A Herdeira das Sombras

Anne Bishop · Capítulo 9 de 22

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A Herdeira das Sombras

Capítulo Cinco

 

1 / Kaeleer

Luthvian exam inou seu reflexo. O vestido novo se aj ustava às suas curvas elegantes, m as ainda não estava provocante o suficiente. Talvez o cabelo solto, caindo pelas costas, parecesse m uito j uvenil. Talvez devesse ter feito algum a coisa em relação àquela m adeixa branca que a fazia parecer m ais velha.

Bem , ela era j ovem , tinha pouco m ais de 2.200 anos. E aquela m adeixa branca tinha surgido quando ainda era criança, um a lem brança dos punhos do pai. Além do m ais, Saetan perceberiria se ela tentasse ocultá-la, e, com certeza, não estava se arrum ando para ele. Queria apenas que aquela filha de Saetan reconhecesse o nível da feiticeira que tinha concordado em ensiná-la.

Lançando um últim o olhar nervoso ao vestido, Luthvian desceu as escadas.

 

Pontual, com o sem pre.

Roxie abriu a porta logo após a prim eira batida.

Luthvian não estava certa se a anim ação de Roxie era m era curiosidade em relação à filha de Saetan ou se era o desej o de provar às outras garotas que conseguia flertar com um Príncipe dos Senhores da Guerra de Joia Negra. Fosse o que fosse, tinha evitado que Luthvian abrisse a porta.

A filha foi um a surpresa m uito boa. Luthvian não percebera que Saetan tinha adotado sua queridinha, porém não havia um a gota de sangue hay lliano na garota — e m uito m enos dele. Im atura e sem grande traquej o social, concluiu Luthvian ao observar os breves cum prim entos trocados à porta. Nesse caso, o que teria levado Saetan a dar a esta garota a sua proteção e os seus cuidados?

Foi então que Jaenelle se virou na direção de Luthvian e sorriu tim idam ente, em bora o sorriso não tenha chegado aos olhos azul-safira. E não havia qualquer tim idez naqueles olhos. Estavam repletos de circunspecção e raiva reprim ida.

— Lady Luthvian — disse Saetan ao se aproxim ar —, esta é a m inha filha, Jaenelle Angelline.

— Irm ã — saudou Jaenelle, estendendo am bas as m ãos num cum prim ento form al.

Essa saudação, com o se fossem iguais, não agradou Luthvian, m as seria corrigida em particular, longe da presença protetora de Saetan. Por agora, devolveu o cum prim ento e virou-se para Saetan.

— Fique à vontade, Senhor Suprem o. — Indicou a sala de estar com o queixo.

— Aceita um a taça de chá, Senhor Suprem o? — perguntou Roxie, tocando ligeiram ente em Saetan ao passar.

Não era a hora nem o local para corrigir as ideias da tolinha em relação a Guardiões, em especial a este Guardião, m as Luthvian ficou surpresa ao ver Saetan agradecer Roxie e retirar-se para a sala de estar.

— Sabe — disse Roxie, fitando Jaenelle e sorrindo com m uita vivacidade —, ninguém acreditaria que você é a filha do Senhor Suprem o.

— Vá cuidar do chá, Roxie — ordenou Luthvian, ríspida.

Altiva, Roxie seguiu pelo corredor até a cozinha.

Jaenelle ficou olhando fixam ente para a entrada vazia.

— Não se deixe enganar pelas aparências — sussurrou ela com um a voz som bria.

Luthvian sentiu um calafrio. Teria descartado a súbita alteração na voz de Jaenelle com o um sim ples dram a de adolescentes, se Saetan não tivesse surgido à porta da sala de estar bastante tenso e interrogativo.

Jaenelle sorriu para ele e deu de om bros.

Luthvian conduziu a nova aluna até seu próprio escritório, um a vez que Saetan insistira que as aulas fossem particulares. Talvez posteriorm ente, se Jaenelle conseguisse chegar ao nível das outras, pudesse fazer algum as aulas com as dem ais alunas.

— Pelo que percebi, vam os ter de com eçar pelo básico — disse Luthvian, fechando a porta.

— Sim — respondeu Jaenelle pesarosam ente, aj eitando o cabelo sobre os om bros. Franziu o nariz e sorriu. — Papai conseguiu m e ensinar algum as coisas, m as ainda tenho dificuldades com a Arte básica.

Seria ingênua ou sim plesm ente inábil?

Luthvian relanceou para o pescoço de Jaenelle, para detectar um a ferida recente ou um a som bra de m achucado. Se ela não era m ais que sangue fresquinho, por que se dar o trabalho de educá-la? Não, não fazia sentido, ainda m ais porque era o próprio Saetan que a instruiria na Arte da Am pulheta. Algum a coisa não fazia sentido, algum a coisa que ainda não com preendia.

— Vam os com eçar deslocando um obj eto. — Luthvian colocou um a bola verm elha de m adeira na m esa de trabalho vazia. — Aponte o dedo para a bola.

Jaenelle resm ungou, m as obedeceu.

Luthvian ignorou o lam ento. Tudo indicava que Jaenelle era tão tolinha com o suas outras alunas.

— Im agine um fio fino e rígido que sai da ponta do seu dedo e vai se ligar à bola. — Luthvian aguardou um m om ento. — Agora im agine a sua força passando pelo fio até tocar a bola. Agora im agine que puxa o fio e a bola se desloca na sua direção.

A bola não se m oveu. Mas, a m esa de trabalho se deslocou. E os arm ários m etidos na parede do fundo do escritório quase fizeram o m esm o.

— Pare! — gritou Luthvian.

Jaenelle parou e suspirou.

Luthvian olhou boquiaberta. Se tivesse sido unicam ente a m esa de trabalho, poderia achar que era um a tentativa de se exibir. Mas os arm ários?

Luthvian invocou quatro blocos de m adeira e m ais quatro bolas de m adeira. Colocou tudo na m esa e disse:

— Trabalhe sozinha por alguns instantes. Concentre-se em fazer um a ligação delicada entre você e o obj eto que tenta deslocar. Preciso ver as outras alunas e j á volto.

Obediente, Jaenelle centrou a atenção nos blocos e nas bolas.

Luthvian saiu apressada do escritório, com os punhos e os dentes cerrados. Queria ver um a única pessoa e era bom que ela tivesse um a boa resposta para aquilo.

Sentiu o frio na entrada principal antes de ouvir a risadinha.

— Roxie! — cham ou com brusquidão, e agarrou o vão da porta para conter seu im pulso. — Você tem feitiços para term inar.

Descontraída, Roxie agitou a m ão.

— Oh, só falta um ou dois.

— Então vá fazê-los.

Roxie fez beicinho, olhando para Saetan, à espera do seu apoio.

Não havia qualquer expressão no rosto do Senhor Suprem o. Pior ainda, seus olhos estavam im perturbáveis. Fogo do Inferno! Ele estava prestes a cortar a garganta daquela idiota e ela nem sequer se dava conta!

