A Herdeira das Sombras

Anne Bishop · Capítulo 11 de 22

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A Herdeira das Sombras

Capítulo Sete

 

 

1 / Kaeleer

Saetan j untou os dedos das m ãos à sua frente e fitou Sy lvia.

— Perdão?

— Você precisa falar com Tersa — repetiu Sy lvia.

Maldita. Por que estaria insistindo tanto?

Com dificuldade, conseguiu controlar o m au hum or. Não era culpa de Sy lvia. Ela não tinha com o saber da ligação entre ele e Tersa.

— Posso lhe servir um copo de vinho? — perguntou, por fim , com a voz profunda traindo o que sentia.

Sy lvia olhou para o decantador no canto da m esa.

— Se aquilo for conhaque, por que não tom a um copo e m e passa o decantador?

Saetan encheu dois copos e fez um deles flutuar até Sy lvia.

Sy lvia tom ou um trago considerável, engasgando-se um pouco.

— Essa não é a m aneira correta de beber um bom conhaque — disse Saetan com frieza, engolindo boa parte do seu próprio conhaque, m esm o sabendo da dor de cabeça que viria depois. — Muito bem . Fale-m e de Tersa.

Sy lvia inclinou-se para a frente, com os braços apoiados na cadeira e am bas as m ãos segurando o copo de conhaque.

— Não sou nenhum a criança, Saetan. Sei que algum as pessoas deslizam para o Reino Distorcido e que outras são em purradas... E que, ainda, um a m inoria coraj osa entra ali por vontade própria. Sei tam bém que a m aioria das Viúvas Negras que se perdem no Reino Distorcido é inofensiva. À sua m aneira, são extraordinariam ente sábias.

— Mas?

Sy lvia com prim iu os lábios.

— Mikal, o m eu filho m ais novo, passa bastante tem po com ela. Acha Tersa m aravilhosa. — Bebeu o resto do conhaque e estendeu a m ão com o copo para que Saetan voltasse enchê-lo. — Ultim am ente, ela o tem cham ado de Daem on.

Falava tão baixinho e sua voz estava tão rouca que Saetan teve dificuldade de ouvi-la. Desej ou, am argam ente, não tê-la ouvido.

— Mikal não se im porta — continuou Sy lvia depois de engolir outro trago de conhaque. — Diz que é m uito fácil um a pessoa com tantas coisas interessantes a dizer se confundir com as trivialidades do dia a dia, e que provavelm ente conheceu um rapaz cham ado Daem on a quem costum a dizer as m esm as coisas interessantes.

Ela nunca teve chance de fazer isso. Com a idade de Mikal, ele já estava perdido para nós dois.

— Mas?

— Das últim as vezes que foi visitá-la, ela ficou insistindo para ele ter cuidado. — Sy lvia fechou os olhos e franziu a testa, concentrando-se. — Disse que a ponte está m uito frágil e que ela continuará enviando os galhos. — Abriu os olhos e serviu-se de conhaque. — Às vezes, ela abraça Mikal e chora. Guarda os galhos que recolheu em todos os quintais do povoado num grande cesto na cozinha e entra em pânico se alguém se aproxim a. Mas não pode ou não quer dizer a Mikal ou a m im qual a im portância desses galhos. Mandei inspecionar todas as pontes em Halaway e estão todas em bom estado. Pensei que você talvez pudesse conversar com ela. Talvez ela lhe dissesse.

Diria a ele? Deixaria que ele abordasse o único assunto que se recusava a discutir com ele? Sem pre que a visitava, durante um a hora por sem ana, Tersa falava sobre o j ardim ; dizia-lhe o que tinha j antado; m ostrava-lhe um ponto de cruz que estava praticando; falava sobre Jaenelle. Mas não sobre o filho deles.

— Vou tentar, Saetan — disse baixinho.

Sy lvia pousou o copo vazio na m esa e levantou-se, cam baleando.

Saetan deu a volta na m esa e conduziu-a à porta.

— Você devia ir para casa e tirar a sesta.

— Eu nunca tiro a sesta.

— Depois de todo este conhaque, não creio que terá outra escolha.

— Meu m etabolism o dará conta do conhaque rapidam ente — disse Sy lvia, j á soluçando.

— Ahã. Você percebeu que m e cham ou de Saetan?

Ela virou-se tão repentinam ente que esbarrou nele. Ele gostava de senti-la j unto a seu corpo. E ficava perturbado com isso.

— Perdão, Senhor Suprem o. Lam ento.

— É m esm o? — perguntou com delicadeza. — Eu não sei se lam ento.

