A Herdeira das Sombras
Capítulo Quatro
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
CAPÍTULO Q UATRO
1 / Inferno
–O filho da puta está tram ando algum a coisa. Posso sentir.
Decidindo que o m elhor era não dizer nada, Greer se recostou na cadeira rem endada, observando Hekatah, que andava de um lado para outro.
— Durante dois gloriosos anos ele quase nem foi sentido, quanto m ais visto, no Inferno ou em Kaeleer. Suas forças estavam dim inuindo. Sei que estavam . Agora, voltou e está m orando no Paço, em Kaeleer. Morando. Sabe há quanto tem po sua presença não era sentida num dos Reinos dos vivos?
— Há m il e setecentos anos? — respondeu Greer.
Hekatah parou e acenou afirm ativam ente com a cabeça.
— Mil e setecentos anos. Desde que Daem on Sadi e Lucivar Yaslana foram tirados dele. — Fechou os olhos dourados e deu um sorriso m alicioso. — Com o deve ter se lam entado quando Dorothea lhe negou a paternidade de Sadi na Cerim ônia de Direito por Progenitura. Mas não havia nada que ele pudesse fazer sem sacrificar sua valiosa honra. Por isso retirou-se com o um cão escorraçado, com o consolo de ainda ter um filho que as Viúvas Negras de Hay ll não poderiam lhe exigir. — Abriu os olhos e abraçou-se. — Mas Pry thian j á tinha ido até a m ãe do rapaz e contado a ela as m eias-verdades que se pode contar aos que nada sabem sobre os Guardiões. Foi um a das poucas coisas que aquela porca alada fez direito na vida. — O entusiasm o desapareceu. — Então por que ele está de volta?
— Será que... — ponderou Greer, m as balançou a cabeça.
Hekatah bateu com os dedos no queixo.
— Será que encontrou outra queridinha para substituir seu bichinho de estim ação? Ou terá finalm ente decidido transform ar Dhem lan em terreno de pastagem ? Ou será algum a outra coisa?
Cam inhou na direção de Greer, balançando os quadris e sorrindo de form a provocante, fazendo-o desej ar tê-la conhecido quando podia fazer m ais do que sim plesm ente apreciar o que aqueles m ovim entos insinuavam .
— Greer — sussurrou, enquanto colocava os braços em volta de seu pescoço e encostava os seios contra ele. — Quero que m e faça um pequeno favor.
Greer aguardou, desconfiado.
O sorriso provocante de Hekatah tornou-se am eaçador.
— Suas bolas m urcharam assim tão depressa, m eu querido?
Um brilho súbito de raiva cruzou o olhar de Greer, m as ele rapidam ente o ocultou.
— Quer que eu vá ao Paço em Kaeleer?
— E m e arriscar a perdê-lo? — Hekatah fez beicinho. — Não, m eu querido, não é necessário que entre naquele Paço sórdido. Tem os um aliado leal que vive em Halaway. É m aravilhoso quando se trata de recolher fragm entos preciosos de inform ação. Fale com ele. — Equilibrando-se nas pontas dos pés, beij ou Greer levem ente nos lábios. — Creio que vocês vão se dar bem . São farinha do m esm o saco.
2 / Kaeleer
Beale abriu a porta do escritório.
— Lady Sy lvia — anunciou, desviando-se respeitosam ente para dar passagem à Rainha de Halaway.
Saetan foi ao seu encontro no centro do escritório e estendeu-lhe as m ãos, com as palm as viradas para baixo.
— Senhora.
— Senhor Suprem o — respondeu ela, colocando as m ãos por baixo das dele, com as palm as para cim a num cum prim ento form al, deixando os pulsos expostos às unhas do Príncipe das Trevas.
Saetan m anteve a expressão neutra, m as aprovou a ligeira pressão que em purrava suas m ãos para cim a, a advertência sutil da força de um a Rainha. Algum as Rainhas ficavam profundam ente ressentidas por terem de viver sob o acordo que as Rainhas de Terreille e de Kaeleer tinham feito com ele m ilhares de anos antes, visando à proteção do Território de Dhem lan em Terreille contra a invasão de Hay ll. Sentiam -se profundam ente m elindradas por serem governadas por um m acho. Algum as nunca com preenderam que, à sua m aneira, ele servira sem pre a um a Rainha, servira sem pre à Feiticeira.
Felizm ente, Sy lvia não era um a delas.
Era a prim eira Rainha nascida em Halaway desde que sua bisavó tinha governado, e sem pre foi o orgulho do lugar. Um dia depois de constituir sua corte, fora até o Paço e, com um a delicadeza assertiva, inform ara a Saetan que, em bora existisse para servir o Paço, Halaway era seu território e os habitantes dali eram seu povo; caso Saetan precisasse deles, Sy lvia faria tudo para honrar o pedido — desde que fosse razoável.
Saetan agora lhe dirigia um sorriso afetuoso, em bora prudente, acom panhando-a até a área do escritório m obiliada para conversas m enos form ais.
Depois que ela se instalou na ponta de um a cadeira alm ofadada, ele se sentou no sofá de couro preto, colocando entre os dois a m esa de m adeira escura. Pegou o decantador de y arbarah, encheu um as das taças de vidro escurecido, aqueceu-a bem devagar sobre um a labareda de fogo encantado e em seguida ofereceu-a a Sy lvia.
Assim que Sy lvia aceitou a bebida, Saetan preparou um a taça para ele próprio, tentando não insultá-la rindo de sua expressão, a m esm a que a Rainha provavelm ente usaria ao receber de um de seus filhos um bicho grande e asqueroso, que só m esm o um rapazinho poderia achar encantador.
