A Herdeira das Sombras

Anne Bishop · Capítulo 12 de 22

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A Herdeira das Sombras

Capítulo Oito

 

1 / Kaeleer

Tudo com eçou a dar errado no m om ento em que dois m em bros do Conselho das Trevas entraram pela porta principal, olharam em volta e estrem eceram .

O Paço dos SaDiablo era um a enorm e construção cinza-escura que se assom ava sobre o terreno e lançava um a extensa som bra. Sua im ponência fora planej ada, m as não a presença de um m ordom o de Joia Verm elha e rosto inflexível que aterrorizava as visitas antes m esm o de atravessarem a soleira da porta. Quanto ao frio que pairava no ar... Helene tinha dito a ele, com um a rígida cortesia, o que achava de o Conselho das Trevas se introm eter e bisbilhotar nos seus dom ínios, e todos os criados haviam passado o dia fugindo da cozinha e da Sra. Beale.

As casas de Joias Escuras sem pre tiveram criados dos Sangue, m as quando todas as feiticeiras da casa decidem m anifestar seu desagrado, a expressão “tratam ento frio” adquire um novo significado.

— Boa tarde — disse Saetan, avançando para cum prim entar os dois hom ens.

O m ais velho fez um a reverência.

— Agradecem os por nos receber, Senhor Suprem o. Eu sou Lord Magstrom , e este é Lord Friall.

Saetan gostou de Lord Magstrom . Um hom em nos seus últim os anos, com um rosto bondoso, cabelos brancos e olhos azuis que provavelm ente cintilavam na m aior parte do tem po. Esses olhos m ostravam agora seriedade, em bora não indicassem condenação. Lord Magstrom , pelo m enos, basearia sua decisão na própria honra e integridade.

Lord Friall, por outro lado, j á tinha tom ado um a decisão. Com um aspecto m agro, provocado pelo excesso de gel e acessórios, não parava de olhar em volta com um ar de repugnância enquanto batia levem ente nos lábios com um lenço rendado perfum ado.

Saetan conduziu-os à sala de visitas form al, à direita do salão principal. Era um a sala am pla, m as a m obília estava arrum ada de m odo que altas divisórias pintadas pudessem ser trazidas para dividi-la, o que lhe dava um aspecto aconchegante. As paredes de gesso estavam pintadas de m arfim . Todos os quadros eram aquarelas tranquilas. A m obília era escura, em bora não fosse pesada, e estava disposta de form a confortável sobre tapetes de Dharo de padrões discretos. Num a m esa j unto às j anelas, havia um ram o de flores frescas. Saetan observou Lord Magstrom percorrendo a sala com os olhos, de form a diplom ática, e percebeu que o hom em estava tão satisfeito com a decoração de bom gosto quanto ele próprio.

— É um a sala encantadora, Senhor Suprem o — disse Lord Magstrom , aceitando o lugar que lhe foi oferecido. — É usada com frequência?

Saetan enfiou as m ãos nos bolsos do suéter de lã.

— Não — disse, após um breve, em bora perceptível, m om ento de hesitação. — Não recebem os m uitas visitas form ais. — Virou-se ao perceber um m ovim ento à porta. — Ah, Beale.

O m ordom o estava parado na entrada da sala, de m ãos vazias.

Saetan franziu a sobrancelha.

— Pode servir algum a coisa aos nossos convidados?

— Cuidarei disso, Senhor Suprem o. — Beale fez um a reverência e retirou-se, deixando a porta aberta.

Saetan sentiu-se tentado a fechar a porta, m as não fez isso. Não era necessário forçar Beale a se rebaixar, tendo que escutar pelo buraco da fechadura.

— Viem os num horário inconveniente? — perguntou Lord Friall, lançando um olhar significativo para as roupas descontraídas de Saetan, enquanto continuava a bater com o lenço perfum ado nos lábios.

O perfume não vai ajudar a melhorar aquilo que o está incomodando, Lord Friall, pensou Saetan friam ente. Meu odor psíquico se infiltra até mesmo nas pedras do Paço. Saetan olhou de relance para a cam isa branca de algodão desabotoada o suficiente para não ocultar por inteiro a Joia Negra em volta do pescoço, para as calças pretas de algodão que j á estavam am arrotadas e para o suéter de lã.

— Im agino que esperassem um a reunião m ais form al. Mas com o parece que o Conselho queria conhecer nosso m odo de vida habitual, essas duas pretensões não eram com patíveis.

— Certam ente... — com eçou Friall, sendo interrom pido por Beale, que entrava com um a bandej a.

Saetan observou a bandej a. Era parcim oniosa em relação aos padrões habituais da Sra. Beale. Tinha m uitos sanduíches, m as nenhum bolinho de avelã ou tortas de especiarias.

— Será que a Sra. Beale poderia...

Beale pousou a bandej a na m esa com um ruído quase inaudível.

— Não — corrigiu-se Saetan insipidam ente —, acho que não. — Serviu o café e ofereceu os sanduíches, tentando ignorar o brilho nos olhos de Lord Magstrom . Instalando-se num a da pontas do sofá, de onde podia vigiar a porta, sorriu para Lord Friall, perguntando-se se seus dentes cerrados sobreviveriam àquela tarde. — O que você dizia?

— Claro...

A porta da frente fechou-se com um estrondo.

Detectando o odor psíquico e as correntes subterrâneas em ocionais, Saetan m urm urou um a ordem severa, conform ando-se com a catástrofe.

Passado um m om ento, Karla espreitou j unto à porta.

— Beij os — disse, esforçando-se para parecer inocente.

Com o j á havia enfrentado vários feitiços da assem bleia que tinham dado errado, Karla tentando parecer inocente era algo que o assustava bastante. No entanto, com algum a sorte, talvez nunca viesse a saber o que ela estava arquitetando.

Karla apontou para o teto.

— Estou atrasada para a aula de artes.

Saetan gem eu baixinho e esfregou as têm poras. Não tinha se lem brado de dizer a Duj ae que não viesse hoj e?

— Peça para Jaenelle descer, por favor. Estes senhores desej am vê-la.

Os gélidos olhos azuis perscrutaram Magstrom e Friall.

— Por quê? — Apontou com o queixo para Lord Magstrom . — O Vovô parece inofensivo, m as por que ela iria querer falar com aquele idiota?

Friall cuspiu o café.

Lord Magstrom ergueu a xícara para esconder o sorriso.

Saetan tinha certeza de que m etade dos seus dentes iria se estilhaçar.

— Agora.

— Ah, está bem . Beij os — disse Karla e foi em bora.

— Lady Karla é am iga de sua tutelada? — perguntou Lord Magstrom calm am ente.

— Sim — os lábios de Saetan se contrairam . — Ela e outros am igos de Jaenelle estão passando o verão aqui... se eu conseguir sobreviver.

Lord Magstrom pestanej ou.

— É um a vadiazinha — cuspiu Friall, dando batidinhas nos lábios com o lenço. — Não deve ser um a com panhia adequada para a m enina.

— Karla é Rainha e Viúva Negra natural — disse Saetan com frieza —, assim com o Curandeira. É um a j ovem exuberante e adm irável. Tal com o m inha filha.