Sy lvia olhou-o fixam ente. Hesitou. Nada disse.

Saetan deixou-a ir.

 

— Vai sair? — Jaenelle estava encostada na parede oposta à porta do quarto, com o dedo m arcando a página de um livro de Arte.

Bem -hum orado, Saetan levantou um a sobrancelha. Norm alm ente, era o pai que perguntava aonde ia sua prole e não o contrário.

— Vou visitar Tersa.

— Por quê? Não é nesta noite que costum a visitá-la.

Detectou a leve irritação na voz de Jaenelle, a advertência sutil.

— Sou assim tão previsível? — perguntou Saetan, sorrindo.

Jaenelle não retribuiu o sorriso.

Antes do seu próprio m ergulho catastrófico no abism o ou no lugar onde havia passado aqueles dois anos, Jaenelle viaj ara até o Reino Distorcido e guiara Tersa de volta ao lim ite tênue entre loucura e sanidade. Era o m ais longe que Tersa conseguia — ou estava disposta a — ir.

Jaenelle tinha aj udado Tersa a recuperar um pouco do m undo real. Agora que viviam próxim as, continuava a aj udá-la a encaixar as peças que form avam o m undo físico. Pequenas coisas. Coisas sim ples. Árvores e flores. A sensação da argila entre dedos fortes. O prazer de um a tigela de sopa e de um a fatia grossa de pão recém -saído do forno.

— Sy lvia veio m e visitar hoj e à tarde — disse Saetan, devagar, tentando com preender o frio que vinha de Jaenelle. — Acha que Tersa está perturbada com algum a coisa, por isso quero ver com o ela está.

Os olhos azul-safira de Jaenelle exibiam um a profundidade e um a quietude sem elhantes a um lago sem fundo.

— Não insista onde não é bem -vindo, Senhor Suprem o — disse a Feiticeira.

Saetan se perguntou se ela saberia o quanto seus olhos eram reveladores.

— Prefere que eu não vá? — perguntou respeitosam ente.

Os olhos de Jaenelle se alteraram .

— Vá vê-la, se quiser — respondeu a filha. — Mas não invada sua privacidade.

 

— Não tem vinho. — Tersa abria e fechava as portas dos arm ários, parecendo cada vez m ais confusa. — A m ulher não com prou vinho. Com pra sem pre um a garrafa de vinho no quarto dia para você. Não com prou o vinho e am anhã eu ia fazer um desenho do m eu j ardim e m ostrar a você, m as o terceiro dia j á passou e não sei onde o coloquei.

Saetan estava sentado à m esa de pinho na cozinha, o corpo tão pesado de sofrim ento que m al conseguia se m over. Tinha brincado com o fato de ser previsível. Não percebera que sua previsibilidade era um dos referenciais de Tersa, um a form a que ela tinha de separar os dias. Jaenelle sabia disso e tinha deixado que ele viesse para aprender a lição por conta própria.

Com as m ãos apoiadas na m esa, levantou-se da cadeira. Cada m ovim ento era penoso, m as por fim alcançou Tersa, que ainda abria e fechava as portas dos arm ários. Resm ungando, sentou-a à m esa, pôs um a chaleira no fogo e, depois de um a rápida busca nos arm ários, preparou um chá de cam om ila para os dois.

Ao colocar a xícara diante de Tersa, afastou o cabelo preto em aranhado de seu rosto. Não se lem brava de algum a vez ter visto o cabelo de Tersa sem pensar que parecia ter sido lavado e enxugado ao vento, com o se os dedos fossem o único pente que ela j am ais havia conhecido. Suspeitava que não era a loucura, m as a intensidade que a tornava indiferente. Perguntou-se se não teria sido essa um a das razões, quando finalm ente concordou com o contrato estabelecido com a Am pulheta hay lliana para gerar um a criança, para ter escolhido Tersa, que j á estava quebrada e à beira da loucura. Naquela prim eira noite, passara m ais de um a hora penteando seu cabelo. Penteara-o todas as noites daquela sem ana que dorm ira com ela, apreciando a sensação daquele cabelo entre seus dedos, do deslocam ento suave da escova.

Agora, sentado à sua frente, segurando caneca, disse:

— Vim m ais cedo, Tersa. Você não perdeu o terceiro dia. Este é o segundo dia.

Tersa ficou com o olhar carregado.

— O segundo dia? Mas você não vem no segundo dia.

— Queria falar com você. Não queria esperar até o quarto dia. Voltarei no quarto dia para ver o seu desenho.

