A Herdeira das Sombras

Anne Bishop · Capítulo 13 de 22

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A Herdeira das Sombras

Terceira Parte

CAPÍTULO NOVE

 

1 / Terreille

Estava nas m inas de sal de Pruul havia cinco anos.

Chegara o m om ento de m orrer.

A fim de conseguir a m orte com pleta e feroz que prom etera a si m esm o, precisava vencer a força que Zuultah possuía de enfraquecê-lo com o Anel de Obediência. Não seria difícil. Com o o achavam um covarde, os guardas não lhe davam m uita atenção, e Zuultah tinha se tornado bastante negligente na utilização do Anel. Quando se lem brassem do que nunca deveriam esquecer sobre Lucivar, seria tarde dem ais.

 

Lucivar puxou a picareta da cintura do guarda e cravou-a no cérebro do hom em , transm itindo, através do m etal, força Cinza-Ébano suficiente para concluir o assassinato, estilhaçando sua m ente e suas Joias.

Cerrando os dentes num sorriso selvagem , arrancou as correntes que o prendiam há cinco anos. Em seguida, invocou as Joias Cinza-Ébano e o largo cinturão de couro que guardava sua faca de caça e a espada de guerra ey riena. Ao longo dos séculos, m uitas Rainhas tolas haviam tentado forçá-lo a entregar aquelas arm as. Ele suportara os castigos e a dor e j am ais adm itira que estiveram sem pre ao seu alcance — pelo m enos, até fazer uso delas.

Desem bainhando a espada de guerra, correu para a entrada da m ina.

Os dois prim eiros guardas m orreram antes de notar sua presença.

Os dois seguintes explodiram ao serem atingidos pela Cinza-Ébano.

Os dem ais foram atropelados pelos escravos que corriam descontroladam ente, tentando sair do cam inho do enfurecido Príncipe dos Senhores da Guerra.

Lucivar lutava para abrir cam inho entre a confusão de corpos. Chegou à entrada da m ina e atravessou correndo o aloj am ento dos escravos, preparando-se m entalm ente para um salto às cegas nas Trevas, na esperança de que, com o um a flecha atirada de um arco, voasse diretam ente para o Vento m ais próxim o e para a liberdade.

Um a dor atroz vinda do Anel de Obediência quebrou sua concentração j usto no m om ento em que a flecha de um a balestra atravessou sua coxa, interrom pendo a corrida. Uivando de raiva, Lucivar liberou um a extensa faixa de poder através do anel Cinza-Ébano, dilacerando a m ente e os corpos dos guardas que o perseguiam . Outra explosão de dor vinda do Anel de Obediência irrom peu por seu corpo. Apoiando-se na perna boa, equilibrou-se e enviou um a onda de poder à casa de Zuultah.

A casa explodiu. Choveram pedras nas construções ao redor.

A dor provocada pelo Anel parou subitam ente. Lucivar sondou depressa e praguej ou. A filha da puta estava viva. Atordoada e ferida, m as ainda viva. Hesitou, com ânsia assassina. Um a leve batida em suas barreiras interiores cham ou de novo a atenção dos guardas que haviam sobrevivido. Corriam na direção de Lucivar, tentando com binar as forças de suas Joias para conseguir dom iná-lo.

Idiotas. Podia fazê-los aos pedações, e o teria feito pela alegria de vingar a dor com dor, m as a esta altura alguém j á teria enviado um pedido de aj uda. E se Zuultah recobrasse os sentidos o suficiente para usar o Anel de Obediência...

O desej o de lutar corria em suas veias, entorpecendo a dor física. Talvez fosse m elhor m orrer lutando e transform ar o Deserto de Arava num m ar de sangue. O Vento m ais próxim o estava à distância de um longo salto às cegas. No entanto, fogo do Inferno, se Jaenelle havia conseguido pegá-lo aos sete anos, ele tam bém conseguiria fazê-lo agora.

Sangue. Tanto sangue.

A am argura o fez se concentrar, se decidir.

Liberando outra explosão de poder pela Cinza-Ébano, recom pôs-se e saltou para as Trevas.

 

Apoiado no poço, Lucivar encheu novam ente a caneca com água doce e fresca e bebeu devagar, saboreando cada gole. Enchendo-a pela últim a vez, seguiu m ancando até as ruínas do m uro de pedra que estava a poucos passos dali e se instalou o m ais confortavelm ente possível.

O salto às cegas nas Trevas havia lhe custado caro. Zuultah tinha se recuperado o suficiente para enviar outra onda de dor pelo Anel de Obediência no exato m om ento em que Lucivar lançava-se nas Trevas, e ele esgotara m etade das forças da Cinza-Ébano na tentativa desesperada de alcançar os Ventos.

Bebeu a água e ignorou o que o corpo sentia. Fom e. Dor. Um a necessidade desesperada de dorm ir.

Um grupo de caçadores de Pruul estaria a três, talvez quatro horas dali. Poderia despistá-los, m as isso consum iria um tem po de que não dispunha. Um a m ensagem transm itida de m ente em m ente chegaria a Pry thian, a Sacerdotisa Suprem a de Askavi, m ais depressa do que Lucivar conseguia viaj ar neste m om ento, e ele não queria ser capturado por guerreiros ey rienos antes de chegar à Pista de Khaldharon.

E, se fosse possível, ainda havia um acerto de contas a fazer.

Lucivar pendurou a caneca no poço e esvaziou o balde. Satisfeito ao ver que estava tudo com o havia encontrado, virou-se para sul e enviou o m ais longe possível um cham ado por um fio Cinza-Ébano.

*Sadi!*

Esperou um m inuto, depois virou-se para sudeste.

*Sadi!*

Passado outro m inuto inquieto, virou-se para leste.

*Sadi!*

Um a resposta vacilante. Débil, um tanto diferente, m as, ainda assim , fam iliar.

