A Herdeira das Sombras
Capítulo Catorze
1 / Kaeleer
Saetan apoiou a m ão na parede de pedra, tem porariam ente desequilibrado devido à dupla explosão de fúria que fez a Fortaleza estrem ecer.
— Mãe Noite — m urm urou entre dentes. — O que será que estão discutindo desta vez? — Contactando Lucivar com a m ente, deparou-se com um m uro de fúria psíquico.
Saiu correndo.
Ao se aproxim ar do corredor que levava aos aposentos de Jaenelle, com eçou a andar, pressionando o quadril com um a das m ãos e praguej ando em silêncio por não ter fôlego suficiente para rugir. De qualquer m aneira, não faria diferença, pensou com am argor. Fosse qual fosse o m otivo que enfurecia seus filhos, não afetava-lhes os pulm ões.
— Saia da frente, Lucivar!
— Quando o sol brilhar no Inferno!
— Que se danem as suas asas, você não tem o direito de interferir.
— Eu estou a seu serviço. Isso m e dá o direito de desafiar o que quer que sej a ou quem quer que sej a que am eace o seu bem -estar. Incluindo você m esm a!
— Se você m e serve, tem de m e obedecer. SAIA DA MINHA FRENTE!
— A prim eira Lei não é a obediência...
— Não se atreva a m e citar as Leis dos Sangue.
— ... e, m esm o que fosse, eu não perm itiria que fizesse isso. É suicida!
Saetan virou a esquina, subiu correndo o pequeno lance de escadas e tropeçou no últim o degrau.
No corredor fracam ente ilum inado, Lucivar parecia algo saído das histórias de ninar que os plebeus contavam aos filhos: asas escuras e abertas que se m isturavam com a escuridão atrás, dentes cerrados, olhos dourados que faiscavam com o fogo da batalha. Até o sangue que escorria do corte superficial no braço esquerdo, provocado por um facão, fazia com que se parecesse qualquer coisa, m enos um hom em vivo.
Em contraste, Jaenelle parecia terrivelm ente real. A cam isola preta curta revelava m uito do corpo sacrificado ao poder que ardia no interior enquanto procedia às curas no povoado plebeu, um a sem ana antes. Se fosse bem tratado, a carne não sofreria daquela form a, nem m esm o com o instrum ento das Joias Negras.
Observando os resultados do descuido de Jaenelle em relação ao próprio corpo, observando a m ão que segurava o facão de caça ey rieno, trêm ula e fraca dem ais, Saetan cedeu à raiva que crescia em seu íntim o.
— Senhora — disse com rispidez.
Jaenelle virou-se para encará-lo, cam baleando um pouco enquanto tentava se equilibrar. Seus olhos tam bém faiscavam com o fogo da batalha.
— Encontraram Daem on.
Saetan cruzou os braços, encostou-se à parede e ignorou o desafio na voz da garota.
— Então você pretende canalizar as forças do seu corpo j á enfraquecido, criar a som bra que tem usado para procurá-lo em Terreille, enviá-la para onde quer que o corpo dele se encontre, viaj ar pelo Reino Distorcido até encontrá-lo e depois tirá-lo de lá.
— Sim — disse Jaenelle, com um a delicadeza exagerada. — É exatam ente o que vou fazer.
Lucivar bateu com o punho na parede.
— Isso é dem ais. Você nem sequer com eçou a se recuperar de todas as curas que realizou. Deixe essa sua am iga ficar com ele durante um as duas sem anas.
— Não é possível “ficar” com alguém que está perdido no Reino Distorcido — retrucou Jaenelle. — Eles não veem nem vivem no m undo tangível com o as outras pessoas. Se algum a coisa o assustar e ele fugir dela, poderá levar sem anas, até m esm o m eses, antes de encontrá-lo outra vez. E então pode ser tarde dem ais. O tempo está se esgotando.
— E se ela o levasse para a Fortaleza em Terreille? — argum entou Lucivar. — Poderíam os m antê-lo lá até você recuperar as forças para fazer cura.
— Ele está louco, não está quebrado. Ainda usa a Negra. Se alguém tentasse “m anter” você, que tipo de m em órias seriam trazidas à tona?
— Jaenelle tem razão, Lucivar — disse Saetan, com a voz calm a. — Se ele pensar que esta am iga está conduzindo-o para um a cilada, independentem ente das suas verdadeiras intenções, a confiança que tem nela, por m enor que sej a, se desfará, e essa será a últim a vez que o verem os.
Lucivar socou a parede com o punho. Continuou a socar, enquanto praguej ava, dem oradam ente e em voz baixa. Por fim , m assageou a parte lateral do punho na palm a da outra m ão.
— Se é assim , vou a Terreille buscá-lo.
— E por que ele confiaria em você? — perguntou Jaenelle, com am argura.
Os olhos de Lucivar reluziram de dor.
Saetan sentiu as barreiras interiores de Jaenelle abrindo-se um pouco. Não pensou duas vezes. No m om ento em que ela estava dividida entre a raiva e a angústia, entrou e saiu depressa por aquela pequena abertura, saboreando as correntes em ocionais.