Reparou no olhar estático de Lord Magstrom . O Conselho não teria verificado o registro na Fortaleza? Assim que Jaenelle voltara, ele próprio e Geoffrey prepararam seu registro. Concordaram em não incluir nele o Território — ou o Reino — onde nascera ou qualquer coisa que pudesse ligá-la à fam ília em Chaillot, m as registraram sua Joia de Direito por Progenitura com o Negra. O Conselho não saberia com quem e com o que estava lidando? Ou a Magistrada teria optado por nada revelar a estes hom ens?

Lord Magstrom aceitou outra xícara de café.

— Sua... filha... é Rainha Viúva Negra? E Curandeira?

— Sim — respondeu Saetan. — O Conselho não m encionou esses fatos?

Lord Magstrom parecia incom odado.

— Não, não fez nenhum a referência. Talvez...

Um forte grito de m ulher sobressaltou os três hom ens. Enquanto Lord Magstrom tentava lim par o café derram ado, m urm urando pedidos de desculpas, um j ovem lobo saltou para a sala de visitas. Desviando-se do hum ano aos gritos, pulou para trás do sofá, surgiu do outro lado e, por fim , veio se encostar nas pernas de Saetan, com a cabeça e um a das patas no colo e um a expressão de súplica nos olhos.

Saetan lem brou que, com parada à m aior parte dos dias, aquela era um a tarde calm a. Afagou a cabeça do j ovem lobo e suspirou.

— O que foi que você fez desta vez?

— Eu digo o que fez. — Um a m ulher com o rosto averm elhado apareceu à soleira da sala de visitas.

Friall choram ingou.

O lobo ganiu.

Lord Magstrom olhava boquiaberto.

Mãe Noite, Mãe Noite, Mãe Noite.

— Ah, Sra. Beale — disse Saetan calm am ente, enquanto enfiava um a palm a da m ão úm ida no pelo do lobo.

A Sra. Beale não era gorda. Era apenas... volumosa. E não precisava da Arte para erguer um saco de farinha de vinte quilos com um a única m ão.

A Sra. Beale apontou o dedo para o lobo.

— Esse aquecedor de m ãos am bulante acabou de com er os frangos que eu estava preparando para o j antar de hoj e.

Saetan olhou para o lobo.

— Aquecedor m alvado — disse placidam ente.

O lobo ganiu, a ponta do rabo varrendo o chão.

Saetan suspirou e prestou atenção novam ente na m ulher irritada.

— Se não der m ais tem po para preparar outros dos nossos, que tal m andar alguém ao açougue em Halaway ?

A Sra. Beale ficou ainda m ais irritada, e disse, num a voz que fez sacudir as j anelas:

— Aqueles frangos estavam m arinando no m eu m olho especial de vinho de am eixa desde ontem à noite.

— Deviam estar saborosos — m urm urou Saetan.

O lobo lam beu os beiços e ladrou baixinho.

A Sra. Beale rosnou.

— E se for um a carne diferente? — sugeriu Saetan. — Tenho certeza de que o nosso j ovem am igo poderia encontrar uns coelhos.

— Coelhos? — A Sra. Beale gesticulou, desferindo golpes no ar em várias direções. — E devo rechear coelhos com m eu recheio de nozes e arroz?

— Não, claro que não. Que bobagem a m inha. Um guisado, quem sabe? Reparei que sem ana passada Jaenelle e Karla repetiram o guisado.

— Tam bém reparei que as tigelas voltaram vazias — resm ungou a Sra. Beale. Apontou para o lobo. — Dois coelhos. E que não sej am m agricelas. — Deu m eia-volta e foi em bora num passo pesado.

Lord Magstrom suspirou ruidosam ente.

Lord Friall tropeçou na cadeira.

Saetan im aginou se ainda teria os ossos das pernas. Aquela estava virando um a tarde norm al, afinal de contas. Acariciou o lobo atrás das orelhas.

— Entendeu? — Levantou dois dedos. — Dois coelhinhos rechonchudos para a Sra. Beale. Tarl disse que há m uitos engordando na horta. — Afagou-o um a últim a vez. — Vá lá.

Depois de encostar o focinho na m ão de Saetan, o lobo saiu da sala.

— Você perm ite que um a m ulher dessas trabalhe aqui, com crianças na casa? — cuspiu Friall. — E tem um lobo com o anim al de estim ação?

— A Sra. Beale é um a excelente cozinheira — respondeu Saetan, com calm a. Além disso, acrescentou em silêncio, quem teria coragem de despedi-la? — E o lobo não é um anim al de estim ação. É nosso parente. Vivem conosco vários deles. Outro sanduíche, Lord Magstrom ?

Parecendo um pouco aturdido, Lord Magstrom pegou outro sanduíche, com olhar fixo e colocou no seu prato.

— O que está acontecendo? — perguntou Jaenelle. Sorrindo educadam ente para Magstrom e Friall, sentou-se ao lado de Saetan, no sofá.

— O j antar vai ser guisado de coelho em vez de frango.

— Ah. Agora entendo a Sra. Beale. — Seus lábios se crisparam . — Acho que preciso explicar a territorialidade dos hum anos aos lobos para evitar outros problem as.

— Pelo m enos, o território da Sra. Beale — disse Saetan, sorrindo para a filha de cabelo louro, ciente de que, por estar sentada tão próxim o dele, poderia dar m argem a interpretações equivocadas.

— É esse o seu vestuário habitual, Lady Angelline? — questionou Lord Friall, voltando às batidinhas nos lábios com o lenço.

Jaenelle olhou para as calças largas que tinha com prado de um dos j ardineiros e para a cam isa de seda branca que Saetan, involuntariam ente, havia doado ao seu guarda-roupa. Pegou um a trança solta e exam inou as penas, conchas e pequenas corolas que pendiam das fitas de couro entrelaçadas em seu cabelo. Em seguida, dirigiu o olhar a Friall.

— Às vezes — disse, seca. — E você, sem pre se veste dessa form a?

— Mas é claro — respondeu Friall, altivo.

— Por quê?

Friall olhou para ela, atônito.

*Lembre-se da frágil sensibilidade deles, criança-feiticeira.*

*Que se danem as frágeis sensibilidades.*

Saetan estrem eceu. O estado de espírito de Jaenelle havia m udado.

Colocou o braço em volta dos om bros dela.

— Lord Magstrom gostaria de lhe fazer algum as perguntas. — Com algum a sorte, o velho Senhor da Guerra teria sentido as correntes em ocionais na sala e seria prudente.

— Antes de com eçar o interrogatório, posso lhe fazer um a pergunta?

Lord Magstrom brincava com a xícara.

— Não é um interrogatório, senhora — disse afavelm ente.

— Não? — retrucou ela, com sua voz som bria.

Magstrom se arrepiou. Sua m ão trem ia ao colocar a xícara na m esa.

Na esperança de distraí-la, Saetan lam entou-se dram aticam ente:

— O que quer m e perguntar?

Os olhos azul-safira o exam inaram . A apreensão se transform ou num divertim ento exasperado.