Lucivar suspirou com o um am ante satisfeito. Aquele era um local adequado para o Sádico tom bar — de várias m aneiras. As ruínas estavam repletas de rochas quebradas e caídas. Algum as seriam grandes o bastante para construir um altar im provisado. Ah, era sem dúvida um local bastante adequado.

Sorrindo, tom ou um Vento Verm elho e dirigiu-se para leste.

 

Com exceção das histórias sobre Andulvar Yaslana, Lucivar nunca se interessara m uito por história. Mas Daem on insistira um a vez que o Paço dos SaDiablo em Terreille tinha se m antido em bom estado de conservação até cerca de 1.600 anos antes, quando algum a coisa teria acontecido — não um ataque, m as algum a coisa — e quebrado os feitiços de preservação que perduravam há m ais de 50 m il anos, o que havia provocado o início do declínio da construção.

Cam inhando com cuidado pelas ruínas, Lucivar pensava que Daem on poderia ter razão. No local havia um vazio profundo, com o se sua energia tivesse sido drenada de propósito. As pedras pareciam m ortas. Não, m ortas não. Fam intas. Sem pre que tocava em um a delas ao cam inhar até um pátio interior, parecia que a pedra tentava sugar suas forças.

Seguiu o cheiro de m adeira queim ada, afastando a sensação de inquietude. Não tinha vindo ali para refletir sobre espectros. Em breve, ele m esm o seria um deles.

Mostrando os dentes cerrados num sorriso m uito feroz, desem bainhou a espada de guerra e entrou no pátio, perm anecendo afastado do círculo de luz do fogo.

— Olá, Bastardo.

Daem on ergueu os olhos da fogueira, lentam ente, e, com a m esm a lentidão, identificou o som . Em seguida, exibiu um sorriso dócil e fatigado.

— Olá, Sacana. Veio m e m atar? — A voz de Daem on parecia entorpecida, com o se ele não falasse há m uito tem po.

A preocupação lutou contra a raiva até se tornar outro tem pero da raiva. E a diferença no odor psíquico de Daem on o incom odava.

— Sim .

Acenando com a cabeça, Daem on se levantou e tirou o casaco rasgado.

Os olhos de Lucivar estreitaram -se enquanto Daem on abria os botões restantes da cam isa, afastando-a para o lado e m ostrando o peito, e dava a volta na fogueira, instalando-se num local onde a luz beneficiaria o agressor. Aquilo parecia errado. Tudo parecia errado. Daem on conhecia o suficiente de sobrevivência básica e sobre viver da terra — fogo do Inferno, ele próprio havia se assegurado disso — para se m anter em condições m elhores do que aquelas de agora. Lucivar exam inou as roupas m altrapilhas e suj as, o corpo subnutrido que trem ia à luz da fogueira, o olhar calm o e quase esperançoso daqueles olhos m agoados e exaustos, e rangeu os dentes. A única pessoa que conhecera com a m esm a indiferença em relação ao bem -estar físico era Tersa.

Talvez a voz de Daem on não estivesse entorpecida pela falta de uso, m as rouca por acordar gritando durante a noite.

— Você está preso, não é? — perguntou Lucivar baixinho. — Está preso no Reino Distorcido.

Daem on estrem eceu.

— Lucivar, por favor. Você prom eteu que m e m ataria.

Os olhos de Lucivar brilharam .

— Você a sente debaixo do seu corpo, Daem on? Sente a carne j ovem ferida por suas m ãos? Sente o sangue nas coxas enquanto se j oga sobre ela, dilacerando-a? — Avançou. — Sente?

Daem on estrem eceu.

— Eu não... — Ergueu um a m ão trêm ula, enrolando os dedos no em aranhado de cabelo. — Tanto sangue. Não desaparece. As palavras não desaparecem . Lucivar, por favor.

Certo de ter a atenção de Daem on, Lucivar recuou e em bainhou a espada de guerra.

— Matá-lo seria um a gentileza que você não m erece. Você deve a ela cada gota de dor que puder ser extraída de você até o fim dos seus dias. E eu lhe desej o um a vida m uito longa.

Daem on lim pou o rosto com a m anga, deixando um a m ancha de suj eira no rosto.

— Talvez quando voltarm os a nos encontrar você possa...

— Estou m orrendo — retrucou Lucivar. — Não haverá próxim a vez.

Um a brilho de com preensão apareceu no olhar de Daem on.

Lucivar sentiu um nó na garganta. As lágrim as ardiam os olhos. Não haveria reconciliação, nem com preensão, nem perdão. Som ente um a am argura que se prolongaria para além da existência física.

Lucivar m ancou para fora do pátio tão rápido quanto conseguiu, usando a Arte para apoiar a perna ferida. Procurando o cam inho pelas pedras quebradas, na direção do que restava da teia de desem barque, ouviu um grito tão carregado de angústia que as pedras pareceram estrem ecer. Cam inhou aos tropeços até a teia, ofegante e com a visão em baçada pelas lágrim as, relutante em voltar atrás, relutante em partir.

No entanto, logo antes de apanhar o Vento Cinza que o levaria a Askavi e à fuga derradeira, olhou para as ruínas do Paço e sussurrou:

— Adeus, Daem on.

 

Lucivar estava à beira do barranco, no m eio da Pista de Khaldharon, esperando o sol nascer para ilum inar o cânion abaixo.

A Arte era o que o m antinha de pé, era o que lhe perm itiria usar o trapo seboso em que suas asas haviam se transform ado depois de serem consum idas pelo m ofo.

Determ inado a ver o sol nascer, ele observava as pequenas silhuetas escuras voando na sua direção — guerreiros ey rienos que vinham para m atá-lo.

Olhou para baixo, para a Pista de Khaldharon, avaliando som bras e a visibilidade. As condições não eram boas. Seria insensato se j ogar naquela perigosa m istura de vento e de Ventos escuros, com asas que m al funcionavam , quando não conseguia distinguir as paredes salientes do cânion das som bras nem identificar as curvas que criariam m udanças repentinas de ventos. Na m elhor das hipóteses, seria um a corrida suicida.

