A Herdeira das Sombras

Anne Bishop · Capítulo 5 de 22

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A Herdeira das Sombras

Primeira Parte

 

CAPÍTULO UM

 

1 / Terreille

Cercado por guardas, o m estiço Lucivar Yaslana, Príncipe Ey rieno dos Senhores da Guerra, dirigiu-se ao pátio, certo de que ouviria a ordem para a sua execução. Não havia qualquer outro m otivo para que um escravo das m inas de sal fosse trazido àquele lugar, e Zuultah, a Rainha de Pruul, tinha bons m otivos para querê-lo m orto. Pry thian, a Sacerdotisa Suprem a de Askavi, desej ava m antê-lo vivo, na esperança de que ainda conseguisse transform á-lo num reprodutor. Mas não era Pry thian quem estava no pátio ao lado de Zuultah.

Era Dorothea SaDiablo, a Sacerdotisa Suprem a de Hay ll.

Lucivar abriu as asas negras e m em branosas em toda a sua envergadura, aproveitando a brisa do deserto para secá-las.

Lady Zuultah olhou de relance para o Mestre da Guarda. Logo em seguida, o chicote deste assobiou pelo ar, penetrando profundam ente nas costas de Lucivar.

Lucivar silvou por entre os dentes cerrados e fechou as asas.

— Qualquer outro ato de provocação vai lhe custar cinquenta chicotadas — disse Zuultah com rispidez e, em seguida, virou-se para falar com Dorothea SaDiablo em voz baixa.

O que estariam tram ando?, perguntou-se Lucivar. O que teria feito Dorothea deixar seu covil em Hay ll? E quem seria o irritado Príncipe de Joia Verde afastado das m ulheres, segurando um tecido dobrado?

Enviando cautelosam ente um a sonda psíquica, Lucivar detectou todos os odores em ocionais. Em Zuultah havia entusiasm o e a m aldade de hábito. De Dorothea em anava ansiedade e m edo. Sob a raiva do Príncipe desconhecido havia sofrim ento e culpa.

O m edo de Dorothea era o m ais interessante, um a vez que significava que Daem on Sadi ainda não tinha sido recapturado.

Um sorriso cruel e satisfeito torceu os lábios de Lucivar.

Reparando no sorriso, o Príncipe de Joia Verde tornou-se agressivo.

— Estam os perdendo tem po — disse bruscam ente, dando um passo na direção de Lucivar.

Dorothea voltou-se para eles.

— Príncipe Alexander, estes assuntos têm de ser tr...

Philip Alexander desdobrou o pedaço de tecido.

Lucivar olhou com assom bro para o lençol m anchado. Tanto sangue. Sangue dem ais. O sangue era o rio que corria — e o fio psíquico. Se enviasse um a sonda psíquica e tocasse aquela m ancha...

Algo em seu íntim o se aquietou e tornou-se frágil.

Lucivar forçou-se a retribuir o olhar fixo e hostil de Philip Alexander.

— Há um a sem ana, Daem on Sadi raptou m inha sobrinha de doze anos e levou-a para o Altar de Cassandra, onde a violou e a esquartej ou. — Philip m oveu os pulsos, fazendo com que o lençol balançasse.

Lucivar engoliu em seco, tentando conter a náusea. Balançou a cabeça lentam ente.

— Isso é im possível — disse, m ais para si m esm o do que para Philip. — Ele não seria capaz... Nunca foi capaz de fazer um a coisa dessas.

— Talvez antes não houvesse sangue suficiente — retrucou Philip. — Este sangue é de Jaenelle e Sadi foi reconhecido pelos Senhores da Guerra que tentaram socorrê-la.

Lucivar virou-se com relutância para Dorothea.

— Tem certeza?

— Me disseram , infelizm ente, tarde dem ais, que Sadi desenvolveu um interesse anorm al pela criança. — Dorothea deu de om bros ligeiram ente, com um gesto elegante. — Talvez tenha ficado ofendido quando ela tentou se esquivar. Você sabe tão bem quanto eu do que é capaz quando está enfurecido.

— Encontraram o corpo?

Dorothea hesitou.

— Não. Isto foi tudo que os Senhores da Guerra encontraram — apontou para o lençol. — Mas não precisa acreditar em m im . Vej am os se tem estôm ago para aguentar o que aquele sangue encerra.

Lucivar respirou fundo. A vagabunda estava m entindo. Sem dúvida estava m entindo. Porque, doces Trevas, se não estivesse...

Haviam oferecido a Daem on sua liberdade caso assassinasse Jaenelle. Ele recusara — ou pelo m enos foi o que disse. Mas e se fosse m entira?

Logo depois de abrir a m ente e tocar no lençol m anchado de sangue, Lucivar caiu de j oelhos e pôs para fora o parco café da m anhã que havia tom ado um a hora antes. Trem ia, e, ao m esm o tem po, algum a coisa no seu íntim o se quebrava.

Maldito Sadi. Maldita sej a sua alm a nas entranhas do Inferno. Era um a criança! O que poderia ter feito para m erecer tal coisa? Era a Feiticeira, o m ito vivo. Era a Rainha a quem tinham sonhado servir. Era a sua gatinha assanhada. Maldito seja, Sadi!

Os guardas levantaram Lucivar.

— Onde está ele? — questionou Philip Alexander.

Lucivar fechou os olhos dourados para não ter de olhar para o lençol. Nunca se sentira tão abatido, tão exausto. Nem quando era um rapaz m estiço nos cam pos de caça ey rienos, nem nas interm ináveis cortes onde, desde então, tinha servido ao longo dos séculos, nem m esm o aqui em Pruul, com o um dos escravos de Zuultah.

— Onde ele está? — Philip voltou a perguntar.

Lucivar abriu os olhos.

— Em nom e do Inferno, com o é que eu vou saber?

— Quando os Senhores da Guerra perderam seu rasto, Sadi estava vindo para sudeste... em direção a Pruul. Sabe-se que...

— Ele não viria para cá. — Aquilo que se quebrara no seu íntim o com eçou a se inflam ar. — Não se atreveria.

Dorothea SaDiablo dirigiu-se a Lucivar.