Luthvian arrastou Roxie para fora da sala de estar e pelo corredor abaixo, em purrando-a, por fim , até a sala de aula.

Roxie bateu o pé.

— Não pode m e tratar assim ! Meu pai é um Senhor da Guerra im portante em Doun e m inha m ãe...

Luthvian apertou o braço de Roxie e sussurrou:

— Escute bem , sua idiota. Você não sabe com quem está se m etendo.

— Ele gosta de m im .

— Ele quer m atar você.

Roxie ficou atônita por um m om ento. Depois, m ostrou um olhar calculista.

— Você está com ciúm es.

Luthvian precisou reunir todo seu autocontrole para não esbofetear a idiota com tal força que a faria girar no lugar.

— Vá para a sala de aula e não saia de lá. — Esperou até Roxie bater a porta antes de voltar para a sala de estar.

Cam inhando, im paciente, de um lado para outro, Saetan praguej ava baixinho enquanto passava os dedos no cabelo. A raiva dele não a surpreendeu, contudo ficou surpresa com o esforço que ele fazia para que não fosse sentida além da sala.

— Fico surpresa por não ter lhe dado um a verdadeira m ostra do seu tem peram ento — disse Luthvian, m antendo-se j unto à porta. — Por que não fez isso?

— Tenho m inhas razões — rosnou.

— Razões, Senhor Suprem o? Ou apenas um a?

Saetan parou de repente e olhou além de Luthvian.

— A aula j á term inou? — perguntou com inquietação.

— Ela está praticando sozinha. — Luthvian odiava falar com Saetan quando estava zangado, por isso decidiu ir direto ao assunto. — Por que está se dando o trabalho de lhe ensinar os procedim entos da Am pulheta quando ela ainda é tão inexperiente?

— Nunca disse que era inexperiente — respondeu Saetan, tornando a andar pela sala. — Disse que precisava de aj uda na Arte básica.

— Até dom inar o básico, um a feiticeira não pode fazer m uita coisa.

— Não estej a tão certa disso.

Saetan continuou a andar de um lado para o outro, m as j á não estava enfurecido. Luthvian observou-o, decidindo que não gostava de ver o Senhor Suprem o nervoso. Não gostava de nada daquilo.

— O que foi que você não m e contou?

— Tudo. Prim eiro, queria que a conhecesse.

— Ela possui um im enso poder bruto para alguém que não usa Joias.

— Ela usa Joias. Acredite, Luthvian, Jaenelle usa Joias.

— Então o que...

Um grito entusiasm ado os fez sair correndo em direção ao escritório.

Saetan abriu a porta de repente e ficou petrificado. Luthvian com eçou a em purrá-lo para que abrisse cam inho, m as acabou se agarrando ao braço de Saetan com o apoio.

A m esa descrevia círculos em sentido horário e, ao m esm o tem po, girava lentam ente sobre si m esm a com o se estivesse num espeto. Podia ver agora um a dezena de caixas de m adeira, algum as encostadas no tam po da m esa, outras pairando por cim a dela, todas girando bem devagar. Sete bolas coloridas de m adeira faziam um a dança com plexa em volta das caixas. E todos os obj etos m antinham a respectiva posição em relação à m esa que girava.

Com m uito esforço, Luthvian achava que conseguiria controlar um m ecanism o tão intricado, porém teria levado anos para adquirir aquela técnica. Não era possível que Jaenelle com eçasse com um a bola que nem sequer conseguia deslocar e acabasse naquilo num a questão de m inutos.

Saetan soltou um a gargalhada que era ao m esm o tem po um lam ento.

— Acho que estou pegando o j eito com esta coisa do fio até o obj eto — disse Jaenelle ao olhar de relance por cim a do om bro, com um largo sorriso, para logo em seguida soltar um gritinho quando tudo com eçou a balançar e cair.

Luthvian estendeu a m ão no m esm o m om ento em que Saetan. Im obilizou os obj etos m enores, ao passo que ele deteve a m esa.

— Droga! Maldição! — Jaenelle estatelou-se no chão com o um a m arionete com os fios cortados, olhando feio para as m esas, caixas e bolas.

Às gargalhadas, Saetan endireitou a m esa.

— Não se preocupe, criança-feiticeira. Se tudo saísse perfeito logo de prim eira, não seria m uito divertido treinar, não é?

— É verdade — disse Jaenelle com um entusiasm o verdadeiro.

Luthvian fez desaparecer as caixas e bolas, esforçando-se para não rir diante do receio de Saetan. O que achava que a garota iria fazer? Tentar m anipular um a sala repleta de m obília?

Parecia que sim , pois entraram num a discussão am istosa sobre qual o m elhor am biente para Jaenelle praticar.

— As salas de recepção, é claro, estão fora de questão — disse Saetan. Parecia um hom em tentando desesperadam ente acreditar que a lam a sob seus pés era terra firm e. — No Paço, há aposentos vazios e m uitos m óveis velhos no sótão. Por favor, com ece por aí.

Saetan pedindo “por favor”?

Jaenelle olhou para Saetan com um falso ar exasperado.

— Está bem . Mas só para não criar problem as com Beale e Helene.

Saetan suspirou, sentido.

Jaenelle riu e virou-se para Luthvian.

— Obrigada, Luthvian.

— De nada — respondeu Luthvian debilm ente. Todas as aulas seriam assim ? Não estava certa sobre o que sentia em relação a isso. — Nossa próxim a lição será daqui a dois dias — acrescentou ao deixarem o escritório.

Enquanto percorriam o corredor, Jaenelle m anteve a atenção nos quadros. Estaria realm ente interessada na arte ou apenas percebia a necessidade que os adultos tinham de conversar entre si depois de lidarem com ela?

— Acha que consegue sobreviver? — perguntou Saetan, baixinho.

Luthvian inclinou-se na direção de Saetan.

— É sem pre assim ?

— Oh, não — disse Saetan, seco. — Hoj e estava m uito bem -com portada. Norm alm ente é m uito pior.

Luthvian abafou um a gargalhada. Era divertido vê-lo desorientado. Parecia tão acessível, tão...

A risada m orreu. Não era acessível. Era o Senhor Suprem o, o Príncipe das Trevas. E não tinha coração.

Roxie saiu da sala das alunas. Luthvian não entendeu bem o que tinha feito com o vestido, m as agora o decote estava m uito m ais acentuado do que até pouco antes.

Roxie olhou para Saetan, passando a língua pelo lábio superior.

Em bora ele tentasse ocultá-la, Luthvian sentiu a repulsa de Saetan e o início da raiva fervilhando. Passado um m om ento, esses sentim entos foram arrastados por um frio que se entranhava nos ossos e que não podia ter origem num m acho.

Nem m esm o neste m acho.

— Deixe-o em paz — disse Jaenelle, com os olhos fixos em Roxie.

Havia algo m uito feroz, m uito predatório, na form a com o Jaenelle se dirigira a Roxie. E aquele frio vinha de abism os que Luthvian não queria sequer im aginar.