Ora, a feiticeirazinha pensava poder forçá-los a ceder. Pensava possuir um a arm a em ocional que eles não desafiariam .
Tinha razão. Possuía.
Porém , agora, tam bém ele tinha essa arm a.
— Deixe que ela vá, Lucivar — cantarolou Saetan, num a voz ronronante com o um leve trovão. Ainda encostado à parede e de braços cruzados, curvou-se num a reverência zom beteira. — A Senhora nos encurralou e sabe disso.
Sentiu um a satisfação am arga ao ver a cautela nos olhos de Jaenelle.
Ela olhou depressa para os dois.
— Não vão m e im pedir?
— Não, não vam os im pedi-la. — Saetan sorriu com m alevolência. — A não ser, é claro, que não concorde com o preço da nossa subm issão. Se recusar, a única form a de sair daqui será destruindo nós dois.
Um a cilada tão sim ples. Um em buste tão cativante.
Conseguiu confundi-la, conseguiu, por fim , enervá-la. Ela estava prestes a descobrir com que habilidade era envolvida num a teia.
— Qual é o seu preço? — perguntou com relutância.
Um olhar fortuito e ligeiro percorreu-a da cabeça aos pés.
— Seu corpo.
Ela deixou cair o facão.
Provavelm ente teria decepado alguns dedos do pé de Lucivar se ele não tivesse feito o obj eto desaparecer em pleno ar.
— Seu corpo, m inha Senhora — cantarolou Saetan. — O corpo que você trata com tanto desprezo. Já que você obviam ente não o quer, ficará sob m inha guarda para aquele que j á o reclam ou.
Jaenelle olhava-o atônita, os olhos arregalados e inexpressivos.
— Você quer que eu abandone este corpo? D-do j eito que fiz antes?
— Abandonar? — A voz de Saetan era sedosa e cheia de perigo. — Não, não precisa abandoná-lo. Estou certo de que o reclam ante lhe concederá um em préstim o perm anente de bom grado. Mas será um em préstim o, com preenda, e você terá de dar a ele o m esm o tipo de atenção que daria a um obj eto em prestado por um am igo.
Ela o encarou por um longo tem po.
— E se eu não ligar? O que vai fazer?
Saetan se afastou da parede.
Jaenelle retraiu-se, m as sem desviar os olhos de Saetan.
— Nada — disse, com um a serenidade exagerada. — Não a enfrentarei. Não recorrerei à força física nem à Arte para obrigá-la. Nada farei, a não ser registrar as suas transgressões. Jam ais lhe pedirei qualquer explicação e nunca darei explicações em seu lugar. Você m esm a poderá tentar j ustificar o abuso de parte daquilo por que Daem on pagou tão caro.
O rosto de Jaenelle ficou branco com o cal. Saetan am parou-a quando ela vacilou, segurando-a j unto ao peito.
— Desgraçado insensível — sussurrou.
— Talvez — respondeu Saetan. — Qual é a sua resposta, Senhora?
*Jaenelle! Você prometeu!*
Jaenelle saltou dos braços de Saetan, recuando para tentar m anter o equilíbrio, m as acabando por bater com as costas na parede.
Saetan observou a expressão culpada de Jaenelle e com eçou a sentir um a anim ação m aliciosa. Reparando que Lucivar aparecera do outro lado de Jaenelle, centrou a atenção no scelta aborrecido e ainda não totalm ente desenvolvido e no silencioso gatinho arceriano, m as igualm ente aborrecido, que agora pesava tanto quanto Lucivar, apesar de ainda ter cinco anos de crescim ento pela frente.
— O que a Senhora prom eteu? — perguntou a Ladvarian.
*Prometeu comer, dormir, ler livros e fazer passeios curtos até se recuperar*, disse Ladvarian em tom de recrim inação, o olhar fixo em Jaenelle.
— É o que estou fazendo — balbuciou. — Foi o que fiz.
*Você estava brincando com Lucivar.*
Lucivar desviou-se da parede para que pudessem ver seu braço esquerdo.
— E foi um a brincadeira dura.
Ladvarian e Kaelas rosnaram para Jaenelle.
— É um caso diferente — retrucou Jaenelle. — É de grande im portância. E eu não estava de brincadeiras com Lucivar. Estava lutando com ele.
— É verdade — concordou Lucivar, m elancólico. — E só porque eu achei que ela deveria estar descansando, em vez de fazer esforço até entrar em colapso.
Ladvarian e Kaelas rosnaram m ais alto.
*Que vergonha, Senhora*, disse Saetan, através de um fio Negro, para m anter a conversa privada. *Quebrar um a prom essa aos seus Irm ãozinhos. Vai fazer a gentileza de aceitar m inhas condições, ou continuarem os rosnando um pouco m ais?*
O olhar rancoroso de Jaenelle não era só um a resposta, m as tam bém um bom indicador da frequência com que ela perdia este tipo de “discussões” quando Ladvarian e Kaelas m etiam qualquer coisa naquelas cabecinhas peludas.
