afflicta por se ver ao ar livre, quando, relanceando o olhar pelas paredes, estacou surprehendida.
De um fundo nebuloso, de brancura opaca, surgiam roseos anjinhos nús, soprando em longos flautins de ouro.
A maneira por que nascia da tinta aquella carnação tenra e doce, porque a leveza do pincel chamava á tona aquelle bando de creanças, que vinham de longe, as primeiras ainda mal entrevistas nos vapores da atmosphera densa, as ultimas já batidas de sol, na irradiação limpida da luz, fizeram-na estremecer. Era uma arte que se revelava aos seus olhos, como que um mysterio que se esclarecia ao seu entendimento.
Nunca pensara nisso. Os quadros que havia em casa, vinham de fabricas. A machina não produz almas, e só a alma impressiona e acorda instinctos.
Em pé, com o violino mal seguro nas mãos, Ruth concebia agora como se podia pintar um quadro. Maravilhava-a, que de uma parede compacta e bruta, o artista fizesse o ether, onde nuvens se baloiçavam e azinhas de filó batiam tremulas.
Aquella surpresa dava-lhe a ideia de ter posto os pés em paiz novo, um paiz de sonho.
Já não pensava em se arredar d'alli. Cada vez mais curiosa, punha a vista sofrega nas mãos do pintor, tão grandes e tão leves, e nas tintas da paleta, que se desmanchavam noutras tintas mais suaves, ou em flechas de sol.
Tão embevecida ficou, que, meia hora depois, quando o Dr. Gervasio entrou e lhe bateu no hombro, ella respondeu, sem desviar a vista da parede:
—Estou gostando de vêr...
«A quem diabo teria sahido esta pequena?!» pensou comsigo o medico, ao mesmo tempo que examinava com vista curiosa o trabalho do pintor. E não lhe agradou completamente o trabalho; torceu os labios, descontente.
Mais tarde, quando Ruth lhe pediu a significação d'aquelle gesto, elle respondeu:
—Não tive talvez razão; a minha exigencia torna-me incontentavel e injusto. Eu já sabia que o artista não é genial; portanto, não podia esperar d'elle uma obra perfeita. Que importa que um dos anjos tenha uma perna mais comprida que a outra, e todos tenham o mesmo nariz? Não digamos isso aos outros, que os outros nada verão. A côr é bonita, o effeito é gracioso, basta. Já é uma felicidade haver alguma coisa...
—Eu, como não entendo, acho bonito. Estou até com vontade de pedir a mamãe que me mande ensinar pintura...
—Não se abstraia do seu violino; mesmo servindo a uma arte só, é raro haver quem a sirva dignamente. Estude só musica, só musica e não pense em mais nada...
Passados dias dava-se por finda a decoração da sala e Ruth voltou a não encontrar geito de estar dentro de casa, no meio da balburdia dos trabalhadores. Passava agora outra vez o dia no balanço, ou no caramanchão das rosas amarellas, fazendo do parque o seu salão de musica e de leitura. Ensinava as gemeas a trepar ás arvores ou coroava-as de flores e punha-lhes palmas nas costas, á guiza de azas.
Um dia, porém, a confusão chegou ao proprio parque. Abriam um novo lago e alteravam o desenho dos relvados para os effeitos da illuminação. Homens em mangas de camisa iam e vinham por entre os canteiros, fallando alto, gesticulando afanosos e zangados.
Não tendo já para onde fugir, Ruth pediu á mãe que a mandasse com a Noca para o Castello. Passaria dois dias com as tias velhas. A tia Joanna promettera-lhe historias de santos e leval-a ás egrejas e ao Observatorio para vêr a lua e as estrellas.
Era a occasião.
Quando Ruth entrou em casa das tias Rodrigues, D. Itelvina contava, no oratorio, os nickeis arrecadados pela irmã, em esmolas para uma missa rezada.
D. Joanna tinha ido á novena do Rosario, nos Capuchinhos, e entoava a essa hora o—ora pro nobis em côro com o povo e os frades.
Ruth sentiu frio naquelle casarão do Castello, de largas salas encebadas, sem cortinas, quasi sem mobilia, com papeis sujos nas paredes desguarnecidas; mas a ideia de ir ao observatorio tentava-a, e valia todos os sacrificios. Ficaria.
Quem lhe abriu a porta foi a Sancha, sempre de olhos inchados e a roupa em frangalhos. Mal deu com os olhos em Noca, a negrinha sorriu, perguntando pela sua encommenda.
—Que encommenda, gente?
—A senhora já se esqueceu, tornou a preta a meia voz, o arsenico que eu pedi...
—Uê! você está maluca! eu já nem me lembrava d'isso! Tome o seu dinheiro; não foi quinhentos réis que você me deu?
—Foi; mas eu não quero o dinheiro, quero a outra coisa...
—P'ra quê? ora veja só! olhe que eu conto a D. Itelvina, hein?
A negrinha poz as mãos, em um gesto supplice.
—Não diga nada...
—Você é tola!...
A negrinha suspirou baixo e murmurou uma phrase que não pôde ser ouvida, porque D. Itelvina apparecera, de olhar desconfiado e narinas dilatadas farejando mysterios.
