A fallencia
Capítulo XIV
—Eu estou com medo ... conte outra historia mais suave...
—Não se espante, menina! São as grandes dores, o sangue e a morte que ensinam a Fé. Quem não soffre não comprehende o céo, Ruth! Ainda hontem monsenhor Cordeiro disse estas palavras verdadeiras.
—Mas, o céo assim é feio, tia Joanna...
—Cale a bocca!... espere ... quero vêr se me lembro de uma lenda muito antiga, que já tem corrido mundo, mas que é bem verdadeira e bem simples.
—Em que não haja nem fogueiras nem sangue; sim?
—Nem sangue, nem fogueiras:—Foi um dia...
XIV
«Foi um dia uma freira pallida, muito moça, muito linda, temente a Deus e devotada á Virgem. Vivia na Normandia, em um convento velho, de rigidas penitencias, isolado em cima de um rochedo.
Da frecha gradeada da sua cella, a freira só via: em baixo, a pedraria negra, e além charnecas brancacentas a perder de vista.
Uma tristeza.
No claustro, para onde deitava a sua cella, mesmo no angulo perto da portaria, havia uma imagem de marmore representando Nossa Senhora, tão doce, tão humana, que mais parecia creatura viva. Sempre que soror Pallida deslisava pelo claustro, fazia á Virgem uma reverencia profunda e murmurava:
—Ave!
E a Virgem sorria-lhe, dentro do seu nicho azul.
Uma noite, soror Pallida, depois de rezar o Bemdicto, desabotoava o seu habito branco para dormir um somninho innocente, quando lhe pareceu ouvir o seu nome na janellinha. «Ha de ser o vento...» pensou ella, tirando a cruz e o véu.
Não era o vento; a mesma voz, mais distincta agora, repetiu-lhe o nome. Soror Pallida quiz resistir, com medo, mas nunca o seu nome lhe parecera tão doce, nem tão suspirado; assim, levada por curiosidade, ou não sei porquê, foi-se approximando, foi-se approximando...
Tão depressa chegou, Jesus! que havia de vêr?
Suspenso nos varões de ferro, o capellão do convento olhava para ella, com dois olhos que nem duas estrellas.
—Senhor capellão, porque estaes ahi? perguntou ella afflicta, pondo as mãos tremulas.
—Senhora freira, porque vos amo! respondeu-lhe elle.
E logo de mil modos começou a tental-a.
Taes coisas disse, taes coisas fez, que a pobre o escutava embevecida. Chamou-a linda, meiga, angelica, e por fim (vê a perfidia!) pediu-lhe que o beijasse, que o beijasse na bocca ou que elle se despenharia no abysmo...
A freira debatia-se: que não!... mas, para não o vêr morrer despedaçado no rochedo, vá lá, condescendeu em beijal-o. Louca! que fizeste? foi a tua perdição! Elle sumiu-se, e ella ficou de joelhos, muito tremula, muito alvoroçada.
Em vão coseu cilicios ás suas carnes, em vão se rojou pedindo a Deus que lhe apagasse da memoria aquelle peccado doce e horrendo; em vão! O beijo alli estava sempre nos seus labios, sentia-o quente, perfumado, embriagador.
Soror Pallida já não era a mesma; perdia o sentido das rezas, tinha deliquios, abstracções.
O moço capellão voltou, mais uma noite, mais outra, induzindo-a a que fugisse: iriam viver bem longe, numa casinha branca, entre pomares cheirosos e aguas crystallinas.
Ella recuava, com temor de tamanho crime; mas elle extendia-lhe os labios e convencia-a de que o amor vale mais que o céo, mais que a perpetua bemaventurança, mais que tudo!
E tornava a supplicar-lhe que fugisse: elle a esperaria juncto á portaria, com os cavallos promptos, mais rapidos que o vento.
Sabe-se como essas coisas são: máo é dar-se ouvidos a primeira vez. A freira já não pensava senão em varar aquellas charnecas longuissimas ao galope de um cavallo ardego, sentindo palpitar o coração do seu cavalleiro enamorado. Mas, sempre que, altas horas da noite, subtil e tremula, deslisava para a portaria com a tenção de fugir, esbarrava com a Virgem, fazia-lhe a sua reverencia profunda, murmurando contrictamente:—Ave!—e passava; mas, oh! surpreza! a grande porta do convento desapparecera, e na portaria, como em todo o claustro, só havia grossas paredes impenetraveis.
