A Herdeira das Sombras
Quinta Parte
Q UINTA PARTE
CAPÍTULO Q UINZE
1 / Kaeleer
–A prim eira parte do plano está progredindo m uito bem — disse Hekatah. — Enfim a Pequena Terreille tem representação j usta no Conselho das Trevas.
Lord Jorval m ostrou um sorriso tenso. Com o os m em bros oriundos da Pequena Terreille representavam um pouco m ais da m etade do Conselho, podia concordar que o Território que sem pre sentira desconfiança em relação ao resto do Reino das Som bras tinha, enfim , um a representação j usta.
— Devido a todos os ferim entos e doenças que provocaram a dem issão de m em bros do Conselho nos últim os dois anos, os Sangue da Pequena Terreille foram os únicos dispostos a aceitar um a responsabilidade tão árdua em prol do Reino. — Ele suspirou, em bora seus olhos cintilassem com um a aprovação m aligna. — Fom os acusados de favoritism o por tantas vozes virem do m esm o Território, m as, quando outros hom ens e m ulheres considerados dignos de tal tarefa se recusam a cum pri-la, o que deveríam os ter feito? Os assentos do Conselho precisam ser preenchidos.
— É verdade — concordou Hekatah. — E vários desses novos m em bros devem a ascensão ao apoio que você lhes deu na nom eação para o Conselho, e não desej am sofrer com angústia por não terem seguido seu entendim ento na hora de votar. Chegou o m om ento de pôr em prática a segunda parte do plano.
— E qual seria essa parte? — Jorval desej ava que ela despisse aquele m anto de capuz grande. Já a vira antes. E por que estavam num a estalagenzinha vagabunda na periferia de Goth?
— Estender a influência da Pequena Terreille no Reino das Som bras. Você terá de convencer o Conselho a ser m ais brando quanto aos requisitos de im igração. Aqui j á vivem m uitos aristocratas dos Sangue. É necessário deixar entrar os de categorias inferiores, trabalhadores, artesãos, agricultores, feiticeiras dom ésticas, criados, guerreiros de Joias m ais claras. As decisões sobre quem entra ou não devem deixar de ser baseadas em poderem ou não pagar os subornos.
— Se as Rainhas terreillianas e os m achos aristocratas desej am criados, que usem os plebeus — retrucou Jorval, taciturno. Os subornos, com o Hekatah bem sabia, tinham se tornado um a im portante fonte de renda para m uitos aristocratas dos Sangue em Goth, a capital da Pequena Terreille.
— Os plebeus são forragem para os dem ônios — retrucou Hekatah. — Os plebeus não possuem m agia. Os plebeus não dom inam a Arte. Os plebeus têm tanta utilidade com o os j hin... — Fez um a pausa. Puxou o capuz para a frente. — Aceitem tam bém os plebeus terreillianos com o im igrantes. Prom etam -lhes privilégios e colônias depois de servirem . Mas não deixem de trazer os Sangue terreillianos de categorias inferiores.
Jorval abriu as m ãos.
— E o que farem os com todos esses im igrantes? Nas feiras de im igração, que acontecem duas vezes por ano, todos os outros Territórios só aceitam cerca de duas dezenas de pessoas, se tanto. As cortes da Pequena Terreille j á estão apinhadas, e há m uitas queixas sobre os aristocratas terreillianos, que estão sem pre se lam entando por servirem em Círculos inferiores e não possuírem terra para governar, com o haviam esperado. E nenhum dos que j á estão aqui preencheu os requisitos de im igração.
— Eles terão terra para governar. Fundarão novos e pequenos territórios em nom e das Rainhas que servem . Isso aum entará a influência que as Rainhas da Pequena Terreille possuem em Kaeleer e, além disso, proporcionará um a nova fonte de renda. Um a parte dessa terra é obscenam ente rica em pedras e m etais preciosos. Dentro de poucos anos, as Rainhas da Pequena Terreille serão a força m ais poderosa do Reino, e os outros Territórios terão de se suj eitar ao seu dom ínio.
— Que terra? — perguntou Jorval, sem conseguir ocultar a irritação.
— A terra a ser reclam ada, é claro — respondeu Hekatah, ríspido. Invocou um m apa de Kaeleer, desenrolou-o e fez uso da Arte para m antê-lo estendido. Um dedo esquelético indicou grandes áreas na carta.
— Essa terra não está livre para ser reclam ada — protestou Jorval. — Esses são Territórios interditos. Os cham ados Territórios dos parentes.
— Exato, Lord Jorval — disse Hekatah, batendo com o dedo no m apa. — Os chamados Territórios dos parentes.
Jorval olhou para o m apa e endireitou-se na cadeira.
— Os parentes são Sangue, ao que parece. Não são?
— São? — refutou Hekatah, com um a suavidade venenosa.
— E os Territórios hum anos, com o Dharo, Nharkhava e Scelt? Suas Rainhas podem apresentar queixa em nom e dos parentes.
— Não podem . Não haverá qualquer interferência nas terras delas. Segundo a Lei dos Sangue, as Rainhas dos Territórios não podem interferir além de suas próprias fronteiras.
— O Senhor Suprem o...
Hekatah acenou com a m ão, com desprezo.
— Sem pre viveu de acordo com um rígido código de honra. Defenderá o próprio Território com ferocidade, m as não porá um pé fora dele. O m áxim o que pode acontecer é ele ir contra esses Territórios, se não cum prirem a Lei.
Jorval coçou o lábio inferior.
— Então, eventualm ente, as Rainhas da Pequena Terreille governariam toda Kaeleer.
— E essas Rainhas estariam unidas por alguém com sabedoria e experiência, capa de guiá-las da m aneira adequada.
Jorval inflou de orgulho.
— Não é você, idiota — silvou Hekatah. — Um m acho não pode governar um Território.
— O Senhor Suprem o governa!
O silêncio prolongou-se por tanto tem po que Jorval com eçou a transpirar.
— Não se esqueça quem é ou o que é, Lord Jorval. Não se esqueça do seu próprio código de honra. Você não pertence ao gênero certo. Se tentasse se colocar no seu cam inho, ele o faria em pedaços. Eu governarei Kaeleer. — Sua voz tornou-se m ais suave. — Você será m eu Adm inistrador, e, sendo m eu braço direito e m eu conselheiro m ais estim ado, terá tanta influência que não haverá m ulher no Reino que se atreva a recusá-lo.
Jorval foi invadido por um calor na zona genital ao pensar em Jaenelle Angelline.
O m apa enrolou-se de repente, assustando-o.
— Acho que j á adiam os as gentilezas por m uito tem po, não é? — Hekatah baixou o capuz do m anto.
Jorval deixou escapar um grito débil. Pondo-se em pé de um salto, derrubou a cadeira e tropeçou nela quando se virou para se afastar da m esa.
Enquanto Hekatah contornava a m esa lentam ente, Jorval arrastava-se para trás. Continuou recuando até que acabou pressionado contra a parede.
— Só um golinho — disse Hekatah, desabotoando a cam isa dele. — Só para provar. Quem sabe da próxim a vez não se esqueça de providenciar as bebidas.
Jorval sentiu as entranhas se retorcendo.
Hekatah m udara nos últim os dois anos. Antes, parecia um a m ulher atraente que j á tinha vivido dias m elhores. Agora, parecia que alguém a esprem era, retirando todo o líquido da carne. E o perfum e profusam ente aplicado não ocultava o cheiro de decom posição.
— Há um a outra razão m uito im portante para que eu sej a a governante de Kaeleer — m urm urou Hekatah enquanto roçava os lábios na garganta de Jorval. — Um a coisa que você não deve esquecer.
— Sim , S-Sacerdotisa? — Jorval cerrou os punhos.
— Quando eu estiver governando, o Reino de Terreille apoiará nossos esforços.
— Apoiará? — disse Jorval com um a voz fraca, tentando m anter a respiração controlada.
— Me certificarei disso — respondeu Hekatah, e em seguida cravou os dentes na garganta dele.
2 / Kaeleer
A nova carruagem de duas rodas avançava depressa pelo centro da larga estrada de terra batida que ia para nordeste, para além do povoado de Maghre.
Saetan tentou, m ais um a vez, avisar Narciso de que deveria m anter a carruagem do lado direito da estrada. E Narciso respondeu, m ais um a vez, que, se fizesse isso, Yaslana e o Bailarino do Sol não conseguiriam trotar ao lado deles. Desviaria se cruzasse com algum a outra carruagem na estrada. Sabia conduzir o veículo. O Senhor Suprem o se preocupava dem ais.
Sentada ao lado de Saetan, Jaenelle olhou de relance para os punhos fechados do pai adotivo e sorriu com um ar de divertida com paixão.
— Ser passageiro quando estam os habituados a estar no controle não é fácil. Khary acha que as carruagens puxadas pelos parentes deveriam ter um conj unto de rédeas presas à frente, para o passageiro ter algum a coisa em que se agarrar para se sentir m ais seguro.
— Calm antes seriam m ais eficazes — resm ungou Saetan. Forçou-se a abrir as m ãos, colocando-as sobre as coxas com firm eza, ignorando o riso abafado de Lucivar e se esforçando para não se ressentir com as rédeas presas na testeira de Bailarino do Sol.
Para desgosto dos hum anos, os parentes insistiram que as rédeas fossem m antidas com o parte do equipam ento de equitação, pois os hum anos precisavam se segurar em algum a coisa quando os parentes corriam e saltavam . Por sorte, após o choque inicial três anos antes, quando o povo scelta descobrira a quantidade de raças dos Sangue que habitavam a ilha, os hum anos receberam seus Irm ãos e Irm ãs parentes com entusiasm o.
— Não vam os parar na casa de Morghann e de Khary ? — perguntou Jaenelle, pondo um a das m ãos sobre a cabeça a fim de evitar que o chapéu de palha de abas largas voasse.
— Eles disseram que queriam nos m ostrar um a coisa e que iriam ao nosso encontro — respondeu Lucivar. — Eu e Bailarino do Sol vam os à frente, para ver se nos aguardam . — Lucivar e o cavalo Príncipe dos Senhores da Guerra partiram através dos cam pos.