— Precisam os ir — disse Saetan rapidam ente, agarrando o braço de Jaenelle quando com eçou a deslizar à sua frente.

Jaenelle cerrou os dentes e rosnou. Não era um som que um a garganta hum ana pudesse em itir.

Saetan ficou petrificado.

Luthvian observou-os, m uito assustada para se m over ou falar. Não fazia ideia do que se passava entre eles, m as esperava que Saetan fosse suficientem ente forte para controlar a fúria de Jaenelle — e soube, com um a certeza terrível, que não era. Usava Joias Negras e não superava a filha. Que as Trevas sej am m isericordiosas!

O frio desapareceu tão repentinam ente com o havia surgido.

Saetan largou o braço de Jaenelle e observou-a até a porta da frente se fechar atrás dela. Em seguida, encostou-se na parede.

Com o Curandeira, Luthvian sabia que tinha de aj udá-lo, m as não conseguia m exer as pernas. Foi então que percebeu que as garotas não tinham reagido ao frio nem ao perigo, que seu burburinho girava em torno do dram a exterior sobre o qual nada entendiam .

— Ela é bastante m im ada — disse Roxie, fazendo seu m elhor beicinho para Saetan.

Saetan olhou-a com tal fúria que Roxie se esquivou para dentro da sala de aula, esbarrando nas garotas que estavam aglom eradas j unto à porta.

— Term inem seus feitiços — ordenou Luthvian. — Vou verificá-los daqui a um m inuto. — Fechou a porta da sala de aula e encostou a cabeça na m adeira.

— Peço desculpas — disse Saetan. Parecia esgotado.

— Você protegeu as garotas, não foi?

Saetan sorriu, cansado.

— Tentei proteger você, m as ela ascendeu na m inha frente m uito depressa.

— Ainda bem que não fez isso. — Luthvian se afastou da porta e aj eitou o vestido. — Mas você tinha razão. Foi m elhor ter a prim eira aula e saber com o vai ser ensiná-la antes de aceitar o que ela é.

Luthvian viu a alteração nos olhos dourados de Saetan.

— E o que você pensa que ela é, Luthvian? — perguntou com extrem a delicadeza.

Não se deixe enganar pelas aparências.

Olhou-o nos olhos.

— A sua filha.

 

Saetan seguia devagar pela larga estrada de terra batida. Jaenelle cam inhava um pouco m ais à frente e não parecia ter pressa, por isso ele não sentia um a necessidade prem ente de alcançá-la. Além do m ais, era preferível deixá-la se acalm ar antes de lhe perguntar o que precisava saber, e, sendo ela Rainha, a terra a tranquilizaria m ais rapidam ente do que ele próprio.

Nesse aspecto, era com o qualquer outra Rainha. Quaisquer que fossem os seus talentos, as Rainhas estavam m ais próxim as da terra do que ninguém , eram elas que m ais necessitavam do contato com a terra. Até as que viviam a m aior parte do tem po em grandes cidades tinham um j ardim onde seus pés podiam tocar o solo vivo, ouvindo tranquilam ente tudo o que a terra tinha para lhes dizer.

Assim , ele andava sem pressa, apreciando a possibilidade de voltar a cam inhar por um a estrada num a m anhã de verão, adm irando a terra beij ada pelo sol. À direita, estendiam -se os pastos com uns de Doun, delim itados por um a cerca, onde pastavam os cavalos e o gado de todos os cam poneses. À esquerda, além do m uro de pedra que circundava os cam pos e os j ardins de Luthvian, era possível ver um a pradaria salpicada de flores silvestres. À distância, viam -se aglom erados de pinheiros e outras árvores do gênero. Quase fora do alcance da vista, erguiam -se as m ontanhas que cercavam Ebon Rih.

Jaenelle saiu da estrada e parou, de costas para tudo o que fazia parte da civilização, com os olhos azul-safira fixos na natureza selvagem . Saetan aproxim ou-se devagar, não querendo interrom per a m editação.

Não havia acontecido nada na casa de Luthvian que pudesse explicar a intensidade da ira de Jaenelle. Nada o preparara para aquele m om ento em que ela havia se virado contra ele, pois parte da sua ira era dirigida a Saetan, e ele ainda não com preendia o que havia feito para provocá-la.

Jaenelle virou-se para Saetan, aparentem ente calm a, m as ainda disposta a brigar.

Lute com uma Rainha apenas como última opção. Um útil e sensato conselho do adm inistrador da prim eira corte onde tinha servido.

— O que achou de Luthvian? — perguntou Saetan, enquanto oferecia o braço direito a Jaenelle.

Jaenelle observou-o por alguns m om entos antes de lhe dar o braço.

— Conhece Arte. — Franziu o nariz e sorriu. — Gostei dela, em bora hoj e estivesse m eio irritada.

— Criança-feiticeira, Luthvian está sem pre m eio irritada — disse Saetan com frieza.

— Ah. Especialm ente com você?

— Tem os um passado. — Aguardou as inevitáveis perguntas, m as se sentiu um pouco constrangido quando elas não vieram . Talvez as questões do passado não a interessassem . Ou talvez j á tivesse todas as respostas de que necessitava. — Por que você estava tão zangada com a Roxie?

— Você não é um prostituto — disse Jaenelle, ríspida afastando-se de Saetan.

De repente, parecia ter escurecido, m as ao olhar para cim a viu o céu tão azul quanto antes, e as nuvens perm aneciam fofas e brancas. Não, a tem pestade que se form ava à sua volta estava apenas a alguns m etros, com os punhos cerrados e as pernas afastadas, em posição de ataque — e lágrim as nos olhos perturbados.

— Ninguém disse que eu era um prostituto — respondeu Saetan com toda a calm a.

As lágrim as escorreram pelo rosto de Jaenelle.

— Com o pôde perm itir que aquela vagabunda fizesse aquilo com você? — gritou Jaenelle.

— Fizesse o quê? — rebateu Saetan, sem conseguir reprim ir a frustração que sentia.

— Com o pôde deixá-la olhar para você com o... forçá-lo...

— FORÇAR? Em nom e do Inferno, com o você acha que aquela criança poderia m e forçar a fazer o que quer que fosse?

— Existem m aneiras para isso!

— Mas que m aneiras? Nunca houve um a m ulher estúpida o bastante para tentar m e forçar antes da m inha Oferenda, quanto m ais desde que com ecei a usar a Negra.

Jaenelle vacilou.

— Ouça, criança-feiticeira. Roxie é um a j ovem m ulher que passou recentem ente pela sua prim eira experiência sexual. Neste m om ento, pensa que é a dona do m undo, que qualquer m acho que olhe para ela desej ará ser seu am ante. Quando eu era m ais novo, fui consorte em várias cortes. Entendo o j ogo que se espera que os hom ens m ais velhos e experientes j oguem . Espera-se que deixem os que as garotas nos usem para praticar, j á que não tem os qualquer interesse em aquecer suas cam as. Pela nossa aprovação ou desaprovação, aj udam os essas garotas a com preender a form a de pensar e de sentir de um hom em . — Passou as m ãos pelo cabelo. — Se bem que reconheço que Roxie é um pouco piranha.