— É sangue de cordeiro — disse ele com calm a, recostando-se e cruzando as pernas.
— Ah. — Ela deu um leve sorriso. — É bom ?
Sua voz estava rouca devido ao nervosism o, reparou Saetan, divertido.
— Sim , é bom . Provavelm ente m ais do seu agrado do que o sangue hum ano que receava estar m isturado com o vinho.
Ela bebeu um gole, tentando desesperadam ente não se sentir nauseada.
— É um gosto que se vai adquirindo — disse Saetan, m aliciosam ente. Será que Jaenelle j á tinha provado vinho de sangue? Caso não, teria de corrigir em breve essa lacuna. — Você despertou m inha curiosidade. — Alterou a voz profunda, tornando-a aduladora e tranquilizadora. — Poucas Rainhas se disporiam a estar com igo à m eia-noite, m uito m enos solicitar um a audiência.
Sy lvia pousou o copo cuidadosam ente na m esa, para depois pôr as m ãos no colo, pressionando as pernas.
— Queria que fosse um encontro privado, Senhor Suprem o.
— Por quê?
Sy lvia um edeceu os lábios, respirou fundo e olhou-o nos olhos.
— Tem algum a coisa errada acontecendo em Halaway. Algum a coisa quase im perceptível. Posso sentir... — Franziu a testa e balançou a cabeça, verdadeiram ente perturbada.
Saetan queria estender a m ão e suavizar o vinco que surgiu entre as sobrancelhas de Sy lvia.
— O que você sente?
Sy lvia fechou os olhos.
— Gelo cobrindo o rio no auge do verão. A terra, im produtiva. As plantações definhando nos cam pos. O vento carrega um cheiro de m edo, m as não consigo localizar sua origem . — Abriu os olhos e sorriu, constrangida. — Peço desculpas, Senhor Suprem o. Meu últim o Consorte costum ava dizer que eu não faço sentido quando tento explicar algum a coisa.
— É m esm o? — respondeu Saetan, com m uita delicadeza. — Talvez fosse o Consorte errado, senhora. Porque eu a com preendo claram ente. — Esvaziou o copo e colocou-o na m esa com cuidado exagerado. — Quem , no seu povo, está m ais aflito?
Sy lvia respirou fundo.
— As crianças.
O escritório foi tom ado por um rosnado feroz. Só quando Sy lvia olhou de relance para a porta foi que Saetan percebeu que o som vinha dele próprio. Parou abruptam ente, m as a raiva doce e fria continuava ali. Respirando fundo, estrem eceu e afastou o ím peto assassino.
— Com licença. — Sem dar tem po a Sy lvia para arrum ar um a desculpa e ir em bora, saiu do escritório, m andou trazer petiscos e bebidas e em seguida peram bulou um bom tem po pelo salão principal, até conseguir controlar sua fúria. Quando voltou, Beale j á tinha levado o chá e um prato com pequenos e finos sanduíches.
Sy lvia recusou educadam ente os sanduíches e não tocou no chá que Saetan lhe serviu. A intranquilidade que dem onstrava perturbava Saetan. Fogo do Inferno, odiava aquela expressão nos olhos de um a m ulher.
Sy lvia um edeceu os lábios. Tinha a voz extrem am ente rouca.
— Sou sua Rainha. Isso é problem a m eu. Não deveria tê-lo incom odado com esse assunto.
Ele bateu com a taça e o pires na m esa, com tanta força que o pires se partiu ao m eio. Em seguida, criou um a distância entre os dois, o suficiente para que pudesse andar para trás e para a frente, sem se afastar m uito, para que ela não conseguisse chegar à porta antes dele.
Aquilo não deveria ter im portância. Ele deveria estar acostum ado. Se ela j á tivesse entrado no escritório tendo m edo dele, ainda poderia aceitar. Mas isso não tinha acontecido. Maldita fosse, ela não havia entrado com m edo.
Virou-se de repente, m antendo o sofá e a m esa entre os dois.
— Nunca prej udiquei você ou o seu povo — afirm ou rispidam ente. — Usei m inha força, m inha Arte, m inhas Joias e tam bém o m eu tem peram ento para proteger Dhem lan. Mesm o quando não estava visível, zelei por vocês. Há m uitos serviços, inclusive extrem am ente íntim os, que poderia ter solicitado a você ou a qualquer outra Rainha deste Território, e no entanto nunca fiz tais exigências. Aceitei as responsabilidades de governar Dhem lan e, m aldito sej a, nunca abusei da m inha posição ou do m eu poder.
A pele m orena de Sy lvia foi destituída de sua cor quente e saudável. Sua m ão trem ia enquanto levava a taça aos lábios para bebericar o chá. Ela pousou a taça, ergueu o queixo e endireitou os om bros.
— Conheci sua filha recentem ente. Perguntei a ela se achava com plicado conviver com seu tem peram ento difícil. Ela m e pareceu sinceram ente perplexa e disse: “Que tem peram ento difícil?”
Saetan fixou-a por alguns m om entos e sua fúria desapareceu. Esfregou a nuca e disse, com frieza:
— Jaenelle tem um a m aneira particular de entender m uitas coisas.
Antes que pudesse cham ar Beale, o bule, bem com o as xícaras usadas, desapareceram . Em seguida, surgiu na m esa um bule de chá recém -preparado, xícaras e pires lavados e um prato de bolos.