Narciso em itiu um ruído de ansiedade e continuou trotando pela estrada. Passados alguns m inutos, deixou a estrada principal e trotou com elegância por um a trilha com prida, ladeada de árvores.
Os olhos de Jaenelle se ilum inaram .
— Vam os à casa de cam po de Duana? Oh, é um lugar encantador. Khary disse que alguém alugou a propriedade e estava fazendo m elhorias.
Saetan suspirou de alívio. Khary sabia o que dizer para despertar o interesse dela, m esm o sem nada revelar.
Jaenelle passara seis m eses se recuperando depois de entrar no Reino Distorcido para salvar Daem on, dois anos antes. Perm anecera na Fortaleza durante os dois prim eiros m eses, fraca dem ais para ser transportada. Depois que Saetan e Lucivar a levaram para o Paço, foram necessários m ais quatro m eses para que recuperasse as forças físicas. Durante esse tem po, seus am igos voltaram a ocupar o Paço, renunciando às cortes onde prestavam serviço para ficar j unto dela. Jaenelle acolhera o grupo calorosam ente, em bora tivesse ficado intim idada pela presença dos rapazes — a prim eira am ostra de vaidade fem inina que j am ais dem onstrara.
Atônitos pela recusa dela em vê-los, eles decidiram zelar por Jaenelle à distância e canalizaram as energias para os cuidados com a assem bleia. Durante esse período, sob o olhar vigilante e discreto de Saetan, algum as am izades desabrocharam em am or: Morghann e Khardeen, Gabrielle e Chaosti, Grezande e Elan, Kalush e Aaron. Observara as garotas e im aginara se os olhos de Jaenelle algum a vez brilhariam daquela m aneira por um hom em . Mesm o que esse hom em fosse Daem on Sadi.
Com o Daem on e Surreal não apareceram na Fortaleza de Terreille, tentara localizá-los. Passadas algum as sem anas, interrom peu as buscas, ao perceber que não era o único a procurá-los, e concluíra que o insucesso era m elhor que conduzir um inim igo a um hom em vulnerável. Além disso, Surreal era filha de Titian. Onde quer que tivesse se refugiado, encobrira seus rastros com perfeição.
E havia outro m otivo para não querer provocar agitação. Hekatah não voltara ao Reino das Trevas. Desconfiava que ela estava m uito bem escondida em Hay ll. Desde que perm anecesse lá, tanto ela com o Dorothea podiam apodrecer j untas, m as a verdade é que ela ficaria atenta a qualquer sinal que dem onstrasse o interesse renovado de Saetan por Terreille, então perseguiria a causa desse interesse.
— Lucivar e Bailarino do Sol foram m ais rápidos — observou Jaenelle quando pararam diante da im ensa casa de cam po construída em arenito.
Narciso resfolegou.
— Não — disse Saetan, severo, ao aj udar Jaenelle a descer da carruagem . — As carruagens não atravessam cercas.
— Ainda m ais quando o hum ano dentro dela não sabe que a passagem da outra m etade depende dele — m urm urou Jaenelle. Sacudiu as pregas da saia azul-safira e endireitou o casaco, entretida dem ais para encarar Saetan.
O que não era m al.
Jaenelle ergueu o olhar para a m ansão e suspirou.
— Espero que os novos inquilinos deem a este lugar o am or que ele m erece. Oh, sei que Duana anda ocupada e prefere viver na casa de cam po perto de Tuathal, m as este lugar precisa despertar com cânticos. Os j ardins aqui poderiam ser encantadores.
Em reconhecim ento do sorriso satisfeito de Lucivar, Saetan tirou um a caixa achatada e retangular do bolso e entregou-a a Jaenelle.
— Feliz aniversário, criança-feiticeira. É de toda a fam ília.
Jaenelle aceitou a caixa, m as não a abriu.
— Se é de toda a fam ília, não deveríam os esperar até chegar em casa para abri-la?
Saetan balançou a cabeça.
— Concordam os que você deveria abri-la aqui.
Jaenelle abriu a caixa e franziu a sobrancelha ao ver a grande chave de bronze.
Em itindo um grunhido exasperado, Lucivar virou-a de frente para a casa.
— É da porta da frente.
Jaenelle arregalou os olhos.
— Minha? — Olhou para a porta da frente, depois para a chave, e outra vez para a porta da frente. — Minha?
— Bem , a fam ília celebrou um contrato de arrendam ento por dez anos, que abrange a casa e os terrenos — respondeu Saetan, sorridente. — Duana disse que você pode fazer o quiser com a casa, m enos derrubá-la.
Jaenelle abraçou os dois com tanta força que eles m al conseguiram respirar, e em seguida correu até a porta. Que se abriu antes que ela a alcançasse.
— SURPRESA!
Rindo da expressão atordoada de Jaenelle, Saetan em purrou-a para dentro da casa, enquanto Khary e Morghann a puxavam para o m eio da m ultidão.
Sentiu um nó na garganta quando viu Jaenelle passando de am igo a am igo, todos abraçando-a, felicitando-a. Astar e Sceron de Centauran. Zy lona e Jonah de Pandar. Grezande e Elan de Tigrelan. A pequena Katrine de Philan. Gabrielle e Chaosti de Dea al Mon. Karla e Morton de Glácia. Morghann e Khary de Scelt. Sabrina e Aaron de Dharo. Kalush de Nharkhava. Ladvarian e Kaelas. Será que algo do tipo j á acontecera ao Reino das Trevas?
Os anos em que a assem bleia e o círculo de m achos se reunia no Paço passaram depressa, e os j ovens j á não eram crianças ao seu cuidado, m as adultos a enfrentar em pé de igualdade. Todos os rapazes j á tinham realizado a Oferenda às Trevas, e todos usavam Joias escuras. Se a forte am izade que unia Khary, Aaron e Chaosti sobrevivesse às exigências da idade adulta e ao serviço em cortes diferentes, eles se tornariam um triângulo adm irável e influente de poder, nos anos por vir. E as garotas estavam quase preparadas para realizar a Oferenda. Quando fizessem isso... ah, o poder!
E havia Jaenelle. O que seria da adorada e dotada filha da sua alm a quando realizasse a Oferenda?
Tentou afastar esse estado de espírito antes que ela o detectasse. O dia de hoj e, porém , tinha um sabor agridoce para Saetan, por isso a fam ília havia celebrado o aniversário de Jaenelle em particular, dois dias antes.
Um ribom bar de trovão silenciou o falatório.
— Pois bem — disse Karla, com um sorriso perverso. — Vam os deixar que tio Saetan m ostre a casa a Jaenelle enquanto term inam os de preparar a com ida. Esta talvez sej a nossa única oportunidade de nos divertirm os na cozinha.
As garotas desapareceram depressa nos fundos da casa.
— Acho m elhor aj udá-las — disse Khary, liderando os rapazes, que apressaram o passo para salvar a casa e a com ida.
Lucivar disse que voltaria dali a pouco, resm ungando qualquer coisa sobre desatrelar Narciso antes que ele tentasse fazer isso sozinho.
— Duana disse que a m obília que você não quiser usar pode ser guardada no sótão — disse Saetan, depois de explorar o andar de baixo com Jaenelle.
Jaenelle concordou, distraída, enquanto subiam as escadas.
— Vi uns quadros esplêndidos que seriam perfeitos para este lugar. Tinha um ... — Boquiaberta, à entrada do quarto, Jaenelle olhava abism ada para a cam a com dossel, para a côm oda, para as m esinhas de cabeceira, para os baús.
— O pessoal lá em baixo com prou para você. Acho que deve ter adm irado algum a coisa parecida com frequência, então im aginaram que você gostaria.
Jaenelle entrou no quarto e passou a m ão pela suave m adeira de bordo da côm oda.
— É m agnífico. É tudo m agnífico. Mas por quê?
Saetan engoliu em seco.
— Hoj e você faz vinte anos.
Jaenelle ergueu a m ão direita e aj eitou o cabelo.
— Eu sei.
— Minha tutela legal term ina hoj e.
Ficaram olhando um para o outro, dem oradam ente.
— O que isso significa? — perguntou ela, baixinho.
— Exatam ente o que eu disse. Minha tutela legal term ina hoj e. — Viu-a relaxar ao assim ilar a distinção. — Você é um a j ovem m ulher, criança-feiticeira, e deve ter a própria casa. Sem pre adorou Scelt. Acham os que seria bom ter um a casa tam bém neste lado do Reino. — Com o Jaenelle continuou em silêncio, o coração de Saetan disparou. — O Paço sem pre será seu lar. Sem pre serem os sua fam ília — contanto que nos queira.
— Contanto que os queira. — Os olhos de Jaenelle se alteraram .
Saetan precisou reunir todas as suas forças para não se pôr de j oelhos e suplicar à Feiticeira que o perdoasse.
Jaenelle afastou-se de Saetan, abraçando-se com o se estivesse com frio.
— Naquele dia eu disse coisas m uito cruéis.
Saetan respirou fundo.
— Eu realm ente o usei. Ele foi m eu instrum ento. E, m esm o sabendo o que sei, se pudesse voltar atrás, faria tudo do m esm o j eito. Um Príncipe dos Senhores da Guerra é dispensável. Um a boa Rainha, não. E, para dizer a verdade, se não tivéssem os feito nada e você não tivesse sobrevivido, acho que Daem on não sobreviveria. Estou certo de que eu não sobreviveria.
Jaenelle abriu os braços.
Ele avançou para os braços abertos e apertou-a com força.
— Acho que você nunca percebeu com o a ligação entre os Príncipes dos Senhores da Guerra e as Rainhas é forte e necessária. Precisam os que você perm aneça intacta. É por isso que servim os. É por isso que todos os m achos dos Sangue servem .
— Mas sem pre m e pareceu inj usto que um a Rainha possa reivindicar um hom em , controlar todos os aspectos da vida dele, se quiser, sem que ele possa opinar.
Saetan riu.
— Quem disse que o hom em não tem opção? Nunca reparou na quantidade de hom ens que são convidados a servir num a corte e rej eitam o privilégio? Não, talvez não tenha reparado. Você esteve ocupada com m uitos outros afazeres, e esse tipo de coisa acontece com m uita discrição. — Fez um a pausa e balançou a cabeça, sorrindo. — Perm ita-m e revelar um segredo de conhecim ento geral, m inha querida feiticeirazinha. Não é você que nos escolhe. Som os nós que a escolhem os.
