A Herdeira das Sombras
Capítulo Dezesseis
1 / Kaeleer
Banard estava sentado na sala de exposições particular nos fundos da sua loj a, bebendo chá enquanto aguardava a chegada da Senhora.
Era um artesão talentoso, um artista que trabalhava com m etais preciosos, pedras preciosas e sem ipreciosas e com as Joias dos Sangue. Um m acho dos Sangue que não usava Joias, m as que as m anuseava com tal sensibilidade e com um respeito tão profundo que o tornavam o preferido entre os Sangue que usavam Joias em Am darh. Sem pre dizia: “Manuseio um a Joia com o se se tratasse do coração de alguém ”, e estava sendo sincero.
Entre seus clientes estavam a Rainha de Am darh e seu Consorte, o Príncipe Mephis SaDiablo, o Príncipe Lucivar Yaslana, o Senhor Suprem o do Inferno e Lady Jaenelle Angelline, sua favorita.
E era por causa dela que ainda estava ali sentado, m uito depois do fim do expediente. Com o dissera à esposa, quando a Senhora pedia um favor, era com o se a servisse, não era?
Por pouco não entornou o chá quando levantou os olhos dos seus devaneios e viu um a silhueta indistinta na soleira da porta. A loj a era guardada por poderosos feitiços de defesa e proteção — oferecidos pelos clientes de Joias m ais escuras. Ninguém deveria ser capaz de chegar até ali sem que os alarm es soassem .
— Aceite as m inhas desculpas, Barnard — disse um a voz fem inina, de m eia-noite. — Não quis assustá-lo.
— De m odo algum , Senhora — m entiu Barnard aum entando a luz das velas em volta da m esa-m ostruário, forrada de veludo. — Estava distraído. — Virou-se, sorrindo, m as, ao ver o que ela segurava nas m ãos, com eçou a suar frio.
— Gostaria m uito que fizesse um a coisa para m im , se puder — disse Jaenelle, entrando na pequena sala.
Barnard engoliu em seco. Ela havia m udado desde a últim a vez que a vira, alguns m eses antes. Era algo além do luto de Viúva que usava. Era com o se o fogo que sem pre tinha ardido no seu interior estivesse agora m ais próxim o da superfície, ilum inando e ofuscando. Podia sentir o poder som brio rodopiando em volta de Jaenelle — força bruta com pensada por um a fragilidade aflitiva.
— Isso é o que eu gostaria que fizesse — disse Jaenelle.
Na m esa-m ostruário surgiu um pedaço de papel.
Barnard estudou o esboço durante alguns m inutos, pensando no que poderia dizer, pensando em com o recusar educadam ente, im aginando por que ela, entre todas as pessoas, tinha aquilo que segurava nas m ãos.
Com o se com preendesse o silêncio e a relutância, Jaenelle acariciou o chifre em espiral.
— Ele se cham ava Kaetien — disse, ternam ente. — Era o Príncipe dos Senhores da Guerra dos unicórnios. Foi esquartej ado há alguns dias, assim com o centenas de outros m em bros do seu povo, quando os hum anos foram reclam ar Sceval com o seu território. — Seus olhos encheram -se de lágrim as. — Eu o conhecia desde pequena. Foi o prim eiro am igo que fiz em Kaeleer e um dos m elhores. Ofertou-m e o seu chifre. Em sua m em ória. Com o advertência.
Barnard voltou a exam inar o esboço.
— Perm ite-m e fazer um a ou duas sugestões, Senhora?
— Foi por isso que vim aqui — disse Jaenelle, com um sorriso vacilante.
Pegando um lápis fino de carvão, Barnard fez alterações no esboço. Passada um a hora de aperfeiçoam entos, estavam am bos satisfeitos com o resultado.
Novam ente sozinho, Barnard preparou outra xícara de chá e sentou-se por alguns instantes, estudando o esboço e olhando espantado para o chifre que ainda não se sentia preparado para tocar.
O que ela queria que ele fizesse seria um tributo adequado a um am igo querido. E um instrum ento apropriado a um a Rainha daquele calibre.
2 / Kaeleer
Saetan andava de um lado para outro na sala de estar que Draca havia reservado para eles na Fortaleza. Reservado? Onde os havia “confinado” aproxim ava-se m ais da verdade.
Lucivar levantou-se da cadeira e espreguiçou-se.
— Tenho que aguentar quando você anda de um lado para outro, sem m e m ostrar incom odado, m as quando sou eu você m e expulsa para o j ardim . Por quê? — perguntou com frieza.
— Porque sou m ais velho e de um a categoria superior — resm ungou Saetan. Deu m eia-volta e continuou andando até o outro lado da sala.
Do crepúsculo à alvorada. Era essa a duração da Oferenda às Trevas. Não im portava se a pessoa saía dela com um a Joia Branca ou um a Negra, era esse o tem po que levava. Do crepúsculo à alvorada.
Jaenelle havia iniciado sua Oferenda três dias atrás.
Saetan perm anecera calm o quando a prim eira m adrugada se arrastou até o início da tarde, pois ainda se lem brava de com o ficara fragilizado após realizar a Oferenda, de com o passara horas na sala do altar do Santuário, enquanto se adaptava à sensação das Joias Negras.
Entretanto, quando o sol com eçara-se a se pôr, dirigira-se ao Altar das Trevas na Fortaleza para saber o que havia acontecido. Draca proibira sua entrada, lem brando-o de m aneira contundente das consequências de se interrom per um a Oferenda. Por isso, havia voltado à sala de estar para aguardar.
Quando a m eia-noite veio e se foi, tentara ir outra vez ao Altar das Trevas, deparando-se com todos os corredores bloqueados por um escudo im penetrável até para a Negra. Desesperado, enviara um a m ensagem urgente a Cassandra, na esperança de que ela conseguisse vencer a resistência de Draca. Mas Cassandra não respondera, e ele am aldiçoara esta evidência do seu crescente afastam ento.
Estava cansada. Saetan com preendia. Ele próprio descendia de um a raça de longevidade prolongada e j á transcorrera várias vidas além do norm al. Cassandra vivera centenas e vira seus antepassados entrarem em declínio, enfraquecerem e, por fim , serem absorvidos por raças m ais j ovens e em ergentes. Enquanto havia dom inado, fora respeitada e venerada.
Porém , Jaenelle era am ada.
Por isso, Cassandra não havia respondido. Mas Tersa respondeu.
— Há algum a coisa errada — resm ungou Saetan ao passar pelo sofá e pela m esa baixa sobre a qual Tersa se curvava enquanto ordenava as peças de um quebra-cabeça, form ando figuras que só faziam apenas para ela. — A Oferenda não leva tanto tem po.
Tersa encaixou um a peça do quebra-cabeça, afastando o cabelo preto em baraçado do rosto.
— Leva o tem po que levar.
— A Oferenda é realizada entre o crepúsculo e a alvorada.
Tersa inclinou a cabeça, refletindo.
— Isso foi verdadeiro para o Príncipe das Trevas. E quanto à Rainha? — Deu de om bros.
Saetan sentiu um arrepio gelado. Com o seria Jaenelle depois de se tornar Rainha das Trevas?
Agachou-se diante de Tersa, a m esa entre os dois. Ela lhe deu tanta atenção quanto deu à aproxim ação silenciosa de Lucivar.
— Tersa — disse Saetan, calm am ente, tentando cham ar sua atenção. — Você sabe de algum a coisa, consegue ver algo?
Os olhos de Tersa ficaram vidrados.
— Um a voz nas Trevas. Um uivo, repleto de alegria e sofrim ento, raiva e celebração. Está chegando o m om ento em que todas as dívidas serão pagas. — Seus olhos desanuviaram -se. — Contenha o seu receio, Senhor Suprem o — disse, com certa rispidez. — Neste m om ento, isso será m ais prej udicial para ela do que qualquer outra coisa. Contenha-o ou irá perdê-la.
Saetan envolveu o pulso de Tersa com a m ão.