E era por isso que estava ali.

As pequenas silhuetas escuras que se dirigiam a Lucivar eram cada vez m aiores e m ais próxim as.

Ao sul, a luz do sol tocava a form ação rochosa conhecida com o Dragões Adorm ecidos. Um a rocha estava virada para o norte, a outra, para o sul. A Pista de Khaldharon term inava ali, e o m istério com eçava, pois ninguém que tivesse entrado num a daquelas bocas cavernosas e escancaradas j am ais voltara.

Vários quilôm etros ao sul dos Dragões Adorm ecidos, o sol j á beij ava a Montanha Negra, Ebon Askavi. Ali teria m orado a Feiticeira, sua j ovem e desej ada Rainha, se nunca tivesse conhecido Daem on Sadi.

Os guerreiros ey rienos j á estavam agora tão perto que Lucivar podia ouvir suas am eaças e m aldições.

Sorrindo, abriu as asas, ergueu o punho e em itiu um grito de guerra ey rieno que silenciou tudo ao seu redor.

Foi então que m ergulhou na Pista de Khaldharon.

Era tão em ocionante e tão ruim quanto im aginara.

Nem com a Arte as asas esfarrapadas conseguiam lhe dar o equilíbrio de que necessitava. Antes de conseguir se estabilizar, o vento que soprava pelo desfiladeiro j ogou-o contra a encosta lateral, quebrando suas costelas e a om oplata direita. Gritando em tom de desafio, conseguiu se afastar do rochedo, fazendo fluir para o corpo a força da Cinza-Ébano, enquanto voltava a m ergulhar no centro da com binação feroz de forças.

No exato m om ento em que os outros ey rienos m ergulharam na Pista, Lucivar tom ou o fio Verm elho e iniciou a perigosa corrida em direção aos Dragões Adorm ecidos.

Em vez de entrar e sair dos Ventos em espiral com toda a sua força de m odo a m anter a corrida o m ais próxim o possível do centro do desfiladeiro, Lucivar continuou no Verm elho, seguindo-o por estreitas aberturas na rocha, encolhendo as asas j unto ao corpo para transpor as cavidades erodidas pelas intem péries, que arrancavam sua pele enquanto as atravessava.

O pé direito pendia incom odam ente do tornozelo dilacerado. A m etade externa da asa esquerda estava pendurada, inútil; seu esqueleto se partiu quando um a raj ada de vento o lançou contra um a rocha. Os m úsculos das costas se rasgaram quando forçou as asas para fazer m ovim entos dos quais j á não era capaz. Um a profunda ferida na barriga deixava que as entranhas caíssem por baixo do largo cinto de couro.

Sacudiu a cabeça, tentando afastar o sangue dos olhos, e soltou um rugido triunfante enquanto calculava com o entraria entre as pedras pontiagudas, sem elhantes a dentes.

Um a últim a raj ada de vento o puxou para baixo e Lucivar entrou direto pela boca do Dragão. Um “dente” rasgou sua perna esquerda da cintura até o j oelho.

Seguiu em direção à brum a em espiral, pretendendo chegar ao outro lado antes que suas forças se esgotassem e as Joias se esvaziassem .

Um m ovim ento cham ou sua atenção. Um rosto sobressaltado. Asas.

— Lucivar!

Esforçou-se até o lim ite, ciente de que seus perseguidores reduziam a distância que os separava a cada m om ento.

— LUCIVAR!

A outra boca tinha de estar... Ali! Mas...

Dois túneis. O da esquerda parecia conter um a luz crepuscular. O da direita parecia um a aurora suave.

A escuridão o ocultaria m elhor. Seguiu em direção ao crepúsculo.

Um a agitação de asas à esquerda. Um a m ão tentando agarrá-lo.

Chutou, contorceu-se para se esquivar e dirigiu-se ao túnel da direita.

— LUU-CI-VAARRR!

Passou pelos dentes e saiu, em pinando para cim a, ultrapassando a beira do desfiladeiro em direção ao céu da m anhã, batendo as asas inúteis sim plesm ente devido a um orgulho obstinado.

E ali estava Askavi, com o im aginara que teria sido há m uito tem po. A corrente lam acenta sobre a qual voara era agora um rio profundo e lím pido. A rocha árida era suavizada por prim averis flores silvestres. Além da Pista, a luz do sol se refletia em pequenos lagos e em riachos sinuosos.

Seus sentidos foram inundados pela dor. Sangue m isturado com lágrim as.

Askavi. Pátria. Por fim , chegara em casa.

Lucivar bateu as asas um a últim a vez, curvou o corpo para trás lentam ente, com graça e dor. Fechou as asas e m ergulhou na água profunda e lím pida.

 

2 / O Reino Distorcido

O vento tentou arrancá-lo da pequena ilha que era seu único lugar de repouso neste m ar interm inável e im piedoso. As ondas o fustigavam , encharcando-o de sangue. Tanto sangue.

Você é meu instrumento.

As palavras mentem. O sangue, não.

As palavras andavam à sua volta, tubarões em sua m ente que se aproxim avam para arrancar m ais um pedaço de sua alm a.

Ofegante, engasgou-se com um pedaço de espum a sangrenta, enquanto enterrava os dedos na rocha que am oleceu de um a hora para outra. Gritou ao ver que a rocha sob suas m ãos se transform ara em feridas inchadas, de tom negro e roxo.

Carniceiro filho da puta.

Nããããão!

*Eu a amava!* Gritou. *Eu a amo! Não pretendia m achucá-la.*

Você é meu instrumento.

As palavras mentem. O sangue, não.

Carniceiro filho da puta.

As palavras saltavam , brincalhonas, por cim a da ilha, dilacerando cada vez m ais fundo a cada passagem .