— Meus Irm ãos. — Saetan inclinou a cabeça com cortesia na direção de Ladvarian e Kaelas. — A Senhora j am ais quebraria um a prom essa se não tivesse um a razão para isso. Apesar dos riscos ao seu próprio bem -estar, com prom eteu-se a executar um a tarefa delicada, que não pode ser adiada. Com o a prom essa foi feita antes da que fez a vocês, tem os de nos subm eter aos desej os dela. Com o ela m esm a salientou, é de grande im portância.
*O que poderá ser mais importante do que a Senhora?*, perguntou Ladvarian.
Saetan não respondeu.
Jaenelle se contorceu.
— O m eu... parceiro... está preso no Reino Distorcido. Se eu não m ostrar a saída, ele m orrerá.
*Parceiro?* As orelhas de Ladvarian se arrebitaram. O rabo com ponta branca abanou um a vez, depois duas. Olhou para Saetan. *Jaenelle tem um parceiro?*
Não deixava de ser interessante o fato de olhar para ele com o intuito de obter confirm ação. Algo para recordar no futuro.
— Sim — confirm ou Saetan. — Jaenelle tem um parceiro.
— E deixará de ter se for retida por m uito m ais tem po — avisou Jaenelle.
Todos se afastaram educadam ente, observando-a enquanto percorria o corredor, lenta e penosam ente.
Saetan não tinha dúvidas de que ela usaria a Arte para fazer o corpo flutuar assim que a perdessem de vista, o que causaria um desgaste ainda m aior, em bora abreviasse a viagem até o Altar das Trevas no interior de Ebon Askavi. E, a m enos que fosse carregada por alguém , aquela era a única form a de chegar ao Portão que a levaria à Fortaleza em Terreille.
Assim que Ladvarian e Kaelas saíram para contar a Draca sobre o parceiro da Senhora, Saetan virou-se para Lucivar:
— Venha com igo até a sala de tratam entos. Vou cuidar desse braço.
Lucivar deu de om bros.
— Já não está m ais sangrando.
— Rapaz, conheço os procedim entos ey rienos tão bem quanto você. As feridas são lim pas e tratadas. *E quero falar com você num local seguro, longe de orelhas peludas.*
— Acha que ela conseguirá? — perguntou Lucivar, alguns m inutos depois, enquanto Saetan lim pava a ferida superficial.
— Ela tem a força, os conhecim entos e a vontade. Vai trazê-lo de volta do Reino Distorcido.
Não era o que Lucivar queria dizer, e am bos sabiam .
— Por que não a deteve? Por que perm ite que se arrisque?
Saetan inclinou a cabeça, evitando olhar diretam ente para Lucivar.
— Porque ela o am a. Porque ele é, de verdade, o seu parceiro.
Lucivar perm aneceu calado por um m inuto. Depois suspirou.
— Daem on sem pre disse que nasceu para ser o am ante da Feiticeira. Parece que ele tinha razão.
2 / Terreille
Surreal observava Daem on andar pelo centro do im enso labirinto, perguntando-se quanto tem po conseguiria m antê-lo ali.
Ele não confiava nela. E ela não podia confiar nele.
Encontrara-o a cerca de um quilôm etro e m eio das ruínas do Paço dos SaDiablo, choram ingando em silêncio e observando um a casa ser consum ida pelas cham as. Não lhe perguntou sobre a casa nem sobre os vinte guardas hay llianos que haviam acabado de ser esquartej ados, nem m esm o sobre o m otivo que o levara a m urm urar o nom e de Tersa algum as vezes.
Tom ara-o pela m ão, pegara os Ventos e trouxera-o para cá. Não sabia se os donos desta propriedade tinham abandonado-a por vontade própria, sido forçados a sair ou sido assassinados quando Dhem lan Terreille por fim cedera ao dom ínio de Hay ll. Agora, os guardas hay llianos usavam a casa senhorial com o casernas para os soldados, que inform avam ao povo de Dhem lan as punições por desobediência.
Daem on observara sem reagir enquanto Surreal aplicava feitiços ilusórios para preencher as falhas nas cercas vivas que levavam ao centro do labirinto. Nada dissera quando ela criou um escudo Cinza duplo em volta do local onde estavam escondidos.
A subm issão de Daem on desaparecera quando Surreal invocou a pequena teia que Jaenelle dera, deixando cair quatro gotas de sangue no centro para despertá-la, transform ando-a num sinal e num farol.
Depois disso, Daem on com eçara a peram bular, com um sorriso frio, fam iliar e brutal, enquanto Surreal aguardava. E aguardava. E aguardava.
— Então, não vai cham ar seus am igos, assassinazinha? — perguntou Daem on deslizando pelo local onde Surreal estava sentada, com as pernas dobradas e as costas encostadas à cerca viva. — Não quer ganhar sua recom pensa?
— Não há recom pensa, Daem on. Estam os esperando um a am iga.
— Mas é claro — respondeu com exagerada delicadeza, enquanto concluía outro circuito em volta do centro do labirinto. A essa altura, deteve-se e olhou para Surreal, com os olhos dourados repletos de um fogo gélido e vítreo. — Ela gostava de você. Me pediu para aj udá-la. Lem bra?