— Não tenho receio dela, m as receio por ela.
Tersa balançou a cabeça.
— Ela estará cansada dem ais para perceber a diferença. Perceberá unicam ente o m edo. Escolha, Senhor Suprem o, e viva com sua escolha. — Olhou para a porta fechada. — Ela está chegando.
Saetan tentou se erguer às pressas e estrem eceu. Mais um a vez, forçara dem ais a perna. Puxando as m angas da túnica e aj eitando o cabelo, desej ou, frivolam ente, ter tom ado banho e vestido roupas lim pas. Desej ou tam bém , frivolam ente, que o coração se acalm asse.
Foi então que a porta se abriu e Jaenelle apareceu.
Nos últim os segundos de pensam ento racional, a m ente de Saetan registrou a hesitação da garota, a incerteza. Registrou tam bém a quantidade de Joias que usava.
Lorn havia lhe dado treze Joias Negras brutas. Um a delas tinha tam anho suficiente para ser transform ada num pingente e num anel, e ainda sobrariam lascas m enores que poderiam ter vários usos. Segundo suas contas, ela devia ter levado seis dessas treze Joias para a cerim ônia. Seis Joias Negras que, de algum a form a, tinham sido transform adas em algo m ais do que Negro.
Em Ébano.
Não era de adm irar que tivesse dem orado tanto para proceder à descida ao seu poder absoluto. Ele sequer conseguia estim ar o poder que teria agora. Desde o dia em que a conhecera sabia que chegaria a este ponto. Ela agora cam inhava por estradas que os outros sequer conseguiriam im aginar.
O que isso lhe provocaria?
A escolha de Saetan.
O pensam ento o abalou pela clareza. Deu a ele liberdade para agir.
Avançando, ele ofereceu a m ão direita.
Assustada, Jaenelle entrou na sala, hesitou por um instante e lhe deu a m ão.
Puxou-a para seus braços, aninhando o rosto no pescoço de Jaenelle.
— Estive tão preocupado com você — resm ungou baixinho.
Jaenelle afagou suas costas.
— Por quê? — Parecia verdadeiram ente perplexa. — Você tam bém realizou a Oferenda. Sabe...
— Norm alm ente, não dem ora três dias!
— Três dias! — Deu um saltou para trás, tropeçando em Lucivar. — Três dias?
— Tem os de seguir o Protocolo daqui para a frente? — perguntou Lucivar.
— Não sej a tolo — retrucou Jaenelle.
Com um sorriso de orelha a orelha, Lucivar passou o braço esquerdo em volta de Jaenelle, segurando-a com firm eza j unto ao seu peito.
— Nesse caso, proponho m ergulhá-la na fonte m ais próxim a.
— Você não pode fazer isso! — protestou Jaenelle, contorcendo-se.
— Por que não? — Lucivar parecia interessado.
A razão que ela apresentou foi criativa m as anatom icam ente im possível.
Um a vez que o riso não seria um a atitude diplom ática, ainda que m otivado pelo alívio de perceber que o fato de usar Joias Ébano não a havia m odificado, Saetan cerrou os dentes e perm aneceu em silêncio.
Tersa, porém , despertou e j untou-se a eles. Balançando a cabeça, deu um a cotovelada em Jaenelle.
— Agora não adianta se lam entar. Você aceitou as responsabilidades de um a Rainha e parte dos seus deveres é cuidar dos m achos que lhe pertencem .
— Tudo bem — resm ungou Jaenelle. — Quando posso dar uns socos neles?
Tersa fez um som de im paciência.
— São m achos. Estão autorizados a im portunar e m im ar. — Depois sorriu e afagou o rosto de Jaenelle. — Os Príncipes dos Senhores da Guerra, em particular, precisam de contato físico com a Rainha.
— Oh — exclam ou Jaenelle, acidam ente. — Bem , então tudo bem .
Tersa estendeu-se no sofá.
— Muito bem , gatinha rabugenta, você tem um a opção — disse Lucivar.
— Não um a das suas — lam entou-se Jaenelle, caindo contra Lucivar.
— Algum a dessas opções inclui com er e dorm ir? — perguntou Saetan.
— E um banho? — acrescentou Jaenelle, franzindo o nariz.
— Um a delas, sim — disse Lucivar, soltando-a.
— Então não quero saber qual é a outra — Jaenelle m assageou as costas. — Essa fivela do seu cinto incom oda dem ais.
— Assim com o você.
Saetan m assageou as têm poras.
— Chega, filhos.
Surpreendentem ente, am bos obedeceram . Olhos dourados e azul-safira olharam para ele por um m om ento antes de deixarem a sala, abraçados pela cintura.
— Você se saiu bem , Saetan — disse Tersa, baixinho.
Pegando um cobertor que estava largado num a cadeira, Saetan colocou-o em volta de Tersa e aj eitou seu cabelo com as m ãos.
— Tive aj uda — respondeu, e riu suavem ente quando Tersa bateu na sua m ão. — Os m achos estão autorizados a im portunar e m im ar, lem bra?
— Não sou Rainha.
Saetan vigiou-a até adorm ecer.
— Não, m as é um a Senhora m uito dotada e extraordinária.
3 / Kaeleer
Convencendo-se de que não estava nervoso, apesar do coração aos pulos e das palm as das m ãos suadas, Saetan entrou na grande câm ara de pedra que Draca indicara com o sendo o local onde os convidados aguardariam até serem convocados para o Trono das Trevas. Exceto pelos pilares de m adeira escura que com portavam as velas e por algum as m esas com pridas encostadas às paredes e sobre as quais havia bebidas variadas, a sala não continha qualquer outra m obília.
O que na verdade era bom , um a vez que abrir cam inho por assentos concebidos para hum anos faria com que os parentes ficassem ainda m ais nervosos do que j á estavam , e algum as espécies — com o os pequenos dragões das Ilhas do Fogo — precisavam de um espaço considerável. Saetan reparou, com crescente inquietação, que nenhum parente, e não som ente os que pouco ou nenhum contato haviam tido com os hum anos, estava se m isturando com os Sangue hum anos, em bora os hum anos ali presentes fossem em sua m aioria am igos — ou pelo m enos eram antes das carnificinas. O fato de estarem todos j untos naquele espaço lim itado e exíguo dizia m uito da devoção que tinham por Jaenelle.
Essa era um a preocupação. Ebon Rih era o Território da Fortaleza em Kaeleer — atualm ente, o Território de Jaenelle. Reinar sobre Ebon Rih não aj udaria os parentes nem afastaria os invasores hum anos dos seus Territórios. Tradicionalm ente, a Rainha de Ebon Askavi exercia influência considerável em todos os Reinos, m as isso, além da cautela inata no seio dos Sangue, bastaria para não hostilizarem um poder obscuro e am adurecido? Será que algum dos idiotas do Conselho das Trevas de Kaeleer saberia o que estavam desafiando?
Outra preocupação era em relação à com posição da corte de Jaenelle. Saetan sem pre partira do princípio de que a assem bleia e os am igos hom ens de Jaenelle form ariam seu Prim eiro Círculo. Não era fora do com um que Rainhas servissem na corte de um a Rainha m ais forte, um a vez que as Rainhas dos Distritos serviam às Rainhas das Províncias, que, por sua vez, serviam à Rainha do Território. Era essa teia de poder que m antinha a união de um Território.
Porém , as Rainhas que governavam um Território não serviam em outras cortes. Representavam a lei decisória da sua terra, não se subm etendo a ninguém .
Na últim a sem ana, enquanto Jaenelle descansava após a cerim ônia da Oferenda, sua assem bleia, com posta apenas por Rainhas, tam bém realizara a Oferenda. E todas, sem exceção, foram escolhidas com o as novas Rainhas de seus Territórios — suas antecessoras cederam o lugar e aceitaram posições nas cortes recém -criadas.