Soror Pallida voltava attonita, e a Virgem sorria-lhe do seu nicho azul.
Por serem sempre as flores presentes de namorados, o moço capellão levava todas as noites rosas á sua eleita. No outro dia toda a communidade entoava:
—Milagre! milagre! a Irmã da Virgem recebe rosas do céo. Os anjos trazem-lhe flores do Paraiso, como a Santa Dorothéa!
Assim acreditavam, visto que só cardos e espinheiros bravos nasciam em redor, por aquellas penedias.
E entoavam hymnos.
Cançado de esperar, por uma noite trevosa e triste, o moço capellão aconselhou a freira a que passasse de olhos fechados pela Virgem, rosto voltado para a outra banda.
Assim fez a louquinha, mas de coração apertado em muita agonia. D'essa vez achou a porta do convento mal fechada: dir-se-ia que ferrolhos e trancas, (e que taes eram ellas! ) se abriam de per si. Foi por isso que a freira fugiu para a noite negra, com o seu habito branco...
Depois...
Só no fim de um anno, quando elle se cançara de a amar, foi que a misera percebeu que o seu cavalleiro não era o capellão—mas o diabo em pessoa! Arripiada, transida de medo, fugiu por montes e valles, de cruz alçada, balbuciando preces, com o fito no convento e em redimir-se com arduas disciplinas. Andou assim, noites e dias, leguas e leguas, por mattaria espessa, mal se sustendo nas pernas fracas e nos pés ensanguentados, até que á luz frouxa de uma madrugada viu um dia os penhascos abruptos do convento, e cahiu de joelhos, persignando-se.
Finda a oração, ergueu-se. Passava então pela estrada um velho muito velho, de bordão e saccola, e ella perguntou-lhe se não ouvira fallar em uma religiosa fugida do convento um anno antes?
—Nenhuma freira fugiu nunca d'aquelle convento, respondeu elle; são todas umas santinhas, louvado seja o Senhor!
—Amen! Entretanto ... ouvi dizer que uma das irmãs, que recebia rosas...
—A do milagre!? ah! essa! É a mais pura... Ide vêl-a, Ide vêl-a se soffreis. Essa até dá vista aos cegos e faz andar os paralyticos.
Com vivo espanto, a freira galgou a encosta pedregosa e, toda a tremer, com o coração aos pulos, bateu á porta do convento.
—Quem é? perguntou de dentro uma voz dulcissima.
—Uma peccadora arrependida, para a penitencia—sussurrou soror Pallida, lavada em pranto. E confessou logo alli os seus desatinos...
A porta abriu-se sem fazer barulho: dir-se-ia que os grossos gonzos enferrujados estavam de velludo,—e a rodeira mostrou se com um sorriso á freira apoquentada.
Oh! aquelle sorriso, bem o conheceu a religiosa que, vergando os joelhos, na profunda reverencia antiga, murmurou com immensa compuncção e infinita doçura:
—Ave!
A Irmã rodeira era a Virgem Maria, que, desde a noite da fuga, tomara a fórma da freira e cumpria todos os deveres da regra que lhe competiam: badalando os sinos, varrendo os claustros, accendendo as velas dos altares e arrumando os gavetões da sacristia.
—Toma o teu habito, disse-lhe Nossa Senhora, e vae para a tua cella... Descança, que ninguem soube do teu opprobrio, ninguem!...
Soror Pallida prostrou-se e uniu humildemente a face á lage fria; depois, erguendo o rosto inundado de lagrimas, perguntou soluçando:
—E Vós, Mãe Santissima?!
—Eu? Perdoo, respondeu-lhe a Virgem sorrindo, já dentro do seu nicho azul...»
Eram nove horas; Sancha veio chamar para a ceia, e levou para a mesa o lampeão fumarento. D. Itelvina só usava mate, que sempre era de maior economia. Sentaram-se. Ruth mal enguliu a sua chicara. Pensava em soror Pallida.