— Por que não? Vocês aj udaram um ao outro no passado. Não há qualquer razão...

— Existe um a razão — disse Lucivar ferozm ente. — Se eu vir aquele desgraçado de novo vou lhe arrancar o coração!

Dorothea recuou, abalada. Zuultah observava-o com cautela.

Philip Alexander baixou os braços devagar.

— Foi declarado potencialm ente perigoso. Sua cabeça está a prêm io. Quando for encontrado...

— Ele será punido — interrom peu Dorothea.

— Será executado! — respondeu Philip acaloradam ente.

Seguiu-se um m om ento de silêncio pesado.

— Príncipe Alexander — ronronou Dorothea —, até os habitantes de Chaillot deveriam saber que, entre os Sangue, não existe qualquer lei que proíba o hom icídio. Se você não teve bom -senso suficiente para evitar que um a criança em ocionalm ente perturbada brincasse com um Príncipe dos Senhores da Guerra da índole de Sadi... — Deu de om bros delicadam ente. — Bem , talvez a criança tenha tido o que m erecia.

Philip em palideceu.

— Ela era um a boa m enina — disse, m as a voz estrem eceu com um a insinuação de dúvida.

— Sim — ronronou Dorothea. — Um a boa m enina. Tão boa que a fam ília de tem pos em tem pos a m andava para longe, para ser... reeducada.

Criança em ocionalm ente perturbada. As palavras eram um fole que atiçava o fogo em Lucivar, transform ando-o em raiva gélida. Criança em ocionalm ente perturbada. Fique longe de mim, Bastardo. É melhor ficar longe de mim, pois, se tiver oportunidade, corto você em pedacinhos.

Em certo m om ento, Zuultah, Dorothea e Philip retiraram -se a fim de prosseguir a discussão nos recessos m ais frescos da casa de Zuultah. Lucivar não reparou. Quase nem se deu conta de estar sendo levado para as m inas de sal, m al notou a picareta nas m ãos, quase nem sentiu a dor quando o suor escorreu para a nova ferida de chicote nas costas.

Tudo o que via era o lençol m anchado de sangue.

Lucivar bateu com a picareta.

Mentiroso.

Não via a parede nem o sal. Via o peito m oreno e dourado de Daem on, via o coração batendo sob a pele.

Melífluo... educado na corte... mentiroso!

 

2 / Inferno

Andulvar sentou-se de lado num canto da grande m esa de m adeira escura.

Saetan levantou os olhos da carta que estava escrevendo.

— Achei que ia voltar para o seu ninho na colina.

— Mudei de ideia. — O olhar de Andulvar vagueou pelo escritório, detendo-se, por fim , no retrato de Cassandra, a Rainha de Joia Negra que cam inhara nos Reinos havia m ais de 50 m il anos. Cinco anos antes, Saetan tinha descoberto que Cassandra forj ara a derradeira m orte e que havia se tornado um a Guardiã a fim de aguardar a Feiticeira seguinte.

E vej am só o que aconteceu à Feiticeira seguinte, pensou Andulvar desanim ado. Jaenelle Angelline era um a criança poderosa e extraordinária, m as, ainda assim , tão vulnerável com o qualquer outra criança. Todo aquele poder não tinha im pedido que fosse esm agada por segredos de fam ília sobre os quais Andulvar e Saetan podiam apenas conj ecturar, assim com o pelas m aquinações m aldosas de Dorothea e de Hekatah com o obj etivo de elim inar a única rival que poderia pôr fim ao j ugo que exerciam no Reino de Terreille. Ele não tinha dúvida de que eram elas que estavam por trás da brutalidade que havia levado o espírito de Jaenelle a abandonar o corpo.

Tarde dem ais para evitar a violação, um a am iga conseguiu resgatar Jaenelle e levou-a para o Altar de Cassandra. Foi então que Daem on Sadi, auxiliado por Saetan, conseguiu fazer com que a m enina saísse do abism o psíquico por tem po suficiente para curar os próprios ferim entos físicos. Contudo, quando os Senhores da Guerra de Chaillot chegaram para “resgatá-la”, ela entrou em pânico e fugiu novam ente para o abism o.

Seu corpo se recuperava lentam ente, m as só as Trevas sabiam onde estava o seu espírito — ou se algum dia regressaria.

Afastando tais pensam entos, Andulvar olhou para Saetan, respirou fundo e expirou devagar.

— É a sua carta de dem issão do Conselho das Trevas?

— Já devia ter feito isso há m uito tem po.

— Você sem pre insistiu que era bom ter alguns dem ônios-m ortos a serviço do Conselho, porque eles possuíam experiência m as nenhum interesse pessoal nas decisões.

— Bem , o m eu interesse nas decisões do Conselho é bastante pessoal agora, não é? — Depois de assinar o nom e com o floreado habitual, Saetan pôs a carta num envelope e selou-o com cera preta. — Pode entregar a carta para m im ?

Andulvar recebeu o envelope com relutância.

— E se o Conselho das Trevas decidir procurar a fam ília dela?

Saetan recostou-se na cadeira.

— O Conselho das Trevas não se reúne em Terreille desde a últim a guerra entre os Reinos. Não existe qualquer razão para o Conselho de Kaeleer procurar fora dos lim ites do Reino das Som bras.

— Se verificarem os registros de Ebon Askavi, vão descobrir que não nasceu em Kaeleer.

— Com o bibliotecário da Fortaleza, Geoffrey j á concordou em não encontrar qualquer entrada de grande utilidade que possa levar a Chaillot. Além do m ais, Jaenelle nunca foi registrada; o que não vai acontecer até que exista um a razão para isso.

— Você vai ficar na Fortaleza?

— Sim .

— Até quando?

Saetan hesitou.

— Até quando for preciso. — Ao ver que Andulvar não fazia m enção de sair, perguntou: — Mais algum a coisa?

Andulvar fixou os olhos na elegante caligrafia m asculina na parte da frente do envelope.

— Há um dem ônio lá em cim a na recepção que solicitou um a audiência com você. Diz que é im portante.

Saetan levantou-se, em purrando a cadeira para trás e pegou a bengala.