Da m esm a form a, os rapazes chegaram ao poder. Chaosti era agora o Príncipe dos Senhores da Guerra dos Dea al Mon e Consorte de Gabrielle. Khardeen, Consorte de Morghann, era o Senhor da Guerra reinante em Maghre, sua terra natal. Depois de aceitar o anel de Consorte de Kalush, Aaron tornara-se o Príncipe dos Senhores da Guerra de Taj rana, a capital de Nharkhava. Sceron e Elan eram os Príncipe dos Senhores da Guerra de Centauran e de Tigrelan, servindo nos Prim eiros Círculos das cortes de Astar e de Grezande. Jonah servia agora com o Prim eiro Acom panhante de sua irm ã Zy lona e Morton, com o Prim eiro Acom panhante de sua prim a Karla.
Ao ouvir vozes fem ininas vindo do corredor atrás de si, Saetan dirigiu-se à m esa onde Lucivar, Aaron, Khary e Chaosti estavam reunidos. Geoffrey e Andulvar cum prim entaram -no com um aceno de cabeça, m as não interrom peram a conversa com Mephis e Prothvar. Sceron, Elan, Morton e Jonah dialogavam com um m inúsculo Príncipe dos Senhores da Guerra que Saetan nunca vira. O Consorte ou Prim eiro Acom panhante da pequena Katrine?
— O alfaiate fez um excelente trabalho — disse Saetan a Lucivar, aceitando a taça de y arbarah aquecido.
— Ahã. — A resposta parecia azeda, m as, passado um m om ento, Lucivar balançou a cabeça e riu. Pôs a m ão sobre o peito. — Fui um desafio digno para o bom Lord Aldric. Com o ele m esm o alegrem ente m e disse, enquanto espetava alfinetes por todos os lados, nunca tinha desenhado um traj e form al que com portasse asas.
— Bem , agora que tem as suas m edidas... — com eçou Saetan.
— Ah, não. — Lucivar balançou a cabeça, assum indo um a expressão que Saetan reconheceu de im ediato dos seus próprios contatos com o bom Lord Aldric. — “Cada tecido tem a sua própria personalidade, Príncipe Yaslana” — disse Lucivar, im itando a voz pesarosa do alfaiate. — “Precisam os saber com o cada um deles flui em volta desses prodigiosos acréscim os ao seu físico.”
Khary, Aaron e Chaosti tossiram em uníssono.
— Talvez ele queira apenas afagar suas asas — disse Karla, j untando-se aos dois. Deslizou a m ão pelo om bro de Saetan, encostando-se às suas costas, com o queixo pontiagudo apoiado no outro om bro. — São im pressionantes. É verdade que o tam anho do... — os olhos azuis com o gelo saltaram para a virilha de Lucivar — é diretam ente proporcional ao tam anho das asas?
Lucivar fez um gesto obsceno.
— Sensível, não é? Pena que não podem os sentir. Ah, está bem . Beij os.
— Vá se catar, Karla — disse Lucivar, cerrando os dentes e sorrindo.
Karla riu.
— É tão bom estar de novo entre os m al-hum orados. Há poucos dias disse “beij os!” e todos tentaram m e beij ar. — Deu de om bros de form a dram ática, em seguida despenteou o cabelo de Saetan, ignorando alegrem ente o rosnado dele. — Sabe de um a coisa, tio Saetan?
— O que foi? — respondeu Saetan com bastante cuidado, tom ando um gole de y arbarah.
O sorriso perverso de Karla apareceu de repente.
— Um a vez que você é o Príncipe dos Senhores da Guerra de Dhem lan e governa esse Território, e sendo eu a Rainha de Glácia, agora, sem pre que Dhem lan tiver assuntos a tratar com Glácia, é com igo que terá de falar.
Saetan engasgou.
— É um pensam ento aterrador, não é? Vai ter de enfrentar tudo o que m e ensinou.
— Mãe Noite — arfou Saetan quando Karla arrancou o copo das suas m ãos, dando-lhe um soco nas costas.
— O que você fez com tio Saetan? — perguntou Morghann, aceitando um copo de vinho de Khary.
— Apenas lem brei a ele que agora som os nós as Rainhas com quem terá de tratar.
— Que inj ustiça, Karla — disse Kalush, j untando-se ao grupo. — Devia ter ido com calm a em vez de pegá-lo de surpresa.
— Com o assim ? — Karla fez um a careta. — Além disso, ele j á sabia disso. Ou não sabia?
Saetan recuperou o copo e esvaziou-o para não precisar responder. Depois de todas as horas que havia passado com Geoffrey, Andulvar e Mephis debatendo as im plicações da chegada ao poder daquele grupo específico de Rainhas, nenhum deles considerara o óbvio — que ele teria de lidar com elas na qualidade de Rainhas de Território.
Um gongo ressoou em toda a Fortaleza. Um a vez. Duas vezes. Três vezes. Depois de um a pausa, ressoou um a quarta vez.
Quatro vezes pelos quatro lados do triângulo dos Sangue, sendo o quarto lado aquele no interior dos outros três. Com o os três m achos — Adm inistrador, Mestre da Guarda e Consorte — que form am um triângulo poderoso e íntim o em volta da Rainha.
Ao fundo da sala, abriram -se enorm es portas duplas, revelando um vazio som brio.
Sem dar atenção ao burburinho hesitante à sua volta, Saetan pousou o copo, passou a m ão pelo cabelo e aj eitou as roupas novas. Com o o Protocolo ditava que os cortej os com eçassem pelas Joias m ais claras, passando depois para as m ais escuras, prim eiro todos os m achos, depois as fêm eas, Saetan seria o últim o da fila m asculina.
Por isso não se deu conta de que ninguém havia se m ovido e que todos olhavam para ele, até Lucivar lhe dar um a cotovelada.
— O Protocolo estipula... — com eçou.
— Que se dane o Protocolo — respondeu Karla laconicam ente. — É você que vai prim eiro.
Quando todos assentiram com a cabeça, ele cam inhou devagar em direção às portas duplas. Lucivar e Andulvar seguiram a seu lado. Mephis, Geoffrey e Prothvar foram atrás.
— O que há lá dentro? — perguntou Lucivar em voz baixa.
— Não sei — respondeu Saetan. — Nunca estive nesta parte da Fortaleza. — Olhou de relance para Geoffrey por cim a do om bro.
Assim que chegaram às portas, detiveram -se. As luzes da sala atrás deles revelavam os prim eiros am plos degraus da escada que descia.
Se tentarmos descer no escuro, vamos acabar quebrando o pescoço.
Mal havia form ulado o pensam ento e surgiram pequenas centelhas de luz na pedra escura, cada vez m ais incandescentes.
Com o turbilhões de estrelas, pensou Saetan, recobrando o fôlego. Com o o poem a que Geoffrey citara anos atrás, sobre os nobres dragões que haviam criado os Sangue. Descem em espiral até o ébano, capturando as estrelas com as caudas.
Ébano fora, antigam ente, a expressão poética para Trevas.
Saetan congelou, o pé suspenso sobre o prim eiro degrau.
Estaria im óvel?
— Está acontecendo algum a coisa? — sussurrou Lucivar.
Saetan balançou a cabeça e com eçou a descer devagar, grato pela enorm e força ey riena a seu lado.
Quando chegou ao últim o degrau, um segundo conj unto de portas duplas se abriu de rom pante. A câm ara, escura com o breu, ilum inou-se aos poucos, a escuridão cedendo lugar à aurora. A luz espalhou-se gradualm ente do lado da câm ara onde estavam até o lado oposto. Contudo, Saetan reparou ao avançar, não ilum inava o teto. Elevando-se a três vezes a sua altura, a luz cedia lugar ao crepúsculo, que, por sua vez, sucum bia novam ente à escuridão.
A parede ao fundo com eçou a se ilum inar dos dois lados. Um baixo-relevo detalhado a preenchia até onde se podia ver. Um a paisagem onírica, um a paisagem noturna, figuras que se erguiam e que se dissolviam em outras. Silhuetas de parentes. Silhuetas hum anas. Que se confundiam . Que se entrelaçavam . Ferinas e belas. Odiosas e am áveis.