Jaenelle refletiu sobre estas palavras e resm ungou:
— Lucivar nunca m e devolverá aquele m aldito Anel, não é?
Saetan riu entre dentes.
— Você pode tentar recuperá-lo, m as acho que não conseguiria. — Encostou o rosto no cabelo da garota. — Acho que ele irá servi-la até o fim de seus dias, m esm o que não estej a efetivam ente a seu lado.
— Com o você e tio Andulvar com Cassandra.
Saetan fechou os olhos.
— Não, não com o eu e Andulvar.
Ela se afastou o suficiente para exam inar o rosto de Saetan.
— Com preendo. Um a ligação tão sólida quanto a fam ília.
— Ainda m ais sólida.
Jaenelle abraçou-o, suspirando.
— Talvez devêssem os encontrar um a esposa para Lucivar. Assim ele teria outra pessoa para im portunar, além de m im .
Saetan engasgou.
— Não é nada sim pático da sua parte m andar Lucivar para os braços de um a Irm ã desavisada.
— Mas isso iria m antê-lo ocupado.
— Pense nas prováveis consequências dessa ocupação por um m om ento.
Jaenelle refletiu.
— Um a casa cheia de Lucivarezinhos — disse com a voz fraca.
Am bos gem eram .
— Muito bem — resm ungou Jaenelle. — Preciso pensar em um a alternativa.
— Vocês dois se perderam aqui em cim a?
Deram um salto. Lucivar estava à entrada do quarto, sorrindo.
— Papai estava m e explicando que vou ter de aturar você para sem pre.
— E só dem orou três anos para entender. — O sorriso arrogante de Lucivar se alargou. — Eu não deveria avisá-la, porque não m erece, m as enquanto você estava aqui ocupada tentando reorganizar a m inha vida, em bora em vão, Ladvarian estava lá em baixo reorganizando a sua. O que foi m esm o que ele disse? “Aqui, podem os criar e treinar os filhotes.”
— Podem os? — Jaenelle chiou. — Que filhotes? Filhotes de quem?
Lucivar desviou-se e Jaenelle saiu correndo e resm ungando.
Saetan encontrou a porta bloqueada por um braço forte e m usculoso.
— Não a aj udaria nessa bobagem , não é? — perguntou Lucivar.
Saetan encostou-se no vão da porta e balançou a cabeça.
— Se a m ulher certa surgir na sua vida, você não a deixará partir. Eu seria o últim o a aconselhar que se com prom etesse. Case com alguém que possa am ar e aceitar com o é, Lucivar. Case com alguém que o am e e o aceite. Não se contente com m enos do que isso.
Lucivar baixou o braço.
— Acha que o hom em certo surgirá na vida da Gata?
— Ele virá. Se as Trevas forem bondosas, ele virá.
…
3 / O Reino Distorcido
Ele ficou na beira do local de repouso durante bastante tem po, estudando os detalhes, absorvendo a m ensagem e o aviso. Ao contrário dos dem ais locais de repouso que ela preparara, este o perturbava.
Era um altar, um bloco de pedra preta sobre dois outros. Ao centro, um cálice de cristal outrora estilhaçado. Mesm o de onde estava, seus olhos conseguiam seguir cada linha de fratura, ver os locais onde os pedaços tinham sido cuidadosam ente encaixados de volta. Havia lascas pontiagudas em volta da borda, onde faltavam pequenos fragm entos, lascas que poderiam infligir cortes graves num a pessoa. Dentro do cálice, relâm pagos e névoa negra executavam um a dança lenta e rodopiante. Na base do cálice havia um anel de ouro com um rubi facetado. Um anel m asculino.
Um anel de Consorte.
Por fim , aproxim ou-se.
Se estivesse lendo a m ensagem corretam ente, Jaenelle se recuperara m as carregava cicatrizes na alm a e não estava em sua plenitude. Ao reclam ar o anel de Consorte, ele teria o privilégio de saborear o conteúdo do cálice, em bora as arestas cortantes pudessem ferir qualquer hom em que tentasse.
Porém , um hom em cuidadoso...
Sim , decidiu, observando as arestas vivas, um hom em cuidadoso, que soubesse da existência dessas arestas e que estivesse disposto a arriscar, poderia beber desse cálice.
Anim ado, voltou à trilha e continuou subindo.
4 / Kaeleer
Saetan caiu da cam a depressa, buscando descobrir o m otivo dos rugidos de Lucivar àquela hora da m anhã.
Um a parte da sua m ente insistia para que não irrom pesse para fora do quarto nu em pelo, por isso agarrou as calças que largara na cadeira, ao final da festa de aniversário de Jaenelle, m as não parou para vesti-las. Deslocou o braço ao tentar abrir a porta, que estava inchada devido à chuva da noite anterior. Vociferando, segurou a m açaneta e, com auxílio da Arte, arrancou a porta das dobradiças.
Nesse m om ento, a entrada j á estava apinhada de corpos m ais ou m enos vestidos. Saetan tentou abrir cam inho, em purrando Karla, e levou um a cotovelada na barriga.
— Em nom e do Inferno, o que é isto? — berrou.
Ninguém se deu o trabalho de responder, pois, nesse m om ento, Lucivar saiu do quarto de Jaenelle, gritando:
— GATA!
Aparentem ente, Lucivar não sentia qualquer inibição por estar com pletam ente nu diante de um grupo de j ovens hom ens e m ulheres. É claro que um hom em com aquele tipo de com pleição não tinha qualquer razão para se sentir inibido.
E ninguém em perfeito j uízo provocaria um hom em que vibrava com um a fúria tão intensa.
— Onde estão Ladvarian e Kaelas? — perguntou Lucivar.
— Ou m elhor — disse Saetan, vestindo as calças depressa —, onde está Jaenelle? — Olhou sem rodeios para o Anel de Honra no órgão de Lucivar. — Consegue senti-la através dele, não?
Lucivar estrem eceu com o esforço para se controlar.
— Consigo senti-la, m as não consigo encontrá-la. — Esm urrou um a pequena m esa, partindo-a em duas. — Maldita, vai levar um a surra por causa disso!
— Quem é você para se atrever a dizer um a coisa dessas? — rosnou Chaosti, abrindo cam inho até a frente do grupo, a Joia Cinza brilhando com o poder crescente.
Lucivar cerrou os dentes.
— Sou o Príncipe dos Senhores da Guerra que a serve, o guerreiro que j urou protegê-la. Mas não poderei protegê-la se não souber por onde anda. O sangram ento da lua com eçou ontem à noite. Preciso lem brá-lo de com o um a feiticeira fica vulnerável nesses dias? Ela está perturbada, consigo sentir, e a única proteção de que dispõe são dois m achos m al treinados, já que não me disse aonde ia.
— Chega — disse Saetan, ríspido. — Controlem a fúria. AGORA! — Enquanto aguardava, invocou os sapatos e calçou-os. Depois, paralisou Chaosti e Lucivar com um olhar.
Assim que todos ficaram im óveis, afastou-se do grupo e apoiou as costas num a parede. Respirou fundo algum as vezes, para se acalm ar, fechou os olhos e desceu até a Negra.
Em bora fosse verdade que as feiticeiras não conseguiam canalizar as forças das Joias sem sofrim ento durante o período da lua, isso não im pediria Jaenelle.
Fazendo de si próprio o ponto central, im pulsionou a força da Negra para fora: com cautela, descrevendo círculos cada vez m aiores, procurando senti-la, pelo m enos para ter um a ideia do local onde estava. Os círculos alargaram -se cada vez m ais, para além do povoado de Maghre, para além da ilha de Scelt, até...
Kaetien!
Foi invadido pelo m edo e pelo horror, que se entrelaçavam na ira que se transform ava em raiva absoluta.
Raiva Negra. Raiva em espiral. Raiva fria.
Com eçou a recuar para fugir da tem pestade psíquica que estava a ponto de explodir sobre Sceval. Fortaleceu as barreiras interiores, sabendo que não seria de grande utilidade. A raiva de Jaenelle iria inundá-lo sob as barreiras, onde não havia proteção possível. Esperava ter tem po suficiente para avisar os outros.
KAETIEN!
Quando Jaenelle libertou a força das Joias Negras, seu grito angustiado invadiu a cabeça de Saetan, paralisando-o. Um a torrente de poder negro o atingiu com o um a grande onda, enquanto um escudo psíquico se abatia sobre Sceval.
Depois, o vazio.
Ele flutuou ligeiram ente para além do escudo, assustado, m as estranham ente consolado, com o se estivesse seguro dentro de casa durante um a tem pestade violenta no exterior.
Devia ter sido apanhado entre usos conflitantes do poder Negro, quando Jaenelle ergueu o escudo para conter a tem pestade. Feiticeirazinha engenhosa. E todos aqueles relâm pagos psíquicos possuíam um a beleza aterradora. Não se im portava de ficar flutuando ali por alguns m om entos, m as tinha a irritante sensação de que havia algo que devia fazer.
*Senhor Supremo.*
Que m aldita voz desagradável. Com o deveria pensar quando...
* * Pai.
Pai. Pai. Fogo do Inferno, Lucivar!
Para cim a. Precisava subir, sair da Negra. Precisava clarear a cabeça o suficiente para dizer a Lucivar... Mas onde ficava “para cim a”?
Sentiu que alguém o segurava e o arrastava para fora do abism o. Proferiu algum as palavras incoerentes e rosnou. Sentiu-se com o um cachorro rosnando ao ser levantado pelo cangote.
Quando voltou a si, sentiu algo pressionando-lhe os lábios e sua boca enchendo-se de sangue.
— Engula ou enfio seus dentes goela abaixo.
Ah, sim . Lucivar.
Por fim , conseguiu ver direito. Afastou o pulso de Lucivar da boca.
— Chega. — Tentou se levantar, o que não foi nada fácil, j á que Lucivar o segurava de um lado e Chaosti do outro. — Estão todos bem ?
Karla curvou-se sobre Saetan.
— Nós estam os bem . Você é que desm aiou.