Nessa noite teve de sujeitar-se a dormir com a tia Joanna. Lembrando-se das pernas inchadas da velha, teve um arrepio e saudades do seu leito branco coberto de filós delicados. A tia mexia-se, benzia todo o quarto, rezava a meia voz, sacudia a roupa que toda cheirava a incenso, e com a vigilia da velhice perturbava o somno da menina. Foi no meio do silencio da casa, que irromperam de repente, lá do fundo, uns gritos lancinantes.
Ruth sentou-se na cama, com os olhos arregalados.
—Que é isto, tia Joanna?!
—Não é nada ... ha de ser a maninha batendo na Sancha...
—Meu Deus!
—Não é nada, dorme, minha filha!
—Oh!... tia Joanna, vá lá dentro ... peça a titia p'ra não dar na coitada!
—Eu?! não ... a negrinha merece ... maninha não gosta de intervenções... Sancha faz espalhafato á tôa.
—Vou eu.
Ruth, em fraldas de camisa, de pernas núas, saltou para o chão, com um movimento de colera, e sahiu para a sala de jantar; já não havia luz; guiada por uma claridade frouxa, do fim do corredor, correu para a cozinha, onde a D. Itelvina surrava a pequena com uma vara de marmelleiro.
A negrinha mal se livrava com os braços, tapando o rosto e abaixando a cabeça. Ruth saltou para o meio do grupo e segurou a vara que ia descahindo sobre a carapinha da outra.
—Isso não se faz, tia Itelvina! isso não se faz! gritou ella com impeto, crescendo para a tia, que estacara boquiaberta.
—Você não tem nada com o que eu faço. Este diabo botou de proposito gordura na agua do meu banho ... eu sei porque dou. Ella merece. Ruth, vá dormir.
—Não vou; mande a Sancha deitar-se primeiro. A senhora não tem coração?!
—Ora vá-se ninar! Sancha, p'r'aqui!
A negrinha tinha-se refugiado a um canto, perto do fogão, e exaggerava as dôres, torcendo-se toda, amparada pela compaixão da Ruth.
D. Itelvina avançou os dedos magros, e, agarrando-a por um braço, puxou-a para si; a sobrinha então abraçou-se á negrinha, unindo a sua carne alva, quasi núa, ao corpo preto e abjecto da Sancha.
—Bata agora! tia Itelvina, bata agora! gritava ella, em um desafio nervoso, sacudindo a cabelleira sobre os hombros estreitos.
D. Itelvina atirou fóra a vara e disse para a negra:
—Vae-te deitar, diabo! foi o que te valeu... Mas nós havemos de ajustar contas...
Sancha esgueirou-se para um quarto escuro, onde os ratos faziam bulha, e Ruth, arrepiada, tremula, voltou silenciosa para o quarto da tia Joanna.
A velha amarrava um lenço na cabeça. A sobrinha interrogou-a:
—É sempre assim?
—Não ... uma vez ou outra.
—Mas como podem viver neste inferno?!
—Ora, você não sabe. A Sancha provoca. Maninha anda desconfiada que ella lhe deita vidro moido na agua, e na panella ... é uma coisa ruim. E ladra, ih! Você sabe o meu genio, não sei guardar chaves... Pois é raro o dia em que a Sancha não me fique com alguns tostões das missas... Maninha corrige-a para bem d'ella. É um sacrifício... Eu não teria paciencia para a aturar.
—A Sancha vae amanhã commigo para casa.
—Está doida, menina! e quem nos ha de fazer o serviço?
—Aluguem uma mulher.
—Ruth ... você é muito creança ... não pense na Sancha. Ella faz tudo quanto pode para excitar maninha... Eu se digo, é porque sei. Ainda hontem queimou-lhe de proposito os chinellos novos, com o pretexto de os ir seccar ao fogo. A minha roupa, lava ella; a da maninha deixa-a apodrecer na beirada do tanque. É uma coisa ruim!... não pense mais nella. Durma...
Mas Ruth não podia dormir; e quando de madrugada a tia Joanna se levantou para ir á missa das Almas, ella saltou da cama, para ir tambem.
Antes de sahirem, foram á cozinha procurar café, e lá encontraram a Sancha a accender o fogo, assoprando com força. Foi então que Ruth se chegou para ella e, pousando-lhe a mão no hombro, disse alto, sem medo que a tia Joanna a ouvisse:
—Sancha, porque é que você não foge?