Dor que aprofundava a angústia que aprofundava o sofrim ento atroz que aprofundava a dor até não haver m ais dor.

Ou, talvez, ninguém para senti-la.

 

3 / Terreille

Surreal olhava estupefata para os destroços im undos e trêm ulos daquele que tinha sido o hom em m ais perigoso e m ais belo do Reino. Antes que ele pudesse recuar, arrastou-o para casa, fechou todas as fechaduras físicas da porta e, por via das dúvidas, trancou-as tam bém com a Cinza. Depois de refletir por alguns instantes, pôs um escudo Cinza em todas as j anelas para reduzir o risco de um a artéria cortada ou de um salto descontrolado de um a altura de cinco andares.

Fitou-o com atenção e perguntou-se se um a artéria cortada seria tão ruim assim . Ele estava ensandecido da últim a vez que o vira. Agora, além disso, parecia ter sido rasgado e esvaziado.

— Daem on? — cham ou, devagar.

Daem on trem ia, incapaz de se controlar. Seus olhos feridos, que m ostravam apenas dor, encheram -se de lágrim as.

— Ele m orreu.

Surreal se sentou no sofá e puxou-o para perto dela.

— Quem m orreu? — Quem seria tão im portante a ponto de produzir aquela reação?

— Lucivar. Lucivar morreu. — Enfiou a cabeça no colo de Surreal e chorou com o um a criança inconsolável.

Surreal afagou o cabelo seboso e em aranhado de Daem on, incapaz de pensar em qualquer palavra de conforto. Lucivar fora im portante para Daem on. Sua m orte era relevante para ele. Porém , só de pensar em m anifestar condolências j á sentia ânsias de vôm ito. Na sua opinião, Lucivar tam bém contribuíra para algum as das feridas na alm a que em purraram Daem on para o abism o, e, agora, a m orte do bastardo poderia ser o golpe fatal.

Quando ele parou de soluçar e com eçou a fungar quase em silêncio, Surreal invocou um lenço e o pôs na m ão de Daem on. Faria m uitas coisa por ele, m as isso não incluía assoar seu nariz.

Sem conseguir chorar m ais, ele se sentou ao lado de Surreal, em silêncio. Ela ficou quieta, olhando fixam ente para as j anelas.

A rua isolada era bastante segura. Surreal tinha voltado ali várias vezes desde a últim a visita de Daem on, ficando por m ais tem po a cada vez. Era um lugar onde se sentia confortável. Surreal e Wy m an, o Senhor da Guerra que Daem on tinha curado, haviam criado um a am izade que m antinha a solidão afastada. Ali, com alguém para cuidar dele, talvez Daem on m elhorasse um pouco.

— Daem on? Poderia ficar aqui com igo por um tem po? — Observando-o com atenção, não conseguia saber o que ele estaria pensando ou se estaria pensando.

Por fim , Daem on disse:

— Se você quiser.

Ela pensou ter visto em seus olhos um brilho hesitante de com preensão.

— Prom ete que fica? — insistiu. — Prom ete que não vai em bora sem m e avisar?

O brilho desapareceu.

— Não tenho outro lugar para ir.

 

4 / Kaeleer

Um a ligeira brisa. A luz do sol aquecia sua m ão. Pássaros cantavam . Um conforto firm e em baixo do seu corpo. Algodão suave por cim a.

Lucivar abriu os olhos devagar e viu o teto branco e as colunas lisas. Onde...?

Por força do hábito, procurou im ediatam ente as possíveis rotas de fuga do lugar. Duas j anelas cobertas por cortinas brancas bordadas com flores. Um a porta na parede do outro lado da cam a onde estava deitado.

Depois observou o resto do quarto. A m esinha de cabeceira e a côm oda de pinho. Um pedaço de m adeira transform ado em lam pião. Um a côm oda, e sobre ela um suporte de bronze para cristais de m úsica. Um cesto de costura aberto e cheio de novelos. Um a cadeira grande e velha verde-escura e um descanso para os pés da m esm a cor. Um a tela branca de bordados. Um a estante cheia de livros. Tapetes em tons de m arrom entrelaçados entre si. Dois desenhos a carvão em oldurados — os bustos de um unicórnio e de um lobo.

Ao captar o odor psíquico fem inino que im pregnava as paredes e a m adeira, Lucivar não conseguiu evitar um a careta involuntária. Depois, franziu a testa. Por algum a razão, aquele odor psíquico não lhe causava repulsa.

Voltou a olhar ao redor, confuso. Aquilo seria o Inferno?

Um a porta se abriu em outro am biente. Ouviu um a voz fem inina dizer:

— Está bem , vá lá, m as não o acorde.

Fechou os olhos. A porta se abriu. Ouviu o som de unhas no chão. Sentiu algum a coisa farej ando seu om bro. Manteve os m úsculos relaxados, fingindo dorm ir, enquanto seus sentidos se esforçavam para identificar a criatura.

Sentiu um corpo peludo j unto à sua pele nua. Um focinho frio e úm ido farej ava sua orelha.

Depois, um grunhido que o fez se sacudir, seguido de um silêncio satisfeito.

Cedendo à curiosidade e à sua necessidade de guerreiro de identificar um inim igo, Lucivar abriu os olhos, devolvendo o olhar surpreso do lobo por um instante. O anim al deu um latido de satisfação e saiu às pressas do quarto.

Ele m al teve tem po de se recom por quando a m ulher abriu a porta de repente, encostando-se no um bral.

— Então finalm ente você decidiu se reunir aos vivos.

Parecia de bom hum or, m as, a j ulgar pelo que via, a rouquidão na sua voz era fruto da tensão, do cansaço e do uso excessivo. Estava m agra dem ais. Pela form a com o as calças e a cam isa estavam folgadas, era provável que tivesse perdido m uito peso rapidam ente e de um m odo nada saudável. A trança loura, longa e solta, parecia tão pálida com o a sua pele, e sob os belos e antigos olhos cor de safira era possível ver olheiras profundas.