Por fim , a luz chegou ao centro da parede e ao Trono das Trevas. Três am plos degraus percorriam o estrado em três lados. Nele havia um a sim ples cadeira de m adeira escura de espaldar alto e cinzelado. A evidente sim plicidade era indicadora de que o poder que aqui governava não precisava de ornam entos nem ostentações — ainda m ais sendo protegida do lado direito por um a enorm e cabeça de dragão que saía da pedra.
— Mãe Noite — sussurrou Andulvar. — Ela criou um a escultura da cabeça de Lorn.
— Fogo do Inferno — m urm urou Lucivar. — Onde ela conseguiu tantas Joias brutas para com por as escam as?
Trem endo, Saetan balançou a cabeça, incapaz de dizer um a palavra. De onde estava, talvez Andulvar não conseguisse ver a escuridão além do baixo-relevo ilum inado, um a escuridão que sugeria outra am pla câm ara além daquela onde estavam . Talvez não conseguisse ver o fogo iridescente nas escam as do dragão. Talvez tivesse esquecido o som daquela voz antiga e poderosa. Talvez...
Lentam ente, as pálpebras se abriram . Olhos de m eia-noite deixaram todos petrificados.
Geoffrey agarrou o braço de Saetan, apertando os dedos com força.
— Mãe Noite, Saetan — disse Geoffrey, a respiração irregular. — A Fortaleza é o covil dele. Esteve aqui o tem po todo.
Não esperava que Lorn fosse tão grande. Se o corpo fosse proporcional à cabeça...
Escam as de dragão. As Joias eram escam as de dragão transform adas, de algum a form a, em pedras duras e translúcidas. Teriam existido dragões das cores de todas as Joias ou seriam todos daquele tom dourado-prateado iridescente, a cor das Joias variando de m odo a corresponder à força do destinatário?
Saetan tocou cuidadosam ente a Joia Negra que pendia do seu pescoço. A Verm elha de Direito por Progenitura e a Negra tinham sido Joias brutas. Haveria duas escam as faltando em algum lugar daquele enorm e corpo — que devia se estender pela câm ara adj acente — que corresponderiam às suas Joias brutas?
Com preendeu então por que havia detectado um vestígio de m asculinidade nas Joias brutas que tinham sido atribuídas a Jaenelle.
Lorn. O grande Príncipe dos Dragões. O Guardião da Fortaleza.
Precisando pensar em outra coisa que não o poder que aquele corpo antiquíssim o deveria conter, Saetan virou-se para Geoffrey.
— A Rainha dele. Qual era o nom e da Rainha dele?
— Draca — disse um a voz sibilante vindo de trás.
Viraram -se e olharam estupefatos para a Senescal da Fortaleza.
Seus lábios form aram um ligeiríssim o sorriso.
— Cham ava-sse Draca.
Olhando-a nos olhos, Saetan perguntou-se qual teria sido o feitiço im perceptível que fora lançado, perm itindo-lhe ver agora o que deveria ter adivinhado há m uito tem po. Sua longevidade, sua força, a inquietação que tantos sentiam na sua presença. O que o levou a pensar em outra coisa.
— Jaenelle sabe?
Draca em itiu um som que poderia ser um a gargalhada.
— Ssem pre ssoube, Ssenhor Ssuprem o.
Saetan fez um a careta e depois se rendeu tão graciosam ente quanto pôde. Mesm o que tivesse se lem brado de perguntar, duvidava que ela respondesse. Jaenelle era m uito boa em guardar segredos.
— São seus fam iliares? — perguntou Lucivar, indicando os dragões do Fogo que olhavam Lorn fixam ente.
— Vocêss todoss ssão nossoss fam iliaress — respondeu Draca, olhando para a Joia Cinza-Ébano de Lucivar. — Nóss criám oss oss Ssangue. Todoss oss Ssangue. Logo, ssob a ssuperfície, todoss vocêss ssão dragõess.
Saetan olhou de relance para os parentes que estavam por perto.
— Vocês, é claro, j á sabiam . — Vislum brou um ar divertido nos olhos de Draca.
— Não ssou eu quem diz, Ssenhor Ssuprem o. É Jaenelle. — Draca olhou para além deles, para o Trono das Trevas.
Eles se viraram , todos j untos.
Usando o vestido de teias de aranha e as Joias Ébano, Jaenelle estava serenam ente sentada na cadeira de m adeira escura. Seu longo cabelo louro estava penteado para trás, revelando, por fim , a beleza ím par do seu rosto.
— Chegou o m om ento de aceitar m eus deveres com o Rainha de Ebon Askavi — disse Jaenelle. Não falava num tom de voz alto, porém toda a câm ara a ouvia. — Chegou o m om ento de escolher m inha corte.
Um a tensão ansiosa tom ou conta da sala.
Saetan concentrou-se em respirar devagar e regularm ente. Passara dias dizendo a si m esm o que o serviço nas cortes era para os j ovens e vigorosos, que sua intenção nunca fora servir form alm ente, que o serviço tácito que prestava seria suficiente, que j á passara pela experiência de servir na Corte das Trevas em Ebon Askavi quando fora Consorte de Cassandra.
Mas, na verdade, não passara por essa experiência, porque, de um a form a inexprim ível, aquela não fora realm ente a Corte das Trevas. Não com o esta iria ser.
E, de repente, com preendeu o m otivo do afastam ento de Cassandra.
Era por esta corte que Saetan aguardara. Era esta a corte pela qual ansiara. Queria servir a filha da sua alm a, que chegara, por fim , ao seu poder obscuro e glorioso.
Feiticeira. O m ito vivo. A realização dos sonhos.
Este fora o seu sonho.
Bem com o o de Lucivar, percebeu, ao ver o fogo nos olhos do filho. Sim , Lucivar teria ansiado por um a Rainha que correspondesse à sua força.
A voz de Jaenelle trouxe-o de volta à realidade.
— Príncipe Chaosti, aceita servir no Prim eiro Círculo?
Com graciosidade, Chaosti baixou um j oelho, com a m ão fechada sobre o coração.
— Sim , aceito.
Saetan franziu a sobrancelha. Com o Chaosti poderia servir no Prim eiro Círculo de Jaenelle se j á tinha aceitado prestar serviço no Prim eiro Círculo de Gabrielle?
— Príncipe Kaelas, aceita servir no Prim eiro Círculo?
*Sim, aceito.*
Ficou cada vez m ais perplexo à m edida que Jaenelle cham ava nom e após nom e. Mephis, Prothvar, Aaron, Khardeen, Sceron, Jonah, Morton, Elan. Ladvarian, Mistral, Fum aça, Bailarino do Sol.
A essa altura, ele, Andulvar e Lucivar eram os únicos m achos em pé, e todo o seu ser aguardava as palavras que se seguiriam .
— Lady Karla, aceita servir no Prim eiro Círculo?
— Sim , aceito.
O choque espalhou-se por Saetan, prontam ente seguido pelo sofrim ento, um sofrim ento tão intenso que pensou que não conseguiria sobreviver. Ela não o havia perdoado. Pelo m enos, não totalm ente.
— Lady Som bra da Lua, aceita servir no Prim eiro Círculo?
*Sim, aceito.*
Engoliu em seco. Não podia reagir, não podia deixar que os outros o vissem sofrer. Entretanto, se Jaenelle perm itia que Mephis e Prothvar lhe servissem , por que não Andulvar? Por que não Lucivar, que j á lhe servia?
Quase não ouviu os outros nom es sendo cham ados. Gabrielle, Morghann, Kalush, Grezande, Sabrina, Zy lona, Katrine, Astar, Cinza. Ininterruptam ente, até todas as feiticeiras terem aceitado um lugar na corte.
Draca e Geoffrey não podiam servir form alm ente um a vez que serviam à própria Fortaleza. Se algum conforto havia nesse fato, era um conforto m uito am argo.
Podia sentir Lucivar trem endo a seu lado.