— Quem , Daem on? — perguntou Surreal, com a voz serena.
— Tersa. — A voz em bargou. — Puseram fogo na casa onde ela vivia com o filho. Ela teve um filho, sabia?
Fogo do Inferno, Mãe Noite e que as Trevas fossem m isericordiosas.
— Não, não sabia.
Daem on assentiu.
— Mas a vadia da Dorothea tirou o filho dela, que se afastou para m uito, m uito longe. Depois, a vagabunda colocou um Anel de Obediência no garoto e o treinou para se tornar um escravo do prazer. Levou-o para a cam a e... — Daem on estrem eceu. — Você é sangue do seu sangue.
Surreal levantou-se de repente.
— Daem on. Eu não sou com o Dorothea. Não a reconheço com o m inha fam ília.
Daem on cerrou os dentes.
— Mentirosa — rosnou. Deu um passo na direção de Surreal, o polegar direito roçando a unha irregular do dedo anelar. — Mentirosa afetada educada na corte. — Outro passo. — Vagabunda carniceira.
Quando Daem on ergueu a m ão direita, Surreal vislum brou um a pequena gota reluzente caindo da unha em form a de agulha, que ficava sob a unha norm al.
Mergulhou para o lado esquerdo, invocando o punhal ao cair.
Daem on j á estava em cim a dela antes que chegasse ao chão.
Suereal gritou quando ele partiu o pulso direito. Voltou a gritar quando ele segurou seus dois pulsos com a m ão esquerda, esm agando os ossos.
— Daemon — disse, sem fôlego e em pânico, enquanto a m ão direita dele apertava seu pescoço.
— Daem on.
Surreal engoliu um soluço de alívio ao reconhecer a voz de m eia-noite.
Os olhos de Daem on encheram -se de esperança e pavor quando levantou a cabeça, lentam ente.
— Por favor — m urm urou. — Não era m inha intenção... Por favor. — Inclinou a cabeça para trás, soltou um grito de cortar o coração e sucum biu.
Fazendo uso da Arte, Surreal o fez rolar de cim a dela e se sentou, segurando o pulso partido. Zonza e nauseada, fechou os olhos ao sentir a aproxim ação de Jaenelle.
— Se tivesse chegado alguns segundos antes, não teria sido um a entrada tão em ocionante. Mas eu teria ficado m ais satisfeita.
— Deixe-m e ver o pulso.
Surreal levantou os olhos e arquej ou.
— Fogo do Inferno, o que aconteceu com você?
Das outras vezes em que a “som bra” de Jaenelle se j untara a Surreal na busca por Daem on, era im possível perceber que não se tratava de um a m ulher de carne e osso, a m enos que se tentasse tocá-la. Ninguém confundiria esta criatura transparente e debilitada com algo que cam inhasse nos Reinos dos vivos. Ainda assim , os olhos azul-safira perm aneciam repletos do fogo antigo, e as Joias Negras continuavam a resplandecer com a força ali encerrada.
Jaenelle balançou a cabeça e envolveu o pulso de Surreal com as m ãos. Depois de um lam pej o de frio entorpecedor, seguiu-se um ardor que aum entava cada vez m ais. Surreal sentiu os ossos se deslocando, encaixando-se nos devidos lugares.
As m ãos transparentes de Jaenelle pulsavam , extinguindo-se e voltando a surgir. Por um m om ento, ela tam bém desapareceu por com pleto, deixando as Joias Negras suspensas, com o se aguardando seu retorno.
Ao reaparecer, seus olhos estavam repletos de dor e ela ofegava com o se não conseguisse respirar direito.
— Sucum bindo — Jaenelle arfou. — Agora não. Ainda não. — Seu corpo transparente agitou-se com violência. — Surreal, não consigo concluir a cura. Os ossos estão encaixados, m as... — Um a faixa de couro pairava no ar. Jaenelle colocou-a no pulso de Surreal, apertando-a com força. — Isso vai aj udar até sarar.
Com o indicador esquerdo, Surreal seguiu as linhas da cabeça de veado num círculo de videiras em flor — o m esm o veado que era o sím bolo dos parentes de Titian, os Dea al Mon.
Antes que pudesse perguntar a Jaenelle o significado daquela faixa, algo pesado tom bou no chão, próxim o do local onde estavam . Ouviram um hom em praguej ando baixinho.
— Mãe Noite, os guardas nos ouviram . — Apoiando-se no braço esquerdo, Surreal se levantou. — Vam os levá-lo daqui e...
— Não posso sair daqui, Surreal — disse Jaenelle, num tom sereno. — Preciso fazer o que vim fazer... enquanto ainda sou capaz.
As Joias Negras cintilaram , e Surreal sentiu um a escuridão fluida e arrepiante circulando o labirinto.
Jaenelle forçou um sorriso.