— Não é nada de m ais.

— Isso foi o que você disse da últim a vez.

Jaenelle deu seu m elhor sorriso, entrando no j ogo.

— Duj ae quer saber se você pode nos dar um a parede.

Saetan tentou não entrar em pânico.

— Um a parede? Duj ae quer um a das m inhas paredes?

— Sim .

Saetan apertou a têm pora com as pontas dos dedos. Algum a coisa estava obstruindo sua garganta. Não sabia se era um berro ou um a gargalhada.

— E para que Duj ae quer um a parede?

— Vam os pintá-la. — Refletiu por um m om ento. — Bem , acho que dizer que vam os pintá-la não é m uito correto. Vam os desenhar na parede. Duj ae diz que precisam os pensar de m aneira m ais am pla e a única form a de fazer isso é usando um a tela bem extensa. E a única suficientem ente grande é um a parede.

Hum -hum .

— Com preendo. — Saetan olhou à sua volta para a sala elegantem ente decorada e suspirou. — Há m uitos côm odos vazios. Pode escolher um na m esm a ala do salão de j ogos.

Jaenelle fez um a careta.

— Não tem os um salão de j ogos.

Saetan puxou um a das tranças da garota.

— Você não diria isso se estivesse na sala de baixo enquanto vocês estão lá... fazendo sabe-se lá o quê.

Jaenelle olhou para ele com um ar de indulgência divertida.

— Obrigada, Papai. — Beij ou-o na face e saltou do sofá.

Saetan puxou-a pela parte de trás da calça e sentou-a a seu lado.

— Duj ae pode esperar um pouco. Lord Magstrom tem algum as perguntas.

O fogo gélido voltou aos olhos de Jaenelle, m as ela se sentou j unto a Saetan no sofá, as m ãos recatadam ente pousadas no colo, e olhou para os dois hom ens com educada im paciência.

Saetan acenou com a cabeça para Lord Magstrom .

Com as m ãos pousadas nos braços da cadeira, Lord Magstrom sorriu para Jaenelle.

— Gosta m uito das artes, Lady Angelline? — perguntou am avelm ente. — Tenho um a neta m ais ou m enos da sua idade que adora “brincar com as cores”, com o ela diz.

A alusão a um a neta fez com que Jaenelle olhasse para Lord Magstrom com interesse.

— Gosto de desenhar, m as não tanto com o de m úsica — disse, depois de pensar um pouco. — Muito m ais do que m atem ática. — Fez cara feia. — Bem , qualquer coisa é m elhor do que m atem ática.

— Arnora pensa o m esm o da m atem ática — disse Lord Magstrom com seriedade, em bora seus olhos cintilassem .

Os lábios de Jaenelle se contraíram .

— Sério? Um a feiticeira sensata.

— De que outras m atérias você gosta?

— Aprender sobre plantas e j ardinagem e curas e arm as e equitação, tudo isso é divertido... e línguas. E dança. Dançar é m aravilhoso, não acha? E claro, a Arte, m as não é bem um a aula, não é?

— Não é bem um a aula? — Lord Magstrom parecia surpreso. Aceitou outra xícara de café. — Com tanta coisa para estudar, não lhe sobra m uito tem po para o convívio social — disse, devagar.

Jaenelle franziu a sobrancelha e olhou para Saetan.

— Creio que Lord Magstrom está se referindo a bailes e outras reuniões públicas — disse, cautelosam ente.

Seu olhar carregado se acentuou.

— Para que sair para dançar? Aqui há gente suficiente para tocar instrum entos e dançam os sem pre que querem os. Além disso, prom eti a Morghann que iria passar alguns dias com ela em Scelt, na época das festas das colheitas, e a fam ília de Kalush m e convidou para ir ao teatro com eles, e Gabrielle...

— Duj ae — disse Friall, num tom tenso. — Duj ae está ensinando você a desenhar?

Saetan apertou o om bro de Jaenelle, m as ela os encolheu para que ele parasse.

— Sim , Duj ae está m e ensinando a desenhar. — O frio estava de volta à sua voz.

— Duj ae está m orto.

— Há séculos.

Friall friccionou os lábios delicadam ente.

— Está estudando desenho com um dem ônio?

— Só porque é um dem ônio não significa que sej a um artista inferior.

— Não deixa de ser um demônio.

Jaenelle deu de om bros com indiferença.

— Assim com o Char e Titian e m uitos outros dos m eus am igos. Quem considero m eu am igo não é da sua conta, Lord Friall.

— Não é da m inha conta — disse Friall, furioso. — Mas com certeza é da conta do Conselho. Para com eço de conversa, foi num a dem onstração de boa-fé que o Conselho perm itiu que algo com o o Senhor Suprem o ficasse com um a m enina...

— Algo com o o Senhor Suprem o?

— ... e m aculasse as sensibilidades de um a j ovem m enina, forçando-a a ter relações com dem ônios...

— Ele nunca m e força a nada. Ninguém m e força a nada.

— ... e a se entregar aos seus atos libidinosos...

A sala explodiu.

Não havia tem po para pensar nem para se proteger da fúria que ascendia do abism o e os envolvia.

Extraindo toda a energia que conseguia das Joias Negras, Saetan se j ogou sobre Jaenelle enquanto ela ia para cim a de Friall. Enquanto lutava para se libertar e alcançar o Senhor da Guerra, que olhava espantado para ela, em choque, em itia sons selvagens e atrozes, enquanto os vidros das j anelas se estilhaçavam , os quadros caíam no chão, o gesso se rachava e, ao m esm o tem po, os raios psíquicos atingiam as paredes e a m obília era despedaçada.

Aguentando firm em ente, Saetan ignorou a sala, utilizando as forças para proteger os outros hom ens, servindo com o am ortecedor entre a raiva de Jaenelle e os visitantes. Não estava tentando feri-lo. Era um a ironia espantosa. Estava apenas tentando ultrapassar as barreiras que Saetan colocara entre ela e Friall. Abriu a m ente, com a intenção de ir contra as barreiras interiores de Jaenelle, forçando-a a sentir um pouco da dor a que o estava suj eitando. Mas as barreiras tinham desaparecido. Som ente o abism o e um a enorm e queda destruidora de m entes.

*Por favor, criança-feiticeira. * Por favor!

Ela veio até Saetan num a velocidade assustadora, envolvendo-o num a brum a negra, para depois subir com ele até a profundidade da Joia Verm elha antes de deslizar de volta para o confortável refúgio do abism o.

Silêncio.

Quietude.

A cabeça de Saetan latej ava im placavelm ente. Sua língua doía. A boca estava cheia de sangue. Sentia-se fraco dem ais para se m over. Contudo, a m ente estava intacta.

Jaenelle o am ava. Não o m achucaria deliberadam ente. Ela o am ava.

Usando esse pensam ento para consolar a m ente ferida e o corpo dolorido, com o se os envolvesse um cobertor quente, Saetan se deixou apagar.

 

Lord Magstrom acordou com um a bofetada não m uito afável. Piscando os olhos para desanuviar a visão, concentrou-se nas asas negras e no rosto austero.