A negrinha ergueu o busto e fixou a mocinha com pasmo.
—Nhá?!
—Fuja!
A tia Joanna, entretida a partir o pão da vespera, não percebera nada. Uma esperança vaga tremeluziu no rosto estupido da preta.
—E depois? perguntou ella, assustada.
—Vá lá para minha casa; eu fallarei a mamãe.
—De que serve! me mandarão outra vez para cá...
—Não. Titia póde alugar outra criada... papae fallará com ella...
A tia Joanna acabara de partir o pão e chamava á sobrinha para o café da vespera, requentado.
Quando sahiram era já dia, mas as nevoas da manhã poisavam ainda nos telhados, e nada se via da cidade, em baixo.
Pelo caminho do convento cabras saltavam, seguidas dos cabritos de pello espesso e novo, e na grama molhada faziam correrias uns cachorros vadios. Tocou a matinas e a tia Joanna benzeu-se. Ruth, pouco afeita a madrugadas, achava um prazer divino em ir assim rompendo as nevoas com a pelle refrescada pela humidade da atmosphera e os olhos cheios d'aquella luz branca, suave, que subia e se ia extendendo pelo céo todo.
Na egreja, a tia fez reverencia a todos os altares, com uma oraçãozinha na ponta da lingua para cada um; Ruth seguiu até o altar-mór e ao ajoelhar-se sentiu como nunca que havia na sua alma uma supplica, um appello para a misericordia de Deus. Entre o altar, onde um ramo de flores esquecidas se ia desfolhando, e os seus olhos sonhadores, foi-se esboçando pouco a pouco a figura angulosa e tosca da Sancha. De mãos postas, Ruth pediu á Virgem uma bençam para a negra, um pouco de piedade, um refugio, uma consolação. Até alli que sabia das miserias do mundo? nada. Aquella noite do Castello, tão simples, tão monotona, fora uma revelação! Era bem certo que a lagrima existia, que irrompiam soluços de peitos opprimidos, que para alguem os dias não tinham côr nem a noite tinha estrellas! Ella, criada entre beijos, no aroma dos seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa delicada, sentira sempre no coração um desejo sem nome, um desejo ou uma saudade absurda, a saudade do céo, como dizia o Dr. Gervasio, e que não era mais que a doida aspiração da artista incipiente, que germinava no seu peito fraco.
E aquella mesma magua parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se á outra, a Sancha, da sua edade, negra, feia, suja, levada a ponta-pés, dormindo sem lençóes em uma esteira, comendo em pé, apressada, os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de algodões rotos, curvada para um trabalho sem descanço nem paga!
Porque? Que direito teriam uns a todas as primicias e regalos da vida, se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?
Sabia a historia da Sancha: uma negrinha vinda aos sete annos da roça para a casa das tias, com sentido no pão e no ensino. Era dos ultimos rebentões d'essa raça que vae desapparecendo, como um bando de animaes perseguidos.
E tudo d'ella repugnava a Ruth: a estupidez, a humildade, a côr, a fórma, o cheiro; mas percebera que tambem alli havia uma alma e soffrimento, e então, com lagrimas nos olhos, perguntava a Deus, ao grande Pae misericordioso, porque a criara, a ella, tão branca e tão bonita, e fizera com o mesmo sopro aquella carne de trevas, aquelle corpo feio da Sancha immunda? Que reparasse aquella injustiça tremenda e alegrasse em felicidade perfeita o coração da negra.
—Sim, o coração d'ella deve ser da mesma côr que o meu, scismava Ruth, confusa, com os olhos no altar.
Quando acabou a missa, tia Joanna quiz fazer a sua penitencia, umas corôas de rosario que ella disse a meia voz, de olhos cerrados.
Ao sahirem do convento, dois frades retiveram a velha juncto á pia de agua benta, interessados pela sua saude, cobrindo-a de bençams e de boas palavras. Fóra, já o sol irrompêra victorioso, estraçalhando os ultimos farrapos de neblina.
A velha lembrou a Ruth que ainda teriam tempo de ir morro abaixo até a egreja do Carmo.