Jaenelle enxugou as lágrim as do rosto.

— Então você não se im portou?

Saetan suspirou.

— Na verdade, enquanto escutava suas risadinhas noj entas, deleitava-m e im aginando com o seria o som dos seus ossos se partindo.

— Ah.

— Venha cá, criança-feiticeira. — Envolveu-a num abraço apertado, apoiando o rosto na cabeça de Jaenelle. — Por quem é que estava realm ente zangada, Jaenelle? Quem estava tentando proteger?

— Não sei. Eu m eio que m e lem bro de alguém que tinha que se suj eitar a m ulheres com o Roxie. Isso o m achucava, ele odiava isso. Não é nem sequer um a m em ória. É m ais um a sensação, porque não consigo m e lem brar de quem ou onde ou por que conheceria alguém assim .

Isso explicava o fato de ela não ter perguntado por Daem on. Ele estava m uito envolvido no traum a que lhe custara dois anos de vida, um traum a que fechara a sete chaves em algum lugar dentro de si m esm a. E todas as m em órias de Daem on tam bém haviam ido pelo m esm o cam inho.

Saetan perguntou-se m ais um a vez se não deveria lhe contar o que tinha acontecido. Porém , só poderia lhe contar um a pequena parte. Não poderia contar quem a violara, pois ainda não sabia. E não poderia contar o que acontecera entre ela e Daem on enquanto perm aneceram no abism o.

Aliás, a verdade é que tem ia lhe contar o que quer que fosse.

— Vam os para casa, criança-feiticeira — sussurrou em seus cabelos. — Vam os para casa explorar os sótãos.

Jaenelle riu com insegurança.

— Com o vam os explicar isso a Helene?

Saetan resm ungou.

— Acho que sou o dono do Paço, não? Além disso, é um lugar enorm e e tem m uitos côm odos. Se tiverm os sorte, ela vai dem orar algum tem po para perceber.

Jaenelle recuou.

— Vam os ver quem chega prim eiro em casa — disse, para logo em seguida desaparecer.

Saetan hesitou. Olhou os prados por um longo tem po, com as flores silvestres e as m ontanhas à distância.

Esperaria um pouco m ais antes de com eçar a procurar por Daem on Sadi.

 

2 / Kaeleer Greer esgueirou-se por trás da fileira de j uníperos que delim itava um dos lados do terreno atrás do Paço dos SaDiablo. O sol estava quase nascendo. Se não conseguisse alcançar a torre sul antes que os j ardineiros com eçassem seus afazeres, teria de voltar a se esconder na floresta. Em bora fosse agora um dem ônio-m orto, tinha passado a vida toda na cidade. O som das folhas balançando ao vento e o m anto de breu da noite cam pestre o deixavam nervoso, e, em bora ele não conseguisse detectar outra presença, era incapaz de se livrar da sensação de que estava sendo observado. E havia tam bém aquele m aldito uivo que parecia despertar a noite.

Não acreditava que alguém com o o Senhor Suprem o não tivesse feitiços de proteção em volta do Paço. De que outra form a poderia um lugar deste tam anho ser protegido? Entretanto, a Sacerdotisa das Trevas garantira que Saetan sem pre fora negligente e arrogante dem ais para considerar tais providências. Além disso, a torre sul fora o dom ínio de Hekatah, e em cada m odernização, das várias que realizou, ela adicionara escadas secretas e paredes falsas, de m odo que havia diversos aposentos escondidos, que seus feitiços ainda m antinham cuidadosam ente secretos. Um desses aposentos iria abrigá-lo e escondê-lo.

Desde que conseguisse chegar lá.

Enfiando as m ãos nos bolsos do casaco, Greer deixou a proteção dos j uníperos e cam inhou, determ inado, em direção à torre sul. Era um a das regras do bom assassino: agir com o se tivesse o direito de estar ali. Se fosse avistado, esperava ser identificado com o um com erciante ou, m elhor ainda, com o um hóspede.

Ao alcançar, por fim , a porta da torre sul, com eçou a cam inhar devagar para a esquerda, com a m ão esquerda tocando as pedras para encontrar o trinco que abriria a passagem secreta. Infelizm ente, tinha passado tanto tem po que Hekatah j á não se recordava com exatidão de que distância a passagem ficava da porta, ainda m ais porque tinha se certificado de que as alterações no Paço em Kaeleer não correspondessem às que haviam sido realizadas em Terreille.

Quando j á pensava que teria de voltar até a porta e com eçar de novo, Greer sentiu a pedra lascada que ocultava o trinco secreto. Passado um m om ento, j á estava no interior da torre, subindo um a escada estreita de pedra.

Pouco depois, descobriu até que ponto a Sacerdotisa Suprem a o enganara — ou enganara a si própria.

Na torre sul não havia aposentos luxuosam ente m obiliados, cam as ornam entadas, elegantes chaise-longues, tapetes, cortinados, m esas, cadeiras, m as apenas aposentos vazios após aposentos com pletam ente vazios e lim pos.

Greer pôs a m ão sobre o lenço de seda preto que usava em volta do pescoço, tentando controlar o pânico.

Com pletam ente vazios e lim pos. Tal com o as escadas secretas, que deveriam estar cobertas de pó e de teias de aranha. O que significava que aquele não era um segredo tão bem guardado quanto Hekatah j ulgava.

Tentou se confortar com a ideia de que aquilo não tinha qualquer im portância, pois j á estava m orto, m as a verdade é que j á andava pelo Reino das Trevas há tem po suficiente para ouvir as histórias sobre o que acontecia aos dem ônios que enfureciam o Senhor Suprem o, e não queria descobrir em prim eira m ão o que aquelas histórias tinham de verdade.

Voltou ao quarto que outrora pertencera a Hekatah e iniciou um a busca m etódica dos aposentos secretos.

Estes tam bém estavam com pletam ente vazios e lim pos. Talvez os feitiços de Hekatah tivessem falhado com o tem po ou alguém os tivesse quebrado.

Tinha de haver um lugar onde se pudesse esconder! O sol j á estava alto e, apesar da quantidade de sangue fresco que tinha consum ido, a luz do dia enfraquecia-o, esvaziava-o. Se todos os aposentos tivessem sido descobertos...

Por fim , encontrou um quarto secreto dentro de outro quarto secreto. Na verdade, era m ais um cubículo. Greer não conseguia im aginar qual teria sido seu uso, m as estava repugnantem ente suj o e cheio de teias de aranha, sendo, por isso, seguro.

Encostado a um canto, Greer passou os braços pelos j oelhos e com eçou a espera.

 

3 / Kaeleer

Andulvar deu um a breve batida na porta e entrou antes de obter resposta. Ia em direção ao fundo do escritório, m as parou quando Saetan escondeu rapidam ente — e com um ar culpado — o livro que estava lendo.