Depois de um m om ento de silêncio, Jaenelle ergueu-se e desceu os três degraus. Sem icerrou os olhos ao fixar Saetan. Ele sentiu a exasperação da filha quando ela roçou a prim eira de suas barreiras interiores.
Jaenelle puxou a m anga esquerda do vestido e fez um pequeno corte no pulso.
O sangue brotou e escorreu.
— Príncipe Lucivar Yaslana, aceita servir com o Prim eiro Acom panhante e Príncipe dos Senhores da Guerra de Ebon Rih?
Lucivar olhou para ela, atônito, durante poucos segundos, e depois se aproxim ou devagar.
— Sim , aceito. — Aj oelhou-se, segurou a m ão esquerda de Jaenelle com a m ão direita e pôs a boca sobre a ferida.
Rendição absoluta. Rendição eterna. Ao aceitar o sangue de Jaenelle, Lucivar oferecia todos os aspectos do seu ser para todo o sem pre. Jaenelle iria dom iná-lo, corpo e alm a, m ente e Joias.
Não dem orou m uito — foi um a eternidade — e Lucivar retirou a boca, ergueu-se e deu um passo para o lado, parecendo aturdido.
Não era de surpreender, pensou Saetan. Do local onde estava, podia sentir o calor, a força que corria naquelas veias.
— Príncipe Andulvar Yaslana, aceita servir com o m eu Mestre da Guarda?
— Sim , aceito — respondeu Andulvar, aproxim ando-se dela e aj oelhando-se para aceitar o fluido vital.
Quando Andulvar deu um passo para o lado, Jaenelle olhou para Saetan.
— Príncipe Saetan Daem on SaDiablo, aceita servir com o Adm inistrador da Corte das Trevas?
Saetan aproxim ou-se bem devagar, procurando nos olhos da garota algum a pista que indicasse a resposta que verdadeiram ente pretendia receber. Com o não podia colocar a questão em voz alta, tocou sua m ente, hesitante.
*Tem certeza?*
*É claro que tenho certeza*, respondeu, ríspida. *Há momentos em que você é um idiota, Saetan. Só esperei até agora para que os três soubessem naquilo em que estariam se m etendo antes de aceitar.*
*Nesse caso...* Caiu de joelhos.
— Sim , aceito.
Im ediatam ente antes de pousar a boca sobre a ferida, im ediatam ente antes de a língua experim entar o sabor do sangue na sua força am adurecida, Jaenelle acrescentou:
*Além disso, quem estaria disposto a arbitrar disputas?*
Com um olhar contundente, Saetan aceitou o sangue. Céu noturno, terra profunda, o cântico das m arés, a escuridão protetora de um corpo fem inino. E fogo. Saetan saboreou tudo isto, sentindo-se inundado, cauterizado, m arcado com o dela.
Retirou a boca e passou um dedo pela ferida, usando Arte m edicinal para estancar o sangue.
*Isto precisa ser tratado adequadamente.*
*Em breve.* Jaenelle retirou a mão e voltou ao Trono das Trevas.
Não, Saetan decidiu enquanto se punha de pé, ouvindo os outros se levantarem , aquela não era um a ocasião propícia para um a am ostra da teim osia m asculina. Além disso, a cerim ônia estava prestes a term inar.
*Percebe alguma coisa estranha nesta corte?*, perguntou Lucivar à medida que a tensão voltava a se alastrar pela sala.
Surpreendido pela pergunta, Saetan observou os rostos solenes e decididos.
*Estranha? Não. São os mesmos...*
Finalm ente percebeu. Havia pensado naquilo, m as depois ficara tão m agoado pela rej eição de Jaenelle que se esquecera do assunto. A assem bleia unira-se ao Prim eiro Círculo, m as não devia ter feito isso, porque eram Rainhas de Território...
Karla avançou.
— Minha Rainha. Peço autorização para falar.
— Pode falar, m inha Irm ã — respondeu Jaenelle, solene.
... e as Rainhas de Território não servem a ninguém .
Um fogo contido incendiou os gélidos olhos azuis de Karla quando disse com um ar triunfante:
— Glácia subm ete-se a Ebon Askavi!
Saetan sentiu um aperto no coração. Mãe Noite! Karla estava fazendo de Jaenelle o poder dom inante do Território que ela deveria dom inar.
Gabrielle avançou.
— Dea al Mon subm ete-se a Ebon Askavi!
— Scelt subm ete-se a Ebon Askavi! — gritou Morghann.
— Nharkhava!
— Dharo!
— Tigrelan!
— Centauran!
*Sceval!*
*Arceria!*
*As Ilhas do Fogo!*
Sentiu um a cotovelada nas costas interrom pendo seu silêncio aturdido.
— Dhem lan subm ete-se a Ebon Askavi!
Deu um salto quando Andulvar rugiu:
— Askavi subm ete-se a Ebon Askavi!
Os nom es dos Territórios que agora perm aneciam sob a proteção de Ebon Askavi finalm ente deixaram de ecoar na câm ara. Foi então que um a voz débil flutuou pelas m entes de todos.
*Aracna submete-se à Senhora da Montanha Negra.*
— Mãe Noite — m urm urou Saetan, im aginando se as Tecelãs de Sonhos estariam tecendo teias em aranhadas no teto da sala.
— Eu aceito — disse Jaenelle com serenidade.
Lucivar apertou levem ente o om bro de Saetan num ato de divertida com preensão.
— Devo felicitar o Adm inistrador desta corte ou dar-lhe os m eus pêsam es? — disse, baixinho.
— Mãe Noite. — Saetan recuou um passo, cam baleante. Sentiu que m ãos o seguravam pelos braços, m antendo-o em pé.
Lucivar riu suavem ente ao passar por Saetan. Subiu os degraus até o Trono e estendeu a m ão direita. Jaenelle se levantou e colocou a m ão esquerda sobre a dele. Form ou-se um am plo corredor enquanto a nova corte se afastava para dar passagem ao Prim eiro Acom panhante, que conduzia sua Rainha para fora da câm ara.
Preparando-se para segui-los, Saetan sentiu que algum a coisa o detinha. Acenando a Andulvar e aos outros para que prosseguissem , sentiu um nó na garganta enquanto os parentes se m isturavam tim idam ente com os hum anos, oferecendo-lhes, outra vez, sua confiança.
A sala ficou vazia. Os últim os a sair foram Draca e Geoffrey.
Não lhe restando qualquer desculpa, Saetan virou-se para Lorn. Enquanto se fitavam , sentiu um a doce m elancolia a com prim i-lo, um a m elancolia ainda m ais terrível por estar coberta de com preensão. Soube então por que Lorn havia se m antido afastado. Tam bém sentira essa m elancolia, diante dos peticionários cheios de m edo do Príncipe das Trevas, do Senhor Suprem o do Inferno. Sabia o que era ansiar por afeto e com panhia e não ter nada disso por ser quem era.
Tocando com o dedo na Joia Negra, disse:
— Obrigado.
*Você usou corretamente a minha Oferenda. Sserviu com jussteza.*
Saetan recordou tudo o que havia feito na vida. Todos os erros, os desgostos. O sangue derram ado.
— Servi? — perguntou baixinho, m ais para si m esm o do que para Lorn.
*Honrou ass Trevass. Resspeitou oss cosstumess doss Ssangue. Ssempre com preendeu a m issão doss Ssangue — vigilantess e guardiõess. Usou garrass e dentess ssem pre que foi necessário usar garrass e dentess. Protegeu oss m aiss novoss. Ass Trevass lhe cantaram e você sseguiu cam inhoss peloss quaiss poucoss sseguiram , a não sser oss Dragõess. Com preendeu o coração doss Ssangue, a alm a doss Ssangue. Sserviu com j ussteza.*
Saetan respirou fundo. O nó da garganta estava apertado dem ais para que pudesse form ular um a resposta.
— Obrigado — disse, com a voz rouca.
Houve um longo silêncio.
*Assim como ela é a filha da sua alma, você é o filho da minha.*
Saetan segurou com força a Joia ao pescoço. Lorn faria ideia do que aquelas palavras significavam para ele?