Lucivar pestanej ou. Engoliu com dificuldade. Lem brou-se, finalm ente, de respirar.

— Gata? — sussurrou. Levantou a m ão num a súplica m uda.

Ela ergueu um a sobrancelha e foi até ele.

— Sei que você disse que m e encontraria quando fizesse dezessete anos, m as nunca pensei que seria de um a form a tão dram ática.

No m om ento em que tocou na sua m ão, Lucivar puxou-a para cim a dele, abraçando aquele corpo que se contorcia. Ria e chorava, ignorando os protestos abafados da garota:

— Gata, Gata, Gata, AI!

Jaenelle pulou para fora da cam a, pondo-se fora do alcance de Lucivar, ofegante.

Lucivar esfregou o om bro.

— Você m e m ordeu.

A m ordida não tinha im portância — bem , tinha —, m as não gostava que ela se afastasse.

— Eu disse que não estava conseguindo respirar.

— E precisam os respirar? — perguntou ele, ainda esfregando o om bro.

Pelo olhar da garota, se fosse realm ente felina, estaria com o pelo arrepiado.

— Não sei, Lucivar — disse, com um a voz que poderia queim ar um deserto. — Eu poderia retirar seus pulm ões, assim saberíam os se respirar é opcional.

A leve suspeita de que Jaenelle poderia estar falando sério foi suficiente para que Lucivar engolisse a observação atrevida que estava prestes a fazer. Além disso, j á tinha m uitas coisas confusas em que pensar, sem falar na necessidade de responder à m ensagem urgente e básica que seu corpo lhe m andava. Fogo do Inferno, j am ais poderia im aginar que estar m orto fosse tão parecido com estar vivo.

Rolou para o lado, perguntando-se se os m úsculos ficariam sem pre assim tão flácidos — existiria alguma vantagem em ser um dem ônio? — e puxou as pernas para fora da cam a com esforço.

— Lucivar — disse Jaenelle com sua voz som bria.

Ele olhou-a de cim a a baixo e decidiu ignorar o brilho perigoso que viu nos seus olhos. Conseguiu se sentar com um im pulso, puxou o lençol para o colo e deu um sorriu frágil.

— Sem pre m e orgulhei da m inha pontaria, Gata, m as nem m esm o eu consigo regar as flores a esta distância.

Felizm ente, não entendeu nada do que ela lhe disse após os prim eiros palavrões em ey rieno que falou.

Jaenelle colocou o braço de Lucivar sobre seus om bros e passou o braço pela cintura dele. Assim , aj udou-o a se levantar.

— Vá com calm a. Estou segurando grande parte do seu peso.

— Os m achos que servem aqui é que deveriam estar fazendo isto, e não você — resm ungou Lucivar, enquanto se arrastavam até a porta. Não sabia se estava m ais envergonhado por estar nu ou por precisar do apoio de Jaenelle.

— Não há nenhum deles aqui. Ei!

Lucivar quase fez os dois perderem o equilíbrio ao tentar alcançar a porta, pois precisava se agarrar a algum a coisa. Sua querida Gata estava aqui sozinha, desprotegida, apenas na com panhia de um lobo? Cuidando de suas...

— Você é um a j ovem m ulher — disse, com os dentes cerrados.

— Sou um a Curandeira qualificada. — Puxou-o pela cintura. Não adiantou nada. — Era m ais fácil cuidar de você antes de você acordar.

Lucivar rosnou.

— Lucivar — disse Jaenelle com o tom de voz que as Curandeiras usavam com pacientes irascíveis e idiotas —, nas últim as três sem anas você dorm iu um sono regenerador. Levando isso em consideração, e tudo o que foi necessário para recom por você, acho que j á vi cada centím etro do seu corpo m ais de um a vez. Agora, você vai ficar babando aí no chão com o um cachorrinho ou vam os chegar até o lugar aonde você quer ir?

Um desej o intenso de m elhorar o suficiente para conseguir ficar de pé e esganá-la aj udou-o a chegar ao banheiro. O orgulho o fez rosnar para que Jaenelle perm anecesse do lado de fora. A teim osia o m anteve de pé tem po suficiente para que ele satisfizesse suas necessidades, enrolasse um a toalha em volta da cintura e chegasse à porta do banheiro.

A essa altura, suas energias e em oções estavam esgotadas, por isso não protestou quando Jaenelle o aj udou a cam inhar até o banco perto da grande m esa de pinho na sala da cabana. Jaenelle com eçou a tocar as costas de Lucivar, que m antinha os olhos fixos na porta que dava para a rua, sem coragem de perguntar sobre a cura. Nesse m om ento, sentiu um a das asas abrindo-se bem devagar, guiada pelas m ãos suaves de Jaenelle.

A asa voltou a se fechar. A outra se abriu. Quando Jaenelle veio para sua frente, Lucivar olhou para trás e viu, abism ado, um a asa saudável e inteira. Aturdido, m ordeu o lábio e piscou para evitar que as lágrim as caíssem .

Jaenelle olhou de relance para o rosto de Lucivar, voltando a centrar sua atenção na asa.

— Você teve sorte — disse, serena. — Mais um a sem ana e não restaria tecido saudável o suficiente para reconstruí-las.

Reconstruí-las? Levando em conta os danos provocados pelo m ofo bolorento e pelas m inas de sal, até m esm o as m elhores Curandeiras ey rienas teriam am putado suas asas. Com o ela tinha conseguido reconstruí-las?

Mãe Noite, com o estava cansado... Este local pouco correspondia às suas expectativas. Precisava desesperadam ente entender o que estava acontecendo e não sabia por onde com eçar.