Fogo do Inferno, pensou Andulvar ao acom odar-se na cadeira em frente à m esa, quando foi a últim a vez que Saetan pareceu tão relaxado? Ora, ali estava ele, o Senhor Suprem o do Inferno, com os pés na m esa, de chinelos e suéter preto. Ao vê-lo assim , Andulvar lam entou que há m uito tivesse passado a época em que poderiam sair j untos para a taberna e conversar tom ando algum as canecas de cervej a.

Achando graça do m al-estar de Saetan, disse:

— Beale m e disse que você estava aqui... tratando da correspondência, creio que foi o que disse.

— Ah, é claro, o adm irável Beale.

— Não são m uitas as casas que se podem gabar de ter com o m ordom o um Senhor da Guerra de Joia Verm elha.

— Não são m uitas as casas que o desej ariam — resm ungou Saetan, entre dentes, pondo os pés no chão. — Yarbarah?

— Sim , por favor. — Andulvar esperou até que Saetan servisse e aquecesse o vinho de sangue. — Já que não está tratando da correspondência, o que está fazendo? Além de se esconder dos seus intim idadores em pregados?

— Lendo — respondeu Saetan, um pouco constrangido.

Com o era um caçador paciente, Andulvar aguardou. E aguardou m ais um pouco.

— Lendo o quê? — perguntou, por fim , sem icerrando os olhos. Estaria Saetan ruborizado?

— Um rom ance. — Saetan pigarreou. — Um rom ance um pouco... na verdade, bastante erótico.

— Recordando o passado? — perguntou Andulvar, com m alícia.

Saetan resm ungou.

— Estou tentando m e antecipar. As adolescentes fazem as perguntas m ais espantosas.

— Antes você do que eu.

— Covarde.

— Sem dúvida — disse Andulvar, sem querer m order a isca. Fez um a pausa. — Com o vão as coisas?

— E pergunta a m im ? — Saetan pôs os pés no canto da m esa.

— Você é o Senhor Suprem o.

Saetan colocou um a das m ãos no peito e suspirou dram aticam ente.

— Ah, pelo m enos alguém se lem bra disso. — Tom ou um gole do y arbarah. — Para dizer a verdade, se quer m esm o saber com o vão as coisas pergunte a Beale ou a Helene ou à Sra. Beale. São eles o triângulo que adm inistra o Paço.

— Um triângulo dos Sangue tem sem pre um quarto lado.

— Pois é, e sem pre que surge algum a coisa que exige “Autoridade”, eles m e levantam , tiram a m inha poeira e m e j ogam no salão principal para tratar do assunto. — O sorriso afetuoso de Saetan ilum inou os olhos dourados. — Minha principal função é ser o leal tutor da Senhora e, um a vez que Beale j am ais se dignaria a ter seu traj e arruinado por um ataque de nervos, oferecer um om bro am igo quando Jaenelle desorienta seus professores, o que parece ocorrer em m édia de três a quatro vezes por sem ana.

— Então a garota está indo bem .

O sorriso de Saetan sum iu, sendo substituído por um a expressão lúgubre e perturbada.

— Não, não está indo bem . Droga, Andulvar, eu esperava... Ela está se esforçando. Ainda é Jaenelle. Continua curiosa e dócil e bondosa. — Suspirou. — Mas é incapaz de corresponder a am izade dos criados. Ah, eu sei. — Acenou com a m ão, rej eitando um protesto tácito. — A relação dela com os criados da casa é o que é. Mas não é assim só com eles. Com aquela questão do Menzar e o atrito que tem com as outras alunas de Luthvian, tornou-se ainda m ais tím ida. Evita as pessoas sem pre que possível. Sy lvia não tem conseguido convencê-la a sair de novo para fazer com pras, e olha que tem tentado bastante. Tanto ela com o o filho, Beron, estiveram aqui uns dias atrás. Jaenelle chegou a falar com eles durante uns cinco m inutos, m as depois saiu de repente da sala. Ela não tem am igos, Andulvar. Ninguém com quem rir, ninguém com quem partilhar as bobagens de garotinhas. Ainda não realizou a Oferenda e j á percebe bem o fosso que há entre ela e o resto dos Sangue. — Saetan afundou na-se cadeira. — Se ao m enos houvesse um a form a de fazê-la retom ar a vida.

— Por que não convida aquela harpiazinha fria de Glácia para visitá-la? — sugeriu Andulvar.

— Acha que ela teria coragem de vir ao Paço?

Andulvar tom ou fôlego.

— Considerando a carta que lhe escreveu, se deixá-la passar por aquela porta, irá sem dúvida pisar nos seus calos.

Saetan sorriu com nostalgia.

— Espero que sim , Andulvar. Realm ente espero que sim .

Lam entando que aquele agradável estado de espírito estivesse para m udar, Andulvar esvaziou o copo, pousando-o com cuidado na m esa.

— Está na hora de você m e dizer por que m e pediu para voltar ao Paço.

— Foi Tarl quem sugeriu que talvez pudesse m e aj udar — disse Saetan, enquanto cam inhava com Andulvar na direção de um dos j ardins m urados.

— Sou caçador e guerreiro, não j ardineiro, SaDiablo — disse Andulvar com rispidez. — Com o poderei aj udá-lo?

— Um cão enorm e tem m arcado território nos bosques ao norte. Ouvi-o pela prim eira vez na noite em que Sy lvia m e disse que havia algo errado em Halaway. Matou dois j ovens alces, m as, tirando isso, os guardas florestais não conseguiram detectar qualquer vestígio dele. Algum as noites atrás, devorou as galinhas.

— Seus guardas-florestais deviam cuidar disso.

Saetan abriu o portão de m adeira que dava acesso ao j ardim de m uros baixos.

— Tarl encontrou outra coisa esta m anhã. — Acenou com a cabeça para o chefe dos j ardineiros, que estava perto do canteiro do fundo.

Tarl passou as m ãos na aba do quepe e saiu.

Saetan indicou a terra fofa entre duas plantas j ovens.

— Aquilo.

Durante um bom tem po, Andulvar olhou estupefato para a nítida e profunda pegada, aj oelhando-se em seguida e colocando a m ão ao lado dela.

— Caram ba, é grande.

Saetan aj oelhou-se ao lado de Andulvar.

— Foi o que pensei, m as esta é o seu departam ento. O que m ais m e incom oda é que parece intencional, posicionada assim tão cuidadosam ente, com o se fosse um a m ensagem ou algum tipo de sinal.

— E a quem será dirigida esta m ensagem ? — perguntou Andulvar com sua voz profunda. — Quem viria aqui e a veria?

— Depois da partida repentina de Lord Menzar, Mephis investigou discretam ente todos os que servem no Paço, tanto o pessoal interno quanto os de fora. Não encontrou nada que m e fizesse acreditar que não são de confiança.

Andulvar franziu a testa, pensativo, olhando a pegada.