— Não encontrarão o cam inho pelo labirinto. Não neste labirinto, pelo m enos — disse, olhando com tristeza para o corpo franzino e m achucado de Daem on e afastando os cabelos pretos longos, suj os e em baraçados da testa. — Ah, Daem on. Eu j á tinha m e acostum ado a pensar que m eu corpo era um a arm a que podia ser usada contra m im . Esqueci-m e de que tam bém é um a Oferenda. Se não for tarde dem ais, farei m elhor. Prom eto.
Jaenelle colocou as m ãos transparentes em cada um dos lados da cabeça de Daem on. Fechou os olhos. A Joia Negra reluziu.
Atenta aos guardas hay llianos que destruíam o labirinto em algum lugar, Surreal deixou-se cair no chão, preparando-se para esperar.
*Daemon.*
A ilha afundava lentam ente no m ar de sangue. Ele se enroscou no centro do terreno m ole, enquanto os tubarões de palavras circundavam a ilha, aguardando.
* * Daemon.
Ela não lem brava que todos esperavam o fim deste torm ento? Não lem brava que todos esperavam que a dívida fosse paga? Agora, ela cham ava por ele, exigindo a rendição absoluta.
*Mexa esse rabo, Sadi!*
Daem on rolou sobre o próprio o corpo e, de cócoras, olhou para a m ulher de j uba loura e olhos azul-safira na praia alagada de sangue que um m inuto antes não existia. No centro da testa dela, havia um pequeno chifre em espiral. O vestido com prido parecia feito de teias de aranha negras, deixando entrever os cascos delicados.
Ficou zonzo com o prazer de vê-la. O estado de espírito dela incitou sua cautela. Sentou-se sobre os calcanhares com cuidado.
*Você está aborrecida comigo.*
*Deixe-me explicar de outra forma*, respondeu Jaenelle com doçura. *Se você afundar e eu tiver que puxá-lo para fora, vou ficar puta.*
Daem on balançou a cabeça devagar enquanto produzia um som de reprovação.
*Que linguagem.*
Com pronúncia perfeita, Jaenelle disse um a frase no Idiom a Antigo.
Ele ficou boquiaberto. Engasgou-se quando riu.
*Isso, Príncipe Sadi, é linguagem.*
Você é meu instrumento.
As palavras mentem. O sangue, não.
Carniceiro filho da puta.
Ele oscilou, equilibrou-se e pôs-se de pé, com cuidado.
*Veio cobrar a dívida, Senhora?*
Não com preendia a m ágoa nos olhos dela.
*Estou aqui por causa de uma dívida*, respondeu ela, com a voz repleta de sofrim ento. Ergueu as m ãos devagar.
Entre a praia e a ilha que afundava, o m ar estava agitado e as ondas batiam sem parar. As ondas se ergueram e ficaram im óveis, form ando paredes da altura de sua cintura. O m ar se solidificou entre os dois, virando um a ponte de sangue.
*Venha, Daemon.*
Ele passou as m ãos de leve nas cristas das ondas verm elhas e petrificadas.
Cam inhou até a ponte.
Os tubarões de palavras pairavam ao redor, arrancando pedaços da ilha, tentando rom per a ponte sob seus pés.
Você é meu instrumento.
Jaenelle invocou um arco, pôs um a flecha e m irou. A flecha assobiou pelo ar. O tubarão de palavras agitou-se furiosam ente, enquanto desaparecia e afundava.
As palavras mentem. O sangue, não.
Outra flecha assobiou o cântico da m orte.
Carniceiro filho da...
A ilha e o últim o tubarão de palavras afundaram ao m esm o tem po.
Jaenelle fez o arco desaparecer, virou as costas para o m ar e cam inhou para a paisagem distorcida, coberta de cristais estilhaçados.
Sua voz chegou a Daem on, fraca.
*Venha, Daemon.*
Ele apressou o passo e correu até a praia, vociferando de frustração ao procurar um indicativo da direção que Jaenelle tom ara.
Detectou o odor psíquico antes de reparar na trilha cintilante. Era com o um a faixa de céu noturno salpicada de estrelas que o guiava pela paisagem distorcida até a rocha onde ela estava em poleirada, m uito acim a.
Jaenelle olhou para baixo, rindo com um desespero divertido.
*Macho teimoso e rabugento.*
*A teimosia é uma qualidade muito difamada*, respondeu, ofegante, enquanto escalava em direção a Jaenelle.
O riso de prata e veludo invadiu a paisagem .
Por fim , olhou-a com atenção.
*Estou em dívida com a Senhora.*
Jaenelle negou com a cabeça.
*Quem deve sou eu, e não você.*
*Decepcionei-a*, retrucou, amargo, olhando para o corpo debilitado de Jaenelle.
*Não, Daemon*, respondeu com delicadeza. *Fui eu que o decepcionei. Você m e pediu para reconstruir o cálice de cristal e voltar ao m undo dos vivos. E foi o que fiz. Mas acho que nunca perdoei o m eu corpo por ter sido o instrum ento usado na tentativa de m e destruir, e tornei-m e seu m ais cruel torturador. Lam ento por isso, pois você estim ava essa parte de m im .*
*Não, eu estimava tudo em você. Eu a amo, Feiticeira. Sempre amarei. Você é tudo que sonhei que seria.*
Jaenelle sorriu.