Nesse m om ento, Jaenelle se inclinou para observar a parte inferior de sua asa e as Joias que pendiam de seu pescoço ficaram à vista. Mais tarde, ele iria se perguntar por que a Feiticeira usava um a Joia Azul-Safira. Agora, toda a atenção de Lucivar estava no pingente em form a de am pulheta suspenso sobre a Joia.

A am pulheta era o sím bolo da Viúva Negra e, ao m esm o tem po, um a declaração e um a advertência sobre a feiticeira que a usava. Aprendizes usavam o pingente com o pó de ouro na m etade superior do vidro. O pingente de um a assistente tinha o pó de ouro dividido igualm ente entre a parte superior e a inferior. As Viúvas Negras qualificadas tinham todo o pó de ouro na parte inferior.

— Quando você se tornou um a Viúva Negra qualificada?

O ar à sua volta esfriou.

— E isso o incom oda?

Obviam ente, incom odava m uita gente.

— Não, estou apenas curioso.

Ela lhe deu um breve sorriso de desculpas e prosseguiu o exam e. O ar voltou ao norm al.

— No ano passado.

— E você tam bém se tornou Curandeira qualificada?

Lucivar fechou a asa com todo o cuidado e ela com eçou a exam inar seu om bro direito.

— No ano passado.

Lucivar assobiou.

— Foi um ano m ovim entado.

Jaenelle riu.

— Papai diz que ficou m uito feliz por você ter sobrevivido.

Ele quase conseguia ouvir a lâm ina passando pela pedra de am olar enquanto sentia suas em oções chegarem ao lim iar da m orte. Ela tinha um pai, um a fam ília e, ainda assim , vivia sem com panhia hum ana, nem m esm o de um criado. Estaria exilada aqui por causa da Am pulheta? Ou por ser Feiticeira? Assim que Lucivar estivesse recuperado, esse pai dela teria de se aj ustar a algum as coisas — tal com o este Príncipe dos Senhores da Guerra que agora a servia.

— Lucivar. — A voz de Jaenelle parecia tão distante com o a m ão que lhe apertava o om bro tenso. — Lucivar, o que está acontecendo?

No lim iar da m orte, o tem po passava devagar e era m edido pelas batidas do coração de um tam bor de guerra. O m undo se encheu de detalhes pessoais e pungentes. Um a lâm ina cortaria o m úsculo, perfurando o osso. E a boca se encheria do vinho vivo no m om ento em que os dentes afundassem na garganta.

— Lucivar.

Lucivar pestanej ou. Sentiu a tensão nos dedos de Jaenelle enquanto ela apertava seus om bros. Afastou-se daquele lim iar, passo m ental a passo m ental, enquanto a selvageria dentro de si gritava para se libertar. Os sentidos entorpecidos pelas m inas de sal de Pruul renasceram . A terra cham ava por ele, seduzindo-o com cheiros e sons. Jaenelle tam bém o seduzia. O obj etivo não era o sexo, m as outro tipo de vínculo, tão poderoso quanto. Queria roçar a pele na dela para que ficasse im pregnado com o cheiro físico de Jaenelle. Queria roçar a pele na dela para que seu próprio cheiro físico se im pregnasse em Jaenelle, alertando outros para o fato de que um m acho poderoso tinha pretensões em relação a ela, era pretendido por ela. Queria...

Virou a cabeça e abocanhou os dedos de Jaenelle, com força suficiente para m ostrar dom inância, sem no entanto feri-la. A m ão dela relaxou em sinal de subm issão, acolhendo as trevas no íntim o de Lucivar. E, um a vez que ela era capaz de acolhê-las, Lucivar entregou-se inteiram ente.

Um m inuto depois, de volta ao m undo real, reparou na porta aberta e nos três lobos na varanda coberta que o observavam com vívido interesse.

Jaenelle, inspecionando agora os m úsculos da clavícula e do peito, olhou de relance para os lobos e sacudiu a cabeça.

— Não, ele não pode brincar com vocês.

Ganindo desapontados, os lobos foram em bora.

Lucivar exam inou a paisagem em oldurada pela porta aberta.

— Nunca pensei que o Inferno fosse assim — com entou com delicadeza.

— O Inferno não é assim . — Deu um tapa na m ão dele quando Lucivar tentou im pedi-la de exam inar seu quadril e sua coxa.

Esforçando-se para lem brar que não deveria esbofetear um a Curandeira, cerrou os dentes e tentou novam ente encontrar respostas.

— Eu não sabia que as crianças dem ônias-m ortas cresciam , nem que os dem ônios pudessem ser tratados.

Jaenelle deu a ele um olhar penetrante antes de exam inar a outra perna. Calor e energia fluíram das suas m ãos.

— As cildru dyathe não crescem e os dem ônios não podem ser tratados. Mas eu não sou cildru dyathe e você não é dem ônio, apesar do seu m aldito em penho em se tornar um deles — com pletou, m ordaz. Puxou um a cadeira com encosto plano, sentou-se à sua frente e segurou suas m ãos. — Lucivar, você não está m orto. Este não é o Reino das Trevas.

Ele tinha tanta certeza do contrário.

— Então... onde estam os?

— Estam os em Askavi. Em Kaeleer. — Olhou para ele com ansiedade.

— O Reino das Som bras? — Lucivar m urm urou baixinho. Dois túneis. Num deles, um a luz crepuscular, no outro, um a suave aurora. O Reino das Trevas e o Reino das Som bras. Deu um largo sorriso. — Já que não estam os m ortos, podem os sair para explorar a área?

Observou, intrigado, enquanto Jaenelle se esforçava para transform ar o sorriso de orelha a orelha num a expressão com edida e profissional.

— Quando você estiver com pletam ente curado — disse com severidade. Mas em seguida estragou tudo com um a risada m elodiosa. — Ah, Lucivar, os dragões que vivem nas Ilhas do Fogo vão adorá-lo. Você não apenas tem asas, m as tam bém é grande o bastante para deslizar nas ondas.

— Deslizar no quê?

Arregalou os olhos e m ordeu o lábio inferior.