— Pode ser o sinal de um am ante para um encontro secreto no j ardim .

— Acredite em m im , Andulvar — disse Saetan com frieza —, existem m aneiras m ais sim ples e eficazes de com binar um a aventura rom ântica. — Apontou para a pegada. — Além disso, a não ser que tirasse a pata de um cão, com o é que alguém encontraria a besta, a traria aqui e a convenceria a deixar um a pegada neste preciso local?

— Vou investigar — disse Andulvar bruscam ente.

Enquanto Andulvar exam inava o restante dos j ardins m urados à luz do dia que se extinguia, Saetan analisava a pegada. Tinha conseguido ignorar sua preocupação até Andulvar chegar, esperando que o ey rieno olhasse para a pegada e encontrasse um a explicação sim ples para ela. Agora, Andulvar estava preocupado e Saetan não gostava nada disso. Alguém estaria tentando m arcar um encontro? Ou sim plesm ente tentando afastar alguém do Paço?

Rosnando baixinho, Saetan lançou terra por cim a da pegada até ocultar qualquer vestígio. Levantou-se, sacudiu a terra dos j oelhos, olhou de relance para o canteiro e ficou petrificado.

A pegada voltara, tão profunda e nitidam ente m arcada com o estivera há um m inuto.

— Andulvar! — Saetan deixou-se cair de j oelhos e voltou a cobrir a pegada com terra.

Andulvar voou para j unto de Saetan e aj oelhou-se a seu lado.

Observaram em silêncio enquanto a terra se afastava da pegada.

Andulvar praguej ou com violência.

— Foi encantada.

— Sim — disse Saetan, com um a docilidade exagerada. Usou a força equivalente à de um a Joia Branca para elim inar novam ente a pegada. Quando ela voltou a aparecer, tão depressa com o antes, passou à Am arela. Tentou, em seguida, a Olho de Tigre, a Rosa, a Azul-Celeste. Por fim , chegando à força da Violeta, a pegada era quase im perceptível.

Com um m ovim ento brusco de m ãos, Saetan usou a força da sua Verm elha de Direito por Progenitura para elim iná-la.

Ela não reapareceu.

— Alguém queria se assegurar de que não fosse apagada por descuido — disse Saetan, lim pando a m ão na gram a.

Andulvar esfregou o queixo com o punho fechado.

— Evite que a garota fique vagando sozinha, m esm o aqui nestes j ardins. Prothvar e eu não som os grande aj uda durante o dia, m as farem os vigília à noite.

— Acha que alguém seria insensato o bastante para invadir o Paço?

— Parece que j á invadiu. Não é isso que m e preocupa. — Andulvar apontou para a terra agora lisa. — Aquilo não é um cão, SaDiablo. É um lobo. É difícil acreditar que um lobo se aproxim aria tanto dos seres hum anos por vontade própria, m as, m esm o que estej a sendo controlado por alguém , qual seria o interesse em trazê-lo até aqui?

— Isca — disse Saetan, enviando na m esm a hora um cham ado psíquico a Jaenelle. O reconhecim ento distraído da garota o tranquilizou, pois indicava que ela estava suficientem ente absorta nos estudos para perm anecer dentro de casa.

— Isca para quê?

Em vez de responder, Saetan esquadrinhou am plam ente o Paço e o terreno ao redor. Na torre sul havia aquela névoa, os efeitos ainda desvanecentes dos feitiços de proteção que Helene e Beale tinham quebrado ao lim par a torre e descobrir os aposentos secretos de Hekatah. Ele detectou tam bém um a ondulação estranha nos bosques ao norte.

Sondou um pouco m ais e se deteve. Entrar no Paço não era difícil. Sair era outra história.

— Isca para quê, SaDiablo? — Andulvar voltou a perguntar.

— Para um a garotinha que se sente sozinha e adora anim ais.

4 / Kaeleer

Greer aninhou-se num canto do cubículo secreto e gem eu ao sentir aquela m ente obscura passando pelas pedras, sondando, procurando.

Esforçou-se para m anter a m ente cautelosam ente vazia no m om ento em que aquela onda de poder obscuro o invadiu. Não podia fugir, com segurança, antes do pôr do sol. Mas, se fosse apanhado aqui, com o explicaria sua presença? Tendo perdido um a queridinha, Greer duvidava que qualquer explicação sua pudesse tranquilizar o Senhor Suprem o naquele m om ento.

Quando a sonda psíquica se extinguiu, Greer estendeu as pernas e suspirou. Por m ais que tem esse o Senhor Suprem o, tam bém não lhe agradava voltar sem inform ações para Hekatah, que insistiria para que ele voltasse a tentar.

Teria de ser esta noite. Encontraria o quarto da garota, daria um a olhada nela e voltaria ao Inferno. Se Hekatah quisesse se aproxim ar m ais, arriscando-se a ficar cara a cara com Saetan, ela que o fizesse.

 

5 / Kaeleer

Saetan dirigiu-se a seus aposentos, na esperança de que um pouco de descanso lhe trouxesse inspiração. No início da noite, havia tentado convencer Jaenelle a entrar em contato com alguns dos seus am igos. Fracassara com pletam ente, e, no processo, aprendera bastante sobre a volubilidade em ocional de um a feiticeira adolescente.

Pensando se poderia recrutar Sy lvia com o aliada em futuras batalhas em ocionais, e ainda intrigado pela pegada de lobo no j ardim , sentiu os sinais de aviso um pouco tarde dem ais.

Um a enorm e onda psíquica de m edo e de raiva se chocou contra sua m ente, fazendo-o cam balear até a parede. Agarrou a cabeça enquanto um a dor aguda lhe golpeava as têm poras e sentiu o gosto do sangue quando seus dentes m orderam o lábio.

Gem endo devido ao im placável latej ar na cabeça, caiu no chão e, instintivam ente, tentou reforçar suas barreiras interiores contra outro ataque devastador.

Com o essa outra onda psíquica não veio, ergueu a cabeça e sondou com cautela. Olhou fixam ente para a porta do outro lado do corredor onde estava aninhado.

— Criança-feiticeira?

Um grito angustiado veio de dentro dos aposentos de Jaenelle.

Saetan levantou-se com dificuldade, cam inhou aos tropeções pelo corredor e entrou num quarto invadido pela tem pestade psíquica m ais violenta que j á presenciara. Exceto por um vento forte e em redem oinho que balançava as plantas e as cortinas, o quarto físico parecia intacto. Porém , podia sentir que estava repleto de fios de vidro que rasgavam a m ente e não o corpo.

Com a cabeça baixa e os om bros encolhidos, Saetan cerrou os dentes e obrigou-se a avançar, cada passo um a agonia para sua m ente, em direção à cam a, onde Jaenelle gritava e se agitava de m aneira violenta.

Ao tocar seu braço, ela voou para longe dele.