*E eu...* Estremeceu, levou a mão ao peito. *Venha. O tempo urge.*
Correu através dos rochedos, desaparecendo da vista de Daem on antes que ele conseguisse se m exer.
Ele apressou-se em segui-la, avançando pela trilha cintilante, arquej ando ao sentir um peso esm agador descendo sobre si.
*Daemon.* A voz chegou fraca e carregada de dor. *Para que o corpo sobreviva, não posso ficar m ais tem po.*
Ele lutou contra o peso.
*Jaenelle!*
*Você tem de vir devagar, por etapas. Descanse aqui agora. Descanse, Daem on. Marcarei o cam inho. Siga-o, por favor. Estarei à sua espera na saída.*
*JAENELLE!*
Um sussurro sem palavras. Seu nom e pronunciado com o um a carícia. E, depois, o silêncio.
O tem po não tinha qualquer significado enquanto perm anecia ali, com o corpo enroscado, esforçando-se para se agarrar à trilha cintilante que seguia para cim a, enquanto tudo o que estava abaixo dele o puxava, tentando arrastá-lo de novo para o fundo.
Agarrou-se com força à lem brança da voz de Jaenelle, à prom essa de que ela estaria à sua espera na saída.
Mais tarde — m uito m ais tarde — os puxões dim inuíram , o peso esm agador abrandou.
A trilha cintilante, a faixa salpicada de estrelas, continuava seguindo para cim a.
Daem on com eçou a escalar.
Surreal observava o céu que clareava e ouvia os guardas gritando e vociferando enquanto o labirinto chiava com as explosões de poder contra poder. Durante a longa noite, os guardas atacaram sem trégua, abrindo cam inho em direção ao centro do labirinto enquanto o escudo de Jaenelle se partia, pedaço por pedaço. A j ulgar pelos gritos, quebrar o pouco do escudo que conseguiram custara m uito caro aos guardas.
Havia algum a satisfação nisso, m as Surreal sabia igualm ente o que os guardas sobreviventes fariam a quem quer que encontrassem no labirinto.
— Surreal? O que está acontecendo?
Por um m om ento, Surreal não conseguiu dizer palavra. Os olhos de Jaenelle tinham um aspecto inanim ado e sem brilho, pois o fogo interior se transform ara em cinzas. As Joias Negras pareciam ter sido esgotadas de grande parte da reserva de poder que continham .
Surreal aj oelhou-se ao lado de Daem on. Exceto pelo m ovim ento do peito ao respirar, ele não se m overa desde que caíra, inconsciente.
— Os guardas estão penetrando no escudo — disse, tentando parecer calm a. — Acho que não nos resta m uito tem po.
Jaenelle assentiu.
— Então, você e Daem on precisam ir em bora. O Vento Verde passa j unto ao lim ite do j ardim . Consegue chegar lá?
Surreal hesitou.
— Com todo o poder que foi libertado nesta área, não tenho certeza.
— Mostre-m e o seu anel com a Cinza.
Surreal estendeu a m ão direita.
Jaenelle roçou sua Joia Negra no anel com a Cinza de Surreal.
Surreal sentiu um fio psíquico sair dos anéis quando estabeleceram contato, sentiu a Teia Verde atraindo-a.
— Aí está — Jaenelle arquej ou. — Assim que partirem , o fio vai puxá-los para a Teia Verde. Leve a teia farol com você. Destrua-a assim que puder.
Daem on se m exeu, gem endo baixinho.
— E você? — perguntou Surreal.
Jaenelle balançou a cabeça.
— Não im porta. Não voltarei. Vou segurar os guardas por tem po suficiente para que vocês possam avançar.
Jaenelle abriu a cam isa esfarrapada de Daem on. Segurando na m ão direita de Surreal, espetou o dedo m édio e pressionou-o contra o peito de Daem on, ao m esm o tem po que m urm urava palavras num idiom a que Surreal não conhecia.
— Este feitiço de união irá m antê-lo j unto a você até sair do Reino Distorcido. — Jaenelle desvaneceu e voltou a aparecer. — Um a últim a coisa.
Surreal pegou a m oeda de ouro que pairava no ar. Em um dos lados via-se um S elaborado. Do outro lado estavam gravadas as palavras “Dhem lan Kaeleer”.
— É um sinal de travessia segura — disse Jaenelle, esforçando-se para que as palavras pudessem ser ouvidas. — Se algum a vez for a Kaeleer, apresente a m oeda a quem encontrar e diga que estão à sua espera no Paço em Dhem lan. Isso lhe garantirá um a escolta segura.
Surreal fez a m oeda desaparecer, bem com o a pequena teia farol.
Daem on rolou para o lado e abriu os olhos.
Jaenelle recuou, flutuando, até desvanecer na cerca viva.
*Depressa, Surreal. Que as Trevas a protejam.*
Praguej ando baixinho, Surreal puxou Daem on e o fez ficar de pé. Ele a olhou fixam ente, com um a desorientação ingênua. Surreal passou o braço esquerdo de Daem on sobre os om bros e estrem eceu ao envolver sua cintura com o braço direito.