Parte da confusão abandonou os olhos dourados de Tersa. Tom ou um gole do chá.

A m esa de pinho estava vazia, exceto por um a pequena j arra azul com três rosas verm elhas.

Tersa tocou as pétalas delicadam ente.

— O rapaz pegou estas para m im .

— Que rapaz? — perguntou Saetan, com calm a.

— Mikal, o filho de Sy lvia. Costum a m e visitar. Ela lhe disse?

— Pensei que estivesse falando de Daem on.

Tersa bufou.

— Daem on j á não é um rapaz. Além disso, está m uito longe. — Seus olhos turvaram -se, argutos. — E a ilha não tem flores.

— Mas você cham a Mikal de Daem on.

Tersa deu de om bros.

— Às vezes é agradável fazer de conta que estou contando histórias a ele. Jaenelle diz que não faz m al fingir.

Sentiu um calafrio.

— Falou com Jaenelle sobre Daem on?

— É claro que não — disse Tersa, irritada. — Ela ainda não está preparada para saber. Os fios ainda não estão todos no lugar certo.

— Que fios...

— O am ante é o espelho do pai. O irm ão está no m eio. O espelho gira, gira, gira. Sangue. Tanto sangue. Ele se agarra à ilha do talvez. A ponte terá de erguer-se do m ar. Os fios ainda não estão no lugar certo.

— Tersa, onde está Daem on?

Tersa pestanej ou, inspirou tão profundam ente que estrem eceu. Adm irada, olhou-o com um ar severo.

— O nom e do rapaz é Mikal.

Queria gritar: Onde está meu filho? Por que ele não foi para a Fortaleza nem passou por um dos Portões? O que está esperando? Era inútil gritar com ela. Não poderia traduzir o que vira m elhor do que j á tinha feito. Mas, pelo m enos, Saetan conseguira entender um a coisa. Os fios ainda não estavam todos no lugar certo. Até que isso acontecesse, só lhe restava esperar.

— Para que são os galhos, Tersa?

— Galhos? — Tersa olhou para o cesto com os galhos no canto da cozinha. — Não são para nada. — Deu de om bros. — Gravetos?

Tersa afastou-se de Saetan, esgotada pelo esforço de evitar que as pedras da realidade e da loucura triturassem sua alm a.

— Posso fazer algo por você? — perguntou Saetan, preparando-se para sair.

Tersa vacilou.

— Ficaria furioso se eu pedisse.

Neste m om ento, sentia-se incapaz de um a em oção de tal intensidade.

— Não vou m e zangar, prom eto.

— Podia... podia m e abraçar durante um m inuto?

Isso o abalou. Ele, que sem pre ansiara pelo afeto físico, j am ais se lem brara de lhe oferecer um abraço.

Apertou-a j unto a si. Tersa o envolveu com os braços e apoiou a cabeça em seu om bro.

— Não sinto falta do cio, m as é bom ser abraçada por um hom em .

Saetan beij ou suavem ente o cabelo em aranhado.

— E por que não disse antes? Não sabia que queria ser abraçada.

— Agora j á sabe.

 

2 / Kaeleer

Os rum ores se espalharam pelo Conselho das Trevas.

A princípio era apenas um olhar pensativo, um sem blante perturbado. O Senhor Suprem o tinha feito m uitas coisas durante sua longa vida — vej am por exem plo o que fizera ao próprio Conselho para se tornar tutor da garota —, m as era difícil acreditar que seria capaz daquilo. Sem pre insistira que a força de um Território, a força de um Reino, dependia da força das suas feiticeiras, das suas Rainhas. Pensar que poderia fazer aquele tipo de coisas a um a garota vulnerável, a um a j ovem Rainha de Joia escura...

Ah, claro, tinham perguntado sobre a garota antes, m as o Senhor Suprem o sem pre respondera de form a concisa. A garota estava doente. Não podia receber visitas. Estava tendo aulas com professores particulares.

Onde estivera durante os últim os dois anos? Ao que fora subm etida? Jorval tinha certeza?

Não, insistira Lord Jorval, não tinha certeza. Fora apenas um boato espúrio de um em pregado despedido. Não havia razão para desconfiar de que as coisas não eram com o o Senhor Suprem o havia dito. Provavelm ente a garota estava doente, com algum tipo de incapacidade, talvez m uito frágil em ocional ou fisicam ente para suportar visitas.

O Senhor Suprem o nunca tinha se referido à doença de Jaenelle até o m om ento em que o Conselho pediu para vê-la pela prim eira vez.

Jorval afagou a barba escura com a m ão m agra e balançou a cabeça. Não havia qualquer prova. Som ente a palavra de um hom em que tinha desaparecido.