Ruth não respondeu; deixou-se levar. Mais valia andar de egreja em egreja do que voltar para o triste casarão da tia Itelvina.
—Você conhece a egreja do Carmo?
—Não, senhora. Ouço sempre missa na capella do collegio. Não gósto das egrejas grandes.
—Porque?!
—Não sei...
—Ora essa!
—Tia Joanna, ha muita coisa que eu sinto e que não sei explicar. Á senhora não acontece o mesmo?
—A mim? não; nem a mim nem a ninguem. Quando a gente diz que gosta ou não gosta de uma coisa, sabe sempre o motivo por que o diz.
—A senhora reza da mesma maneira em uma egreja grande, sombria e fria, que em uma egrejinha clara e enfeitada de flores?
—Certamente. Deus tanto está nas grandes como nas pequenas egrejas. Elle está em toda a parte.
—Mas se Deus está em toda a parte, porque abandona certas pessoas?
D. Joanna estacou.
—Não diga heresias, menina! Deus não desampara ninguem.
—E a Sancha?
—Hein?
—A Sancha.
—Lá vem você com a negrinha!
—Negra ou branca, é creatura.
—Não digo que não. Mas que falta á Sancha?
—Oh, tia Joanna! pergunte antes o que lhe sobra...
—Você é muito impressionavel. Creia que a pequena não é infeliz. Que seria d'ella, se não estivesse lá em casa... Uma desgraçada, d'essas da rua. Talvez que bebesse, ou que já estivesse com um filho nos braços.
—Estar com um filho nos braços! mas isso seria uma fortuna, tia Joanna. Tomara eu.
—Menina, que é que você está dizendo!
—Gosto tanto de creanças! Olhe, tia Joanna, o meu desejo é ter vinte filhos, vinte!
A velha corou.
—Perdôo essas palavras, porque você é innocente; mas não torne a repetil-as, ouviu?
Ruth scismava em que constituiria peccado o ter vinte filhos, quando D. Joanna exclamou, apontando para duas creanças, carregadas uma com uma harpa, outra com uma rabeca:
—Olha, Ruth; aquellas, sim, é que são infelizes: andam ao sol e á chuva, e se não levam dinheiro para casa, ainda apanham por cima.
—Não as compare á outra, tia Joanna. Eu preferiria andar sempre ao ar livre, apanhando soes e chuvas, tocando no meu violino, dormindo em qualquer soleira de pedra, do que viver no borralho como a Sancha. Ao menos estes teem a musica.
D. Joanna riu-se.
—É verdade; quando você toca esquece tudo.
Chegaram á egreja; a missa tinha começado. Ruth deixou-se ficar sentada no banco, sem attender aos puxões que a velha lhe dava, para que se ajoelhasse. Para que, se tinha exgottado o ardor da sua alma na primeira missa do convento? Sentia-se agora cançada, apertavam-lhe as saudades da mãe e da alegria da sua casa. Como lhe pareceu interminavel aquella missa, que a velha ouvia toda de joelhos, num extase!
Findo o sacrificio, D. Joanna quiz levar esmolas a todas as caixas da egreja.
Ruth apressava-a, morta por se ver na rua, mas a tia nem parecia ouvil-a. No adro lembrou ainda:
—Já que estamos cá embaixo, vamos a Santa Rita saber noticias do padre Euclydes, que está doente.
Ruth objectou:
—Mas titia, eu estou com fome...
—Tem razão, filhinha; mas é um momento só. O sacristão nos dará informações e seguiremos logo para casa.
Em Santa Rita, rezava-se uma missa de setimo dia. Gente de preto cobria as naves como um bando de urubus. O sacristão procurado ajudava á missa, e não havia ninguem na sacristia que soubesse do padre Euclydes. D. Joanna deliberou esperar e empurrou a sobrinha para o corpo da egreja, dizendo:
—Rezemos por alma d'este morto, filha.
—Mas nós nem o conhecemos, titia!
—Não faz mal; foi um peccador, precisamos salval-o.
Tia Joanna ajoelhou-se e ergueu o rosto gordo e pallido para o altar. Era tal a fé, a doce piedade que a sua expressão diffundia, que Ruth deixou-se cahir de joelhos e pediu a Deus perdão para a alma d'aquelle desconhecido, por quem tantas mulheres choravam...