Saetan olhou para a porta com um ar inquisitivo antes de voltar para o sofá. Serviu outra taça de chá a Sy lvia e um a para si m esm o.
— Ele não as trouxe — disse Sy lvia baixinho.
— Eu reparei — respondeu Saetan, perguntando-se a que distância estaria o m ordom o da porta do escritório. Colocou um feitiço silenciador no aposento.
— Talvez tenha se sentido intim idado.
Saetan bufou.
— Nenhum hom em que tenha um casam ento feliz com a Sra. Beale fica intim idado por quem quer que sej a, nem m esm o por m im .
— Com preendo — Sy lvia pegou um sanduíche e deu um a m ordida.
Aliviado ao ver que a cor tinha voltado ao rosto de Sy lvia e que j á não se sentia assustada, Saetan pegou sua xícara e recostou-se.
— Vou descobrir o que está acontecendo em Halaway. E vou acabar com isso. — Bebericou o chá para disfarçar a hesitação. Mas precisava fazer a pergunta. — Quando com eçou?
Sy lvia lançou-lhe um olhar penetrante.
— Sua filha não é a causa, Senhor Suprem o. Estive com ela apenas por breves m om entos, certa tarde, quando passeava com Mikal, m eu filho m ais novo; apesar disso, sei que ela não é a causa. — Brincou com a xícara, novam ente nervosa. — Porém , pode ser a catalisadora. Talvez sej a m ais j usto dizer que foi sua presença que m e alertou para os fatos.
Saetan prendeu a respiração, na expectativa. Não fora fácil convencer Jaenelle a frequentar a escola de Halaway durante as últim as sem anas que antecediam o verão. Esperava que, ao se relacionar com outras crianças, seu interesse em retom ar contato com seus velhos am igos fosse despertado. Em vez disso, ela retraíra-se ainda m ais, tornara-se ainda m ais esquiva. E as elegantes perguntas de Lord Menzar a respeito da educação oficial de Jaenelle — ou sua inexistência — o haviam consternado, um a vez que, exceto pela Arte que tinha lhe ensinado, ele não fazia ideia de com o tinha sido a educação dela. Todos os dias desde que tinham chegado ao Paço, Saetan via os fios que tentava tecer entre si e Jaenelle se desfazendo tão depressa quanto os conseguia tecer, e não tinha nenhum a ideia, nenhum a pista de por que isso acontecia. Até agora.
— Por quê?
Sy lvia, absorta em seus pensam entos, olhou intrigada para Saetan.
— Por que ela seria a catalisadora? — repetiu Saetan.
— Ah. — O vinco entre as sobrancelhas de Sy lvia voltou a surgir enquanto se concentrava. — Ela é... diferente.
Não a ataque, repreendeu-se Saetan. Escute.
— Beron, m eu filho m ais velho, faz algum as aulas com ela, e tem os conversado. Não que sua casa sej a alvo de fofocas, m as Jaenelle o deixa intrigado, por isso ele vem m e fazer perguntas.
— Por que ela o intriga?
Sy lvia m ordeu o sanduíche, refletindo.
— Beron diz que ela é m uito tím ida, m as, quando alguém consegue fazê-la falar, diz coisas extraordinárias.
— Nisso eu acredito — disse Saetan, com frieza.
— Às vezes, quando está conversando com alguém ou respondendo a algum a pergunta feita durante as aulas, para no m eio da frase e inclina a cabeça, com o se estivesse escutando com atenção algo que m ais ninguém consegue ouvir. Às vezes, quando isso acontece, retom a a frase de onde a tinha interrom pido. Outras vezes, ela se distancia e não volta a falar pelo resto do dia.
Que vozes Jaenelle estaria escutando? Quem — ou o que — cham ava por ela?
— Às vezes, durante um intervalo, ela se afasta das outras crianças e só volta na m anhã seguinte — disse Sy lvia.
Ela não tinha voltado ao Paço, ou ele teria sabido. E não estava viaj ando pelos Ventos. Teria sentido sua ausência caso Jaenelle tivesse viaj ado para além da sim ples percepção. Mãe Noite, para onde ela ia? De volta para o abism o?
A possibilidade o deixava apavorado.
Sy lvia respirou fundo. Novam ente.
— Ontem , os alunos m ais velhos saíram num a excursão aos Jardins Marasten. Conhece?
— É um a grande propriedade j unto à fronteira entre Dhem lan e a Pequena Terreille. Possui alguns dos m ais belos j ardins de Dhem lan.
— Sim . — Sy lvia engoliu com dificuldade o últim o pedaço do sanduíche. Lim pou delicadam ente os dedos no guardanapo de linho. — De acordo com Beron, Jaenelle se separou do grupo, em bora ninguém tivesse percebido isso até a hora de ir em bora. Ele voltou para procurá-la e... encontrou-a aj oelhada j unto a um a árvore, chorando. Estava cavando e suas m ãos estavam cheias de arranhões e sangravam . — Sy lvia fixou o olhar no bule, com a respiração acelerada. — Beron aj udou-a a se levantar e lem brou a ela que não era perm itido desenterrar as plantas. Ao que ela respondeu: “Eu estava plantando.” Quando ele lhe perguntou a razão, ela disse: “Com o recordação.”
Saetan sentiu os m úsculos doloridos devido ao frio e seu sangue desacelerou. Este não era o frio agudo e purificador da raiva. Era m edo.
— Beron identificou a planta?