Murm úrios, especulações, rum oressss.

 

3 / O Reino Distorcido

Ele agarrava-se à gram a na ilha do talvez, que se desintegrava, observando os galhos que flutuavam na sua direção. Estavam espaçados uniform em ente com o as placas de um a ponte de corda estendida sobre o m ar interm inável. No entanto, o equilíbrio seria no m ínim o precário, e não havia cordas nas quais se segurar. Se tentasse pisá-las, afundaria no vasto m ar de sangue.

De qualquer form a, afundaria. A ilha continuava a desm oronar. Mais cedo ou m ais tarde, não restaria m uito a que se segurar.

Estava cansado. Estava disposto a deixar-se ser sugado para o fundo.

Os galhos se separaram , rodopiaram e voltaram a j untar-se, e de novo rodopiaram e voltaram a form ar letras toscas.

É meu instrumento.

As palavras mentem. O sangue, não.

Carniceiro filho da puta.

Tentou subir para fugir daquele lado da ilha, m as o lado oposto continuava desm oronando, desm oronando. Restava apenas o espaço suficiente para se deitar, desam parado.

Sob a superfície do m ar de sangue, algo se m oveu, perturbando os galhos e as palavras incessantes. Os galhos rodopiaram em volta da pequena ilha, chocaram -se contra as m argens em desintegração de talvez e am ontoaram -se, form ando um a parede frágil e protetora.

Ele se debruçou na beira da ilha e viu o rosto flutuando, os olhos cor de safira que olhavam para o vazio, o cabelo louro aberto com o um leque.

Os lábios se m exeram . Daemon.

Ele estendeu a m ão e, com delicadeza, retirou o rosto do m ar de sangue. Não era um a cabeça, m as som ente um rosto, tão liso e desprovido de vida com o um a m áscara.

Os lábios voltaram a se m exer. A palavra soou ao suspiro da brisa noturna, com o um a carícia. Daemon.

O rosto se dissolveu, escorreu por entre seus dedos.

Soluçando, ele tentou agarrá-lo, form ar novam ente aquele rosto adorado. Quanto m ais tentava, m ais depressa escorria pelos seus dedos, até nada restar.

Som bras no m ar sanguinolento. O rosto de um a m ulher, repleto de com paixão e com preensão, em oldurado por um a m assa de cabelos pretos em baraçados.

Espere, disse ela. Espere. Os fios ainda não estão no lugar certo.

Desapareceu na ondulação.

Finalm ente havia algum a coisa fácil para fazer, algo que não im plicava dor nem m edo.

Tentando arranj ar um a posição confortável, iniciou a espera.

 

4 / Kaeleer

Saetan se perguntou se haveria algo de errado com as estantes atrás da m esa ou se seu m ordom o estaria com algum problem a, visto que Beale estava parado de pé, com o olhar fixo, há quase um m inuto.

— Senhor Suprem o — disse Beale, com rispidez, sem tirar o olhar das estantes.

— Beale — respondeu Saetan, cautelosam ente.

— Há um Senhor da Guerra lá fora querendo vê-lo.

Saetan pôs os óculos com cuidado em cim a dos papéis que cobriam a m esa, entrelaçando as m ãos para que não trem essem .

— Parece com m edo de algum a coisa?

Os lábios de Beale trem eram .

— Não, Senhor Suprem o.

Saetan afundou-se na cadeira.

— Graças às Trevas. Pelo m enos o que o traz aqui não tem nada a ver com algo que as garotas tenham feito.

— Creio que as senhoras nada têm a ver com o assunto, Senhor Suprem o.

— Sendo assim , m ande-o entrar.

O Senhor da Guerra que entrou no escritório era dois palm os m ais alto do que Saetan, duas vezes m ais largo e m uito m usculoso. Suas m ãos eram tão grandes que poderiam esm agar o crânio de um a pessoa. Parecia um daqueles hom ens que arrancam aquilo que querem da terra ou de outras pessoas. Contudo, por baixo daquele corpo sólido e pesado e atrás da voz estrondosa havia um coração cheio de um a ingênua alegria, e um a alm a sensível dem ais para suportar um tratam ento m ais severo.

Era Duj ae. Há quinhentos anos, era o artista m ais renom ado de Kaeleer. Agora ele era um dem ônio.