— Todos dizem isso quando têm coragem suficiente para vir aqui. Quem é ele?

— Nunca o vi antes — disse Andulvar. Em seguida, acrescentou com relutância:

— É novo no Reino das Trevas e é de Hay ll.

Saetan contornou a m esa, m ancando.

— O que quer com igo então? Há setecentos anos que não tenho nada a ver com Hay ll.

— Ele não quis revelar a razão da visita. — Andulvar fez um a pausa. — Não gosto dele.

— É claro — retrucou Saetan com frieza. — É hay lliano.

Andulvar balançou a cabeça.

— É m ais do que isso. Parece estar apodrecendo.

Saetan ficou im óvel.

— Nesse caso, vam os lá falar com o nosso Irm ão hay lliano — disse, com um a docilidade m aldosa.

Andulvar não conseguiu reprim ir o arrepio que o percorreu da cabeça aos pés. Felizm ente, Saetan j á estava a cam inho da porta e não reparou. Eram am igos havia m ilhares de anos, tinham servido j untos, rido j untos, sofrido j untos. Andulvar não queria ofendê-lo só porque, às vezes, até m esm o os am igos tem iam o Senhor Suprem o do Inferno.

Porém , quando Saetan abriu a porta e olhou para ele, Andulvar vislum brou nos seus olhos o faiscar de raiva diante do arrepio. E o Senhor Suprem o saiu do escritório ao encontro do tolo que o aguardava.

 

O Senhor da Guerra hay lliano, dem ônio-m orto havia pouco tem po, aguardava em pé no centro da sala de recepção, com as m ãos atrás das costas. Estava todo vestido de preto, incluindo um lenço de seda preta enrolado no pescoço.

— Senhor Suprem o — disse, com um a reverência respeitosa.

— Não conhece sequer as reverências m ais básicas ao se aproxim ar de um Senhor da Guerra desconhecido? — perguntou Saetan com toda a calm a.

— Senhor Suprem o? — balbuciou o hom em .

— Um hom em deixa as m ãos à m ostra, a m enos que esconda um a arm a — explicou Andulvar ao entrar na sala. Abriu as asas negras, bloqueando a porta por com pleto.

Com o um relâm pago, a fúria surgiu no rosto do Senhor da Guerra e logo desapareceu. Ele estendeu os braços à sua frente.

— As m inhas m ãos não têm grande utilidade.

Saetan olhou de relance para as m ãos cobertas por luvas pretas. A direita não passava de um a garra distorcida. Na esquerda, faltava um dedo.

— Com o se cham a?

O Senhor da Guerra hesitou por um m om ento dem asiado longo.

— Greer, Senhor Suprem o.

Até m esm o o nom e do hom em conspurcava o ar de algum a form a. Não, não era apenas o hom em , em bora o fedor de carne em decom posição só fosse desaparecer dentro de algum as sem anas. Havia algo m ais. O olhar de Saetan foi atraído para o lenço de seda preta. Suas narinas dilataram -se ao sentir o odor do qual se recordava com dem asiada clareza. Pois bem . Hekatah ainda apreciava aquele perfum e.

— O que quer, Senhor Greer? — perguntou Saetan, j á sabendo por que Hekatah enviaria alguém para vê-lo. Esforçou-se por ocultar a raiva gélida que ardia no seu interior.

Greer fitou o chão.

— Eu... gostaria de saber se tem notícias da j ovem feiticeira.

A sala ficou tão agradavelm ente gelada, tão encantadoram ente som bria. Bastaria um único pensam ento, um sim ples ataque com a m ente, um leve toque da força da Joia Negra, e aquele Senhor da Guerra seria reduzido a pó.

— Eu governo o Inferno, Greer — afirm ou Saetan com falsa delicadeza. — Por que deveria m e preocupar com um a feiticeira hay lliana, j ovem ou não?

— Ela não era de Hay ll. — Greer hesitou. — Pensei que fosse sua am iga.

Saetan ergueu um a sobrancelha.

— Minha am iga?

Greer um edeceu os lábios. As palavras saíram num a torrente.

— Fui destacado para a em baixada hay lliana em Beldon Mor, a capital de Chaillot, e tive o privilégio de conhecer Jaenelle. Quando os problem as com eçaram , traí a confiança da Sacerdotisa Suprem a de Hay ll e aj udei Daem on Sadi a levar a m enina para um local seguro. — A m ão esquerda rem exia no lenço em volta do pescoço, e por fim o retirou. — Esta foi a m inha recom pensa.

Canalha mentiroso, pensou Saetan. Se não tivesse seus próprios planos para aquela carcaça am bulante, teria rom pido a m ente de Greer e descoberto o papel que o hom em realmente desem penhara.

— Conheci a m enina — rosnou Saetan ao cam inhar em direção à porta.

Greer deu um passo em frente.

— Conheceu? Está...

Saetan deu m eia-volta.

— Ela cam inha entre as cildru dyathe!

Greer fez um a reverência com a cabeça.

— Que as Trevas sej am m isericordiosas.

— Saia. — Saetan pôs-se de lado, para evitar contato. Não queria ser m aculado pelo hom em .

Andulvar fechou as asas e acom panhou Greer até a porta do Paço. Retornou alguns m inutos depois, parecendo preocupado. Saetan olhou-o fixam ente, j á sem se im portar se seus olhos deixavam transparecer raiva e ódio.

Andulvar colocou-se num a posição ey riena de com bate, com os pés afastados para se equilibrar e as asas ligeiram ente abertas.

— Você sabe que essa declaração vai se espalhar pelo Inferno m ais rápido do que o cheiro de sangue fresco.

Saetan agarrou a bengala com as duas m ãos.

— Estou m e lixando para isso, contanto que o canalha repasse a inform ação à vagabunda que o m andou aqui.

 

— Ele disse isso? Disse m esm o isso?

Afundado na única cadeira da sala, Greer acenou penosam ente em sinal afirm ativo.

Hekatah, a autoproclam ada Sacerdotisa Suprem a do Inferno, ziguezagueava pela sala, os longos cabelos negros esvoaçando quando se virava.