— Não desm aiei. Fui apanhado... — Debateu-se. — Me larguem , m e deixem levantar. Se a tem pestade tiver passado, precisam os ir a Sceval.
— É onde a Gata está? — perguntou Lucivar, aj udando Saetan a se levantar.
— Sim . — Recordando-se do grito angustiado de Jaenelle, Saetan sentiu um calafrio. — Eu e você precisam os ir para lá o m ais rápido possível.
Karla espetou um dedo afiado no peito nu de Saetan.
— Nós precisam os ir para lá o m ais rápido possível.
Antes que conseguisse argum entar, j á tinham todos desaparecido para seus quartos.
— Se form os agora, chegarem os antes de todos — sussurrou Lucivar, quando entraram no quarto de Saetan. Invocou as próprias roupas e vestiu-se depressa. — Sente-se forte o suficiente?
Saetan vestiu um a cam isa.
— Estou preparado. Vam os.
— Sente-se forte o suficiente?
Saetan passou por Lucivar sem responder. Com o um hom em poderia responder a essa pergunta sem saber o que o aguardava?
— Mãe Noite — sussurrou Saetan. — Mãe Noite.
Saetan e Lucivar estavam no cum e plano de um m onte, um dos locais oficiais de desem barque em Sceval, olhando para o terreno levem ente ondulado que se estendia abaixo. Extensos cam pos forneciam bons pastos. Grupos de árvores ofereciam som bra nas tardes de verão. Riachos riscavam a terra de água lím pida.
Estivera naquele m onte algum as vezes nos últim os cinco anos, olhando lá para baixo, para os unicórnios, enquanto os garanhões vigiavam atentam ente as éguas pastando e os potros brincando.
Neste m om ento, o que via era um a carnificina.
Virando-se para norte, Lucivar balançou a cabeça e praguej ou em voz baixa.
— Não se trata de uns desgraçados que vieram à procura de um chifre para exibir com o troféu de caça, foi um a verdadeira guerra.
Saetan piscou para im pedir que as lágrim as caíssem . De todos os Sangue, de todas as raças de parentes, os unicórnios sem pre foram seus preferidos. Eram as estrelas nas Trevas, os exem plos vivos de poder e de força com binados com docilidade e beleza.
— Quando todos chegarem , vam os nos dividir para procurar sobreviventes.
Os unicórnios atacaram no m om ento em que a assem bleia e o círculo de m achos surgiram no m onte.
— Escudo! — gritaram Saetan e Lucivar. Lançaram escudos Negros e Cinza-Ébano em volta de todo o grupo, enquanto os outros m achos form avam um círculo protetor em volta da assem bleia.
Os oito unicórnios garanhões desviaram antes de se chocar contra os escudos, m as o poder que canalizavam através dos chifres e dos cascos produziu faíscas ao roçar nas barreiras invisíveis.
— Esperem ! — gritou Saetan, m as o trovão de sua voz m al era ouvido por conta dos relinchos e as im precações desafiadoras. — Som os am igos! Viem os aj udá-los!
*Não são amigos*, retrucou um garanhão mais velho, com o chifre partido. *São humanos!*
— Som os am igos — insistiu Saetan.
*NÃO SÃO AMIGOS!*, gritaram os unicórnios. *SÃO HUMANOS!*
Sceron deu um passo em frente.
— O povo Centauran nunca lutou com nossos Irm ãos e Irm ãs unicórnios. Não desej am os fazer isso agora.
*Vieram matar. Primeiro nos chamam de Irmãos, depois vêm nos matar. Basta. BASTA. Agora, é a nossa vez de m atar.*
Karla esticou a cabeça por cim a do om bro de Saetan.
— Malditos sej am os seus cascos e chifres, som os Curandeiras. Deixem -nos cuidar dos feridos!
Os unicórnios hesitaram por um m om ento, balançaram a cabeça e voltaram a investir contra os escudos.
— Não reconheço nenhum deles — disse Lucivar —, e estão descontrolados dem ais para nos ouvir.
Saetan observou os garanhões investirem contra os escudos repetidam ente. Com partilhava aquela fúria, com preendia perfeitam ente o ódio. Porém , não podia virar as costas até se acalm arem o suficiente para ouvir, pois outros m orreriam se não fossem tratados em breve.
Além disso, Jaenelle estava entre aqueles corpos, em algum lugar.
Os unicórnios pararam de atacar. Circundaram o grupo, resfolegando e escavando o solo, os chifres para baixo, preparados para outra investida.
— Graças às Trevas — m urm urou Khary entre dentes, ao ver um j ovem cavalo subindo o m onte devagar, apoiando-se na perna dianteira esquerda com cuidado.
Aliviadas, as garotas com eçaram a m urm urar sobre equipes de tratam ento.
Observando enquanto o j ovem cavalo se aproxim ava, Saetan desej ou poder partilhar aquela confiança. Contudo, de toda a descendência de Kaetien, Mistral sem pre fora o m ais desconfiado em relação aos hum anos, e o m ais perigoso. Características necessárias a um j ovem m acho que todos esperavam que se tornasse o próxim o Príncipe dos Senhores da Guerra de Sceval, m as extrem am ente perturbadoras para o hom em na extrem idade oposta daquela desconfiança.
— Mistral. — Saetan avançou, erguendo as m ãos vazias. — Você nos conhece desde que era um potro. Perm ita-nos aj udar.
*Eu os conheço*, disse Mistral, com relutância.
*Isso não parece nada bom...*, disse Lucivar através de um fio masculino Cinza-Ébano.
*Se as coisas derem errado, tire todo mundo daqui*, respondeu Saetan. *Eu aguento o escudo.*
*Precisamos encontrar a Gata.*
*Tire-os daqui, Yaslana.*
*Sim, Senhor Supremo.*
Saetan avançou m ais um passo.
— Mistral, j uro pelas Joias que uso e pelo m eu am or à Senhora que nossas intenções são as m elhores.
O que quer que Mistral estivesse pensando sobre um m acho hum ano com pretensões à Senhora se perdeu quando a voz de tenor suave de Ladvarian invadiu suas m entes.
*Senhor Supremo? Senhor Supremo! Temos alguns pequenos protegidos num escudo, m as eles estão assustados e não nos ouvem . Não param de investir contra o escudo. Jaenelle está chorando e tam bém não quer ouvir. Senhor Suprem o?*
Saetan prendeu a respiração. O que pesaria m ais — a lealdade de Mistral à sua espécie ou seu am or e fé em Jaenelle?
Mistral olhou para norte. Passado um longo m om ento, resfolegou.
*O Irmãozinho acredita em você. Confiaremos. Por ora.*
Desej ando ardentem ente se sentar, m as sem se atrever a dem onstrar qualquer sinal de fraqueza, Saetan baixou o escudo Negro com cuidado.
Passados alguns instantes, Lucivar baixou o Cinza-Ébano.
Dividiram -se em grupos. Khary e Morghann foram aj udar Ladvarian e Kaelas com os potros. Lucivar e Karla foram para norte, Karla com o Curandeira principal, Lucivar com o Curandeiro de apoio. O restante da equipe ficou incum bida de procurar os feridos e providenciar auxílio. Saetan, Gabrielle e sua equipe dirigiram -se para sul.
Era doloroso olhar para os corpos m utilados das éguas. Ainda m ais doloroso, era ver um j ovem potro que j azia m orto sobre a m ãe, com as patas dianteiras decepadas. Conseguiria salvar alguns. Por m uitos outros, tudo o que podia fazer era retirar a dor para aliviar a viagem de volta às Trevas.
Passou horas procurando potros escondidos sob as m ães. Encontrou j ovens de até um ano escondidos em depressões do terreno pouco profundas, lugares que continham um poder que ele nunca sentira antes. Não invadiu esses locais. Os j ovens unicórnios o observavam com olhos apavorados enquanto ele circundava os potros à procura de feridas. Percebeu aos poucos, ao pisar cadáveres hum anos despedaçados, que os unicórnios que haviam conseguido alcançar esses locais tinham , na pior das hipóteses, pequenos cortes ou arranhões.
Continuou trabalhando, ignorando a dor de cabeça provocada pelo sol, ignorando os m úsculos doloridos e o cansaço crescente.
Suas em oções ficaram entorpecidas, em defesa contra a carnificina.
Porém , não estavam entorpecidas o suficiente quando encontrou Jaenelle e Kaetien.
— Aqui, m inha bela Senhora — disse Lucivar, passando a m ão pelo pescoço da égua. — Ficará dolorido por uns dias, m as vai curar bem .
O potro da égua resfolegou e bateu com as patas no chão até Lucivar lhe dar alguns pedaços de cenoura e um torrão de açúcar.
Quando a égua e o potro partiram , Lucivar bebeu água e com eu m etade de um sanduíche de queij o enquanto aguardava que o unicórnio seguinte reunisse coragem para ser tocado por um hum ano.
Que as Trevas abençoassem o coração de Khary, um am ante dos equídeos. Depois de um a rápida passada de olhos pela carnificina, Khary e Aaron tinham voltado a Maghre. Regressaram com Narciso e Bailarino do Sol puxando carroças carregadas de suprim entos m edicinais, com ida para os hum anos, m udas de roupa, cobertores e os “subornos” de Khary — cenouras e torrões de açúcar.
Ao perceber a colaboração confiante entre Narciso, Bailarino do Sol e os hum anos, o receio dos unicórnios arrefeceu. As palavras “Sirvo a Senhora” desencadearam um a resposta ainda m ais vigorosa. Pela força daquelas palavras, a m aioria dos unicórnios perm itira que Lucivar os tocasse para tratar o que pudesse.
Enquanro com ia o últim o pedaço do sanduíche, ele observou um potro de um ano aproxim ando-se devagar, com a pele retesada e as m oscas zum bindo em volta da ferida no om bro, protegida por um escudo cada vez m ais fraco.
Lucivar abriu os braços, revelando as m ãos vazias.
— Sirvo...
O pequeno potro fugiu quando o grito de guerra de Sceron estilhaçou a trégua intranquila e Kaelas rugiu, desafiador.
Invocando a espada de guerra ey riena, Lucivar lançou-se em direção ao céu.
