A Herdeira das Sombras
Prólogo
PRÓLOG O
Kaeleer
O Conselho das Trevas voltou a se reunir.
Andulvar Yaslana, dem ônio-m orto e Príncipe Ey rieno dos Senhores da Guerra, dobrou as asas negras e avaliou os outros m em bros do Conselho, sem gostar do que via. À exceção da Magistrada, que era obrigada a assistir, eram necessários apenas dois terços dos m em bros em cada sessão para que fossem ouvidas as petições ou j ulgadas as disputas entre os Sangue em Kaeleer que não houvessem sido resolvidas pelas Rainhas dos Territórios. Esta noite, todas as cadeiras estavam ocupadas, exceto aquela ao lado da de Andulvar.
Mas o ocupante da cadeira tam bém estava ali, aguardando pacientem ente a resposta do Conselho no círculo do peticionário. Era um hom em m oreno, de olhos dourados, com longos e densos cabelos negros, j á grisalhos nas têm poras. Ao vê-lo apoiado na elegante bengala de ponta prateada, alguém poderia pensar tratar-se de um belo m acho dos Sangue no final de seu apogeu. As longas unhas pintadas de preto e o anel com um a Joia Negra na m ão direita afirm avam o contrário.
A Prim eira Tribuna pigarreou baixinho.
— Príncipe Saetan Daem on SaDiablo, o senhor se apresenta neste Conselho para solicitar a tutela da m enor Jaenelle Angelline. Mas, contrariando o costum e num a disputa dos Sangue, não nos forneceu as inform ações necessárias para que contactássem os a fam ília da m enina, de m odo que esta pudesse falar em sua própria defesa.
— Eles não querem a criança — foi a resposta serena. — Eu quero.
— Tem os apenas a sua palavra a esse respeito, Senhor Suprem o.
Tolas, pensou Andulvar, observando o m ovim ento quase im perceptível do peito de Saetan.
A Prim eira Tribuna prosseguiu.
— O aspecto m ais inquietante desta petição é o fato de o senhor ser um Guardião, um m orto-vivo, e ainda assim pretender que coloquem os o bem -estar de um a criança viva em suas m ãos.
— Não é um a criança qualquer, Tribuna. É esta criança.
A Prim eira Tribuna m udou de posição na cadeira, aparentando desconforto. Varreu com os olhos os assentos dispostos em degraus em am bos os lados do am plo aposento.
— Devido às... circunstâncias... incom uns, a decisão terá de ser unânim e. Com preende?
— Com preendo, Tribuna. Com preendo m uito bem .
A Prim eira Tribuna voltou a pigarrear.
— Procederem os de im ediato à votação relativa à petição de Saetan Daem on SaDiablo solicitando a tutela da m enor Jaenelle Angelline. Quem vota contra?
Algum as m ãos se levantaram , e Andulvar estrem eceu diante do olhar estranho e vítreo nos olhos de Saetan.
Após a contagem dos votos, ninguém falou, ninguém se m oveu.
— Repitam a votação — disse Saetan, com um a afabilidade exagerada.
Não obtendo resposta da Prim eira Tribuna, a Segunda Tribuna tocou-lhe o braço. Em segundos, nada restava na cadeira da Prim eira Tribuna a não ser um m ontículo de cinzas e um a toga de seda preta.
Mãe Noite, pensou Andulvar ao ver a desintegração de tribuna após tribuna que havia se oposto. Mãe Noite.
— Repitam a votação — proferiu Saetan, exageradam ente delicado.
Dessa vez foi unânim e.
A Segunda Tribuna esfregou o peito com os dedos.
— Príncipe Saetan Daem on SaDiablo, o Conselho aqui reunido lhe outorga todos os direitos paternais...
— Parentais. Todos os direitos parentais.
— ...todos os direitos parentais relativos à m enor Jaenelle Angelline, a partir deste m om ento e até que ela alcance a m aioridade ao com pletar vinte anos.
Assim que Saetan fez um a reverência à Magistrada e iniciou a longa cam inhada pela sala, Andulvar se levantou e abriu as enorm es portas duplas ao fundo da câm ara do Conselho. Suspirou de alívio quando Saetan, apoiando-se na bengala de ponta prateada, passou por ele devagar.
Aquilo não tinha acabado por ali, pensou Andulvar ao fechar as portas e seguir Saetan. Da próxim a vez, o Conselho seria m ais sutil na oposição ao Senhor Suprem o, m as haveria um a próxim a vez.
Quando por fim saíram para o ar fresco da noite, Andulvar voltou-se para o am igo de longa data.
— Bem , ela agora é sua.
Saetan levantou o rosto para o céu noturno e fechou os olhos dourados.
— Sim , é m inha.