Era ainda m elhor do que a destruição pura e sim ples da criança. Agora, com a m ente destroçada e o corpo despedaçado e sem vida, a m enina representaria um a faca invisível no peito de Saetan, sem pre a se retorcer, um lem brete constante de que ele não era o único poder a enfrentar.

Hekatah parou de andar de um lado para outro, inclinou a cabeça para trás e levantou os braços em sinal de triunfo.

— Ela cam inha entre as cildru dyathe!

Deixando-se cair no chão em um m ovim ento gracioso, encostou-se num braço da cadeira de Greer e afagou suavem ente sua face.

— E você, m eu querido, foi o responsável por isso. Ela agora j á não tem qualquer utilidade para ele.

— E tam bém j á não tem qualquer utilidade para você, Sacerdotisa.

Hekatah fez um beicinho provocante, com os olhos dourados cintilando de m alícia.

— Já não tem utilidade para os m eus planos originais, m as será um a arm a m agnífica contra aquele filho da puta.

Ao reparar na expressão vazia de Greer, Hekatah levantou-se, sacudindo a poeira do vestido ao m esm o tem po que em itia um silvo de irritação.

— O seu corpo está m orto, m as a sua m ente, não. Tente pensar, m eu querido Greer. Quem m ais estava interessado na criança?

Greer levantou-se e, lentam ente, sorriu.

— Daem on Sadi.

— Daem on Sadi — concordou Hekatah com arrogância. — Acha que ele ficará feliz ao descobrir que a sua queridinha está tão com pletam ente m orta? E, com um a aj udinha, quem acha que ele culpará pela sua partida do reino dos vivos? Pense só com o será divertido instigar o filho contra o pai. E se destruírem um ao outro... — Hekatah abriu bem os braços —, o Inferno voltará a se fragm entar e aqueles que sem pre recearam desafiá-lo vão se reunir à m inha volta. Com a aj uda da força dos dem ônios-m ortos, Terreille finalm ente vai se aj oelhar perante m im com o a Sacerdotisa Suprem a, com o poderia ter acontecido há tantos e tantos séculos atrás se aquele canalha não tivesse frustrado m eus planos.

Olhou em volta da pequena sala, quase vazia, com expressão de noj o.

— Assim que ele desaparecer, viverei outra vez no esplendor que m e é de direito. E você, m eu leal querido, servirá a m eu lado. Mas venha — cham ou, guiando-o para outro pequeno recinto. — Com preendo que a m orte do corpo sej a um choque...

Greer olhou para o m enino e a m enina que se encolhiam de m edo num m onte de feno.

— Som os dem ônios, Greer — afirm ou Hekatah, afagando-lhe o braço. — Precisam os de sangue fresco e quente. É assim que fortalecem os a carne m orta. E, em bora outros prazeres carnais não sej am m ais possíveis, existem com pensações.

Hekatak curvou-se sobre ele, os lábios próxim os à orelha de Greer.

— Crianças plebeias. As dos Sangue são m elhores, porém m ais difíceis de aparecer. Mas j antar um a criança plebeia tam bém tem as suas vantagens.

Greer respirava rapidam ente, com o se estivesse sem ar.

— Um a linda m enininha, não acha, Greer? Ao prim eiro toque psíquico a m ente dela será reduzida a cinzas, m as as em oções prim itivas perm anecerão... por tem po suficiente... e o m edo é um a refeição deliciosa.

 

3 / Terreille

Você é meu instrumento.

Daem on Sadi revirava-se na pequena cam a que tinha sido instalada num dos depósitos no subterrâneo da casa da Lua Verm elha de Dej e.

... você é meu instrumento... viaj ando nos Ventos para o Altar de Cassandra... Surreal j á ali, chorando... Cassandra, zangada... tanto sangue... as m ãos dele cobertas com o sangue de Jaenelle... descendo até o abism o... caindo, gritando... um a criança que não é criança... um a cam a estreita com correias para prender m ãos e pés... um a cam a suntuosa com lençóis de seda... a pedra gelada do Altar das Trevas... velas negras...velas perfum adas... os gritos de um a criança... a língua dele a lam ber um pequeno chifre espiralado... o seu corpo im obilizando o dela contra a pedra gelada enquanto ela lutava e gritava... im plorando a ela que o perdoasse... m as o que ele tinha feito?... longos cabelos louros... os dedos percorrendo um a cauda de corça... um a cam a estreita com lençóis de seda... um a cam a elegante com correias... perdoe-me, perdoe-me... o seu corpo sobre o dela, prendendo-a... o que ele tinha feito?... a cólera de Cassandra caindo sobre ele... estaria a salvo?... estaria bem ?... um a cam a de pedra elegante... lençóis de seda com correias... os gritos de um a criança... tanto sangue... você é o meu instrumento... perdoe-me, perdoe-me... O QUE ELE TINHA FEITO? Surreal encostou-se na parede, ouvindo o choro abafado de Daem on. Quem diria que o Sádico era tão vulnerável? Tanto ela com o Dej e tinham conhecim entos básicos de Arte m edicinal suficientes para curar seu corpo, m as nenhum a das duas sabia com o reparar as feridas m entais e em ocionais. Em vez de se recuperar, ele estava ficando cada vez m ais fraco, m ais vulnerável.

Nos prim eiros dias depois de ser trazido para este lugar, Daem on perguntava constantem ente o que tinha acontecido. Mas Surreal podia apenas lhe dizer aquilo que sabia.

Com a aj uda da garota dem ônia-m orta cham ada Rose, ela entrara em Briarwood, m atara o Senhor da Guerra que havia violado Jaenelle e, depois, levara Jaenelle para o Altar de Cassandra. Daem on j untou-se a elas no Santuário. Cassandra tam bém estava presente. Daem on ordenou que se retirassem da sala do Altar para que tentasse trazer o Eu de Jaenelle de volta ao corpo, tarefa que exigia privacidade. Surreal usou esse tem po para preparar arm adilhas dirigidas à “equipe de salvam ento” de Briarwood. À chegada dos m achos, tentou detê-los enquanto pôde. Quando se retirou para a sala do Altar, Cassandra e Jaenelle j á tinham desaparecido e Daem on m al conseguia ficar de pé. Tinham então viaj ado pelos Ventos de volta a Beldon Mor, onde passaram as últim as três sem anas escondidos na casa da Lua Verm elha de Dej e.