Ao dirigir-se a toda velocidade para o hom em que corria do local de desem barque, assinalou com frieza todas as pequenas cenas que se desenrolavam lá em baixo: Morghann, Kalush e Ladvarian conduzindo os potros para as árvores; Kaelas derrubando e destroçando um hom em ; Astar girando nos quartos traseiros, colocando um a flecha no arco centaurano; Morton protegendo Karla e o unicórnio que estava tratando; Khary, Aaron e Sceron protegendo-se uns aos outros enquanto libertavam o poder de suas Joias em pequenas e controladas explosões que dilaceravam os hum anos invasores.
Concentrando-se na presa escolhida, Lucivar libertou um a torrente de poder Cinza-Ébano no m om ento em que o hom em chegava ao sopé do m onte.
O hom em caiu, com as duas pernas habilm ente quebradas e a Joia Am arela exaurida.
Lucivar pousou no exato m om ento em que o velho cavalo ancião com chifre partido investia sobre o hom em caído.
*Espere!*, gritou, enquanto lançava um escudo Vermelho sobre o homem.
O cavalo gritou de raiva e virou-se para enfrentar Lucivar.
*Espere*, repetiu Lucivar. *Primeiro quero respostas. Depois, pode destroçá-lo.*
O cavalo resfolegou, m as parou de raspar o chão.
Com um olhar atento no cavalo, Lucivar retirou o escudo. Pousando um pé no om bro do hom em , o fez girar e ficar deitado de costas.
— Este é um Território restrito — disse rudem ente. — O que o traz aqui?
— Não sou obrigado a dar respostas a gente da sua laia.
Palavras coraj osas vindas de um hom em com as duas pernas quebradas. Estúpidas, m as coraj osas.
Com a espada de guerra ey riena, Lucivar indicou o j oelho direito do hom em e olhou para o cavalo.
— Um a vez. Neste lugar.
O cavalo em pinou o corpo e obedeceu.
— Vam os tentar outra vez? — perguntou Lucivar com toda a calm a assim que o hom em parou de gritar. — O outro j oelho ou passam os às m ãos? A escolha é sua.
— Você não tem o direito de fazer isto. Quando isto for reportado...
Lucivar riu.
— Reportado a quem ? E com que propósito? Você é um invasor guerreando contra os legítim os habitantes desta ilha. Quem se im portará com o que puder lhe acontecer?
— O Conselho das Trevas. — Gotas de suor cobriam a testa do hom em ao ver Lucivar m anuseando a espada de guerra. — Você não tem qualquer direito sobre esta terra.
— Nem vocês — disse Lucivar com frieza.
— Nós tem os direito, seu filho da puta com asas de m orcego. Esta ilha foi atribuída à m inha Rainha, e a outras cinco, para que sej a seu novo território. Viem os aqui prim eiro para estabelecer as fronteiras e resolver os problem as que pudessem existir.
— Com o a raça que dom inou esta terra durante m ilhares de anos? Sim , com preendo que isso pudesse representar um problem a.
— Ninguém dom ina este lugar. Esta é um a terra a ser reclam ada.
— Este é o Território dos unicórnios — disse Lucivar, furioso.
— Está doendo — choram ingou o hom em . — Preciso de um a Curandeira.
— Estão todas ocupadas. Voltem os ao que interessa. O Conselho das Trevas não tem ligitim idade para distribuir terras ou para tirá-las de um a raça que j á detém os direitos sobre ela.
— Mostre-m e a concessão de terras assinada. Minha Rainha tem um a, devidam ente assinada e ratificada.
Lucivar cerrou os dentes.
— São os unicórnios que dom inam estas terras.
O hom em olhou para os lados.
— Os anim ais não têm qualquer direito à terra. Só as pretensões dos hum anos são consideradas legítim as. Tudo o que aqui viver, viverá sob o consentim ento tácito das Rainhas.
— São parentes — disse Lucivar, com a voz rouca devido a sensações que não queria identificar. — São Sangue.
— Anim ais. Não passam de anim ais. É só se livrar dos perigosos, os dem ais poderão ser úteis. — O hom em choram ingou. — Está doendo. Preciso de um a Curandeira.
Lucivar deu um passo para trás. Depois outro. Oh, claro. As Rainhas de Terreille, aquelas vagabundas, adorariam cavalgar sobre unicórnios. Não se im portariam nem um pouco de quebrar os espíritos dos anim ais se fosse preciso. Não se im portariam de m aneira algum a.
Três gloriosos anos vivendo em Kaeleer não eram capazes de purificar os 1.700 anos que vivera em Terreille. Tentara ao m áxim o esquecer o passado, m as havia noites em que acordava trem endo. Conseguia controlar a m ente na m aioria das vezes, m as o corpo ainda recordava m uito bem a sensação de usar um Anel de Obediência e quais os seus efeitos.
Engolindo em seco, Lucivar passou a língua pelos lábios secos e olhou para o velho cavalo.
— Com ece pelos braços e pelas pernas. Assim , levará m ais tem po até m orrer.
Fazendo desaparecer a espada de guerra, virou-se e afastou-se, ignorando o som de cascos partindo ossos, ignorando os gritos.
Saetan tropeçou num braço decepado e adm itiu, por fim , que precisava parar. O tonificante de sangue feito por Jaenelle lhe perm itia tolerar e fruir um pouco da luz do sol, m as nem por isso podia deixar de descansar durante as horas em que o sol estava m ais forte. À m edida que a m anhã dava lugar à tarde, trabalhara à som bra tanto quanto possível, m as isso não bastava para im pedir o esgotam ento que a luz forte do sol provocava no corpo de um Guardião, e ele tam pouco suportava realizar tantas curas durante tantas horas seguidas.
Precisava parar.
Mas não podia até encontrar Jaenelle.
Tentou tudo de que se lem brou para localizá-la. Nada havia funcionado. Tudo o que Ladvarian conseguia lhe transm itir era que estava ali e chorando, m as nem Ladvarian nem Kaelas conseguiam lhe dar a m enor indicação sobre o local onde procurar. Quando conseguiu que Mistral entendesse sua preocupação, o cavalo disse:
— A tristeza da Senhora im pedirá que a encontrem os.
Saetan esfregou os olhos, esperando que seu cérebro desorientado pelo cansaço continuasse a funcionar, pelo m enos até que conseguisse chegar ao acam pam ento que Chaosti e Elan tinham erguido. Estava cansado dem ais, esgotado dem ais. Com eçava a delirar, a ver coisas.
Com o por exem plo a Rainha unicórnio à sua frente, que parecia feita de raios de luar e névoa, com olhos som brios tão antigos quanto a terra.
Dem orou um m inuto até perceber que conseguia ver através dela.
— Você está...
*Morta*, concluiu a voz feminina, como uma carícia. *Morta há muito, muito tem po. E j am ais m orta. Venha, Senhor Suprem o. Minha Irm ã precisa de seu progenitor.*
Saetan seguiu-a até um círculo de pedras baixas dispostas em intervalos regulares. No centro, um grande chifre de pedra erguia-se do solo. Um poder ancestral e profundo envolvia o círculo.
— Não posso entrar neste local — disse Saetan. — É um local sagrado.
*Um lugar venerado*, respondeu. *Eles estão perto. Ela lamenta pelo que não foi capaz de salvar. Você precisa fazê-la ver o que salvou.*
A égua cam inhou para dentro do círculo. Ao se aproxim ar do grande chifre de pedra, desvaneceu até desaparecer, em bora Saetan tenha tido a sensação de que aqueles olhos som brios, antigos com o a terra, ainda o observavam .
O ar trem eluziu à sua direita. Um véu que ele não sabia estar presente desapareceu. Cam inhou até o local. E os encontrou.
Os desgraçados tinham destrinchado Kaetien. Deceparam -lhe as pernas, a cauda, os órgãos sexuais. Rem overam suas entranhas.
Arrancaram -lhe o chifre.
Deceparam -lhe a cabeça.
Contudo, os olhos som brios de Kaetien revelavam ainda um a inteligência im petuosa.
O estôm ago de Saetan se em brulhou.
Kaetien tornara-se dem ônio-m orto naquele corpo m utilado.
Jaenelle estava sentada j unto ao cavalo, inclinada sobre o ventre aberto. Dos seus olhos arregalados escorriam lágrim as. As m ãos, com os nós dos dedos em branquecidos, envolviam o chifre de Kaetien.
Saetan caiu de j oelhos ao lado de Jaenelle.
— Criança-feiticeira? — sussurrou.
O reconhecim ento chegou devagar.
— Papai? P-papai? — Atirou-se para os braços de Saetan. As lágrim as silenciosas transform aram -se num choro histérico. O chifre de Kaetien arranhava as costas de Saetan enquanto Jaenelle se agarrava a ele.
— Oh, criança-feiticeira. — Enquanto ele e os outros procuravam sobreviventes, ela ficara ali sentada, o dia todo, aprisionada na própria dor.
— Que as Trevas sej am m isericordiosas — disse um a voz atrás de Saetan.
Saetan olhou por cim a do om bro, sentindo cada m úsculo ao virar a cabeça. Lucivar. Força viva que poderia fazer o que ele não conseguia.
Lucivar olhou para a cabeça de Kaetien e estrem eceu.
Saetan ouvia as conversas aceleradas que estavam acontecendo em fios m asculinos, m as estava cansado dem ais para extrair sentido delas.
Lucivar pousou um j oelho no chão, pegou um a m adeixa do cabelo em baraçado e ensanguentado de Jaenelle e, com toda a delicadeza, afastou sua cabeça do om bro de Saetan.
— Vam os lá, Gata. Você vai se sentir m elhor depois de beber um gole disto. — Colocou um a grande garrafa de prata j unto à boca da garota.
Ela se engasgou e cuspiu quando o líquido desceu pela garganta.
— Desta vez, engula — disse Lucivar. — Esta substância faz m enos m al ao estôm ago do que aos pulm ões.
— Esta substância vai derreter m eus dentes — arquej ou Jaenelle.
— O que deu a ela? — perguntou Saetan quando Jaenelle desfaleceu, de repente, nos seus braços.
— Um a dose generosa da infusão caseira de Khary. Ei!
Saetan viu-se apoiado no peito de Lucivar. Concentrou-se na própria respiração durante um m inuto.
— Lucivar. Você perguntou se tinha forças suficientes para isto. Não tenho.