Saetan reconheceu que seria hipocrisia se zangar com Duj ae por vir à sua casa, um a vez que Mephis, Andulvar e Prothvar passavam boa parte do seu tem po no Paço desde que Jaenelle tinha voltado com ele, e todos tinham contato com as crianças. Ainda assim , m anter o Reino das Trevas separado dos Reinos dos vivos fora sem pre um a dança no fio da navalha e Saetan tinha a consciência de que, m esm o quando ainda era vivo, tinha um pé de cada lado desse fio. Naquele m om ento, com todas as crianças passando o verão no Paço e com o Conselho das Trevas pressionando-o por um a audiência com Jaenelle, ter de lidar com dem ônios que iam até Kaeleer era m ais do que conseguia suportar.

— Faço audiências duas vezes por m ês no Inferno para aqueles que desej am falar com igo — disse friam ente. — Você não tem nada o que fazer aqui, Lord Duj ae.

Duj ae baixou os olhos enquanto seus dedos com pridos e grossos puxavam a aba do quepe azul e puído que segurava.

— Eu sei, Senhor Suprem o. Peço desculpas. Não deveria ter vindo aqui, m as não pude esperar.

Mas Saetan podia e assim o fez.

Duj ae am assou o quepe com as m ãos. Quando levantou os olhos, neles só havia desespero.

— Estou tão cansado, Senhor Suprem o. Não há m ais nada para pintar, ninguém para ensinar, com quem partilhar. Não há obj etivo, alegria. Não há nada. Por favor, Senhor Suprem o.

Saetan fechou os olhos, esqueceu a irritação. Às vezes, acontecia. O Inferno era um Reino frio, cruel, danado, em bora tivesse sua dose de bondade. Era neste lugar que os Sangue podiam se reconciliar com suas vidas, um tem po suspenso em que se resolviam assuntos pendentes. Alguns nada faziam com essa últim a benesse, suportando sem anas ou anos ou séculos de tédio até finalm ente sum irem nas Trevas. Outros dedicavam esse tem po para desenvolver talentos que negligenciaram enquanto vivos ou aos quais tinham renunciado para poderem seguir outro cam inho. Outros ainda, interrom pidos antes de chegarem ao fim , continuavam com o tinham vivido. Duj ae m orrera no seu apogeu, repentina e inesperadam ente. Ao perceber que ainda podia pintar, havia aceitado ser dem ônio-m orto com um coração feliz.

Pedia agora a Saetan que o libertasse da carne sem vida, que consum isse o que restava da sua energia psíquica, deixando que se tornasse um sussurro nas Trevas.

Às vezes, acontecia. Não era m uito frequente, felizm ente, m as às vezes o desej o de seguir adiante se extinguia antes da energia psíquica. Quando isso acontecia, o dem ônio o procurava e solicitava um a libertação rápida. E sendo ele o Senhor Suprem o, honrava esses pedidos.

Saetan abriu os olhos e pestanej ou vigorosam ente para desanuviar a visão.

— Duj ae, tem certeza?

— Tenho...

Karla entrou de rom pante no escritório.

— Aquele rato de esgoto arrogante e exibido, com tanto perfum e que não se aguenta, está dizendo que m eu desenho não é bom ! — Seus olhos se encheram de lágrim as ao atirar a prancheta de desenho em cim a da m esa de Saetan.

Saetan fez desaparecer os óculos antes que a prancheta caísse em cim a deles.

— É um cretino cheio de m erda na cabeça — lam uriou-se Karla. — Essa não é a obra da m inha vida, não é o m eu talento. Era para ser divertido!

Saetan levantou-se da cadeira. Tinham sido tantos os professores que entravam e saíam nas últim as três sem anas que j á nem se lem brava do nom e deste idiota, m as, se conseguia levar Karla às lágrim as, com certeza estaria arrasando Kalush e Morghann, sem falar em Jaenelle.

Duj ae estendeu a m ão para a prancheta de desenho.

— Não! — Karla tentou agarrar a prancheta, m uito abalada para se lem brar de que podia fazê-la desaparecer antes de Duj ae alcançá-la.

A testa de Karla bateu no braço de Duj ae. Ela caiu para trás, indo de encontro a Saetan. Ele envolveu-a com os braços e rangeu os dentes, odiando a angústia que j orrava da garota.

Duj ae estudou o desenho, m exendo a cabeça devagar.

— É terrível — resm ungou, folheando as páginas para ver os desenhos anteriores. — Obsceno — bradou. Balançou a prancheta na direção de Karla. — Você o cham ou de rato de esgoto? É m uito bondosa, senhora. É um ...

— Duj ae — advertiu Saetan, prim eiro porque provavelm ente ensinaria a Karla um a expressão bastante forte, e depois porque sentiu que Karla havia se anim ado.