— Sim . No ano passado m ostrei essa planta a ele e expliquei-lhe o que era. Graças às Trevas, nenhum a delas cresce em Halaway. — Sy lvia olhou para Saetan, profundam ente perturbada. — Senhor Suprem o, ela estava plantando sangue-de-feiticeira.
Por que Jaenelle não havia lhe dito?
— Se o sangue-de-feiticeira desabrochar...
Sy lvia ficou apavorada.
— Não vai desabrochar a m enos que... Isso não pode acontecer!
Saetan falou com longas pausas, sentindo-se m uito fraco até para j untar as palavras.
— Investigarei esse assunto. Discretam ente. E tratarei do problem a em Halaway.
— Fico agradecida. — Sy lvia rem exeu nas pregas do vestido.
Saetan aguardou, forçando-se a ter paciência. Queria ficar sozinho, queria tem po para pensar. Entretanto, era evidente que Sy lvia tinha algum a outra coisa em m ente.
— O que foi?
— É bem trivial, em com paração.
— Mas...?
Com um olhar rápido, ela o exam inou da cabeça aos pés.
— O senhor tem m uito bom gosto para roupas, Senhor Suprem o.
Saetan coçou a testa, tentando entender o que aquilo tinha a ver com o que estavam falando.
— Obrigado.
Fogo do Inferno! Com o é que as m ulheres conseguiam m udar de assunto com tanta facilidade? E por que faziam isso?
— No entanto, não deve estar m uito por dentro do que está na m oda para um a j ovem garota hoj e em dia. — Não era bem um a pergunta.
— Se essa é sua form a de m e dizer que Jaenelle parece ter ido buscar suas roupas em um sótão, então tem razão. Acho que a Senescal da Fortaleza abriu todos os velhos baús que encontrou e deixou que m inha intratável filha escolhesse o que bem entendesse. — Era um assunto de m enor im portância, um assunto seguro. Saetan ficou alegrem ente rabugento. — Eu não m e im porto se essas roupas lhe servem ... Não é verdade, eu m e im porto. Jaenelle precisa de roupas novas.
— Então por que não a leva às com pras em Am darh ou em algum dos povoados m ais próxim os, até m esm o Halaway ?
— Acha que não tentei? — resm ungou.
Sy lvia não fez qualquer com entário durante vários m inutos.
— Tenho dois filhos. São bons rapazes, m as não um a com panhia m uito divertida para com pras. — Deu um sorriso fugaz. — Talvez se fossem apenas duas m ulheres saindo para alm oçar e depois indo dar um a volta...
Saetan invocou um a carteira de couro e entregou-a a Sy lvia.
— Isso basta?
Sy lvia abriu a carteira, rem exeu nos m arcos de ouro e riu.
— Creio que será possível m ontar um guarda-roupa razoável... ou três.
Saetan gostava de ouvi-la rir, gostava das rugas delicadam ente gravadas em volta dos seus olhos.
— É claro que irá gastar um a parte com você.
Sy lvia fitou-o com seu m elhor olhar de Rainha.
— Não fiz esta sugestão pensando em ser paga por aj udar um a j ovem Irm ã.
— Não era isso que eu tinha em m ente, m as se você se sente desconfortável em usar o dinheiro para seu próprio deleite, então use-o para m e agradar. — Observou a expressão de Sy lvia se converter de raiva em inquietação e perguntou-se quem teria sido o idiota que a tinha feito infeliz. — Além do m ais — acrescentou com delicadeza —, você deve dar o exem plo.
Sy lvia fez a carteira desaparecer e se levantou.
— É claro que lhe trarei todas as notas fiscais.
— É claro.
Saetan acom panhou-a até o salão principal. Pegando a capa que Beale segurava, colocou-a cuidadosam ente nos om bros de Sy lvia.
Enquanto cam inhavam até a porta, Sy lvia exam inou os entalhes nas cornij as de m adeira no topo cada parede.
— Só estive aqui um as seis vezes antes, se tanto, m as nunca tinha reparado nos entalhes. Quem quer que os tenha feito é m uito talentoso — disse. — Foi a m esm a pessoa que fez os croquis de todas estas criaturas?
— Não — disse Saetan. Percebeu que estava na defensiva e estrem eceu.
— Foi você que desenhou os croquis. — Sy lvia exam inou os entalhes com interesse redobrado, abafando um a risada. — Creio que o escultor se divertiu um pouco com um dos seus rascunhos, Senhor Suprem o. Aquela pequena besta tem os olhos tortos e a língua de fora — e está exatam ente no local onde alguém pararia depois de entrar. Ao que parece, ela não tem m uita consideração pelos seus convidados. — Fez um a pausa e estudou Saetan com o m esm o interesse com que exam inara os entalhes. — O escultor não se divertiu com seu croqui, não é?
Saetan sentiu um calor no rosto. Conteve um grunhido.
— Não.
— Com preendo — disse Sy lvia após um longo m om ento. — Foi um a noite interessante, Senhor Suprem o.
Sem saber m uito bem com o interpretar o com entário, ele a acom panhou até a carruagem , apressando-se um pouco m ais do que seria adequado.
Quando deixou de ouvir as rodas da carruagem , virou-se em direção à porta da frente, que estava aberta, e desej ou poder adiar a conversa que teria em seguida. Mas Jaenelle ficava m ais sintonizada com ele durante as horas de escuridão, m ais reveladora quando se abrigava nas som bras, m ais...
O som interrom peu seus pensam entos. Prendendo a respiração, Saetan olhou na direção dos bosques ao norte, que delim itavam os cam pos e os j ardins do Paço. Esperou, m as o som não se repetiu.