Um a m ão forte e calorosa afagou sua cabeça.
— Aguente firm e. Bailarino do Sol está chegando. Vam os levá-lo para o acam pam ento. As garotas tom arão conta da Gata. Só m ais alguns m inutos e poderá descansar.
Descansar. Sim , precisava descansar. A dor de cabeça que am eaçava despedaçar seu crânio aum entava de intensidade a cada fôlego.
Alguém lhe tirou Jaenelle dos braços. Alguém o am parou até o local onde Bailarino do Sol aguardava. Mãos fortes o m antiveram na garupa do cavalo.
Quando se deu conta, estava sentado no acam pam ento, envolvido em cobertores, e Karla estava aj oelhada a seu lado, incentivando-o a beber a infusão de feiticeira que havia preparado para ele.
Depois de beber um a segunda xícara, concordou em ser em purrado e acom odado num saco de dorm ir. Rosnou ligeiram ente por estar sendo tão incom odado, até que Karla lhe perguntou com rispidez com o esperava que convencessem Jaenelle a descansar se ele estava dando um exem plo tão ruim .
Sem saber com o responder, rendeu-se à dor de cabeça, abrandada pela infusão, e adorm eceu.
Lucivar bebia devagar seu café com uísque enquanto Gabrielle e Morghann acom odavam Jaenelle num saco de dorm ir. Deteve-se, ignorando os pedidos para que se deitasse e descansasse. Seus olhos perderam o aspecto entorpecido e aturdido quando centrou a atenção em Mistral, que rondava o lim ite do acam pam ento, ainda m ancando por conta da perna dianteira esquerda ferida.
Lucivar sentiu-se grato por aquele fogo gélido e perigoso não ser dirigido a ele.
— E essa perna não foi tratada por quê? — perguntou Jaenelle com a voz de m eia-noite, olhando fixam ente para o j ovem cavalo.
Mistral resfolegou e ficou agitado. Naturalm ente, não queria adm itir que não perm itira ser tocado por ninguém .
Lucivar não o censurava.
— Sabe com o são os m achos — disse Gabrielle, tranquilizadora. — “Eu estou, estou bem , trate os outros prim eiro.” Íam os cuidar dele quando você e tio Saetan chegaram .
— Estou vendo — disse Jaenelle com delicadeza, m as seu olhar continuava petrificando Mistral. — Pensei que estivesse insultando m inhas Irm ãs, recusando-se a ser tratado por elas, só porque são hum anas.
— Que absurdo — disse Morghann. — Agora vam os lá, dê o bom exem plo.
Assim que a acom odaram , cercaram Mistral.
Tudo correria bem , pensou Lucivar apaticam ente. Tinha de ser assim . Os unicórnios, assim com o os outros parentes, não perderiam toda a confiança nos hum anos e não se esconderiam de novo atrás das m áscaras de poder que os m anteriam afastados do resto de Kaeleer. A Gata se encarregaria disso. Assim com o Saetan.
Fogo do Inferno, até hoj e não tinha pensado m uito sobre a diferença entre um Guardião e os vivos. No Paço, essas diferenças pareciam m uito sutis.
Não percebera até que ponto o sol forte podia causar tam anho sofrim ento, não se dera conta de há quantos anos o Senhor Suprem o cam inhava nos Reinos. Sabia a idade de Saetan, m as hoj e fora a prim eira vez que, aos seus olhos, seu pai lhe parecera velho.
É claro que os outros hom ens tam bém estavam bastante abatidos física e em ocionalm ente, por isso não serviam com o term o de com paração.
Khary estava agachado a seu lado e despej ava um pouco da infusão caseira no café, no qual j á havia outras substâncias.
— Há algum a coisa perturbando nossos Irm ãos quadrúpedes — disse em voz baixa. — Algum a coisa além disto. — Acenou com a m ão na direção dos cadáveres brancos que j aziam à vista.
Os unicórnios não se im portavam com o destino dado aos cadáveres hum anos — em bora recusassem que os intrusos perm anecessem na sua terra —, m as insistiram para que não m ovessem os unicórnios m ortos. A Senhora os cantaria para a terra, disseram .
O que quer que isso significasse.
Contudo, à m edida que as éguas e os potros foram sendo trazidos para este lado do m onte com a teia de desem barque, os garanhões sobreviventes iam ficando cada vez m ais perturbados.
— Talvez Ladvarian saiba algum a coisa — disse Lucivar, bebendo o café em pequenos goles. Enviou um cham ado tranquilo. Alguns m inutos depois, o scelta entrava penosam ente no acam pam ento.
*A Sombra da Lua desapareceu*, disse Ladvarian quando Lucivar lhe perguntou. *A Nuvem de Estrelas estava ficando velha. A Som bra da Lua seria a nova Rainha. Ela usa um a Joia Opala. Um a das éguas contou que viu hum anos lançando cordas e redes para prender Som bra da Lua, m as não viu para onde foram .*
Lucivar fechou os olhos. Pelo que observara, todos os m achos dos Sangue que tinham invadido Sceval usavam Joias m ais claras, m as um bando deles com redes e cordas enfeitiçadas poderia controlar um a Rainha de Joia Opala. Estariam as redes enfeitiçadas im pedindo-a de contactar os outros ou teria sido levada da ilha?
— Voltarei antes do anoitecer — disse Lucivar, entregando a xícara a Khary.
— Tenha cuidado — avisou Khary, sereno. — Por via das dúvidas.
Lucivar voou para norte. Enquanto voava, enviava continuam ente um a m ensagem : Servia à Senhora. A Senhora estava num acam pam ento j unto ao m onte de desem barque. Havia Curandeiras com a Senhora.
Vislum brou alguns grupos de unicórnios que corriam para as árvores o m ais rápido que podiam assim que o detectavam .
Viu m uitos corpos brancos im óveis.
Viu ainda m ais cadáveres hum anos vítim as de explosões e agradeceu às Trevas por Jaenelle ter m antido sua fúria circunscrita a esta ilha.
E ficou curioso quanto aos bolsões de energia que ia sentindo ao sobrevoar bosques e clareiras. Alguns eram fracos; outros, m uito m ais poderosos. Estava se afastando de um bolsão particularm ente poderoso vindo das árvores à esquerda quando algo se apoderou dele. Algo cheio de cólera e desespero.
Usando a Verm elha de Direito por Progenitura, quebrou o contato, não sem algum esforço.
*Você serve à Senhora*, disse uma voz masculina, rouca.
Lucivar ficou pairando, respirando com dificuldade.
*Sirvo à Senhora*, afirmou com cautela. *Precisa de ajuda?*
*Ela precisa de aj uda. *
Pousando, deixou que a energia o guiasse através das árvores até chegar à sua origem . Num a cova, encontrou um a égua em aranhada em redes e cordas, ofegante e transpirando.
— Ah, m inha querida — disse Lucivar com ternura.
Em bora a m aior parte dos unicórnios apresentasse diferentes tons de branco, havia alguns cinzentos com m anchas. Esta égua tinha um tom cinza-claro com crina e cauda brancas. Em volta do seu chifre havia um anel de prata do qual pendia um a Joia Opala.
Não era apenas Rainha, m as tam bém Viúva Negra. A única com binação ainda m ais rara era Rainha/Viúva Negra/Curandeira. Jam ais ouvira falar de um a feiticeira com estas características durante o tem po em que vivera em Terreille. Em Kaeleer, havia apenas três — Karla, Gabrielle e Jaenelle.
Mantendo a calm a, Lucivar abriu lentam ente as asas negras e m em branosas. Durante toda a vida ouvira m uitos com entários aviltantes sobre os “m orcegos hum anos” e reconhecia a vantagem que as asas poderiam lhe possibilitar agora. As asas, assim com o os cascos e o pelo, costum avam fazer parte do dom ínio dos parentes.
— Lady Som bra da Lua — disse, m antendo a voz baixa e tranquila —, sou o Príncipe Lucivar Yaslana. Sirvo à Senhora. Gostaria de aj udá-la.
Ela não respondeu, em bora o pânico em seus olhos dim inuísse aos poucos.
Cam inhou na direção da égua, cerrando os dentes quando o poder m asculino que a rodeava se intensificou e depois esm oreceu.
— Calm a, querida — disse, agachando-se j unto a ela. — Calm a.
O pânico voltou a crescer quando Lucivar tocou seu lom bo.
Lucivar praguej ava baixinho enquanto cortava as redes e as cordas. Haviam tentado quebrá-la, estilhaçar sua teia interior. A única diferença entre o que os desgraçados de Terreille haviam tendado fazer com ela e o que costum avam fazer com feiticeiras hum anas era a violação física. Talvez por isso não tivessem tido sucesso antes de Jaenelle libertar a Negra. Não haviam tido a oportunidade de usar sua m elhor arm a.
— Pronto — disse Lucivar, atirando longe a últim a corda. — Vam os lá, querida. De pé. Com calm a.
Passo a passo, conseguiu persuadi-la a sair das árvores para a clareira. Seu m edo aum entava a cada passo, pois afastava-se daquela cova repleta de poder. Precisava levá-la para o acam pam ento antes que o m edo concluísse o que aqueles filhos da puta tinham iniciado. Havia um a linha radial do Vento Rosa ali perto e Lucivar sabia que conseguiria guiá-la e escudá-la durante a curta viagem , m as com o conseguiria convencê-la a confiar nele?
— Mistral vai ficar m uito contente em vê-la — disse, descontraído.
*Mistral?* Ela virou a cabeça de repente. Lucivar conseguiu se desviar do chifre a tem po. *Ele está bem ?*
— Está no acam pam ento com a Senhora. Se pegarm os o Vento Rosa, chegarem os lá antes do anoitecer.
A dor e o pesar invadiram seus pensam entos.
*Os que se foram precisam ser cantados para a terra ao crepúsculo.*
Lucivar reprim iu um calafrio. De repente, desej ava com ardor estar de volta ao acam pam ento.
— Vam os, Senhora?
Todos haviam regressado ao acam pam ento, cansados e com um a dor profunda no coração.
Todos, exceto Lucivar.