Que Deus lhe desse abrigo e eternos gosos!
Emfim, o sacristão affirmou á senhora do Castello, como muita gente a chamava, que o padre Euclydes entrara em convalescença, e diria no domingo a sua missa.
—Bem, titia, chegou a minha vez de lhe pedir tambem uma coisa; disse Ruth.
—Peça, filhinha.
—Já que estamos tão perto, deixe-me ir tomar a bençam a papae. A estas horas elle está farto de estar no armazem.
D. Joanna hesitou:
—Olhe que não é tão perto assim...
—Parece-me que já estou ha tanto tempo fóra de casa...
—Vamos lá... Que pieguice!
Tinham andado meia duzia de metros quando esbarraram com Francisco Theodoro, que vinha reçumando saúde e alegria pelas faces coradas, empertigado nos seus linhos e brins brancos, bem engommados, de que um paletot preto fazia resaltar a alvura.
Nos seus olhinhos pardos, muito claros, faiscavam lampejos; elle extendeu as mãos á filha, com uma exclamação de alegria:
—Senhora fujona, que faz por aqui?!
—Já enguli tres missas, papae; mas ainda estou com fome! Iamos agora procural-o ao armazem; eu queria tomar-lhe a bençam, para depois irmos almoçar...
Se papae nos levasse a um hotel?...
—Não posso. Tenho muito que fazer. Vou agora mesmo procurar o Innocencio Braga, que já deve estar á minha espera... Adeus.
E, abreviando, elle metteu na mão da filha uma nota de vinte mil réis, aconselhando ás duas que comessem qualquer coisa em um restaurante. E despediu-se á pressa, mal ouvindo os innumeros recados que a Ruth mandava á mãe.
D. Joanna lembrou-se que estavam perto da casa do Dr. Maia, e que mais valeria irem lá papar-lhe o almoço do que entrarem sozinhas em um restaurante. Ruth sorriu-se do escrupulo da velha, já contagiada pelas economias sordidas da irmã.
—Tanto me faz, tia Joanna; leve-me onde haja bifes, e eu ficarei contente; respondeu-lhe a menina.
Ardiam-lhe os pés; uma fadiga enorme amollecia-lhe o corpo; e entregava-se, inerte, á vontade da velha. Por fortuna, a casa do Dr. Maia era perto do largo, na rua dos Ourives, um sobrado antigo, de rasgados salões arejados, onde velhas mobilias bem espanadas attestavam o escrupulo dos moradores.
O Dr. Maia foi o primeiro a recebel-as, no corredor; muito velhinho, arrastando os chinellos bordados pela neta, com a gorra de velludo cobrindo-lhe a calva, e um bom sorriso hospitaleiro illuminando-lhe o rostinho claro e murcho, onde os olhos azues se iam velando da neblina da velhice.
D. Joanna era intima da casa, recebida sem cerimonia; e como a Ruth tivesse ar de menina, elle foi empurrando a ambas para a sala de jantar.
Só estava em casa a velha, a D. Elisa; a filharada debandara depois do almoço, uns para o emprego, outras para o dentista e as compras. Mas no fundo das cassarolas ainda havia restos de arroz e de ensopado; D. Elisa recommendou que estralassem uns ovos, e em poucos minutos D. Joanna e Ruth almoçavam, ao som de um discurso do Dr. Maia, que ia descrevendo com surprehendente enthusiasmo o seu invento de um balão dirigivel.
Elle não pensava em outra coisa; vivia em perpetuo vôo, entre altas camadas de atmosphera. Desde alguns annos se fixara nesses estudos e para elles fazia convergir todos os seus cuidados.
A mulher sorria-se com resignação imposta pelos mil desvarios que se acostumara a conhecer no esposo. Desde rapaz que elle fôra assim, mettido a emprezas oppostas á sua competencia. Tinha estudado para medico, e abandonara a clinica para defender réos desamparados, escrever para jornaes e desperdiçar forças e tempo na elaboração de grandes emprehendimentos que não levava a termo. Agora era o balão.
Aquelle velho de quasi oitenta annos, achacado de asthma, perdia horas de somno, curvado sobre a mesa, a desenhar, a escrever, a dar forma á sua ideia, em uma palpitação assombrosa de vida.