— Você ouviu isso? — perguntou a Beale quando chegou à porta.
— Ouvi o quê, Senhor Suprem o?
Saetan balançou a cabeça.
— Nada. Deve ter sido um cão do povoado que se afastou dem ais de casa.
Jaenelle ainda estava acordada, passeando pelos j ardins em baixo dos seus aposentos.
Saetan dirigiu-se à cascata d’água e ao pequeno lago no centro do j ardim , perm itindo que ela sentisse sua presença sem perturbar seu silêncio. Era um bom lugar para conversar, j á que as luzes dos seus aposentos no segundo andar não alcançavam o lago.
Instalou-se confortavelm ente à beira do lago, deixando que a tranquilidade de um a agradável noite antecipada de verão e o barulho da água o acalm assem . Enquanto aguardava por Jaenelle, brincava com os dedos na água, sorrindo.
Ele havia lhe dito para decorar este j ardim particular com o quisesse. A fonte convencional fora a prim eira a desaparecer. Ao observar as lótus, as algas e os pequenos j uncos no lago, assim com o as sam am baias em volta, perguntou-se novam ente se ela desej ava dar um aspecto m ais natural ao am biente ou se tentava recriar um local que conhecia.
— Você acha inadequado? — perguntou a voz vinda das som bras.
Saetan m ergulhou a m ão no lago e ergueu a palm a em concha, olhando para a água que escorria pelos dedos.
— Não, gostaria de ter pensado nisto eu m esm o. — Sacudiu as gotas de água dos dedos e olhou, por fim , para Jaenelle.
O vestido escuro que usava fundia-se na penum bra ao redor, dando a im pressão de que o rosto, o om bro desnudado e o cabelo louro em ergiam da própria noite.
Desviou o olhar, fixando um a lótus, em bora intensam ente consciente da presença de Jaenelle.
— Gosto do som da água cantando nas pedras — disse Jaenelle, aproxim ando-se um pouco m ais. — É relaxante.
Mas não o suficiente. Quantas são as coisas que a inquietam, criança-feiticeira?
Saetan escutou a água. Afinou a voz para que com binasse com esse som .
— Já plantou sangue-de-feiticeira antes?
Ela ficou em silêncio durante tanto tem po que Saetan pensou que j á não fosse responder. Porém , quando o fez, sua voz estava envolta naquela som bra sepulcral que sem pre lhe provocava um calafrio.
— Sim , j á plantei sangue-de-feiticeira antes.
Percebendo sua fragilidade, soube que estava chegando m uito perto de um a ferida da alm a — e de segredos.
— Ela irá desabrochar nos Jardins Marasten? — perguntou baixinho, voltando a m over os dedos pela água.
Outro silêncio prolongado.
— Sim .
O que significava que um a feiticeira que havia m orrido de form a violenta estava enterrada ali.
Cam inhando com delicadeza, ele se controlou. Estava em terreno perigoso. Olhou para Jaenelle, pois precisava ver o que lhe diriam aqueles olhos antigos e perturbados.
— Terem os de plantá-la em Halaway ?
Jaenelle virou o rosto. Seu perfil com binava ângulos e som bras, um rosto exótico esculpido em m árm ore.
— Não sei. — Manteve-se im óvel. — Confia nos seus instintos, Saetan?
— Sim . Mas confio ainda m ais nos seus.
Ela fez um a estranha expressão, que no entanto desapareceu com tal rapidez que Saetan não percebeu seu significado.
— Talvez não devesse. — Entrelaçou os dedos, apertando cada vez m ais forte, até surgirem pequenas gotas escuras de sangue onde as unhas penetraram a pele. — Quando eu m orava em Beldon Mor, estava o tem po todo... doente. Ficava hospitalizada durante sem anas, às vezes por vários m eses seguidos. — Acrescentou: — Não tinha nenhum a doença física, Senhor Suprem o.
Respire, maldição, respire. Não fique sem reação agora.
— E por que nunca falou disso antes?
Jaenelle riu suavem ente. A am argura que revelava o dilacerou.
— Tinha m edo de que não quisesse ser m eu am igo. Tem ia que, se você soubesse, não voltasse a m e ensinar Arte. — Falou num tom de voz baixo e sofrido. — E tinha m edo de que fosse m ais um a das m anifestações da doença, com o os unicórnios e os dragões e... os outros.
Saetan reprim iu a dor, o m edo, a raiva. Não havia com o expressar esses sentim entos num a noite tão tranquila.
— Não faço parte de um a paisagem onírica, criança-feiticeira. Segure a m inha m ão e a carne tocará carne. O Reino das Som bras, bem com o todos os seus habitantes, são reais. — Os olhos de Jaenelle se encheram de lágrim as, m as Saetan não sabia se eram de dor ou de alívio. Durante a perm anência em Beldon Mor, os instintos de Jaenelle haviam sido brutalizados a ponto de ela j á não m ais confiar neles. Havia reconhecido o perigo em Halaway m uito antes de Sy lvia, m as duvidara de si própria de tal form a que fora incapaz de adm iti-lo — no caso de alguém lhe dizer que estava im aginando coisas.
— Jaenelle — disse suavem ente —, não tom arei nenhum a providência antes de verificar o que você m e disser, m as, por favor, em nom e dos que são m uito j ovens para se proteger, diga-m e o que for possível.