Quase sem conseguir pensar, Saetan saltou para cim a de Jaenelle e envolveu-se com braços e pernas. Rolaram então pela cam a, em aranhados nos lençóis que ela destruíra com as unhas, enquanto se debatia e gritava. Sem conseguir libertar os braços e pernas, girou ligeiram ente nos braços de Saetan, ficando com os dentes j unto ao seu pescoço, m as sem conseguir m ordê-lo.

— Jaenelle! — Saetan bradou ao seu ouvido. — Jaenelle! Sou eu, Saetan!

— Nããããão!

Recorrendo ao poder das Joias Negras, Saetan girou um a vez m ais, prendendo Jaenelle sob o peso de seu corpo. Abriu as barreiras interiores e lhe enviou um a m ensagem que transm itia segurança, que lhe dizia que ela estava com ele, consciente de que, se ela o atingisse neste m om ento, o destruiria.

Jaenelle tocou sua m ente vulnerável e parou de se debater.

Trem endo, Saetan encostou o rosto à cabeça dela.

— Estou aqui com você, criança-feiticeira — sussurrou. — Você está a salvo.

— Não estou a salvo — gem eu Jaenelle. — Jam ais estarei.

Saetan cerrou os dentes, agoniado pelas im agens que lhe inundaram a m ente de rom pante. Viu tudo tal com o ela, outrora, presenciara. Marj ane pendurada na árvore. My rol e Rebecca sem m ãos. Dannie e a perna de Dannie. E Rose.

As lágrim as caíram por seu rosto enquanto abraçava Jaenelle, apoderando-se daquelas m em órias angustiantes. Com preendia, finalm ente, aquilo pelo que Jaenelle tinha passado quando criança, o que tinha sido feito a ela, por que não tem ia o Inferno ou seus habitantes. Enquanto as m em órias fluíam da m ente de Jaenelle para a de Saetan, ele viu o edifício, os quartos, o j ardim , a árvore.

E se lem brou de quando Char fora procurá-lo, perturbado por um a ponte e pelas crianças m utiladas que a atravessavam até a ilha das cildru dyathe. Um a ponte que Jaenelle construíra, certa vez, entre o Inferno e... Briarwood.

No m om ento em que pensou nesse nom e, sentiu que Jaenelle abria os olhos.

De repente, foi envolvido por um a brum a im penetrável que se desfez de repente, e Saetan olhou para o abism o. Todos os seus instintos lhe diziam para fugir, para se afastar da raiva fria e da loucura que subia em espiral das profundezas.

Porém , na loucura e na raiva estavam tam bém entrelaçadas gentileza e m agia. Por isso, aguardou à beira do abism o o que iria acontecer. Não fugiria de sua Rainha.

A brum a voltou a ficar cerrada. Não conseguia ver Jaenelle, m as sentiu-a quando ela surgiu do abism o. E estrem eceu quando o sussurro sepulcral e cavernoso percorreu sua m ente.

*Briarwood é o belo veneno. Não existe cura para Briarwood.*

Nesse m om ento, ela voltou a descer em espiral, e a m ente de Saetan voltou a lhe pertencer.

Jaenelle se agitou.

— Saetan? — Parecia tão j ovem , tão frágil, tão vacilante.

Saetan beij ou seu rosto.

— Estou aqui, criança-feiticeira — disse, com a voz rouca, apertando-a contra o peito. Sondou o quarto cautelosam ente e logo descobriu que não seria possível fazer uso da Arte até o desaparecim ento total da tem pestade psíquica.

— O que... — disse Jaenelle, atordoada.

— Estava tendo um pesadelo. Lem bra?

Um longo silêncio.

— Não. Era sobre o quê?

Saetan hesitou... e não disse nada.

Um a bota se arrastou na varanda, atrás da porta de vidro aberta. Alguém desceu correndo as escadas.

Saetan ergueu a cabeça de repente. Um a vez que seria inútil perscrutar a identidade do intruso, rasgou freneticam ente os lençóis enrolados em volta das pernas e saltou para a porta da varanda.

— PROTHVAR! — Tentou criar um a bola de fogo encantado para ilum inar o j ardim , m as a tem pestade psíquica de Jaenelle absorvia seus poderes, e o brilho súbito de luz que conseguiu gerar lhe provocou um a cegueira noturna.

Da extrem idade m ais afastada do j ardim , ouviu-se um rosnado feroz. Um hom em gritou. Houve um a luta breve, m as desenfreada, um crepitar ofuscante quando a força de duas Joias foi libertada e absorvida, o som de passos estranhos, outro rosnado e, depois, um a porta batendo.

E, em seguida, o silêncio.

A porta do quarto se escancarou. Saetan deu m eia-volta, com os dentes cerrados, no m om ento em que Andulvar saltava para dentro do quarto em punhando um a espada de guerra ey riena.

— Fique com ela — disse Saetan abruptam ente. Correu pelas escadas da varanda, procurando os feitiços que selariam o Paço, evitando que alguém saísse dali. E praguej ou. Aquela enorm e onda de poder tinha destruído todos os feitiços — o que significava que o intruso poderia encontrar um a saída antes de ser apanhado. E, assim que conseguisse se afastar o suficiente dos efeitos da tem pestade, poderia apanhar os Ventos e, pura e sim plesm ente, desaparecer.

— Mas onde você estava escondido que não senti sua presença? — resm ungou Saetan, rangendo os dentes de frustração, enquanto Prothvar aterrissou a seu lado no j ardim .

O Senhor da Guerra ey rieno segurava um lenço de seda preto rasgado.

— Encontrei isto j unto à torre sul.

Saetan olhou o lenço que Greer usara da prim eira vez que tinha vindo ao Paço. Seus olhos dourados cintilaram ao voltar-se para a torre sul.

— Tenho sido condescendente dem ais com os j ogos de Hekatah e seus protegidos. Mas este aqui com eteu erros dem ais.

— Hekatah! — Praguej ando, Prothvar deixou o lenço cair e lim pou a m ão nas calças. Depois sorriu. — Não creio que ele tenha saído daqui da m esm a form a com o chegou. Tam bém vi pegadas de lobo perto da torre sul.

Lobo. Saetan olhou fixam ente para a torre sul. Um lobo e Greer. Isca e um raptor? Mas e o rosnado? E aquele em bate de Joias?

Um m ovim ento na varanda cham ou sua atenção.

Jaenelle olhava para os dois. O braço esquerdo de Andulvar estava em volta dos seus om bros, m antendo-a j unto a si. Na m ão direita em punhava ainda a grande espada de guerra, com aspecto am aldiçoado.

— Papai, qual é o problem a? — gritou Jaenelle.

Acenando com a cabeça para Saetan, Prothvar fez o lenço desaparecer e deslizou para as som bras a fim de m ontar guarda.

Saetan atravessou o j ardim devagar e subiu as escadas, frustrado por, devido aos efeitos persistentes da tem pestade de feiticeira, não ter conseguido usar a Arte para im pedir que m ais alguém chegasse aos aposentos de Jaenelle.

Andulvar se afastou quando Jaenelle se atirou nos braços de Saetan, que beij ou sua cabeça. Os três entraram no quarto.