Era tudo o que podia lhe dizer. Não era o que Daem on precisava ouvir. Não podia lhe dizer que salvara Jaenelle. Não podia lhe dizer que a m enina estava sã e salva. E parecia que, quanto m ais ele tentava se lem brar, m ais fragm entadas ficavam as suas m em órias. Entretanto, ainda possuía a força das Joias Negras, ainda possuía a capacidade para libertar todo aquele poder negro. Se perdesse aquela débil ligação com o equilíbrio m ental...

Surreal virou-se ao ouvir o ruído de passadas furtivas nas escadas no final do corredor escuro. Os soluços por trás da porta fechada cessaram .

Com m ovim entos rápidos e silenciosos, Surreal encurralou a m ulher no final das escadas.

— O que você quer, Dej e?

Os pratos na bandej a que a m ulher carregava tilintaram . Dej e estava trem endo.

— Eu... pensei... — Ergueu a bandej a com o explicação. — Sanduíches. Chá. Eu...

Surreal franziu as sobrancelhas. Por que Dej e olhava fixam ente para seus seios? Não era o olhar de um a m atrona eficiente avaliando um a das m oças. E por que estaria trem endo daquele j eito?

Surreal olhou para baixo. Viu que segurava o seu punhal favorito, com a ponta pousada na Joia Cinza que pendia da corrente de ouro por cim a dos seus seios. Não tinha percebido ter invocado o punhal ou a Cinza. Ficara aborrecida pela introm issão, m as...

Surreal fez desaparecer o punhal, aj eitou a blusa de m aneira a esconder a Joia e retirou a bandej a das m ãos de Dej e.

— Desculpe. Estou um pouco nervosa.

— A Cinza — m urm urou Dej e. — Você usa a Cinza.

Surreal ficou tensa.

— Mas não quando estou trabalhando num a casa da Lua Verm elha.

Dej e pareceu não ouvir.

— Não sabia que era assim tão forte.

Surreal passou o peso da bandej a para a m ão esquerda e deixou cair a m ão direita, descontraidam ente, envolvendo o punhal reconfortante. Se tivesse de ser feito, seria de form a rápida e perfeita. Dej e m erecia.

Observou o rosto de Dej e enquanto ela reorganizava m entalm ente os fragm entos de inform ação que possuía sobre um a prostituta cham ada Surreal, que era, ao m esm o tem po, um a assassina. Por fim , quando Dej e olhou para ela, seus olhos evidenciavam respeito e satisfação som bria.

Depois, Dej e olhou para a bandej a e franziu a sobrancelha.

— É m elhor usar um feitiço de aquecim ento nesse chá ou não estará bom para beber.

— Eu cuido disso — disse Surreal.

Dej e com eçou a subir as escadas.

— Dej e — disse Surreal baixinho. — Eu realm ente pago as m inhas dívidas.

Dej e sorriu perspicazm ente e acenou com a cabeça, indicando a bandej a.

— Tente fazer com que com a. Ele precisa recuperar as forças.

Surreal aguardou até ouvir a porta se fechar no alto da escada antes de voltar ao depósito que abrigava, talvez agora m ais do que nunca, o Príncipe dos Senhores da Guerra m ais perigoso do Reino.

 

Mais tarde nessa noite, Surreal abriu a porta do depósito sem bater, detendo-se de im ediato.

— Em nom e do Inferno, o que você está fazendo?

Daem on ergueu os olhos por um breve instante antes de am arrar o outro sapato.

— Estou m e vestindo. — Sua voz profunda e culta estava m ais rouca do que o habitual.

— Você enlouqueceu? — Surreal m ordeu o lábio, arrependendo-se por ter dito aquela palavra.

— É provável. — Daem on abotoou os botões de rubi no punho da cam isa de seda branca. — Preciso descobrir o que aconteceu, Surreal. Preciso encontrá-la.

Exasperada, Surreal passou os dedos pelo cabelo.

— Você não pode sair no m eio da noite. Além disso, lá fora está um frio de rachar.

— No m eio da noite é a m elhor hora, não acha? — argum entou Daem on calm o dem ais, enfiando o casaco preto.

— Não, não acho. Aguarde pelo m enos até o am anhecer.

— Sou hay lliano. Estam os em Chaillot. Cham aria um pouco a atenção à luz do dia. — Daem on olhou ao redor do pequeno quarto vazio, deu de om bros com indiferença e retirou um pente do bolso do casaco, passando-o pelo espesso cabelo negro. Quando term inou, enfiou as m ãos elegantes e de unhas com pridas nos bolsos das calças e ergueu a sobrancelha com o se perguntasse: que tal?

Surreal exam inou o corpo alto, elegante e m usculoso vestido em um terno preto perfeitam ente cortado. A pele m orena e dourada de Sadi estava pálida de cansaço, o rosto tinha um aspecto perturbado e a pele ao redor dos olhos dourados estava inchada. Mesm o assim , era m ais bonito do que deveria ser perm itido a um hom em .

— Você parece péssim o — disse rispidam ente.

Daem on estrem eceu, com o se a raiva de Surreal o tivesse atingido. Tentou, em seguida, esboçar um sorriso.

— Não pense que vou m udar de ideia por causa de elogios, Surreal.

Surreal cerrou os punhos. A única coisa que tinha para arrem essar era a bandej a com o chá e os sanduíches. Ao ver a xícara lim pa e a com ida intacta, perdeu a calm a.

— Seu idiota, você não com eu nada!

— Abaixe a voz, a m enos que queira que todo m undo fique sabendo que estou aqui.

Surreal pôs-se a andar de um lado para o outro, proferindo entre dentes todos os palavrões que conhecia.

— Não chore, Surreal.

Envolveu-a com os braços, e sob a sua face sentiu a seda fresca.

— Não estou chorando — retrucou ela, engolindo um soluço.

Sentiu, m ais do que ouviu, o riso abafado dele.

— O erro foi m eu. — Os lábios de Daem on roçaram o cabelo de Surreal antes de ele se afastar dela.