Jaenelle se afastou, cabisbaixa, com o cabelo louro cobrindo o rosto com o um véu. Saetan se virou, dando-lhe privacidade sem , de fato, deixá-la sozinha. As pedras sobre as quais estava sentado tinham se tornado frias e duras. Rangeu os dentes devido ao desconforto físico, sabendo instintivam ente que caso se m ovesse ela não conseguiria encontrar as palavras necessárias.
— Conhece um a feiticeira cham ada Sacerdotisa das Trevas? — sussurrou Jaenelle das som bras próxim as.
Saetan cerrou os dentes, m antendo, no entanto, a voz baixa e calm a.
— Sim .
— Lord Menzar tam bém .
Saetan fixou o vazio e pressionou as m ãos contra as pedras, deleitando-se com a dor provocada pelas arestas ásperas. Não se m oveu, não fez nada a não ser respirar, até ouvir Jaenelle subindo as escadas que levavam à varanda externa dos seus aposentos e ouvir o som da porta de vidro se fechando. Perm aneceu im óvel, erguendo som ente os olhos dourados para observar as luzes apagando-se um a a um a.
A últim a luz no quarto de Jaenelle se apagou.
Sentado sob o céu noturno, escutava a água cantando nas pedras.
— Jogos e m entiras — m urm urou. — Ora, eu tam bém sei j ogar. Você não deveria ter se esquecido disso, Hekatah. Não gosto deles, m as você subiu m uito as apostas. — Sorriu, em bora fosse um sorriso m uito afável, m uito dócil. — Além disso, sou paciente. Mas há de chegar o dia em que terei um a conversa com os insensatos parentes de Jaenelle, em Chaillot, e, nesse m om ento, será sangue e não água cantando nas pedras de um j ardim ... extrem am ente... privado.
— Tranque a porta.
Relutante, Mephis SaDiablo girou a chave na porta do escritório privado de Saetan SaDiablo m uito abaixo do Paço, o local escolhido pelo Senhor Suprem o para conversas que exigiam extrem a privacidade. Precisou de alguns m om entos para se lem brar de que não tinha feito nada de errado, de que o hom em que o tinha m andado cham ar era o seu pai, bem com o o Príncipe dos Senhores da Guerra que servia.
— Príncipe SaDiablo.
Foi atraído pela voz profunda do hom em sentado atrás da m esa.
Era um rosto terrível aquele que o contem plava do outro lado do escritório, estático, im passível, contido. O cabelo espesso e negro de Saetan, j á grisalho, form ava dois graciosos triângulos nas têm poras, atraindo o olhar para os olhos dourados. Eram esses olhos que ardiam com um a em oção de tal intensidade que palavras com o “ódio” ou “raiva” não seriam adequadas. Havia apenas um a m aneira de descrever o Senhor Suprem o do Inferno: frio.
Séculos de preparação aj udaram Mephis a dar os últim os passos. Séculos e m em órias. Quando era garoto, tinha m edo de provocar o tem peram ento ruim do pai, em bora nunca tivesse tem ido o hom em . Era o hom em que cantara para ele, que rira com ele, que ouvira com seriedade seus problem as infantis, que o respeitara. Só quando cresceu conseguiu com preender as razões pelas quais o Senhor Suprem o deveria ser tem ido — e só passados m uitos anos conseguiu avaliar quando deveria ser tem ido.
Com o naquele m om ento.
— Sente-se. — A voz de Saetan trazia aquele tom de repreensão que costum ava ser a últim a coisa que um hom em j am ais ouviria, à exceção dos próprios gritos.
Mephis tentou se aj eitar confortavelm ente na cadeira. A grande m esa de m adeira escura que os separava não lhe servia de consolo. Saetan não precisava tocar em um hom em para aniquilá-lo.
Nos olhos de Saetan cintilou um a breve irritação.
— Tom e um copo de y arbarah. — O decantador ergueu-se da m esa, servindo habilm ente o vinho de sangue em dois copos. Duas labaredas de fogo encantado surgiram do nada. Os copos inclinaram -se, subiram e com eçaram a girar lentam ente sobre as cham as. Já aquecido, um dos copos flutuou até Mephis, enquanto o outro se encaixou na m ão de Saetan. — Relaxe, Mephis. Preciso dos seus talentos, nada m ais.
Mephis tom ou um gole do y arbarah.
— Dos m eus talentos, Senhor Suprem o?
Saetan sorriu. Isso o tornava cruel.
— Você é m eticuloso, perfeccionista e, acim a de tudo, confio em você. — Fez um a pausa. — Quero que descubra tudo o que puder sobre Lord Menzar, o diretor da escola de Halaway.
— Devo procurar algum a coisa em especial?
O escritório esfriou ainda m ais.
— Deixe que os instintos o guiem . — Saetan cerrou os dentes e com pletou, com rispidez. — Que isto fique entre nós, Mephis. Não quero ninguém fazendo perguntas sobre o que você busca.
Mephis esteve a ponto de perguntar quem se atreveria a questionar o Senhor Suprem o, m as a verdade é que j á sabia a resposta. Hekatah. Aquilo tinha a ver com Hekatah.
Mephis esvaziou o copo e pousou-o cuidadosam ente na m esa de m adeira escura.
— Se é assim , com sua perm issão, gostaria de com eçar agora m esm o.
3 / Kaeleer
Luthvian encolheu os om bros diante da introm issão e bateu energicam ente o pilão no alm ofariz, ignorando a garota que rondava a soleira da porta. Se não parassem de im portuná-la com perguntas im becis, j am ais conseguiria term inar aqueles tônicos.
— Já term inou a lição de Arte? — perguntou Luthvian sem se virar.
— Ainda não, senhora, m as...