— Bebam isto — disse o ey rieno com rispidez, enfiando um copo nas m ãos de Magstrom . Recuou, com os punhos apoiados nos quadris. — Seu com panheiro está finalm ente voltando a si. Tem sorte de ainda estar aqui.

Magstrom bebeu, agradecido, e olhou em volta. À exceção das cadeiras onde ele e Friall tinham estado sentados, a sala estava vazia. As divisórias pintadas tinham desaparecido. A m obília do outro lado estava caída, m as intacta. Se não fossem as faixas negras nas paredes cor de m arfim que pareciam relâm pagos dirigindo-se à terra, Talvez pudesse ter pensado que haviam sido levados para um a sala diferente, que teria sido um a espécie de alucinação.

Ouvira falar de Andulvar Yaslana, o Príncipe Dem ônio. Tinha consciência de que o fato de se sentir reconfortado por ter ao lado um dem ônio de Joia Cinza-Ébano era indício do quanto estava apavorado.

— E o Senhor Suprem o? — perguntou.

Andulvar arregalou os olhos.

— Por pouco não estilhaçou a Negra tentando m anter-lôs a salvo. Está exausto, m as irá se recuperar após alguns dias de repouso. — Depois resfolegou. — Além disso, servirá de desculpa para a garota m edicá-lo com um dos seus tônicos fortificantes, e, graças às Trevas, isso fará com que não pense m uito no que aconteceu.

— E o que aconteceu realm ente?

Andulvar indicou Friall com a cabeça. Beale ainda estava passando sais de cheiro sob o nariz de Friall, em bora a expressão do m ordom o sugerisse claram ente que preferia atirar o intruso porta fora e acabar com aquilo.

— Ele a irritou. Não foi um a boa ideia.

— Quer dizer que ela é instável? Perigosa?

Andulvar abriu lentam ente as asas negras. Fazia-o parecer colossal. E nos seus olhos dourados não havia vestígio de preocupação, apenas um a am eaça m uda.

— Pelo sim ples fato de serm os Sangue, som os todos perigosos, Lord Magstrom — rosnou Andulvar suavem ente. — Jaenelle pertence à fam ília e nós pertencem os a ela. Nunca se esqueça disto. — Fechou as asas e agachou-se j unto à cadeira de Magstrom . — Mas, na realidade, Saetan é a única coisa entre você e ela. Tam bém não se esqueça disto.

Um a hora m ais tarde, a carruagem de Magstrom e Friall deixou a entrada de veículos bem -cuidada e desceu até a estrada que passava por Halaway.

Era um a tarde do fim do verão e estava escuro. As flores selvagens pintavam os cam pos com cores vivas. As árvores espreguiçavam os ram os sobre a estrada, criando túneis frescos. Era um a bela terra, ternam ente cuidada, vigiada há m ilhares de anos pelo Paço dos SaDiablo e pelo hom em que governava o lugar.

Vigiada e protegida.

Magstrom sentiu um calafrio. Era um Senhor da Guerra com Joias Azul-Celeste. Desem penhava as funções de vigilante do povoado onde nascera e vivia feliz. Até ser convidado a integrar o Conselho das Trevas, suas relações com os que usavam Joias m ais escuras haviam sido diplom áticas e, felizm ente, raras. Os Sangue de Goth, a capital da Pequena Terreille, estavam interessados nas intrigas de corte e não num povoado na m argem de um rio com vista para as terras arborizadas dos Dea al Mon.

Mas agora um a cortina fora ligeiram ente afastada, e Magstrom havia testem unhado o poder negro, o verdadeiro poder negro.

Saetan é a única coisa entre você e ela.

A garota tinha de perm anecer com o Senhor Suprem o, pensava Magstrom enquanto a carruagem seguia por Halaway até a teia de desem barque onde iriam pegar os Ventos para casa. Para o bem de todos, tinha de ser assim .

 

Saetan acordou lentam ente quando alguém se sentou aos pés da cam a. Resm ungando, apoiou-se num cotovelo e tocou no candeeiro da m esa de cabeceira, que se acendeu o suficiente para lançar um a luz tênue sobre o quarto.

Jaenelle estava sentada, de pernas cruzadas, na cam a, com os olhos perturbados e o rosto aflito e pálido. Estendeu-lhe um copo.

— Beba. Isto irá aj udá-lo a acalm ar os nervos.

Bebeu um gole e depois outro. Tinha gosto de luar, calor de verão e água fresca.

— É delicioso, criança-feiticeira. Você tam bém devia beber um copo.

— Já bebi dois. — Tentou sorrir, em bora sem sucesso. Passou a m ão no cabelo e m ordeu o lábio inferior.

— Saetan, não gostei do que aconteceu hoj e. Não gostei do que... quase aconteceu.

Ele esvaziou o copo, colocou-o na m esinha de cabeceira e pegou a m ão da filha.

— Fico feliz. Matar nunca deveria ser um ato fácil, criança-feiticeira. Sua alm a ficaria m arcada por um a cicatriz. Às vezes é necessário. Às vezes não tem os escolha, se estam os defendendo o que am am os. Mas, se existir um a alternativa, opte por ela.

— Vieram aqui para condená-lo, para ofendê-lo. Não tinham esse direito.

— Não seria a prim eira vez que seria insultado por idiotas. Dá para sobreviver.

Mesm o sob a tênue luz, viu que os olhos de Jaenelle m udaram .

— Mesm o que ele tenha usado palavras em vez de um a faca, você não pode negar, Saetan, ele o ofendeu.

— Claro que m e ofendeu — rebateu Saetan. — Ser acusado de... — Fechou os olhos e apertou a m ão de Jaenelle. — Não tenho paciência para idiotas, Jaenelle, m as tam bém não os m ato por causa disso. Sim plesm ente m antenho-os afastados da m inha vida. — Ele se sentou e pegou a outra m ão de Jaenelle. — Sou sua espada e seu escudo, Senhora. Você não precisa m atar.

A Feiticeira o exam inou com seus olhos cor de safira, antigos e perturbados.

— Você vai ficar com as cicatrizes na sua alm a para que a m inha perm aneça intacta?

— Tudo tem um preço — disse, com delicadeza. — Esse tipo de cicatriz faz parte de ser um Príncipe dos Senhores da Guerra. Você está num a encruzilhada, criança-feiticeira. Pode usar seu poder para curar ou para ferir. A escolha é sua.

— É um a coisa ou outra?

Beij ou sua m ão.

— Nem sem pre. Com o disse, às vezes é necessário destruir. No entanto, creio que a cura tem m ais a ver com você. Seria o cam inho que eu escolheria.

Jaenelle aj eitou o cabelo.

— Bom , eu gosto m esm o de preparar infusões m edicinais.

— Já reparei — disse ele secam ente.

Jaenelle deu um a gargalhada, m as logo ficou séria.

— O que o Conselho das Trevas vai fazer?

Ele se recostou nas alm ofadas.

— Não podem fazer nada. Não perm itirei que a levem para longe da sua fam ília e dos seus am igos.

Jaenelle beij ou-o no rosto. E disse um a últim a coisa antes de sair do quarto:

— E não perm itirei que ponham m ais cicatrizes na sua alm a.