Surreal fungou audivelm ente, enxugou os olhos na m anga e afastou o cabelo do rosto.

— Você ainda não está forte o suficiente, Daem on.

— Só ficarei m elhor quando a encontrar — disse ele baixinho.

— Sabe abrir os Portões? — perguntou. Referia-se aos treze lugares de poder que ligavam os Reinos de Terreille, de Kaeleer e do Inferno.

— Não. Mas encontrarei alguém que saiba. — Daem on respirou fundo. — Ouça, Surreal, e ouça com atenção. Em todo o Reino de Terreille são poucas as pessoas que de algum a form a podem ligar você a m im . Esforcei-m e para que fosse assim . Portanto, a m enos que suba no telhado e anuncie aos gritos, ninguém em Beldon Mor terá razões para desconfiar de você. Sej a discreta. Controle esse m au hum or. Você fez m ais do que o suficiente. Não se envolva m ais, pois não estarei por perto para aj udá-la.

Surreal engoliu com dificuldade.

— Daem on... você foi declarado potencialm ente perigoso. Foi oferecida um a recom pensa por sua cabeça.

— Eu não esperaria nada diferente depois de ter partido o Anel de Obediência.

Surreal hesitou.

— Tem certeza de que Cassandra levou Jaenelle para um dos outros Reinos?

— Sim , tenho certeza — disse, com ternura e tristeza.

— Então você vai encontrar um a Sacerdotisa que saiba abrir os Portões e ir atrás delas.

— Sim . Mas antes preciso resolver algo.

— Não é o m elhor m om ento para fazer visitas sociais — afirm ou Surreal com ironia.

— Não é bem um a visita social. Dorothea não poderá usar você contra m im porque não sabe da sua existência. Mas sabe dele e j á o usou antes. Não lhe darei essa oportunidade. De resto, apesar de toda a sua arrogância e tem peram ento, ele é um excelente Príncipe dos Senhores da Guerra.

Cansada, Surreal encostou-se na parede.

— O que você vai fazer?

Daem on hesitou.

— Vou tirar Lucivar de Pruul.

 

4 / Kaeleer

Saetan surgiu na pequena teia de desem barque entalhada no chão de pedra de um dos vários pátios externos da Fortaleza. Ao desem barcar, olhou para cim a.

A m enos que se soubesse o que procurar, via-se apenas a m ontanha negra de Ebon Askavi, só se sentia o peso de toda aquela pedra escura. Mas Ebon Askavi era tam bém a Fortaleza, o Santuário da Feiticeira, o arquivo da extensa história dos Sangue. Um local fortem ente guardado. O lugar ideal para um segredo.

Maldita Hekatah, pensava com am argura ao atravessar o pátio devagar, com a aj uda da bengala. Maldita seja, Hekatah e suas intrigas pelo poder. Puta gananciosa e maligna. No passado evitara intervir, por achar que estava em dívida com ela, que havia dado à luz seus dois prim eiros filhos. Mas essa dívida j á estava paga. Mais do que paga. Agora, sacrificaria a honra, o respeito por si próprio e o que m ais fosse necessário se esse fosse o preço a pagar para detê-la.

— Saetan.

Geoffrey, o historiador e bibliotecário da Fortaleza, saiu da som bra da entrada. Com o sem pre, suas roupas eram im pecáveis, um a túnica e calças pretas elegantes, sem acessórios à exceção do anel com a Joia Verm elha. Com o sem pre, o cabelo estava cuidadosam ente penteado para trás, cham ando a atenção para o bico de viúva. No entanto, seus olhos negros pareciam pequenos pedaços de carvão em vez de pedras bem polidas.

Enquanto Saetan cam inhava na sua direção, as sobrancelhas negras de Geoffrey foram ficando m ais arqueadas.

— Venha até a biblioteca tom ar um copo de y arbarah com igo — disse Geoffrey.

Saetan balançou a cabeça.

— Talvez m ais tarde.

As sobrancelhas de Geoffrey franziram -se ainda m ais, repuxando tam bém o bico de viúva.

— Não há lugar para a ira no quarto de um doente. Muito m enos agora. Muito m enos a sua.

Os dois Guardiões se estudaram . Saetan desviou o olhar prim eiro.

Um a vez instalados em cadeiras confortáveis e após Geoffrey ter servido a am bos um copo de vinho de sangue aquecido, Saetan obrigou-se a olhar para a grande m esa de m adeira escura que dom inava o aposento. Costum ava estar repleta de livros de história, de Arte e de consulta que Geoffrey ia retirando das pilhas — livros nos quais os dois hom ens haviam procurado referências para com preender as observações fortuitas, porém invulgares, de Jaenelle e suas habilidades por vezes bizarras, em bora im pressionantes. No m om ento, estava vazia. E o vazio feria.

— Não tem nenhum a esperança, Geoffrey ? — inquiriu Saetan baixinho.

— O quê? — Geoffrey olhou de relance para a m esa, para logo desviar o olhar. — Precisava... m e ocupar. Quando m e sentava ali, cada livro trazia um a lem brança, e...

— Com preendo. — Saetan esvaziou o copo e estendeu a m ão para alcançar a bengala.

Geoffrey o acom panhou até a porta. Quando Saetan saiu para o corredor, sentiu um ligeiro e hesitante toque, que o fez se virar para trás.

— Saetan... ainda tem esperança?

Saetan considerou a pergunta por um longo m om ento antes de dar a única resposta que podia.

— Preciso ter.

 

Cassandra fechou o livro, m oveu os om bros com aborrecim ento e esfregou o rosto com as m ãos.

— Não houve qualquer m udança. Não voltou do abism o, ou de onde quer que tenha caído. E quanto m ais tem po perm anecer fora do alcance de outras m entes, m enores serão as chances de a trazerm os de volta.