Duj ae olhou para Saetan e respirou fundo.

— Não é um bom instrutor — concluiu de m odo pouco convincente.

Karla fungou.

— Você tam bém acha que m eus desenhos não são bons.

Duj ae folheou as páginas até o últim o esboço.

— O que é isto? — perguntou, batendo com o dedo no papel.

Karla endireitou os om bros e sem icerrou os olhos.

Saetan reprim iu um m urm úrio de desagrado e se preparou.

— É um a j arra — disse com frieza.

— Jarra. Bah! — Duj ae arrancou a página da prancheta, am assou-a e atirou-a por cim a do om bro. Apontou para Karla.

Será que Duj ae tinha noção de com o seu dedo estava perto dos dentes de Karla?

— Você é Rainha, não é? — continuou Duj ae, bem alto. — Dedica-se a esta ocupação por diversão, depois de term inarem as aulas difíceis de Arte, não é? Faz isso porque as senhoras devem aprender as m ais variadas habilidades para se tornarem boas Rainhas, não é? Você não faz desenhos educadinhos. — Encolheu os om bros, contraiu o rosto, pousou o queixo no pulso e fez pequenos m ovim entos, com o se estivesse rabiscando. — Bah! — Arrancou Karla dos braços de Saetan, fez a m enina se virar, agarrou sua a m ão e com eçou a fazer m ovim entos am plos, circulares. — Há fogo no seu coração, não é? Esse fogo precisa de carvão e de um grande bloco para se expressar. Depois, quando quiser desenhar um a j arra, irá desenhar um a j arra.

— M-m as... — balbuciou Karla, observando sua m ão fazendo círculos.

— Aquela j arra que você tentou desenhar é a j arra de outra pessoa. Utilize-a com o m odelo. Os m odelos são úteis. Mas depois, desenhe a SUA JARRA, aquela que revelar o seu fogo, a que disser sou feiticeira, sou Rainha, sou... — Duj ae hesitou, por fim .

— ... Karla — disse ela, m ansam ente.

— KARLA! — bradou Duj ae.

— O que está acontecendo? — perguntou Jaenelle da soleira da porta. Gabrielle estava ao seu lado.

Saetan apoiou-se no canto da m esa e cruzou os braços, conform ado com o que quer que suas queridinhas estivessem prestes a fazer.

Ao ver as outras garotas, Duj ae soltou Karla e recuou.

— Tem os carvão? — perguntou Karla, lim pando as lágrim as.

— Tem os, m as Lord Chato diz que o carvão é im undo e inadequado para um a dam a — disse Gabrielle com sarcasm o na voz.

Saetan olhou fixam ente para Gabrielle e perguntou-se que tipo de idiota ele m esm o teria contratado com o professor de artes.

Foi nesse m om ento que sentiu-se tonto. Agarrou-se à m esa, esforçando-se para não perder os sentidos. Isso nunca havia acontecido. Seria um a péssim a hora para com eçar a acontecer.

Com as outras garotas em volta, não havia reconhecido o triângulo de poder. Karla, Gabrielle, Jaenelle. Três Rainhas poderosas que eram , ao m esm o tem po, Viúvas Negras.

Que as Trevas sejam misericordiosas, pensou. Esse trio seria capaz de despedaçar qualquer coisa ou qualquer pessoa — ou construir o que quisesse.

— Senhor Suprem o?

Saetan pestanej ou. Respirou fundo. Os pulm ões ainda funcionavam , de certo m odo. Tendo agora a certeza de que não cairia para o lado, olhou em volta. Duj ae era o único que restava na sala.

Duj ae retorceu o quepe.

— Eu não queria interferir.

— Agora é tarde dem ais — resm ungou Saetan, entre dentes.

Na porta do escritório, apareceram três cabeças louras.

— Ei — disse Karla. — Já tem os o carvão e as pranchetas grandes. Você não vem ?

Duj ae continuou a retorcer o quepe.

— Não posso, senhoras.

— E por que não? — perguntou Jaenelle, enquanto as três entravam no escritório.

Duj ae olhou suplicante para Saetan, que se recusava a olhar para outra coisa além dos próprios sapatos.

— Eu... sou Duj ae, senhora.

Jaenelle pareceu satisfeita.

— Você pintou a Descida aos Infernos.

Duj ae arregalou os olhos.

— Por que não nos dá aulas de desenho? — perguntou Gabrielle.

— Sou dem ônio.

Silêncio.

Karla inclinou os quadris e cruzou os braços.