Respirando fundo, deixou que o fio psíquico os puxasse pelas Trevas até pegar o Vento Verde e seguir rum o ao norte.
O refúgio estava preparado e à espera deles.
Antes da noite em que, em briagada, quebrara a afetuosa am izade entre os dois, Daem on lhe contara sobre duas pessoas: Lord Marcus, o adm inistrador que cuidava dos seus investim entos bastante discretos, e Manny.
Pouco depois de Jaenelle contactá-la, visitara Lord Marcus para falar sobre a necessidade de encontrar um refúgio e descobrira que j á existia um — um a pequena ilha cuj o proprietário era um “Senhor da Guerra enferm o e solitário” que vivia com alguns criados.
Daem on era o proprietário da ilha. Todos que habitavam tinham sido física ou em ocionalm ente m utilados por Dorothea SaDiablo. Era um local onde podiam reconstruir algo próxim o de um a vida.
Não se atrevera a visitar a ilha durante a busca por Daem on pois tem ia que Kartane SaDiablo a seguisse. Agora ela e Daem on poderiam desaparecer, e o fictício Senhor da Guerra inválido, bem com o sua m ais nova acom panhante, se tornariam reais.
Antes disso, porém , havia um a breve parada a fazer, um a coisa a ser perguntada. Desej ava ardentem ente que Manny dissesse que “sim ”.
*Surreal...*
Surreal tentou fortalecer o fio fem inino.
*Jaenelle?*
*Surreal... v... Fortale... o...*
Surreal esforçou-se para controlar as em oções quando o fio fem inino se partiu. Faria todo o possível para que Daem on se fortalecesse.
Devia-lhe isso. Porque o que restava de Jaenelle se im portava.
Sem se perm itir pensar no que estaria acontecendo no centro daquele labirinto, Surreal prosseguiu viagem .
3 / Kaeleer
Os latidos desesperados de Ladvarian e os gritos de Lucivar despertaram Saetan de seu estado m editativo e atorm entado. Im pulsionando-se da cadeira na sala de estar de Jaenelle, na Fortaleza, correu para a porta que dava para o quarto e segurou-se ao vão, paralisado diante da visão do corpo destroçado que Lucivar segurava nos braços.
— Mãe Noite — m urm urou entre dentes, segurando Kaelas pelo cangote e puxando o j ovem felino que bufava para fora da cam a. Aj eitando a roupa de cam a, lançou um feitiço de aquecim ento nos lençóis. — Deite-a.
Lucivar hesitou.
— Deita-a — insistiu, com rispidez, desalentado pelas lágrim as nos olhos de Lucivar.
Assim que Lucivar pousou Jaenelle na cam a, Saetan aj oelhou-se ao lado dela. Pondo um a das m ãos levem ente sobre o peito da garota, usou um a delicada gavinha psíquica para detectar e classificar as lesões.
Os pulm ões estavam entrando em colapso, assim com o as artérias e veias, e o coração batia irregular e debilitado. Os dem ais órgãos internos pareciam prestes a falhar. Os ossos estavam frágeis com o cascas de ovo.
*Jaenelle*, chamou Saetan. Doces Trevas, será que a ligação entre o corpo e o espírito tinha sido rom pido? * * Criança-feiticeira!
*Saetan?* A voz de Jaenelle soou fraca e distante. *Deixei-o num estado lastim ável, não foi?*
Saetan esforçou-se para m anter a calm a. Ela era exím ia na Arte e dispunha dos conhecim entos para realizar a cura. Se conseguisse m antê-la conectada ao corpo, havia um a chance de salvá-la.
*Digamos que sim.*
*Ladvarian trouxe a teia curativa da Fortaleza em Terreille?*
— Ladvarian! — No m esm o instante, lam entou ter gritado, pois o scelta encolheu-se de m edo e gem eu, perturbado dem ais para se lem brar de com o se com unicar com ele. Mantenha a calma, SaDiablo. A fúria é destruidora em qualquer sala de tratamento, mas aqui poderá revelar-se fatal. — A Senhora está perguntando pela teia curativa — disse, calm o. — Você a trouxe?
Kaelas colocou as patas da frente de cada lado do corpo do pequeno cão e lam beu o am igo, com o form a de encoraj am ento.
Depois de m ais um incentivo de Kaelas, Ladvarian disse:
*Teia?* Levantou-se, ainda resguardado pelo corpo do gato. *Teia. Eu trouxe a teia.*
Entre Ladvarian e a cam a surgiu um a pequena estrutura de m adeira.
Aos olhos de Saetan, a teia curativa da estrutura parecia sim ples dem ais para aj udar um corpo com ferim entos com o aqueles. Foi então que reparou no único fio de seda de aranha que ia da teia até o anel com Joia Negra preso à base da estrutura.
*Três gotas de sangue no anel despertarão a teia curativa*, disse Jaenelle.
Saetan olhou para Lucivar, que estava j unto à cam a com o se aguardasse o golpe fatal. Hesitou e praguej ou em silêncio, pois ainda sentia a picada de acusações antigas, em bora não estivesse pedindo para si.