 

2 / Kaeleer

Ele havia previsto e até se preparado para aquele m om ento. Mesm o assim , era difícil.

Jaenelle estava no círculo da parte requerente no tribunal, em silêncio, com os dedos recatadam ente cruzados, os olhos fixos no selo gravado na parte da frente do banco de m adeira escura onde a Magistrada estava sentada. Usava um vestido em prestado por um a am iga e o cabelo trançado.

Sabendo que o Conselho observava todos os seus m ovim entos, Saetan olhava o vazio, esperando que a Magistrada com eçasse o perverso j oguinho.

Com o havia previsto a decisão do Conselho, não perm itira que ninguém , a não ser Andulvar, os acom panhasse. Andulvar sabia tom ar conta de si m esm o. Tom aria conta de Jaenelle tam bém . No m om ento em que a Magistrada anunciasse o veredicto do Conselho, no m om ento em que Jaenelle protestasse e se virasse para Saetan, pedindo aj uda...

Tudo tem um preço.

Mais de 50 m il anos atrás, ele tinha sido determ inante para a criação do Conselho das Trevas. Agora, iria destruí-lo. Bastava um a palavra para isso acontecer.

A Prim eira Tribuna com eçou a falar.

Saetan não ouvia. Observou os rostos dos m em bros do Conselho. Algum as feiticeiras pareciam m ais perturbadas do que irritadas — m as a m aior parte dos olhos brilhava com o os de seres ferozes e furtivos reunidos para a m atança. Conhecia algum as delas. Outras eram novas, substitutas das im becis que o tinham desafiado naquela sala. Ao vê-las olhando para ele, o pesar pela decisão de destruí-las evaporou. Não tinham o direito de tirar sua filha.

— ... por isso, a opinião ponderada deste Conselho é de que a nom eação de um novo tutor seria de benefício da tutelada.

Tenso, Saetan esperou que Jaenelle se virasse para ele. Tinha descido profundam ente até a Negra antes de entrarem na sala do Conselho. Havia ali Joias escuras que talvez pudessem resistir o suficiente para fazer um a tentativa de ataque, porém a Negra libertada estilhaçaria todas as m entes que fossem atingidas pela explosão de energia psíquica. Andulvar era forte o bastante para sobreviver à tem pestade psíquica. Jaenelle estaria segura, protegida no centro da tem pestade.

Saetan respirou fundo.

Jaenelle olhou para a Prim eira Tribuna.

— Muito bem — disse, calm a e distintam ente. — Quando o sol voltar a nascer, você pode nom ear um novo tutor, a m enos que, até lá, reconsidere sua decisão.

Saetan olhou estupefato para Jaenelle. Não. Não! Era a filha da sua alm a, a sua Rainha. Não podia, não iria deixá-lo.

Mas deixou.

Jaenelle não olhou para Saetan quando se virou e cam inhou pelo centro da sala até as portas do outro lado. Ao chegar lá, esquivou-se da m ão estendida de Andulvar.

As portas se fecharam .

Vozes m urm uravam . Turbilhões coloridos. Corpos passavam à sua frente.

Saetan não conseguia se m exer. Achava que era m uito velho para ilusões, m uito ferido para ter esperança, m uito insensível para sonhar. Estava enganado. Engoliu a am argura da esperança, engasgou-se nas cinzas dos sonhos.

Ela não o queria.

Saetan queria m orrer, ansiava desesperadam ente pela m orte final, antes que a angústia e o sofrim ento o esm agassem .

— Vam os em bora daqui, SaDiablo.

Andulvar levou-o para longe dos rostos presunçosos e dos olhos reluzentes.

Aquela noite, antes de o sol nascer, encontraria um a form a de m orrer.

 

Havia esquecido que as crianças o esperavam .

— Onde está Jaenelle? — perguntou Karla, tentando olhar atrás de Saetan e de Andulvar quando estes entraram na sala de estar.

Saetan queria se retirar discretam ente para seus aposentos, onde poderia chorar sozinho suas m ágoas e decidir com o concretizar o seu fim .

Tam bém iria perdê-las. Não teriam razões para visitá-lo, nem para falar com ele, se Jaenelle não m orasse ali.

Sentiu os olhos ardendo, as lágrim as prestes a explodir. Sentiu a garganta apertada pela angústia.

— Tio Saetan? — cham ou Gabrielle, procurando ver seu rosto.

Saetan estrem eceu.

— O que aconteceu? — perguntou Morghann. — Onde está Jaenelle?

Andulvar por fim respondeu.

— O Conselho das Trevas vai escolher outro tutor. Jaenelle não vai voltar.

— O QUÊ? — gritaram em uníssono.

As vozes o agrediam , questionando, exigindo. Perderia todas aquelas crianças que tinham se infiltrado no seu coração ao longo das últim as sem anas, a quem se tinha perm itido am ar, tão insensatam ente.

Karla levantou a m ão. Na m esm a hora, a sala ficou em silêncio. Gabrielle avançou até o lado dela.

— O Conselho nom eou outro tutor — disse Karla, espaçando as palavras e sem icerrando os olhos.

— Sim — sussurrou Saetan. Suas pernas iam ceder. Precisava se afastar antes que as pernas cedessem .

— Devem estar loucos — disse Gabrielle. — E o que Jaenelle disse?

Saetan tentou se concentrar em Karla e Gabrielle. Provavelm ente era a últim a vez que as via. Contudo, não conseguia responder, não conseguia pôr as m alditas palavras para fora.

Andulvar levou Saetan até um sofá e obrigou-o a se sentar.

— Ela disse que poderiam nom ear um novo tutor pela m anhã.

— Foram essas as palavras exatas? — perguntou Gabrielle de m aneira brusca.

— Que diferença faz? — resm ungou Andulvar. — Ela decidiu virar as costas...

— Malditas sej am as suas asas, grande filho da puta — berrou Karla. — O que foi que ela disse?

— Parem ! — gritou Saetan. Não suportava vê-las discutir, passar a últim a hora com elas em m eio àquela ira. — Ela disse... — A voz em bargou. Enfiou as m ãos entre os j oelhos, o que não as im pediu de trem er. — Disse que quando o sol voltasse a nascer, poderiam nom ear um novo tutor, a m enos que, até lá, reconsiderassem a decisão.

O estado de espírito na sala se alterou para um a ligeira inquietação m isturada com um a veem ente aprovação e um a aceitação tranquila. Intrigado, Saetan observou as crianças.

Karla se j ogou no sofá ao lado de Saetan, passando os braços em volta dele.

— Nesse caso, ficarem os aqui e aguardarem os com você.

— Agradeço, m as prefiro ficar sozinho. — Saetan tentou se levantar, m as o olhar fixo de Chaosti o desencoraj ou de tal form a que ele perdeu a força nas pernas.

— Não prefere, não — disse Gabrielle, em purrando Andulvar para se sentar do outro lado de Saetan.

— Quero ficar sozinho agora — disse Saetan, tentando colocar um tom de trovão na voz, m as sem conseguir.