Não im portava. O que im portava é que form avam um a ligação entre am bos, um a ponte que ele poderia atravessar. Poderia, finalm ente, falar com o guardião de todo o conhecim ento da Arte dos Sangue. Talvez até conseguisse descobrir com o Jae...
— Se sou a filha da alm a de Saetan e ele é o filho da sua alm a, isso faz de você o m eu avô? — perguntou Jaenelle, j untando-se a eles.
*Não*, respondeu Lorn, imediatamente.
— E por que não?
Foram atingidos por um a lufada de ar quente, seco e poeirento que os fez recuar alguns passos.
— Im agino que isso sej a um a resposta — resm ungou Jaenelle. Sacudiu os braços para desem baraçar os fios das teias. — Em bora eu não entenda por que você fica todo cheio de raiva por causa de um a netinha.
— E a grande variedade de sobrinhas-netas e sobrinhos que vêm com ela — m urm urou Saetan entre dentes.
Jaenelle deu a Saetan um olhar duro e sacudiu os pulsos um a últim a vez.
— Bem , pelo m enos vocês enfim se conheceram . Devia tê-lo convidado antes — acrescentou, olhando Lorn com um a expressão do tipo “Eu avisei”.
*Ele não esstava preparado. Era muito jovem.*
Saetan teria protestado se Jaenelle não tivesse se adiantado.
— Eu era m uito m ais nova quando você m e convidou — disse Jaenelle.
Saetan pressionou o braço contra o estôm ago, tentando ao m áxim o m anter a expressão neutra. No entanto, o arom a em ocional de m acho desconcertado que conseguia detectar vindo de Lorn tornava a tarefa bastante com plicada.
*Não convidei você, Jaenelle*, disse Lorn, devagar.
— Convidou, sim . Mais ou m enos. Bem , não de m aneira tão evidente quanto Saetan...
Saetan cerrou os dentes e produziu um som de rosnar.
— ... m as ouvi você, por isso respondi. — Sorriu para os dois.
Receber um sorriso daqueles era um a boa razão para um hom em entrar em pânico.
Antes de se dar conta, Jaenelle j á se dirigia às pressas para as escadas, m urm urando algum a coisa sobre ter de estar presente para o brinde, com a m ão forte de Lucivar sobre seu om bro.
— Se o bisavô j á tiver term inado — disse Lucivar com um sorriso feral —, gostaria que m e acom panhasse e repreendesse Karla, pois, Rainha de Glácia ou não, se voltar a fazer m ais algum com entário engraçadinho sobre o tam anho das m inhas asas, vou largá-la num profundo lago da m ontanha.
— Lucivar, esta é um a ocasião solene — disse Saetan, enquanto Lorn atalhou:
*Não ssou sseu bisavô.*
— Não, não é — concordou Lucivar. — Mas um a vez que ninguém tem realm ente certeza de quantas gerações nos separam de você — e que isso é diferente para cada raça ou espécie —, decidim os que seria m elhor condensar todas as gerações num único “bis”. Quanto a esta ser um a ocasião solene, de fato não há dúvida. Já sobre a festa que está em vias de acontecer, tenho certeza que vai ser m uitas coisas, m enos solene. — Lucivar olhou para os dois e soltou um suspiro com padecido. — Vocês dois j á são bem crescidinhos para saber o que os aguarda. E conhecem Jaenelle há tem po suficiente para não ficarem surpresos.
Saetan pegou-se sendo conduzido para as portas na extrem idade oposta da sala.
— Vam os lá, sej a um bom avozinho e deixe o bisavô dragão descansar antes que os dragõezinhos venham pular em cim a dele.
Ao chegar às escadas, Saetan pensou que as portas interiores para a câm ara tinham se fechado rápido dem ais.
*Conversaremos mais tarde*, disse Lorn, afavelmente. *Temos muito que conversar.*
Sim , tinham m uito que conversar, pensou Saetan enquanto entrava na câm ara superior, aceitava um a taça de y arbarah e percorria com os olhos os rostos anim ados e sorridentes que agora dom inavam Kaeleer.
Perguntou-se o que Lorn pensaria da teia de m últiplos fios que Jaenelle havia tecido sobre Kaeleer, a teia que desafiara tantas raças a sair da névoa que as encobrira durante m ilhares de anos.
E im aginou o que pensaria o Conselho das Trevas.
4 / Kaeleer
Lord Magstrom esfregou a testa e desej ou ardentem ente que aquela sessão do Conselho das Trevas term inasse logo. Desde que a prim eira peticionária pisara no círculo, Lord Jorval, o Prim eiro Tribuno, vinha produzindo ruídos tranquilizadores, evitando, habilm ente, fazer prom essas concretas. Todas queriam a m esm a coisa: a garantia de que os m achos enviados para as terras dos parentes não fossem m assacrados por aqueles “anim ais gerados no Inferno”.
O Conselho não podia dar essa garantia.
As histórias contadas pelos poucos sobreviventes que haviam voltado das prim eiras expedições de assentam ento incitaram um a ira extrem a no povo da Pequena Terreille, que exigia represálias. As pilhas de cadáveres m utilados — alguns parcialm ente devorados — que obstruíam a rua principal de Goth alguns dias depois de todos os m achos que tinham entrado nas terras dos parentes terem sido devolvidos de m aneira m isteriosa transform aram aquela ira num a furiosa im potência.
Todos clam avam para que se fizesse algum a coisa de m aneira a tornar aquelas terras de ninguém seguras para a ocupação hum ana. Ninguém queria enfrentar o que j á vivia naquelas terras de “ninguém ”.
— Posso lhe garantir, Senhora — disse Jorval dirigindo-se à peticionária estridente —, estam os fazendo tudo ao nosso alcance para corrigir a situação.
— Quando vim para cá, prom eteram -m e terras para governar e m achos capazes de servir adequadam ente — respondeu cheia de cólera a Rainha terreilliana.
Lord Magstrom im aginou se m ais alguém teria reparado que a m aior parte dos m achos nascidos em Kaeleer — m esm o atraídos pela ideia de servir no Prim eiro ou Segundo Círculos da corte de um a Rainha terreilliana — renunciava ao serviço com um a anim osidade am arga depois de algum as sem anas. Os m achos terreillianos im ploravam para servir Rainhas nascidas em Kaeleer, dispondo-se a servir com o lacaios no Décim o Terceiro Círculo se essas fossem as únicas vagas restantes. Nos últim os três anos, alguns lhe pediam às lágrim as que intercedesse j unto a Rainhas de categorias inferiores, fora da Pequena Terreille, para que considerassem a possibilidade de servirem em Territórios com o Dharo ou Nharkhava. Fariam o que quer que fosse, diziam . O que quer que fosse.
Para alguns dos m ais j ovens que considerou adequados a essas Rainhas de Território, redigira cartas respeitosas, salientando sua com petência e seu em penho em se adaptar aos costum es do Reino das Som bras. Alguns foram aceitos. A cada m udança de estação recebia breves cartas de cada um desses j ovens e todos expressavam o alívio e a alegria por suas novas vidas.
As súplicas, porém , estavam se tornando cada vez m ais desesperadas à m edida que cada vez m ais terreillianos invadiam a Pequena Terreille. E a cada súplica, a cada história que ouvia sobre Terreille, crescia a preocupação quanto à sua neta m ais nova. Mesm o no seu pequeno povoado j á haviam acontecido incidentes, não sendo aconselhável que um a m ulher viaj asse sem um a forte escolta depois de anoitecer. Teria sido assim que com eçara em Terreille, com o m edo e a desconfiança penetrando em espiral, cada vez m ais fundo, até não haver form a de detê-los?
— Registram os seu pedido — disse Lord Jorval, com um gesto indicativo de dispensa. — A próxim a...
As portas ao fundo do hem iciclo abriram -se de rom pante com tanta força que bateram na parede.