D'ahi a instantes, no canapé da sala, Ruth respondia ao longo questionario da tia, que lhe apalpava a lã do vestido, achando desperdicio que fosse forrado de seda, censurando-lhe o luxo de um annel de perolas, e a consistencia das fitas de setim do seu chapéu de palha. Das presentes passou ás coisas ausentes, em perguntas miudinhas e torpes:
—O Dr. Gervasio ainda vae lá todos os dias?
—Vae, sim, senhora.
—Hum... Diga-me uma coisa: Mario continua a fazer dividas?
—Não sei...
—Camilla sae sozinha?
—Ás vezes sae.
—Porque é que você não vae sempre com ella, hein?
—Eu tenho que estudar.
—Não fica bem uma senhora sahir só...
Ruth contemplou-a, estupefacta.
—As más linguas fallam. O palacio de Petropolis está prompto?
—Está quasi prompto. Nós vamos para lá este anno.
—Em quantos contos está?
—Não sei, não, senhora...
—O Dr. Gervasio vae tambem?
—Acho que não.
—Hum... Quando se casa a Nina? ainda não haverá por lá alguem de olho?
—P'ra Nina? não, senhora.
—Seu pae não ha de gastar pouco, agora, para este baile, hein! Diz que estão reformando tudo! é verdade?
Innocentemente, Ruth contou o que se passava em casa; a intervenção do medico na escolha dos apparatos, as cores do toldo de setim do terraço, as pinturas da sala de musica, os lavores dos jarrões para o vestibulo...
D. Itelvina ouvia, sem interromper a narração de Ruth, que ella animava a proseguir com um gesto de interesse avido. No fim, concluiu com um sorriso torto:
—Teem dinheiro, fazem muito bem em gastar.
Nisto bateram á porta. Sancha moveu-se lá dentro e veio pelo corredor. Sentindo-a, D. Itelvina correu para a alcova proxima e accendeu a lamparina do Senhor Santo Christo, que assoprava sempre que a irmã voltava costas. Ruth seguia-lhe os movimentos e foi com espanto que a viu mergulhar os dedos magros no prato das esmolas e sumir, quasi que por encanto, uma meia duzia de moedas no bolso do avental. A velha julgou que a sobrinha nada tivesse percebido, tão rápido e adunco fôra o seu gesto, e voltou dizendo que o vento apagara a lamparina, e que embebida na prosa ella se esquecera de a reaccender...
Ruth baixou o rosto, muito corada, arrependida de ter ficado. Noca rodara sobre os calcanhares; se bem andara, onde estaria ella!
D. Joanna entrou, gemendo de cançaço.
—Olha, maninha, quem está aqui! disse-lhe a irmã.
—Que milagre! exclamou D. Joanna, abrindo os braços para Ruth, que se precipitou nelles, morta por se ver livre da seccura aspera da outra tia.
—Quem foi que trouxe você?
—Noca... ella vem-me buscar depois de amanhã bem cedo ... mamãe não queria dar licença, tinha medo que eu incommodasse; mas tanto pedi, tanto pedi...
—Esta casa é muito triste. A alegria passou por aqui ha mais de trinta annos, mas não deixou signal. Sancha! tira as minhas botinas. É muito triste esta casa ... filha... Estamos tão velhas...
Sancha ajoelhou-se. D. Joanna extendeu dois pés inchados, calçados a duraque, e quando a negrinha lhe puxou e tirou as botinas, ella gemeu: primeiro de dor, depois de allivio.
—Vae buscar as chinellas... Pois você fez muito bem em vir... Amanhã poderá ir commigo á missa, á tarde á novena e...
—E á noite ao Observatorio. Foi por causa do Observatorio que eu vim. Dr. Gervasio escreveu ao director, apresentando-nos... Estou com uma curiosidade!
—Mas...
—Não temos mas, nem pêra mas, titia; faça a vontade á sua sobrinha, sim?
Pouco depois, como estivesse escuro, Sancha trouxe um lampeão de kerozene com um fetido horrivel. D. Itelvina sahiu da alcova, atravessou a sala, e sumiu-se na guella negra do corredor.
Ruth sentia-se mal naquelle canapé alto, de assento afundado. Foi á janella, voltou; a tia rezava; quando a viu persignar-se, pediu-lhe historias de santos e sentou-se a seu lado. Tia Joanna não se fez de rogada.
As mesmas palavras que na alegria da sua casa risonha lhe enfeitiçavam a imaginação, arrepiavam agora Ruth, naquella meia sombra, num ambiente tão diverso do que lhe era habitual.
Os cilicios, as caldeiras fumegantes, as fragoas accesas do inferno, a nudez das virgens martyres, as cruzadas para a Terra Santa, lanças flechando o ar abrasado, exercitos comidos pela peste ou esmagando judeus, os grandes votos solemnes, os ritos crueis, as perseguições injustas, os gritos de misericordia, todas as agonias e todos os extasis, que a velha relatava, para a victoria da Fé christã, assombravam Ruth, que toda se cosia á tia, olhando desconfiada para a vastidão sombria do aposento mudo.
Na parede do fundo, o bruxolear da luz fraca parecia desenhar formas indecisas de animaes phantasticos; seriam talvez os porcos babosos das lendas satanicas, os dragões flammiferos, ou os magros cães de focinho erguido a uivar...
—Tia Joanna, tia Joanna!
—Que é isso, minha filha?!