Enquanto bebia a infusão fortificante que Karla havia lhe preparado, Saetan tentava não ficar preocupado. Lucivar sabia cuidar de si; era um guerreiro forte, com excelente condicionam ento físico e m uito bem treinado; conhecia seus lim ites, ainda m ais depois de ter dado tanto de si ao longo do dia; não faria nenhum a bobagem com o enfrentar sozinho um grupo de m achos dos Sangue com Joias só por estar irritado com as m ortes dos parentes.
E am anhã o sol se levantaria a leste.
— Lucivar está bem — disse Jaenelle, tranquila, enquanto se sentava ao lado de Saetan num dos troncos que os rapazes haviam arrastado até a fogueira para servir de assentos. Aconchegando à sua volta o cobertor aquecido por m eio de um feitiço, deu um sorriso som brio. — Em teoria, o Anel m e perm ite sentir seus picos de fúria. Eu não tinha percebido que havia feito besteira em algum m om ento enquanto o estava criando até que Karla, Morghann, Grezande e Gabrielle resm ungaram com igo porque eu estava abrindo um precedente perigoso, um a vez que todos os rapazes querem um Anel que funcione desse j eito. — Sua voz se transform ou num ligeiro resm ungo. — Sem pre pensei que fosse apenas um a intuição extraordinária quando Lucivar aparecia, em todas as ocasiões em que eu m e sentia m al-hum orada. Com certeza ele nunca deu qualquer indicação de que fosse m ais do que isso.
— Ele não é idiota, criança-feiticeira — respondeu Saetan, dando um gole na infusão para ocultar o sorriso.
— Há controvérsias. Mas por que ele precisava dizer aos outros?
Saetan com preendia o m otivo da irritação das Rainhas. A base de qualquer corte oficial era form ada por doze m achos e um a Rainha. Pelo Anel de Honra a Rainha podia vigiar todas as variações na vida de um m acho. Porém , por respeito à privacidade dos m achos que as serviam e porque nenhum a m ulher, no seu perfeito j uízo, desej aria estar a par das correntes em ocionais de tantos hom ens, em geral aj ustavam a supervisão exercida de m aneira a bloquear tudo, exceto sensações com o o m edo, a raiva e a dor — que revelavam que o portador do Anel precisava de aj uda.
Cada hom em , porém , só precisava m onitorar um a única Rainha.
Saetan teria de falar com Lucivar sobre os lim ites autoim postos em relação àquele tipo de supervisão. Estava interessado em saber até onde iam os lim ites do seu filho.
— E por falar no chato que não é um idiota — disse Jaenelle, indicando duas silhuetas que se aproxim avam do acam pam ento.
Mistral irrom peu selvagem ente.
*Sombra da Lua! Sombra da Lua!*
Partiu a galope. Pelo m enos, tentou.
Assim que Mistral com eçou a avançar, Gabrielle saltou do tronco onde estava sentada, estendeu o braço, fechou a m ão com o se tivesse pegado algum a coisa e deu um puxão para cim a.
Mistral ficou suspenso no ar, com as pernas em grande agitação.
O braço de Gabrielle trem ia com o esforço de sustentar aquele peso suspenso no ar, m esm o usando a Arte. Observando a garota, Saetan decidiu que teria de ter um a conversa com Chaosti assim que possível. Um a feiticeira capaz de fazer um a coisa daquelas depois de um exaustivo dia de curas era um a Senhora que precisava ser tratada com m uito cuidado.
— Se tentar galopar nessa perna, ponho você para dorm ir — disse Gabrielle.
*É Sombra da Lua!*
— Nem que fosse a Rainha dos unicórnios ou a sua parceira — retrucou Gabrielle. — Não galope com a perna desse j eito!
— Por acaso — disse Jaenelle com um sorriso sarcástico —, ela é as duas coisas.
— Ora, ora, fogo do Inferno. — Gabrielle pousou Mistral no chão, m as não o largou.
— Gabrielle — disse Chaosti com o tom de voz insinuante que Saetan classificara com o m acho-apaziguador-da-fúria-fem inina. — É a parceira dele. Ele estava preocupado. Eu não ia gostar de esperar se fosse você. Deixe-o ir.
Gabrielle fulm inou-o com o olhar.
— Ele vai devagar — disse Chaosti. — Não vai, Mistral?
Mistral não estava em posição de recusar aliados, ainda que só possuíssem duas pernas.
*Vou devagar.*
Contra a vontade, Gabrielle o soltou.
Mistral arrastou-se em direção a Som bra da Lua, com a cabeça baixa com o um rapazinho recém -repreendido ainda não m uito longe dos olhos vigilantes do repreensor.
— Olha o que você fez — disse Khary. — O chifre dele m urchou.
— Aposto que o seu chifre tam bém m urcha quando é repreendido — disse Karla com um sorrido m aldoso.
Antes que Khary conseguisse responder, Jaenelle pousou a xícara e disse baixinho:
— Chegou a hora.
O sentim ento de consternação foi geral quando Jaenelle cam inhou até as árvores.
— Você sabe o que vai acontecer? — perguntou Lucivar a Saetan quando chegou ao acam pam ento e se sentou ao lado do pai.
Saetan balançou a cabeça. Com o todos no acam pam ento, não conseguia tirar os olhos da égua.
— Mãe Noite, ela é linda.
— E tam bém é Rainha Viúva Negra — disse Lucivar friam ente, observando Mistral acom panhar sua Senhora. — Bem , se alguém vai ter que levar um coice por se introm eter, antes ele do que eu.
Saetan riu.
— A propósito, sua irm ã tem um assunto que quer debater com você. — Sem obter qualquer resposta, olhou para o filho. — Lucivar?
Lucivar estava boquiaberto, os olhos fixos nas árvores à esquerda de Saetan — as árvores para onde Jaenelle havia se dirigido alguns m inutos antes.
Ele se virou... e perdeu o fôlego.
Jaenelle usava um vestido com prido e esvoaçante de seda de aranha preta. Fios de teias corriam das m angas j ustas. A partir do decote, o vestido transform ava-se num a teia aberta. Lascas de Joias Negras reluziam com fogo obscuro no final de cada filam ento. Anéis com Joias Negras adornavam am bas as m ãos. Em volta do pescoço, um a Joia Negra ao centro de um a teia feita de finos fios de ouro e prata.
Era um vestido cerim onioso feito para Jaenelle, a Feiticeira. Erótico. Rom ântico. Espantoso. Podia sentir o poder latente em cada fio daquele vestido. Foi nesse m om ento que percebeu quem o havia criado: os aracnianos. As Tecelãs de Sonhos.
Em silêncio, Jaenelle segurou o chifre de Kaetien e deslizou para cam po aberto, a pequena cauda do vestido ondulando atrás de si.
Saetan desej ou lem brá-la de que estava passando pelo período da lua e que, por isso, não deveria usar o corpo para canalizar o poder. Porém , recordou-se que, atrás da m áscara hum ana, a Feiticeira tinha um pequeno chifre em espiral no centro da testa, por isso nada disse.
Jaenelle passou vários m inutos andando em círculos, observando a terra com o se à procura de um ponto específico.
Enfim satisfeita, voltou-se para norte. Erguendo o chifre de Kaetien para o céu, entoou um lam ento. Baixou as m ãos e, com o chifre, apontou para a terra, cantando outra vez. Depois, ergueu os braços e com eçou a cantar no Idiom a Antigo.
Um cântico de feiticeira.
Saetan sentia-o nos ossos, sentia-o no sangue.
Um a teia fantasm agórica de energia form ou-se sob os pés descalços de Jaenelle, alastrando-se com rapidez pela terra. Cada vez m ais depressa.
O cântico virou um hino fúnebre cheio de pesar e enaltecim ento. Sua voz tornou-se o vento, a água, a gram a, as árvores. Circular. Espiralante.
Os corpos im óveis e brancos dos unicórnios m ortos com eçaram a brilhar. Fascinado, Saetan im aginou se, vistos de cim a, os corpos incandescentes não pareceriam estrelas que tinham vindo descansar num local sagrado.
Talvez fossem . Talvez tivessem vindo descansar.
O cântico voltou a m udar, tornando-se um a fusão dos dois anteriores. Cessando e principiando. Da terra e para a terra.
Os corpos dos unicórnios fundiram -se na terra.
Os parentes não iam para o Reino das Trevas. Agora sabia por quê. Assim com o sabia por que os hum anos j am ais se estabeleceriam de m aneira confortável nos Territórios dos parentes sem o seu consentim ento. Assim com o sabia o que havia criado aqueles bolsões de energia que evitara com todo cuidado.
Os parentes não deixavam seus Territórios, tornavam -se parte deles. A força que subsistira em cada um deles ficava ligada à terra.
A teia fantasm agórica de energia desvaneceu.
A voz de Jaenelle desvaneceu, bem com o o que restava da luz dia.
Ninguém se m exeu. Ninguém disse nada.
Voltando a si, Saetan percebeu que o braço de Lucivar estava em volta de seus om bros.
— Droga — m urm urou Lucivar, enxugando as lágrim as.
— O m ito vivo — m urm urou Saetan. — A realização dos sonhos. — Sentiu um nó na garganta. Fechou os olhos.
Sentiu que Lucivar o deixava e que tentava segurar algum a coisa.
Ao abrir os olhos, viu Lucivar am parando Jaenelle até o acam pam ento. Seu rosto estava contraído devido ao sofrim ento e ao cansaço, m as os olhos azul-safira estavam tranquilos.
A assem bleia reuniu-se à sua volta e levou-a para as árvores.
Conversando em voz baixa, os rapazes m exiam o guisado nas panelas, cortavam pão e queij o, reuniam tigelas e pratos para o j antar.
Para além da luz da fogueira, os unicórnios se acom odavam para passar a noite.
Khary e Aaron levaram tigelas de guisado e água para o local onde Ladvarian e Kaelas vigiavam os potros.
Quando as garotas regressaram , Jaenelle vestia calças com pridas e um suéter grosso. Reclam ou sem forças quando Lucivar a envolveu num cobertor com um feitiço de aquecim ento e a sentou no tronco ao lado de Saetan, m as não resm ungou em relação à com ida que lhe ofereceu.