Saetan exam inou a m ulher de cabelo ruivo envelhecido e olhos cor de esm eralda cansados. Muito, m uito tem po antes, quando Cassandra era Feiticeira, a Rainha de Joia Negra, Saetan fora seu consorte e a am ara. E ela, à sua m aneira, gostara dele — até Saetan realizar a Oferenda às Trevas, recebendo Joias Negras. Depois, fora um a espécie de troca de aptidões — as dele na cam a pelas dela na Arte de Viúva Negra — até Cassandra forj ar sua própria m orte, tornando-se Guardiã. Tinha representado a cena do leito da m orte de form a tão convincente e a fé de Saetan em Cassandra com o Rainha era tão sólida que nunca lhe ocorreu que ela tinha feito isso para findar o reinado com o Feiticeira — e para fugir dele.

Mas, estavam j untos outra vez.

Contudo, ao envolvê-la com os braços, oferecendo-lhe conforto, sentiu o retraim ento interior, o estrem ecim ento reprim ido de m edo. Cassandra nunca tinha se esquecido de que Saetan cam inhava por cam inhos som brios que nem m esm o ela se atreveria a tom ar, nunca tinha se esquecido de que o Reino das Trevas o apelidara de Senhor Suprem o quando ele ainda estava com pletam ente vivo.

Saetan beij ou a testa de Cassandra e afastou-se.

— Tente descansar — disse, carinhosam ente. — Eu fico com ela.

Cassandra olhou para ele, de relance para a cam a, e balançou a cabeça.

— Nem m esm o você conseguirá alcançá-la, Saetan.

Saetan olhou para a frágil e pálida m enina que j azia num m ar de lençóis de seda preta.

— Eu sei.

Quando Cassandra fechou a porta ao sair, Saetan perguntou a si m esm o se, apesar do grande preço a pagar, ela tiraria algum a satisfação desse fato.

Balançou a cabeça para clarear as ideias, puxou a cadeira que estava m ais perto da cam a e suspirou. Queria que o quarto não fosse tão im pessoal. Queria que existissem quadros para quebrar as extensas paredes de pedra negra polida. Queria ver as tralhas de um a m enininha espalhadas pela m obília de m adeira escura. Eram tantos os seus desej os...

Contudo, estes aposentos tinham sido term inados pouco tem po antes do pesadelo no Altar de Cassandra. Jaenelle não teve oportunidade de lhes inculcar o seu odor psíquico, tornando-os seus. Nem m esm o os pequenos tesouros aqui presentes tinham tido o convívio necessário, o m anuseam ento fundam ental para que se tornassem verdadeiram ente seus. Não havia um a âncora que ela pudesse reconhecer e à qual se pudesse agarrar ao tentar efetuar a subida para fora do abism o que fazia parte das Trevas.

À exceção de Saetan.

Apoiando um braço na cam a, Saetan inclinou-se e afastou com delicadeza o cabelo louro e liso do rosto m agro dem ais. Seu corpo estava sarando, em bora lentam ente, pois não havia ninguém no seu interior para auxiliar a convalescença. Jaenelle, a sua j ovem Rainha, a filha da sua alm a, estava perdida nas Trevas — ou na paisagem interior do Reino Distorcido. Fora do seu alcance.

Mas não, assim esperava, fora do alcance do seu am or.

Com a m ão pousada na cabeça de Jaenelle, Saetan fechou os olhos e fez a descida interior até o nível das Joias Negras. Devagar, com cuidado, prosseguiu até não conseguir descer m ais. Foi então que soltou as palavras para o abism o, tal com o fizera nas últim as três sem anas.

*Você está segura, criança-feiticeira. Volte. Você está segura.*

 

5 / Terreille

Um a m ão acariciou seu braço, apertando de leve o om bro.

Lucivar se enfureceu ao sentir que estavam perturbando o breve período de sono que seu corpo dorido lhe perm itia a cada noite. As correntes que prendiam seus pulsos e tornozelos à parede não eram longas o suficiente para que ele pudesse se deitar e alongar, por isso dorm ia de cócoras, com as nádegas encostadas à parede para aliviar a tensão nas pernas, a cabeça pousada nos antebraços cruzados e as asas levem ente dobradas em volta do corpo.

Unhas com pridas sussurraram em sua pele. A m ão apertou-lhe o om bro com um pouco m ais de força.

— Lucivar — m urm urou um a voz profunda, rouca de frustração e cansaço. — Acorde, Sacana.

Lucivar ergueu a cabeça. O luar que entrava pela fresta da cela não perm itia ver com clareza, m as era suficiente. Olhou para o hom em inclinado sobre si e, por um breve m om ento, ficou satisfeito por ver seu m eio-irm ão. Logo em seguida, seus dentes cerraram -se num sorriso selvagem .

— Olá, Bastardo.

Daem on retirou a m ão do om bro de Lucivar e recuou, cauteloso.

— Vim tirar você daqui.

Lucivar levantou-se lentam ente, rosnando baixinho ao ouvir o tilintar das correntes.

— O Sádico dem onstrando afeição? Estou com ovido. — Investiu na direção de Daem on, m as os ferros im pediram o ataque e Daem on deslizou para longe do seu alcance.

— Esse não foi o cum prim ento que eu esperava, irm ão — disse Daem on suavem ente.

— E você ainda esperava um cumprimento, irm ão? — proferiu Lucivar, furioso.

Daem on passou os dedos pelo cabelo e suspirou.

— Você sabe m uito bem por que não pude fazer nada até agora para aj udá-lo.

— Sim , sei m uito bem — respondeu Lucivar, e sua voz profunda assum iu um tom am eaçador. — Assim com o sei por que está aqui agora.

Daem on virou-se, o rosto oculto na penum bra.

— Acha que o fato de m e libertar servirá com o com pensação, Bastardo? Acha que algum dia vou perdoá-lo?

— Precisa m e perdoar — m urm urou Daem on. E estrem eceu.

Lucivar sem icerrou os olhos dourados. No odor psíquico de Daem on podia sentir um a fragilidade inesperada. Em outros tem pos, teria ficado preocupado. No m om ento, usaria isso com o arm a.

— Você não deveria ter vindo, Bastardo. Jurei que o m ataria se aceitasse aquela oferta, e é isso que vou fazer.

Daem on virou-se, encarando Lucivar.

— Que oferta?

— Talvez troca sej a um a palavra m elhor. A sua liberdade pela vida de Jaenelle.

— Não aceitei essa oferta!