— Então por que está incom odando? — disse Luthvian, ríspido, largando o pilão no alm ofariz antes de se dirigir à garota.
A m enina se encolheu, parecendo no entanto m ais confusa que assustada.
— Tem um hom em ali querendo ver você.
Fogo do Inferno, até parecia que a garota nunca tinha visto um hom em .
— Ele está sangrando até a m orte?
— Não, senhora, m as...
— Então leve-o para a sala de tratam ento enquanto term ino isto.
— Ele não veio para ser curado, senhora.
Luthvian rangeu os dentes. Era Viúva Negra ey riena e Curandeira. Feria-lhe o orgulho ter de ensinar Arte àquelas garotas de Rihlan. Se ainda vivesse em Terreille, seriam suas serviçais e não alunas. É claro que, se ainda vivesse em Terreille, estaria trocando suas aptidões de Curandeira por um coelho velho ou um pedaço de pão seco.
— Se não está aqui para...
Estrem eceu. Se não tivesse fechado firm em ente suas barreiras interiores para não deixar entrarem os sentim entos de frustração de suas alunas, ela o teria sentido no preciso m om ento em que entrou naquela casa. O odor negro era inconfundível.
Luthvian esforçou-se para m anter a voz firm e e despreocupada.
— Diga ao Senhor Suprem o que m e j untarei a ele em seguida.
A garota arregalou os olhos. Correu pelo corredor, pegou um a am iga pelo braço e com eçou a sussurar, agitada.
Luthvian fechou devagar a porta do escritório. Soltou um a gargalhada queixosa, enfiando as m ãos trêm ulas nos bolsos do avental. Aquela ovelhinha de duas pernas vibrava de entusiasm o diante da perspectiva de declam ar cortesias ensaiadas ao Senhor Suprem o do Inferno. Tam bém Luthvian vibrava, m as a razão era bem diferente.
Oh, Tersa, na sua loucura você talvez não soubesse ou não se importasse de quem era a lança embainhada em você. Eu era jovem e estava assustada, mas não louca. Ele fez o meu corpo cantar, e pensei... pensei...
Passados tantos séculos, a verdade ainda lhe deixava um gosto am argo na boca.
Luthvian tirou o avental e alisou os vincos do velho vestido o m elhor que pôde. Um a feiticeira dom éstica conheceria um pequeno feitiço para fazê-lo parecer bem engom ado. Um a feiticeira versada em serviços pessoais conheceria um pequeno feitiço para alisar e em seguida entrançar os longos cabelos pretos em apenas alguns segundos. Esse não era o seu caso, e não era digno de um a Curandeira aprender um a Arte tão trivial. Não era digno de um a Viúva Negra se im portar com a aprovação de um hom em — quem quer que fosse ele — à sua indum entária.
Depois de fechar o escritório e fazer a chave desaparecer, Luthvian endireitou os om bros e ergueu o queixo. Só havia um a form a de saber por que estava ali.
Ao percorrer o corredor principal que dividia o andar m ais baixo da casa, Luthvian m anteve o passo lento e digno, com o convinha a um a Irm ã da Am pulheta. O escritório, a sala de tratam ento, a sala de j antar, a cozinha e os depósitos ficavam na parte dos fundos. Na parte da frente ficavam a sala dos alunos, a sala de estudos, a biblioteca de Arte e a sala de estar. No segundo andar estavam os banheiros e os quartos das alunas. O terceiro andar era ocupado pelos seus aposentos e por um quarto m enor para convidados especiais.
Não tinha em pregados residentes. Doun ficava ali perto, por isso os criados voltavam para casa todas as noites, para suas fam ílias.
Luthvian se deteve, ainda não preparada para abrir a porta da sala de estar. Era um a exilada ey riena entre rihlanianos — um a ey riena nascida sem as asas que seriam o testem unho silencioso de que descendia da raça guerreira que dom inava as m ontanhas. Por isso, era ríspida e seca, não perm itindo que os rihlanianos tom assem liberdades excessivas. No entanto, isso não queria dizer que pretendesse partir, que não sentisse satisfação com seu trabalho. Gostava da deferência com que era tratada, um a vez que era um a excelente Curandeira e um a Viúva Negra. Era influente em Doun.
Porém , a casa não lhe pertencia, e o terreno, com o todos os terrenos em Ebon Rih, era de propriedade da Fortaleza. A casa havia sido construída especificam ente para ela, de acordo com suas condições, o que não significava que o proprietário não pudesse lhe botar na rua quando quisesse.
Seria por isso que estaria aqui, para cobrar a dívida e recuperar o investim ento?
Respirando fundo, Luthvian abriu a porta da sala de estar, em bora não estivesse com pletam ente preparada para receber o antigo am ante.
Ele estava rodeado pelas alunas, que davam risadinhas, flertavam e pestanej avam . Não parecia aborrecido nem desesperado para se ver livre delas, nem sequer envaidecido com o um j ovem m acho diante de tanta e tão genuína atenção fem inina. Era com o sem pre havia sido, um ouvinte educado, que não interrom peria um falatório trivial a m enos que fosse absolutam ente necessário, um hom em que sabia expressar um a rej eição.
E ela se lem brava bem com o ele sabia fazer isso.
Foi nesse m om ento que ele a viu. Não havia raiva nos seus olhos dourados, e tam pouco surgiu em seu rosto um sorriso afetuoso de saudação. E o que isso transm itiu a Luthvian foi o suficiente. Qualquer que fosse o assunto que tivesse a tratar com ela, era de foro particular, em bora não fosse pessoal.