Chaosti, Khary e Aaron form aram um a barreira na sua frente, ao lado dos outros j ovens m achos. Morghann e o resto do grupo form aram um círculo em volta do sofá, encurralando-o.

— Não vam os perm itir que faça algo estúpido, tio Saetan — disse Karla afavelm ente. Seu sorriso m alévolo floresceu. — Espere pelo m enos até o nascer do sol. Não vai querer perder esse m om ento.

Saetan olhou perplexo para Karla. Ela sabia o que ele pretendia fazer. Derrotado, fechou os olhos. Hoj e, am anhã, que diferença fazia? Mas não faria isso na presença deles. Não os faria passar por isso.

Satisfeitas, Karla e Gabrielle se enroscaram em Saetan enquanto as outras garotas se espalhavam pelos outros sofás.

Khary esfregou as m ãos.

— E se eu fosse ver se a Sra. Beale pode nos preparar um chá?

— Uns sanduíches tam bém seriam bem -vindos — disse Aaron, entusiasm ado. — E um as tortas de especiarias, se não tiverm os acabado com elas. Vou com você.

*SaDiablo?*, chamou Andulvar num fio masculino Cinza-Ébano.

Saetan m anteve os olhos fechados.

*Não farei nenhuma tolice.*

Andulvar hesitou.

*Vou falar com Mephis e Prothvar.*

Não havia razão para responder. Não havia resposta para dar. Por sua causa, todos perderiam Jaenelle. O novo tutor receberia os lobos e os unicórnios? Acolheria os Dea al Mon e os Tigre, os centauros e os sátiros? Ou ela seria obrigada a fugir por um a horinha, de vez em quando, para poder estar com eles, com o quando era criança?

Com o passar das horas e as crianças cochilando nas cadeiras ou no chão à sua volta, Saetan se entregou. Havia aproveitado aqueles m om entos com eles, o peso e o calor das cabeças de Karla e de Gabrielle aninhadas nos seus om bros. Haveria tem po para lidar com a dor... depois que o sol nascesse.

— Acorde, SaDiablo.

Saetan sentiu a urgência na voz de Andulvar, m as não queria responder, não queria rasgar o véu do sono no qual havia encontrado um pouco de conforto.

— Droga, Saetan — m urm urou Andulvar. — Acorde.

Contrariado, Saetan abriu os olhos. Com eçou a se sentir grato por Andulvar estar à sua frente, im pedindo-o de ver as j anelas e a traiçoeira m anhã. Depois percebeu que as velas estavam acesas e que eram necessárias e viu um trem or de m edo nos olhos do ey rieno.

Andulvar se afastou para o lado.

Saetan esfregou os olhos. Durante a noite, Karla e Gabrielle tinham deslizado dos seus om bros e agora usavam suas coxas com o alm ofadas. Não sentia as pernas.

Por fim , olhou para as j anelas.

Estava escuro.

Por que Andulvar o estaria despertando assim no m eio da noite?

Saetan olhou de relance para o relógio sobre a lareira e ficou paralisado. Oito horas.

— A Sra. Beale quer saber se deve servir o café da m anhã — disse Andulvar, com a voz tensa.

Os rapazes com eçaram a despertar.

— Café da m anhã? — perguntou Khary, reprim indo um bocej o enquanto passava as m ãos no cabelo castanho encaracolado. — Um café da m anhã seria bom .

— Mas — balbuciou Saetan. O relógio estava errado. Tinha de estar. — Mas ainda é de noite.

Chaosti, a Criança da Floresta, o Príncipe Dea al Mon dos Senhores da Guerra, lançou a ele um olhar intenso e alegre.

— Pois é.

Duas risadinhas se seguiram às palavras de Chaosti, enquanto Karla e Gabrielle se levantavam .

O coração de Saetan disparou. O quarto com eçou a girar devagar. Ele tinha achado que os olhos dos m em bros do Conselho brilhavam ferozm ente, m as aquilo era na verdade um brilho dócil em com paração com o destas crianças que sorriam para ele e aguardavam .

— Escuro com o a m eia-noite — disse Gabrielle, com um a doce m alignidade.

— Com o se ainda fosse m eia-noite — com pletou Karla. Apoiou o antebraço no om bro de Saetan e inclinou-se. — Quanto tem po o Conselho vai dem orar para reconsiderar sua decisão, Senhor Suprem o? Um dia? Talvez dois? — Deu de om bros e se levantou. — Vam os ver o café da m anhã.

Tendo Andulvar à frente, as crianças deixaram a sala de estar, tagarelando despreocupadas.

Ao observá-los, Saetan lem brou-se de algo que Titian havia lhe dito há alguns anos. Eles sabem o que ela é. Viu Khardeen, Aaron e Chaosti se entreolharem antes de Khary e Aaron seguirem os outros. Chaosti perm aneceu j unto à j anela, aguardando.

Outro triângulo de poder, pensou Saetan ao se aproxim ar da j anela. Quase tão forte e igualm ente letal. Que as Trevas aj udassem quem quer que ficasse no seu cam inho.

— Você sabia — disse, baixinho, enquanto olhava fixam ente para a noite ininterrupta, sem lua ou estrelas. — Você sabia.

— É claro — disse Chaosti, sorridente. — Você não?

— Não.

O sorriso de Chaosti desapareceu.

— Sendo assim , nós lhe devem os um pedido de desculpas, Senhor Suprem o. Achávam os que estava preocupado com o que iria acontecer, não percebem os que não tinha entendido.

— E com o vocês sabiam ?

— Jaenelle os avisou ao determ inar as condições. “Quando o sol voltar a nascer.” — Chaosti deu de om bros. — Obviam ente, o sol não iria nascer.

Saetan fechou os olhos. Era o Senhor Suprem o do Inferno de Joias Negras, o Príncipe das Trevas. E não tinha certeza de estar à altura daquelas crianças.

— Não tem m edo dela?

Chaosti pareceu surpreso.

— De Jaenelle? Por que teria m edo dela? É m inha am iga, m inha Irm ã e m inha prim a. E é a Rainha. — Inclinou a cabeça. — E você, tem ?

— Às vezes. Às vezes tenho m edo do que ela pode fazer.

— Ter m edo do que ela pode fazer não é o m esm o que ter m edo dela. — Chaosti hesitou, para depois acrescentar: — Ela o am a, Senhor Suprem o. Você é o pai dela, por escolha própria. Francam ente, acredita que ela o abandonaria, a m enos que fosse este o seu desej o?

Saetan esperou que Chaosti se j untasse aos outros para responder.

Sim . Que as Trevas o am parassem , sim . Deixara que as em oções nublassem seu discernim ento. Estava disposto a destruir o Conselho para que Jaenelle ficasse com ele. Deveria ter se lem brado do que ela dissera sobre não perm itir que o Conselho lhe infligisse m ais cicatrizes na alm a.

Ela tinha parado am bos, ele e o Conselho.

Saetan estava envergonhado por não ter com preendido o que Karla, Gabrielle, Chaosti e os outros perceberam assim que ouviram a expressão que Jaenelle utilizara. Am ando a garota com o a am ava, m orando com ela e testem unhando seu esforço diário para ser Rainha, j á devia saber.