— Não m e digam que há um a regra que só perm ite o ensino do desenho à luz do dia. Além disso, o sol j á se levantou e você está aqui.

— Isso se deve ao fato de o Paço reter energia negra suficiente para que a luz do sol não incom ode os dem ônios-m ortos quando estão aqui — explicou Jaenelle.

— Sendo assim , não há problem a — disse Karla

— E, se não quiser vir aqui durante o dia, velas e bolas de fogo encantado poderiam ilum inar um a sala de m aneira satisafatória — disse Gabrielle.

Duj ae olhou, im potente, para Saetan, que continuava exam inando os sapatos.

— Seu ego é tão grande que você se acha bom dem ais para dar aulas a um as feiticeirazinhas? — perguntou Karla, com um a doçura m aliciosa.

— Grande? Não, não, senhoras, seria um a honra, m as...

— Mas? — perguntou Jaenelle suavem ente, com sua voz som bria.

Duj ae sentiu calafrios. Saetan se arrepiou.

— Sou dem ônio.

Silêncio.

Por fim , Karla bufou.

— Se não quer nos dar aulas, basta dizer, m as pare de inventar desculpas esfarrapadas.

E dito isto foram em bora, fechando a porta do escritório ao sair.

Duj ae retorceu o quepe.

Saetan fitava os sapatos.

— Duj ae — disse, calm am ente —, é preciso ter um a personalidade forte, em bora sensível, para lidar com estas j ovens dam as, para não falar de talento. Caso queira se tornar professor de artes delas, posso lhe pagar um salário que, reconheço, não será de grande utilidade no Reino das Som bras, ou pode adicionar os m ateriais que quiser para seus próprios proj etos à lista de m ateriais que vai elaborar para elas. No entanto, se decidir recusar — olhou Duj ae nos olhos —, você pode ir até lá e explicar isso a elas pessoalm ente.

O pânico invadiu os olhos de Duj ae. Só havia um a porta para sair do escritório.

— Mas, Senhor Suprem o, sou dem ônio.

— Elas não pareceram se im portar, não é?

Duj ae cedeu.

— Não. — Em seguida, deu de om bros e sorriu. — Há m uito tem po não pinto retratos, e elas têm rostos interessantes, não é verdade? E m uito fogo para deperdiçar em desenhos delicados.

Saetan aguardou m eia hora antes de se dirigir lentam ente ao salão principal. Mantendo-se à distância, observou o grupo.

As garotas estavam sentadas no chão, em círculo, desenhando um a natureza-m orta com posta por um a j arra, um a m açã e um a caixinha de j oias. Duj ae estava agachado j unto a Kalush, explicando algum a coisa num m urm úrio surdo, e depois se virou para Morghann, que tinha um pedaço de carvão suspenso sobre a prancheta.

Jaenelle pousou a prancheta, lim pou os dedos com a toalha que dividia com Karla e foi até Saetan, sorridente, um a criança-m ulher encantadora e encantada com seu próprio esforço criativo.

Saetan colocou o braço em volta da cintura da filha.

— Diga a verdade, criança-feiticeira — disse baixinho. — O outro professor era realm ente fraco?

Jaenelle deslizou o dedo pela corrente de ouro que continha a Joia Verm elha de Direito por Progenitura de Saetan.

— Não era adequado para nós, para nenhum a de nós, e...

Não a deixaria baixar a cabeça, não a deixaria esconder os olhos que estava aprendendo a decifrar tão bem , que tanto lhe transm itiam .

— E?

— Tinha m edo de m im — sussurrou. — Não era só de m im — corrigiu rapidam ente. — Não gostava de conviver com Rainhas. Até Kalush o incom odava. Por isso, estava sem pre dizendo coisas do tipo: “dam as”, façam isto e “dam as”, não façam aquilo. Fogo do Inferno, Saetan, não som os “dam as”, não querem os ser “dam as”. Som os feiticeiras.

Ele envolveu-a nos braços.

— Por que não m e disse antes? — Parecia que esta pergunta estava surgindo com m uita frequência, ultim am ente.

Jaenelle deu de om bros.

— Tam bém não chegam os a dizer que os professores de m úsica e de dança partiram subitam ente esta sem ana.

Saetan soltou um riso abafado.

— Bom , de qualquer form a parece que aulas e verão não são um a com binação m uito adequada. — Beij ou seus cabelos. — Duj ae veio até aqui porque queria ser libertado.

— Não era bem isso que ele queria. Só precisava de algum a coisa que voltasse a despertar seu interesse.