— Hum . Deixa pra lá — ela disse, com alegria dem ais, saltando da cadeira.

Ele a segurou pela parte de trás da cam isa. Após um a breve luta que deixou Lucivar ofegante e Jaenelle m uito além de am arrotada, ela voltou a se sentar.

— Por que está vivendo aqui, Gata?

— Qual é o problem a? — perguntou ela, na defensiva. — É um lugar ótim o.

Lucivar sem icerrou os olhos.

— Eu não disse que não era.

Jaenelle inclinou-se para a frente, fitando o rosto de Lucivar.

— Você não é um daqueles m achos que ficam histéricos por qualquer coisa, não é?

Lucivar inclinou-se para a frente, com os braços apoiados nas coxas, e sorriu, m ostrando seu sorriso indolente e arrogante.

— Não sou chegado em histerias.

— Hum , hum .

O sorriso deixou aparecer parte dos seus dentes.

— Por quê, Gata?

— Os lobos podem ser m esm o uns fofoqueiros, sabia? — Olhou para ele, esperançosa. Ao ver que Lucivar não respondia, aj eitou o cabelo e suspirou. — Sabe, há m om entos em que tenho necessidade de desaparecer e ficar j unto à terra. Costum ava vir aqui para acam par por alguns dias, m as, durante um a dessas excursões, choveu e dorm i no chão m olhado. Peguei um resfriado e os lobos correram para contar a papai. Ele disse que entendia m inha necessidade de passar um tem po j unto à terra, m as que não via qualquer razão que eu não pudesse ter um abrigo aqui. Respondi que um alpendre seria um a ótim a ideia. Por isso ele m andou construir esta cabana. — Fez um a pausa e sorriu, apreensiva. — Papai e eu tem os definições diferentes de “alpendre”.

Olhando para a grande lareira de pedra, para as sólidas paredes e para o teto e, em seguida, para a m ulher-criança sentada à sua frente com as m ãos entre os j oelhos, Lucivar desfez, com relutância, o nó de raiva que sentia por este pai desconhecido.

— Sinceram ente, Gata, prefiro a definição do seu pai.

Ela o fulm inou com o olhar.

Podia ser Viúva Negra e Curandeira, m as m esm o à beira da m aturidade conservava um pouco da inocência encantadora das j ovens, fazendo com que Lucivar ainda pensasse nela com o um a gatinha pulando para tentar pegar algum bicho.

— Então você não vive aqui o tem po todo? — perguntou, com cautela.

Jaenelle sacudiu a cabeça.

— A fam ília possui várias residências em Dhem lan. A m aior parte do tem po m oro na casa de cam po. — Olhou para ele de um a form a que Lucivar não conseguiu decifrar. — Meu pai é o Príncipe dos Senhores da Guerra de Dhem lan... entre outras coisas.

Era então um hom em rico e de alta posição social. Provavelm ente não aprovaria um cretino m estiço com o com panheiro para a filha. Bem , Lucivar cuidaria desse assunto depois.

— Lucivar. — Jaenelle fixou os olhos na porta aberta e m ordeu o lábio.

Ele com preendia. Por vezes, esta era a parte m ais difícil do tratam ento: ter de dizer ao paciente, com honestidade, o que podia e o que não podia ser curado.

— As asas são m eram ente decorativas, não é?

— Não! — Jaenelle respirou fundo. — Os ferim entos foram graves. Todos eles, e não apenas os das asas. Tratei-os, m as o que vai acontecer de agora em diante depende em grande parte de você. Acho que deve levar uns três m eses para que as costas e as asas fiquem com pletam ente curadas. — Mordeu o lábio. — Mas não há m argem para erros aqui, Lucivar. Tive de extrair tudo que você tinha para conseguir esta regeneração. Se você voltar a m achucar qualquer coisa, os danos poderão ser perm anentes.

Lucivar pegou a m ão de Jaenelle e acariciou seus dedos com o polegar.

— E se eu fizer do seu j eito? — Ele a observou com atenção. Naqueles olhos azul-safira não havia falsas prom essas.

— Se fizer as coisas do m eu j eito, daqui a três m eses estarem os na Pista.

Ele baixou a cabeça, m as não com o intuito de esconder as lágrim as. Sim plesm ente porque necessitava de um m om ento íntim o para saborear a esperança.

Depois de recuperar o controle, sorriu para Jaenelle.

Ela sorriu tam bém , em sinal de com preensão.

— Aceita um a xícara de chá? — Com o Lucivar assentiu, Jaenelle saltou da cadeira e passou pela porta à direita da lareira de pedra.

— Será que m inha Curandeira teria tam bém algum a coisa para com er?

A cabeça de Jaenelle espreitou pela porta da cozinha.

— Que tal um a grande fatia de pão fresco ensopada em caldo de carne?

Tão com estível quanto um pedaço de m adeira.

— Tenho escolha?

— Não.

— Parece ótim o.

Depois de algum tem po, Jaenelle voltou e aj udou-o a se m udar do banco para um a cadeira de encosto plano que aj udava a apoiar suas costas, e colocou um a grande caneca na m esa de pinho.

— É um a infusão m edicinal.

Os lábios de Lucivar se fecharam num rosnado m udo. Todas as infusões m edicinais que j á havia tom ado sem pre tinham gosto de m ato e m ij o. Por isso, passara a achar que as Curandeiras a faziam ter esse gosto com o um castigo para os que haviam se ferido ou ficado doentes.

— Não vou lhe dar m ais nada até você beber tudo — acrescentou Jaenelle, com um a desagradável falta de solidariedade.

Lucivar ergueu a caneca e cheirou o líquido com cuidado. O cheiro era... diferente. Bebeu um pouco, m antendo a infusão na boca por um m om ento, fechou os olhos e engoliu. Perguntou-se com o Jaenelle teria destilado num a infusão m edicinal a sólida força das m ontanhas de Askavi, as árvores, as ervas e as flores que enriqueciam o solo, os rios que corriam pela terra.