Havia em casa uma certa piedade pelas suas manias, um respeito pela innocencia d'aquelles ideaes. D. Elisa dizia ás vezes que se a alma, no seu ultimo vôo, tomasse fórma visivel, veriam, os que assistissem á morte do marido, que a d'elle lhe voaria do peito como uma borboleta. E toda azul! accrescentava ella, com o seu sorriso sympathico.
D. Joanna mal entendia as descripções do Dr. Maia, mastigando com difficuldade a carne um pouco dura, batida á pressa. Ruth abria os ouvidos e via esgarçar-se a neblina que a edade punha nos olhos do medico e ir-lhe apparecendo nas pupillas azues um brando fulgor de primavera. Ella percebia alguma coisa, via já o balão scindindo as nuvens, leve, airoso, vestido de côres luminosas. Como seria bom subir tão alto, tão alto!
—O meu balão será de aluminium, um metal levissimo, explicava elle, e todo redondo, gyrará em grandes circulos, como se dansasse uma valsa; percebem?
D. Joanna fez que sim com a cabeça, e espetou uma batata. Ruth murmurou:
—Assim branco e redondo, será como a lua ... que bonito!
Felizmente, uma nova visita veio interromper a exposição do velho, que se despediu das senhoras e lá se foi para a sala pigarreando pelo corredor.
D. Elisa desabafou depois com a amiga as suas queixas domesticas. O marido exgottava os minguados recursos em livros e revistas. O que lhe valia era o filho mais velho, o José... A neta andava na Escola Normal e ganhava para os seus alfinetes; as duas filhas solteiras, já trintonas, coitadas, cosiam para fóra... Ahi estava a vida. E é assim, por ahi; toda a gente trabalha; accrescentou ella com um suspiro.
Quando D. Joanna e a sobrinha voltaram para o Castello, quem lhes abriu a porta de casa foi a Sancha. Ruth recuou espantada. Que! pois a idiota da negrinha não ouvira o seu conselho?
Ao jantar, uma tristeza. D. Itelvina alludia com escarneo mal contido ás grandezas do palacete Theodoro, e lamentava-se de só poder abastecer-se de generos baratos, espremendo-se em lamurias. D. Joanna benzeu o pão, rezou de mãos postas, e sentou-se á mesa com a sua consciencia feliz, e uma doce expressão de conforto. Para ella tudo era bom, estava tudo sempre muito bem.
Foi nessa noite que Ruth subiu com ella as escadas do Observatorio, para vêr as estrellas; e quando as viu, a sua commoção foi tamanha e tantas as suas exclamações, que a tia observou:
—Você é muito exaggerada, Ruth!
Ruth nem a ouviu; olhava embevecida. No céo, de um azul fechado, aquelles pontos de ouro tomavam formas e dimensões excepcionaes. Esta estrella era verde, aquella azul, aquella outra violeta, e uma como um bouquet de variados matizes, e outra pallida, e outra affogueada, e outra diamantina, e todas immensas e luminosissimas. Oh! as estrellas, que belleza de céo! Sobretudo as do Cruzeiro eram formosas, limpidas como o clarão da fé. Depois, aquelles chuveiros de ouro e prata, aquelle fervilhamento multicor da via-lactea, raios de fogo dançando, cruzando-se, chispando em fagulhas de uma pyrotechnia phantastica... Depois a lua...
—Nossa Senhora, que immensidade!... Como é bonito! Oh! tia Joanna, como é bonito!
—Bom, bom; divirta-se...
Ruth não respondia; com o olho collado á lente, esmagada pela poesia d'aquelles esplendores, ficava embevecida, como se dos astros chovessem sobre ella aromas que a embriagassem.
—Filhinha, vamo-nos embora...
—Mais um bocadinho só ... oh! tia Joanna!
Nessa noite, deitada ao lado da tia na alcova mal allumiada e que tresandava a azeite de lamparina, Ruth via na imaginação impressionada as estrellas, globos enormes de crystal cheios de luz e cheios de flores, fulgurando e espargindo aromas. Já ella adormecia e ainda a tia lhe ouviu em um murmurio entrecortado:
—Como é bonito!