Jaenelle Angelline deslizou para o hem iciclo do Conselho, detendo-se, m ais um a vez, logo antes do círculo do peticionário, outra vez ladeada pelo Senhor Suprem o e pelo Príncipe Lucivar Yaslana. Ao longo do grande decote do vestido preto e esvoaçante viam -se dezenas de lascas de Joias Negras cintilando com um fogo negro. Do pescoço destacava-se um a Joia Negra — Negra? — engastada num colar parecido com um a teia de aranha form ada por delicados fios dourados e prateados. Nas m ãos...
As m ãos de Lord Magstrom ficaram trêm ulas.
Ela segurava um cetro. A m etade inferior era feita de ouro e prata e tinha duas Joias aparentem ente Negras encaixadas acim a da em punhadura. A m etade superior era um chifre em espiral.
Dedos apontavam para o chifre. Sussurros tom aram conta do hem iciclo.
— Lady Angelline, devo protestar contra esta interrupção... — com eçou Jorval.
— Tenho algo a dizer a este Conselho — interrom peu Jaenelle com frieza, sua voz sobrepondo-se às outras. — Serei breve.
Os sussurros aum entaram , tornando-se m ais enérgicos.
— Por que ela foi autorizada a usar um chifre de unicórnio? — gritou a Rainha terreilliana que havia sido dispensada. — Eu não obtive essa autorização com o com pensação pela m orte dos m eus hom ens.
O rosto do Senhor Suprem o não dem onstrava qualquer em oção ao olhar para a Rainha terreilliana. No entanto, Lucivar não tentou disfarçar sua repulsa.
— Silêncio. — Jaenelle não se esforçou para elevar a voz, m as seu tom m aligno fez todos ficarem em silêncio. Olhou para a Rainha terreilliana e proferiu quatro palavras.
Lord Magstrom conhecia o Idiom a Antigo o suficiente para reconhecer a língua, m as não para entendê-la. Algum a coisa sobre recordar?
Jaenelle acariciou o chifre, afagando-o da base até a ponta e em sentido inverso.
— Ele se cham ava Kaetien — disse, com sua voz de m eia-noite. — Este chifre foi um a Oferenda, feita de livre vontade.
— Lady Angelline — disse Jorval, batendo no banco do Tribunal e tentando pôr ordem na sala.
Nos assentos m ais próxim os do banco do Tribunal, Lord Magstrom ouviu vozes severas falando sobre certas pessoas que j ulgavam poder ignorar a autoridade do Conselho.
Jaenelle balançou o cetro, desenhando um arco, suspendendo-o por um m om ento quando o chifre apontou para o chão e apontando-o em seguida para o teto do hem iciclo.
Um vento frio soprou de repente. Trovões fizeram o edifício estrem ecer. Do teto, surgiram relâm pagos que penetraram no chifre do unicórnio.
Um poder obscuro invadiu a sala. Um poder inflexível e inexorável.
Quando os trovões finalm ente pararam , quando o vento finalm ente serenou, os m em bros trêm ulos do Conselho das Trevas voltaram a seus assentos.
Jaenelle Angelline estava tranquila e serena, segurando o cetro novam ente com am bas as m ãos. O chifre do unicórnio perm anecia intacto, m as Magstrom podia ver os raios dos relâm pagos agora contidos naquelas Joias Negras-m as-não-Negras, podia sentir o poder que aguardava libertação.
— Ouçam o que tenho a dizer — com eçou Jaenelle —, pois só o direi um a vez. Realizei a Oferenda às Trevas. Agora sou a Rainha de Ebon Askavi. — Com o cetro, indicou a bancada do Tribunal.
Lord Magstrom estrem eceu. O chifre apontava diretam ente para ele. Ele prendeu a respiração, aguardando o im pacto. Em vez disso, um pergam inho enrolado com um a fita verm elho-sangue surgiu à sua frente.
— Essa é um a lista dos Territórios que se subm eteram a Ebon Askavi. Encontram -se agora sob a proteção da Fortaleza. Pertencem a m im . Quem quer que tente se instalar no m eu Território sem a m inha autorização sofrerá as consequências. Quem quer que faça m al a um m em bro do m eu povo será executado. Não haverá espaço para desculpas nem exceções. Vou pôr as coisas de form a sim ples para que os m em bros deste Conselho e os intrusos que j ulgavam poder se apoderar da terra sobre a qual não têm qualquer direito j am ais possam dizer que não entenderam direito. — Os lábios de Jaenelle tom aram a form a de um rosnado. — NÃO ENTREM NO MEU TERRITÓRIO!
As palavras ressoaram pelo hem iciclo, ecoando e voltando a ecoar.
Seus olhos azul-safira, que não pareciam exatam ente hum anos, detiveram -se no Tribunal por um longo m om ento. Depois, ela se virou e deslizou para fora da sala, seguida pelo Senhor Suprem o e pelo Príncipe Yaslana.
As m ãos de Magstrom trem iam com tanta violência que só na quarta tentativa conseguiu desatar a fita verm elho-sangue. Desenrolou o pergam inho, ignorando que deveria tê-lo entregado a Jorval, um a vez que este era o Prim eiro Tribuno.
Nom e após nom e após nom e após nom e. Alguns ele conhecia das histórias que a avó lhe contava. Outros, com o “terras por reclam ar”. Outros ainda, desconhecia com pletam ente.
Nom e após nom e após nom e.
No final do pergam inho, acim a da assinatura de Jaenelle e do selo de cera preta, havia um m apa de Kaeleer com os Territórios atualm ente sob a proteção da Fortaleza assinalados.
À exceção da Pequena Terreille e da ilha que há séculos fora atribuída ao Conselho das Trevas, todo o Reino das Som bras pertencia agora a Jaenelle Angelline.
Magstrom atentou à bela caligrafia da assinatura. Ela havia estado na presença do Conselho por duas vezes com o donzela e por duas vezes tinham ignorado os avisos sobre aquilo que se tornaria. Agora teriam de enfrentar um a Rainha que não toleraria erros.
Estrem eceu e observou o selo. No centro havia um a m ontanha. Sobre a m ontanha podia-se ver um chifre de unicórnio. Em volta da orla do selo havia quatro palavras no Idiom a Antigo.
Um pequeno papel dobrado surgiu de repente sobre o selo. Magstrom pegou-o no exato m om ento em que Jorval lhe tirou o pergam inho das m ãos. Enquanto Jorval e o Segundo Tribuno liam a lista para os dem ais m em bros do Conselho, as vozes cada vez m ais vacilantes, à m edida que iam se dando conta do significado daquilo, Magstrom desdobrou o papel, m antendo-o escondido.
Um a m ão m asculina escrevera as m esm as quatro palavras que estavam no selo. Logo em baixo estava a tradução.
Em memória. Como advertência.
Magstrom levantou os olhos.
O Senhor Suprem o estava logo atrás das portas abertas do hem iciclo.
Magstrom assentiu ligeiram ente com a cabeça e fez o papel desaparecer, aliviado por ninguém ter reparado que Saetan perm anecera ali para lhe transm itir aquela m ensagem .
Encararia o aviso com grande seriedade e enviaria um a m ensagem para casa naquela m esm a noite. Suas duas netas m ais velhas tinham casam entos felizes fora da Pequena Terreille. Avisaria Arnora, sua neta m ais nova, para que partisse de im ediato para a casa de um a das irm ãs m ais velhas. Um a vez lá, certam ente haveria um a form a de persuadir a nova Rainha de Dharo ou de Nharkhava a lhe conceder autorização para ficar.
Ouvindo em parte o falatório indignado e atem orizado do Conselho, Magstrom sentiu um a tênue esperança pelo futuro de Arnora. Não conhecia as novas Rainhas, m as conhecia alguém que as conhecia.
Depois de todos os sussurros, de todas as histórias, achou irônico que a única pessoa a quem poderia recorrer e que iria com partilhar suas preocupações, bem com o aj udá-lo, era o Senhor Suprem o do Inferno.