Sentindo-se bem m elhor, dirigiu-se à sala do café da m anhã.

Um a questão ainda o perturbava, ainda lhe causava um a ponta de dor de cabeça.

Em nom e do Inferno, com o Jaenelle tinha feito aquilo?

 

3 / Inferno

Hekatah olhou pela j anela para a paisagem ressequida. Assim com o os outros Reinos, o Inferno possuía estações do ano, em bora no verão continuasse a ser um a terra fria, eternam ente envolvida no crepúsculo.

Mais um a vez, tudo dera errado. De algum a form a, dera errado.

Contara com o Conselho para separar Saetan e Jaenelle. Não previra que a garota resistisse de um a form a tão grandiosa e assustadora.

A garota. Tanto poder para ser aproveitado. Deveria haver um a m aneira de chegar a ela, algum a isca para atraí-la.

À m edida que o pensam ento ganhou form a, Hekatah com eçou a sorrir.

Am or. O ardor de um rapaz contra a afeição de um pai. Apesar de todo seu poder, a garota era um a idiota de coração m ole. Dividida entre seus próprios anseios e as necessidades dos outros — necessidades que podia satisfazer sem riscos, j á que não era m ais virgem —, haveria de consentir, se o m acho fosse hábil e atraente. Depois de algum tem po, com a aj uda de um afrodisíaco viciante, precisaria do sexo m uito m ais do que de um pai. A rej eição seria a única disciplina exigida caso relutasse diante de um pedido do am ante. Todo aquele poder negro e sedutor oferecido a um hom em que, logicam ente, seria controlado por Hekatah.

Hekatah m ordeu a unha do polegar.

Aquele j ogo exigia paciência. Se ela se sentisse intim idada pelas investidas sexuais, rej eitando os avanços... Não era necessário se preocupar com isso. Saetan j am ais toleraria, j am ais perm itiria que se tornasse frígida. Acreditava profundam ente no prazer sexual — tanto quanto na fidelidade. Esta últim a tinha sido um problem a; aquela garantiria que sua queridinha estaria m adura para ser colhida dentro de um ou dois anos.

Sorridente, Hekatah se afastou da j anela.

Pelo m enos aquele filho da puta servia para algum a coisa.

 

4 / Kaeleer

Saetan ofereceu um copo de conhaque a Lord Magstrom antes de se sentar atrás da m esa de m adeira escura. Era início da tarde, m uito em bora, depois de três “dias” de noite ininterrupta, não devessem ser m uitos os hom ens com protestos sobre a hora apropriada de tom ar o prim eiro trago.

Saetan j untou os dedos à sua frente. Pelo m enos os idiotas do Conselho haviam tido o bom -senso de enviar Lord Magstrom . Não teria concedido um a audiência a m ais ninguém . Entretanto, não apreciou o aspecto selvagem do Senhor da Guerra, e esperava que o ancião se recobrasse plenam ente da tensão dos últim os três dias. Saetan havia passado a m aior parte da sua longa vida entre o crepúsculo e a alvorada, m as até m esm o ele sentia-se esgotado pela escuridão antinatural.

— Queria m e ver, Lord Magstrom ?

As m ãos de Lord Magstrom trem iam ao levar à boca o conhaque.

— O Conselho está m uito incom odado. Não gostam de ser feitos reféns desta form a, e m e pediram que lhe apresentasse um a proposta.

— Não é com igo que tem de negociar, Senhor da Guerra. Foi Jaenelle quem estabeleceu as condições e não eu.

Lord Magstrom pareceu chocado.

— Pensam os...

— Pensaram errado. Nem m esm o eu possuo poder para tanto.

Lord Magstrom fechou os olhos. Estava ofegante.

— Sabe onde ela está?

— Acho que em Ebon Askavi.

— Por que foi para lá?

— É a casa dela.

— Mãe Noite — m urm urou Magstrom . — Mãe Noite. — Esvaziou o copo de conhaque. — Acha que conseguirem os vê-la?

— Não sei. — Não valia a pena dizer a Magstrom que ele próprio tentara ver Jaenelle e, pela prim eira vez na vida, fora barrado na Fortaleza, de form a educada, m as firm e.

— Ela vai falar com a gente?

— Não sei.

— E você... falaria com ela?

Saetan arregalou os olhos, m om entaneam ente surpreso, antes de ser inundado pela raiva fria e incandescente.

— Por que faria isso? — perguntou, com um a falsa delicadeza.

— Para o bem do Reino.

— Desgraçado! — Com as unhas, Saetan riscou a m esa de m adeira escura. — Você tenta tirar m inha filha de m im e espera que eu resolva a situação? Não aprendeu nada durante a últim a visita? Não. Escolheu sim plesm ente destruir a vida que Jaenelle com eçava a construir de novo, sem pensar no que isso lhe provocaria. Tentou arrancar m eu coração e, ao descobrir que há punições para suas ações m alignas, quer que eu dê um j eito. Você tirou a guarda de Jaenelle de m im . Se quer acabar com isto, vá você a Ebon Askavi e enfrente o que o aguarda lá. E caso ainda não tenha percebido de quem se trata, vou lhe dizer. A Feiticeira o aguarda, Magstrom . A Feiticeira em sua plena glória. E a Senhora não está contente.

Magstrom gem eu e caiu na cadeira.

— Maldição. — Saetan respirou fundo, tentando controlar o m au hum or enquanto enchia um copo com dois dedos de conhaque. Invocou um frasquinho e acrescentou à bebida um a pitada de pó m edicinal. Segurando a cabeça de Magstrom , disse:

— Beba. Vai aj udar.

Depois de Magstrom recuperar os sentidos e respirar com m ais calm a, Saetan voltou à sua cadeira. Apoiando a cabeça nas m ãos, olhou fixam ente para as m arcas de unha na m esa.

— Levarei a ela a proposta do Conselho da m aneira que m e for transm itida, e trarei a resposta dela nos m esm os term os. Não farei nada além disso.

— Depois do que acabou de m e dizer, por que faria isso?

— Você não entenderia — rebateu Saetan.

Magstrom não disse nada durante alguns m om entos.

— Acho que preciso entender.

Saetan passou as m ãos no espesso cabelo negro e fechou os olhos dourados. Respirou fundo. Se estivesse no lugar de Magstrom , não iria querer um a resposta?

— Olho pela j anela e m e preocupo com os pardais e os tentilhões e com todas as outras criaturas diurnas, os inocentes que não conseguem entender a ausência da luz do dia. Acalento um a flor nas m ãos na esperança de que sobreviva e sinto a terra esfriar a cada hora que passa. Não vou pelo Conselho, nem m esm o pelos Sangue. Vou pelos pardais e pelas árvores. — Abriu os olhos. — Entende agora?

— Sim , Senhor Suprem o. — Lord Magstrom sorriu. — Foi um a sorte o Conselho ter concordado em m e deixar negociar as condições da proposta. Se nós dois conseguirm os chegar a um acordo, talvez sej a aceitável para a Senhora.