Conversavam em voz baixa enquanto com iam . Assuntos triviais e provocações am igáveis. Sem referências ao que haviam feito durante o dia ou ao que os aguardava no dia seguinte. Apesar do esforço, tinham coberto apenas um a pequena parte de Sceval e som ente Jaenelle sabia quantos unicórnios habitavam o lugar.
Som ente Jaenelle sabia quantos haviam sido cantados de volta à terra.
— Saetan? — cham ou Jaenelle, com a cabeça encostada no om bro do pai.
Ele beij ou sua testa.
— Criança-feiticeira? — Ela levou tanto tem po para responder que Saetan achou que havia caído no sono.
— Quando o Conselho das Trevas voltará a se reunir?
5 / Kaeleer
Lord Magstrom tentou se concentrar na peticionária que estava no círculo, m as a verdade é que suas queixas eram as m esm as das sete peticionárias anteriores, e ele duvidava que as vinte peticionárias que se seguiriam teriam algo diferente a apresentar ao Conselho das Trevas.
Ao tornar-se Terceiro Tribuno, j ulgara que suas opiniões pudessem ser levadas um pouco m ais em conta. Esperava que sua posição aj udasse a debelar as constantes insinuações sussurradas sobre a fam ília SaDiablo.
O fato de nenhum a das Rainhas dos Territórios fora da Pequena Terreille acreditarem na veracidade dessas insinuações deveria dito algum a coisa ao Conselho. O fato de os pareceres do Conselho das Trevas terem sido respeitados e m erecido a confiança de todas as raças dos Sangue durante os anos em que o Senhor Suprem o e Andulvar Yaslana serviram no Conselho deveria ter-lhes dito ainda m ais — sobretudo porque isso j á não correspondia m ais à verdade.
Lord Jorval era agora Prim eiro Tribuno, e a facilidade com que conseguia m anipular as opiniões dos outros m em bros do Conselho era perturbadora.
E agora isto.
— Com o posso povoar o território que m e foi concedido quando m eus hom ens são m assacrados antes de conseguirem sequer m ontar acam pam ento? — perguntou a Rainha que apresentava a petição. — O Conselho precisa tom ar providências!
— Os lugares selvagens são sem pre perigosos, Senhora — respondeu Lord Jorval, tranquilo. — A Senhora foi avisada para tom ar precauções adicionais.
— Precauções! — A Rainha estrem eceu, indignada. — Você disse que esses anim ais, esses a quem cham am parentes, possuíam um pouco de m agia.
— E é verdade.
— Mas não foi só um pouco de m agia que usaram . Foi Arte!
— Não, não. Só as raças hum anas são Sangue e só os Sangue são capazes de usar a Arte. — Lord Jorval lançou um olhar consternado para os m em bros do Conselho sentados de am bos os lados do grande hem iciclo. — Mas é possível, dado nossos parcos conhecim entos sobre esses seres, que não tenham os plena consciência da extensão da m agia que dom inam . Talvez a única m aneira de nossos Irm ãos e Irm ãs terreillianos salvaguardarem a terra que lhes foi concedida sej a o envio de guerreiros, pelas Rainhas de Kaeleer, para aniquilar essas infestações.
E todas as Rainhas que enviassem guerreiros esperariam um a porcentagem m aior dos rendim entos provenientes das terras conquistadas, pensava Magstrom com am argura. Estava prestes a se opor novam ente aos outros m em bros do Conselho — lem brando-lhes que o Conselho das Trevas fora constituído para prevenir guerras, e não fom entá-las — quando um a voz de m eia-noite invadiu o hem iciclo do Conselho e o im pediu de prosseguir.
— Infestações? — Jaenelle Angelline cam inhou a passos largos até o banco do Tribunal e parou im ediatam ente antes do círculo do peticionário, ladeada pelo Senhor Suprem o e por Lucivar Yaslana. — Essas infestações de que fala, Lord Jorval, são parentes. São Sangue. Têm todo o direito de se defender, bem com o à terra que lhes pertence, contra forças invasoras.
— Não estam os invadindo — retrucou a Rainha peticionária. — Entram os nos territórios para povoar a terra que não foi reclam ada e que nos foi concedida pelo Conselho das Trevas.
— Não são terras por reclam ar — disse Jaenelle, ríspida. — São Territórios dos parentes.
— Senhoras. — Lord Jorval teve de elevar o tom de voz para ser ouvido em m eio ao burburinho dos m em bros do Conselho e das peticionárias. — Senhoras! — Quando o Conselho e as peticionárias se acalm aram , Lord Jorval sorriu para Jaenelle. — Lady Angelline, em bora sej a sem pre um prazer revê-la, tenho de lhe pedir que não interrom pa um a reunião do Conselho. Se há algum assunto que queira apresentar perante o Conselho, peço que aguarde até que sej am ouvidas todas as peticionárias que solicitaram previam ente um a audiência.
— Se todas tiverem as m esm as queixas, posso poupar m uito tem po ao Conselho — respondeu Jaenelle com frieza. — Os Territórios dos parentes não são terras por reclam ar. Os Sangue as têm governado durante m ilhares de anos. Os Sangue ainda as governam .
— Em bora m e custe discordar — disse Lord Jorval, com delicadeza —, não há Sangue nesses “territórios dos parentes”. O Conselho estudou o assunto com a m aior dedicação e concluiu que, em bora esses anim ais possam ser considerados “prim os m ágicos”, o fato é que não são Sangue. Para se pertencer aos Sangue, é preciso ser hum ano. E este Conselho foi form ado para tratar dos assuntos dos Sangue, dos direitos dos Sangue.
— E o que são os centauros? O que são os sátiros? Sem i-hum anos com m etade dos direitos?
Ninguém respondeu.
— Com preendo — disse Jaenelle, com dem asiada delicadeza.
Lord Magstrom sentiu a boca seca. Sentiu a língua enrugada. Ninguém m ais se lem brava do que tinha acontecido da últim a vez que Jaenelle Angelline estivera diante do Conselho?
— Assim que os Sangue se estabelecerem nesses Territórios, tom arão conta dos parentes. Qualquer discordância poderá ser trazida ao Conselho pelos representantes hum anos desses Territórios.
— Está dizendo que os parentes precisam de um representante hum ano antes que seus eventuais direitos sej am levados em consideração?
— Precisam ente — respondeu Lord Jorval, sorridente.
— Nesse caso, eu serei a representante hum ana dos parentes.
Lord Magstrom teve a sensação de que um a arm adilha havia sido acionada. Lord Jorval m antinha o sorriso, ainda parecia afável, m as Magstrom trabalhava com ele há tem po suficiente para reconhecer a crueldade sutil e profunda no hom em .
— Infelizm ente, isso não é possível — disse Lord Jorval. — As reivindicações desta Senhora podem estar em discussão — acenou com a cabeça para a Rainha peticionária —, m as você não tem nenhum direito a reivindicar coisa algum a. Não governa esses Territórios. Seus direitos não estão sendo infringidos. E um a vez que nem você nem os seus estão sendo afetados por esta questão, não têm nenhum a queixa j usta a apresentar. Peço que deixem o hem iciclo do Conselho.
Lord Magstrom estrem eceu perante o vazio nos olhos de Jaenelle. Suspirou de alívio quando a viu sair do hem iciclo do Conselho, seguida pelo Senhor Suprem o e pelo Príncipe Yaslana.
— Agora, Senhora — disse Lord Jorval, com um sorriso cansado —, vam os ver o que podem os fazer em relação à sua legítima petição.
— Desgraçados — rosnou Lucivar enquanto cam inhavam na direção da teia de desem barque.
Saetan passou o braço em volta dos om bros de Jaenelle. Não o preocupava a raiva explícita de Lucivar, e sim o distanciam ento silencioso de Jaenelle.
— Não se aborreça com isso, Gata — prosseguiu Lucivar. — Vam os dar um j eito de driblar aqueles canalhas e m anter os parentes protegidos.
— Não acho que exista um a m aneira legítim a de driblar o Conselho — disse Saetan, cauteloso.
— Não m e diga que nunca quebrou a Lei? Nunca rej eitou um a decisão fazendo uso da força e da fúria?
Saetan cerrou os dentes. Na tentativa de explicar as divergências da fam ília com o Conselho das Trevas, alguém contara a Lucivar por que o Conselho o tinha designado tutor de Jaenelle.
— Não, não foi isso que eu disse.
— Está dizendo que não é j ustificável lutar pelos parentes um a vez que são anim ais?
Saetan parou. Jaenelle prosseguiu pelo cam inho de pedras, afastando-se um pouco deles.
— Não, tam bém não foi isso que eu disse — respondeu Saetan, esforçando-se para m anter o tom de voz baixo. — Precisam os encontrar um a resposta adequada às novas regras do Conselho ou então haverá um a guerra que irá dividir o Reino.
— E por isso sacrificarem os os Sangue que não são hum anos, para salvar Kaeleer? — Com um sorriso am argo, Lucivar abriu as asas. — O que eu sou, Senhor Suprem o? Segundo os critérios do Conselho sobre quem é e não é hum ano, o que eu sou?
Saetan recuou um passo. Poderia ser Andulvar ali. Andulvar é que havia estado ali todos esses anos. Quando a honra e a Lei já não estão do mesmo lado, como escolher, SaDiablo?
Saetan esfregou o rosto com as m ãos. Ah, Hekatah, você tece habilmente os seus planos. Assim como antes.
— Encontrarem os um a m aneira legítim a de proteger os parentes e suas terras.
— Você disse que não havia um a m aneira legítim a.
— Existe — disse Jaenelle suavem ente, j untando-se aos dois. Apoiou-se em Saetan. — Existe.
Alarm ado ao vê-la tão pálida, Saetan segurou-a j unto a si, afagando seu cabelo enquanto a perscrutava delicadam ente. Não apresentava qualquer problem a físico à exceção do cansaço que o excesso de trabalho havia acarretado e a tensão em ocional de contar os m ortos entre os parentes.
— Criança-feiticeira?
Jaenelle estrem eceu.
— Nunca desej ei isso. Mas é a única m aneira de aj udá-los.
— O que quer dizer, criança-feiticeira? — cantarolou Saetan.
Trem endo, ela afastou-se dele. Saetan se lem braria para sem pre daquele olhar perturbado.
— Vou realizar a Oferenda às Trevas e constituir m inha corte.