Saetan observou Duj ae andando em volta do círculo, gesticulando, encoraj ando, fazendo caretas enquanto olhava para o desenho de Karla, para depois dizer algo que a fez rir. Em seus olhos j á não havia m ais desespero, j á não restavam indícios do sofrim ento que o tinha levado a procurar o Senhor Suprem o.

— Não som os titereiros, criança-feiticeira — m urm urou Saetan. — Som os poderosos, m as tem os de ter cuidado ao m anipular os fios para fazer com que outros dancem .

— Depende da razão que nos leva a puxar os fios, não acha? — Olhou-o com aqueles olhos antigos cor de safira e sorriu. — Além disso, apenas fizem os pouco caso de um a desculpa tola. Se fosse m esm o a hora dele, teria ido.

Voltou ao seu lugar no chão, com Karla à direita e Gabrielle à esquerda.

Saetan regressou ao escritório e aqueceu um a taça de y arbarah.

Titereiros. Manipuladores. Hekatah e seus esquem as. Jaenelle e sua sensibilidade em relação a outros corações. Com o era delicada e frágil aquela linha, em que a única diferença era o propósito.

Um a linha fina, frágil.

E agora?

 

5 / Kaeleer

Jaenelle pegou um frasquinho e bateu com o dedo, fazendo cair três pequenos grãos de cor azul arroxeada na grande tigela de vidro sobre a m esa de trabalho.

— Por que os m em bros do Conselho das Trevas estão vindo aqui?

Saetan fitou o líquido espesso e efervescente que preenchia um terço da tigela, esperando sinceram ente que não fosse um novo tônico.

— Com o foi o Conselho que m e concedeu sua tutela legal, querem ver com o vivem os.

— Se são m em bros do Conselho, tam bém são Sangue e usam Joias. Deveriam saber com o vivem os. — Jaenelle pegou um frasquinho com pó verm elho e ergueu-o contra a luz.

Saetan cruzou os braços e se encostou na parede. Não queria nem podia lhe contar sobre o últim o “pedido” do Conselho. Sua forte insistência havia tornado fácil ler as entrelinhas. Não vinham apenas fazer um a breve visita a um tutor e à m enor a seu cargo. Vinham j ulgá-lo.

— Não preciso usar vestido, não é? — resm ungou Jaenelle, m ergulhando o dedo m indinho no frasco com o pó verm elho. Usando a unha com o colher, lançou o pó na tigela.

Saetan m ordeu a língua antes de deixar escapar a m entira.

— Não. Disseram que queriam ver um a tarde norm al.

Jaenelle olhou por cim a do om bro.

— Algum a vez tivem os um a tarde norm al?

— Não — respondeu Saetan, desoladam ente. — Passam os tarde típicas, m as acho que ninguém as consideraria norm ais.

O riso prateado e aveludado preencheu o am biente.

— Pobre papai. Bem , j á que não tenho de m e arrum ar nem de sorrir afetadam ente, tentarei não ofender suas frágeis sensibilidades. — Deu a ele um frasquinho de pó preto. — Acrescente um a pitada à tigela e se afaste.

O estôm ago de Saetan estava se revirando.

— E depois o que acontece?

Jaenelle j untou os dedos.

— Bem , se eu tiver m isturado os pós na proporção correta, vai aparecer um a ilusão im pressionante.

Saetan olhou para a filha que sorria nervosam ente para a tigela na m esa e, em seguida, para o frasquinho que segurava na m ão.

— E se a proporçõão estiver errada?

— A m esa vai explodir.

Um a hora depois, deitado num a banheira de água quente tentando pôr fim à dor nos m úsculos, sentia-se com pelido a lhe dar as notas m ais altas pelos rápidos reflexos e pela força dos escudos de proteção. Tirando o fato de tê-los j ogado no chão, a explosão não tinha danificado nada no escritório — com exceção da tigela de vidro e da m esa. E ele tinha de adm itir que a form a que havia com eçado a em erigir da tigela era im pressionante.

Dali a dois dias, o Conselho das Trevas visitaria o Paço. Pretendia tratá-los com cortesia e tolerar sua presença, um a vez que, no fim de contas, não im portava o que pensavam . Ninguém tiraria Jaenelle dali. Se o Conselho tivesse de aprender essa lição m ais um a vez, assim seria.

Duvidava que as coisas chegassem a esse ponto. Recordando o assom bro entre o m om ento em que a form a com eçou a am ergir da neblina e a m esa explodiu, soltou um gem ido que se transform ou num riso abafado. O Conselho das Trevas queria passar um a tarde norm al com Jaenelle?

Os pobres idiotas não sobreviveriam .