Saetan tentou, em bora sem êxito, retribuir o sorriso. Eles nunca tinham presenciado a m udança nos olhos azul-safira de Jaenelle, nunca tinham visto sua transform ação de criança em Rainha, nunca tinham visto a Feiticeira.

— Talvez.

 

Ficou grato por Draca ter lhe perm itido entrar na Fortaleza. Essa gratidão dim inuiu assim que Jaenelle apareceu à sua frente, no m om ento em que entrou no escritório.

— Entende isto? — perguntou, indicando um parágrafo de um livro de Arte.

Com o estôm ago em brulhado, Saetan invocou os óculos em m eia-lua, colocou-os cuidadosam ente sobre o nariz e leu o texto, obediente.

— Parece bastante sim ples — disse, logo depois.

Jaenelle se j ogou no ar, de pernas abertas.

— Eu sabia — m urm urou entre dentes, cruzando os braços. — Eu sabia que estava escrito em machês.

Saetan fez os óculos desaparecerem .

— Perdão?

— É um a bagunça. Geoffrey entende, m as não consegue m e explicar de m odo que faça sentido. E você tam bém entende. Por isso, deve estar escrito em machês. Só é com preensível para quem tem um pênis e um saco.

— Considerando a idade de Geoffrey, acho que o problem a dele não é o saco, criança-feiticeira — disse Saetan sarcasticam ente.

Jaenelle resm ungou.

Fique aqui, sussurrou um a parte dele. Fique aqui com ela, desse jeito. Eles não o amam, nunca se interessaram por você, a menos quando precisaram de algum favor. Não pergunte a ela. Deixe para lá. Fique.

Saetan fechou o livro e segurou-o bem j unto ao peito.

— Jaenelle, precisam os conversar.

Jaenelle aj eitou o cabelo e fitou o livro fechado.

— Precisam os conversar — insistiu ele.

— Sobre o quê?

O fato de fingir que não sabia lhe dava nos nervos.

— Kaeleer, para com eçar. Você precisa quebrar o feitiço, a teia ou que quer que tenha feito ali.

— Vai term inar quando o Conselho decidir.

Ele ignorou a advertência na voz de Jaenelle.

— O Conselho m e pediu...

— Você está aqui em nom e do Conselho?

Entre um a inspiração e um a expiração, Saetan viu um a j ovem feiticeira de m au hum or se transform ar em um a Rainha doce e predatória. Até a roupa m udou enquanto ela andava de um lado para outro no escritório. Quando, finalm ente, parou diante de Saetan, seu rosto era um a m áscara fria e bela, seus olhos continham a profundeza do abism o, as unhas estavam pintadas de um verm elho tão escuro que quase parecia preto e seu cabelo era um a nuvem dourada, com gram pos prateados dos lados. O vestido parecia feito de fum aça e teias de aranha e ela tinha um a Joia Negra pendurada ao pescoço, sobre o peito.

Jaenelle colocou um dos seus conj untos de Joias Negras, pensava Saetan, o coração batendo descontrolado. Quando teria feito isso?

Olhou-a diretam ente nos olhos antigos, num desafio tácito.

— Maldição, Saetan — disse, sem em oção ou ternura.

— Vivo para agradá-la, Senhora. Faça de m im o que quiser. Mas liberte Kaeleer da m eia-noite. Os inocentes não m erecem esse sofrim ento.

— E quem você cham a de inocente? — perguntou, com sua voz cavernosa.

— Os pardais, as árvores, a terra — respondeu, calm am ente. — O que eles fizeram para que o sol lhes fosse roubado?

Saetan viu o sofrim ento nos olhos de Jaenelle antes que ela retirasse o livro de suas m ãos com um puxão e virasse as costas.

— Não sej a tolo, Saetan. Eu j am ais prej udicaria a terra.

Jam ais prej udicaria a terra. Jam ais prej udicaria a terra. Jam ais j am ais j am ais.

Saetan observou as correntes de ar no am biente. Eram belas. Verm elho, violeta, azul-índigo. Não im portava que as correntes de ar fossem incolores. Não im portava se estava tendo alucinações. Eram belas.

— Há algum a cadeira neste escritório? — Ele se perguntou se Jaenelle o teria ouvido. Se teria dito aquelas palavras em voz alta.

A voz de Jaenelle fez com que as cores rodopiassem .

— Você não descansou nada?

Saetan sentiu o abraço aconchegante de um a cadeira às costas. Um xale grosso se enrolou em volta dos seus om bros, um a m anta cobriu suas pernas. Um a infusão m edicinal m isturada com conhaque relaxou seus m úsculos tensos. Mãos quentes e suaves afagaram seu cabelo, seu rosto. E um a voz, repleta de brisa de verão e m eia-noite, repetiu seu nom e sem parar.

Não precisava ter m edo dela. Nada havia a tem er. Tinha que encarar estas situações com calm a e não se deixar abalar pela m agnitude dos feitiços de Jaenelle. Afinal, ela ainda usava as Joias de Direito por Progenitura, ainda dava os prim eiros passos na Arte. Assim que realizasse a Oferenda...

Gem eu. Jaenelle m andou que se calasse.

Envolvido pelo calor, ele estava refeito.

— Para os pardais e as árvores o sol tem se levantado, não é, criança-feiticeira?

— É claro — disse ela, apoiada no braço da cadeira.

— Na verdade, tem se levantado para tudo e para todos, à exceção dos Sangue.

— Siiiim .

— Todos os Sangue?

Jaenelle aj eitou o cabelo e resm ungou.

— Não consegui separar as espécies, por isso tive de colocar todos no m esm o saco. Mas enviei m ensagens para que os parentes soubessem que é um a situação tem porária — acrescentou rapidam ente. — Pelo m enos, espero que sej a tem porária.

Saetan se endireitou de repente.

— Você fez o feitiço sem ter certeza de que conseguiria anulá-lo?

Jaenelle fulm inou-o com o olhar.

— É claro que consigo anulá-lo. Se vou anulá-lo ou não depende do Conselho.

— Ah. — Precisava dorm ir durante um a sem ana... Assim que visse o sol nascer. — O Conselho m e pediu pra lhe dizer que reconsiderou a decisão.

— Ah. — Jaenelle se m exeu no braço da cadeira. O vestido deslizou, m ostrando toda a sua perna.

Sua filha loura tinha pernas atraentes. Fortes e esguias. Esganaria o prim eiro rapaz que tentasse enfiar a m ão por baixo de sua saia para acariciar aquela coxa sedosa.

— Você m e aj uda a traduzir aquele parágrafo? — perguntou Jaenelle.

— Não tem nada para fazer antes?

— Não. Isso tem de ser feito na hora certa, Saetan — acrescentou ela, enquanto a sobrancelha de Saetan com eçava a se erguer.

— Então tem os tem po para m atar.

Duas horas depois, ainda tentavam desvendar o parágrafo. Saetan estava praticam ente disposto a concordar que havia realidades intraduzíveis entre os gêneros. Ainda assim , continuava buscando um a explicação, pois aquilo lhe despertava um prazer perverso.

Graças às Trevas, apesar da força e da intuição de Jaenelle, ainda havia certas coisas que sua Senhora de cabelo louro não conseguia fazer.