5 / Kaeleer
–Nunca tive intenção de reinar — disse Jaenelle enquanto passeava com Saetan pelos j ardins da Fortaleza sob a luz do luar. — Nunca desej ei controlar a vida de ninguém , a não ser a m inha.
Saetan passou um braço em volta da sua cintura.
— Eu sei. E é por isso que é a Rainha perfeita para governar Kaeleer. — Ao vê-la perplexa, riu serenam ente. — É a única que consegue tecer todos os fios individuais num a teia unificada, ao m esm o tem po encoraj ando todos os fios a perm anecerem distintos. Se prom eter não se zangar, posso lhe contar um segredo.
— O quê? Está bem , está bem . Prom eto que não m e zango.
— Já faz anos que você reina em Kaeleer, de m aneira inform al, e talvez sej a a única que ainda não se deu conta disso.
Jaenelle deu um resm ungo e logo depois m urm urou entre dentes:
— Desculpe.
Saetan riu.
— Está desculpada. No entanto, esse conhecim ento deveria lhe trazer algum consolo. Duvido que existam m uitas diferenças entre a Corte das Trevas oficial e a corte inform al que se form ou no prim eiro verão em que a assem bleia e os rapazes vieram ao Paço, fazendo dele sua segunda casa.
Jaenelle afastou o cabelo do rosto.
— Bem , se isso é verdade, então você foi mesmo um idiota por não perceber que se tornaria o Adm inistrador, um a vez que tem sido o Adm inistrador inform al há pelo m enos tanto tem po quanto eu tenho sido a Rainha inform al.
Com o não tinha um a resposta adequada, Saetan nada disse.
— Saetan... — Jaenelle m ordeu o lábio inferior. — Acha que vão com eçar a agir de form a diferente? Nunca m e im portei com isso antes, m as... a assem bleia e os rapazes não vão com eçar a ser subservientes, não é?
Saetan ergueu um a sobrancelha.
— Fico surpreso que algum de vocês conheça a palavra, quanto m ais seu significado. — Abraçou-a. — Acho que não tem razões para se preocupar. Creio que a subserviência de Lucivar não passará do que é.
Jaenelle apoiou-se em Saetan e gem eu. Em seguida, em pertigou-se ligeiram ente.
— Bem , essa é um a das vantagens de ter constituído a corte. Pelo m enos dei a ele algo com que se ocupar e que o im pedirá de ficar sem pre no m eu cam inho e m e atorm entando.
Saetan estava prestes a responder, m as pensou m elhor. Ela tinha direito a algum as ilusões — sobretudo porque em breve iriam se desfazer.
Jaenelle bocej ou.
— Vou para dentro. Hoj e é m inha vez de contar as histórias de dorm ir. — Beij ou Saetan no rosto. — Boa noite, Papai.
— Boa noite, criança-feiticeira. — Aguardou que Jaenelle entrasse antes de com eçar a cam inhar em direção à ponta m ais afastada do j ardim .
— A garota j á se recolheu? — perguntou Andulvar, j untando-se a Saetan.
— Hoj e é a vez dela de contar a história de dorm ir e uivar em coro — respondeu Saetan.
— Vai ser um grande Rainha, SaDiablo.
— A m elhor que j á tivem os. — Cam inharam em silêncio durante alguns m inutos. — Algum sinal da vagabunda?
Andulvar balançou a cabeça.
— Há fortes indícios de que tem as garras bem enfiadas no Conselho das Trevas, m as não há sinais dela. Hekatah sem pre soube m uito bem fugir da sordidez depois de desencadeá-la. Ainda fico surpreso que tenha se deixado m atar na últim a guerra entre os Reinos. — Esfregou a nuca e suspirou. — Deve estar roída de invej a por saber que a garota detém o tipo de poder sobre um Reino que ela sem pre desej ou.
— Sim , deve m esm o. Por isso, fique alerta, está bem ?
— Devíam os avisar os rapazes antes de voltarem a seus Territórios, para que saibam o que procurar caso ela tente vir de outra direção.
— Concordo. Mas, se as Trevas forem bondosas, terem os algum tem po para que estes j ovens se am bientem antes de term os de lidar com outro plano de Hekatah.
— Se as Trevas forem bondosas. — Andulvar pigarreou. — Sei m uito bem por que você queria esperar e tam bém por quem tem esperado, Saetan. Mas Jaenelle j á é um a m ulher feita e agora é a Rainha. O triângulo deveria estar com pleto. Ela deveria ter um Consorte.
Saetan apoiou os braços no topo do m uro de pedra do j ardim . Um vento noturno e suave assobiava nos pinheiros além do j ardim .
— Ela j á tem um Consorte — disse, com calm a e firm eza. — Com o Prim eiro Acom panhante, Lucivar pode cum prir a m aior parte dos deveres de um Consorte e ser o terceiro lado do triângulo até... — A voz se extinguiu.
— Se isso algum dia vier a acontecer, SaDiablo — disse Andulvar, com afável severidade. — Até que alguém estej a usando o anel de Consorte, todo e qualquer m acho am bicioso do Reino... E não serão poucos os que vão aparecer diretam ente de Terreille... Tentará enfiar-se na cam a dela atrás de poder e prestígio. Ela precisa de um bom hom em , Saetan, não de um a lem brança. Precisa de um hom em forte, de carne e osso, que aqueça sua cam a à noite e goste dela.
Saetan olhava fixam ente para as terras além do j ardim .
— Ela j á tem um Consorte.
— Tem ? — Vendo que Saetan não respondia, Andulvar deu um tapinha no om bro do am igo e se afastou.
Saetan deixou-se ficar ali durante m uito tem po, ouvindo o cântico da brisa noturna.
— Ela j á tem um Consorte — sussurrou. — Não tem ?
A brisa noturna não respondeu.
6 / O Reino Distorcido
Ele escalou.
Naquele local, o terreno não era tão sinuoso nem tão íngrem e, m as os pequenos tufos de névoa que preenchiam as cavidades às vezes cobriam a trilha, dando-lhe a sensação inquietante de que nada havia abaixo dos j oelhos.
Com o passar do tem po, percebeu que aquele lugar era fam iliar, que j á explorara aqueles cam inhos antes, quando era forte e estava intacto. Havia entrado na zona lim ítrofe entre a sanidade e o Reino Distorcido.
Sentia no ar a suavidade do orvalho fresco. A luz era branca, com o se fosse de m anhã, bem cedo. Em algum lugar ali perto, pássaros piavam e gorj eavam , despertando o dia, e, ao longe, ouvia-se um a forte rebentação.
O cálice de cristal estava praticam ente intacto. Durante a longa escalada, os fragm entos tinham sido colocados no lugar, um a um . Faltavam algum as lascas, algum as m em órias. Um a em particular. Não se recordava do que havia feito na noite em que trouxeram Jaenelle ao Altar de Cassandra.
Ao passar por duas enorm es pedras erguidas com o sentinelas, um a de cada lado da trilha, a névoa com eçou a subir ao seu redor.
À sua frente, a água, os pássaros, o cheiro de terra fértil, o calor do sol — e a prom essa de que ela estaria à sua espera.
À sua frente, a sanidade.
Contudo, tam bém ali havia conhecim ento, sofrim ento. Podia senti-los.
Daemon.
Um a voz que reconhecia, m as não aquela que desej ava ouvir. Procurou nas m em órias até conseguir ligá-la a um nom e.
Manny. Falando com alguém sobre torradas e ovos.
Daemon.
Tam bém reconhecia aquela outra voz. Surreal.
Um a parte de si ansiava por um a conversa banal, pelas coisas sim ples com o torradas e ovos. Um a outra parte estava assustada.
Recuou um passo... e sentiu que um a porta se fechava de leve às suas costas.
As sentinelas de pedra tinham se tornado um a m uralha alta, sólida.
Apoiou-se nessa m uralha, trem endo.
Não havia com o voltar.
Daemon.
Reunindo os fragm entos de sua coragem , cam inhou em direção às vozes, em direção à prom essa.
Abandonou o reino Distorcido.