— Isto é m aravilhoso — m urm urou.

— Fico feliz com sua aprovação.

— É verdade — insistiu, respondendo ao riso na voz de Jaenelle. — Essas infusões norm alm ente têm um gosto horrível, m as esta é agradável.

O riso se transform ou em perplexidade.

— A princípio deveriam ter um sabor agradável, Lucivar. Do contrário, ninguém iria querer bebê-las.

Sem argum entos, Lucivar não disse nada, e tom ou a infusão, satisfeito. Estava satisfeito o bastante a ponto de sentir quase benevolente em relação à tigela com pão ensopado em caldo de carne que Jaenelle colocou à sua frente, um a benevolência que ficou ainda m aior quando reparou nos pedaços de carne espalhados sobre o pão.

Em seguida percebeu que Jaenelle tam bém se preparava para com er.

— Pelo visto não fui o único que se esgotou até o lim ite durante este tratam ento, não é, Gata? — disse com calm a, incapaz de disfarçar a raiva. Com o Jaenelle se atrevia a se arriscar desta m aneria, sem ninguém para tratar dela?

Jaenelle corou ligeiram ente. Brincou com a colher, esm igalhou o pão e, por fim , encolheu os om bros.

— Valeu a pena.

Ele cortava o pão quando lhe ocorreu outro pensam ento. Deixaria aquilo para depois. Provou o pão e o caldo de carne.

— Você não só sabe preparar um a excelente infusão m edicinal com o tam bém é um a boa cozinheira.

Jaenelle fungou m agoada e olhou-o com raiva.

— Foi a Sra. Beale que fez este prato. Eu não sei cozinhar.

Lucivar com eu outra colherada e deu de om bros.

— Cozinhar não é tão com plicado. — Ergueu os olhos e se perguntou se algum a vez um hom em adulto teria sido espancado até a m orte com um a colher de sopa.

— Você sabe cozinhar? — Ela perguntou com ar am eaçador. Bufou. — Há algum a razão para tantos m achos saberem cozinhar?

Lucivar m ordeu a língua para não dizer “instinto de sobrevivência”. Com eu um pouco m ais.

— Posso ensinar você a cozinhar. Com um a condição.

— Qual?

Logo antes de responder, sentiu um a delicada fragilidade em Jaenelle, m as só poderia responder com o o Príncipe dos Senhores da Guerra que era.

— A cam a tem espaço para dois — disse, serenam ente, percebendo a rapidez com que Jaenelle em palideceu. — Se você não se sentir à vontade, não há problem a. Mas se alguém vai dorm ir em frente à lareira, esse alguém sou eu.

Vislum brou um a centelha de ira, rapidam ente dom inada pela garota.

— Você precisa da cam a — disse Jaenelle, entre dentes. — O tratam ento não term inou.

— Com o não há m ais ninguém para tom ar conta de você, eu, com o Príncipe dos Senhores da Guerra, tenho o dever e o privilégio de m e encarregar da sua proteção. — Ele invocava tradições antiquíssim as, há m uito ignoradas em Terreille. Mas soube, pelo resm ungo frustrado de Jaenelle, que elas prevaleciam em Kaeleer.

— Muito bem — disse ela, escondendo as m ãos trêm ulas no colo. — Vam os dividir a cam a.

— E os cobertores — acrescentou Lucivar.

O olhar hostil, m isturado com o sorriso contido, revelou que Jaenelle não sabia o que pensar dele. Não im portava. Nem ele m esm o sabia.

— Acho que tam bém vai querer um a alm ofada.

Lucivar sorriu de form a indolente e arrogante.

— É claro. E prom eto que não vou chutar você se roncar.

Com o dom inava o idiom a ey rieno, os palavrões da garota poderiam fazer corar o capitão de um cam po de caça.

 

Só m ais tarde ele se lem brou, quando estava confortavelm ente deitado de bruços na cam a, com as asas abertas e ligeiram ente apoiadas, e depois de Jaenelle e os lobos terem saído para dar um volta — um a palavra risível que afinal era um a descrição exata da dança intrincada e peluda realizada por três lobos em volta da garota, enquanto passeavam no fim da tarde.

Ele havia se lançado na Pista de Khaldharon com a intenção de m orrer e, em vez disso, além de ter sobrevivido, encontrara tam bém o m ito vivo, a sua Rainha desej ada.

Em bora Lucivar sorrisse, as lágrim as com eçaram a cair, intensas e am argas.

Estava vivo. E Jaenelle estava viva. Daem on, porém ...

Não sabia o que teria acontecido no Altar de Cassandra ou com o aquele lençol tinha ficado encharcado com o sangue de Jaenelle ou o que Daem on teria feito, m as com eçava a entender o que aquilo custara.

Escondendo o rosto na alm ofada para abafar os soluços, fechando os olhos com força para rej eitar as im agens invocadas pela m ente, viu Daem on. Em Pruul, naquela noite, extenuado, em bora determ inado. Nas ruínas do Paço dos SaDiablo em Terreille, destruído pelo pesadelo da loucura e disposto a m orrer. Ouviu, novam ente, a negação apavorada e enfurecida de Daem on. Ouviu, novam ente, o grito angustiado que se erguia das pedras quebradas.

Naquela noite, se não estivesse tão dom inado pelo ressentim ento, se tivesse partido com Daem on, teriam encontrado um a form a de atravessar os Portões. E teriam encontrado Jaenelle, e passariam estes anos com ela, vendo-a crescer, participando das experiências que transform ariam a criança na m ulher, na Rainha.

Lucivar ainda faria isso. Estaria com ela nos últim os anos de transform ação e conheceria o prazer de servi-la.

Daem on, porém ...

Lucivar m ordeu a alm ofada, abafando seu próprio grito angustiado.

Daem on, porém ...