Lucivar cerrou os punhos.

— Então m atou-a por diversão? Ou não percebeu que ela estava m orrendo debaixo de você até j á ser tarde dem ais?

Os dois se encararam .

— Do que você está falando? — perguntou Daem on calm am ente.

— Do Altar de Cassandra — respondeu Lucivar com a m esm a calm a, enquanto a raiva crescia, am eaçando quebrar seu autocontrole. — Você foi descuidado dessa vez. Deixou o lençol... e todo aquele sangue.

Abalado, Daem on olhou com espanto para as m ãos.

— Tanto sangue — sussurrou. — Minhas m ãos estavam cobertas de sangue.

Nos olhos de Lucivar, as lágrim as ardiam .

— Por quê, Daem on? O que ela fez para m erecer esse sofrim ento? — A voz subiu de tom . Não conseguia evitar. — Era a Rainha que sonhávam os servir. Aguardam os tanto tem po por ela. Carniceiro filho da puta, por que a matou?

Os olhos de Daem on se encheram de perigosa censura.

— Ela não m orreu.

Lucivar prendeu a respiração, desej ando acreditar no que ouvia.

— Então onde ela está?

Daem on hesitou, parecendo confuso.

— Não sei. Não tenho certeza.

A dor irrom peu em Lucivar de form a tão feroz com o quando vira o sangue seco no lençol.

— Não tem certeza — zom bou. — Você. O Sádico. Não tem certeza de onde enterrou a presa? Invente um a m entira m ais convincente.

— Ela não m orreu! — rugiu Daem on.

Ouviu-se um grito ali perto, seguido do som de passos apressados.

Daem on ergueu a m ão direita. A Joia Negra reluziu. Do lado de fora dos estábulos onde estavam aloj ados os escravos, ouviu-se um guincho agonizante. Em seguida, fez-se silêncio.

Sabendo que não dem oraria m uito até que os guardas reunissem a coragem suficiente para entrar nos estábulos, Lucivar cerrou os dentes e tentou descobrir um ponto fraco nas correias que o prendiam .

— Você apenas atirou-a ao chão e a possuiu? Ou a seduziu, m entiu para ela, disse que a am ava?

— Eu realm ente a am o. — Os olhos de Daem on encerravam um a som bra de dúvida, um toque de m edo. — Tive que m entir. Ela não queria m e ouvir. Tive que m entir.

— E foi então que a seduziu para se aproxim ar o suficiente e depois m atá-la.

Daem on explodiu em m ovim entos. Com eçou a andar para trás e para a frente na cela, balançando furiosam ente a cabeça.

— Não — disse entre dentes. — Não, não, não! — Girou sobre os calcanhares, agarrou Lucivar pelos om bros e em purrou-o contra a parede. — Quem lhe disse que ela estava m orta? QUEM?

Lucivar afastou os braços bruscam ente de Daem on.

— Dorothea.

No rosto de Daem on surgiu um brilho súbito de sofrim ento. Recuou.

— E desde quando você ouve o que Dorothea diz? — perguntou com am argura. — Desde quando acredita nessa vagabunda m entirosa?

— Não acredito.

— Então por que...

— As palavras m entem . O sangue, não. — Lucivar aguardou que Daem on percebesse a insinuação. — Você deixou o lençol, Bastardo — proferiu de m aneira selvagem . — Todo aquele sangue. Toda aquela dor.

— Pare — m urm urou Daem on com a voz trêm ula. — Lucivar, por favor. Você não entende. Ela j á estava ferida, j á estava sofrendo, e eu...

— Você a seduziu, m entiu para ela, violou um a m enina de doze anos.

— Não!

— Foi bom , Bastardo?

— Eu não...

— Gostou de tocá-la?

— Lucivar, por favor...

— GOSTOU?

— SIM!

Com um uivo de raiva, Lucivar investiu sobre Daem on com força suficiente para arrebentar as correntes — m as não foi rápido o bastante. Estatelou-se no chão, arranhando a palm a das m ãos e os j oelhos. Levou um m inuto para recuperar o fôlego. Levou outro m inuto para perceber por que trem ia. Olhou espantado para a cam ada espessa de gelo que cobria as paredes de pedra da cela. Levantou-se devagar, pernas trêm ulas, sentindo um ressentim ento tão profundo que lhe dilacerava a alm a.

Daem on estava próxim o, de pé e com as m ãos enfiadas nos bolsos das calças, o rosto um a m áscara inexpressiva, os olhos ligeiram ente vidrados e sonolentos.

— Odeio você — sussurrou Lucivar roucam ente.

— Neste m om ento, irmão, o sentim ento é recíproco — afirm ou Daem on dem asiadam ente calm o, com um a delicadeza exagerada. — Vou encontrá-la, Lucivar. Vou encontrá-la só para lhe provar que ela não m orreu. E, depois de encontrá-la, volto aqui e arranco essa sua língua m entirosa.

Daem on desapareceu. A parte da frente da cela explodiu.

Lucivar caiu no chão, com as asas j unto ao corpo e os braços protegendo a cabeça de um a chuva de pedras e areia.

Ouviram -se m ais gritos. Mais passos apressados.

Lucivar levantou-se de um salto, ao m esm o tem po que os guardas apareciam na abertura. Cerrou os dentes e rosnou, com os olhos dourados ardendo de raiva. Bastou um olhar para que os guardas recuassem . Pelo restante da noite, bloquearam a abertura m as não tentaram entrar.

Lucivar observava-os, com a respiração silvando através dos dentes cerrados.

Poderia ter lutado para abrir cam inho através dos guardas e seguir Daem on. Se Zuultah tentasse detê-lo enviando um a onda de dor através do Anel de Obediência colocado em seu órgão, Daem on soltaria sua força contra ela. A despeito da violência com que lutavam um com o outro, Lucivar e Daem on sem pre se uniam contra um inim igo com um .

Poderia tê-lo seguido e forçado a batalha que destruiria um deles ou até m esm o os dois. Em vez disso, perm aneceu na cela.

Tinha j urado que m ataria Daem on e assim o faria. Mas não conseguia reunir coragem para m atar o irm ão. Ainda não.