— O que aconteceu? — perguntou Jaenelle, que trem ia e observava Andulvar fechando as portas da varanda e trancando-as com a chave.

O fato de ela ter de fazer aquela pergunta era bastante indicativo do seu estado de espírito. Saetan hesitou.

— Não foi nada, criança-feiticeira — disse, por fim , abraçando-a. — Um som inexplicável. — Mas ele se perguntou se teria sido algo que viu ou sentiu que desencadeara aquelas m em órias.

Andulvar e Saetan trocaram um olhar significativo. O Príncipe dos Senhores da Guerra ey rieno indicou com os olhos a cam a, depois as portas da varanda.

Saetan acenou quase im perceptivelm ente com a cabeça.

— Criança-feiticeira, sua cam a está um pouco... desarrum ada. Com o está tarde, em vez de acordarm os um a criada para arrum ar essa bagunça, você podia ficar no m eu quarto esta noite.

A cabeça de Jaenelle levantou-se bruscam ente. Nos seus olhos havia espanto, prudência e m edo.

— Eu podia fazer a cam a.

— Preferia que não a fizesse.

Saetan sentiu que Jaenelle estava buscando sua m ente e aguardou. A m enos que ela extraísse deliberadam ente seus pensam entos, ele conseguiria esconder a razão da sua preocupação, em bora não o sentim ento de preocupação.

Jaenelle se afastou da m ente de Saetan e assentiu.

Aliviado ao ver que Jaenelle ainda estava disposta a confiar nele, Saetan conduziu-a a seus aposentos do outro lado do corredor e acom odou-a na sua cam a. Depois de Andulvar sair para exam inar a torre sul, serviu e aqueceu um copo de y arbarah, instalando-se num a cadeira. Passado bastante tem po, a respiração de Jaenelle se tornou regular e Saetan soube que ela havia dorm ido.

Um lobo, pensou, enquanto velava por ela. Am igo ou inim igo?

Saetan fechou os olhos e esfregou as têm poras. A dor de cabeça estava passando, em bora a últim a hora o tivesse esgotado. Ainda assim , continuava vendo aquela pegada no j ardim , um a m ensagem encantada que alguém com preenderia.

Mas e o rosnado? E aquele embate de Joias?

Saetan endireitou-se repentinam ente na cadeira e olhou atônito para Jaenelle.

Nem todos os sonhadores que tinham dado form a a esta Feiticeira eram hum anos.

Fazia sentido. Se isso fosse verdade, tudo fazia sentido.

Com o Jaenelle não tinha ido visitar seus antigos am igos, talvez eles estivessem com eçando a procurá-la.

 

6 / Inferno

Hekatah gritou para Greer:

— O que quer dizer com “está viva”?

— É isso m esm o — respondeu Greer enquanto exam inava o braço dilacerado. — A garota que ele m antém no Paço é aquela vadiazinha pálida, neta de Alexandra Angelline.

— Mas você a destruiu!

— Pelo visto, ela sobreviveu.

Hekatah cam inhava para trás e para a frente no pequeno e im undo aposento, quase sem m obílias. Não podia ser verdade. Não podia. Olhou de relance para Greer, afundado num a cadeira.

— Você disse que estava escuro e era difícil ver. Não chegou a entrar efetivam ente no quarto. Não podia ser a m esm a garota. Ele lhe disse que ela cam inhava entre as cildru dyathe.

— Ele a cham ou de Jaenelle — afirm ou Greer, exam inando o pé.

Hekatah arregalou os olhos.

— Mentiu. — Seu rosto foi desfigurado pela raiva e pelo ódio. — O grande filho da puta mentiu!

Foi então que se lem brou daquela terrível presença na ilha das cildru dyathe. Se a garota estivesse de fato viva, ainda poderia ser m oldada na Rainha-fantoche da qual Hekatah necessitava para governar os Reinos.

Hekatah passou os dedos por um a m esa m arcada.

— Mesm o que tenha sobrevivido fisicam ente, pouca utilidade terá para m im se estiver sem poderes.

Im obilizando o braço dilacerado, Greer m ordeu a isca.

— Ainda tem poderes. Havia um a forte tem pestade de feiticeira naquele quarto. Com eçou pouco antes da chegada do Senhor Suprem o. Só as Trevas sabem com o ele sobreviveu àquilo.

Hekatah franziu a sobrancelha.

— O que Saetan estava fazendo no quarto da garota àquela hora?

Greer deu de om bros.

— Parece que eles estavam rolando na cam a, e não era um confronto am igável.

Hekatah olhou Greer fixam ente, em bora não o visse. Viu Saetan, com o sangue fervendo e ávido, satisfazendo seus apetites — todos os seus apetites — com aquela j ovem feiticeira de sangue escuro que deveria pertencer a ela, Hekatah. Um Guardião ainda era capaz de sentir tais prazeres. Um Guardião... que prezava a honra. Ah, Saetan poderia tentar ignorar o escândalo e a condenação, porém , quando ela tivesse term inado, teria criado tal tem pestade de fogo à sua volta que até os seus m ais leais servidores o odiariam .

Mas precisava ser sutil, para que, ao contrário do insensato Menzar, Saetan não conseguisse descobrir que era ela que estava por trás de tudo.

Observou Greer. O m úsculo dilacerado em seu antebraço poderia ser coberto com um casaco, m as o pé... Se fosse am putado e substituído por algo artificial, ou m antido e fixado a um a bota, o cam inhar arrastado seria óbvio — assim com o as m ãos deform adas. Era um a pena que um servo tão útil fosse tão deform ado, o que cham ava a atenção. Ainda assim , conseguiria executar esta últim a tarefa. Na verdade, essas deform idades seriam usadas em seu benefício.

Hekatah se perm itiu um breve sorriso antes de exibir sua expressão m ais pesarosa. Caiu de j oelhos ao lado da cadeira de Greer.

— Pobrezinho — arrulhou, acariciando-lhe a face com as pontas dos dedos —, deixei que as arm ações daquele canalha m e distraíssem de assuntos m ais im portantes.

— E que preocupações são essas, Sacerdotisa? — perguntou Greer, cautelosam ente.

— Ora, você, m eu querido, e as brutais feridas que a besta dele lhe infligiu. — Enxugou os olhos, com o se eles ainda pudessem produzir lágrim as. — Sabe que agora não existe m aneira de curar essas feridas, não sabe, m eu querido?

Greer desviou o olhar.

Hekatah inclinou-se para a frente e beij ou-o no rosto.

— Mas não se preocupe. Tenho um plano que vai fazer Saetan pagar por tudo.

 

— Queria m e ver, Senhor Suprem o?

Os olhos de Saetan reluziram . Apoiou-se na m esa de m adeira escura no escritório privado no Reino das Som bras e sorriu para a Harpia dos Dea al Mon.

— Titian, m inha querida — sussurrou, com um a voz de trovão suave —, tenho um a tarefa para você que acho que vai lhe agradar bastante.