— Ela precisa de três gotas de sangue no anel. Não m e atrevo a usar o m eu. Não sei ao certo o que o sangue de um Guardião poderia provocar.
Os olhos de Lucivar faiscaram de raiva, e Saetan percebeu que o filho com preendera a razão da hesitação.
— Maldito sej a nas entranhas do Inferno — praguej ou Lucivar, enquanto desem bainhava um a pequena faca da bota. — Você não tirou o m eu sangue quando eu era criança, por isso pare de se desculpar por um a coisa que não fez. — Espetou um dedo e deixou que três gotas de sangue caíssem no anel com a Joia Negra.
Saetan prendeu a respiração até a teia com eçar a brilhar.
Lucivar em bainhou a faca.
— Vou buscar Luthvian.
Saetan assentiu com a cabeça. Mas Lucivar não esperara pelo seu consentim ento e j á passara pela porta de vidro que dava para o j ardim privado de Jaenelle, levantando voo em direção ao céu.
O corpo de Jaenelle se contorceu. Pelo fio psíquico, Saetan sentiu a Arte na teia inundando-a, estabilizando-a. Olhou de relance para a teia e tentou afastar os sentim entos de desespero. Um terço do fio j á estava obscurecido, consum ido.
*Não esperava que fosse assim tão grave*, disse Jaenelle, como se pedindo desculpas.
*Luthvian não deve demorar.*
*Ainda bem. Com a ajuda dela, poderei transferir o poder que meu corpo não consegue reter para a teia, de form a a auxiliar na cura.*
Sentiu que ela se extinguia.
*Jaenelle!*
*Encontrei-o, Saetan. Marquei uma trilha para que a seguisse. E... disse a Surreal para levá-lo à Fortaleza, m as não tenho certeza se m e ouviu.*
*Não pense nisso agora, criança-feiticeira. Concentre-se no tratamento.*
Ela se deixou levar por um sono leve.
Quando Luthvian chegou à Fortaleza, dois terços da teia curativa sim ples de Jaenelle j á tinham sido usados, e Saetan se perguntou se haveria tem po para criar outra antes que o últim o fio escurecesse.
Não conseguia ficar ali vendo aquela cena. Assim que Luthvian se recom pôs o suficiente para com eçar, retirou-se para a sala de estar, levando Ladvarian e Kaelas. Não perguntou onde estava Lucivar. Sentia-se sim plesm ente agradecido por não desgastarem ainda m ais os tem peram entos um com o outro, pelo m enos por um tem po.
Andou de um lado para outro até a perna com eçar a doer. Acolheu o desconforto físico com o um a am ante encantadora. Era m elhor se concentrar nisso do que no desgosto que poderia estar à sua espera.
Porque não sabia se aguentaria outra vigília à beira da cam a.
Porque não sabia se a operação teria sido bem -sucedida o suficiente para que todo o sofrim ento valesse a pena.
4 / O Reino Distorcido
Ele ia aprendendo conform e escalava.
Ela deixara pequenos recantos j unto à trilha cintilante para ele descansar: violetas aninhadas j unto a um pedregulho, água doce e lím pida escorrendo por um a pedra até um a poça tranquila que acalm ava o espírito, um canteiro de gram a verde e densa grande o bastante para ele se esticar, um coelhinho m arrom e rechonchudo que o observava enquanto se em panturrava de trevos, um a fogueira anim ada que derreteu a prim eira cam ada de gelo que envolvia seu coração.
A princípio, tentara ignorar os recantos de repouso. Percebeu que conseguia ignorar um , talvez dois, enquanto se debatia com o peso que tornava cada passo m ais lento. Se tentasse ignorar o terceiro, a trilha ficava bloqueada. O instinto o advertia que se saísse da trilha cintilante para contornar o obstáculo, talvez não fosse capaz de encontrar o cam inho de volta. Por isso, ele retrocedia e descansava até sentir um alívio no peso, e então prosseguia com m ais facilidade.
Não tardou a perceber que o peso tinha um nom e: corpo. Isto o confundiu por algum tem po. Já não tinha um corpo? Cam inhava, respirava, ouvia, via. Sentia-se cansado. Sentia dor. Este outro corpo provocava um a sensação diferente, era pesado e m aciço. Não sabia ao certo se gostava de absorver sua essência — ou que a essência o absorvesse.
Contudo, o corpo fazia parte da m esm a teia delicada que as violetas, a água, o céu e a fogueira — lem branças de um local além da paisagem estilhaçada — por isso, conform ou-se com a ideia de se fam iliarizar com esses elem entos.
Passado algum tem po, cada local de repouso continha, tam bém , um presente intangível: um a peça de um quebra-cabeças de Arte, um pequeno aspecto de um feitiço. Aos poucos, as peças com eçaram a form ar um todo, e ele aprendeu as bases da Arte da Viúva Negra, aprendeu a construir teias sim ples, aprendeu a ser o que havia sido.
Por isso, descansava e apreciava os pequenos presentes e quebra-cabeças que ela tinha deixado para ele.
E escalava até o local onde ela prom etera que estaria à sua espera.