Isso a enfureceu, e um a Viúva Negra com um acesso de raiva não era um a m ulher para brincadeiras. Saetan observou a alteração na disposição de Luthvian e levantou ligeiram ente um a das sobrancelhas em reconhecim ento, interrom pendo, por fim , a tagarelice das m eninas.
— Minhas senhoras — disse, com a voz profunda e carinhosa —, agradeço por tornarem a m inha espera tão agradável, porém não devo m antê-las afastadas dos seus estudos. — Sem levantar a voz, conseguiu silenciar os protestos vigorosos. — Além do m ais, o tem po de Lady Luthvian é precioso.
Luthvian se afastou da porta, deixando-as passar em debandada. Roxie, a aluna m ais velha, parou na entrada da porta, olhou por cim a do om bro e piscou para o Senhor Suprem o.
Luthvian fechou a porta na sua cara.
Esperou que Saetan se aproxim asse com o respeito cauteloso que um m acho que serve à Am pulheta deve apresentar ao se aproxim ar de um a Viúva Negra. Quando percebeu que ele não se m ovia, corou diante da lem brança silenciosa de que Saetan não servia à Am pulheta. Era além de tudo Sacerdote Suprem o, um a Viúva Negra de categoria superior à sua.
Movim entou-se com um a indiferença intencional, com o se aproxim ar-se dele não tivesse grande im portância, m as ao parar deixou m etade do espaço do aposento entre os dois. Já era próxim o o bastante.
— Com o foi capaz de suportar tanta conversa fiada?
— Achei interessante... e m uito educativo — acrescentou com frieza.
— Ah — exclam ou Luthvian. — Roxie deve ter contado sobre sua Noite da Virgem , não? Mas em qual versão, a de bom gosto ou a pitoresca? Ela é a m ais velha aqui, a única que alcançou a idade para realizar a cerim ônia, por isso está sem pre se enchendo de ares e dizendo às outras que anda m uito cansada para as aulas da m anhã, pois seu am ante é m uuuito exigente.
— Ela é m uito j ovem — disse Saetan calm am ente — e...
— Ela é vulgar — disse Luthvian com rispidez.
— ... as j ovens podem ser tolas.
Os olhos de Luthvian arderam . Não choraria na frente dele. Outra vez, não.
— Foi isso que pensou de m im ?
— Não — disse Saetan, delicado. — Você era um a Viúva Negra natural, guiada pela necessidade ardente de expressar a Arte e, m ais intensam ente ainda, pela necessidade de sobrevivência. Não era nada tola.
— Fui tola o bastante para confiar em você!
Os olhos dourados de Saetan se m antiveram inexpressivos.
— Eu lhe disse quem era e o que era antes de ir para a cam a com você. Meu papel era o de consorte experiente, acom panhando um a j ovem feiticeira na sua Noite da Virgem para que, quando acordasse na m anhã seguinte, a única coisa que tivesse rasgada fosse um a m em brana — e não sua m ente, suas Joias ou seu espírito. Foi um papel que desem penhei várias vezes antes, quando governava o Território Dhem lan em am bos os Reinos. Eu com preendia e honrei as regras dessa cerim ônia.
Luthvian agarrou um a j arra e lançou-a na direção da cabeça de Saetan, gritando:
— E engravidá-la fazia parte dessas regras?
Saetan segurou a j arra com facilidade e em seguida abriu a m ão, deixando que ela se espatifasse no chão. Dos seus olhos saíam faíscas, e sua voz enrouqueceu.
— Sinceram ente, eu não sabia que ainda era fértil. Não esperava que o efeito do feitiço fosse tão prolongado. E desculpe a m em ória de um velho hom em , m as lem bro-m e claram ente de lhe perguntar se tinha tom ado a infusão encantada para evitar a gravidez e de você responder que sim .
— O que queria que eu respondesse? — berrou Luthvian. — O risco de ser destruída pelos carniceiros de Dorothea aum entava a cada m om ento. Você era m inha única chance de sobreviver. Eu sabia que estava perto do período fértil, m as tinha de arriscar!
Saetan perm aneceu im óvel e calado durante m uito tem po.
— Você sabia que era arriscado, que nada tinha feito para prevenir a gravidez, m entiu quando perguntei e ainda se atreve a me culpar?
— Não é por isso que o culpo — gritou —, m as pelo que aconteceu depois. — Os olhos de Saetan evidenciavam incom preensão. — Você só se im portava com o bebê. Já não q-queria estar c-com igo.
Saetan suspirou e cam inhou até a j anela, fixando o olhar no m uro baixo de pedra que circundava a propriedade.
— Luthvian — disse penosam ente —, o hom em que orienta um a feiticeira na Noite da Virgem não está destinado a ser seu am ante. Isso só acontece quando j á existe previam ente um a forte ligação entre os dois, quando j á são am antes em todos os aspectos, m enos o físico. A m aior parte das vezes...
— Não precisa citar as regras, Senhor Suprem o — interrom peu Luthvian com rispidez.
— ... depois de deixar a cam a, ele pode se tornar um am igo querido ou nada além de um a agradável m em ória. Ele se preocupa com ela, porque assim tem de ser para m antê-la a salvo, m as pode haver um a grande diferença entre se preocupar e am ar. — Olhou por cim a do om bro. — Eu m e preocupava com você, Luthvian. Dei a você o que podia. Mas não foi suficiente.
Luthvian se abraçou, perguntando-se se algum a vez teria deixado de sentir aquela am argura e desilusão.